Cap. 24 - E o Fim
5 de janeiro de 1978.
Lily ainda não sabia que Florence e Snape haviam rompido. E estranhou ao ver o amigo sozinho no parque.
- Oi, Severus.
- Oi, Lily.
- Onde está Florence? – estranhou Lily.
- Ela não te contou? - uma sobrancelha arqueada.
- Não. O que houve?
- Nós rompemos. Definitivamente. – disse ele, seco, sem olhar pra amiga.
- Mas, por quê?
- Porque eu sou um imbecil. - ele respondeu, amuado.
- Quando foi isso?
- Na véspera de natal, um dia depois de virmos para casa.
- Eu não sabia. Sabe onde ela está?
- Ela saiu daqui de casa e não mais nos falamos, minha mãe manda cartas pra ela dia sim, dia não, ela não deve estar longe.
- Vou escrever pra Florence, agora. Tchau, Severus.
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Florence estava vendo televisão quando a carta de Lily chegou.
"Florence!
O que aconteceu? Vocês romperam? Como assim?
Venha dormir aqui em casa hoje, e isso não é um convite, é uma intimação.
Lily Evans."
Ao que ela respondeu, depois de muito pensar.
"Certo.
Chego na sua casa às 20hs.
Florence."
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Elas conversavam no quarto de Lily.
- Lily. Eu pensei muito antes de vir pra cá e quero te contar tudo. – disse Florence, séria.
- Tudo o quê?
- Sobre mim.
- E o que há de tão horrível para saber? - brincou a ruiva.
- Meu pai... ele... – Florence respirou fundo. - Promete que não vai sair correndo?
- Claro.
- Promete que não vai deixar de ser minha amiga?
- Eu prometo, Florence.
- Aquele-que-não-deve-ser-nomeado... ele é meu pai.
- O quê?? – Lily gritou, chocada. - Tá de brincadeira?
- Não. Num geral a história é bem comprida... mas é isso.
- Quem mais sabe disso?
- Minha madrinha, Dumbledore e você.
- Eu nem sei o que te dizer, Florence. – murmurou Lily.
- Estou aliviada que você não saiu correndo apavorada.
- Eu jamais faria isso, conheço você, sei que é uma ótima pessoa, independente de quem seja seu pai.
- É por isso que não posso continuar com Severus. Ele se aliou a eles... – disse Florence, triste.
- Tá falando sério?
- Sim. Eu vi a noite de teste dele. E ele passou. Se meu pai descobre que eu amo Severus... ele vai matá-lo.
- Porque ele é mestiço.
- É. Mas, de qualquer forma, não posso ficar junto dele, porque também não concordo com o que eles fazem! Como posso pensar em criar meus filhos frequentando a casa de gente como os Lestrange?
- Impossível. - riu Lily em concordância - O que pretende fazer?
- Tentar seguir minha vida. Esquecer Severus...
- Acha que consegue?
- Não sei. - Florence abaixou a cabeça entre as mãos.
- Quer fazer um teste?
- Faça, Lily. - Florence balançou a cabeça, rindo. - Você e seus testes...
- No que você pensa quando fecha os olhos?
- Nele.
- Quando... toma banho?
- Nele.
- Quando escolhe sua roupa pela manhã?
- Quer mesmo continuar com isso? - Florence olhou para a ruiva.
- Sim, responda. – confirmou Lily.
- Nele.
- No que você pensa quando vai dormir?
- Nele.
- Última pergunta: resuma pra mim, sem muitos detalhes, por favor, o que é esse "pensar nele"?
- Seria o quanto eu sinto falta dos olhos tão enigmáticos dele, dos lábios deliciosos dele... sem falar na falta que as mãos dele me fazem... e na voz! Quem daria uma voz tão profunda e sexy a um homem se não tivesse a intenção de enlouquecer a população feminina? Isso sem falar na cama...
- Certo, eu já entendi. - cortou Lily, e respirou fundo. - Minha amiga, você está perdida.
- O que eu faço?
- Esquecê-lo está fora de cogitação. A não ser que você tente nos braços de outro.
- O quê? Quem? – estranhou Florence.
- Sirius. Meus pais vão sair hoje a noite e James e Sirius vem jantar aqui.
- Pára, Lily!
- Ele é louco por você. Vai adorar te ajudar a esquecer Severus!
- Não sei...
- Tente, Flor.
- Não prometo nada. – murmurou Florence.
&&&
À noite...
O jantar foi incrível.
Tanto Potter quanto Black deram a maior força para Florence, ficando do lado dela, mesmo quando ela contou de quem era filha. Não dá pra dizer que Sirius se impressionara.
- Eu já imaginava que seu pai não podia ser boa coisa... afinal, todos na minha família só falavam bem dele! – riu Black.
James se preocupou no início, mas compreendeu que ela fugira quando descobriu a verdade.
Sirius foi o que mais se alegrou com a notícia de que Florence estava querendo esquecer Snape.
&&&
Agora, James e Lily estavam no quarto, namorando, ou fazendo sabe-Merlin-o-quê. Florence foi para a sacada, sentou no banco que ali havia, ficou olhando o céu, tentando não pensar... tentando não sentir a saudade que oprimia seu peito, o frio que sentia pela ausência do corpo de Snape...
- Flor... - Sirius chegara e sentara ao seu lado.
- Oi...
- Não vou perguntar no que está pensando, eu posso imaginar. - ele suspirou, triste.
- Eu não posso evitar. - ela sorriu, tão triste quanto ele.
- Eu... poderia te ajudar.
- Eu não sei, Sirius... - ela respirou fundo. - Não quero brincar com seus sentimentos. Eu sei que você gosta de mim...
- Eu amo você. - ele a interrompeu.
- Mas... acho que não vai ser fácil esquecer Severus. Tem a história do Encantamento...
- Florence, eu... - ele pegou nas mãos dela e olhou em seus olhos. - Eu te prometo que vou fazer de tudo para que você nem lembre que aquele imbecil existiu algum dia em sua vida.
- Você entende que eu não amo você?
- Sim. Mas vai amar um dia, eu garanto! - ele piscou travesso, sorrindo.
- Ok. - ela suspirou, sorrindo pela insistência doce dele.
Black se pôs num joelho e, segurando sua mão, falou:
- A Srta. Florence Dellacourt aceita namorar comigo?
- Aceito, Sirius.
Ele se sentou novamente ao seu lado, aproximando seus rostos, uma mão acariciando sua face, os lábios rosados, os olhos tão tristes...
- Eu te prometo, Flor... vou fazer você muito feliz.
E ele tocou seus lábios nos dela, de leve no início, saboreando a textura daqueles lábios que há mais de um ano ele sonhava beijar. Florence mordiscou seus lábios e entreabriu a boca. Sirius tomou isso como um pedido para que aprofundasse o beijo e ele o fez, tocando a língua nos lábios dela, pedindo passagem, que ela permitiu imediatamente.
&&&
Quando James apareceu na sala, os cabelos mais desarrumados do que o normal, os lábios inchados, Florence deu um beijo de boa noite no namorado - ao que Potter gritou, surpreso e foi abraçar o amigo. - e foi para o quarto de Lily. A amiga estava saindo do banho, penteava os cabelos no banheiro.
- Então, Flor, conversou com Sirius? – perguntou Lily.
- Sim. - Florence começou a vestir seu pijama. - Estamos namorando.
- O quê? - Lily apareceu na porta do banheiro, a escova dependurada nos cabelos. - Pode começar a contar! - e tentou puxar a escova que se prendera.
- Lily, vem aqui que eu escovo seus cabelos. - e a ruiva foi, sentando de costas para a amiga na cama. - Eu estava na sacada, pensando em...
- Pule essa parte!
- Certo. Sirius chegou, me disse que queria me fazer feliz, se ajoelhou e me pediu.
- E você aceitou? - Lily olhou para Florence.
- Sim. - ela parara de escovar os cabelos da amiga. - Está pronto. Mas deixei bem claro que eu não o amo. E ele, ainda sim, disse que me ama e que me fará amá-lo.
- Que bom, Florence. - as duas se abraçaram. - Sirius é meio...
- Impulsivo? Hiperativo? Nem um pouco tímido?
- É. Totalmente diferente de Severus... mas ele te ama muito. – riu Lily. - Ele vai fazer você muito feliz.
- É... eu acredito que sim.
Mas, ao recostar a cabeça no travesseiro, não era isso que seu coração lhe dizia. Por que fora tão insensível àquele beijo tão apaixonado de Sirius? Por que não podia corresponder o carinho, o amor, que ele tinha por ela? Será que jamais conseguiria amar Sirius? Ele era, fisicamente, o que poderia se chamar de um belo espécime, chamava a atenção de todas as garotas de Hogwarts e, nos últimos tempos, se tornara menos crianção e extremamente gentil, galanteador...
Tantas perguntas, apenas uma resposta.
No momento em que seus lábios se encontraram, seu corpo traiu sua razão. Não era Sirius o dono do corpo que ela desejava que tomasse o seu, dos lábios que ela implorava que devorassem os seus, saciando sua sede. Não eram dele as mãos que a enlouqueciam. Não era dele a voz que acariciava e entorpecia seus sentidos. Não era Sirius quem fazia seu sangue ferver e seu coração bater mais rápido.
&&&
9 de janeiro 1978.
Os dois casais passeavam pelo parque completamente coberto de branco. Fazia muito frio, mas não nevava, um raro sol lutava para se fazer notar dentre as nuvens. Estavam parados olhando o laguinho completamente congelado, conversando.
- Florence!
Ela se virou para a voz conhecida e encontrou...
- Eileen? - e correu para abraçar a madrinha que carregava duas sacolas aparentemente pesadas.
- Você não apareceu mais lá em casa e eu não tive tempo de ir visitá-la. Como você está, minha querida?
- Muito bem, madrinha.
- Venha, agora, comigo, vamos lá em casa tomar um chá!
- Mas... - seu coração parara de bater, só em pensar que iria para a casa em que ele morava, que ele poderia estar lá...
- Não se preocupe, - Eileen respirou fundo, percebendo os pensamentos da afilhada, visivelmente triste. - Severus não estará em casa hoje, apesar de ser aniversário dele...
Sim, Florence sabia que era aniversário dele. Pensava nisso desde... desde sempre, todos os dias pensava nele, por mais que tentasse evitar.
- Vamos, Flor. - falou Sirius se postando ao seu lado. - E, Eileen, se nos permite, podemos carregar essas sacolas para a senhora?
- Mas, claro! - eles começaram a caminhar. - Você deve ser o menino Black, que os Potter acolheram, certo?
- Sim.
- Muito correto da sua parte sair de casa para não ser forçado a seguir um caminho que você não concordava. – comentou Eileen.
- Pois é. Meu irmão não teve a mesma sorte.
Florence olhou pro namorado, espantada.
- Do que você está falando? – perguntou ela
- Regulus já recebeu a Marca Negra.
- Por Merlin... - foi tudo o que Florence conseguiu dizer.
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Ao chegarem na casa de Eileen, os meninos depositaram as compras na mesa da cozinha e uma pequena elfa rapidamente começou a guardar o que Eileen comprara. Lily e James se despediram e foram embora.
- Tem uma elfa agora, madrinha?
- Sim, Severus me deu uma de natal.
Os três sentaram em volta da mesa.
- Mas, me fale de você, Flor! O que tem feito? – perguntou Eileen.
- Bem, eu estou um pouco em Hogsmead, um pouco na casa dos Evans. - ela tomou um gole de seu chá. - De férias, não tenho muito pra fazer...
- Flor, eu não vou atrapalhar a conversa de vocês. - Sirius levantou – Nos vemos amanhã, ok?
- Ok, eu te acompanho até a porta. - e ela se despediu do namorado com um beijo. Eileen a olhou, interrogativamente, quando ela voltou à cozinha. - Erm... eu e Sirius estamos namorando.
- Namorando? - perguntou Eileen, ficando séria. - Bem, tudo de bom para vocês. - falou ela, mas não soou convincente.
- Madrinha...
- Por que, Florence? Por que está com esse rapaz?
- O que você queria que eu fizesse? Não há um só maldito dia em que eu não pense em Severus! Eu preciso esquecê-lo...
- E está usando o Black. – interrompeu Eileen.
- Não! Sirius e eu conversamos muito antes de eu aceitar o pedido dele. Ele sabe que eu não o amo, mas ele me ama e quer me ajudar.
- Florence... tudo poderia ter sido tão diferente, não?
- Sim. - e lágrimas rolaram dos olhos verdes.
- Você tem todo direito de reconstruir a sua vida... - Eileen respirou fundo. - Mas, prometa, quando tiver seu primeiro filho, virá aqui para que eu a ajude a cuidar dele!
- Não creio que isso será possível, madrinha.
- Por que?
- No caso eu e Severus, além de sermos abençoados pelo Encantamento, eu sou veela.
- Sim, e o que isso quer dizer?
- Não posso ter filhos com outro homem que não seja...
- Severus? – chocou-se Eileen.
- É. Mas isso só acontece porque eu o conheci. Se eu jamais tivesse o conhecido e me casasse com outro homem eu poderia ter filhos, tranquilamente, mas...
- Por que isso acontece?
- Não sei ao certo, mas já li sobre isso. Parece que meu corpo vai rejeitar...
- Se você tentar aqueles métodos trouxas? – tentou Eileen.
- Meu corpo mataria o feto no momento em que ele fosse implantado em meu útero.
- Nossa, Flor...
- Pois é.
Elas ficaram em silêncio. Um silêncio muito incômodo, pois era óbvia a vontade de Florence de perguntar sobre Snape.
- Pergunte, Florence.
- Como ele está?
- Não muito bem, mas não sei ao certo. Ele não apareceu mais desde aquela noite antes do natal. Me mandou um dinheiro, uma quantia boa demais para se conseguir em apenas duas semanas... comprou dois terrenos vizinhos pra mim, aumentou o pátio. Agora eu tenho a horta que eu sempre quis, tenho um jardim lindo, projetado por um paisagista trouxa que Severus contratou. A obra acabou ontem.
- Que bom.
- Mas ele eu não sei como está. Sempre que pergunto, ele troca de assunto. Diz que eu não gostaria de ouvir a resposta.
- E, provavelmente, ele está certo.
- Mas me garantiu que voltará para Hogwarts, na semana que vem. - Eileen pausou, olhando para a afilhada. - O que acontece nessas reuniões, Florence?
- Em resumo: eles fazem planos, torturam algumas vítimas, matam outras, estupram... tudo o que você puder imaginar. - Eileen se horrorizou. - Mas acho que ele está trabalhando mais internamente. Uma vez ele me disse que os comensais pagariam muito bem por uma mente como a dele. Acredito que Severus seja responsável pelas poções.
- Pra quê eles precisariam de poções?
- Repositora de sangue, anti-inflamatória, reconstrutoras de pele, órgãos, ossos.
- Eu acho que entendi. - Eileen respirou fundo.
- Mas... me diz, qual o nome da sua elfa?
- Sam. E ela é ótima.
- Tiffany está com bebê. – contou Florence.
- Sério?
- Sim. Dela com o elfo dos Malfoy... Mellody é o nome do bebê.
- Eles crescem rápido, não?
- É, com três meses de vida já fazem de tudo. – e as suas saíram da mesa e foram para o pátio. - Realmente está lindo aqui! - falou Florence, maravilhada.
- Você pode dormir aqui hoje?
- Madrinha...
- Ele não virá. Já me confirmou. – disse Eileen, não conseguindo esconder a tristeza.
- Tem certeza?
- Do que você tem medo afinal?
Florence corou violentamente.
- Eu não tenho como lutar contra algo... elementar, madrinha. – murmurou Florence.
- Desculpe a indelicadeza, mas você e Sirius não...?
- Não. Sirius não... não é a mesma coisa.
- Hum. Então, você pode ficar? – insistiu Eileen.
- Posso, sim. Vou só buscar uma muda de roupa na casa de Lily e volto antes do jantar.