A desastrosa aula de poções
POV Jennifer
Mais uma manhã vazia surgia convidando-me a desfrutar daquele mundo que não me pertencia. Eu havia acabado de retornar da minha corrida matinal, a água quente do chuveiro caía sobre meus ombros, tentando inutilmente fazer com que minha tensão se dissipasse, o que eu sabia ser impossível.
Passei as mãos pelo rosto, tentando criar forças para enfrentar mais um dia, eu estava ali a tão pouco tempo mas já estava louca para voltar para o Brasil, rever meus amigos, voltar a minha verdadeira vida. Ri sem humor ao pensar na doce ilusão de que Dumbledore pudesse reconsiderar, pudesse enxergar que ali não era meu lugar... Mas quando foi que o diretor pensou nos outros? O jeito era tentar sobreviver...
Desliguei o chuveiro e me arrumei, coloquei uma meia sete-oitavos preta levemente listrada, o vestido do uniforme, minhas botas cano-alto pretas uma gargantilha com a inicial J, luvas acinzentadas, combinando com o vestido, a pulsei de meus amigos e minha capa, prendi meus cabelos em duas marias-chiquinhas baixas e frouxas, apenas dividindo meu cabelo em duas partes.
Passei uma maquiagem forte nos olhos e um batom fraco nos lábios, coloquei brincos de argola média; troquei meu material para uma mochila preta e a pendurei em um único ombro, dei uma rápida conferida no espelho e segui para o salão principal.
Como no dia anterior, muitos me olharam quando entrei, e quase que no mesmo instante voltei a ser alvo de comentários, respirei fundo e ignorei tudo com um sorriso mecânico no rosto, foi impossível conter a careta que se formou em meu rosto quando vi Dumbledore sentado à mesa, ao seu lado estava o Professor Snape, voltei a colocar o sorriso no rosto e me sentei em meu lugar.
Disposta a ignorar o diretor, peguei o novo romance trouxa que estava lendo e o abri, começando a degustar do café da manhã, para minha sorte, o diretor parecia entretido demais com o professor de poções para me atormentar. Tão logo o correio chegou, trazendo-me um grande embrulho quadrado. Sem nem mesmo precisar virar para conferir, senti os olhos do diretor queimando sobre mim, curioso sobre o embrulho a minha frente. Ignorei-o e peguei o cartão, já sabendo de quem era.
O bilhete não passava de uma curta nota a qual dizia:
“Nós finalmente conseguimos! Que você tenha algo para se lembrar de casa”
Era a letra elegante e inconfundível de Paulo; foi impossível não sorrir, eles eram loucos, o bilhete não dizia nada, esses eram meus amigos.
Soltei um riso fraco e desembrulhei o pacote, dentro havia uma pequena caixinha de músicas trouxa lilás; meu sorriso se alargou ao ver o pequeno objeto, por mais que não fossem grande música, ainda sim seria alguma. Com cuidado, abri-a, dentro havia um novo bilhete, desta vez, era a caligrafia graciosa de Maria, ou Mary como gostava de ser chamada.
“Você não achou que eu deixaria esses brutamontes lhe darem uma simples caixa de música, não é mesmo? Toque com a ponta da varinha e pense em uma música e ela a tocará, ou então apenas de corda e começará uma seleção de músicas escolhidas por nós três. Que a música não te deixe abater!
Dos teus amigos que te amam,
Mary, Paulo e Pedro”
Senti as lágrimas escorrendo por meu rosto, graças a Deus minha maquiagem era a prova d’água, esses três queria me matar de saudades, eu não poderia ter tido amigos melhores. A dor da solidão bateu forte em meu peito, convidando-me a desmoronar, a chorar pela falta das pessoas que realmente me amavam, da minha casa... Da minha vida.
Contudo eu não podia fraquejar, eu jurei a eles que passaria por essa... Dumbledore já causara danos demais em minha vida e eu já havia perdido a coisa mais preciosa em minha vida, não seria essa pequena “prisão” que me abalaria.
Acariciei com carinho a caixa, era minha mais nova preciosidade. – Você gosta de música, Jenny? – a voz infernal de Dumbledore quebrou meu pequeno momento nostálgico, com rapidez limpei as lágrimas e guardei a caixa de música em minha mochila. Pelo canto do olho pude ver todos os professores me observando.
Sem nem mesmo encará-lo e mantendo a voz mais composta possível respondi. – Sim, gosto. – pelo canto do olho vi o diretor sorrir, por mais que me incomodasse essas tolas tentativas de aproximação, agora eu não deixaria me abalar, contudo, não ficaria para vê-lo insistir.
Rapidamente juntei minhas coisas, engoli com pressa o suco a minha frente e me retirei, queria guardar a caixa em meu quarto antes de seguir para a aula e sendo ela poções, eu não arriscaria me atrasar.
POV Snape
Observei discretamente a pequena cena entre Dumbledore e sua filha, não precisei nem mesmo usar legismência para saber que o diretor estava satisfeito com a pequena nova informação em relação a filha, o que só me deixava mais irritado.
A garota era, no mínimo, ridícula ao destratá-lo por não ter tido sua constante presença durante seu desenvolvimento, ela não conseguia ver o qual custou a Dumbledore se afastar? E o quão desesperado estava o diretor para conseguir ao menos um pouco de atenção por parte da filha?
Cerrei meus punhos com uma força considerável, o mundo era mais injusto do que se pode imaginar, Jennifer Kimmel não merecia todo o carinho e a atenção que Dumbledore lhe devotava, a menina não passava de uma jovem mimada e infantil, incapaz de perceber o quão agraciada era, se tivesse nascido em qualquer outra família ela com toda certeza teria sido usada apenas como arma de guerra ou auto-defesa.
No exato segundo que o horário de minha primeira aula começou, adentrei batendo a porta com força, fazendo o pouco murmúrio que existia cessar no mesmo instante, todos os alunos, como sempre, estavam tensos, alguns tolos até mesmo temeroso, a classe estava completa, ninguém se aventurava a matar minha aula a menos que tivesse conseguido algo concreto para se justificar.
Encarei cada um dos meus alunos, intimidando-os como era de costume, numa matéria delicada como poções qualquer mínimo equivoco pode vir a provocar um acidente grave e era por isso que assustar cada aluno era necessário, pois isso garantia um cuidado muito maior por parte deles.
Jennifer Kimmel estava sentada sozinha no fundo da sala, não parecia se deixar intimidar, ri mentalmente ao decidir que eu mudaria esse conceito até o final da aula. Cruzei meus braços em frente ao peito e comecei a explicar a poção tema daquela aula, a Sabe-tudo da Granger e a filha do velho começaram a anotar. Fiz uma pergunta ou outra onde somente a Granger se arriscou a levantar a mão, gesto que ignorei totalmente, por fim, declarei que todos deveriam começar a preparar a poção.
Inicialmente permaneci sentado em frente a sala, observando a cada aluno, contudo, por mais que eu quisesse me fazer indiferente não pude deixar de me admirar com a facilidade da filha do velho em preparar a poção, era tão seguro e perfeito quanto a sabe-tudo da grifinória; contudo, me alertou o fato de ver seu livro fechado, ela só poderia estar de brincadeira comigo.
Rapidamente me dirigi próximo a ela antes que essa infeliz se matasse fazendo graça. – Posso perguntar o que diabos a senhorita está fazendo? – perguntei irritado e levemente raivoso fazendo-a parar no mesmo instante o corte de escama de dragão.
Ela estremeceu a princípio, pega de surpresa, alguns corajoso se viraram para olhar o que acontecia, dentre eles o intragável do Potter, ignorei-os momentaneamente. – Preparando a poção, professor. – respondeu ela com firmeza, me encarando novamente sem temor.
Apoiei minhas mãos na bancada aproximando-me dela, intimidando-a. – Com o livro fechado? – ela franziu as sobrancelhas, confusa e olhou para o livro, como se nem mesmo tivesse percebido-o fechado.
-Não preciso do livro, professor, conheço a poção. – declarou ela ainda valente.
-Claro que sabe. – desdenhei irritado, era só o que me faltava, uma fedelha esperando que eu acredite nisso. – Escute bem, garota, não me importa se você é filha do diretor, você não terá privilégios dentro desta sala. – minha voz era baixa e mortalmente ameaçadora.
Contudo, ainda sim ela não se deixou intimidar. – Estou contando com isso, professor.
Essa garota estava brincando com fogo, como ela ousava usar aquele tom comigo? Responder-me? – Detenção senhorita Kimmel, não ouse falar nesse tom comigo! – esbravejei sem conseguir me conter. – Se seu pai tolera sua falta de respeito não é problema meu, mas eu não tolerarei!
Nesse momento eu já podia sentir toda a turma assistindo a nossa discussão, contudo, eu não me importava, queria apenas colocar aquela garota em seu devido lugar. Ela fechou os por um breve momento e respeitou fundo. – O senhor não sabe do que esta falando. – declarou ela por fim, segura de si, enfrentando-me.
Bati com força na mesa, a raiva dominando-me, eu não conseguia me controlar, eu estava descontando na garota, não apenas suas faltas em minha aula, mas seu desacato com Dumbledore, e por mais que eu quisesse, eu não conseguiria me conter.
–Acredito que sei o que estou falando. – devolvi com fúria. – A senhorita não passa de uma garota mimada, infantil e imatura que não consegue compreender o sacrifício que seu pai teve que fazer. – as palavras foram jorrando de meus lábios antes que eu conseguisse pensar melhor. – Escute bem o que vou lhe dizer garota... CRESÇA! – Quase cuspi a palavra, tamanha a repulsa que sentia por ela.
Ela ficou em choque, começando a fraqueja, mas ainda disposta a revidar, não lhe dei essa chance. O veneno e a maldade quase escorriam de minha boca, eu estava sedento por ferir a garota que feria o velho, eu estava me deliciando em magoar a jovem e simplesmente não conseguia parar. – Supere a morte da vadia da sua mãe e... – Não consegui dizer mais nada, pois senti a mão firme da jovem a minha frente estapear-me com força, fazendo meu rosto virar.
Ouvi um arfar geral de toda a sala, contudo não consegui reagir de primeira, ainda desacreditado que ela tivera tal audácia. Lentamente, voltei a fitá-la, ela estava em lágrimas, era a primeira vez que a via chorar e seu dedo estava apontado para mim. – Nunca... Nunca, fale da minha mãe com essa boca imunda! – exigiu ela descontrolada, o choro misturado à fúria e a dor, algo muito profundo e intenso nunca visto antes por mim.
Rapidamente Potter apareceu e a segurou pelos ombros, puxando-a para longe de mim, ela pegou suas coisas rapidamente e antes de partir declarou. – Faça um favor a nós dois e peça minha expulsão, até Askaban é melhor do que aqui. – Novamente Potter puxou-a para longe.
-É melhor você ir. – murmurou ele para a jovem, em seguida ficou a minha frente, temeroso, sem saber o que fazer ou o que dizer. Demorei ainda para me recompor, eu não conseguia acreditar que a garota me batera. Pior, eu não conseguia nem mesmo assimilar tal idéia, essa garota estava morta, eu lhe mataria, Dumbledore gostando ou não.
-Fora todos vocês! – declarei numa voz mórbida e baixa, não foi preciso mandar duas vezes todos já haviam partido.