As lembranças recuperadas continuavam a fluir pela mente de Harry como um rio caudaloso, trazendo de volta aquela noite distante.
– Você está bem, Harry? – perguntou Sirius, ajudando-o a levantar-se.
– Estou. Pode me dizer o que tudo isso significa?
– Não sabe, mesmo? Pensei que fosse uma encenação, quando você disse a Malfoy que não veio aqui para encontrá-lo.
– É claro que não. Nunca ouvi falar dele e não sei que locais de reunião são esses a que o homem referiu-se – respondeu Harry, pegando a pistola e colocando-a no coldre.
– Quer dizer que não mentiu quando disse que estava simplesmente passeando? – Sirius ajoelhou-se e começou a juntar as moedas que haviam caído da bolsinha e se espalhado pelo chão.
– Não, não menti. Mas você me contou uma mentira dos diabos, dizendo que ficou a pé porque caiu do cavalo. O que estava fazendo por estes lados?
Sirius recolocou as moedas no saquinho de couro, guardou-o no bolso e foi retirar a faca cravada no tronco da árvore.
– Fui encarregado de matar Malfoy, evitando que ele matasse a pessoa com quem ia encontrar-se. É um espião confederado, um assassino.
– E Malfoy veio aqui para matar um Potter – comentou Harry.
– Foi o que ele disse. Resta saber se não estava mentindo. Pensei que se referisse a você, mas vi que não podia ser. Os informantes vêm a este local para encontrar-se com soldados da União, e sempre escoltados.
– Não sei do que você está falando! – Harry explodiu.
– Do movimento abolicionista, das pessoas que ajudam escravos a fugir para o Norte ao longo de um rota tão comprida que a chamam de “ferrovia”.
Sirius fez uma pausa, pensativo.
– Só existe outro Potter além de você, e se não era você que Malfoy veio encontrar...
– Era meu avô?! – exclamou Harry. – Mas ele vive fora da realidade!
– Não sei o que pensar. O fato é que Malfoy é um espião sulista e com certeza está indo ao encontro dos superiores para passar informações. Quando isso acontecer, todos irão à caça de qualquer homem de sobrenome Potter.
– Começando por Hogwarts – observou Harry. – Por mim e meu avô.
Parou de falar por um momento, olhando para o amigo com ar intrigado.
– Sirius, você faz parte desse movimento da “ferrovia”?
– Faço.
– Sabe quais são os homens que Malfoy recebeu ordem de matar?
– Não. Por cautela, evitamos entrar em contato com os companheiros, e muitos deles nem conhecemos. Seu avô, por exemplo. Se ele está envolvido, é bem discreto, porque não sei de nada.
– Sabe para onde Malfoy foi, que estrada tomou? – Harry mudou de assunto, preocupado com a situação do momento.
– Como descobriu que o último espião foi morto, acredito que volte à base de operações para levar a notícia. Dizem que Hogsmead é o centro da espionagem sulista. Ele pode ter ido para lá.
Harry olhou para o céu estrelado e resmungou qualquer coisa, começando a andar.
– Aonde você vai? – indagou Sirius.
– Buscar outro cavalo em Potterlane. Preciso impedir que Malfoy entregue as informações.
Sirius acompanhou-o.
– Você me empresta uma arma e um cavalo? Fui incumbido de acabar com esse espião e não posso falhar – explicou.
Sirius colocou na cintura o revólver que Harry emprestara-lhe e saltou para a sela. A fogosa égua preta pateou e bufou, ansiosa por partir. Era a montaria favorita do capitão Potter, rápida e segura de si.
Harry imaginou onde o avô estaria, pois não se encontrava em casa e, apesar de a égua estar no estábulo, faltava um cavalo baio, que o velho também gostava de montar.
A lua brilhava acima dos bosques que circundavam Potterlane, quando Harry e Sirius deixaram a propriedade.
– Acho melhor pegarmos a estrada do sul primeiro, porque pode ser que Malfoy esteja querendo nos despistar – sugeriu Sirius.
– Então vamos fazer o seguinte: você vai por lá e eu sigo direto para Hogsmead – propôs Harry.
– Boa idéia. Escute, se por acaso alguém fizer perguntas sobre esta noite, nós não nos encontramos. A vida de muita gente depende de nossa discrição.
– Entendo. Não o vi, não sei de nada. Quero pedir-lhe algo também, Sirius.
– O quê?
– Se é verdade que meu avô está envolvido nesse movimento, não deve ser louco como parece. Mas, pela segurança dele, todos devem continuar pensando que é.
– Naturalmente. Além disso, é só uma suspeita. Eu nunca soube que ele pertencesse à “ferrovia”.
O grande garanhão galopava com facilidade pela estrada banhada de luar. Harry virou-se ligeiramente e tirou da bolsa de sela uma garrafa de uísque.
Tomou um longo gole e, para desinfetar o ferimento, verteu um pouco da bebida na mão, ensopando o pano com que a envolvera. Não tivera tempo para fazer um curativo decente, mas o sangue estancara e a dor era perfeitamente suportável.
Uma porção de uísque caiu na manga do casaco e nas rédeas que ele segurava, e ele xingou alto, quando sentiu um forte ardor na lesão, mais profunda do que ele imaginara a princípio.
Tornando a colocar a garrafa na bolsa, olhou para a estrada. Escolhera o caminho mais curto para Hogsmead e esperava que Malfoy houvesse optado pelo mais longo, que oferecia mais segurança a quem quisesse esconder-se, pois era pouco movimentado. Pretendia chegar primeiro que o espião para pegá-lo de surpresa.
Parou para falar com um homem acampado na beira da estrada e fez uma descrição de Malfoy, perguntando se alguém parecido passara por lá. O viajante disse que um elegante cavalheiro com as características dadas por Harry perguntara-lhe o caminho para a igreja presbiteriana de Hogsmead, cerca de uma hora antes.
Continuando seu caminho, Harry pensava em tudo o que acontecera desde o entardecer daquele dia. Nunca imaginara que cidadãos proeminentes de Hogwarts se envolvessem em atividades sórdidas. No entanto, fora o que descobrira, ao ver o prefeito e vários negociantes planejando atacar e saquear uma propriedade.
Só podia concluir que não conhecia realmente as pessoas com quem sempre convivera, inclusive o avô. Alvo Dumbledore Potter não podia ser louco, se de fato ajudava escravos a fugir, defendendo a causa da abolição.
Era difícil aceitar que o velho enganara-o, deixando-o acreditar que era demente, sujeitando-o a tanto constrangimento. Mas, se isso fosse verdade, ele esqueceria tudo o que sofrera e sentiria imenso orgulho do capitão, porque havia poucos homens capazes de tanto desprendimento e de tal coragem para lutar por seus ideais.
Incitando o cavalo a ir mais depressa, Harry refletiu que, apesar de nunca haver matado, estava disposto a assassinar Malfoy. O espião punha em risco a vida de Sirius, talvez a de seu avô e, com certeza, de incontáveis pessoas que lutavam por uma causa com a qual ele sempre simpatizara.
Quando entrou na cidadezinha, que conhecia bem, dirigiu-se diretamente à igreja presbiteriana. Ao aproximar-se, ouviu música e palmas animadas que marcavam o ritmo agitado.
Olhou para a fila de cavalos amarrados na lateral do salão de festas da igreja, procurando o que Malfoy roubara dele, mas não viu o grande baio. O espião provavelmente ainda não chegara, o que seria muito bom. Mas, se houvesse chegado, podia estar no salão, falando com seu contato, naquele exato momento.
Pensando no que isso significaria para os abolicionistas, Harry começou a andar na direção da porta aberta. Bateu as mãos na calça e no casaco para tirar o pó e passou a mão nos cabelos, ajeitando-os. Mas sabia que sua aparência era horrível, e imaginou o que as pessoas reunidas no salão pensariam quando o vissem. Podiam até ficar com medo, julgando-o um desertor ou coisa pior.
“Paciência”, pensou. “Isso não tem importância. O importante é impedir Malfoy de revelar o que descobriu.”
Entrou no salão e viu que estava cheio. A música parara, e nesse intervalo entre duas danças, muitas pessoas haviam deixado seus lugares e movimentavam-se pelo espaçoso recinto.
Harry olhou em volta e viu várias moças sentadas lado a lado ao longo de uma parede. Todas o olhavam, curiosas, e uma delas prendeu-lhe a atenção. Era uma linda jovem ruiva, de grandes olhos azuis e feições cinzeladas. Olhos mais azuis do que o céu do Texas na primavera.
Ele desceu o olhar do rosto belíssimo para a mão esquerda, esperando ver uma aliança, e surpreendeu -se com o alívio que sentiu ao notar que não havia nenhuma.
Impulsionado pela necessidade de falar com a moça, mesmo sabendo que talvez não sobrevivesse ao que enfrentaria naquela noite, cruzou o salão na direção dela.
Parou a menos de um metro de distância e curvou-se galantemente, aspirando, deliciado, o perfume que emanava da linda criatura.
– Senhorita... – murmurou, admirando a beleza da pele acetinada e dos seios que formavam encantadora elevação sob o vestido azul. – Poderia conversar comigo?
– Não fomos apresentados – ela respondeu, desviando o olhar e começando a abanar-se com o leque que trazia preso no pulso.
Ele não pôde impedir-se de sorrir.
– Desculpe. Como não há ninguém aqui para fazer isso, eu mesmo me apresentarei. Meu nome é Harry Potter, e sou de Hogwarts.
Curvou-se novamente, imaginando se enlouquecera. Por que perdia tempo cortejando uma garota, em vez de ficar à espreita para ver se localizava Malfoy?
Mesmo assim, não se afastou.
– Sei que minha aparência não é das melhores, senhorita, mas sou um homem respeitável. Sou proprietário de um jornal – informou com orgulho.
Ela observou-o por cima do leque, parecendo um tanto duvidosa.
– Meu nome é Gina Weasley – apresentou-se por fim. Baixou o leque, e Harry viu o rubor que cobrira as faces aveludadas.
Audacioso, ele deu um passo à frente e inclinou-se.
– Srta. Weasley, devo informá-la de que vai se casar comigo – declarou.
As moças mais próximas soltaram exclamações de espanto, e Gina corou ainda mais, fixando nos dele os olhos inocentes e atônitos.
– Não deve dizer essas coisas, sr. Potter – ela repreendeu baixinho. – Não é decente.
Harry pegou-a pela mão e puxou-a, obrigando-a a levantar-se.
– A música recomeçou, srta. Weasley – disse, tomando-a nos braços. – Vamos dançar.
– Mas, senhor! O que os outros vão dizer? Eu nem o conheço!
– Mas vai conhecer – ele afirmou.
Começaram a dançar, e ela ergueu o queixo num gesto altivo, como que desafiando os maledicentes que quisessem censurá-la. Harry sorriu, satisfeito. Sob a aparência de fragilidade, Gina tinha uma personalidade corajosa. Exatamente o que ele sempre esperara encontrar numa mulher.
– Não me aperte tanto, sr. Potter – ela recomendou com um leve sorriso. – Se continuarmos a dançar assim tão próximos, o senhor terá mesmo de casar-se comigo.
– Mas nós vamos nos casar, srta. Weasley. Não estou brincando.
– Moro com duas tias: e tia Muriel é a mais severa. O senhor terá de ser muito convincente para fazê-la dar sua permissão.
– Por quê?
– Porque ela sempre sonhou em me ver casada com um homem fino.
Harry riu, nem um pouco ofendido. Naquela noite, podia ser chamado de tudo, menos de “fino”. Além das roupas sujas, da mão envolvida num pano manchado de sangue, ele cheirava fortemente a uísque e portara-se de maneira afoita com Gina Weasley.
– Sr. Potter, estamos dançando muito perto um do outro – ela reclamou suavemente.
– Não faz mal, porque vamos nos casar. E quero que me chame de Harry. Não precisa tratar com tanta formalidade o homem que vai ser seu marido.
– Sr. Potter, eu estava falando de minha tia Muriel.
A teimosia dela é incrível, de modo que...
– E você? É teimosa? – ele interrompeu-a.
– Às vezes sou, senhor, e muito.
– Eu também – ele confessou.
Gina olhou para um ponto no fundo do salão, e Harry seguiu-lhe o olhar. Viu uma mulher alta e robusta, de vestido preto, ao lado de um homem que era evidentemente o pastor, pois usava colarinho clerical.
A mulher olhava-os com ar carrancudo e apenas franziu ainda mais a testa, quando Harry sorriu-lhe.
– Aposto como aquela é sua tia Muriel – ele comentou. – Vou ser um pouco mais atrevido, para que ela nos obrigue a casar.
– Senhor! – exclamou Gina, indignada.
Harry não teve tempo de cumprir a ameaça, porque naquele instante a música acabou. Guiou Gina até a mesa de refrescos e serviu-lhe uma caneca de ponche de frutas e sidra.
Ia encher uma caneca para si, quando um barulho atrás dele chamou-lhe a atenção. Virou-se e notou que alguém derrubara uma cadeira. Ia voltar-se novamente para a mesa, quando viu Malfoy parado no vão da porta, examinando as pessoas reunidas no salão.
– Com licença, Gina – pediu, afastando-se.
Mas não podia andar muito depressa, por causa das crianças, que aproveitavam o intervalo para brincar, correndo de um lado para o outro.
Mal chegara à metade do caminho para a porta quando viu Malfoy virar-se e desaparecer. Conseguiu sair, finalmente, mas não havia sinal do homem lá fora. Ouviu o som de uma porta que se fechava, vindo dos fundos da igreja. Contornando o prédio de madeira, chegou à casinha isolada que abrigava a latrina. A porta estava fechada, e ele deduziu que fora Malfoy quem entrara lá.
Tirou a pistola do coldre e preparou-se para cometer o assassinato. Mas, antes que pudesse dar um único passo à frente, ouviu um gemido abafado e, logo em seguida, passos de alguém que corria por entre as árvores que rodeavam a igreja.
Correu para a casinha e empurrou a porta, que se abriu facilmente. O pequeno aposento estava vazio.
No salão, a música recomeçou. Era uma quadrilha, e as pessoas acompanhavam o ritmo alegre com palmas, gritos e batendo os pés no chão. O barulho impediu Harry de captar qualquer ruído a seu redor.
Abrindo caminho entre as moitas floridas do jardim, ele entrou numa vereda que serpenteava entre as árvores. Andara poucos metros, quando, à luz do luar que se filtrava pelas copas, viu Malfoy no chão, imóvel. Harry agachou-se e tocou-o, certificando-se de que estava morto. Fora esfaqueado por trás, pois havia um rasgo nas costas do casaco, por onde o sangue jorrava.
Levantando-se, Harry suspirou, satisfeito. A “ferrovia” continuaria a funcionar em paz por algum tempo, e Malfoy nunca diria a ninguém que um homem dos Potter era membro do movimento abolicionista.
Afastou-se do local do crime, e quando chegava à lateral do salão, um tropel de cascos fez com que ele olhasse para a rua. Um homem, que só podia ser Sirius Black, montava a égua preta de seu avô, puxando pelas rédeas o baio de Harry, que o espião roubara.
Os animais iam a trote ligeiro e não demoraram muito para desaparecer na escuridão.
Harry respirou fundo e levantou-se do catre. A corrente presa em sua perna tilintou quando ele deu alguns passos em direção à janela gradeada. Ficou olhando para fora, mas não havia muito para ver, porque a janela dava para os fundos da prisão, um beco sombrio e sujo.
Refletiu que sua situação era irremediável. Não podia defender-se no julgamento, contando a verdade sobre o assassinato de Draco Malfoy, pois isso significaria acusar Sirius Black.
E era uma coisa que ele jamais faria. Sirius matara o espião para proteger os abolicionistas e também os Potter. Cabia a Harry, agora, calar-se para salvar o amigo e os outros.
Ele só lamentava ter de deixar Gina, que teria de criar sozinha as duas filhas. Ao recobrar a memória, descobrira que a amara desde o primeiro momento em que a vira. E esse amor crescera, fortalecera-se, tornando-se sua maior alegria.
Seria o homem mais feliz do mundo se um milagre o salvasse da forca, permitindo-lhe criar as filhinhas e viver por muitos e muitos anos com Gina.
– Não agüento ver você tão triste, Gina – comentou Luna colocando seu bebê, Ethan, no tapete de retalhos trançados.
O garotinho pegou um boneco de pano e levou-o à boca, balbuciando alegremente.
– Desculpe, querida, mas não sei disfarçar o que sinto – respondeu Gina, tirando o bico do seio da boquinha de Lílian.
Adormecida, a menininha continuou a mover os lábios úmidos de leite.
– Não estou me queixando – explicou Luna. – Gosto de morar aqui com você, mas fico louca por não poder fazer nada para tirá-la dessa tristeza.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Gina.
– Só voltarei a ficar contente quando Harry sair da prisão. Mas não posso fazer nada para ajudá-lo, porque ele me proibiu de contar a Sirius o que está acontecendo.
– Sirius Black poderia ajudar Harry?
– Não sei, talvez não. É tudo muito complicado – disse Gina, levantando-se da cadeira de balanço.
Colocou Lílian no berço, ao lado da irmãzinha, e cobriu as duas com uma pequena colcha de crochê.
Luna olhou para Ethan, que engatinhara para fora do tapete. O menino engordara e ganhara uma cor saudável, ali em Potterlane, e ela nunca poderia pagar o bem que Gina fizera, levando-os para morar lá.
– Gina, você cuidaria de Ethan por uma hora, mais ou menos? – pediu.
– Claro. Vai a algum lugar?
– Preciso falar com Rosmerta – Luna mentiu.
– Acha que é seguro ir à cidade? Hogwarts foi cercada pelas tropas da União e o combate pode começar de um momento para o outro.
– Não se preocupe, Gina. Vai dar tudo certo, e voltarei o mais rápido que puder.
Sirius observou o rosto de Luna e sentiu que ela estava dizendo a verdade.
– A sra. Potter não sabe que você veio falar comigo? – perguntou.
– Não, senhor. Ela me proibiria. Existe alguma maneira de ajudar o sr. Harry? Não suporto mais ver Gina sofrer tanto.
– Verei o que posso fazer, não se preocupe. Agora, vá para casa, e não conte ao capitão, nem à sra. Potter, que falou comigo, certo?
– Vou tentar, apesar de que gostaria muito de acalmar Gina. Quanto ao capitão, o coitado nem sabe o que está acontecendo.
Despediram-se e, quando Luna saiu, Sirius sorriu, pensando em como o velho Potter, seu companheiro de luta, era bom ator, enganando a todos com aquela falsa loucura.
– Sinto muito, Harry, mas terei de quebrar a promessa que lhe fiz e conversar com você sobre o que aconteceu naquela noite – murmurou.
Com o sangue fervendo de ódio, Harry ouvia a conversa do prefeito e do coronel Malfoy, na sala do xerife.
Falavam dele, e Snape estava oferecendo-se para ser juiz no julgamento.
– Faço isso, quando o juiz itinerante demora a passar por aqui – explicou o prefeito.
Houve um longo silêncio.
– Verdade, sr. Snape? – o oficial perguntou por fim. – Julga habitantes de sua própria cidade?
– Por que não?
Harry sentiu um arrepio subir-lhe pela nuca. Snape encontrara o modo perfeito de vingar-se dele pelos editoriais que contrariavam seus desejos.
– Isso não ofende seu senso de lealdade? – insistiu o coronel.
– Dedico minha lealdade à estabilidade econômica de Hogwarts. E ao bem-estar de seu povo, naturalmente.
– Naturalmente – repetiu Malfoy em tom irônico. – Fazer Potter pagar pelo crime que cometeu suavizará as relações entre a cidade e suas tropas, coronel. E é meu dever cívico cuidar para que se faça justiça.
Harry bufou e apertou as mãos, como se as tivesse ao redor do pescoço de Snape. Ah, como sentiria prazer, se pudesse estrangular aquele nojento traidor do povo!
Ouviu um ruído discreto, como se alguém jogasse pedrinhas na parede ao longo do beco. Levantou-se e caminhou para a estreita janela, quase recebendo no rosto um punhado de terra e cascalho.
– Que diabo é isso? – reclamou, olhando para fora.
– Harry, sou eu, Sirius.
O dono do estábulo não se mostrou. Devia estar escondido atrás de alguma coisa para não ser visto pelos transeuntes que passassem pela rua onde o beco acabava.
– O que você quer? – perguntou Harry.
– Vim ajudá-lo.
– Vá embora. Falar comigo tornou-se perigoso.
– Não me importo com o perigo – replicou Sirius com uma risadinha.
– Sei disso, mas você já correu muito risco para proteger minha família. No entanto, foi bom ter vindo, porque assim posso agradecer pelo que fez aquela noite em Hogsmead.
– Não fiz nada, Harry – respondeu Sirius em tom de perplexidade.
– Como não? Matou um homem para salvar a mim e a meu avô – Harry lembrou-o.
– Matei um homem?! – ecoou o amigo, obviamente espantado.
– Não vou revelar seu segredo, Sirius. Fique tranqüilo. Só quero pedir-lhe que cuide de Gina, das meninas e de meu avô, quando eu me for.
– Meu segredo? Não será seu?
– Não. Estou me referindo ao que fez com Draco Malfoy – explicou Harry, baixando a voz.
– Deus do céu, Harry! Está dizendo que não matou o homem? Que acha que fui eu?
– Não o matei. E vi você se afastando do local, levando a égua e o cavalo que o desgraçado roubou de mim.
– Não matei Malfoy. Vi-o morto, pensei que fora você que o matara e tudo o que fiz foi levar os cavalos de volta para Potterlane.
– Por todos os santos, Sirius! Eu ia me deixar sacrificar como um cordeiro, no julgamento, para salvar você da forca!
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes.
– Se nenhum de nós dois matou Draco Malfoy, então quem foi? – perguntou Harry.
– Não sei, mas precisamos descobrir, e bem depressa. Seu julgamento começará depois de amanhã.