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21. Lady Escocesa


Fic: Lady Ginevra


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 21


 


Levaram-na para o feudo Gillevrey. Assim que cruzaram a fronteira das terras do clã, Draco e seu exército foram atacados, E embora os soldados das Highlands fossem valentes para a luta, a predição de lorde MacKay era correta: estavam mal preparados e os hereges ingleses não precisaram mais que um dia para conquistar as terras e o castelo.


Lorde Gillevrey e trinta de seus homens foram encerrados nas masmorras debaixo do salão e os outros membros do clã, nos quartéis dos soldados, na parte baixa do recinto amuralhado.


A rendição de Gina foi rápida. Cavalgou colina abaixo diretamente ao encontro do inimigo e a rodearam imediatamente.


Embora estivesse a poucos centímetros de Draco não lhe dirigiu a palavra. Permaneceu impávida, sentada sobre a montaria com as mãos sobre o colo, esperando para ver o que o homem faria.


Draco usava a armadura de batalha completa, mas cobria a cabeça com um elmo antigo aberto, de forma cónica. Preferia esse em lugar do elmo moderno, fechado, pois dizia que lhe dava melhor visão. Mas Gina achava que o verdadeiro motivo era a vaidade.


Era difícil para Gina olhá-lo. Não tinha mudado muito. Os olhos continuavam sendo verdes, a cútis não exibia cicatrizes e só umas poucas rugas apareciam nas bochechas magras. Mas quando tirou o elmo, Gina viu que tinha sofrido uma mudança dramática: o cabelo, da cor do trigo a última vez que o viu, estava agora completamente branco.


— Agora retornaremos ao nosso lar, Gina, e tudo que aconteceu ficará para trás.


— Sim — aceitou Gina imediatamente.


A resposta satisfez o homem. Aproximou seu cavalo de Gina e se esticou para lhe tocar o rosto.


— Está mais bonita. — assinalou — Senti sua falta, meu amor.


Gina não pôde olhá-lo, pois tinha certeza de que se o fizesse veria o desagrado em seus olhos e inclinou a cabeça em um gesto que esperava fosse interpretado como submissão.


Pelo jeito, Draco estava satisfeito. Voltou a colocar o elmo, fez girar a sua cavalgadura e deu a ordem de partir.


Não se detiveram para beber água nem para descansar e chegaram a Gillevrey no final da tarde.


Imediatamente, Gina afirmou que estava exausta e Draco a acompanhou para dentro. A entrada era estreita. Frente a Gina estavam os degraus que conduziam ao piso superior. À direita ficava o salão, que era um aposento grande e quadrado, rodeado por um terraço em todos os seus lados. Ao notá-lo, Gina desanimou, pois sabia que se a encerravam acima não poderia escapar sem ser vista pelos guardas que estavam no salão.


Deram-lhe o terceiro quarto, cuja porta dava no centro do terraço. Draco lhe abriu a porta. Com a cabeça encurvada, Gina tentou passar rapidamente junto a ele, mas o homem a segurou pelo braço e tentou beijá-la. A mulher afastou o rosto e o impediu.


Pegou-a com rudeza entre os braços e a estreitou. Manuseou-lhe o cabelo.


— Obrigaram-lhe a cortar o cabelo?


Gina não respondeu.


— Claro que o fizeram. — concluiu o homem — Você nunca o teria feito por sua própria vontade, pois sem dúvida lembra do quanto eu gostava.


— Lembro — murmurou a jovem.


Draco suspirou.


— Crescerá outra vez.


— Sim.


De súbito, Draco a estreitou com mais força.


— Por que pediu anulação do nosso casamento?


A dor que lhe provocou a fez encolher-se.


— O rei queria me casar com o barão Williams e eu pedi a anulação para ganhar tempo. Nunca acreditei que estivesse morto.


A resposta satisfez Draco.


— John não me disse que Williams a queria como esposa. Esse canalha a desejava, não é mesmo? E nunca o agradou muito.


— Tenho muito sono. — exclamou Gina — Não me sinto muito bem.


Por fim, Draco a soltou.


— Foi muita excitação para você. Sempre foi débil, Gina, e só eu sei como cuidar de você. Agora vá para cama, esta noite não a incomodarei. Deixei um de seus vestidos sobre a cama: amanhã o colocará. Quando descer as escadas para se reunir a mim, terei uma surpresa para você.


Por fim, deixou-a sozinha. A porta tinha fechadura, mas tinham tirado a chave e Gina pensou que devia encontrar algo para travar a porta. Não confiava em que Draco a deixasse em paz, e se deslizasse às escondidas para o quarto durante a noite, estaria preparada. Se tentasse tocá-la, o mataria... Ou morreria tentando.


Até esse momento, Gina tinha controlado as emoções e embora o esforço a tenha esgotado, sentia-se orgulhosa de si mesma, pois não permitiu que a ira nem o medo a dominassem. Seu principal dever consistia em proteger o filho de todo dano até que Harry fosse resgatá-la. Sim, essa era sua principal obrigação.


Os mensageiros tinham partido em busca de Harry assim que o exército inglês foi avistado e Gina rogou que os homens do clã não tivessem que ir até Londres para encontrá-lo.


Gina pensou que sem dúvida os aliados de MacBain também se preparavam para a partida nesse momento. Na noite seguinte ou o mais tardar na outra, resgatariam-na!


Gina se dispôs a defender o pequeno quarto contra um possível ataque. Empurrou um cofre vazio até a porta para travá-la. Sabia que isso não impediria que jogassem a porta abaixo, mas confiou que o ruído do cofre ao ser arrastado a despertaria se chegava a dormir.


Correu até a janela, tirou a pele que a cobria, olhou para baixo e soltou um palavrão. Não havia fuga possível por ali: havia dois pisos para baixo e a parede de pedra era muito lisa para encontrar onde agarrar-se.


O quarto estava frio e úmido. De repente, sentiu-se tão abatida que teve que sentar-se. Tirou o cinturão e se envolveu na túnica. Em seguida foi até a cama.


Então viu o vestido sobre a cama e o reconheceu imediatamente. A aflição foi substituída por uma fúria tão intensa como jamais tinha experimentado. A ira lhe provocou vontade de gritar com tanta força quanto um guerreiro em uma batalha.


Era seu vestido de noiva. Também estavam os sapatos que tinha usado e as fitas... Deus querido: as fitas com as quais trançou o cabelo estavam estendidas sobre a cama!


— Esse sujeito está demente — murmurou.


"E decidido", acrescentou para si. Tinha lhe dito que na manhã seguinte haveria uma surpresa para Gina e nesse instante a jovem compreendeu o que planejava: esse idiota na realidade acreditava que Gina se casaria outra vez com ele.


Quando estendeu a mão para pegar o vestido, Gina tremia de fúria. Jogou-o no outro extremo do quarto, e atrás dele voaram os sapatos e as fitas.


O rompante de cólera lhe tirou as forças que restavam. Gina se deitou na cama, levantou a túnica sobre a cabeça, tirou da bainha a adaga que tinha amarrado com uma corda em volto da coxa e sustentou a arma com ambas as mãos.


Minutos mais tarde adormeceu.


O ruído que fez o cofre ao ser empurrado sobre o chão de pedra a despertou. Pelos lados da pele que cobria a janela entrava a luz do sol abundantemente. Enquanto dormia, Gina tinha deixado cair a adaga. Encontrou-a entre as dobras da túnica e quando se sentou estava pronta para atacar.


— Milady, posso entrar? — perguntou uma anciã sussurrando. Levava nas mãos uma bandeja, mas se deteve na entrada até que recebeu permissão para passar.


— Adiante — disse Gina.


A mulher entrou e fechou a porta com o pé.


— O barão Draco me ordenou que lhe servisse. — disse, aproximando-se.


— Você é do clã Gillevrey. — adivinhou Gina ao ver as cores da túnica.


— Sim. — respondeu a anciã — E você é a esposa de lorde MacBain, não é?


— Sim. — respondeu Gina em voz aguda, pois tinha pressa de obter todas as respostas que a mulher Gillevrey pudesse lhe dar — Há guardas posicionados diante da porta?


— Um — respondeu a criada.


— E no salão de baixo?


— Muitos. — respondeu a mulher. Deixou a bandeja aos pés da cama — Meu lorde está encerrado no porão, milady, e o tratam como um ladrão vulgar. Envia a você uma mensagem importante. Cedo, pela manhã me permitiram levar mantimentos e me disse em voz baixa as palavras que quer que lhe repita.


— Qual é a mensagem?


— MacBain vingará esta atrocidade.


Gina sorriu e viu que a anciã estava espectador.


— Seu lorde espera uma resposta?


— Sim.


— Diga que sim, que sem dúvida MacBain vingará esta atrocidade.


A mulher fez um breve gesto afirmativo.


— Assim se fará — murmurou, como se rezasse uma prece.


— Qual é seu nome? — perguntou Gina.


— Lucy.


Gina saiu da cama, sustentou a túnica com uma das mãos e estendeu a outra à mulher.


— Lucy, você é uma mulher boa e valente. — sussurrou — Tenho que lhe pedir um favor.


— Farei o que for para ajudá-la, milady. Embora seja velha e débil, esforçarei-me por servi-la no que puder.


— Preciso encontrar uma forma de ficar neste quarto todo o tempo que for possível. Você sabe mentir?


— Quando é necessário... — respondeu Lucy.


— Diga ao barão que ainda estou profundamente adormecida. Que me deixou a bandeja, mas não me despertou.


— Farei isso. — prometeu Lucy — O barão não parece ter pressa em fazê-la descer, milady. Mas está impaciente porque não chegou ainda o homem que mandou procurar.


— Que homem?


— Não escutei o nome. — disse Lucy — Mas sim que é um bispo e vive perto das Lowlands.


— O bispo Hallwick?


— Por favor, milady, baixe a voz ou o guarda a ouvirá! Não entendi o nome do bispo.


Os batimentos do coração de Gina aceleraram.


— Claro que é Hallwick — murmurou.


— O bispo a ajudará, milady?


— Não. — respondeu Gina — É um homem malvado, Lucy. Se com isso conseguisse ouro, seria capaz de ajudar ao próprio Lúcifer. Diga uma coisa, por favor: como sabe que o barão Draco mandou procurar alguém?


— Como sou velha, ninguém presta atenção em mim. Quando me proponho, posso me fazer de tola. Quando irromperam os soldados para apoderar-se da casa de nosso lorde eu estava de pé em um canto do salão. O barão não perdeu um minuto e começou a dar ordens. Enviou seis de seus homens as Lowlands e eles tinham que trazer o bispo.


Gina esfregou os braços para afugentar o frio que sentiu. Draco era muito metódico em seus planos e se perguntou que outras surpresas teriam reservadas.


— Será melhor que desça antes que o barão note que estive muito tempo aqui, e que você se meta sob as cobertas para que o guarda ache que está adormecida quando eu abrir a porta.


Gina agradeceu à criada e se apressou a fazer o que lhe sugeria. Permaneceu um longo tempo na cama esperando que fossem procurá-la.


Draco a deixou tranqüila e a bendita trégua durou até a tarde seguinte. Gina passou boa parte do tempo olhando pela janela. As colinas estavam cobertas de soldados ingleses e Gina calculou que deviam rodear o castelo por todos os lados.


Como Harry faria para resgatá-la?


Endireitou os ombros. "Esse é problema dele, — pensou — não meu. Mas, Por Deus, que se apresse!"


Nas últimas horas dessa tarde, Lucy foi novamente ao quarto com outra bandeja de comida.


— Estiveram indo e vindo todo o dia, milady. Agora os homens estão trazendo baldes de água quente e uma banheira de madeira, pois o barão ordenou que preparassem um banho para você. Não entendo por que se preocupa com seu conforto.


— Acredita que vou me casar com ele. — lhe explicou Gina — O bispo está aqui, não é?


— Sim. — respondeu Lucy — Também há outro barão. Ouvi o nome: chama-se Williams. É um sujeito muito feio, de cabelo encaracolado, opaco e olhos negros. Williams e o barão estiveram discutindo acaloradamente quase toda à tarde. Não seria uma bênção que se matassem entre si e economizassem o trabalho a seu marido?


Gina sorriu.


— Sim, seria uma bênção. Lucy, por favor, fique apoiada contra a porta enquanto me banho.


— Isso significa que agradará a esse sujeito perverso?


— Quero estar o mais linda possível para meu marido. — respondeu Gina — Chegará a qualquer momento.


— Usará o vestido inglês? — perguntou Lucy, apontando o canto onde Gina tinha jogado o objeto.


— Usarei minha túnica.


Lucy assentiu.


— Enquanto procuro o sabão e as toalhas, conseguirei roupa íntima limpa.


Gina se fortaleceu na decisão de usar a túnica. Sabia que Draco ficaria furioso, mas tinha certeza de que não se atreveria a golpeá-la diante de testemunhas. Teria que assegurar-se de não ficar nunca a sós com ele e não sabia como obteria esse milagre... Onde demônios estaria Harry?


Negou-se a considerar a possibilidade de que o marido não pudesse chegar a tempo para resgatá-la, e cada vez que surgia uma idéia inquietante a afastava de sua mente.


Banhou-se sem pressa e até lavou o cabelo. Em seguida se sentou na borda da cama para secá-lo com os panos que Lucy lhe deu. A faxineira insistiu em lhe escovar o cabelo e quando terminou e os cachos se derramaram sobre os ombros de Gina, Lucy declarou que estava linda como uma princesa.


A ordem de descer chegou uma hora depois e Lucy a comunicou retorcendo as mãos. Gina, em troca, estava muito serena. Compreendeu que não poderia adiar mais o confronto.


Suplicou ao Criador que ajudasse Harry a chegar a tempo; colocou a adaga no cinturão, cobriu-a com uma dobra da túnica e desceu as escadas.


Fizeram-na esperar quase dez minutos na entrada antes de convidá-la a entrar no salão. De pé diante de uma mesa redonda, no extremo oposto do quarto estavam Draco e Williams discutindo a respeito de um documento que Williams agitava na mão.


Embora os dois barões fossem de aparência oposta tinham um caráter similar. Um com sua juba de cabelos brancos, o outro com essas mechas castanhas e sua alma negra, gritavam-se como cães enfurecidos. A Gina os dois pareceram detestáveis.


Também estava o bispo Hallwick sentado em uma cadeira de respaldo alto, no centro do salão. Tinha nas mãos um rolo de pergaminho e parecia estar relendo-o uma e outra vez. Cada tanto, sacudia a cabeça com expressão confusa.


Nos últimos anos, o bispo tinha envelhecido de maneira notável. Além disso, parecia doente, pois tinha o rosto amarelado. "Lúcifer deve estar saltando de impaciência", pensou Gina. Hallwick estava velho e doente, e não passaria muito tempo antes que o diabo lhe desse as boas-vindas.


Gina notou movimentos abaixo. Elevou o olhar e viu que Lucy saía ao terraço. A criada se detinha em cado quarto e abria a porta antes de passar ao seguinte e Gina pensou que tinham lhe ordenado ventilar os aposentos.


— Mas deixarei estabelecido que este casamento é só uma formalidade, uma renovação dos votos, se quer — afirmava Draco em um tom tão alto e colérico que Gina o ouviu.


Williams assentiu.


— Sim. Uma renovação. Assim que o Papa e nosso rei resolvam suas diferenças, enviaremos estas explicações a Roma. De qualquer modo, duvido que Inocêncio intervenha nesta questão.


Nesse momento, Draco virou-se e viu Gina de pé na entrada. Ao notar o que estava usando franziu o cenho.


Williams ordenou a Gina que se adiantasse e Gina obedeceu. Mas não cruzou todo o salão, mas sim se deteve a uns passos do bispo Hallwick.


O bispo a saudou, mas Gina o ignorou e Williams notou o deslize.


— Lady Gina, esqueceu que terá que ficar de joelhos em presença de um homem de Deus?


O desdém do tom repeliu Gina.


— Não vejo nenhum homem de Deus neste quarto. Só vejo um fantoche patético disfarçado com o traje negro de um sacerdote.


Os dois barões ficaram atônitos e Williams foi o primeiro a recuperar-se. Avançou um passo.


— Como se atreve a falar com o bispo Hallwick com semelhante falta de respeito?


Draco fez um gesto afirmativo e em seus olhos apareceu uma expressão de fúria arrepiante.


— Gina, assim que o santo bispo escutar sua confissão e me diga qual é a penitência, lamentará este precipitado rompante.


Pela extremidade do olho Gina viu que Hallwick fazia um gesto de assentimento. Mas se negou a olhar para o bispo e manteve o olhar fixo em Draco.


— Hallwick não é santo. — afirmou — E nunca me ajoelharei diante dele nem lhe darei minha confissão. Não tem influência sobre mim, Draco. Ensina blasfêmias contra as mulheres. De fato, é um déspota e malvado. Não, nunca me ajoelharei diante dele!


— Mulher, pagará por seus pecados — disse o bispo com voz gasta e maliciosa.


Por fim, Gina se voltou para o ancião.


— E você pagará pelos terríveis castigos que infligiu a todas as mulheres honradas que foram a você em busca de conselho e cuja única falta consistiu em acreditar que você era o representante de Deus. Não sabiam, como eu sei, que classe de monstro é. Hallwick, pergunto-me se o medo o deixa dormir de noite; tenho certeza de que deve senti-lo. Está velho e doente. Logo morrerá e então, por tudo o que é na verdade sagrado, terá que responder por todas as torturas que infligiu.


Cambaleante, o bispo ficou de pé.


— Está pronunciando heresias! — gritou.


— Digo a verdade — replicou a jovem.


— Esta noite aprenderá que é conveniente reservar suas opiniões — afirmou Draco. Fez-um gesto a Williams e avançou para a Gina.


Gina não retrocedeu.


— É um tolo, Draco. Não aceitarei nenhuma farsa de me casar outra vez com você. Já tenho um marido: pelo jeito acha conveniente esquecer esse fato.


— É impossível que queira ficar com o bárbaro. — disse Williams — Roubaram-lhe a razão, Draco. Por isso os demônios falam por sua boca.


Draco se deteve.


— Está possuída por um espírito maligno?


O bispo se agarrou a essa possibilidade e assentiu com veemência. Deu a volta e se dirigiu para uma porta lateral que nesse momento estava bloqueada pelo barão Williams.


— Antes de renovar seus votos, terá que ser purificada. — declarou o bispo — Barão, irei procurar a água benta e a vara. Terá que golpeá-la até fazer os demônios sairem de dentro dela. Eu não tenho força suficiente.


Quando terminou sua exortação, o bispo estava sem fôlego. Cruzou o salão como um raio. Gina permaneceu imperturbável diante das ameaças e se manteve o mais serena possível.


Draco a observava com muita atenção.


— Não parece atemorizada pelo que te acontecerá — disse.


Gina se voltou para ele e ao vê-lo zangado e perplexo pôs-se a rir.


— É você o que está possuído, Draco, se acredita que eu poderia preferir a ti em lugar de meu lorde.


— É impossível que ame esse selvagem — exclamou Williams.


Gina respondeu sem tirar o olhar de Draco:


— Oh, sim, eu o amo! — replicou em tom enfático.


— Será castigada pelas afirmações traiçoeiras e desleais que fez sobre mim — a ameaçou Draco.


Gina não se impressionou nem se assustou. Inclinou a cabeça e observou o indivíduo que tanto a tinha apavorado no passado. Inspirava-lhe compaixão e de repente sentiu tanta aversão que quase se descompôs.


Esse indivíduo jamais poderia destruí-la. Jamais!


— De verdade acredita que você, Williams e Hallwick, são superiores a um só highlander? Em realidade, são uns tolos — acrescentou, sacudindo a cabeça.


— Somos os conselheiros mais próximos ao rei — gritou Williams, com arrogância.


— Ah, sim, o rei John! — zombou Gina — Os três lhes fazem digna companhia.


O desprezo do tom de Gina foi como uma bofetada para o orgulho de Draco. O homem tremia de raiva.


— O que te aconteceu? — perguntou em um áspero sussurro — Antes nunca me falou com tão pouco respeito. Acaso se sente segura porque está na Escócia? É isso, Gina? Ou imagina que estou tão feliz de ter te recuperado que passarei por cima de seus insultos? Faria bem em recordar a dor que sofreu pelos indispensáveis castigos que me obrigou a inflingir-te. Sim, faria bem em recordá-lo.


Gina não se intimidou e esse comportamento confundiu Draco, pois nos olhos da mulher não via temor e sim desafio.


— Esta noite te demonstrarei o que acontece a uma esposa que esquece qual é seu lugar — ameaçou Draco, com intenção de aterrorizá-la, mas viu que não conseguia, pois Gina moveu a cabeça.


— O que te aconteceu? — perguntou-lhe.


— É muito néscio para entender o que foi o que me aconteceu — replicou a jovem.


— Os highlanders lhe fizeram isto! — gritou Williams.


Draco assentiu.


— Não existem semelhanças entre nós e o lixo escocês — murmurou.


Gina assentiu e isso fez Draco calar-se. Em seguida, a mulher lhe esclareceu:


— É a primeira verdade que pronuncia. Não existem semelhanças entre você e meu Harry, e dou graças a Deus por isso. Em outros tempos, jurou-me mil vezes que me amava e em seguida, golpeava-me com os punhos para me demonstrar o quanto. Harry nunca me disse, mas eu sei que me ama. Jamais levantaria a mão contra mim, nem contra nenhuma outra mulher. É honrado e valente e tem um coração e uma alma tão puras quanto os de um arcanjo. Oh, não, não lhes parecem em nada!


— Como se atreve a pronunciar semelhante blasfêmia! — vociferou Draco, com as veias do pescoço inchadas.


Embora Gina soubesse que estava provocando a cólera do homem não pôde deter-se: enfurecia-a que se atrevesse a comparar-se com qualquer highlander. Equivocava-se na valorização de si mesmo, e Gina estava disposta a corrigi-lo.


—"Me diga com quem anda e te direi quem é." Minha mãe me ensinou essa valorosa lição, mas não acredito que nenhum de vocês compreenda o que há por trás dessa frase. No que me diz respeito, tenho muito boa companhia. Meu clã é minha família e cada um de nós estaria disposto a dar sua vida para salvar os outros. Todos são homens e mulheres honrados.


Sacudiu a cabeça e, dirigindo-se aos dois barões em tom transbordante de repugnância, prosseguiu:


— Não, não poderiam compreender. Ignoram o que é a honra. Olhem a nossos companheiros: não podem dar as costas por temor a que o outro os clave uma faca entre os ombros. Matariam seus próprios pais se isso lhes outorgasse mais poder. Você, Draco, infringiu todos os mandamentos, igual a seu monarca. Conspirou com Williams e com o rei para cometer os crimes mais odiosos. Algum dia pagará por seus pecados, e muito em breve pagará por ter me obrigado a deixar meu lar. Se acreditar que esta atrocidade ficará impune, está louco. Se meu marido tiver um defeito é o de ser muito possessivo. Certamente Harry virá me resgatar, pois se atreveu a apoderar-se da mulher que ama! Não terá piedade de ti; e quando morrer acredito que tampouco Deus a terá. É um demônio, Draco, e Harry é meu arcanjo. O esmagará.


A fúria do Draco se tornou incontrolável e seus rugidos ressoaram no salão. Gina se preparou para o ataque e tirou a adaga.


Draco correu para ela e a poucos passos de distância elevou o punho disposto a dar o primeiro golpe.


Uma flecha deteve seu avanço, lhe atravessando o punho fechado. O bramido de Draco se converteu em um grito de agonia. Cambaleou para trás e elevou o olhar para descobrir o atacante.


Estavam por toda parte.


O terraço estava cheio de guerreiros que usavam a túnica dos MacBain. Rodeavam por inteiro o salão. Quase todos os soldados tinham flechas preparadas nos arcos e ao barão Draco em suas miras.


Antes de morrer, apareceu uma fugaz expressão de reconhecimento nos olhos de Draco ao contemplar o guerreiro gigante que estava diretamente em cima de Gina. O olhar de Harry estava fixo sobre o barão enquanto esticava com lentidão a mão para trás para pegar outra flecha do alforje.


A morte apareceu no semblante apavorado de Draco. A flecha seguinte acabou com a vida do barão, cravando-se no meio da fronte. E em seguida, uma chuva de flechas atravessou a quietude para atingir o alvo. A força de todos os projéteis, lançados ao mesmo tempo, sacudiu o corpo de Draco em todas as direções, e quando por fim caiu ao chão tinha ao menos cinqüenta cravadas em todas as partes.


Lúcifer tinha se apropriado de sua alma.


Gina girou, ergueu o olhar e viu Harry acima dela. Ronald estava junto a ele. Os dois entregaram os arcos e os alforjes aos soldados que estavam detrás deles e desceram as escadas. Todos os outros homens do clã tinham flechas dispostas nos arcos. O alvo agora era o barão Williams, que estava escondido em um canto do salão.


Gina não esperou que Harry se aproximasse dela: assim que apareceu na entrada do salão, deixou cair a adaga e correu para ele.


Harry não se deixou abraçar, nem sequer a olhou: tinha o olhar fixo no barão Williams.


— Isto ainda não terminou. — disse em tom áspero. Empurrou-a com suavidade detrás de si — Mais tarde receberei suas manifestações de carinho, esposa.


Sem dúvida, a frase seguinte de Gina salvou a vida de Williams. Harry se adiantou, mas para ouvir o sussurro da mulher se deteve em seco:


— E você me explicará por que demorou tanto, milorde.


Um lento sorriso dissipou o semblante de Harry. Continuou cruzando o salão, agarrou Williams pelos ombros até colocá-lo de pé e lhe estrelou o punho no rosto.


— Deixo-o viver com um só objetivo: — afirmou Harry — que leve uma mensagem ao rei e me economize a viagem. Estive separado muito tempo de minha esposa e a idéia de ver o rei John me revolve o estômago.


Do nariz quebrado do barão Williams emanava sangue.


— Sim, sim — gaguejou — darei a mensagem que você desejar.


Harry arrastou o barão sobre a mesa e o jogou em uma cadeira. Falou-lhe em voz tão baixa que Gina não pôde ouvir o que lhe dizia.


Tentou aproximar-se, mas imediatamente ficou rodeada de soldados que lhe fecharam o caminho.


Ronald também queria saber o que Harry dizia ao barão, mas os soldados tampouco o deixaram aproximar-se. Ao dar a volta até a irmã, viu que Gina contemplava Draco e imediatamente se colocou diante dela.


— Não olhe. — ordenou Ronald — Já não pode te fazer mais mal: está morto.


Considerando que o corpo do Draco estava coberto de flechas da cabeça aos pés, era uma exigência ridícula. Gina estava a ponto de destacar-lhe quando o irmão voltou a falar:


— Eu o matei — se gabou.


Remus se adiantou.


— Não, Ronald, eu o matei — exclamou, quase gritando.


De repente, todos os soldados começaram a alardear que cada um tinha acabado com a vida do barão Draco. Gina não compreendeu o que acontecia nem por que era tão importante determinar quem era o responsável pela morte do barão.


Nesse momento, Ronald sorriu. Advertiu a confusão da irmã e se apressou a lhe explicar:


— Gina, seu marido me protege de meu próprio rei. Embora Harry jamais o admitisse, assegura-se de que não possam me acusar de matar outro barão. Todos os seus homens continuarão gabando-se de tê-lo matado. Não obstante — acrescentou ao ver que Remus assentia — o fato é que eu o matei.


— Não, moço, eu o matei — gritou lorde MacKay do terraço.


Então, tudo começou outra vez. Quando Harry terminou com o barão Williams, o salão retumbava com os gritos. O lorde fez o barão levantar e esboçou um gesto de satisfação. Esperou que terminasse o vozerio, e disse a Williams:


— Dirá ao rei que no mínimo sessenta homens se atribuem a morte de seu barão favorito.


— Sim — respondeu Williams — Direi.


— E depois de ter transmitido minha outra mensagem, sugiro-lhe que faça uma coisa para me agradar.


— O que for — prometeu Williams — Farei.


Harry observou o homem por um longo momento antes de lhe dar a indicação final:


— Esconda-se.


Não foi necessário que acrescentasse nada: Williams entendeu perfeitamente. Assentiu e saiu correndo do salão.


Harry o observou partir e em seguida se voltou. Ordenou a dois dos soldados que retirassem o cadáver do quarto. Lindsay e Michael se adiantaram para encarregar-se da tarefa.


Ronald e Gina estavam juntos no outro extremo do salão, com Remus e Sirius.


— Acabou-se, irmãzinha — murmurou Ronald. Passou-lhe o braço pelos ombros e a aproximou dele — Nunca voltará a te machucar.


— Sim. — respondeu Gina — Acabou e agora poderá deixar de lado a culpa. Nunca foi responsável pelo que me aconteceu no passado. Mesmo naquela época difícil, eu fui responsável por meu próprio destino.


O irmão negou com a cabeça.


— Tinha que ter sabido — disse — Tinha que ter te protegido.


A jovem elevou a cabeça e o olhou:


— Por isso se casou com Hermione, não é? Para protegê-la.


— Alguém tinha que fazê-lo — admitiu Ronald.


Gina sorriu, pensando que não tinha importância por que Ronald se casou com Hermione. O que na verdade importava era o futuro compartilhado de ambos. Gina estava convencida de que com o tempo Hermione se apaixonaria por Ronald, pois era um homem bondoso e de bom coração. E Hermione chegaria a compreender sua boa sorte. Também Ronald chegaria a amá-la, pois Hermione era uma mulher doce. "Sim — pensou Gina — será um bom casamento".


Harry a contemplava. A seu lado estava lorde MacKay que agitava as mãos enquanto falava com o marido de Gina. Cada tanto, Harry movia a cabeça.


— O que será que inquieta tanto ao lorde MacKay?— disse Gina.


— É provável que queira percorrer o castelo antes de ir ao porão tirar Gillevrey dali — respondeu Ronald.


Gina não podia afastar o olhar do marido. Por que demorava tanto em aproximar-se dela? Não sabia quanto necessitava de seu consolo?


— Por que Harry não me presta atenção? — perguntou-lhe ao irmão.


— Não posso lhe adivinhar o pensamento. — respondeu Ronald — Suponho que quer acalmar-se antes de falar com você. Deu-lhe um susto terrível. Aconselho-te que tenha uma desculpa preparada. Em seu lugar, eu me mostraria humilde — lhe sugeriu.


— Não vejo por que teria que oferecer uma desculpa.


Remus deu um passo adiante e lhe respondeu:


— Não ficou onde a colocaram, milady.


Ronald conteve a risada. Pela expressão da irmã soube que não lhe agradava a explicação: se os olhares pudessem ferir, nesse momento Remus estaria estirado sobre o chão, preso de agudas dores.


Gina se separou do irmão. — Fiz o que era necessário — disse a Remus.


—O que acredita ser necessário — a corrigiu Ronald.


Do outro lado do salão, Harry assentiu, demonstrando que estava ouvindo a conversa e Gina disse, elevando a voz:


— Ao partir, estava protegendo meu clã.


— Cada um de nós está disposto a morrer para proteger os outros — interveio Sirius sorrindo a Gina e repetindo suas palavras. Ficou em evidência que tinha estado escondido em uma das entradas do terraço durante o confronto de Gina com Draco.


— Quanto foi que ouviu? — perguntou a jovem.


— Tudo — respondeu Sirius.


Remus assentiu:


— Somos bons companheiros. Todos aprendemos a lição que nos deu, milady.


Ao ver que Gina se ruborizava, Ronald pensou que lhe dava pudor a evidente adoração que os soldados sentiam por ela: tanto Remus quanto Sirius pareciam dispostos a prostrar-se diante de Gina para lhe render homenagens.


— Estamos muito orgulhosos de você, milady — sussurrou Sirius com voz trêmula de emoção.


Gina se ruborizou mais ainda: sabia que se continuassem elogiando-a começaria a chorar... E isso sim seria embaraçoso! Não podia permiti-lo e se precipitou a mudar de assunto. Elevou o olhar para o terraço e em seguida se voltou para Remus.


— Das janelas até o chão há uma grande distancia. Como fez para entrar?


Remus riu.


— Me surpreende que pergunte isso.


— Pergunto — replicou Gina, sem saber no que consistia a graça do assunto — Por favor, me explique como entrou.


— Lady Gina, sempre há mais de uma maneira de entrar em um castelo.


Gina rompeu em gargalhadas e sua risada estava tão repleta de alegria que todo o corpo de Harry reagiu a ela. A garganta fechou, o coração saltou a um galope furioso e lhe custou respirar. Soube que se não a tomasse em seguida nos braços se voltaria louco. Mas necessitava que estivessem sozinhos, pois assim que a tocasse já não poderia deter-se.


"Deus querido! — pensou — quanto a amo!"


Começou a avançar para a esposa, mas em seguida se deteve. "Primeiro tenho que fazê-la compreender o inferno pelo que me fez passar. — pensou — É como se me tivesse tirado vinte anos de vida." Quando os homens de Harry o encontraram e lhe disseram que estava nas mãos do barão Draco, sentiu que a mente, o coração e a alma inundavam de um terror até então desconhecido para ele. Sentiu morrer mil vezes no trajeto até o feudo de Gillevrey. Deixaria abraçá-lo só quando Gina lhe prometesse que nunca mais voltaria a correr semelhante risco.


Harry pediu a MacKay que descesse para liberar o lorde da prisão e em seguida se voltou para Gina.


— Gina, MacBain quer que preste atenção — murmurou Ronald.


Gina olhou para seu marido. Harry fez um gesto com o dedo flexionado indicando que se aproximasse dele. A expressão do marido foi para a Gina uma clara indicação de que faria um alvoroço, mas ela não queria perder tempo escutando-o gritar e repreendê-la com respeito aos perigos que tinha corrido: tinha acabado e ela estava a salvo. Isso era o mais importante. Por outro lado, Gina necessitava consolo e já tinha esperado muito: lhe acabava a paciência, desejava as carícias do marido.


O único modo que Gina tinha de obter o que queria era surpreender o marido com a guarda baixa e lhe fazer esquecer a cólera.


Deu um passo para Harry e se deteve. Compôs um semblante sério e cruzou os braços sobre o peito, esperando parecer desgostosa.


Harry ficou estupefato.


— Gina? — disse em um tom vacilante, que fez sorrir a Gina. Mas não se atreveu, pois desejava acalmá-lo e não enfurecê-lo.


— Sim, Harry?


— Venha aqui.


— Um momento, milorde — respondeu em um tom tão doce quanto a primeira brisa do verão — quero te fazer uma pergunta.


— Do que se trata?


— A expressão "muito tempo", significa algo para você?


Harry quis sorrir, mas a olhou com expressão severa. Sabia o que Gina estava fazendo: queria fazê-lo sentir-se culpado por não ter chegado antes para resgatá-la.


Mas não a deixaria voltar a situação contra ele. Por Deus, se alguém teria que pedir desculpas seria esta mulher obstinada e caprichosa!


Harry moveu a cabeça, avançou outro passo e anunciou:


— Levará toda uma vida para acalmar meu aborrecimento.


Embora Gina não quisesse contradizê-lo, tinha certeza de que só levaria alguns minutos. Adiantou-se até ficar diante dele.


Enlaçou as mãos e sorriu. Contemplou-o com esses subjulgantes olhos azuis e Harry soube que essa noite já não haveria nenhuma conversa a respeito de segurança.


— Levará toda uma vida para dizer a sua esposa que a ama? — disse, ao mesmo tempo em que esticava a mão e lhe acariciava o rosto. Em seguida acrescentou com voz repleta de ternura — Te amo, Harry MacBain.


A voz de Harry tremeu quando declarou:


— Não tanto quanto eu amo você, Gina MacBain.


Imediatamente, Gina estava nos braços de Harry que a beijava e lhe dizia em sussurros quebrados quanto a amava, que sabia que não era digno dela, que isso não importava, pois nunca a deixaria ir porque tinha se convertido no centro de sua vida.


Compreendeu que delirava, mas não se importou. Parte do que dizia tinha sentido e parte não, mas a Gina tampouco importava: ela chorava e também delirava, derramando sobre o marido todas as palavras de amor que tinha guardado em seu interior.


Os beijos se fizeram ardentes e, quando por fim Harry se afastou, Gina tremia. Soltou-a um segundo e em seguida pegou sua mão e saíram juntos do salão. Enquanto passavam diante de Ronald e dos membros do clã, Gina, ruborizada, manteve a cabeça encurvada. Harry diminuiu o passo quando subiam a escada para que Gina pudesse segui-lo e em seguida abriu caminho entre o grupo de homens que estavam no terraço, até que chegaram ao primeiro quarto. Fez a esposa entrar, fechou a porta e em seguida tomou-a outra vez nos braços.


A roupa se converteu em um obstáculo. Harry não queria deixar de beijá-la o tempo necessário para despi-la e tratou de fazer as duas coisas ao mesmo tempo.


Com muita dificuldade chegaram à cama e fizeram amor com tal intensidade que os dois ficaram tremendo. Harry se mostrou suave; Gina, exigente, mas ambos ficaram plenamente satisfeitos.


Harry permaneceu dentro de Gina um longo momento depois do orgasmo, cobrindo-a por inteiro com seu próprio corpo, e apoiado sobre os cotovelos para não esmagá-la. Beijou-lhe diante, a ponte do nariz e, por fim, o queixo.


Gina soltou um bocejo ruidoso. Harry se deitou de lado, cobriu à mulher com a túnica e a atraiu para seus braços.


— Agora deveria dormir — murmurou.


— Não sou tão fraca, Harry.


O homem sorriu na escuridão.


— Não, não é fraca. — admitiu — É forte, valente e honrada. — inclinou-se para lhe beijar o cocuruto e acrescentou:— Mas está grávida, meu amor. Tem que descansar, pela criança. Sem você, Alex e eu estaríamos perdidos. Gina, é o pilar de nossa família. Faz tempo que sei, e acredito que por isso fui tão superprotetor. Queria ter te trancado sob chave para que não te acontecesse nada.


Com um matiz risonho na voz, Gina lhe respondeu:


— Permitiu-me costurar.


— Diga outra vez que me ama: agrada-me ouvir isso.


A jovem se aconchegou contra o marido.


— Amo-te. — murmurou — Quase desde o começo. No mesmo dia em que nos conhecemos meu coração se derreteu por você.


— Não. — replicou o homem — Tinha medo.


— Isso foi até que me fez uma promessa — o corrigiu Gina.


— Que promessa te fiz?


— Que não me morderia.


— Mesmo assim, estava atemorizada.


— Talvez um pouco. — admitiu — Mas em seguida Deus me deu um sinal e soube que tudo resultaria bem.


— Explique isso — disse Harry, intrigado.


— Rirá.


— Não.


— Trata-se de seu nome. — sussurrou a jovem — Antes da cerimônia nupcial eu não sabia. Ronald te chamava MacBain, o mesmo que seus homens. Mas deu ao sacerdote seu nome completo e nesse instante soube que eu estaria a salvo.


Harry rompeu a promessa e riu, mas a Gina não incomodou. Quando o marido cessou de rir, disse:


— Tem o mesmo nome que o mais elevado dos anjos. — explicou — Minha mãe me ensinou a rezar ao arcanjo Gabriel. Sabe por quê?


— Não, meu amor, não sei por quê.


— Porque é o protetor dos inocentes, o vingador das maldades. Cuida das mulheres e das crianças e é nosso guardião.


— Se isso fosse verdade e não uma fantasia, não te cuidou muito bem. — disse Harry, recordando os anos penosos que Gina tinha passado sob o controle de Draco e imediatamente se encolerizou outra vez.


— Oh, mas o arcanjo me protegeu! — insistiu Gina.


— Como?


— Permitiu que conhecesse você.


Esticou-se e lhe beijou o queixo.


— Não importa se me entende ou se acha que estou louca, Harry. Só me ame.


— Amo-te, moça. Sabe o orgulhoso que senti quando ouvi como me elogiava esta noite?


— Refere-se ao que disse quando você estava no terraço?


— Sim.


— Era importante que Draco soubesse a verdade. — disse Gina — Não sabia o que é o amor autêntico. — acrescentou, sorrindo ao marido — Eu sei quando compreendeu que me amava. — alardeou — Foi quando me encontrou na árvore e viu os lobos mortos.


Harry moveu a cabeça.


— Não. Foi muito antes desse incidente espantoso.


Gina lhe pediu explicações.


— Foi ao ver que aceitou Alex imediatamente. Recorda o que disse quando perguntou se eu tinha dado um presente de casamento? Eu recordo palavra por palavra. Disse: "Deu-me um filho." Foi nesse momento que entrou em meu coração, só que levou um tempo para que eu compreendesse.


Ante a menção do filho, Gina ficou carrancuda.


— Sem dúvida, Alex deve estar inquieto. Quero retornar a casa... Com você. Não quero que vá para a Inglaterra.


— Não é necessário que vá — respondeu Harry — Williams levará minha mensagem ao rei John.


— O que lhe dirá?


— Que nos deixe em paz.


— Informou Williams sobre o pergaminho oculto na capela?


— Não.


Gina se surpreendeu.


— Eu pensei que...


— Draco está morto. — explicou Harry — O rei já não tem nenhum motivo para nos incomodar. Se resolvesse enviar mais tropas por qualquer razão, então falaríamos dessa maldita evidência.


Gina refletiu um bom momento sobre a explicação do marido e finalmente chegou à conclusão de que tinha razão. O rei não tinha por que saber que ela tinha conservado o documento.


— Quer que o rei acredite que tudo terminou.


— Sim.


— Alguma vez alguém saberá a verdade a respeito de Arthur?


— Já há muitos barões que suspeitam que o rei esteve envolvido no assassinato. — disse Harry — Incluso Ronald tem seu próprio suspeito e tem outra razão para estar contra o monarca.


— Qual?


— John traiu a confiança de Ronald. Deu-lhe sua palavra de que só mandaria um mensageiro com escolta, e de que reteria Draco em Londres.


— Mentiu.


— Sim.


— O que Ronald fará?


— Se unirá ao barão Goode e aos outros.


— É a rebelião?


Harry detectou a preocupação na voz de Gina.


— Não. — respondeu — Mas o poder de um rei sem vassalos leais, embora tenha um exército, é escasso. Ronald me disse que os barões pensam obrigar John a fazer certas concessões imprescindíveis. Sabe por que Ronald a entregou para mim?


Ao ouvir as palavras com que Harry se expressava, Gina sorriu.


— Não me entregou a você. — sussurrou — Só se fez de casamenteiro.


— Ronald te ama.


Gina não compreendeu.


— É meu irmão: é obvio que me ama.


— Quando você nasceu ele já estava ali e te viu crescer, mas me disse que partiu para brigar em favor do rei quando você só tinha nove ou dez anos e retornou vários anos mais tarde.


— Sim. Retornou poucos meses antes que eu me casasse com Draco.


— Tinha se convertido em uma mulher muito bela. — disse Harry — E de repente Ronald compreendeu que tinha idéias muito pouco fraternais a seu respeito.


Gina se ergueu na cama.


— Esse foi o assunto da discussão no dia de nosso casamento? Lembro que você se zangou e mandou Ronald embora.


Harry assentiu.


— Quando soube o nome completo, compreendi que não tinham laços de sangue, e já tinha percebido que era muito superprotetor para tratar-se de um irmão.


Gina moveu a cabeça.


— Está enganado.


— Enquanto esteve casada com Draco, poucas vezes foi te ver e se sente culpado por essa falta, pois se não estivesse obcecado por ocultar o que sentia teria podido ver como lhe tratava esse miserável.


Gina negou outra vez, mas Harry não discutiria com ela. Ergueu-a em cima dele e a rodeou com os braços.


— Acredito que já superou essa inquietação.


— Nunca se inquietou. — replicou Gina — Além disso, agora está casado.


— Ronald?


Gina sorriu: Harry parecia estupefato.


— Sim, Ronald. Casou-se com Hermione MacKay. Deixa de rir, assim posso contar isso. Quando Hermione superar o fato de que Ronald é inglês, serão felizes juntos.


As gargalhadas de Harry ressoaram no quarto e a vibração de seu peito quase fez com que a cabeça de Gina betesse contra o ombro do marido.


— Perguntava-me por que lorde MacKay lutou a nosso lado — disse Harry.


— Não lhe disse isso?


— Só disse que estava protegendo seus próprios interesses, mas não mencionou o casamento. É provável que se tivesse querido explicar isso eu não lhe teria prestado atenção. Estava obcecado por te encontrar.


— Levou bastante tempo.


— Não me levou quase nada de tempo. — replicou o homem — Quando meus homens me alcançaram e me informaram que estava presa, eu já tinha dado a volta e retornava ao nosso lar.


— Já estava retornando? Isso significa que se inteirou de que vinha um exército, não é?


— Sim. Um dos soldados MacDonald me disse.


— Harry, enquanto esteve no terraço não te ouvi nem te vi. Você e seus homens foram tão sigilosos quanto os ladrões. — o elogiou.


— Somos ladrões — lhe recordou.


— Foram. — o corrigiu Gina — Já não são. O pai de meus filhos não rouba, mas sim comercializa para obter o que necessita.


— Eu tenho tudo o que poderia desejar. — murmurou — Gina... Essas coisas que disse sobre mim... Ouvi-la dizer isso... Saber que acreditava...


— Sim?


— Não sei expressar muito bem o que sinto.


— Sim, sabe. — murmurou Gina — Disse que me amava. Não necessito nem desejo nada mais. Gosto de você tal como é.


Gina fechou os olhos e exalou um suspiro de contente.


— Daqui em diante jamais voltará a correr riscos desnecessários — disse o marido.


— Tem idéia da angústia que me causou? — disse Harry, supondo que Gina não tinha idéia. Esperou um minuto para que lhe respondesse, mas em seguida soube que estava dormindo.


Instantes depois, saiu do quarto para agradecer lorde Gillevrey pela sua hospitalidade. Os soldados ingleses se esparramaram pelas colinas como ratos sob o olhar vigilante dos aliados de Harry, chegados do norte. Nesse momento, os highlanders eram três vezes mais numerosos que o inimigo e suas presenças se faziam sentir. Seria uma estupidez que tivesse ocorrido ao barão Williams atacar, e embora Harry tivesse certeza de que iria imediatamente ver John, não quis correr riscos. Duplicou o número de guardas com o passar do perímetro do castelo e insistiu em que os aliados permanecessem ali enquanto Gina estivesse dentro.


Gina dormiu doze horas. À manhã seguinte estava completamente recuperada dos maus momentos que passou e impaciente para retornar ao lar. Mas quando estavam a ponto de partir, pediu para voltar ao salão grande. Harry não pensava perdê-la de vista: seguiu-a e se posicionou na entrada.


A esposa procurou uma das criadas e a levou até o lorde.


— Não posso partir sem antes lhe dizer que Lucy é uma mulher magnífica e valente. — começou Gina — Lorde Gillevrey, não tem você uma servidora mais leal que ela — acrescentou.


Passou uns cinco minutos elogiando a criada e quando terminou, o lorde ficou de pé e sorriu para Lucy.


— Será bem recompensada — anunciou.


Gina ficou satisfeita de ter completado esse dever. Fez uma reverência ao lorde, agradeceu outra vez a Lucy sua ajuda e seu consolo e se voltou para partir, mas se deteve de súbito.


Viu o bispo Hallwick, que estava de pé junto a uma das entradas laterais do salão e a observava. Gina o olhou uns segundos e foi suficiente para ver a expressão do bispo, transbordante de ódio e desprezo.


O ancião levava as vestimentas vermelhas de cardeal e Gina se perguntou se durante a noite teria decidido elevar-se de categoria. Tinha os sacos de viagem a seus pés e o custodiavam dois dos soldados de Gillevrey. Gina supôs que o acompanhariam até a casa em que vivia.


Ao vê-lo, lhe arrepiou a pele. Estava a ponto de partir sem reconhecer a presença desse profano, mas ao voltar-se viu um rolo longo e estreito que sobressaía de um dos sacos e compreendeu que não poderia ir sem cumprir um último e importante dever.


Caminhou lentamente para o bispo com o olhar fixo no objeto de sua cólera. Antes que Hallwick pudesse detê-la, Gina arrebatou a vara de castigos e se colocou diante do ancião.


Hallwick retrocedeu e tentou escapar, mas os soldados Gillevrey lhe impediram a saída.


Com gestos lentos, Gina elevou a vara diante dos olhos de Hallwick e o ódio no olhar do velho se converteu em temor.


Gina permaneceu aí um minuto sem dizer uma palavra. Observou a vara que tinha nas mãos enquanto Hallwick a observava. No quarto se fez um silêncio tenso. Alguns dos pressente deviam imaginar que Gina golpearia o bispo, mas Harry soube que não era assim. Aproximou-se da esposa e estava a alguns passos de distância atrás de Gina. De súbito, Gina agarrou a vara de outra maneira. Tomou por um extremo com a mão esquerda e outro com a direita e sustentou a arma outra vez frente ao bispo. Segurava-a com ferocidade e decisão e as mãos lhe doíam pelo esforço que fazia tentando quebrar a vara em dois.


A madeira era muito grossa e fresca, mas Gina não se rendeu. Quebraria o bastão ainda que levasse o dia todo. Tremeram-lhe os braços ao exercer toda a força de que era capaz.


De repente, sentiu a força de vinte pessoas: Harry lhe tinha apoiado as mãos sobre os ombros. Esperou até que Gina assentiu dando permissão.


A vara de castigos partiu pela metade e o rangido ressoou como uma explosão no salão silencioso. Harry o soltou e retrocedeu. Gina continuou segurando o bastão quebrado uns instantes mais e em seguida jogou as duas metades aos pés do bispo. Girou, pegou a mão do marido e saiu caminhando junto com ele.


Sem olhar para trás.


 


A noite era a hora preferida de Harry. Gostava de ficar de bate-papo comentando os acontecimentos do dia e os planos para o seguinte com os soldados, embora na realidade nunca prestasse atenção às sugestões ou afirmações de seus homens. Certamente que fingia fazê-lo, mas enquanto isso contemplava Gina.


Três meses atrás, Ronald e Hermione partiram para a Inglaterra. Hermione não queria abandonar as Highlands e Ronald precisou fazer uso de todo seu tempo e sua paciência para convencê-la.


Um membro da família ia, mas outro chegava. Esperava-se a chegada da mãe de Gina em um dia ou dois. No momento em que receberam a notícia de que estava a caminho, Harry enviou uma escolta para aguardá-la no limite de suas terras.


Duas semanas depois Harry partiria para assistir à primeira reunião do conselho com os outros lordes. Não se ausentaria muito tempo, pois esperavam o nascimento do menino um mês mais tarde.


Alvo e Remus tinham raptado o provador do clã Kirkcaldy. Lorde Gillevrey lhes falou desse homem e comentou que era o melhor provador em todas as Highlands. Alvo manteve o sujeito encerrado tempo bastante depois que selecionou as melhores bebidas. O provador se chamava Giddy e era inofensivo. Depois de alguns meses, aborrecido, Alvo teve piedade dele e lhe permitiu tentar a sorte no jogo de golpear pedras. Em uma semana, Giddy foi apanhado pela febre. Agora havia dois fanáticos cavando buracos por todo o pátio, o campo e o vale ao pé das colinas, e Harry suspeitava que quando tivesse concluído a negociação com os barris e Giddy pudesse partir, era provável que ficasse. Alvo e Giddy ficaram amigos rapidamente, e quando não estavam jogando arrastavam recipientes de cobre até a cabana de Alvo para convertê-los em aparelhos mais eficientes para preparar as bebidas.


Durante todas as noites Gina sentava junto ao fogo e trabalhava na tapeçaria. Dumfries esperava que se sentasse e em seguida se acomodava aos pés da senhora. Tornou-se um costume que Alex se aconchegasse perto da mãe e adormecesse ouvindo as histórias de Gina sobre ferozes guerreiros e donzelas ruivas. Os contos de Gina tinham uma linha única, pois nenhuma das heroínas de seus relatos necessitava que um cavalheiro de armadura brilhante fosse resgatá-la: com mais freqüência, era a donzela que resgatava o cavalheiro.


Harry não podia contradizê-la: o que contava a Alex era verdade. Era um fato comprovado que existiam donzelas capazes de resgatar guerreiros poderosos e arrogantes. Certamente que Gina o tinha resgatado de uma vida fria e desolada! Tinha-lhe dado uma família e um lar. Era seu amor, sua alegria, sua companheira.


Era sua benção salvadora.

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