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9. Uma Segunda Chance


Fic: O Filho das Trevas - reescrita


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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- Uma Segunda Chance -


 


“I've been so lost since you've gone


Why not me before you?


Why did fate deceive me?


Everything turned out so wrong


Why did you leave me in silence?


 


You gave up the fight


You left me behind


All that's done's forgiven


You'll always be mine


I know deep inside


All that's done's forgiven”


 


Forgiven, Within Temptation


 


I


 


Ginny entrou em uma sala arredondada cheia de gente, algemada e escoltada por três Aurores. Era uma sala grande e escalonada, e no centro havia duas cadeiras com correntes. Ela já ouvira falar dos antigos tribunais do Ministério, mas nunca imaginara que colocaria os pés ali – ainda mais na posição de réu.


Olhando rapidamente pela sala, ela conseguiu encontrar vários conhecidos. Na sua maioria, Aurores, membros da Ordem da Fênix, mas especialmente sua família. Sua mãe parecia inconsolável ao lado de seu pai. Fred e George miravam-na com um misto de decepção e surpresa, talvez por estarem realmente presenciando seu julgamento. Bill estava ao lado de George, e a cadeira ao lado dele estava vaga. Ela podia imaginar Charlie ali, e sentiu-se ligeiramente nauseada. Percy estava na primeira fileira, ao lado de pessoas com ar importante, ligeiramente à esquerda do centro. Ron estava entre Harry e Hermione, ao fundo, junto dos Aurores.


A amiga fora uma ajuda incrível no pior momento de sua vida; Ginny lhe confiara a carta, para que não tirassem dela quando se entregasse - sua mais pessoal relíquia do homem que amava. Permitiu-a ler, por mais que Hermione lhe garantisse que guardaria fechada. O Pentagrama ficara dentro do envelope.


Ginny encarou Harry por dois segundos enquanto descia, e ele encarou de volta. Sentia gratidão e raiva ao mesmo tempo; era por mérito dele que estava tendo um julgamento, mas era também por seu mérito que Ginny sentia como se uma parte de sua alma estivesse retalhada. Sabia que a culpa não era totalmente de Harry, mas não conseguia se impedir de odiá-lo.


Ela chegou ao centro da sala. Suas algemas desapareceram e fizeram sinal para que ela se sentasse. Ginny obedeceu. As correntes apertaram-se ao redor de seus pulsos, embora não pensasse em fugir. Olhou para o júri à sua frente, e viu Dumbledore sorrindo para ela. Retribuiu, espontaneamente, um sorriso triste.


Estava do outro lado, era verdade, mas nunca desejara mal a nenhuma daquelas pessoas. Não de verdade. E Dumbledore parecia saber disso.


Percy levantou-se, de repente, e as poucas pessoas que murmuravam entre si se silenciaram. Ele olhou meio inseguro para o colega ao lado, que fez um gesto de incentivo com a cabeça. O irmão olhou para ela, respirou fundo, e disse:


- Estamos aqui hoje reunidos para o julgamento de Ginevra Weasley, acusada de apoiar, participar e executar crimes em nome de Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.


Ginny respirou fundo. Seu julgamento seria presidido pelo próprio irmão. Sabia que Percy gozava de um alto cargo no Ministério, no Departamento de Execução das Leis Mágicas, mas não imaginava que fosse tão alto assim.


Todos no salão encaravam-na agora, como se esperassem que ela negasse, mas Ginny não o fez. Aguardou em silêncio.


- Srta. Weasley, você se entregou por livre e espontânea vontade depois da morte d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado. Você ainda trouxe uma série de documentos que a incriminam. Por que fez isso? – perguntou Percy, disfarçando o desgosto que estava tendo de interrogar a irmã caçula na frente daquelas pessoas todas.


Ginny respirou fundo e respondeu com a voz mais firme que conseguiu arranjar.


- Fiz isso porque não nego qualquer acusação que tenham contra mim. Porque não faz sentido continuar, agora, e porque achei que talvez minha família se disponha a me perdoar um dia se eu me entregar pacificamente ao invés de fugir. E conto com uma oportunidade de me explicar.


Todos encaravam-na, sérios. Percy mirava-a avaliadoramente, considerando a resposta dela.


- Você tem o direito de se defender – disse, finalmente.


Ginny assentiu com a cabeça. Nunca fora ótima oradora, mas nem mesmo o medo de falar em público superava seu desconsolo. Espantou-se com o quanto sua voz saiu alta.


- Quando me juntei à Ordem das Trevas, tinha acabado de terminar o namoro com Harry Potter. Ele tinha me dito que era muito arriscado para mim e para minha família que continuássemos mantendo contato com ele. Me senti uma inútil – disse, olhando brevemente para Harry. - Quis provar para mim que eu não somente era capaz de cuidar de mim mesma, como de proteger a minha família também. Me lembrei que havia sido convidada pelo Lord das Trevas a me juntar a ele havia alguns meses, quando fui seqüestrada, e resolvi aceitar. Pensei que trabalhando para ele pudesse exigir e assegurar pessoalmente que os Comensais da Morte ficassem longe dos Weasley. Esse foi meu plano. Para comprovar o que digo, trouxe o contrato que assinei quando selei o acordo com o Lord das Trevas. Entreguei-o quando cheguei ao Ministério ontem.


Percy Weasley virou-se para um rapaz ao seu lado, que remexeu uns papeis e entregou-lhe o que Ginny reconheceu sendo seu contrato amarrotado. Percy leu-o atentamente, em silêncio. Em um momento, levantou os olhos para ela, com uma expressão estranha, depois entregou o pergaminho para um bruxo velho ao seu outro lado.


- E então? – perguntou em voz baixa para o homem, que aproximava os óculos dos olhos enquanto observava o pergaminho. Este murmurou dois encantamentos e tocou o papel com a varinha, mas nada aconteceu. Por fim o auditor ergueu os olhos para Percy, devolveu-lhe o papel e disse:


- Parece ser legítimo.


Percy limpou a garganta e leu o contrato para o júri. Lá também estava escrito que ela se opunha a matar e torturar pessoas e que desejava se manter anônima. Ele leu também a parte que Tom adquiria todos os direitos sobre sua pessoa, e a cláusula dos “serviços especiais”. Ginny sorriu suavemente para si mesma, melancólica. Era como se fizesse muito tempo desde que assinara esse contrato, e desde então tanta coisa mudara…


- Você confirma o que acabei de ler? – perguntou o irmão, voltando ao interrogatório.


- Absolutamente – respondeu ela, calmamente.


Ele pousou o papel na mesa à sua frente.


- Você também é acusada de ser GW, o braço direito d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, um Comensal da Morte muito procurado por arquitetar crimes hediondos. Gostaria de se defender dessa acusação?


Ginny sorriu friamente.


- Eu sou GW e Comandante Estrategista do Conselho de Planejamentos da Ordem das Trevas… Mas como acabou de ler no meu contrato, eu nunca matei ou torturei ninguém com as próprias mãos. E crimes hediondos? Eu acredito que não. Sempre fiz questão de observar em meus projetos que era possível executar os objetivos sem ferir ou matar ninguém; infelizmente isso nunca fez parte de minha jurisdição, por eu nunca sair em missão, então eu não podia fazer mais nada além de aconselhar os executores a serem brandos, mas isso nunca aconteceu. Não me orgulho disso, Percy, mas estava além de meus poderes. Apesar disso, eu era bem cotada como GW, e conseguia deferir a maioria dos projetos do grupo Cinco que eu considerava muito violentos. Fui repreendida por isso mais de uma vez.


Algumas pessoas inclinaram-se para cochichar umas com as outras. Pareciam não acreditar muito nela. Na fileira onde estava a maior parte de sua família, os olhares que recaiam sobre ela eram indefinidos. Ginny viu revolta, decepção, confiança, pena… Mas ela nunca fora tão boa quanto Tom em legilimancia e a distância complicava muito as coisas.


- Se você nunca matou ou torturou ninguém – retomou Percy -, como foi que chegou ao cargo que ocupava recentemente? Estamos a par da organização da Ordem das Trevas, e sabemos que precisava ser muito competente para chegar à elite da Ordem, o tal grupo Cinco.


Ela tinha certeza que chegariam a essa pergunta embaraçosa. Mas não lhe restava outra escolha a não ser responder. Sabia que a imprensa fora proibida de entrar no seu julgamento, e que qualquer coisa dita ali dentro era totalmente sigiloso, então não achava que isso fosse trazer problemas para seu filho.


- Bom, inicialmente eu ficava com as funções mais operárias, como executora de saques, auxiliar de almoxarifado e rouparia. Depois que fui para o grupo Sete, consegui um cargo de chefia, e não precisei mais sair de Basilisk Hall. Nessa época precisei extrair informações de alguns prisioneiros, mas quase sempre eu os conhecia e os fazia acreditar que eu estava infiltrada a mando do Ministério, e acabavam me dando as informações por vontade própria. Nunca torturei ninguém e era muito boa nas funções que desempenhava.


- E como conseguiu um cargo de chefia desempenhando trabalhos no almoxarifado e a rouparia? – quis saber Percy, muito desconfiado.


Ela suspirou.


- Foi fácil. Vê meu contrato? Há uma cláusula aí que diz “serviços especiais”. Foi com isso que consegui as promoções – respondeu, evasiva.


- Perfeitamente. Mas no que, exatamente, consistiam esses serviços especiais? – perguntou ele, começando a se irritar.


Ginny fez uma careta e deu um muxoxo de repreensão.


- Você é mesmo duro na queda, heim? Não vai gostar da resposta.


- Tente.


- Ok – fez ela, sentindo as próprias narinas se dilatarem de impaciência. Podia prever as caras de choque que a encarariam. – “Serviços especiais” significam que eu estava dormindo com ele.


Fez-se silêncio absoluto. Percy piscou, como se não tivesse entendido – ou não quisesse entender.


- Ele quem?


Ginny revirou os olhos.


- Com o Lord das Trevas, quem mais seria? A assinatura dele está aí, não está? – disse, impaciente. Na última fileira, viu Hermione colocar a mão na testa, de modo desaprovador.


A sala continuava silenciosa como uma tumba. Várias pessoas olhavam-na como se ela fosse o pior tipo de depravada. Outras pareciam horrorizadas imaginando coisas.


Ginny não se sentiu confortável com aquela súbita especulação mental de sua vida íntima. Pigarreou.


- Francamente, não vejo como isso pode ser relativo na minha sentença – disse, ligeiramente aborrecida. – Mas responde sua pergunta, não responde?


Percy foi salvo de responder quando a porta se abriu e um bruxo apressado correu até ele. O recém-chegado inclinou-se para o juiz e cochichou algo, brevemente. Percy confirmou com a cabeça e o homem tornou a sair.


- Parece que há uma testemunha a seu favor, Srta. Weasley. Insistiu para ser ouvida antes de ser enviada para Azkaban – disse Percy, em voz alta.


A porta tornou a se abrir e Ginny virou a cabeça para ver quem era. Bellatrix Lestrange entrou, algemada e impassível, seguida por sua escolta. Ela olhou para
Ginny brevemente, em seguida voltou a encarar os Aurores, que pareciam prestes a estalar as juntas em provocação.


A Comensal sentou-se ao seu lado e, mais violento do que acontecera com ela, as correntes apertaram seus pulsos contra os braços da cadeira. Ginny não entendia como um depoimento de uma das condenadas mais perigosas do momento iria ajudá-la.


E talvez nem fosse essa a intenção de Bellatrix.


As pessoas comentavam, em voz baixa. Ginny sentia-se insegura. Aquilo era algo pelo qual ela não esperaria nunca.


- Lestrange, você gostaria de depor a favor de Ginevra Weasley? – perguntou Percy, parecendo igualmente confuso.


- Não é óbvio? – respondeu a outra, seca.


Percy cerrou as sobrancelhas e fez sinal para que ela falasse, sentando-se.


Bellatrix olhou mais uma vez para ela antes de começar a depor.


- Quando Ginny Weasley apareceu na Ordem, ninguém de nós dava a mínima esperança de que ela conquistasse um cargo maior do que saqueadora de mantimentos – começou Bellatrix, sem pressa. – É claro que nos perguntávamos o que uma Weasley fazia ali no meio, e o que tinha combinado com o Lord das Trevas para que ele tivesse aceitado recrutar uma traidora do sangue, recém-formada e de Gryffindor, mas não nos importávamos com ela. Só que Ginny Weasley começou a ascender rápido demais e com atenções demais do nosso mestre. Começou a ter aulas com ele, mas não usava nada do que aprendia. Desconfiávamos de alguma coisa, mas não sabíamos ao certo o que era. Quando ela chegou ao grupo Cinco, encontrou um bando de pessoas hostis. Não gostávamos dela e nem ela da gente – estava sempre cheia de querer fazer com que usássemos menos violência com os prisioneiros, cheia de não querer sair em missões, cheia de não se misturar. Quem acha que Ginny Weasley teve uma vida fácil na Ordem das Trevas, está muito enganado.


Ginny olhava para Bellatrix, surpresa. Era a primeira vez que a ouvia defender alguém, e era quase irreal que a pessoa defendida fosse ela.


- Ainda assim, o Lord gostava dela. Passavam muito tempo conversando e ele dava muita importância às suas opiniões. Weasley sempre foi contrária à maioria dos princípios da Ordem, e fazia questão de se expressar, corajosamente. Às vezes ela se dava mal por causa disso, mas ainda era a protegida do Lord. Não gostávamos disso. Pessoas mais competentes e menos ousadas já haviam perdido a vida por causa disso, mas ela não. Foi então que tornou-se público, durante a fatídica festa que vocês devem se lembrar, de que eles estavam tendo um caso. Foi bem revoltante para a maioria de nós. Não a achávamos à altura da importância que estava recebendo. Era uma relação inaceitável. Mas ficamos quietos. Não tínhamos autoridade nenhuma para opinar naquele tipo de coisa. Se Ginny Weasley havia sido discriminada desde então, depois desse episódio, ela passou a ser ignorada.


Bellatrix olhou para ela, pensativa.


- Mas apesar de tudo, Weasley sempre entendera de estratégia. Foi mérito dela se tornar a Comensal mais procurada. Nesse ponto, nenhum de nós duvidava. Salvou nossas vidas várias vezes. Era uma Comandante respeitada por merecimento, apesar de termos tido nossas discordâncias. Depois de um tempo começamos a entender porque o Lord gostava dela; não era apenas mais uma pessoa interessada em poder e em estar do lado mais forte. Ginny Weasley era irreverente e incorruptível, estava ali para proteger a família e não abria mão de seus valores. E era engraçada. Trazia prosperidade para a Ordem, e com menos baixas do que antes. Apesar de sermos secos com ela, nunca fez propagando negativa da gente para nosso mestre. Estava fazendo dar certo o que planejara desde o princípio, e em troca devia entretê-lo. Era um acordo confuso: ela estava sendo digna a ponto de proteger a família e ao mesmo tempo se rebaixando ao nível de uma simples vagabunda. Conheci centenas de pessoas que não concordariam em fazer o que ela estava fazendo.


Ginny suspirou, comovida. Não imaginava o quanto Bellatrix estava a par da história.


- Mas depois de um tempo ficou claro que não era nenhum sacrifício para ela pagar suas condições. Ela estava apaixonada, e depois ficou óbvio de que ele também estava. Não faziam mais questão de se esconderem. Ele a assumiu e estavam vivendo como marido e mulher, ultimamente. Ele sabia que isso era perigoso, mas insistiu. Nos últimos meses, ele já não se importava tanto com a Ordem e seus objetivos, contanto que Ginny Weasley estivesse saudável e segura. Nos últimos dias ele não via mais sentido em continuar com a guerra. Achava que era o maior risco para ela que continuasse vivendo – disse Bellatrix, tremendo a voz pela primeira vez. Engoliu em seco e continuou. – Ouçam o que digo: se há alguém responsável pelo fim da guerra, essa pessoa é Ginny Weasley.


Ginny estava com os olhos rasos d’água e sentia um aperto na garganta. Sabia disso, como um fantasma no fundo de sua mente que minguava seu apetite, mas ouvir tudo aquilo era doloroso demais - era ouvir que fora a única responsável pela morte de Tom, o homem que mais amava na vida…


Bellatrix olhou-a, preocupada.


- Me desculpe. Ele conversou comigo antes de morrer, e eu achei que eles deviam saber – disse-lhe, em voz baixa.


Ginny engoliu o choro e concordou com a cabeça. Bellatrix voltou a olhar para o júri.


- Eu matei noventa e três pessoas até onde contei, e estou afirmando que Ginny nunca foi como eu. Não acho justo que uma pessoa boa e digna como ela, cujo único crime foi ter ousado se envolver com alguém improvável e ter se apaixonado, deva ser condenada. Também não acho justo que tranquem numa cela fedida com pessoas como eu alguém tão… pura – disse Bellatrix, firme, encarando as pessoas. – E era só isso o que eu queria dizer.


A maioria do júri encarava Bellatrix, absortos. Outros olhavam para baixo, pensativos. Um bilhete chegou até Percy, que parecia distraído. Alguns bruxos da fileira de trás inclinara-se para cochichar com ele, que concordou com a cabeça algumas vezes. Por fim tornou a levantar-se e dirigiu-se a Bellatrix.


- Seu depoimento é muito relevante, Sra. Lestrange, mas estamos incertos se devemos aceitá-lo ou não. O que a levou a defender a Srta. Weasley se, como você mesma disse, nunca gostou dela?


Bellatrix cruzou as pernas, calmamente.


- Bom, há trinta anos eu escolhi uma razão para viver, um motivo pelo qual eu seguiria fielmente até o fim da minha vida. Essa razão era o Lord das Trevas. Se ele dava tanta importância a essa menina o suficiente para se dispor a morrer por ela, quem sou eu para discordar? Não é mais do que minha obrigação continuar a defender os interesses dele, mesmo que ele não possa – respondeu a Comensal, impassível. – Só quero que o corpo dele esfrie em paz. Sei que ele teria muito orgulho de mim por isso.


Ginny sentiu muito orgulho de Bellatrix. Ela podia ser uma assassina, mas tinha seus valores; sua fidelidade e determinação eram invejáveis. A gratidão de Ginny por Bellatrix Lestrange era a maior que já sentira por alguém.


- Eu tenho certeza de que ele estaria muito orgulhoso de você, Bella – sussurrou Ginny, muito grata, olhando-a. A outra apenas contemplou-a e, depois de algum tempo, sorriu fracamente.


- Eu sei – respondeu-lhe a outra, sem a habitual secura na voz. Era quase uma voz amiga. - Cuida bem dessa criança.


Ginny assentiu com a cabeça, grata.


- Muito obrigado pelo seu depoimento, Sra. Lestrange – disse Percy, e as correntes soltaram-se dos pulsos da Comensal. Bellatrix levantou-se e não tornou a olhar para Ginny. Encarou as pessoas ao redor uma última vez enquanto era algemada e subiu em direção à saída, guiada pelos guardas.


A sala borbulhava murmúrios e cochichos. Nos fundos, Harry fitava-a, distante, de braços cruzados, enquanto Hermione conversava em voz baixa com Ron, que parecia meio inconformado. Mais abaixo, Nymphadora Tonks trocava opiniões com Olho-Tonto Moody, e Remus Lupin tinha a mesma expressão de Harry. Kingsley Shacklebolt discordava com a cabeça de algo que um Auror que ela não conhecia lhe dizia. Algumas fileiras abaixo seu pai consolava sua mãe, que chorava compulsivamente. Fred e George se entreolhavam em silêncio, e Bill mordia o lábio, preocupado. Mais perto dela, Percy estava quieto enquanto os bruxos ao redor dele discutiam em voz baixa, e ligeiramente à sua direita, Dumbledore continuava sorrindo para ela.


Enquanto ela olhava, o diretor piscou-lhe, discretamente. Ele parecia bastante confiante. Mas havia algo além de confiança, como se ele quisesse lhe dizer algo. Ginny estreitou um pouco os olhos, e captou um pensamento.


Você não tem uma Marca Negra, tem, Srta. Weasley?


Ela piscou. Que pensamento improvável. Mesmo assim, respondeu, mentalmente.


Não… Eu não quis uma.


O sorriso dele se alargou quase imperceptivelmente, então ele recostou-se na cadeira e voltou o olhar para os juízes.


Ginny realmente não sabia o que esperar daquele julgamento. Não fora para lá esperando ser absolvida, apenas achou que era sua única oportunidade de expor seus motivos para os Weasley, mas parecia que as pessoas estavam realmente em dúvida.


Então, pela primeira vez, ela sentiu uma coisa muito estranha e maravilhosa ao mesmo tempo: algo se mexeu em sua barriga. Ela olhou, abismada, para o ventre coberto e camuflado, totalmente surpresa. O chute de seu bebê parecia uma manifestação de apoio.


Então Ginny soube, com todas as partículas de seu corpo, que não podia ir para Azkaban. Como é que poderia se separar de seu bebê quando ele mais precisaria dela? Como é que pudera ignorar a vontade de Tom, que ela e o filho ficassem bem juntos, quando ele morrera por isso? Onde estava com a cabeça quando se entregou?!


Ela olhou desesperada para o juri, que ainda discutia seu destino, procurando um olhar amigo. Passado o assombro de pânico, ela viu que Hermione a olhava preocupada, como se tivesse percebido sua movimentação diferente. Ginny sustentou seu olhar, suplicante, esperando que ela entendesse e a ajudasse. A amiga cerrou as sobrancelhas, tensa, enquanto parecia tomar alguma decisão. Por fim, ela viu a outra olhar para ela de um modo como quem estava prestes a se arrepender de alguma coisa, deu um suspiro e levantou-se.


O fundo do tribunal ficou mais silencioso assim que a amiga ficou em pé, embora o restante fosse se calar apenas depois que ela falasse.


- Eu também gostaria de depor em favor de Ginny Weasley - disse Hermione, em voz alta e firme. Ron olhava para a noiva em choque.


O silêncio se fez completo, como quando Bellatrix falara. Percy e os outros bruxos importantes se viraram para ver de onde vinha o pedido. Eles se entreolharam por alguns instantes, então o irmão fez sinal para que Hermione falasse.


- Eu estive em contato com Ginny Weasley durante os últimos quatro meses - declarou a outra, firmemente. Ginny sentia-se tanto grata quanto culpada: aquilo meteria Hermione em um inquérito e poderia acabar com sua carreira no Ministério definitivamente. A amiga respirou fundo e continuou: - Eu resolvi ir até Basilisk Hall um dia desses, sozinha, por curiosidade, e acabei me encontrando com ela. Eu teria sido capturada e morta se ela não tivesse me encobertado, arriscando a própria vida. Estive à apenas alguns passos de Voldemort, e ela teve a coragem de mentir para ele para que pudesse me tirar de lá. Desde então vinha falando com ela por cartas. Confirmo tudo o que foi dito por ela e por Bellatrix Lestrange.


O júri encarava a Aurora, chocado. Uma funcionária do Ministério especializada no combate das Artes das Trevas, acobertando GW! Escândalo.


- Eu também quero depor em favor dela - disse uma voz masculina bem à esquerda. Todos viraram-se, de repente. Ginny viu Neville Longbotton, subitamente corajoso, em pé. Ele encarava-a com um brilho estranho nos olho, fazendo seu coração bater bem rápido. A essa altura ele já devia ter percebido que fora enganado. - Fui capturado em agosto pelos Comensais da Morte, e Ginny Weasley me ajudou. Ela pediu para ser torturada no meu lugar, quando Você-Sabe-Quem quis saber informações sigilosas da Ordem da Fênix. Não foi fingimento, não havia como ser… E graças a ela, eu estou vivo. Não contei a ninguém que a vira porque me pediram para guardar segredo.


Depois desse depoimento, três ou quatro bruxos e bruxas se levantaram, esparsamente, confirmando que ela os ajudara a serem soltos do claustro da Ordem das Trevas, apesar do espanto geral sobre a revelação do envolvimento do incorruptível Harry Potter no esquema. Ela os reconheceu como amigos e conhecidos que libertara anteriormente. Os bruxos presentes estavam pasmos com o surto de depoimentos favoráveis à Comensal da Morte mais procurada da história.


Então uma bruxa duas fileiras atrás de Percy se levantou. Ginny não a conhecia, mas ela parecia estranhamente familiar.


- Meu filho era um Comensal da Morte - anunciou ela, numa voz imponente, e muitos rostos boquiabertos voltaram-se para ela. Obviamente era uma bruxa importante, pelo lugar que ocupava e pelo modo como todos pareciam totalmente perplexos com a notícia. A senhora elegante de vestes púrpura encarava-a inflexivelmente com olhos muito vivos, cor de mel, indiferente ao furor que causara. - Ele pertencia ao grupo Cinco. É como se eu conhecesse GW minha vida toda, pelo tanto de vezes que o ouvi falar sobre ela. E nunca, durante todo esse tempo, meu filho sequer mencionou qualquer coisa que pudesse comparar essa garota a qualquer outra pessoa horrível com quem conviviam. Ele sempre me dizia como os outros contrariavam seus projetos bem-intencionados, como ela se arriscava enfrentando-os e como era discriminada pelo restante dos colegas. Ele sempre gostou muito dela e a citava como o maior exemplo de que pessoas boas podiam ir parar em lugares errados. Ele sempre dizia… que ela era o maior motivo pelo qual ele ainda estava lá…


A mulher terminou seu discurso involuntariamente, impedida pelo choro que queria disputar com a voz. Ginny sentia as lágrimas queimarem os olhos como lava. Ela reconhecera os olhos cor de mel que a fitavam com a dor que só uma mãe podia sentir. Ela reconhecera a afeição protetora que vinha deles, como se atendessem a um último pedido não verbalizado. Ela podia sentir a dor dessa mulher bem o suficiente, porque era a mesma que sentia.


- Sra. Dean! - disse Ginny, a voz tão desolada quanto, igualmente ignorando a multidão de pessoas ao redor delas. - Eu sinto muito! Eu me sinto tão… tão culpada!


- Eu não estou te culpando, querida - disse a senhora, recuperando o controle das emoções. - A última coisa que ele me disse foi que estava feliz por você mas… - ela pareceu um pouco incerta, mas continuou: - …Mas que a reputação dele dependia do próximo jogo dos Wasps.


Ginny riu e chorou ao mesmo tempo. Não era uma coisa muito digna para uma última conversa, mas era muito digna de Jack. Ela ficou feliz em saber disso, apesar de tudo. A mãe dele também pareceu, porque foi com um sorriso orgulhoso e despreocupado que ela tornou a se sentar, os olhos ainda muito úmidos, embora as pessoas ainda a olhassem com espanto.


Era óbvio que todos encaravam com choque aquela avalanche de escândalos.


- Ela salvou minha vida em setembro - disse uma voz, vinda dos fundos, que ela conhecia. Ron parecia contrariado, mas impossibilitado de não fazer nada. Ela lhe sorriu quando ele a olhou, fazendo-o ficar um pouco vermelho. - Impediu Você-Sabe-Quem de revidar um ataque que me teria sido fatal.


- Também tenho um depoimento a favor da réu - disse uma voz bem conhecida de todos, à ligeira direita de Ginny. Ela piscou para desobstruir a visão das lágrimas antes de encarar Dumbledore, ansiosa.


Ele se levantou despreocupadamente, e seus olhos azuis fixos nela eram tão tranqüilos como o sorriso que ele ostentava.


- Queria expressar minha gratidão pelo modo louvável como Ginny liderou a invasão em minha escola no mês passado. Um grupo todo dos bruxos mais inclinados à violência que já conheci sob comando dela e nenhum aluno ferido. Ela tinha realmente bastante influência sobre Voldemort para conseguir um feito deste. Tanta influência que a poupou da prova mais significativa que poderíamos ter contra ela: a Marca Negra.


Ginny não entendia o quão surpreendente era aquela revelação. Até onde sabia, não ter um marca que a incriminaria mais não tinha peso algum contra as provas que ela apresentara de sua participação naquilo. A não ser que…


- Se o motivo pelo qual os senhores ainda não absolveram essa garota é a culpa de mandar alguém com a Marca Negra de volta para as ruas, ele não existe mais - continuou Dumbledore, fazendo algumas pessoas se entreolharem. - Todos nessa sala já tiveram provas o suficiente da conduta de Ginny Weasley na Ordem das Trevas, da veracidade de seus motivos e do papel extremamente importante dela no desfecho dessa guerra. Apenas vocês sabem que GW e esta jovem Weasley são a mesma pessoa, e agora sabem que ela não merece a pena a qual será condenada.


- Não - cortou uma voz firme vinda de algum lugar lá nos fundos. Os presentes se viraram, procurando quem é que interrompera Dumbledore, mas Ginny percebeu que o diretor sorriu discretamente para ninguém em especial ao ouvir a voz. Ninguém, porém, se levantou. - Vocês todos falam tão bem dela, tudo parece tão heróico e tão bonito…


Ela sabia quem estava falando. Tinha esperanças de ter feito as pazes com ele, mas pelo visto pouca coisa mudara desde que se encontraram pela última vez. Harry não se levantou, por isso todos demoraram um pouco para encontrar a fonte do discurso.


- Ninguém falou do modo covarde como ela abandonou a família e os amigos, sem dar notícias e sem dizer ao menos que estava viva; ninguém falou no meio infeliz e desonesto que ela utilizou para se dar bem na Ordem das Trevas; ninguém falou sobre seu caráter duvidoso, que a fazia mentir tanto para quem dizia proteger tanto para quem dizia servir. Me diz, Ginny: você não se importa com isso? - perguntou ele, da última cadeira do tribunal, olhando-a de modo penetrante. - Como espera que alguém nessa sala possa te perdoar com todas essas falhas de personalidade?


Ela estava admirada. Não sabia que ele via as coisas desse modo.


- Você sabe dos meus motivos, Harry - respondeu ela, controlada.


Ele riu, sarcástico, para sua surpresa.


- Quais deles? Seu nobre interesse em proteger sua família, sua vergonhosa atração por ele ou sua raiva por mim? - perguntou o outro, agressivamente. Aquilo não parecia Harry.


- Os três são bons motivos, na minha concepção - respondeu a garota, com frieza.


- Então está me responsabilizando por ter sido um dos fatores que te fez sair de casa e se tornar GW? - questionou ele, com um sorriso incrédulo. Ron e Hermione olhavam-no como se ele tivesse perdido a razão. - Por que eu terminei com você, é o que está dizendo?


Ela sentiu as narinas expandirem de raiva - o que ele queria provar explicitando aquele assunto particular? Que era uma vítima? Se controlou, porém, antes de responder:


- Se isso te deixa feliz, Harry, sim, pode se considerar um dos motivos pelo qual eu saí de casa e passei a trabalhar para o Lord das Trevas. E acredite, ele foi muito, mas muito mais sensível do que você.


- Claro que foi… Você também considera o fato de eu não ter te impedido e não ter declarado ao Ministério que, durante todo esse tempo, eu soube que era você… Você considera isso um fator determinante como incentivo a sua atuação na Ordem das Trevas? - continuou ele, tão inflamado que ela teve um pouco de dificuldade para entender suas palavras.


- Mas que inferno, Harry! Fique com toda a culpa, se quer tanto! - retrucou ela, extremamente irritada com aquele monte de afirmações que não passavam pela sua cabeça mais havia meses.


Àquela altura, nenhum dos dois dava mais importância à platéia boquiaberta com a repentina lavagem de roupa suja.


Ainda de modo assustador e frenético, Harry deu uma risada de desdém, para desespero dos dois amigos ao lado, que o olhavam com as bocas abertas.


- Veja que irônico: parece que sou tão cheio de falhas de personalidade quanto você! Incentivei a formação de um Comensal da Morte, menti para meus amigos que são minha única família, traí o Ministério… Me aproveitei de defeitos causados por um feitiço mal-sucedido para incitar um bruxo decadente a perder com dignidade - disse ele, a voz mais ausente de orgulho que ela jamais ouvira, causando-lhe um calafrio nauseante. Seu olhar firmava-se nela, sem vacilar, duro e incandescente, assustando-a. - Ginny Weasley, casa comigo?


Ela demorou mais do que o normal para processar aquela última informação, e então piscou forte, achando que estava tendo algum tipo de alucinação ou sonho - as últimas horas de sua vida haviam sido tão inacreditáveis que realmente podia ser um. Superada a constatação de que não se tratava de um sonho, Ginny cogitou a possibilidade de uma piada de muito mau-gosto.


O restante do júri não parecia estar tão atrás do choque dela. Por mais que Harry estivesse fora de si, ele nunca brincaria com algo de tamanha relevância num momento crítico daqueles. O silêncio pairava no tribunal como se nem os corações batessem. Ginny não precisava ter visto outro julgamento para adivinhar que o seu estava sendo o mais espetacular da história.


- Onde foi que você bateu com a cabeça? - perguntou ela, por fim, fazendo sua voz ecoar no salão silencioso, quando recuperou a fala. Por mais absurdo que fosse aquele pedido de casamento repentino, ela achava que era óbvio que nunca se casaria com o executor de seu amado.


Mas ele apenas sorriu em resposta. De repente seus olhos eram claramente confiantes.


- Percy, o que você acha de liberdade condicional, neste caso? - perguntou o Auror, casualmente, se dirigindo ao Weasley na primeira fileira, que pareceu simplesmente perplexo ao ter sua opinião requisitada. Neste momento, ao lado de Harry, Hermione soltou uma exclamação exultante, o que fez Ginny pensar que a loucura de Harry, no caso, era contagiosa.


Quando o irmão se restabeleceu do choque, começou a fazer ao Auror perguntas incompreensíveis.


- Com essa condição? Quanto à supervisão…


- Me responsabilizaria pessoalmente, claro, se aceitassem - respondeu o outro, ainda ignorando as dezenas de olhares que iam e vinham dele para Percy.


- Mas teria repercussão; como explicaríamos para as pessoas?


- Eu e a família forjamos sua morte e a mandamos para fora do país por precaução depois do ataque. Não me parece uma explicação absurda.


- Você faria isso, Harry? Mesmo sabendo que…? - Percy deixou a frase sem fim, sugestivamente. Ginny se recusava a acreditar que estavam falando sobre o que achava que estavam.


- Mesmo assim. E confie em mim, tenho motivos mais fortes do que vingança pessoal para propor isso - disse Harry, em tom de quem encerra o assunto.


Percy continuou encarando-o por alguns segundos, de costas para Ginny, mas quando se virou e se levantou, era com um sorriso satisfeito no rosto.


- Harry Potter está propondo a réu liberdade condicional, firmada em um casamento. Ela terá que abdicar qualquer vestígio que tenha do período em que se denominava GW e será proibida de falar sobre isso com qualquer outra pessoa que não esteja nesse tribunal. A explicação de seu retorno seria baseada no contexto de que sua morte foi forjada e foi mandada para o exterior por motivos de segurança depois do seqüestro ocorrido pouco tempo antes; o fato de ela não ter a Marca Negra ajudaria a sustentar a história. Harry Potter se responsabilizaria inteiramente pela conduta da réu caso esta aceite sua proposta - disse Percy, em voz alta, de modo profissional, embora seu sorriso largo fosse totalmente parcial. - Levante a mão quem aceita a proposta como sentença da acusada.


Ginny estava pasma. Era realmente o que ela pensara que era. Como Harry podia ter a coragem de propor um despropósito daqueles? Soava extremamente errado mesmo aos ouvidos dela, o que diria aos ouvidos dos velhos bruxos dos conselhos do Ministério. Aquilo envolvia mentira, cárcere privado e coerção; certamente não propunham aquele tipo de coisa nos imaculados tribunais do Ministério.


Para sua fúria, porém, algumas pessoas começaram a levantar a mão. Sua família e os que depuseram a seu favor foram os primeiros a fazer isso. Ela reconheceu os membros da Ordem da Fênix fazendo-o em seguida, e depois todo o departamento de Aurores. Alguns sorriam-lhe enquanto estendiam as mãos. Qual era o problema dessas pessoas? Ela mandara segui-los e atacá-los durante quase dois anos, e ainda os esculachara em primeiras páginas de jornais seguidas!


Completos estranhos lhe dirigiam sorrisos culpados enquanto levantavam as mãos. Ela não podia acreditar que eles tinham entendido a parte em que ela fora acusada e confirmara todas as acusações, porque aquilo não era possível.


Mais da metade do salão arredondado já estava com as mãos levantadas, mas as pessoas continuavam a endossá-las. Os cochichos recomeçaram, como um chiado animado e ansioso de quem fazia algo errado propositalmente. Então ela ouviu uma exclamação muito alta de repente, vinda do meio das mãos levantadas:


- Não pense que ia consegui-la de outro jeito, Harry, cunhado!


- Só se fosse por cima de nosso cadáver - completou o outro gêmeo, fazendo todos rirem, descontraindo os que ainda não estavam achando graça. - Ela já está bem encrencada sem um noivo!


Ela quase riu, mas estava se sentindo traída demais para isso.


Percy parecia satisfeito quando se voltou da contagem.


- E então, Ginny? Você aceita a proposta de Harry ou prefere ir para Azkaban? - perguntou, com um sorriso presunçoso.


A garota fez uma careta com a injustiça das alternativas que tinha em mãos. Seus impulsos diziam para mandar Harry ir se foder, mas outro ligeiro movimento em seu útero agiu como um lembrete, fazendo-a aterrissar com os pés no chão na mesma hora.


Harry poderia chamá-la de esposa, mas nunca a teria.


- Aceito - respondeu, por fim, com crueza, os olhos faiscando em direção ao futuro-marido. Ele certamente entendeu seus pensamentos, pelo modo como seu sorriso estremeceu levemente.


As correntes que prendiam seus pulsos se retraíram, pendendo soltas nos braços da cadeira. Ginny ainda não acreditava no seu destino quando levantou os olhos dos pulsos cicatrizados que faziam parte dela e viu Hermione saltando o beiral que a separava dos presentes para apertá-la no abraço que significava sua liberdade, seguida de perto pela sua família e seus amigos.


 


II


 


Dezessete anos separavam aquelas lembranças da Ginny adulta que via no espelho. Os pulsos apoiados na penteadeira ainda ostentavam as marcas brancas e lisas que ela tinha como um lembrete dos dias que fizeram com que sua vida mudasse completamente.


Ginny não sabia se tudo o que sofrera fora necessário, mas sabia que faria tudo de novo. Aquilo fazia mais parte dela do que jamais pensara que fosse capaz. A aliança em seu dedo significava muito, mas ainda era menos do que significavam aquelas cicatrizes.


Ela poderia dizer que elas significavam sua vida, sua personalidade e seu fado. Era como se nunca tivesse existido antes delas.


Era assustador, agora que pensava, que ela tivesse sido um fator determinante para o fim de uma guerra antes mesmo dos vinte anos. As experiências pela qual passara até ali faziam dela uma bruxa mais vivenciada e mais poderosa do que grande parte dos bruxos mais velhos do que ela, e era extremamente irônico que hoje fosse apenas uma dona de casa.


Seus primeiros meses de volta a sociedade foram difíceis, mas Ginny nunca fora realmente alguém que não se adaptava. Passara um mês em casa, junto com o restante dos Weasley, recuperando a ralação abalada com sua família, e então se casara em fevereiro, junto com Ron e Hermione. Felizmente, seu relacionamento com seus pais e irmãos voltaram a ser satisfatórios, quase como antes, embora o bebê que crescia em sua barriga fosse uma lembrança constante de que as coisas nunca mais seriam como eram.


Obviamente, a história inventada por eles para explicar sua repentina reaparição foi cegamente aceita pela comunidade bruxa, que aprovou o procedimento. Seu casamento teve tanta repercussão quanto acharam que teria. Harry Potter, herói do momento, com a jovem e adorável Weasley, enquanto o irmão, fiel amigo e braço direito do primeiro, estaria fazendo votos à Hermione Granger, na mesma cerimônia. A imprensa foi à loucura e Ginny ficou em segundo plano, como se durante todo este tempo tivesse estado alheia de todo o perigo e ação, como uma princesa na torre. E até onde ela sabia, muitas garotas, inclusive, detestaram saber que ela seria a “sortuda”.


A imprensa também reparou na pressa do casamento e em sua barriga discretamente saliente, mas as pessoas não se importaram de verdade.


Deu a luz no final de abril, com oito meses e alguns dias. O bebê era grande, saudável e extremamente tranqüilo. Até então, falava com Harry apenas o estritamente necessário e fazia questão de dormir em quartos separados - ainda não se conformara que ele tivesse manipulado a situação para tê-la.


Mas o nascimento de filho deu outros rumos ao seu casamento de conveniência. Harry Potter não tinha absolutamente nada contra o filho da mulher que amava com seu maior inimigo - pelo contrário: Harry gostou do garoto desde o momento em que o viu pela primeira vez e encarnou definitivamente o papel de pai. A dedicação dele foi tanta que Ginny sentiu a consciência pesar: Harry era uma pessoa boa, afinal de contas, e não tinha segundas intenções quando a pediu em casamento. Aparentemente, ele quisera mesmo ajudá-la a se livrar de sua sentença em consideração ao que nunca deixara de sentir por ela, e com isso ganhara uma família.


Foi aos poucos que percebeu que Harry mudara em muitas coisas, mas que seu coração continuava exatamente o mesmo. Isso foi o suficiente para firmar uma amizade. Uma amizade forte o suficiente para que Ginny começasse a agir como esposa.


Quando se deu conta, estava totalmente submersa em gratidão. Pouquíssimas pessoas arriscariam sua dignidade com alguém como ela, e Ginny sabia que não merecia o marido que tinha.


Ela suspirou e sua imagem no espelho imitou-a. Os cabelos nos ombros já tinham algum tempo; também não era mais tão magra quanto quando tinha seus dezenove, embora ainda fosse bem jovem, mesmo tendo um filho beirando a maioridade. Ela se cuidara o suficiente para satisfazer a si mesma, mas a gestação e a falta de estímulos externos inabilitava-a a adotar os mesmos idéias de beleza do passado. Seu rosto já não era tão atraente e seu corpo já não era dos mais disputados. Mesmo assim, ela aceitava, complacente, seu físico no momento, e continuaria aceitando enquanto ainda se reconhecesse.


E sorriu levemente.


Houve uma batida na porta.


Ginny girou nos calcanhares e deu três passos largos em direção à porta. Ergueu as sobrancelhas quando atendeu.


- Bom dia. Ao que devo o prazer…? - perguntou, incerta, ao ver a cunhada sorridente na porta de seu quarto.


- Eu disse que vinha te ajudar - respondeu Hermione, com uma careta.


- Tudo bem, mas você não precisava ter acordado de madrugada - reprovou Ginny, sentindo que estava atrapalhando a manhã da cunhada.


- Deixa de ser boba. Acordei no horário que sempre acordo, não tinha nada para fazer em casa, então resolvi vir mais cedo. Espero não estar te atrapalhando - acrescentou a outra, rapidamente, quando lhe ocorreu a idéia.


- Não se preocupe, aqui todos caímos da cama com o sol nascendo - respondeu, abrindo caminho para que a outra entrasse. A cama já estava arrumada e ela achava que o quarto estava apresentável o suficiente para que fosse visto.


- Você vai sair? - perguntou Hermione, em tom cúmplice, agora observando suas roupas com atenção. O conjunto preto realmente não parecia uma roupa própria para a manhã, ainda mais considerando a data. Não esperava realmente que a outra deixasse de perceber.


- Vou, mas volto logo.


Hermione sentou-se na beirada da cama e olhou rapidamente pela janela.


- Onde estão os rapazes?


Ginny foi até a janela.


- Foram para o campo. Saíram cedo. Devem estar praticando - respondeu, calmamente.


- Hum… Nunca mais se interessou em jogar? Você costumava gostar - comentou a amiga, olhando para ela com curiosidade.


Ginny negou com a cabeça. Quiddich nunca mais lhe fora interessante, embora gostasse de voar. O tempo era convidativo para um vôo; a neve dera uma trégua esse ano e era possível ver parte da grama verde-clara brilhando, úmida, lá fora. O sol havia levantado um pouco mais desde a última vez que olhara pela janela e agora batia direto em seu rosto. Ela virou-se para olhar o relógio sobre o criado-mudo, e Hermione percebeu sua ansiedade.


- Eu iria logo, se fosse você - disse Hermione, explicitando seus próprios pensamentos. - Sua mãe vai chegar daqui a uma hora, e você sabe o que ela acha de…


Ela concordou com a cabeça e virou-se para a amiga, a única pessoa além dela que poderia ter lido a carta e que provavelmente a entendesse. De repente não sentia mais vontade alguma de sorrir. Respirou fundo.


- Eu volto logo - repetiu, introspectiva. - Fique a vontade. Se Harry perguntar…


- Eu direi. Boa sorte.


- Obrigada.


Dizendo isso, ela deu meia-volta, pegou a varinha sobre a cômoda e saiu.


 


 


Ginny preferiu ir mais cedo esse ano. Quanto menos pessoas notassem sua breve ausência, menos respostas tinha que inventar. Harry era complacente, mas sabia que sua família não aprovava seu ritual, portanto quanto mais imperceptível fosse, melhor.


O dia estava ensolarado e fresco, embora uma fina névoa ainda cobrisse o chão. Sempre aparatava no mesmo lugar e ia andando até seu destino. Achava o lugar tranqüilo e bonito, apesar de tudo. Haviam arranjado um lugar agradável, afinal, para o repouso deles. Uma clareira em um bosque longe de qualquer civilização trouxa. Lá cresciam árvores e flores bonitas, e um encantamento não deixava a grama crescer muito. Pouca gente ia ali, mas mesmo assim sempre tinha um ou outro parente para fazer uma visita. E a comunidade bruxa os respeitava.


As lápides eram todas simples e iguais: uma cruz, e o nome. Ginny sabia que nem todas possuíam um corpo para guardar, e fazia parte do consenso do Ministério de que ali haveria de ser um cemitério e também um memorial para os mortos da guerra. Achava uma idéia brilhante, pois nem todos eles tinham família e nem todos tiveram seus corpos encontrados para serem enterrados.


Ela parou primeiro na cruz cujo nome gravado era “Jack E. Dean”. Sorriu. Esse era um dos que não descansavam ali, mas ela sentia que pouco importava onde prestava sua homenagem. Sabia que Jack não se importaria com isso.


Conjurou-lhe crisântemos brancos. Em um dos braços de sua cruz, havia uma fita azul amarrada, que parecia ter tomado chuva, onde palavras cor de bronze estavam escritas. Ginny segurou-a para ler e tornou a sorrir:


Feliz Natal. Mamãe te ama


Conhecera a Sra. Dean há alguns anos, e era uma senhora admirável. Ficara feliz em saber que esta não se ressentia por ela ou por Jack. Sempre trocavam cartões de Natal desde então.


- Sinto sua falta – disse, melancólica, para a sepultura vazia. – Você teria sido um ótimo padrinho, sei que teria.


Dando um último sorriso, despediu-se, em silêncio, e continuou seu caminho.


Andou cinco fileiras de cruzes para o norte, e doze para leste.


Ali parou, e fitou por um tempo a lápide onde se lia “Marcy H. Lowitt”, sem reação.


A morte da jovem ainda a perturbava um pouco. Morta em missão duas semanas antes do fim da guerra, e Ginny tão afundada em seus próprios problemas que só ficara sabendo um mês depois. Culpava-se por Marcy. Ela nunca quisera fazer parte da Ordem das Trevas, e agora estava morta.


Ironicamente, agora seus pais pareciam admirá-la mais, a julgar pelos vasos de flores que enfeitavam sua lápide.


- Sinto muito - disse, com um suspiro. Nunca havia mais nada que soubesse dizer a ela. Conjurou margaridas junto aos vasos dos pais da garota, e seguiu seu caminho.


Nove fileiras adiante, próximos ao limite do cemitério, ela deteve-se brevemente em frente a quatro túmulos. O da extrema esquerda era de Rookwood; os do meio eram dos irmãos Lestrange, Rabastan e Rodolphus; o que ficava à direita era de Lucius Malfoy. Apenas na grama em frente a cruz de Malfoy havia algum vestígio de homenagem: uma planta seca e um toco de vela. Draco escapara da prisão, e Narcissa ficara livre fazia uns cinco anos, mas não pareciam muito preocupados em visitar o parente. Ballatrix nunca sairia de Azkaban, portanto Ginny receava que os túmulos do marido e do cunhado nunca receberiam flores. E não tinha notícias de qualquer família de Rookwood. Sentia uma ponta de piedade pelas almas deles, mas o ressentimento que sentia por estes quando eram vivos a impedia de prestar qualquer tipo de homenagem. Imaginava que eles também não fariam isso por ela.


Deu as costas ao que restara dos antigos Comensais da Morte. Do grupo Cinco, apenas ela, Bellatrix Lestrange, Adam Goldenfire e Dante Dawson sobreviveram. Não tiveram tanta sorte quanto ela, obviamente. Adam talvez saísse da prisão daqui a muitos e muitos anos, graças ao testemunho dela a seu favor, mas Bellatrix e Dawson nunca mais veriam a luz do sol.


Ginny, porém, teria sempre uma gratidão por Bellatrix. Presa porque largara a própria varinha no momento em que Tom fora derrotado, a ruiva escrevia-lhe cerca de três vezes por ano, e mandava fotos de Richard. A ex-colega respondia algumas dizendo para que Ginny parasse de agir como se ela fosse pai de seu filho, mas ela reparava que a outra nunca devolvera nenhuma foto dele. Bella nunca tivera filhos, e Ginny não achava realmente que ela tivesse algum dom maternal, mas acreditava que ela sentisse algum carinho pelo único filho de seu mestre. Nunca saberia se sua suspeita era real, mas podia sentir pelas cartas mal-humoradas que a bruxa não a odiava, e tampouco nunca ousara falar mal de Richard.


Ginny andou mais alguns metros, a fraca névoa esvoaçando aos seus passos. Parou em frente a um frondoso salgueiro. À sua sombra, a última lápide do cemitério. Aquela, sim, guardava os vestígios de alguém.


Ela passou a mão pela cruz, espanando poeira e folhas mortas. O tempo escurecia lentamente a pedra, mas o nome ali gravado ainda era bem legível: “Tom M. Riddle”.


Ginny conjurou rosas vermelhas, como sempre. Não em vaso, mas em buquê. Pousou-as na grama orvalhada, carinhosamente. Sorria ao mesmo tempo em que sentia-se invadida pela dor do luto.


- Olá, Tom. Rosas vermelhas, como sempre – disse, fazendo o possível para manter a voz firme. Imaginava que ele não aprovaria se ela chorasse.


Os flashes dos últimos dezessete anos começaram a inundar sua mente como uma enxurrada, como sempre acontecia. Os primeiros dolorosos meses de volta com os Weasley, seu casamento com Harry, o nascimento de Richard, o apoio de sua família, a compreensão do marido, o filho, o filho crescendo, o filho cada vez mais parecido com o pai biológico…


O pai biológico. O pai biológico e ela. O pai e seu sorriso torto. Seu sorriso torto enquanto a sacaneava na frente dos outros. Seu olhar cúmplice. Sua mão na dela. Seu mau-humor, seu sorriso só para ela, seus lábios, sua pele, seu cheiro…


Uma lágrima percorreu seu rosto e ela limpou-a na mesma hora. Mesmo depois de tanto tempo, ela se lembrava de pequenos e cruéis detalhes. Ginny tentava bloquear de sua mente qualquer pensamento nostálgico durante seu dia-a-dia, porque era extremamente difícil saber que nunca, nunca mais o veria.


Mas naquele dia nada podia impedi-la de se lembrar e de sentir saudades.


- Eu ainda cumpro minha palavra. Richard não sabe que você é o pai dele.


Ela respirou fundo e se agasalhou melhor dentro do casaco. O ar parecia ter caído um ou dois graus.


Ela nunca poderia dizer que sua vida era ruim. Tinha o melhor marido do mundo, gentil e compreensivo, e o filho que toda mãe invejava, tão inteligente, bonito e educado. Tinha uma casa ótima, ao invés das paredes escuras da prisão, que era o que merecia. Sua vida era muito boa.


Mas ela sabia que nada nunca estaria à altura do que sentia quando estava com ele. Ele fora seu protetor, seu mestre, seu amado. Nunca amaria tanto alguém quanto o amara. O que sentia por Harry era um amor de gratidão; ele aceitara-a quando ninguém mais o faria. Mas por Tom… por ele sentia paixão verdadeira, e nada superaria isso.


- Eu te amo – disse, em voz baixa.


Fechou os olhos. Desejava senti-lo ali, com ela. Sabia que ele nunca a abandonara realmente, e era só olhar para Richard para ter certeza disso. Eles eram incrivelmente parecidos.


Sempre que se sentia sozinha, conseguia sentir sua presença. O ar repentinamente gélido parecia indicar exatamente isso. Saía vapor denso de sua boca enquanto estava parada em frente a cruz de concreto castigada pelo tempo. Mas Ginny não estava com medo. Não havia nada que pudesse ser mais distante de medo. Ela desejava aquilo. Ela desejava saber que ele estava ali, apenas para dizer-lhe que não a abandonara. E ela o sentia…


Conseguia sentir seu cheiro. Tão claro quanto na lembrança; tão forte como se ele estivesse abraçado a ela, ali, às suas costas, a rosto encostado no seu.


Aos poucos o clima foi se tornando mais cálido, confortando-a. O cheiro foi mudando, até que Ginny reconheceu o aroma de morangos, como uma piada interna. Ela não conseguiu conter o sorriso. Ele era quem estava morto e ainda tinha que consolá-la. Era mesmo uma inútil.


- Obrigada - disse, ainda de olhos fechados, respirando o ar frio e engraçado com cheiro de morangos. Sentiu-se leve como uma brisa, uma tranqüilidade extasiante baixando sobre ela. Sentia-se bem, esperançosa de que um dia ela superaria viver sem ele e que fosse simplesmente feliz com Harry e Richard. Mas, por enquanto, ela ainda o amava e ainda era retribuída, e era a melhor sensação do mundo, apesar de terrivelmente amarga. - Feliz aniversário.


 


III


 


A noite de Ano Novo foi animada, como sempre. Neste ano a festa fora em sua casa, já que no ano anterior fora na casa de seus pais, e no retrasado fora na casa de Ron. Todos os irmãos e suas respectivas famílias estavam ali, o clã Weasley grande e unido para comemorar aquela data duplamente especial, junto de amigos.


Ela e Harry decidiram engrossar a comunidade bruxa de Ottery St. Catchpole quando começaram a construir sua casa de campo, embora fosse no extremo oposto da Toca. Tomaram a decisão depois de resolverem que Grimmauld Place nº 12 não era bom lugar para Richard crescer. Apesar de tudo, nunca conseguiriam livrar a casa de toda de toda a Magia Negra impregnada nas paredes, móveis e memórias do lugar, e aquela não era uma boa influência para quem provavelmente teria tendências malignas, por mais que Harry o criasse como seu próprio filho com seus próprios princípios. Mas mantinham a casa na cidade, caso precisassem tratar de algo em Londres.


A paternidade de Richard era um segredo conhecido por poucos e nunca comentado. Seus pais, irmãos, Harry e Hermione. Nem mesmo todos os integrantes da agora dissolvida Ordem da Fênix sabiam daquele fato. Dumbledore fora um bom conselheiro quando precisaram de conhecimento na criação do garoto e foi com paz no coração que Ginny deixou-o ir para Hogwarts sob sua administração. O velho bruxo se aposentaria aquele ano, mas estava satisfeito com os resultados obtidos pelo jovem “Potter”, assim como ela e Harry. Monitor, monitor-chefe, doze N.O.M.S e N.I.E.M.S., honrando o pai biológico e a madrinha. Era um garoto excepcional e definitivamente orgulhava o avô e o tio, Percy, demonstrando interesse pela carreira no Ministério.


Harry também estava orgulhoso o suficiente. Fora mérito dele, Ginny tinha certeza, o interesse do filho em Quiddich, embora o esporte em seu sangue pudesse ter contribuído. Os livros ainda ganhavam, porém, quando se tratava de definir prioridades, portanto Richard deixara passar a oportunidade de ser capitão do time. Mas Ravenclaw tivera uma boa temporada com a dupla Richard Potter e, o dois anos mais novo, Scott Dean - sobrinho de Jack - nos bastões.


E era engraçado: nem Griffindor, nem Slytherin - Ravenclaw. Achava que era um bom sinal. Um meio-termo. Um equilíbrio entre o escrúpulo e a ambição. Poderia esperar boas e grandiosas ações de seu filho e não mais se preocupava com sua conduta. Sabia que o aniversário de Richard, dali a cinco meses, significaria um divisor de águas, o fim de uma desafiadora e incrível etapa de sua vida. Dali a cinco meses o filho seria um homem, e achava que cumprira sua missão com louvor. Ele não sabia de nada que dizia respeito à sua obscura origem na Ordem das Trevas e tinha em Harry a imagem incorruptível de pai e espelho. Richard era uma boa pessoa. Uma boa pessoa e extremamente especial.


Ela cumprira sua palavra.


Ali, novamente em seu quarto, a luz apagada, o guarda-roupas aberto, uma caixa quadrada de papelão sobre a cama e o tecido bem apertado nas mãos, observava pela janela o jardim iluminado com lanternas suspensas no ar e os rapazes que se divertiam sobrevoando o gramado coberto de neve enquanto atiravam punhados frios da substância branca e gelada uns nos outros enquanto o restante dos presentes também observava da mesa de jantar já devastada. Sorriu, num misto de felicidade e receio. Eles eram sua vida. Já se despedira de parte dela e não suportaria se algo acontecesse com qualquer um deles.


Uma das vassouras pousou uma das crianças foi correndo ao seu encontro. Ela observou carinhosa enquanto Harry dava instruções básicas de vôo para o sobrinho David, filho mais novo de Ron e Hermione, e supervisionava a decolagem da Firebolt. Ele trocava algumas palavras com a cunhada e com a sogra enquanto ambos assistiam ao garoto se divertir no ar. Ela viu quando Richard chamou Fred e George com um aceno da mão e apontou para o alvo, os três saindo no encalço do pequeno Weasley atirando-lhe bolas de neve, fazendo-a rir.


Havia alguns Aurores na festa e membros da Ordem da Fênix também. Parte deles já fora embora mais cedo, mas ela ainda via as silhuetas de Hagrid e Lupin na ponta da mesa. Nenhum dos dois sabiam oficialmente sobre Richard, mas muito estiveram no tribunal e ela desconfiava que eles suspeitassem fortemente da consangüinidade do rapaz. Obviamente nenhum dos dois se importava e gostavam tanto dele quanto gostavam de Harry. Dumbledore não pudera vir esse ano, mas agradecera o convite.


Seu pai parecia estar dormindo recostado numa das cadeiras. Fleur e Jessica, esposa de Percy, conversavam animadas ao lado. Luna olhava para o alto, em sua direção, enquanto trocava palavras com Neville, e acenou quando a viu olhar. Ginny sorriu e retribuiu antes de continuar a observar os presentes. Sua mãe e Hermione riam de Tonks, que parecia estar fazendo alguma piada. Não havia mais sinal de Harry.


- Isolada de novo, Sra. Potter? - disse uma voz da porta, assim que ela notou sua ausência. Ela viu seu reflexo do vidro, recortado contra o batente da porta por onde entrava a luz do corredor.


Ela não respondeu. Ouviu Harry cruzar o quarto e parar atrás dela, em seguida seus braços quentes envolvendo-a ao redor da cintura. Ele pousou os lábios na sua nuca, fazendo-a encolher-se e rir.


- Pensei que tivesse resolvido isso hoje mais cedo - disse ele, fingindo decepção.


Ela suspirou.


- Sabe bem que tenho um motivo para lamentar além dos dois que tenho para comemorar - respondeu ela, em voz baixa. O veludo em suas mãos parecia quente demais. - Está difícil superar. E Richard - acrescentou, com dor no coração. - Logo ele vai conhecer alguma garota e ir embora. Por que eu não consigo me conformar com isso?


- Porque você é mãe dele - respondeu Harry, a voz também apreensiva, de repente. Ela viu pelo reflexo que ele também observava o filho voar. - Eu também vou sentir falta dele… Mas você está sabendo de algo que eu não sei? Por que esse assunto agora…?


- Não, não! Não sei de nada - apressou-se ela em dizer, abrindo um sorriso. - É só que já está na hora. Ele é bonito, inteligente… Não duvido que já tenha garotas atrás dele.


- Aposto que tem - riu-se Harry, ao seu ouvido. - Mas não fique triste. Ele vai vir nos visitar, tenho certeza.


Ela concordou com a cabeça, ainda sorrindo. Estava sendo boba. Lá fora, agora era ele quem estava sendo perseguido pela horda de pilotos ensandecidos com bolas de neve nas mãos. Richard fugiu para além de seu campo de visão, os perseguidores na cola.


- Acho que ele se deu mal - comentou Harry, fazendo-os rir.


Eles ficaram juntos em silêncio por algum tempo. Ginny reaprendera a aceitar os carinhos de Harry, uma vez que estavam casados há dezessete anos, mas no começo fora complicado. Ela achava que o marido tinha sido mais paciente do que ela merecia, mas a verdade era que não conseguia se acostumar com a idéia de dormir com outro homem. Foram necessários alguns anos de sedução para que ele a conquistasse novamente, e ela enfim entregara os pontos. Mas ainda era mais uma relação de carinho e gratidão do que qualquer outra coisa.


- Você é feliz? Digo, apesar de tudo. Você vai me perdoar um dia? - perguntou Harry, ao seu ouvido, numa voz muito baixa.


Ela colocou as mãos sobre as dele que estavam ao redor dela.


- Já te perdoei há muito tempo, Harry. Você sabe disso - respondeu, calmamente. - E sim, eu sou feliz. Só preciso acreditar nisso…


- Desculpe perguntar. Eu preciso saber o que você está sentindo. Às vezes acho que não te faço feliz o suficiente…


Ela se virou. Pousou uma mão no rosto dele e ficou na ponta dos pés para beijá-lo brevemente.


- Por que vocês, homens, são todos bobos? - ralhou ela, olhando para ele com as sobrancelhas cerradas. Ele sorriu enquanto a olhava com seus olhos verdes por trás das lentes dos óculos. Eram olhos tão sinceros que não precisava de Legilimancia para lê-los. - Você merece coisa melhor do que eu, como estou cansada de dizer.


- Eu não quero ninguém menos do que você - disse ele, também afagando seu rosto com a mão. - E não pode se livrar de mim; fiz uma promessa a alguém, como você sabe.


Ginny deu um riso triste.


- Essa pessoa nos fez fazer muitas promessas… Mas se não for você, Harry, não vai ser ninguém.


Ele pareceu feliz com a resposta. Inclinou-se e retribuiu o beijo, o que ela não recusou. Mas mesmo depois de tanto tempo, conseguia reparar o quanto era diferente beijá-lo.


E um pigarro os interrompeu.


Eles se separaram, disfarçando. Uma silhueta alta estava encostada na porta de braços cruzados, como quem pega alguém fazendo algo errado.


Harry começou a rir e foi em direção a porta.


- Ela é toda sua - disse o marido ao passar pelo outro e sair para o corredor, seus passos ecoando instantes depois nas escadas.


Richard desencostou da porta e aproximou-se em passos lentos. Há cerca de um metro de distância, a claridade das lanternas do jardim iluminou seu rosto fingindo repreensão e ela viu flocos de nove enroscados em seus cabelos. Sua capa também estava suja e molhada.


- Pelo visto te pegaram - constatou ela, rindo.


- É o que acontece quando se tem uma família de jogadores - respondeu ele, também sorrindo. Então chegou a sua frente e passou um braço pelos ombros dela, de modo que ficaram ambos de frente para a janela, sem esforço algum. Um metro e oitenta e sete, e ainda cresceria mais um pouco. - Parece que você não gosta das pessoas. Vem pra cá ficar assistindo de camarote, que nem uma mafiosa.


Ela riu. Você não imagina o quanto, pensou Ginny, em resposta.


- Está bem frio lá fora - argumentou ela.


- Frio? Onde? Estou suando - respondeu ele, com um sorriso presunçoso. - Mas parece que você tem uma capa. O que estava esperando?


Ginny sentiu o coração acelerar. Tinha se esquecido que ainda segurava a capa. OK, não havia como ele relacionar uma coisa com a outra, mas mesmo assim ficou nervosa. Precisou de alguns segundos para criar uma resposta.


- Mudei de idéia. Ia chamar todos para virem para dentro. Em todo caso, já está tarde. Hermione logo vai querer ir embora com as crianças e papai já está dormindo na mesa.


- Por isso você vai expulsar as visitas? - provocou o filho, com um sorriso sarcástico muito característico.


Ela reprovou com a cabeça e não respondeu. Enquanto ele olhava pela janela os transeuntes no jardim, Ginny aproveitava mais uma vez o reflexo no vidro para observar indiretamente sua companhia.


Richard era, de longe, o rapaz mais bonito que ela já vira, indiferente ao fato de ser seu filho. Obviamente, ele puxara muito da beleza de Tom, e eles eram tão parecidos ao mesmo tempo em que eram diferentes. Richard era mais baixo, mais encorpado e menos pálido, embora a diferença fosse sutil. Os narizes e as sobrancelhas eram idênticos, mas os olhos e a boca eram diferentes, cujos formatos eram mais parecidos com os dela. A cor dos olhos já lhe causara perguntas embaraçosas no passado, quando o garoto quisera saber como é que pais de olhos castanhos e verdes podiam ter um filho com olhos cinza-grafite. Os cabelos eram lisos e negros, embora Richard o usasse mais curtos do que os de Tom e os fios fossem finos como os dela.


E era curioso: suas mãos eram finas, porém fortes, dedos longos e unhas com o exato formato das dela, com meias luas brancas onde nasciam. E havia uma covinha em seu rosto quando sorria que definitivamente era de sua mãe, enquanto a expressão que fazia quando se empolgava não fosse dela nem de Tom, mas de seu pai.


- Eu sei que sou bonito, mas estou ficando constrangido - disse Richard, de repente, sobressaltando-a. Não percebera que ele tinha percebido, e a frase acertou em cheio a boca de seu estômago. Era quase como um deja vù, só que ela realmente já ouvira aquilo antes. No mesmo tom e timbre de voz, em outras palavras, em outro lugar e em outra ocasião…


Ela precisou de vários segundos para perceber porque sua garganta estava doendo e seus olhos estavam úmidos. Sabia que precisava parar de descobrir Tom em Richard, mas fora um golpe muito baixo.


O filho estava abismado com sua crise repentina e inexplicável.


- Mãe! O que você tem? - perguntou ele, muito atencioso, pegando suas mãos rapidamente. Sua aflição era visível. - Está sentindo alguma coisa?


Ginny começou a chorar mais ainda. Richard era um bom rapaz, um bom filho. Ela não merecia aquelas pessoas ao seu redor. Seus erros ainda apertavam forte seu coração, com uma mão de ferro. Era uma pessoa ruim e devia ter sido punida.


Ela passou os braços ao redor dele, abraçando-o. Richard acolheu-a em seu peito, passando a mão na sua cabeça.


- Foi algo que eu disse? Me desculpe. Eu não sei o que eu fiz, mas me desculpe! - disse o filho, preocupado.


Ginny sentiu-se péssima por assustá-lo.


- Você não fez n-nada - disse, entre soluços. - É só que… Você é tão bonito, tão inteligente e… é o meu garotinho! Não quero te perder…!


- Mãe! - exasperou-se ele, afastando-a alguns centímetros. Seu rosto estava corado e uma expressão de constrangimento o afetava. Nunca veria isso no rosto de Tom. Aquele era Richard, por pior que fossem as semelhanças. Ela sorriu, chorosa, e ele pareceu entrar em pânico. - Você não vai me perder. Nunca! Por que está dizendo isso?


- Um dia você vai ir embora. Vai querer se casar e ter filhos, e vai embora. Mas n-não ouça o que estou dizendo… Eu sou só uma mãe chorona, n-não se preocupe comigo…


Ele riu depois disso. Não era um riso de desdém pelos seus sentimentos, apenas um riso de alívio. Ele devia ter imaginado motivos piores para o choro dela. Tornou a abraçá-la, carinhoso.


- Sua bobona. Eu nunca iria embora sem você. Quando eu me casar, minha esposa vai ter que entender que não vou a lugar algum sem minha mãe, e ponto final - disse, em tom gentil, enquanto a fazia rir. - Que bobagem é essa, Ginny?


Ela não respondeu, apenas continuou com o rosto apertado contra o peito do filho. Ela se perguntou se fora realmente sua intenção chamá-la pelo nome ou se fora apenas um artifício de sua mente. Seja como for, era o suficiente para ela; se queria provas de que Tom não a abandonara, ali estava a última delas. Ginny agora precisava parar de se esconder do passado sem viver o presente. Estava sendo injusta com o sacrifico dele por eles.


- Richard, você me ama?


- Por Deus, mulher! Suas frases estão ficando cada vez mais idiotas. Tem certeza de que está bem? - disse ele, em voz de bronca.


- Só responde.


- O que o pai andou te dizendo? Vou quebrar a cara dele…


- Não vai quebrar a cara de ninguém.  Eu só queria ouvir você dizendo…


- Mas não é óbvio? - reclamou o garoto, irritado.


Ela riu. Definitivamente havia mais coisas no sangue do que podia imaginar. A resistência em dizer “eu te amo” era hereditária.


- Tudo bem - disse, afastando o rosto, as lágrimas já quase secas. - Posso te pedir uma coisa?


- Mãe, você ta muito estranha hoje. Não precisa pedir para pedir nada. Eu faço o que você quiser - respondeu Richard, as mãos emoldurando o rosto dela.


Ela sorriu em agradecimento e levantou a capa de veludo que arrastava no chão. Ah, como era difícil se desfazer do passado!


- Era só que… se servir, eu gastaria que ficasse com ela - disse, em voz baixa, estendendo-a ao filho.


Ele levantou uma sobrancelha, se perguntando que tipo de pedido estranho era aquele, mas não verbalizou. Pegou a capa de sua mão e virou-se para ficar de frente para o espelho ao lado da porta.


Ginny agüentou firme a vontade de voltar atrás enquanto observava-o provar a melhor lembrança palpável que tinha do pai dele. Com era de se esperar, serviu perfeitamente, sem tocar o chão por alguns centímetros. As lembranças quiseram vir, mas ela concentrou-se em Richard.


- Hum… Meio fora de moda, mas é bonita - comentou ele, observando o próprio reflexo, pensativo. - De onde surgiu?


- Eu a fiz há muitos anos para alguém, mas acabou voltando para mim - respondeu Ginny, sem mentir.


Ele virou-se para olhá-la, curioso. Sem querer ela leu seus pensamentos e os respondeu antes que pudesse se conter:


- Eu costumava fazer isso quando tinha sua idade, por diversão - disse. Ele se perguntara se ela o estava fazendo de trouxa; nunca ouvira falar que ela costurava mais coisas do que os furos em suas meias.


Richard levantou uma sobrancelha, confuso. Ele não perguntara. Ginny viu claramente a conclusão, surpresa, se formar em sua cabeça. Mas ele ainda tinha suas dúvidas se era loucura dele ou se ela realmente…


- Você não está louco - tranqüilizou ela, com um meio sorriso. - Eu li seus pensamentos, obviamente.


- Onde… - começou ele, curioso, mas ela o cortou.


- Eu tenho muitos segredos - disse, com um leve sorriso, parafraseando um dos momentos mais maravilhosos de sua vida.


- E não vai me contar? - perguntou ele, contrariado, já prevendo a resposta.


- Claro que não - disse Ginny, o sorriso se ampliando até que mostrasse os dentes.


- Então foi assim que soube que eu tinha quebrado o vidro de tinta dentro da gaveta! - disse ele, alterando-se de repente, se lembrando de certo caso da infância, enquanto vários outros pensamentos semelhantes lhe ocorriam. Estava admirado e furioso ao mesmo tempo.


- E que derrubou o vaso na piscina, sim - confirmou ela, rindo. - E também de quando colocou formigas na cama do seu primo, mas nessa você foi apenas uma peça do complô maligno de Fred e George, não é mesmo? - complementou, em voz de mãe.


Ele estava boquiaberto de perplexidade.


- Sua… sua trapaceira! - acusou ele, fingindo indignação. Então virou-se e disse, dramaticamente, enquanto saia do quanto: - Depois dessa, vou embora. Vou me casar e vou embora!


Ela não pode deixar de rir. Seguiu-o e fechou a porta ao sair.


Ginny estivera ausente por muito tempo. Sua família a esperava e não devia se demorar mais. Lágrimas demais já tinham sido desperdiçadas ali enquanto a vida corria lá fora. As lembranças que guardava na caixa de papel sairiam dela junto com a capa e se dissipariam com o tempo e, até lá, seu coração voltaria a bater com a mesma vontade que batera um dia.


Contava com isso.


 


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Nota – Música: Forgiven, composta por Sharon den Adel mais uma vez da banda Within Temptation, apresentada no álbum The Heart of Everything. Por algum motivo, agora sempre sinto vontade de chorar quando ouço essa música…

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