
Momentos são mais inesquecíveis quando são inesperados.
Aquela noite Veneza estava propícia para os enamorados, a lua brilhava alta no céu, as estrelas a rodeavam lindamente, como um belo e infinito colar de pérolas, as nuvens não atrapalharam, fizeram questão de não aparecer e como se não bastasse a iluminação divina havia também o ar mais do que acolhedor formado pelos postes, os barcos e as simpáticas casas da cidade.
Em um dos casarões mais antigos, na esquina da avenida mais movimentada, um baile de máscaras estava sendo realizado.
Os móveis antigos, finos e elegantes e a decoração toda em majenta, marfim e carmim dava ao local um aspecto um tanto quanto mágico, um tanto quanto nostálgico, contrastando com a música alta e moderna, com as pick-ups e outras aparelhagens de som e as bexigas multicoloridas presas ao teto.
O tal baile era um evento famoso na cidade, algumas pessoas esperavam ansiosamente por ele, empresas aproveitavam para introduzirem confraternizações e festas requintadas, assim como datas especiais eram festejadas com certa rotina durante a festa.
Esta noite, todos os exemplos eram válidos, a velha casa estava mais atulhada do que o normal e todos os presentes vestiram-se com a mais alta grife, todos de gala e devidamente mascarados.
Dentre os ditos presentes, dentre os garçons vestidos de branco, que circulavam pelo salão equilibrando bandejas de prata, com taças de bebidas caras por entre as pessoas, dentre as mulheres e seus vestidos e os homens com seus smokings havia uma jovem mulher, pequena em suas medias e em suas formas, trajando um vestido cor de vinho simples e uma delicada máscara de veludo tentando passar despercebida junto à decoração.
E ela estava conseguindo até que um homem, oposto a ela em quase tudo, prostrado do outro lado da pista de dança, notasse o quanto ela parecia destoar do resto da multidão, aquele era um lugar onde as pessoas queriam chamar atenção para si mesmas seja com a dança, seja com a roupa e lá estava ela, recostada à parede, próxima à uma cristaleira, um braço cruzado apoiando o outro braço que segurava uma taça de champagne praticamente cheia, mesmo com a máscara dela o homem de quase dois metros, de ombros largos e porte médio conseguiu notar a expressão ligeiramente tensa que tomava seu rosto, como se ela estivesse rezando para se fundir a parede e sumir dali, os belos cabelos castanhos foram muito bem presos em um coque sério e comportado, que deveria dizer muito sobre sua personalidade, assim ele refletiu.
Ela parecia um lindo e elegante cisne destacando-se no meio dos pavões.
Quando ela o viu se aproximar, com as mãos nos bolsos da calça social, fitando-a penetrantemente, sentiu as mãos suarem dentro das longas luvas brancas, os olhos azuis do homem alto, ruivo e forte faziam ela se sentir sufocada, era como se ele pudesse olhar dentro de sua alma. Fingiu não ter notado a distância entre eles diminuindo e focou o olhar em um ponto além das cabeças que se moviam em função da música eletrônica.
Até aquele momento ela estava torcendo para que estivesse enganada e ele estivesse vindo, na verdade, em direção a longa mesa de aperitivos que estava ali por perto.Mas, quando ele estava a menos de dez passos dela foi impossível ignorá-lo.
Ela engoliu seco e fez de tudo para não gaguejar ao dizer:
- Pois não?
- Bela festa, não é? - A voz do ruivo era profunda, rouca e tranqüila.
- Sim, realmente linda.
- Discordo. Se comparada a você, a festa é somente bela.
- C-como disse?
- Dance comigo.
Ela abriu a boca pintada de carmim e fechou em seguida, momentaneamente sem palavras.
- Perdão?
- Você é a pessoa mais interessante que encontrei até hoje e eu quero dançar com você - Ele repetiu, dirigindo-lhe um sorriso torto que fez seu coração disparar - Por favor? - Acrescentou erguendo as sobrancelhas ruivíssimas.
- Sou...Interessante? - Ela repetiu, incrédula.
- O bastante pra me fazer atravessar o salão e vir até aqui, implorar por sua atenção - Ele avançou três passos - Dance comigo, sim?
- Não sei dançar.
O olhar que ele dirigiu a ela, fitando-a dos pés a cabeça fez seu corpo tremer sob o tecido fino do vestido.
- Certamente que sabe.
- Não sou de fazê-lo com freqüência.
- Mudaremos isso hoje.
- Já disse que não - Ela respondeu com firmeza, embora suas bochechas estivessem coradas - Porque ainda insiste?
O homem sorriu, havia diversão em seu olhar.
- Porque no fundo você já aceitou meu pedido - Ele respondeu com um quase imperceptível dar de ombros - E você está imaginando nesse exato momento nossos movimentos no meio do salão.
De fato, era como se aquele par de orbes azuis pudessem ler seus pensamentos.
- Como ousa ser tão petulante, senhor? - Ela depositou sua bebida praticamente intocada a um garçom que passou por eles e cruzou os dois braços - Eu mau o conheço!
- Ouça - O homem moveu-se de modo a ficar diante dela, a poucos centímetros, ela sentiu o corpo arrepiar, mas não se esquivou - Se continuar aqui vai acordar amanhã exatamente como acordou hoje, a única diferença é que estará ligeiramente mais cansada, a única coisa que a noite lhe valerá é dor nos pés.
- Ah é? - Ela estreitou os olhos, só então ele percebeu como seus olhos cor de mel eram astutos, inteligentes, intensos - E quão diferente será se eu aceitar dançar com você?
Ele lhe estendeu a mão grande e ligeiramente sarapintada.
- Só há um modo de descobrir.
Ela não conseguia acreditar em si mesma, nem na decisão que escolheu tomar.
Porque ela escolheu aceitar, escolheu deixar que o estranho de sorriso encantador tomasse sua mão na dele e a guiasse até o salão, a máscara dele, preta como todo o resto de sua roupa, fazia a cor de seus olhos se destacarem e sempre que ela os fitava, sentia perder o prumo por uma quantidade indeterminada de tempo.
Como alguém que nunca vira na vida podia lhe convencer, lhe abalar tão rapidamente? Logo ela, uma arquiteta tão renomada?
Em contrapartida, ele estava satisfeito com seu êxito. Sentiu-se atraído por ela no momento em que a vira, tão diferente das outras pessoas, tão única e agora tudo o que mais queria era aproveitar a música com ela. Não prestava atenção o suficiente pra ouvir a letra, mas a melodia era dançante, envolvente e instigante.
Ele a admirou, seus movimentos começaram tímidos, curtos, porém de uma leveza comovente, ele tentava segurar o sorriso que teimava em despontar em seus lábios e forçava os braços a continuarem longe do corpo dela, pelo menos por enquanto.
- Feche os olhos - Ele sussurrou ao pé do ouvido dela e teve que conter o riso ao vê-la tremer ao som de sua voz.
- Por quê? - Ela murmurou defensivamente.
- Porque é mais fácil de dançar de olhos fechados. Dance pra mim, dance livremente pra mim.
Depois de lhe jogar um olhar reflexivo ela obedeceu, pareceu ter concluído que ele não faria nada de inapropriado, embora ele realmente quisesse muito. E, aos poucos, como ele dissera, ela conseguiu se soltar, a música a envolveu por completo.
Então ele achou que era hora de dançar também, com calma e pé ante pé ele colocou-se atrás dela e seguiu os movimentos de seu quadril, fechou os olhos e respirou fundo, o corpo dela roçava o seu em um ritmo que fazia sua cabeça girar, ele queria tocar-lhe o corpo, mas teve medo de sua reação, apenas quando sentiu que ela intensificara a dança, aproximando-se dele, colando seu corpo ao dele é que então sentiu-se seguro para apoiar as mãos na cintura fina e curvilínea dela.
Decididamente aquele homem estava enlouquecendo-a, ou talvez aquele simples gole de champagne estivesse mais forte do que ela imaginava, não sabia muito bem o motivo, mas sua cabeça estava a mil, pensamentos cada vez menos cobertos de pudores lhe invadiam e todos estavam relacionados com o ruivo às suas costas, ela estava ansiosa para ouvir a voz dele em seu pé do ouvido novamente, seu corpo estava febril, sentia-se trêmula, desejou ficar mais perto dele e de olhos fechados sentiu que ele fizera o que ela queria, novamente, como se pudesse ver o que ela está pensando. Corou ao imaginar o que ele diria se soubesse mesmo o que ela estava pensando.
Quando ele segurou sua cintura com as mãos, seu coração subiu até a altura da garganta, ela podia sentir o corpo másculo e viril por baixo da roupa de gala, e a firmeza de seu toque fez ela se sentir mole, fez ela desejar desesperadamente por mais. Por alguns segundos não se importou se estaria sendo observada pelos colegas de profissão ou se estava sendo demasiadamente depravada, tudo o que lhe importava era a respiração forte que vinha dele, sentiu que ele apoiara o rosto na lateral de sua cabeça, abraçando-a, inspirando seu cabelo, reprimiu um sorriso. Seria possível que ele estivesse realmente atraído por ela?
Arriscou erguer o braço e segurar-lhe a nuca enquanto movia o corpo sinuosamente, deixando a música lhes impor o ritmo, ele arfou rapidamente e ela sentiu uma rigidez se impor em sua costa, sentiu o rosto queimar, mas não teve pulso para afastar-se dele. Apertou-lhe os cabelos da nuca e sentiu o couro cabeludo sob suas unhas feitas, mesmo usando as luvas.
- E você dizendo que não sabia dançar... - Ele comentou, sussurrando em seu ouvido outra vez, abraçando-a com mais força, trazendo-a para mais perto.
- E de fato não sei.
- Se isso não é dançar, eu não sei o que é.
Ela sentiu-se poderosa com os elogios, sentiu-se orgulhosa por conseguir agradar alguém estonteante como ele e resolveu ousar um pouco. Completamente fora de si, foi descendo o corpo aos poucos, sem parar de dançar e depois voltou insinuando-se, roçando seu corpo ao dele, o ouviu segurar a respiração seu coração disparar, assim como o seu estava a galopar como um cavalo selvagem.
- Está me levando à loucura aqui, sabia?
Ele a segurou pela cintura outra vez e a fez girar nos calcanhares, ficando de frente para ela, puxando-a contra ele, foi a vez dela arfar involuntariamente ao sentir seus corpos se encaixarem, sem deixar de dançar, de se mover, de provocar um ao outro.
Ela cruzou as mãos atrás do pescoço dele, teve coragem de abrir os olhos e encontrou os dele lhe encarando, os azuis nublados por desejo explícito. Seu rosto queimou ainda mais.
- Bom saber que estou lhe causando o mesmo efeito.
- Certamente está me deixando sem ar.
Ele passeou as mãos por suas costas, baixou o olhar, que estava em seu rosto, pelo corpo coberto com o vestido tomara-que-caia cor de vinho, parou por um minuto no volume dos seios que o corte do vestido deixava em mais evidência e, por fim, voltou ao rosto cada vez mais corado.
- Você é perfeita.
- Você é... Perturbadoramente bonito.
Um riso frouxo escapou de seu peito, ele segurou o rosto dela com uma mão enquanto a outra deslizava pela lateral de seu corpo, sentiu a pele dela se arrepiar e a tensão em seu próprio corpo se intensificar, estava em chamas por ela e estavam apenas dançando.
- Se eu não beijar você agora mesmo vou acabar perdendo a cabeça.
Ela não lhe respondeu, apenas umedeceu os lábios carnudos e os mordeu em seguida. Ele engoliu seco.
- Eu posso?
- Não sei quanto tempo mais conseguirei fingir que não estou esperando por isso - Ela confessou com a voz baixa.
Então ele o fez, não sem antes esboçar o sorriso torto que a fez derreter por inteiro.
Ele deslizou a mão por sua perna, apertou-a e a puxou para seu corpo, impondo seu desejo contra o dela, fazendo-a gemer baixo dentro de sua boca e apertar a camisa social que ele estava usando. Nunca provara um beijo tão enlouquecedor como este, aliás, nunca conhecera alguém tão enlouquecedoramente bela.
Ele fez com que caminhassem de volta à parede onde ela estivera a noite toda e a encostou com certa intensidade, segurando em sua cintura com firmeza, tomando a boca dela com vagar, entrelaçando as línguas, mordiscando e sugando o lábio.
Sentiu seu peito sendo empurrado pelas mãos pequeninas dela, abriu os olhos e ela estava tentando afastá-lo. De certo conseguira, a assustara com sua pressa.
- Por Deus, não sei nem ao menos o seu nome! Como posso desejá-lo tanto se não sei nem ao menos seu nome! - Ela confessou com perturbação na voz.
Ele riu fraco e voltou a segurá-la pelo rosto, dessa vez com as duas mãos.
- Como é o seu nome, olhos de mel?
- Her... Jane! – ela voltou atrás com pressa – Jane Granger.
- Lindo. Lindo e único. Assim como você - Ele depositou um selinho em seus lábios avermelhados pelo batom e pelo beijo intenso - O meu é Rony e estou completamente enfeitiçado por você.
Ela engoliu em seco sem conseguir desviar o olhar do azul penetrante dos olhos de Rony.
- Vem comigo - ele disse sem quebrar o olhar que exercia um poder tão grande naquela estranha. E deslizou a mão pela extensão do seu braço, causando um arrepio visível.
- Pra onde? – ela respondeu alarmada. Tentada e ao mesmo tempo amedrontada.
Ele sorriu de lado, um riso sedutor e misterioso, que apenas acentuou o brilho naqueles olhos vorazes.
- Para o paraíso. – respondeu.
- N-não acho uma boa idéia. – ela respondeu com a voz vacilante.
Ele inclinou um pouco a cabeça, ainda ostentando um sorriso perigoso.
- E o que é uma boa idéia? Continuar aqui, nesta festa sem graça, rodeada por parasitas que lhe sorriem enquanto desejam a sua cabeça pelas suas costas? Não precisa ter medo de mim.
Ela estreitou os olhos, sentindo uma pontada de raiva surgir devido a arrogância daquele homem.
- Não estou com medo.
- Então por que não vem comigo?
- Eu nem lhe conheço.
- Ah sim, você me conhece.
Ele parecia zombar e aquilo a encheu com mais raiva.
- Sei apenas seu nome.
- E assim não é melhor? Sem laços ou compromissos? Assim, envolvem-se apenas as sensações, as emoções e não complicamos tudo com sentimentos vãos.
Ela sentiu uma pontada no peito ao pensar em seu lar. Nos sentimentos que resolvera deixar em casa, para se sentir ao menos uma vez, livre. De certa forma ele tinha razão. Sentimentos só complicavam as coisas.
- Isto é imoral.
- Oh não, não é. Somos adultos. Estamos vivos. Não há nada de imoral em desejar. Foi pra isso que fomos feitos.
Hermione se sentia meio zonza pela proximidade impactante do ruivo a sua frente. Não conseguia pensar com clareza e o tom de voz dele só a deixava ainda mais alterada.
- Não se deixe guiar por esta falsa moralidade humana. Não estaríamos quebrando nenhuma lei. Nenhuma regra. Não estaríamos machucando ninguém.
Ela não conseguia responder, por que um conflito louco se desenrolava em sua cabeça. A razão que lhe negava com toda força, lhe dizendo que era um absurdo, e o desejo pulsando alucinado, pedindo mais...
Para decidir a questão, Rony se aproximou mais dela, colocando a mão em seu rosto, levantando-o um pouco, forçando-a a encará-lo.
- Eu sei que você também me quer. Vai negar?
Novamente as palavras não vieram. Seria mais sensato negar. Mas não conseguia.
- Seu silencio é um consentimento?
Ele desceu o rosto e roçou os lábios nos dela.
- Sei que está perdida – a voz era só um sussurro – Em algum lugar, aqui dentro – ele tocou sua têmpora. – Perdida nos problemas e fardos da vida, eu posso ver em seus olhos. E sei que está sufocada aqui. – Ele tocou seu coração. – Deixe-me aliviá-la, e faça o mesmo por mim. Deixe-me levá-la para longe desta realidade infernal que vivemos, só uma vez.
Ela fechou os olhos quase sem forças.
“Só uma vez”
A voz dele ecoou e se multiplicou em sua cabeça.
Só uma vez sentir-se viva de novo, Só uma vez deixar-se guiar pelos instintos, Só uma vez se permitir decidir por si mesma. Só uma vez....
Ela abriu os olhos e seu coração acelerou. Seu pulso respondeu e a respiração pesou.
- Salve-me.
Era uma completa loucura e ela tinha consciência disso. Deu a mão a um estranho e deixou que ele lhe guiasse para um caminho desconhecido.
Ela cegou para o mundo ao redor, enquanto ele lhe puxava, passando por entre as pessoas que enchiam aquela comemoração. Rostos que ela devia reconhecer, mas que no momento não passavam de faces desfocadas e desconhecidas.
Tudo parecia ter perdido o sentido e a importância e a única coisa que ela conseguia sentir era a ânsia a cada passo dado à frente, e os tremores que as imagens que se desenhavam em sua cabeça causavam.
Quando ouviu o barulho de uma porta se fechando as suas costas, Hermione recuperou um pouco da noção de realidade, e constatou estar num quarto. No quarto do iate em que subira há poucos minutos.
Apesar de estar totalmente desperta, não tinha nenhuma ciência do caminho tomado até ali. Lembrava-se vagamente do carro. Não do caminho, por que os lábios quentes de Rony, as mãos possessivas e o calor perturbador não a deixaram ter noção de mais nada.
Quando a porta da limusine se fechou a dimensão pareceu mudar. Era outro plano, outro mundo. Era como se não houvesse mais ninguém do lado de fora e seu mundo se resumisse ao ruivo ao seu lado.
E o beijo foi arrasador. Não foi um beijo qualquer, foi diferente. Aliás, o primeiro também fora diferente, fora um beijo enigmático com gosto de querer mais. Foi um beijo calmo, um beijo de reconhecimento.
O segundo foi ainda melhor.

Foi um beijo de possessão e domínio.
Rony segurou-lhe a cabeça, demorando-se por alguns segundos olhando-a nos olhos, chocando o azul dominante contra o chocolate intenso. Parecendo ler sua alma através de suas íris.
Sorriu ao vê-la tremer por antecipação, enquanto entreabria os lábios numa permissão muda e só então a beijou.
Uniu o lábios aos dela diretamente, pressionando primeiro, emanando ondas de calor que percorreram todo o corpo dela. Hermione se sentiu dominada, subjugada, e totalmente despreparada para o desejo que sentiu.
Então ele sugou seu lábio com pouca força, prendeu o lábio inferior entre os dentes sem forçar e sem machucar e o chupou como se fosse uma fruta madura e tenra, enquanto o provava com a língua que deslizava em seu contorno.
Ela viu seus movimentos se seguirem automaticamente. A boca abriu mais, pronta pra receber tudo o que o estranho queria lhe dar. As mãos subiram percorrendo seu peito por sobre a lapela do smoking para se encontrarem atrás de sua nuca e ela o puxou pra si, aprofundando o beijo, necessitando de mais contato.
Então as línguas se chocaram em cadencias diferentes, pois enquanto ela o saqueava com desespero, um desespero que se refletia na resposta de seu corpo, que tremia e formigava. Ele a provava como se estivesse se alimentando dela. Calma e possessivamente.
Foi apenas um beijo. Um beijo que durou um tempo que ela não soube precisar. Nenhum outro toque. Sem caricias, sem procura.
Ele não tentou dominá-la. Possuí-la. Não ali. Mesmo que esta estivesse totalmente entregue.
Fora apenas o prenuncio da noite que viria.
Ela só notou que o carro havia parado por que ele a soltou. Rony foi muito rápido, ao largar seu rosto, e sair do carro rodeando o automóvel. Por um momento ela se sentiu desnorteada com o abandono, em seguida envergonhada por perder a noção tão rapidamente.
Ele abriu a porta e estendeu a mão para ela, a mão que ela estendeu tremula e fria, com a bela desculpa do inverno em Veneza, reforçada pela ventania que cortava o Porto Di Venezia naquela noite.
Ela se arrepiou pela combinação do frio e do contato. E ele a abraçou, passando os braços por seu ombro, oferecendo seu próprio calor em proteção, e ao mesmo tempo guiando-a para o enorme barco parado à sua frente.
- Bem vinda ao Paraíso - Rony sorriu pra ela com as sobrancelhas arqueadas e os braços abertos, mostrando o quarto ao redor.
Hermione riu. A cabine do iate era bonita, de fato, com seu forro de madeira escura, seus detalhes em prata, seu requinte e classe, até mesmo a bagunça que estava lá, as roupas jogadas pelo chão e outros objetos espalhados com pouco cuidado davam um certo charme ao lugar, mas mesmo assim ela não achava que merecia ser atribuído nada de divino a ele.
- Você é mesmo muito pretensioso, não é mesmo?
- Não sou não - Ele deixou um riso frouxo escapar de seus lábios e tomou a mão dela com as suas - Esse é o nome do barco. Paraíso.

Ela corou levemente, Rony soltou uma baixa gargalhada.
- Desculpe.
- Não se preocupe com isso - Ele ergueu a mão dela até sua boca e roçou os lábios lentamente em seus dedos, fitando-a sem parar - Não se preocupe com mais nada.
Fora uma ordem, tão leve quanto um pedido.
A voz dele reverberou por todo seu corpo, como se ele lhe servisse de condutor.
Era só o que ela desejava, esquecer tudo, esquecer o mundo, esquecer dela mesma. Por que se lembrasse teria que enfrentar a consciência. Se lembrasse de si mesma, teria que se lembrar do que deixou para trás quando pegou o avião para Veneza, a fim de participar das festividades de Réveillon da empresa. Teria que se lembrar do que deixou para trás e para o que estava voltando e então se sentiria podre.
Olhava aquele estranho e tentava organizar os pensamentos, mas não conseguia. Embora sua razão insistisse em enviar algumas fagulhas ao seu cérebro avisando que ela ainda existia, as reações do corpo eram tão fortes que simplesmente eliminavam qualquer tentativa de reação àquela situação. Estava completamente dominada pelo corpo.
Sentia-se devassa, despudorada e perdida. Comparou-se à Sharon Stone em Basic Instincts. Aquela personagem a quem ela tanto criticou o comportamento. Aquela contra quem discursou no debate escolar. O mesmo debate onde ela garantiu que aquele tipo de devassidão jamais a atingiria, pois dominava o próprio corpo.
Ela não queria pensar, por que se pensasse teria que lhe dar com o peso de suas próprias palavras e suas próprias certezas arruinadas. Não queria pensar, pois se pensasse teria que sentir o gosto amargo de se sentir pequena e suja. E se deixasse a consciência assumir teria que admitir que a situação pioraria.
Pois o homem a sua frente era um completo estranho, então ela jamais poderia usar a velha desculpa da paixão avassaladora ou do amor louco para justificar aquilo. Não haviam sentimentos envolvidos, apenas sensações. Vontades. Vontades que a subjugaram.
Hermione Jane Granger. A filha casta de um casal de protestantes rigorosíssimos. Criada sobre a doutrina repressiva de culto as "virtudes" femininas. Adolescente modelo, com convicções inquebráveis. Um verdadeiro desafio para os rapazes de sua idade, a única que não cedia a sedução. Casara-se virgem como mandavam os ensinamentos da igreja e fora fiel ao marido. Seguira a risca cada um dos preceitos de sua religião.
E pra onde eles a levaram mesmo?
Para aquele inferno...O mesmo inferno que devia ter sido seu céu.
Hermione fechou os olhos, querendo espantar as recordações da cabeça. Não queria mesmo pensar. Ali era apenas Hermione. Ou melhor...”Jane”. Sem passado, sem futuro, sem história.
Seu corpo clamava o toque das mãos que agora enchiam um cálice de vinho, gritavam pela consumação das promessas que emanavam daqueles olhos azuis e ela cederia.
Se não podia encontrar a tal felicidade da qual sua mãe gabava-se tanto, teria para si pelo menos a lembrança de algo seu.
- Está nervosa? - ele disse erguendo o delicado cálice para o encontro de sua pequena mão trêmula e sorriu - Não precisa responder. Você está nervosa sim.
Ela segurou a taça e levantou o queixo pronta para negar, mas ele a calou pousando o dedo polegar sob seus lábios e acariciando-os com vagar.
- Está tudo bem, é a primeira vez pra mim também. Foi inevitável para mim também.
Ela leu nas entrelinhas que Rony queria dizer que era a primeira vez que estava com uma estranha, mesmo por que, com a maneira como a olhava e a fazia sentir e com a maneira como a beijou no carro, ela nunca acreditaria que ele estaria falando de virgindade.
Hermione tomou um gole do vinho, a única bebida alcoólica que degustava com prazer, mas ele pareceu arranhar sua garganta. seu coração estava frenético, tão frenético quando a pulsação, tão forte que ela podia sentir resquícios das batidas nas pontas dos dedos.
- Como eu disse antes - Ele tomou-lhe a taça das mãos, pousando-a na primeira superfície solida que encontrara - Esqueça o resto. Esqueça a si mesma.
Segurando sua mão, Rony a fez andar até a elevação, onde reinava única, uma cama enorme. Coberta com lençóis de seda brancos. Parecia uma concepção das idéias que rondariam a cabeça de sua mãe. Um ritual, onde o pervertido iludia a pobre virgem indefesa e a violava como uma oferenda.
Ela sorriu dos próprios pensamentos. Não era uma virgem indefesa afinal.
Ele acariciou seu rosto e baixou-se para encontrar seus lábios. E mais uma vez apagou seus pensamentos prendendo-a num emaranhado confuso de sentimentos.
Ela apenas se abandonou aquelas sensações únicas e segurou sua cabeça a fim de aprofundar o beijo.
E ele lhe deu o que ela queria. Um jogo de lábios e língua enlouquecedor. Mas era quase uma repetição do que fizeram no carro. Sem toques, sem avanços. Apenas um beijo.
Ela se moveu, aproximando-se mais, colocando-se na ponta dos pés para diminuir a diferença de altura e de distancia entre os corpos. Ele abraçou sua cintura e correu a boca por seu pescoço, alcançando seu ouvido e falou baixo, como se lesse seus pensamentos:

- Sim... Eu vou violar você. Vou saquear seu corpo e seus pensamentos. Vou tomar tudo o que estiver disponível, eu só preciso que me diga que quer. - Ela sentiu o corpo tremer, como normalmente fazia quando estava com frio. Mas não estava com frio, estava quente. Quente como se estivesse prostrada no núcleo de um incêndio. - me diga o que quer, me dê... Sua permissão.
Ela fechou os olhos, sentindo como era bom, o passeio daquela voz através de seu cérebro, e como o controle que ela exercia em seus sentidos a fazia sentir-se, contraditoriamente livre.
Ela sorriu com a sensação de ser dona de si mesma, e dona de uma situação, afinal, ele esperava sua permissão, e sim, ela daria, por que não havia mais nada, naquele momento, que ela quisesse mais.
- Toque-me.
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N/A:Olá a todos, sejam muito bem vindos. Ontem tentei postar, mas o site estava fora do ar, peço desculpas pela inconveniência. Postarei um Cap por semana, provavelmente nas segundas feiras.
Agradeço a quem comentar e me deixar saber o que estão achando.
Gostaria de agradecer a primeira leitora que comentou Paola, espero que vc goste ;)
Num topico acima, vcs tem links para participar da fic, Tumblr onde eu posto prévias dos caps, Formspring onde vc pode me perguntar o que quiser e meu twitter.
Em breve postarei o site da fanfic, e tem tmb a comunidade do orkut, onde vc pode comentar, dar sugestões, enviar fanarts e etc.
Obrigado a todos.