Capítulo 40
“Procurando por isso?” uma voz sem corpo perguntou à esquerda de Ron. Ele mal teve tempo de virar sua cabeça naquela direção quando, após um som de roçar de tecido, Harry apareceu no ar, sua capa de invisibilidade presa em sua mão e um olhar zangado gravado em seu rosto.
“HARRY!!!” Hermione guinchou, girando em volta para encarar o lugar onde ele havia se materializado e encontrando os olhos verdes dele em brasa
“Eu posso explicar,” Ron exclamou enquanto a cor fugia de seu rosto, tornando suas sardas ainda mais evidentes.
“Você pode explicar por que eu vi Hermione entrando no nosso dormitório ontem à noite e indo para a cama com você?” Harry perguntou, sua voz baixa e trêmula com a raiva contida. “Você pode explicar por que ela não saiu? Por que ela imperturbalizou sua cama e eu não pude abrir as cortinas e acordá-lo nessa manhã? Há quanto tempo isso está acontecendo? Há quanto tempo vocês dois estão dormindo juntos?” ele exigiu, dirigindo a pergunta, e seu o olhar furioso, para Ron.
“Harry, por favor...”
“Não é o que você está pensando,” Ron insistiu. “Nós não fizemos nada noite passada.”
“Eu tive um pesadelo,” Hermione tentou esclarecer. “Com o bicho-papão.”
“Eu tenho pesadelos o tempo todo,” Harry devolveu enquanto rodeava Hermione. “Você não me vê subindo na cama de Ron.”
“Eu sei que isso não faz sentido,” ela respondeu, soando mais que um pouco defensiva, “mas eu tinha que vê-lo. Eu tinha que ver que ele estava bem com meus próprios olhos. Esse é o único modo de fazer isso parar.”
“Sim, certo,” Harry murmurou, claramente não acreditando na explicação dela.
“Sabe de uma coisa, Harry,” Ron vociferou, a cor voltando ao seu rosto enquanto ele começava a se irritar. “Não importa se você acredita ou não. Essa é a verdade.”
“Uh-huh. E eu suponho que você irá me dizer agora, que essa é a primeira vez que isso acontece? Nem tente,” ele falou enquanto apontava para seus amigos alternadamente. “Vocês dois estavam muito à vontade juntos para que eu acredite nisso.”
“Essa não foi a primeira vez,” Hermione admitiu antes que Ron tivesse a chance de responder. “Nós fizemos isso durante todo o verão.”
“Não todo verão,” Ron insistiu, alcançando os olhos de Hermione e dando a ela um olhar que praticamente gritava, Você está louca?
“Então vocês dois têm se esgueirado pelas minhas costas e dormido juntos todo o verão?”
“Não,” Ron respondeu, a despeito do fato da acusação de Harry ser mais precisa do que ele imaginava. “Isso aconteceu na maioria das vezes no início do verão, quando ela estava tendo pesadelos todas as noites. Você nem mesmo estava lá, ainda.”
“Bem isso explica por que você esteve tão irritado todas as noites. Comigo dormindo no mesmo quarto que você, sem dúvida atrapalhava sua transa,” ele devolveu para Ron, fazendo Hermione ofegar alto.
“COMO É?” ela gritou indignada. “Eu acho que não gostei dessa sua insinuação.”
“Nem eu,” Ron falou, apertando seus olhos na direção de Harry. “Hermione, eu acho que você devia sair agora.”
“Eu não vou.”
“As aulas irão começar logo,” Ron lembrou-a, “e você ainda precisa se vestir.”
“Ron está certo,” Harry disse, segurando sua capa de invisibilidade no ar para que ela pegasse. “Se Simas ou Neville voltarem e pegarem você aqui, vestida assim, todos na escola irão saber disso antes do segundo período. Vá se vestir,” ele instruiu enquanto continuava olhando atentamente para seu melhor amigo. “Nós iremos encontrar você no salão comunal daqui a pouco.”
“Eu não vou a lugar nenhum,” Hermione afirmou, cruzando seus braços em frente ao peito, desafiadora.
“Hermione,” Ron grunhiu frustrado, finalmente quebrando o contato com o olhar de Harry e mirando-a diretamente. “Eu preciso que você saia,” falou, agarrando a capa de invisibilidade da mão estendida de Harry e empurrando nas mãos dela. “Só por alguns minutos,” adicionou, “para que eu possa me vestir.”
“Para que você possa se vestir?” ela perguntou, sabendo completamente bem que isso era uma desculpa que ele estava usando para se livrar dela. Ele não queria que ela saisse para poder se vestir; ele queria que ela saisse para ele poder dar a Harry a briga que ele estava procurando.
“Eu preciso que você saia,” ele repetiu, agarrando-a pelo braço e conduzindo-a para a porta. “Isso é algo que nós precisamos resolver sozinhos,” ele sussurrou, “e nós não podemos fazer isso com você aqui.”
“Certo,” Hermione respondeu sucintamente, libertando seu braço e olhando para Harry que observava-os intensamente. “Eu vou,” ela disse, abrindo a capa de invisibilidade e colocando-a sobre sua cabeça, “mas eu voltarei tão logo esteja vestida.”
“Certo,” Ron concordou, abrindo a porta para ela e olhando corredor abaixo para que não parecesse que ela tinha se aberto sozinha. Ele esperou até sentí-la passando por ele, e então fechou a porta, passou arrogantemente por Harry para recuperar sua varinha na mesa de cabeceira, e usou-a para fechar a porta e blindar o quarto. Isso não vai mantê-la lá fora por muito tempo, ele pensou enquanto despia a parte de baixo do pijama e colocava as calças que tinha descartado na noite anterior, mas tudo bem. Harry não vai ficar fazendo rodeios agora que estamos sozinhos. Nós só precisamos de poucos minutos.
"Está bem,” Harry falou rispidamente, enquanto observava Ron apanhar um novo par de meias e sentar no canto de sua cama. “Agora que ela saiu, eu quero a verdade. Há quanto tempo você está transando com Hermione?”
Isso novamente, Ron pensou ao amarrar seus sapatos, talvez ele esteja tentando fugir um pouco do problema. Não que ele fosse bobo. Ele conhecia Harry bem o bastante para saber o que estava realmente aborrecendo-o, mesmo que ele tentasse mascarar isso com alguma outra coisa. Não era o fato deles estarem juntos, nem o fato deles terem escondido isso dele. Se existia alguma coisa que Harry não aguentava era que as pessoas próximas a ele mantivessem segredos, mesmo que isso fosse para o bem dele.
“Nós não temos muito tempo, sabe?” Ron replicou ficando de pé novamente. “Então você poderia parar com os joguinhos e me perguntar o que realmente quer saber.”
“Seu bastardo atrevido!” Harry exclamou enquanto cobria rapidamente a distância entre eles.
“Pare de tentar transformar isso em algum tipo de relacionamento sórdido,” Ron berrou de volta, completamente sem medo da expressão furiosa emplastrada no rosto de seu amigo ou do fato dele estar cerrando seus punhos ao lado do corpo.
“Então você admite isso? Tem alguma coisa acontecendo entre vocês dois?”
“Sim, eu admito,” Ron respondeu calmamente. “Nós estamos juntos desde o começo de julho. Hermione queria contar a você na mesma hora, mas eu a dissuadi.”
“Oh sério, e por que isso?”
“Isso não importa, não é?” Ron perguntou de maneira retórica. “Não importa que nós estivemos tentando tornar as coisas fáceis para você. Tudo que importa para você é que nós não lhe contamos.”
“Fácil pra mim?” Harry devolveu. “Você não quer dizer, fácil pra você? Se você pensa que eu vou ficar sentado e deixar você flertar com uma das minhas melhores amigas...”
“Ela é uma das minhas melhores amigas também, caso você não tenha percebido,” Ron interrompeu.
"Você sem dúvida tem um jeito deturpado de mostrar isso. É dessa forma que você conforta sua amiga? Você espera até que ela esteja vulnerável e usa isso como uma oportunidade de tirar vantagens dela. Desde quando confortar uma amiga inclui transar com ela?”
Se tivesse sido qualquer outro que não seu melhor amigo, Ron teria respondido a essa pergunta com os punhos. Mas como era Harry, ele se empenhou para manter o controle de sua própria raiva e resistir ao impulso de socá-lo diretamente em sua grande boca. Bem no fundo ele sabia que Harry não acreditava naquilo que dizia. Ainda assim, ele não esperava que ele fosse desleal daquele jeito. Ao menos não tão cruel. Só depois de muito refletir foi que Ron percebeu que Harry estava tentando instigá-lo a dar o primeiro soco, de propósito.
“Você não acredita realmente nisso,” Ron respondeu, abrindo os punhos. Se Harry queria uma luta física teria que dar o primeiro golpe e sair como o cara mau.
“Você transou com ela?”
“Cai fora, Harry.”
“VOCÊ! TRANSOU! COM! ELA!” o jovem inflamado guinchou em plenos pulmões enquanto agarrava Ron pelo colarinho e puxava-o para perto.
“Isso não é da sua maldita conta,” Ron revidou, olhando fixamente para os olhos de Harry enquanto agarrava seus punhos, arrancava-os de sua camisa e empurrava-o , e dava um passo para trás.
“Então isso está certo? Eu posso somente sair e transar com sua irmã e você ficará bem com isso?”
“Hermione não é sua irmã.”
“É como se fosse.”
“Você está apaixonado pela minha irmã?” Ron rosnou furiosamente. “Você vai se casar com a minha irmã?”
"Não."
"ENTÃO MANTENHA SUAS MALDITAS MÃOS LONGE DELA!” ele rugiu. “Se você magoar Ginny eu juro por deus, eu vou...”
“Mas está tudo bem se você magoar Hermione?” Harry devolveu rapidamente. “Você não acha que ela está envolvida o bastante?”
“Eu sei muito bem o quanto ela está envolvida,” Ron berrou enquanto as amarras que seguravam sua própria raiva ameaçavam se romper. “Eu sou aquele que estava lá,” ele guinchou. “Eu sou aquele que a viu se sacrificar. Eu sou aquele que teve que carregá-la pelas malditas escadas abaixo quando ela escapou, porque estava tão fodida que mal podia andar. Eu sou aquele que ficou ao lado dela e segurou sua mão enquanto ela compartilhava suas memórias com Dumbledore. Você só viu flashes daquilo que eles fizeram,” ele exclamou, seu rosto vermelho de raiva. “Eu tive que ver cada maldito segundo daquilo. Eu tive que ver aquela vadia torturando-a. Eu tive que vê-la sorrir e gargalhar e ter prazer com aquilo, e isso me deixou destruido. Eu sou aquele que teve que observar Hermione reviver cada agonizante segundo do que eles fizeram. Eu sou aquele que estava lá para ela, Harry. Não você. Você estava preso em sua própria merda, como sempre.”
“Isso não é justo,” Harry protestou, vacilando por causa da intensidade do ataque de Ron. “Eu estava preso na Rua dos Alfeneiros. Não é minha culpa se eu não estava lá.”
“Nunca é, não é mesmo?”
“O que diabos isso quer dizer?”
“Que mesmo com tudo que ela passou, ela ainda coloca você e suas necessidades primeiro. A primeira coisa que ela fez quando escapou foi escrever para você, para que soubesse que ela estava bem. Antes mesmo de deixar minha mãe curá-la. Sua aflição era mais importante que a dela própria. Ela colocou você em primeiro lugar, porque ela é sua amiga e isso é o que os amigos fazem. Tudo que você fez foi escrever duas cartas para ela, mas você falou com ela sobre isso pessoalmente? Você perguntou a ela sobre como ela estava, ao menos uma vez depois que você se juntou a nós no Largo Grimmauld? Você falou com ela sobre os ataques aos nascidos-trouxas? Você sabe ao menos quanto medo ou quanta culpa ela sentiu? Não, você se trancou em seu quarto então você pôde pensar e sentir pena de si mesmo, porque isso é sempre sobre você, e o que você precisa. Bem, talvez dessa vez você perceba que você não é o único com cicatrizes,” Ron falou enquanto puxava a camisa com a qual dormira, pela cabeça e jogava-a sobre a cama antes de exibir os vergões em seus braços para Harry ver. “Você não foi o único que aquele mostro machucou. E você certamente não sabe como fazer para contornar a dor,” ele falou, apanhando uma camiseta limpa de dentro de seu malão e vestindo-a. “Você sabe que eu nunca fiz nada para magoar Hermione intencionalmente, então pare de usar isso como desculpa e admita o que realmente está te aborrecendo.”
“O fato que os meus melhores amigos estavam mentindo pra mim.”
“Nós não mentimos,” Ron replicou, arrancando suas vestes da cadeira onde estava jogada e colocou-a. “Nós só não contamos a você. Não é como se nós não quiséssemos. Só nunca surgia o momento certo. Isso não era algo que nós queriamos contar a você numa carta, especialmente enquanto você estava preso com aqueles trouxas horríveis. E quando nós finalmente estávamos todos juntos aconteceu aquela confusão com os ataques e a fuga da prisão e você estava um caco e isso só não pareceu tão importante. Só que quanto mais esperávamos, mais difícil era encontrar um jeito de contar a você. Olhe,” ele falou, retirando uma de suas gravatas escolares de dentro da gaveta e jogando sobre seu ombro. “Eu sinto muito que você tenha descoberto assim, mas está feito. Você sabe que Hermione e eu estamos juntos e você só tem que ir se acostumando. Nós estamos juntos por meses e isso não mudou nada entre nós,” ele adicionou, apontando de Harry para si mesmo enquanto se aproximava da porta. “E só para ficar bem claro, nós não estamos transando. Alguma outra pergunta?” Ron questionou, apontando sua varinha para a porta e desfazendo os feitiços que colocara ali.
“Tem mais alguma coisa que vocês estão me escondendo?”
“Sim,” Ron admitiu com um suspiro, “mas não porque eu quero. Eu não tive escolha.”
“Claro que você tem.”
“Não, não tenho. Me desculpe Harry, mas eu realmente não posso contar a você. Não até que você tenha aprendido toda aquela coisa de Oclumência. Essa conexão que você tem com Você-Sabe-Quem não é de um lado só, você sabe? Ele pode muito bem estar nos escutando agora mesmo e você nem mesmo saberia. Olhe, talvez você possa conversar com Hermione sobre isso. Eu tenho certeza que ela pode explicar isso melhor que eu. Talvez você não precise de Oclumência. Talvez Ginny esteja certa e aquelas partições funcionem. Eu não sei. Você tem que perguntar para Hermione. Você vem?” Ron perguntou ao abrir a porta e sair para o corredor.
“Não,” Harry respondeu, andando de volta para sua cama e desaparecendo atrás de suas cortinas.
“Certo então,” Ron disse, não vendo razão para continuar com a discussão. Provavelmente seria melhor se ele deixasse seu amigo se acalmar e refletir sobre o que quer que fosse. “Eu vou manter Hermione afastada o máximo que puder,” ele falou, antes de virar-se e descer até o salão comunal.