Assim que Harry saiu, Gina trancou o pesado ferrolho da porta principal. Embora tenha demorado meia hora, ela ficou feliz porque Harry insistira em examinar todas as portas e janelas com ela. A casa, com Gina segura dentro dela, estava firmemente trancada.
E estava totalmente em silêncio.
Para suportar a solidão, Gina foi até a cozinha e começou a remexer em potes e panelas. Ela queria estar com Harry, ficar ao lado dele quando ele estivesse verificando o arrombamento do apartamento. Gina se perguntava se estava sendo tão frustrante para ele seguir sozinho quanto era para ela ficar para trás. Não era possível fazer nada. Havia duas pessoas de idade na casa que não podiam ser abandonadas. E elas precisavam comer.
O frango era para ter sido um esforço conjunto e um alívio das comidas casuais que eles estavam preparando até aquele dia. Harry dizia saber pelo menos o essencial da fritura. Já que ele se candidatara para cuidar do frango, Gina se encarregaria de tentar fazer um purê de batatas. Ela achava que, não fosse outra coisa, a competição melhoraria o resultado final.
Gina se resignou a preparar a comida sozinha. Ela concluiu que cozinhar manteria sua cabeça longe dos problemas recentes Precisando de companhia, ligou o rádio da cozinha e girou o botão até encontrar uma estação de música country. Dolly Parton cantava lindamente. Satisfeita, ela puxou um dos livros de culinária de Wink de uma estante e começou a procurar no índice. Frango frito era feito para piqueniques, pensou. Quanto trabalho daria?
Ela tinha duas bancadas cheias e bagunçadas, e farinha no braço todo, quando o telefone tocou. Usando um pano de prato, Gina atendeu de uma extensão na cozinha. Seu pé batia ao som de On the Road Again.
— Alô.
— Gina Weasley?
Seu mente se concentrou em assuntos mais urgentes. Ela esticou o fio do telefone até a bancada e pegou uma coxa de galinha.
— Sim.
— Escute com atenção.
— Pode falar mais alto? — Com a língua entre os dentes, Gina mergulhou a coxa de frango na farinha. — Não consigo ouvi-lo muito bem.
— Eu tenho de avisá-la, e não resta muito tempo. Você está em perigo. Você não está segura nessa casa. Não sozinha.
O livro de receitas caiu no chão e foi parar no pé dela.
— O quê? Quem está falando?
— Apenas escute. Você está sozinha porque isso foi calculado. Alguém vai tentar invadir a casa hoje à noite.
— Alguém? — Ela mudou o telefone de ouvido e ouviu com atenção. Gina não estava detectando esperteza na voz, e sim nervosismo. Quem quer que fosse, do outro lado, estava tremendo tanto quanto ela. Gina tinha certeza, quase certeza, de que era uma voz masculina.
— Se você está tentando me assustar...
— Estou tentando lhe avisar. Quando eu descobri... — Já baixa e quase inaudível, a voz se tornou hesitante. — Vocês não deviam ter enviado o champanhe. Eu não gosto do que está acontecendo,
mas não vou detê-los. Ninguém vai se ferir, você entende? Mas eu tenho medo do que possa acontecer depois.
Gina sentiu o medo revirando seu estômago. Lá fora estava escuro, totalmente escuro. Ela estava sozinha na casa com dois velhos empregados.
— Se você está com medo, me diga quem você é. Me ajude a parar o que está acontecendo.
— Eu já estou arriscando tudo ao lhe avisar. Você não entende? Saia, apenas saia da casa.
Era uma manobra, disse Gina a si mesma. Uma manobra para tirá-la da mansão. Gina endireitou os ombros, mas seu olhar passava de uma janela para outra.
— Eu não vou a lugar algum. Se quer me ajudar, me diga quem eu devo temer.
— Apenas saia — repetiu a voz antes de a ligação cair. Gina ficou paralisada, segurando o telefone mudo. O óleo na frigideira começara a chiar, competindo com o rádio. Observando as janelas, ouvindo, Gina pôs o telefone no gancho. Era um trote, disse a si mesma. Era apenas um truque para tirá-la da casa na esperança de que ela ficasse apavorada o suficiente para não voltar. Gina não seria expulsa de casa por causa de uma voz trêmula ao telefone.
Além do mais, Harry já telefonara para a polícia. Eles sabiam que Gina estava sozinha. Ao primeiro sinal de problema, ela precisava apenas pegar o telefone.
As mãos não estavam completamente firmes, mas Gina voltou a cozinhar, com raiva. Ela mergulhou o frango empanado na frigideira, verificou as batatas que estavam cozinhando e chegou à conclusão de que uma taça de vinho enquanto trabalhava seria uma excelente idéia. Gina estava se servindo quando Bruno entrou correndo na cozinha, fazendo algazarra em torno das pernas dela.
— Bruno. — Gina se abaixou e puxou o cãozinho para mais perto. Ela o sentiu quente e forte. — Que bom que você está aqui — murmurou. Mas por um momento ela se permitiu desejar desesperadamente por Harry.
Bruno lambeu-lhe o rosto, deu uns dois pulinhos desajeitados na direção da bancada e saiu correndo para a porta. Pulando ele começou a latir.
— Agora? — perguntou Gina. — Eu achava que você podia esperar até amanhã de manhã.
Bruno voltou correndo para Gina, rodeou-a e depois correu novamente até a porta. Quando ele repetiu aquilo a terceira vez, Gina cedeu. O telefonema não era mais do que um truque, um truque desastrado. Além do mais, Gina dizia a si mesma enquanto abria a tranca, não me faria nenhum mal abrir a porta para dar uma boa olhada lá fora.
Assim que Gina abriu a porta, Bruno saiu correndo e tropeçou na neve. O cão começou a farejar imediatamente, enquanto Gina ficava em pé, tremendo, forçando a visão para enxergar através da escuridão. A música e o cheiro da comida fluíam atrás dela.
Não havia nada. Ela se protegeu contra o frio e concluiu que não esperava ver nada de anormal. A neve cessara, as estrelas brilhavam e a floresta estava quieta. Era como deveria ser: uma simples e rotineira noite no interior. Ela aspirou fundo o ar do inverno e começou a chamar o cachorro de volta. Eles viram um movimento no limite da floresta ao mesmo tempo.
Só uma sombra, que parecia se separar lentamente de uma árvore e assumir uma forma. Uma forma humana. Antes que Gina pudesse reagir, Bruno começou a latir e avançar pela neve.
— Não, Bruno. Volte.
Sem dar a si mesma uma chance de pensar, Gina pegou o velho casaco cor de ervilha que estava pendurado ao lado da porta e saiu em disparada. Pensando melhor, ela pegou uma frigideira de ferro antes de sair pela porta atrás do cachorro.
— Bruno!
Ele já estava no limite da floresta, na pista certa. Ficando mais confiante, Gina correu para pegá-lo. Quem quer que estivesse observando a casa, correra ao ver o desengonçado e atabalhoado animal. Gina descobriu que estava suscetível ao medo, mas se recusava a ser aterrorizada por um covarde. Com tanto entusiasmo quanto Bruno, ela entrou na floresta. Sem fôlego, mas se sentindo indestrutível, Gina ficou parada tempo suficiente para olhar em volta e escutar. Por um momento não escutou nada. Então, à sua direita, ela ouviu um latido e uma pancada.
— Pega, Bruno! — gritou, virando-se na direção do caos. Excitada pela caçada, Gina encorajava o cachorro, mudando de direção sempre que o ouvia respondendo. Enquanto corria, a neve caía dos galhos e escorria, fria e molhada, pela sua nuca. Os latidos ficaram mais intensos e, na pressa, Gina tropeçou no tronco de uma árvore caída. Limpando-se da neve e xingando, ficou de joelhos. Bruno saiu correndo da floresta e se jogou contra Gina, deitando-a novamente.
— Não eu. — Deitada de costas, Gina empurrou o cachorro. — Droga, Bruno, se você não... — Ela se interrompeu quando o cachorro ficou imóvel e começou a rosnar. Caída na neve, Gina olhou para cima e viu a sombra se mover novamente entre as árvores. Ela se esqueceu de que era orgulhosa demais para ter medo de um covarde.
Embora suas mãos estivessem frias e formigando, ela agarrou firme o cabo da frigideira e, pondo-se de pé, seguiu lentamente para a árvore mais próxima. Lutando para acalmar sua respiração, Gina se preparou para atacar e se defender. Parente ou estranho, ela daria um jeito nele. Mas os joelhos de Gina tremiam. Bruno ficou em posição de ataque e se lançou à frente. Assim que fez isso, Gina levantou a frigideira no alto e se preparou para bater.
— O que é que está acontecendo aqui?
— Harry! — A frigideira caiu na neve com um baque surdo, enquanto Gina seguia Bruno, que seguia na frente dela.
Sentindo vertigens de tão aliviada, ela encheu de beijos o rosto todo dele. — Ah, Harry. Estou tão feliz por ser você.
— É. Você, com certeza, parecia feliz com aquela frigideira suspensa no ar. Acabou o fixador de cabelo?
— Era o que estava mais à mão. — De repente, ela se afastou e olhou com raiva para ele. — Droga, Harry, você quase me mata de susto. Você deveria estar a caminho de Nova York, não se escondendo na floresta. Por quê?
Com as costas das mãos, Harry limpou a neve do rosto de Gina.
— Eu dirigi por 15 quilômetros, mas não conseguia me livrar de uma sensação ruim. Era conveniente demais. Então decidi parar num posto de gasolina e ligar para minha vizinha.
— Mas seu apartamento.
— Eu liguei para a polícia e fiz um relato de uma lista das coisas de valor. Nós dois vamos para Nova York em um ou dois dias. — A neve estava espalhada pelos cabelos de Gina, e caía sobre o casaco dela. Harry pensou no que poderia ter acontecido e resistiu à vontade de sacudi-la. — Eu não poderia deixar você sozinha.
— Depois disso, vou começar a acreditar que você é um cavalheiro. — Gina o beijou. — Isso explica porque você não está em Nova York, mas o que estava fazendo na floresta?
— Só um pressentimento.
Harry se abaixou para recuperar a frigideira. Um bom golpe com aquilo, pensou, e ele ficaria inconsciente por algum tempo.
— Da próxima vez que você tiver um pressentimento, não fique em pé na beira da floresta, olhando imóvel para a casa.
— Eu não estava fazendo isso. — Harry pegou no braço de Gina e a levou de volta para a casa. Ele a queria dentro novamente, atrás das portas trancadas.
— Eu vi você.
— Eu não sei quem você viu. — Zangado, Harry ficou olhando para o cachorro. — Mas se você não tivesse deixado o Bruno sair, nós dois saberíamos. Eu achei melhor dar uma olhada lá fora antes de entrar, e vi pegadas. Eu as segui e então entrei na floresta. — Ele olhou para trás, ainda rígido por causa da tensão. — Eu estava exatamente indo atrás do dono daquelas pegadas quando Bruno tentou me atacar. Eu comecei a correr. — Harry praguejou, dando um tapa na frigideira. — Eu estava prestes a alcançá-lo quando este cão passou correndo pelas minhas pernas, me derrubando de cara na neve. Ao mesmo tempo, você começou a gritar para o cachorro. A pessoa que eu perseguia teve tempo suficiente para desaparecer.
Gina xingou, chutando a neve.
— Se você tivesse me contado o que estava acontecendo, nós podíamos ter agido em equipe — disse ela.
— Eu não sabia o que era até acontecer. De qualquer modo, o acordo era que você ficaria dentro de casa, com as portas trancadas.
— O cão precisava sair — murmurou Gina. — E eu recebi um telefonema. — Ela olhou para trás, por cima do ombro, e suspirou. — Alguém ligou para me alertar. Não sei. Eu achei que era uma voz masculina, mas... não tenho certeza.
As mãos de Harry se apertaram no braço dela.
— Ele a ameaçou?
— Não, não foi bem uma ameaça. Quem me ligou parecia saber claramente o que estava acontecendo e não estava feliz com isso, o que ficou óbvio. Ele... Ela disse que alguém tentaria invadir a mansão Hogwarts, e que eu deveria sair.
— E, claro, você lidou com isso correndo para a floresta armada com uma frigideira. Gina! — Dessa vez Harry não a sacudiu. — Por que não ligou para a polícia?
— Porque pensei que era outro truque, e isso me deixou doida. — Ela olhou para Harry com teimosia. — Sim, eu fiquei apavorada no começo, então isso apenas me deixou doida. Eu não gosto de ser intimidada. Quando olhei para fora e vi alguém perto das árvores, a única coisa que quis fazer foi contra-atacar.
— Admirável — disse Harry, pegando-a pelos ombros — Estúpido.
— Você estava fazendo a mesma coisa.
— Não é a mesma coisa. Você tem a inteligência, a elegância. Até diria que tem a coragem. Mas, prima, você não é um peso pesado. E se você fosse pega por quem estava lá fora e decidissem jogar pesado?
— Eu sei jogar pesado também — resmungou Gina.
— Ótimo. — Com um movimento rápido, Harry lhe deu uma rasteira que a fez cair sentada na neve. Antes que Gina pudesse reclamar, ele estava sobre ela, fazendo um gesto com a frigideira. Bruno achou que era uma brincadeira e também subiu sobre Gina. — Eu poderia ter voltado amanhã para encontrar você semi-enterrada na neve. — Antes que ela pudesse falar, Harry a ajudou a ficar de pé novamente. — E não vou arriscar.
— Você me pegou desprevenida — disse.
— Cale a boca. — Harry a pegou pelos ombros mais uma vez, e dessa vez não o fez com gentileza. — Você é importante demais, Gina, eu cansei de correr riscos. Vamos entrar e chamar a polícia. Vamos contar tudo a eles.
— O que eles podem fazer?
— Vamos descobrir.
Ela suspirou longamente, depois se apoiou em Harry. A caçada podia ter sido excitante, mas os joelhos de Gina ainda não haviam parado de tremer.
— Tudo bem. Talvez você esteja certo. Nós não sabemos mais sobre o caso agora do que quando tudo começou.
— Chamar a polícia não é desistir, é apenas aumentar nossas probabilidades. Eu podia não ter voltado hoje, Gina. O cachorro podia não ter assustado ninguém. Você estava sozinha. — Harry pegou as duas mãos dela e as colocou de encontro aos seus lábios para aquecê-las. — Eu não vou deixar que algo aconteça a você.
Confusa por causa da sensação prazerosa que as palavras de Harry despertaram, Gina tentou puxar suas mãos.
— Posso cuidar de mim mesma, Harry.
Ele sorriu, mas não a deixou recolher as mãos.
— Talvez. Mas você não vai ter a chance de descobrir se isso é verdade. Vamos para casa. Estou com fome.
— Típico! — Gina começou, precisando melhorar o humor. — Você pensa com a barriga. Ah, meu Deus, o frango! — Soltando-se de Harry, ela saiu correndo para a casa.
— Não estou com tanta fome assim — disse Harry, correndo atrás dela. Ele se sentiu aliviado novamente por tê-la em seus braços. Ao ouvi-la gritando da floresta, seu sangue simplesmente parou de correr. — Na verdade — disse Harry, abraçando-a — , eu posso pensar em assuntos mais urgentes do que a comida.
— Harry. — Gina lutava, rindo. — Se você não me largar, não haverá frango para comer.
— Nós vamos comer em algum outro lugar.
— Eu deixei o fogo aceso. Provavelmente, não sobrou nada do frango, a não ser os ossos torrados.
— Sempre teremos sopa.
Dizendo isso, Harry abriu a porta da cozinha.
Em vez de fumaça e de bagunça, eles encontraram uma travessa cheia de frangos dourados e crocantes. Wink limpara a bagunça e pusera algumas panelas de molho na pia.
— Wink. — De seu camarote nos braços de Harry, Gina vasculhou toda a cozinha. — O que você está fazendo fora da cama?
— Meu trabalho — ela disse bruscamente, olhando-os de lado. Até onde Wink percebia, seu plano estava funcionando perfeitamente. Ela pensara que Harry e Gina haviam decidido tomar um pouco de ar fresco enquanto o jantar estava no fogo e, como sempre fazem os jovens, esqueceram do tempo.
— Você devia estar na cama — Gina comentou.
— Chega. Fiquei na cama muito tempo. — E os dias de pouca ou nenhuma atividade a entediaram quase a ponto de chorar. Valia a pena, contudo, ver Gina pendurada nos braços de Harry. — Estou me sentindo bem-disposta novamente, juro. Agora vão se lavar para o jantar.
Harry e Gina, separadamente, a examinaram com os olhos. As bochechas de Wink estavam rosadas e redondas, os olhos brilhavam. Ela corria de um lado para o outro, no seu modo habitual de trabalhar.
— Nós ainda queremos que você não se esforce — disse Harry. — Nada de trabalho pesado.
— Isso mesmo. Eu e Harry vamos lavar a louça. — Gina o olhou um pouquinho mal-humorada, só um pouquinho, e bateu-lhe no ombro. — Nós gostamos de fazer isso.
Diante da insistência de Gina e Harry, os quatro comeram na cozinha. Dobby, sentado ao lado de Wink, não sabia ao certo se poderia tossir, e, por isso, apenas pigarreou algumas vezes. Em uma espécie de acordo silencioso, Gina e Harry decidiram manter o caso dos invasores para si mesmos. Os dois sentiam que a informação de que alguém estava observando a casa seria perturbadora demais para os dois idosos enquanto ainda se recuperavam.
Aparentemente, o jantar foi uma refeição tranqüila, mas Gina continuava se perguntando quando eles mandariam os empregados para a cama e chamariam a polícia. Mais de uma vez, Gina percebeu Wink olhando para ela e Harry com um sorriso contido. Doce velhinha, pensou Gina, acreditando inocentemente que a cozinheira estava feliz apenas por ter sua cozinha de volta. Isso fez com que Gina ficasse ainda mais determinada a proteger tanto Wink quanto Dobby de qualquer problema. Ela prestou atenção à lavagem da louça e em colocar os dois idosos para dormir, e já eram quase 2lh quando Gina conseguiu se encontrar com Harry na sala.
— Pronto?
Gina percebeu certa impaciência familiar na voz dele, e apenas concordou com um gesto de cabeça, servindo-se de conhaque.
— É um pouco como cuidar de crianças, mas acho que consegui encontrar um filme com o Cary Grant de que os dois vão gostar. — Ela bebericou o conhaque, na esperança de que seus músculos relaxassem com a bebida. — Eu preferia que fosse eu que estivesse assistindo ao filme.
— Outra hora. — Harry bebeu um gole do cálice de Gina. — Liguei para a polícia. Eles logo estarão aqui.
Ela pegou o cálice de volta.
— Ainda me incomoda ter de levar o caso a público. Afinal, qualquer coisa além de uma simples invasão é mera especulação.
— Vamos deixar que a polícia decida. Gina conseguiu sorrir.
— O seu Logan sempre resolve as coisas sozinho.
— Uma pessoa certa vez me disse que isso era coisa de ficção. — Harry se serviu de conhaque e brindou com Gina. — Eu descobri que não gosto de ter você no meio de uma história policial.
O conhaque e a lareira deram à noite uma ilusão de normalidade. Gina reagiu à afirmação de Harry com indiferença.
— Parece que você está com síndrome de protetor-de-mulheres, Harry. Não combina com você.
— Talvez não — disse, bebendo de um gole só o conhaque. — É diferente quando se trata da minha mulher.
Ela se virou, as sobrancelhas arqueadas. Era ridículo sentir prazer com um termo tão comum e possessivo.
— Sua?
— Minha. — Ele envolveu sua nuca com a mão. — Algum problema com isso?
Tentando engolir em seco, Gina sentiu seu coração batendo na garganta. Talvez Harry falasse sério — agora. Em alguns meses, quando ele estivesse de volta ao seu mundo, com o seu grupo, Gina não seria nada além de uma prima irritante. Mas por agora, só por agora, talvez Harry estivesse falando sério.
— Não sei direito.
— Pense nisso — ele a aconselhou, antes de beijá-la. — Vamos voltar a esse assunto.
Harry deixou Gina confusa e foi atender a porta. Quando voltou, Gina estava calmamente sentada numa cadeira de encosto alto, perto do fogo.
— Tenente Slughorn, Gina Weasley.
— Como vai? — O tenente tirou o cachecol de lã e o enfiou no bolso do casaco. Ele parecia, pensou Gina, com o avô de alguém. A vontade, gordo e careca. — Noite horrível — disse, acomodando-se perto do fogo.
— Gostaria de um café, tenente? Slughorn olhou para Gina, agradecido.
— Adoraria.
— Por favor, sente-se. Voltarei logo.
Sem pressa, ela preparou o café e dispôs as xícaras e os pires em uma bandeja. Não estava servindo, insistia, apenas preparando. Gina jamais teve oportunidade de conversar com um policial sobre um assunto mais complexo do que uma multa por estacionar em local proibido. E, no fim do dia, ela teria de contar tudo para aquele policial. Gina estava prestes a discutir sua família e o relacionamento com Harry.
Seu relacionamento com Harry, pensou Gina novamente, enquanto mexia no pote de açúcar. Era isso o que ela estava de fato escondendo na cozinha. Gina ainda não fora capaz de apaziguar o sentimento que percorrera todo o seu corpo quando Harry disse que ela era sua mulher. Coisa de adolescente, resmungou para si mesma. Era absolutamente estúpido se sentir tonta, satisfeita e animada porque um homem olhou para ela com paixão nos olhos.
Mas eram os olhos de Harry!
Ela achou guardanapos de linho e os dobrou em triângulos. Gina não queria ser a mulher de ninguém. Só ela mesma. Foi o esforço e o entusiasmo do fim de tarde que a fizeram reagir daquele jeito, como uma menina de 16 anos que acaba de ganhar um anel de compromisso. Gina era uma adulta. Ela se sustentava. E estava apaixonada. Convença-se do contrário, Gina se desafiou. Respirando profundamente, suspendeu a bandeja e voltou para a sala.
— Senhores. — Gina colocou a bandeja na mesa de centro e abriu um sorriso. — Creme ou açúcar, tenente?
— Obrigado. Uma boa porção das duas coisas. — Enquanto Gina lhe entregava a xícara, o policial colocava um bloco de anotações cheio de orelhas sobre o joelho. — O senhor Potter estava me contando. Parece que vocês andaram tendo alguns aborrecimentos.
Ao ouvir aquela palavra, ela sorriu. A voz de Slughorn era tão relaxada quanto a fisionomia dele.
— Poucos.
— Eu não vou dar uma lição. — Mas ele olhou para os dois, preocupado. — Mesmo assim, vocês deveriam ter avisado a polícia logo depois do primeiro incidente. Vandalismo é um crime.
— Nós esperávamos que, ignorando o ocorrido, desestimularíamos a repetição. — Gina ergueu sua xícara. — Estávamos errados.
— Eu vou ter de levar o champanhe comigo. — Novamente, o policial os olhou com desaprovação. — Mesmo que vocês já o tenham analisado, nós vamos repetir a análise no nosso laboratório.
— Vou pegá-lo. — Harry se levantou, deixando o tenente sozinho com Gina.
— Senhorita Weasley, pelo que seu primo me contou, as exigências do testamento do senhor Weasley eram um pouco fora do comum.
— Um pouco.
— Ele também me disse que a convenceu a concordar com as exigências.
— Isso é fantasia do Harry, tenente. — Ela bebeu o café. — Eu estou fazendo exatamente aquilo que decidi fazer.
Slughorn assentiu e anotou.
— Você concorda com a idéia do senhor Potter de que esses incidentes estão conectados e que um dos seus familiares pode ser o responsável?
— Não posso imaginar nenhum motivo para discordar.
— Você tem algum motivo para suspeitar de algum membro da família mais do que de outro?
Gina pensou muito nisso, tanto quanto já pensara antes.
— Não. Veja, não somos, de modo algum, uma família unida. Mas a verdade é que não os conheço muito bem.
— Exceto o senhor Potter.
— Exatamente. Harry e eu visitávamos nosso tio freqüentemente, e esbarrávamos um no outro aqui e ali na mansão Hogwarts. — Mesmo que não quisessem, acrescentou para si mesma, numa piada particular. — Nenhum dos outros vinha aqui com freqüência.
— O champanhe, tenente. — Harry trouxera a caixa. — E o relatório do laboratório Sanfield.
Slughorn passou os olhos pela folha impressa e então guardou o papel dentro da caixa.
— O advogado do seu tio... — Ele consultou rapidamente as anotações. — Lupin disse que houve uma invasão há várias semanas. Tivemos uma patrulha verificando a área, mas neste ponto o senhor poderia concordar em ter um homem patrulhando a casa uma vez por dia.
— Eu prefiro isso — disse Harry.
— Vou entrar em contato com Lupin. — Vendo que a xícara do policial estava vazia, Gina a pegou e a encheu novamente. — E também vou precisar de uma lista com o nome de todos os seus familiares que constam no testamento.
Gina o olhou com cara feia. Eles tentaram contar tudo ao tenente, do melhor modo que podiam. Quando terminaram, Gina olhou para Slughorn como se estivesse pedindo desculpas.
— Eu lhe disse que não éramos unidos.
— Vou entrar em contato com o advogado para saber dos detalhes. — Slughorn se levantou e tentou não pensar no caminho gelado de volta à cidade. — Vamos manter o inquérito na maior discrição possível. Se acontecer mais alguma coisa, liguem. Um dos meus homens estará por perto para dar uma olhada nas coisas.
— Obrigado, tenente. — Harry ajudou o atarracado homem com seu casaco.
Slughorn deu mais uma olhada na sala.
— Já pensaram em instalar um sistema de segurança?
— Não.
— Então pensem — aconselhou, saindo.
— Acabamos de levar uma bronca — murmurou Gina. Harry se perguntava se havia espaço no seriado para um policial asseado e mal-humorado.
— Parece mesmo.
— Sabe, Harry, eu tenho duas linhas de pensamento sobre envolver a polícia.
— Quais?
— Isso vai acalmar as coisas ou intensificá-las.
— Cubra a aposta e arrisque.
Ela o olhou como se soubesse de tudo.
— Você está apostando na segunda hipótese.
— Eu cheguei perto hoje à noite. — Ele largou o café e se serviu de mais conhaque. — Eu quase botei minhas mãos em alguma coisa. Ou alguém. — Ao olhar para Gina, a frustração em seus olhos se desmanchou. O atrevimento estava de volta.
— Eu gosto de brigar às claras, olho no olho.
— É melhor encararmos a situação como um jogo de xadrez em vez de uma luta de boxe.
Gina se aproximou para abraçá-lo e deitou a cabeça no ombro de Harry. Era o tipo de gesto que ele pensava que jamais se acostumaria a receber dela. Ao descansar a cabeça sobre os cabelos de Gina, Harry percebeu que a verdade era que ele não tinha apenas acrescentado doçura ao que sentia. Quando Harry deixou de se lembrar que Gina não cabia na imagem que há muito ele fazia da mulher ideal? Os cabelos dela eram vermelhos demais, o corpo, magro demais, a língua, afiada demais. Harry se aninhou em Gina para descobrir que, na verdade, eles combinavam muito.
— Eu nunca tive paciência para o xadrez.
— Então teremos de deixar isso para a polícia.
Ela o segurava fortemente. A necessidade por proteção ficou tão intensa quanto o desejo de ser protegida.
— Eu estive pensando no que poderia ter acontecido lá fora esta noite. Eu não quero que você se machuque, Harry.
Com os dedos sob o queixo de Gina, ele levantou seu rosto.
— Por que não?
— Porque... — Gina olhou nos olhos dele e sentiu seu coração se derreter. Mas ela não agiria como uma idiota. Ela não arriscaria seu orgulho. — Porque eu teria de lavar a louça sozinha.
Harry sorriu. Não, ela não tinha muita paciência, mas podia contar com ela quando as circunstâncias exigiam. Harry a beijou no canto da boca. Mais cedo ou mais tarde, ele tiraria mais de Gina. Então, Harry apenas teria de decidir o que fazer.
— Alguma outra razão?
Absorvendo a emoção do momento, Gina procurou em sua mente uma outra resposta fácil.
— Se você se machucar, não poderá trabalhar. E eu terei de conviver com o seu mau humor.
— Eu achei que você já estava convivendo com ele.
— Já o vi pior.
Harry beijou os olhos fechados de Gina devagar, sensualmente.
— Tente responder mais uma vez.
— Porque eu me importo. — Gina abriu os olhos e sua expressão era tensa, hostil. — Algum problema com isso?
— Não.
Dessa vez o beijo de Harry não foi gentil ou paciente. Ele a segurou com força e a deixou amolecida em pouco tempo. Se ainda havia alguma tensão em Gina, ela estava incapaz de sentir.
— O único problema é conseguir arrancar isso de você.
— Você é parte da família acima de tudo...
Com uma gargalhada, ele mordeu o lóbulo da orelha dela.
— Não tente fugir. Indignada, Gina ficou rígida.
— Eu nunca fujo.
— A não ser que você possa racionalizar as coisas. Apenas lembre-se disso. — Harry a puxou de encontro ao seu corpo mais uma vez. — As conexões de família são distantes. — Eles se beijaram, ansiosos, e então se separaram. — Mas esta conexão, não.
— Eu não sei o que você quer de mim — sussurrou Gina.
— Geralmente, você é bem esperta.
— Não faça piadas, Harry.
— Isto não é uma piada. — Ele a afastou, segurando-a apenas pelos ombros. Breve, mas firmemente, Harry acariciou os braços dela até os cotovelos, e depois para cima. — Não, eu não vou ser explícito com você, Gina. Não vou facilitar as coisas para você. Você deve estar ansiosa para admitir que nós dois queremos a mesma coisa. É o que você vai fazer.
— Arrogante — ela o advertiu.
— Convencido — corrigiu Harry. Ele tinha de ser. Ou já estaria aos pés de Gina, implorando. Chegaria a hora, prometeu a si mesmo, em que ela deixaria cair a última de suas defesas. — Eu quero você.
Um tremor subiu por toda a espinha de Gina.
— Eu sei.
— É. — Harry entrelaçou seus dedos nos dela. — Eu acho que você sabe.