Eu bem que queria ser que nem as outras... Sabe, andar rodeada de amigas, fofocando por aí, fazer as unhas, me maquiar, usar roupas justas para chamar a atenção dos caras, falar sobre eles, ou seja, ser uma garota! Mas eu não sou assim. Ao invés disso, eu só tenho amigos homens, gosto de falar sobre Quadribol, pouco me importo com o que uso, meu cabelo vive preso de qualquer jeito e prefiro mil vezes ler um livro que desperdiçar meu tempo com esmaltes. Ok, para o mundo feminino eu sou uma negação.
Porém, eu nunca havia ligado para isso até agora. O que mudou? Muito simples... Eu estou apaixonada. Own, que gracinha! O cupido enfim me acertou... Há, gracinha uma ova! Maldito seja esse cupido. Afinal, que droga de ideia é essa de me fazer gostar do meu melhor amigo? Certo, eu acho que estou indo muito rápido. Vou recomeçar.
Eu sou Rose Weasley, filha de Ronald e Hermione Weasley. Tenho dezesseis anos – quase dezessete – estou no sexto ano e sou da Grifinória. Sou capitã do time de Quadribol e nos últimos anos ganhamos quase todas às vezes a taça da escola, perdendo apenas algumas para a Corvinal. Albus Potter é meu primo, também um dos meus melhores amigos e está na Sonserina. Calma... Não é por ele que eu estou totalmente caidinha, não. Enfim, ambos somos melhores amigos de Scorpius Malfoy, que é o corvinal mais estúpido da face da Terra! Por quê? Porque o 'fofo' me conquistou com aqueles olhos cor de gelo e seu sorriso colgate. E isso é definitivamente um problema.
Amigas não deviam se apaixonar por amigos. Deveria haver algum tipo de regra que proibisse esse tipo de atração, é sério! O pior de tudo foi que descobri isso logo agora no fim das férias.
Flashback
Estávamos na casa dos Potter. O Albus tinha ido tomar banho e deixou a mim e Scorpius sozinhos no quarto. Estávamos falando sobre qualquer bobagem quando, do nada, ele pegou minha mão e começou a analisá-la. Eu estranhei não o gesto dele, mas minha reação. Minha barriga ficou esquisita, parecia que havia algo dentro dela inquieto e um arrepio percorreu minha espinha.
- Quando é que se machucou? – Scorpius perguntou e eu vi um corte feio que tinha nas costas da minha mão.
- Hã, bem, er... – eu não conseguia falar uma só palavra. Meu queixo tremia freneticamente. – Ho-hoje. No jogo. – me esforcei ao máximo para responder.
- Podia ter avisado que eu teria pegado leve com os balaços!
Fiquei instantaneamente comovida com a preocupação dele comigo. Porque de repente eu me importava tanto se ele ligava? Fazia semanas que eu notava essas sensações estranhas me atormentando, mas não haviam ficado tão intensas quanto naquele momento quando ele me tocou tão delicadamente.
- Quando o Al sair, eu te arranjo um curativo. – foi aí que ele sorriu.
Droga! O sorriso dele foi a gota d'água. Eu fiquei inerte, nem piscava. Completamente abobada, senti um largo sorriso se formar nos meus lábios, mas não conseguia reprimi-lo e bem que tentei. Era como se tudo que importava naquele momento fosse a curvatura da boca daquele loiro.
Fim do Flashback
Naquela quinta-feira à noite eu tive certeza de que estava morrendo de amores por ele. E não, isso não é exagero, pois nunca me senti assim na vida! Tá bom, pode ser sim exagero, afinal eu nunca gostei pra valer de nenhum garoto antes. Achar alguns caras bonitos e me sentir atraída por eles já, mas de fato gostar não. Estou dizendo, eu não sou uma garota normal! E logo na primeira vez que sinto meu coração palpitar mais forte por alguém tinha que ser por ele... É a vida. A minha porcaria de vida.
Agora estávamos no Expresso de Hogwarts, já muito bem acomodados numa cabine. Eu de frente para Scorpius e Albus, meu primo apoiado na janela, simultaneamente dormindo e babando. Do meu lado estava Phoebus McLaggen. Nós não somos exatamente amigos, mas ele se sentou aqui porque não tinha mais cabines vagas. Está na Grifinória como eu e acabou de sarar de uma sarapintose, após ficar as férias inteiras de cama pelo que ele disse. Tadinho.
- Sem chance. Chudley Cannons, com certeza. – eu disse, não aceitando nenhuma outra opinião sobre o possível resultado do campeonato europeu de Quadribol que havia começado há algumas semanas.
- Que nada, esses daí sempre ficam em último no campeonato. Morcegos de Ballycastle é o que há! – Phoebus revidava.
- Sete títulos não são nada comparado ao que as gatas do Harpias de Holyhead podem fazer... – Scorpius falou, com ar de sabedoria.
Eu fiquei irritada imediatamente.
- Elas nem são bonitas. – respondi com azedume. – Jogam bem, mas não sabem trabalhar bem na defesa.
- Ah, não? Posso dizer com todo orgulho que tenho um pôster da Agnes Brand no meu dormitório e nunca me canso de olhar pra ele. Aquela goleira é demais! Em qualquer aspecto, Rosinha. – senti a ironia quando o corvinal falou meu nome no diminutivo e meu sangue subia a cabeça.
- Você é um idiota. – cruzei os braços e afundei no meu assento.
- Só estou falando uma verdade, até o Phoebus aqui vai ter que concordar.
Phoebus acenou com a cabeça positivamente, com um sorriso que não continha muita inocência.
- Vocês homens são ridículos...
- Nem todos são. – uma voz veio da entrada da cabine. Ergui meu olhar para ver quem falava e me deparei com Elliot Davies.
- Do que está falando, Davies? Você é o pior de todos. – não hesitei em rir com escárnio.
Ele suspirou.
- Um dia vou te provar que sou o único homem que vale a pena em Hogwarts e você largará desses dois trasgos. – Elliot olhava com desgosto para Scorpius e Albus, que continuava a dormir tranquilamente. – Você não devia andar com eles, não fica bem para uma flor tão delicada e doce como você.
Esse cara é demente. Acho que vou bater nele e... De repente tá todo mundo rindo por quê? Acho que eu e o Davies não pegamos a piada.
Albus acordou sobressaltado com o escândalo que eram as risadas de Phoebus e Scorpius unidas.
- Hã? O quê? – ajeitou os cabelos, olhando para os lados em busca de uma resposta.
- A Rose? Flor delicada e doce? – Scorpius não se continha de tanto rir. Phoebus já havia caído no chão, rolando para fora do banco.
Albus olhou para mim e para Elliot e entendeu, gargalhando descontroladamente.
- Qual é a graça? – perguntei, cerrando os punhos.
- Como ousam desprezar a feminilidade da minha amada? – Davies exclamou teatralmente.
Minhas têmporas pulsavam de raiva. Estava fazendo tanto esforço para me controlar que acho que trinquei um dente. Os risos não paravam e minha paciência se esgotava a cada segundo. Idiotas... Idiotas... Fiquem calados...
- Flor só no nome. Onde você viu delicadeza, Davies? – Phoebus disse.
- Ou doçura? – Scorpius complementou.
- A Rose é a garota mais durona da escola! – Albus se meteu. – E a menos feminina, convenhamos...
Tudo que eu precisava naquele momento era chorar. Sério, uma lágrimazinha e eu provaria a minha sensibilidade e fragilidade. Mas não dava... Eu era mesmo durona e não arrancariam uma gota sequer com seus risos maldosos.
- CALEM A BOCA! – meu berro poderia ser ouvido em todos os vagões do trem, eu estava certa.
Todos ficaram imediatamente mudos de olhos arregalados para mim. Me levantei, metralhando todos com o olhar.
- Seus – dei um tapa na nuca de Phoebus. – grandes – foi a vez de Albus levar. – imbecis! – por fim chutei a canela de Scorpius. Fiquei frente a frente com Elliot. – Saia do meu campo de visão agora!
Ele se arremessou para o lado e eu marchei para fora do compartimento, com as narinas dilatadas.
Aquilo foi demais. Pediram pra apanhar, por Merlin!
Já tendo andado uma distância razoável, encostei-me na parede e joguei a cabeça para trás.
- Eu posso não ser a pessoa mais graciosa do mundo, mas eu devo ter alguma coisa que me diferencie dos garotos!
- Deixa disso, Rose! Você sabe que sim! – ouvi a inconfundível voz de Fred e sorri.
Ele também era meu primo, filho do tio George com a tia Angelina, um ano na minha frente. Possuía a pele morena e os cabelos castanhos médios e cacheados. Fred é a alma dos lugares que vai e adora uma boa piada. Outra coisa que admiro nele é que sempre ajuda alguém que está mal.
- E não estou falando só fisicamente...
- Rose! – Roxanne veio correndo para me abraçar. Ela é a irmã mais nova de Fred e possui o mesmo tom de pele e cabelos que ele. Vive com duas trancinhas e com um colar de pingente de leão. Own, ela tão fofinha... Está só no segundo ano. Ela observou meu rosto com atenção e sua expressão de felicidade infantil sumiu. – Está triste?
- Não. – falei, rapidamente. – Só meio zangada.
- Por quê?
- Ela acha que não parece uma garota.
Roxanne, como minha fã número um, pôs-se a me defender.
- Você é muito bonita, a mais linda das minhas primas! É super feminina! E... É muito gentil comigo, garotos não são assim. Garotos são brutos e grosseiros, e você é completamente o oposto.
Ao ouvir as palavras "brutos" e "grosseiros", me recordei do que tinha acabado de fazer uns minutos antes. Definitivamente esses dois adjetivos expressavam bem minha atitude.
- Não, Roxanne. – afaguei sua cabeça vinte centímetros abaixo do meu pescoço. – Eu sou isso sim. Mas tudo bem, pelo menos... Er, pelo menos... Ok, não tem vantagem nisso. Com licença, preciso ir ao banheiro. – segui até o fim do vagão derrotada, deixando os dois para trás.
Entrei no banheiro e me encarei no espelho. A luz da janela iluminava meu rosto e eu podia ver cada sarda refletida. Meu cabelo estava preso num rabo de cavalo alto e estava um tanto judiado. Minha face estava completamente livre de maquiagem em geral e mesmo assim não estava tão mal. Tinha traços bonitos, mas os quais não valorizava nem um pouco. A minha camiseta era folgada e tinha estampada nela um canhão laranja e preto, simbolizando o Chudley Cannons. A minha calça... Bom, na verdade não era minha, era do meu irmão Hugo, pois na pressa para vir pra estação não achei a minha e peguei emprestada. Ok, isso é um tanto triste. Eu sou um desastre como menina. Se eu tivesse nascido homem seria perfeitamente aceitável, porém isso não dá sendo quem eu sou.
Qualquer um que me vir, vai me enxergar como uma garota desleixada e eu não posso culpar ninguém. Eu não posso culpá-lo.
Merda, é óbvio que Scorpius nunca se interessaria por alguém como eu. Sou só mais um dos amigos dele. Só mais um dos garotos.