“O arrependimento vem de todas as formas e tamanhos. Alguns são pequenos, como quando fazemos algo ruim por uma boa razão. Alguns são maiores, como quando decepcionamos um amigo. Alguns de nós escapamos das dores do arrependimento ao fazer a escolha certa. Alguns de nós temos pouco tempo para lamentar, porque estamos ansiosos para o futuro. Às vezes temos que lutar para ficarmos bem com o passado. E às vezes nós enterramos o nosso pesar, com a promessa de mudar o que fizemos.” – One Tree Hill
Capítulo 16
Não parece que em todos os momentos da nossa vida em que as coisas estão indo bem demais, alguém sempre acha alguma maneira de estragar tudo?
Talvez isso aconteça porque é natural que as coisas dêem errado de vez em quando. Talvez aconteçam porque precisamos cair para aprender com as derrotas e achar forças para levantar. Talvez seja dessa maneira porque assim nos mantemos constantemente à procura da felicidade, e não estagnados, assistindo à vida passar – mesmo que pareça um ótimo plano. Talvez seja porque “Deus escreve certo por linhas tortas”, ou porque “Deus age de maneiras misteriosas”.
Não tenho idéia de qual é a razão verdadeira. No entanto, isso é praticamente um fato. E por mais que às vezes demore a vir à tona, sempre acaba acontecendo.
E eu não poderia ser exceção. Obviamente.
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Fazia um dia tão bonito que eu estava quase animada, mesmo acordando cedo. Mesmo ainda sendo bastante frio. Porque um céu azul é sempre animador.
Minha mãe parou o carro em frente à escola e me despedi dela com um sorriso. Ainda era bem cedo, então os corredores da Marion Collins estavam bastante vazios. Andei tranquilamente até meu armário, com fones no ouvido, cantarolando 4 Minutes, da Madonna, por aí. A época dessa música já tinha passado há muito tempo, mas e daí?
Assim que entrei no corredor do meu armário, vi James parado em frente a ele. Ele estava sério, olhando para a parede oposta. Quando ele me avistou, eu sorri. Ele, estranhamente, não devolveu o sorriso, o que me levou a concluir que alguma coisa estava errada.
Puxei os fones dos ouvidos e me aproximei.
- Ei – eu disse. Ia beijá-lo, mas James me afastou com a mãe direita. Arqueei a sobrancelha. – O que foi?
Ele sorriu, mas sua expressão era completamente irônica.
- Andei ouvindo umas histórias. Gostaria que você as esclarecesse para mim, se não for muito incômodo. – Seu tom de voz era tão irônico quanto o sorriso que ele tinha no rosto até dizer essas palavras e voltar a usar uma expressão séria.
- Ok. O quê? – falei com cuidado, me perguntando o que poderia estar acontecendo para James estar falando dessa maneira comigo. Ele não fazia isso, não tinha usado esse tom de voz e esse tipo de ironia desde a primeira vez que nos beijamos.
- Algo sobre você ter escrito uma história para um concurso. Sobre um atleta imbecil que partia o coração de uma garota ou coisa assim.
Eu soube imediatamente – é evidente – que ele sabia. E eu não fazia a menor idéia do que deveria fazer ou dizer. Fiquei parada, milhares de coisas passando na minha cabeça, sem conseguir pensar em nada para falar ou me explicar. Então, James continuou:
- Você fez pesquisa para o seu conto, então, certo? Legal. É por isso que está comigo. Foi por isso que se aproximou de mim e deixou aquela porra de mensagem do Facebook. Porque você precisava de um idiota e acéfalo. E daí pensou “quem melhor do que James Potter? Vou me divertir fazendo Potter de trouxa”. Muito vilã de filme americano, Evans. Parabéns.
Os olhos dele eram tão frios que achei que pudessem me congelar a qualquer momento. Seu tom era tão, mas tão frio que quase me fez tremer.
Eu continuei sem saber o que dizer, parada feito uma idiota. Por que, sinceramente? O que eu poderia fazer? Eu tinha tido um mês inteiro ou mais para parar com o plano que obviamente não estava funcionando... E depois, tive tempo para contar para ele o verdadeiro motivo da minha aproximação, e explicar como eu tinha me arrependido e chegado à conclusão de que ele não era, de maneira alguma, o que eu imaginava. Porque se eu fosse sincera, se eu fosse honesta, talvez ele entendesse e ficasse feliz por eu ter, afinal, mudado de opinião. Só que eu não tive coragem. E agora estava tudo completamente arruinado.
- Sabe o que deixa mais puto, Evans? Que durante todo esse tempo eu estava tentando te impressionar. Estava tentando de mostrar um lado meu que você nunca fez questão de enxergar porque estava satisfeita achando que eu era um merda. E eu estava feliz, de uma maneira quase idiota, porque parecia que você estava impressionada, porque parecia que estava dando certo. Só que, obviamente, você não estava. Todo esse teatrinho só existiu para você escrever um conto para uma revista. Eu me sinto realmente idiota por não ter imaginado.
- James... – eu tentei começar, mas ele me interrompeu.
- E não sei se quero realmente começar a falar sobre o fato de você ter passado anos me julgando, como se um fosse um verme, parecendo ser tão perfeita. Não vou dizer que eu mudei por sua causa, porque isso seria hipocrisia, mas eu queria provar que podia ser bom o suficiente. Ah, James, mas que estupidez – ele terminou falando ironicamente a si mesmo, em tom de reprovação.
James parou de falar e encostou-se ao armário, não olhando para mim nem por mais um segundo. Eu sabia que era minha vez.
- James, eu... – Meu tom de voz era instável. Limpei a garganta e tentei recomeçar. – Acho que primeiro tenho que dizer que é verdade. Tudo isso. Foi por esse motivo que me aproximei de você. Eu julgava você, eu só queria um pouco de material para o meu conto. Só que eu nunca... Eu nunca poderia imaginar que você tinha esse lado, tão... Tão perfeito. Incrível. Me... Me desculpe.
Não era nada do que eu gostaria de ter dito, mas foi o que saiu. Eu não conseguia realmente decidir o que dizer, eu me sentia estúpida e sem total controle das minhas palavras. Se eu tivesse tido tempo para planejar uma resposta, ela teria sido diferente. Só que responder alguma coisa no exato momento em que tudo acontece é completamente diferente de escrever: escrever uma carta, um e-mail, um diálogo. Porque você não tem o controle de apagar, cortar, editar. Nem de planejar. E isso se mostrou ainda mais complicado do que o usual naquele momento.
James não respondeu, mas continuou ali. Eu nem sabia se ele estava me ouvindo. Resolvi tentar de novo e recomecei.
- Depois do dia em que você me levou para jantar, eu comecei a achar que estava cometendo um erro enorme. Eu já tinha percebido que meu julgamento não era válido de maneira alguma... Só que eu não consegui me afastar mesmo assim... Eu só não conseguia dizer por quê. James, eu realmente gostei de quem eu percebi que você era, mesmo com seus defeitos. Porque eu sei que não sou perfeita e não posso esperar que ninguém seja. Mas você... você era quase isso. E pode ter certeza de que se estou com você, desde que antes mesmo de você me beijar, é porque eu gosto de você. Não porque eu estou fazendo pesquisa.
Eu não consegui evitar e uma lágrima estúpida escorreu pela minha bochecha.
- Não é suficiente – ele disse, virando para me olhar nos olhos. – Não é suficiente porque é uma merda pensar que enquanto eu estava tentando fazer tudo dar certo, você estava contando uma mentira. Porque a única razão para você me dar a chance de fazer isso é justamente porque você achava, ou acha, ou o que seja, que eu sou um idiota. E isso, Evans, é péssimo. É ruim mesmo. Então o que eu tenho pra te dizer é que você seja muito feliz e aproveite o fato de ter feito de James Potter um completo idiota.
James virou as costas e saiu andando.
- James, espera – eu chamei, mas ele ignorou e continuou andando. E eu sabia que merecia. Eu merecia coisa pior. Eu era uma idiota, mentirosa e não sabia nem me desculpar por ter sido horrível. Eu sabia que não ia conseguir segurar as lágrimas, então virei na direção oposta e entrei no primeiro banheiro do caminho. Entrei em uma cabine vazia, me encostei à parede gelada e deixei as lágrimas escorrerem. Durou algum tempo. Eu não sabia dizer exatamente por que estava chorando – se era por ter perdido James ou por ter sido tão estúpida. Provavelmente era porque eu o tinha perdido por ter sido estúpida. Porque eu sabia que era tudo minha culpa. Porque eu sabia que não o merecia.
Em algum momento, no entanto, o que eu estava sentindo começou a se transformar de total arrependimento pela minha estupidez para raiva. Sim, raiva de mim mesma. Raiva de mim mesma por ter contado toda aquela história a Clarissa Vermont. Porque subitamente eu percebi que fora ela quem contara a James sobre o conto. Ela era uma das únicas duas pessoas dessa escola que sabiam sobre isso. A outra era Marlene. E por mais que Lene não concordasse comigo e achasse que estava fazendo algo errado, não tinha sido ela. Ela tinha dito que estava do meu lado. Ela era minha melhor amiga.
Saí da cabine e fui lavar meu rosto com água gelada da pia. Meus olhos estavam inchados, meu nariz estava vermelho e lápis preto tinha escorrido pelas minhas bochechas com as lágrimas. Mas eu consegui parecer quase saudável de novo depois de alguns minutos, e saí do banheiro. O sinal para a primeira aula ainda não tinha soado, de modo que saí apressada pelos corredores atrás de uma única pessoa. Clarissa.
Encontrei-a em um dos corredores mais lotados, perto da saída que leva à área comum dos três prédios da escola. Subitamente, eu me lembrei de como fora lá que eu descobri que James sabia um pouco de latim, por causa da escola onde ele estudava quando ainda morava em Liverpool. Não sei o quanto esse fato contribuiu para que eu me encantasse com ele, mas sei que pesou. Assim como todas as outras características dele, que iam surgindo na minha mente. Isso só fazia tudo ainda pior.
Assim que avistei Clarissa ali, com sua melhor amiga, eu não consegui me conter e cheguei perto dela falando mais alto do que o normal, ainda que não estivesse fazendo nenhum escândalo.
- Obrigada por ser o maior desapontamento que eu presenciei nos últimos anos – eu disse. – Porque assim eu não preciso me sentir culpada, por mim ou pelas meus amigos, por ter mantido você afastada de todo mundo desde que chegou.
Clarissa pareceu chateada, sua expressão não era contente.
- Lily... – ela começou, baixinho e de maneira fraca. Mas eu a interrompi:
- Sério, Clarissa? Eu contei uma coisa a você, uma coisa que eu só tinha contado para minha melhor amiga e o que você fez foi ir lá e espalhar a história? Quando eu disse a você que ia resolver tudo? – Eu já não estava sentindo tanta raiva. Eu me sentia frustrada e estúpida. E triste, muito triste.
Subitamente, eu percebi que não estava perdendo só um garoto absolutamente incrível. Eu também estava perdendo alguém que poderia vir a ser minha amiga. Alguém para quem eu tinha dado abertura, de modo que ela pudesse realmente se tornar uma grande amiga. Só que Clarissa não quis.
- Lily, me desculpe – ela disse. Parecia lamentar genuinamente. Só que eu não podia acreditar nisso. – Mesmo. Você sabe por que eu fiz, não sabe? Você não sabe o quanto é frustrante descobrir que alguém que você realmente admira, de quem você gosta muito, te desaponta. Você não sabe como é achar que está ganhando e merecendo aquela pessoa... Quando tudo não passa de uma mentira. Foi por isso que eu fiz. Não porque eu escolho James ao invés de você, não porque eu queria ser uma vaca ou porque eu queria acabar com a sua felicidade. Foi porque eu sei como é sentir isso, o quão frustrante e doloroso é. Como faz você se sentir idiota. E depois do que me aconteceu, é difícil assistir a uma situação parecida se desenrolar diante dos meus olhos e simplesmente não fazer nada... Embora eu tenha traído sua confiança. – A voz dela pareceu enfraquecer e diminuir à medida que ela falava. Clarissa parecia triste. Mas eu não estava pronta para entender e perdoar. – Eu não espero que você me perdoe ou que a gente vire grandes amigas depois disso... Mas gostaria que você entendesse o motivo.
- Claro. – Assenti. – É tudo muito bonito na teoria. Acontece, Clarissa, que você não tinha nada a ver com isso. Isso era entre eu e James. Apenas. E era eu quem tinha que ter contado tudo a ele. Não você.
Clairssa desviou o olhar e assentiu.
- Sim, você tem razão. Só que você não fez isso. Ou fez?
Eu fechei os olhos e balancei a cabeça em negação. Eu não queria perder o controle. Mais do que eu já tinha perdido, obviamente, já que estava brigando com uma garota no corredor da escola.
- Espero de verdade que um dia você vire uma pessoa decente – eu disse num tom de voz falsamente calmo. – Sério. E que te dêem uma nova chance. E espero de todo coração que você faça por merecer, e que quem quer se torne seu amigo, não seja obrigado a se arrepender dessa decisão, mesmo não querendo.
Eu dei às costas para ela e comecei a andar. Ouvi Clarissa me chamar:
- Lily... – Eu parei e virei de novo. – Eu lamento mesmo.
Sem dizer mais nada, tornei a virar as costas para Clarissa e sua amiga, e comecei a andar. Eu já estava atrasada para o primeiro tempo. O que era melhor do que qualquer coisa era ter uma aula de matemática logo depois de tudo aquilo, como se não fosse o suficiente.
- Com licença, Sr. Connor – falei timidamente, batendo na porta da minha sala de matemática.
- Entre, Srta. Evans. Feche a porta. E tente não se atrasar da próxima vez, se for possível – disse o professor num tom duro. Ele não estava de bom humor. Como acontece normalmente.
- Sim, senhor – concordei de cabeça baixa e andei até minha classe.
O Sr. Connor pôs a data no quadro negro e escreveu um título para começo de matéria. Parecia fascinante. Depois ele pegou uma pilha de papéis de sua mesa e começou a falar.
- Antes de começar o novo conteúdo, é de extrema importância que vocês vejam suas notas na última prova. Já aviso que não foram boas. Crianças, vocês precisam estudar mais. Larguem o computador, o celular e a televisão. É o futuro de vocês, e vocês estão jogando fora. – O professor Connor parecia realmente decepcionado conosco. Como se as nossas notas em sua matéria ou o nosso futuro realmente importassem para ele.
Naquele momento, eu percebi que talvez realmente importasse. Talvez os professores (ou pelo menos a maioria deles), de quem eu tanto reclamava, realmente quisessem ver as coisas dando certo na nossa vida. Porque eles, afinal, ajudam a construir as pessoas que nós, alunos, nos tornamos. Eles têm a missão de nos ensinar... E muitas vezes, não é só o conteúdo da sua disciplina.
Não sei exatamente por que comecei a pensar a respeito disso. Talvez (provavelmente) eu só estivesse predisposta a começar com reflexões sem sentido. Talvez.
O professor Connor ia chamando os alunos em ordem alfabética, para que eles pegassem as provas. Ele não fazia comentário algum, mas era fácil ver sua expressão decepcionada a cada aluno que levantava da cadeira e ia até a frente da sala. Quando chegou a minha vez, eu levantei já desanimada. Não era segredo que matemática estava longe de ser minha matéria preferida ou aquela na qual eu me destacava. O Sr. Connor estendeu minha prova na minha direção, e eu vi em caneta vermelha bem no topo um D. Ótimo. Só para fechar uma manhã maravilhosa com chave de ouro.
Voltei ao meu lugar e larguei a prova em cima da mesa, me encostei à cadeira e fechei os olhos. Não foi exatamente o fato de ter tirado uma nota ruim (porque isso já tinha acontecido antes, era sempre reversível e não era o fim do mundo) que me deixou ainda mais para baixo. Foi a percepção de que eu tinha falhado. Nisso também.
Eu tinha falhado com James, tinha falhado ao confiar em Clairssa, tinha falhado ao não escutar minha melhor amiga quando ela falou a coisa mais certa do mundo há alguns poucos meses e tinha falhado na minha prova de matemática.
Senti uma lágrima estúpida rolar pela minha bochecha, e minha vista embaçou por causa dos meus olhos marejados.
Eu obviamente não queria que meus colegas em volta pensassem que o motivo para eu estar chorando era ter tirado uma nota ruim em uma prova de matemática, porque não era, e isso era ridículo. Mas não fui rápida o suficiente para limpar as lágrimas.
- Srta. Evans, - chamou o Sr. Connor. – Quer dar uma volta e passar uma água no rosto? – ele perguntou, parecendo realmente ligar para o fato de eu estar chorando logo após ter recebido minha prova de volta. Afinal, professores não eram robôs. Nem mesmo o professor Connor.
Eu limpei meu rosto e enxuguei as lágrimas com a manga do meu casaco.
- Não, senhor. Obrigada – respondi. Ele assentiu e voltou a atenção para as provas.
Sabia que tinha algumas pessoas olhando na minha direção, mas também sabia que em cinco minutos eles esqueceriam disso. Pronto, era suficiente. Eu não precisava chorar. As pessoas falham, e errar é humano. Foi isso que eu aprendi.
Mas ainda assim, doía. Bastante.
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Só fui encontrar Marlene na hora do almoço, quatro tempos mais tarde. Não sei onde foi que ela se enfiou nos intervalos entre os períodos... Ou melhor, acho que sei sim. Miguel, o garoto latino dela. Eles não estavam juntos quando cheguei ao refeitório. Marlene estava lá com Alice, Frank e Edgar Bones. Edgar era o único que já tinha servido uma bandeja cheia de comida. Me senti um pouquinho mais feliz ao ver que era dia de macarrão com molho de tomate. Era uma especialidade das cozinheiras da Marion Collins. Uma das únicas coisas de que eu realmente, realmente gostava. E não tinha nada de frango. Graças a Deus.
Cheguei à mesa sorrindo. Eu parecia saudável e feliz de novo. Ou eu achava isso, porque assim que Lene me viu, ela perguntou:
- O que houve?
Eu me sentei ao seu lado.
- James terminou comigo – eu respondi diretamente. Lene pareceu não acreditar. Eu assenti, para que ela entendesse que estava falando totalmente sério.
- Ah, Lily... – ela disse em um tom triste, passando um braço pelos meus ombros, depois me abraçando. Eu acho que talvez já tivesse acabado com meu estoque de lágrimas ou alguma coisa assim, porque eu não chorei. Eu só fechei os olhos e encostei a cabeça no ombro dela e agradeci por ter uma melhor amiga que realmente se preocupa comigo. – Ele disse por quê? – ela perguntou suavemente, ainda me abraçando.
Eu a soltei e assenti.
- Ele descobriu. Sobre o conto – respondi. Apesar de ela ser a única na mesa que sabia sobre toda a história do conto, ninguém pareceu se importar muito por não estar informado a respeito. Eles estavam olhando com preocupação para mim.
Esse foi um daqueles momentos em que eu pude perceber o quão grata tenho que ser pelos amigos que eu fiz durante meus dezesseis anos. Todas as horas difíceis da minha vida teriam sido infinitamente mais dolorosas sem a presença deles. Eu sabia disso com toda a certeza.
Eu meio que estava esperando que Marlene dissesse “eu avisei” depois de ouvir os motivos de James para me largar. Apesar de eu saber que era improvável que ela fizesse uma coisa assim, eu estava esperando. Eu quase gostaria que alguém jogasse isso na minha cara. Talvez só fosse fazer com que eu me sentisse mais estúpida, mas pelo menos eu ia ter a certeza de que eu podia ter evitado tudo isso jogada na minha cara.
- Ei, Clarissa – ouvi Alice cumprimentando, quando Vermont passou por aqui. Ela acenou de longe e deu um sorriso, mas não veio até aqui. Pelo menos isso. – Eu meio que gosto dela agora, é até estranho – Alice comentou, quando Clarissa já tinha se afastado.
Bom, isso é ótimo. Meus amigos meio que gostam de Clarissa Vermont, por minha causa, e ela é uma péssima, terrível amiga. Eu até me sinto mal por ter insistido que eles a aceitassem.
Acho que Marlene entendeu o que tinha acontecido. Quero dizer, para James descobrir sobre o conto. Ela entendeu que só poderia ter sido com uma ajudinha de Clairssa Vermont. E talvez achasse que eu queria falar sobre isso, porque perguntou:
- Lily, quer ir comigo pegar o almoço?
Eu não queria falar sobre Clarissa com Marlene, porque já tinha pensado a respeito o suficiente e estava a fim de simplesmente deixar para trás.
Mas a verdade é que eu também precisava almoçar, e a comida estava com um cheiro ótimo, então concordei.
Não muitos passos depois, Marlene começou a falar:
- Foi Clairssa, não foi? Quem contou a James sobre o seu conto.
Assenti, dando de ombros.
- Wow, mas ela é realmente uma víbora. E você estava só tentando ser legal com ela...
- É. Bom, não importa. Quer dizer, é melhor eu descobrir agora, antes que eu começasse a considerá-la como uma verdadeira e grande amiga, ou alguma coisa assim. – Dei de ombros.
Quando nós chegamos na fila, vi James entrando no refeitório. Já tinha sido péssimo ter aula de inglês com ele; era muito mais reconfortante mantê-lo fora do meu campo de visão. E James não parecia chateado. É sério. Quero dizer, ele estava jogando Sudoku na aula de inglês. Ninguém consegue se sentir bem jogando Sudoku, se está chateado. Quando você está chateado, não pensa em jogar jogos de lógica ou inteligência ou Palavras Cruzadas do jornal de domingo.
Bom, é legal saber que eu não parti o coração dele.
James passou muito perto. Ele não olhou para mim. Quer dizer, ele fez questão de não olhar, como se eu fosse algo nojento e desagradável de que você desvia os olhos para preservar sua mente limpa. Quero dizer, ele não me olhou demonstrando repulsa. Mas foi assim que eu me senti – como um monte de lixo.
Era o que eu estava me sentindo, por ter sido estúpida.
- Eu não achei que fosse sentir isso alguma vez – eu recomecei a falar, com uma voz tão baixa que era quase inaudível em meio ao burburinho constante do refeitório que estava quase completamente cheio. – Não por alguém como ele.
- O que você quer dizer com “alguém como ele”, Lils? – Lene perguntou de maneira compreensiva, mas inquiridora. – Achei que você tinha deixado todos os rótulos para trás... – Ela sugeriu.
- Tem razão, eu deixei. Eu acho que queria dizer que nunca pensei que fosse... Que eu fosse me apaixonar por James Potter.
Meus olhos estavam marejados de novo, mas eu me apressei para secá-los enquanto ainda tinha as mãos livres. Acho que uma das piores coisas que podem acontecer é você não querer chorar de jeito nenhum, mas mesmo assim se ver com a vista embaçada por causa das lágrimas. Por mais que você tente contê-las e ignore aquela sensação na garganta que diz claramente que você vai se debulhar em lágrimas.
Marlene sorriu para mim, tentando amenizar a situação.
- Lils, só dê tempo ao tempo e deixe que ele trabalhe... James claramente gosta de você. E mesmo que eu e ele nunca tenhamos sido BFFs, tenho grandes dúvidas de que ele já tenha gostado de uma garota da maneira como ele gosta de você. Isso é visível, Lily. Ele precisa de tempo para esfriar a cabeça e estar pronto para ouvir seu pedido de desculpas e então perdoar você. Tenho certeza disso.
Eu gostaria de dizer que estava tão otimista como Marlene. Mas eu não estava.
Assim que peguei minha bandeja, fiz um esforço para direcionar minha mente para outras coisas. Como o novo conto que eu ainda precisava finalizar. Ou o artigo para o jornal da escola. E isso obviamente me lembrou de que errar é humano e que, de uma maneira ou de outra, ia dar certo no final. Porque um conhecido meu diz que “A cruz que recebemos só tem o peso que podemos carregar”. Se alguém cuja vida foi limitada, basicamente para sempre, conseguia dizer isso e se manter otimista, eu certamente era capaz de lidar com um coração partido, por mais brega que isso soe.
Porque tinham coisas muito piores acontecendo no mundo, todos os dias, com milhares de pessoas. Eu era só uma garota com saúde perfeita, todos os meus órgãos funcionando, uma casa, comida, escola, minha família e amigos incríveis.
Eu não tinha o direito de ficar me lamentando. E eu não ia.
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N/A: uma palavra para descrever esse capítulo: emo. Ok, sendo bem sincera, é como eu tenho andando ultimamente, então nada mais natural do que isso ser refletido na minha fanfic... NOT. Mesmo assim, a Lily está realmente chateada e acho que é compreensível, então deixei o capítulo ficar assim mesmo.
Segundo, desculpem pela demora para postar isso, mas... Bom, gente, isso se chama terceiro ano e para quem ainda não chegou, um aviso: não é nenhum monstro, mas é bem ruim. Além do mais, eu simplesmente não agüento mais aula de biologia, geografia, espanhol... Mas me consola saber que se eu passar no vestibular em janeiro, são meus últimos seis meses dessa chatice chamada ensino médio. Ok, paro por aqui porque sei que vou sentir falta depois.
Espero que alguém ainda leia isso, e espero que tenham gostado do capítulo... Eu sei que é péssimo que eles tenham terminado, mas é... Necessário. Enfim, acho que isso. Muito obrigada pelos comentários.
Beijo,
Fernanda M.