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6. Os Traidores do Sangue


Fic: O Filho das Trevas - reescrita


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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- Os Traidores do Sangue –


 


“She: Why can’t I forgive?


He: You must stop to condemn the past


She: Why can’t this fear be my guide?


He: It will be your strength if you dare


She: There’s no blame in my life


He: Nor forgiveness for the pain


She: I will show them


He: Let them know who you are


Both: This is my/your perfect revelation”


               


Imperfect Tenses, After Forever


 


I


 


Ginny estava confusa. Muitas coisas relevantes haviam acontecido em um curto espaço de tempo. Não sabia como seria sua recepção na Ordem das Trevas de agora em diante e a morte de Jack fora um baque terrível para ela. E ainda havia o infeliz segredo que carregava no ventre e não sabia como nem se iria contá-lo. Não tinha muita certeza se agüentaria por muito mais tempo.


Além de seus problemas pessoais, Basilisk Hall vivia um verdadeiro caos. Fora os mortos, surgiram desaparecidos. Ginny tinha certeza de que muita gente aproveitara a confusão para fugir do país, porque era fato que muitos entravam ali por impulso até que se viam tão profundamente atolados em exigências que não podiam cumprir. Muita gente não tinha a mesma sorte que ela; Ginny tinha plena consciência que os membros dos grupos inferiores morriam às bicas em missões, fosse por falta de experiência, fosse pelo risco ou pela falta de interesse dos superiores. Ela tentava não fechar os olhos para isso, mas em certa altura do campeonato ela só conseguia pensar que estavam em guerra, e que aquilo se chamava seleção natural.


Em todo o caso, suspeitavam que os Aurores também tivessem capturado alguns deles. Felizmente não houve nenhum desaparecido dos grupos intermediários superiores para cima que não estivessem na lista dos mortos, o que significava que não poderiam obter nenhuma informação muito importante.


Na primeira reunião que aconteceu, no dia seguinte, todos tiveram seu momento de falar. Os Malfoy revelaram os números finais das perdas, os Lestrange se encarregaram de expor as informações extraídas dos poucos Aurores que encontraram ainda vivo, sem muito sucesso, Rookwood e Adam opinaram sobre a falha na segurança. Ginny então dividiu a informação de que encontrara o traidor durante a batalha, e a reunião acabou quando todos fizeram questão de ir tirar uma lasquinha que fosse do sujeito preso nas masmorras.


E de repente ela se via sozinha com ele pela primeira vez desde que saíram do hospital.


- Precisamos conversar – disse Tom, no silêncio que se seguiu alguns segundos depois que o último Comensal saiu da sala. Ela suspirou, concordou, e fechou a porta.


Ele estava encostado na mesa e Ginny aproximou-se, mas também não se sentou. Ele mexia com as mãos, distraído, e parecia estranhamente incerto sobre por onde começar. Aquilo a deixou nervosa.


- Ontem, no hospital… – começou ele, por fim, como se escolhesse bem as palavras.


Ginny olhou para o chão, sem-graça. Achava que já haviam discutido o suficiente na frente daquelas pessoas, e já havia aceitado seu destino. Não tinha motivos para trazer aquilo à tona novamente.


Mas achava que devia explicações, em todo o caso.


- Sim? – disse, desanimada, esperando.


- Bom, eu falei com o curandeiro que cuidou de você um pouco antes de… pouco depois que chegamos lá – disse ele, ainda hesitante. Ginny não entendeu o rumo da conversa. – Ele me disse… me disse que você está grávida.


Sentiu o sangue abandonar o rosto na mesma hora. Levantou os olhos rapidamente. Tivera tanta coisa em mente que nem se lembrara de que provavelmente o curandeiro saberia e contaria a ele. Atrapalhou-se. E agora?


Então tornou a olhar para o chão, e agora era ela quem torcia as mãos, nervosa.


- Ginny? – chamou ele, mas ela não olhou. – Você sabia?


Pronto. Agora estava com problemas. Como resolveria isso? Pior, como ele reagiria à tudo isso?


Mas não havia como fugir agora. Confirmou com a um aceno de cabeça.


Ela não sabia ao certo o que estava esperando. Talvez gritos furiosos contra ela, ou até mesmo um tapa. Mas não esperava, sinceramente, o tom de voz que ele usou em seguida.


- Isso é muito grave – disse ele, em voz baixa e preocupada. Parecia tão preocupado a ponto de ignorar sua tentativa desleal de ocultar-lhe esse segredo. – Não era para ter acontecido.


Ginny arriscou olhá-lo. Estava absorto em seus próprios pensamentos, e olhava fixamente para o rodapé às suas costas. Era como se estivesse completamente perdido, e aquilo foi igualmente chocante para ela.


- N-não é tão ruim assim – disse-lhe, baixinho, tentando consolá-lo.


Ele encarou-a, mas não parecia bravo.


- Não… É muito ruim, Ginny – repetiu ele, ainda olhando-a. – Essa criança não pode nascer. Você sabe que não pode.


Ela sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, involuntariamente. Não que ter um filho, ainda mais dele, fosse um sonho que sempre tivera, mas agora que estava feito, ela não podia deixar de pensar na idéia com carinho. Fazia um mês que sabia, e desde então, sem querer, vinha se preparando para ser mãe. E aquilo rendera doces pensamentos.


E no fundo ela sempre soubera que não podia ser.


Mas…


- Por quê?  - perguntou ela, em voz baixa, tentando não parecer muito desconsolada. – Por que é que não pode? Nós… nós vamos assumir, não vamos? Para todos? Por que é que não podemos ter um filho?


Ele olhou-a de um modo muito estranho, como se sentisse pena dela.


- Por favor, não se faça de louca. Somos amantes e não um casal apaixonado – disse, lentamente, parecendo desgostar de si mesmo por dizer a verdade tão crua. – Você está se esquecendo de quem somos e de onde estamos? Olhe ao redor, você acha mesmo que vai criar um filho aqui? Ginny…


Mas ela negava com a cabeça, não queria ouvir. Ele estava certo. Era uma idéia absurda. Mas ela se sentia na obrigação de defender seu filho, custasse o que custasse.


- Você quer que… está me dizendo para matarmos o nosso filho…? Eu não posso fazer isso, Tom. Você sabe que eu não posso, que eu não consigo!


- Não vai doer. É só uma poção…


- Eu não estou pensando na dor, eu… Meu Deus, Tom, é o nosso filho! – disse ela, mais alto que antes.


Ele passou a mão pelo cabelo, impaciente, mas pareceu pensar nas palavras certas para usar na próxima frase.


- Olha, eu sei que você tem toda essa coisa de que as meninas crescem, se casam e têm filhos, mas não é assim que vai ser para você. Pelo menos enquanto estiver comigo. Seria mais complicado do que você pode imaginar, e quanto antes fizermos isso, garota, mais sofrimento vai te poupar.


Ela apertou os olhos.


- Não me chame assim…! Você fala comigo como se eu tivesse quinze anos! Eu sei diferenciar os sonhos da vida real e pode ter certeza de que eu queria tanto quanto você que isso estivesse acontecendo… Mas está acontecendo, Tom. Isso é a vida real. - Ela tornou a abrir os olhos, e encarou-o. - Não podemos fugir para sempre. Eu não quero mais fugir.


Seguiu-se um silêncio profundo. Ele ainda olhava-a como se estivesse consternado com a situação dela. Ginny não poderia suportar aquele olhar por muito mais tempo.


- Eu não te obrigaria a passar por isso se não fosse necessário - disse ele, depois de um tempo.


Ginny suspirou.


- Eu vou ter esse filho de qualquer jeito, Tom. Mesmo que eu esteja sozinha e longe de você. Mesmo que isso me seja uma tortura, eu vou ter esse filho - falou, conclusiva e esforçada para manter a voz firme, mas fracassando. - E talvez seja bem melhor assim… Se ele não souber que você é o pai dele, pelo menos ele não poderá seguir seu exemplo…


Ele empalideceu ao ouvir aquelas palavras. Então cerrou as sobrancelhas.


- Você acha que eu quero fazer isso porque tenho medo que um filho meu possa se tornar mais poderoso do que eu, não é? Você acha que eu tenho medo de me envolver, de gostar da criança, traído pelos próprios sentimentos, não acha? - disse ele, em voz baixa e acusadora. Mas algo estranho surgiu em seus olhos e fez tremer sua voz quando pronunciou a próxima frase. - Talvez seja verdade. A idéia de ter um filho me apavora. Mas o que mais me apavora, Ginny, é pensar no que pode acontecer se você tiver esse filho e quando todos souberem que ele é meu. Me apavora pensar que meus inimigos irão atrás de vocês. Me apavora pensar no que poderia acontecer. Por favor, não me obrigue a passar por isso! Podemos ser só eu e você…


Eles ficaram se olhando por algum tempo, até que ele desviou os olhos, como se tivesse se dado conta do que havia dito. Ginny não sabia o que dizer nem o que fazer. Primeiro ele poupava sua vida, agora ele dizia que não queria fazer parte de uma família porque não suportaria perdê-la. Por mais que aquilo fosse um bom sinal, se tratando de dele não fazia muito sentido. Era algo que nunca, nem nos seus mais fantasiosos devaneios, esperaria ouvir dele. Era algo com o qual não estava contando, mesmo tendo achado muito fofo. Por isso, não sabia o que dizer.


Mas não precisava dizer nada, pensou. Aproximou-se, delicadamente, e pousou a mão sobre a dele. Durante todo o tempo em que estiveram juntos, ela nunca esperou que algum dia precisasse ser a mais forte do relacionamento. Mas o que é que podia fazer? Não conseguiria fingir que não se importava com os receios dele, afinal, ela ainda tinha um coração. E ele fazia parte disso.


Abraçou-o. Ele não afastou-a, mas também não retribuiu. Ginny sabia o que ele sentia; era como se ela própria sentisse. Devia ter sabido antes. Nenhum dos dois eram mais o que haviam sido há dois anos. Eles estiveram juntos por todo esse tempo, e de duas pessoas tão diferentes não era difícil esperar que preenchessem com valores do outro onde mais lhes careciam.


Sabia que ele queria livrar-se dela antes que se envolvesse demais, mas já era tarde para isso. Sabia que o minúsculo ser humano que se formava dentro dela era outro motivo pelo qual ele se arriscaria, sendo que nunca precisara nem nunca pretendera se preocupar com mais ninguém além dele próprio. Tudo aquilo em tão pouco tempo… Ele devia estar mais confuso do que jamais estivera.


E era extremamente tocante que ele confessasse aquele sentimento por ela e pelo filho em seu ventre.


- Podemos ser nós três - sussurrou ela, quando conseguiu, ao ouvido dele. - Eu prometo que podemos… Mas me tirar qualquer um dos dois, Tom, me causaria infelicidade pelo resto da vida. E você sente o mesmo, não é?


Ele respirou fundo e passou um dos braços pelos ombros dela. Ginny apertou o abraço, o rosto encostado em seu peito, e sentiu-se mais calma. Nenhum dos dois dissera nada, mas ela sentia que a tempestade passara. Ele não ia mais pressioná-la, e embora aliviado, ele estava se preparando para a mudança de planos.


- É mesmo isso o que quer? - perguntou ele, em voz baixa, depois de um longo silêncio. - Tentar?


Ginny afastou-se o suficiente para olhá-lo no rosto.


- É o que mais quero no mundo - respondeu, com seriedade, olhando-o nos olhos. - Acho que nada mais poderia me fazer feliz.


Ela tocou o rosto dele com a mão esquerda, aprazendo-se com o toque de sua pele na dela. Ele continuou olhando com uma expressão muito rara, enquanto um milhão se pensamentos ansiosos e doloridos passavam pelos olhos dele. Ginny não entendeu metade deles.


Então a porta se abriu abruptamente, sobressaltando-a.


Eles se afastaram rapidamente, mas Bellatrix já havia visto o suficiente. Ela olhou de um para o outro com os olhos ligeiramente arregalados, a mão ainda na maçaneta da porta aberta, e depois de superado o aturdimento inicial, ela abriu a boca como se fosse dizer algo, mas aparentemente desistiu, deu de ombros e tornou a sair, fechando a porta.


Ginny sabia que a ocasião era imprópria, mas tornou a olhar para ele e foi mais forte que ela evitar o sorriso que sentiu repuxar os cantos dos lábios para cima. Eles se olharam por um segundo, e então estavam rindo.
.
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Engraçado como se podiam levar dois anos montando uma fachada e como eram necessários apenas alguns dias para que ela desmoronasse. A notícia de que estavam juntos oficialmente já estava disseminada até o dia seguinte dentro do grupo Cinco; para que o restante dos grupos soubesse durou ainda mais uma semana. A respeito disso o castelo estava dividido em três facções: a dos que sabiam quem ela era e sabiam do affair (em sua maioria o grupo Cinco, mais alguns guardas e Comensais esparsos), a dos que não sabiam quem ela era mas sabiam do affair (no geral as pessoas que presenciaram a cena do beijo chocante durante a festa, mas não sabiam quem ela era, em ambos os sentidos) e a dos que não sabiam de nenhum dos dois, apenas ouviram boatos sobre os ocorridos da festa. Uma vez que isso estivesse acontecendo, gente com a qual ela nunca falara começou a reconhecê-la nos corredores como a moça que acompanhara o Lord das Trevas na comentada festa e titularam-na de “Lady das Trevas”. Claro que nunca era chamada assim pela frente, mas Adam andava inteirando-a das fofocas.


Definitivamente achava que não superaria a ausência de Jack se Tom não a tivesse assumido. Isso significava que eles podiam poupar as hostilidades durante os expedientes e podiam ter conversas quase normais. Mesmo assim, sentia cada vez mais a falta do amigo na medida em que retomavam a rotina. Adam não deixou de falar com ela, mas o insubstituível Jack costumava ser seu elo de ligação, o que significou uma ligeira diferença na amizade dos dois.


Para sua felicidade e assombro, reparou que sua barriga já começara a crescer. Já estava com quase três meses e, embora não fosse nada anormal, já era visível quando se olhava no espelho sem roupas. Felizmente, poderia adiar ainda por algum tempo aquela noticia ao resto do castelo, porque simplesmente era impossível dizer que ela estava diferente quando usava o manto pesado do uniforme.


Apesar de não se importarem mais em manterem contato em público, ela e Tom evitavam intencionalmente falar sobre a gravidez de Ginny mesmo quando estavam a sós, embora ele tivesse reparado também na barriga dela. Ela achava que Tom ainda estava se recuperando do trauma que fora a notícia e não estava disposta a pressioná-lo, mas estava se informando na medida do possível para a mudança em suas vidas que viria em pouco mais de seis meses. A pequena, porém completa, biblioteca de Basilisk Hall estava ajudando-a a entender o que estava acontecendo exatamente com seu corpo e os cuidados que tinha que tomar com o futuro-bebê. Depois de toda essa informação admirava-se que ainda não tivesse sofrido um aborto, quando, com culpa, se lembrava que já exagerara no álcool, já se estressara, já se alimentara mal por dias seguidos e ainda por cima já sofrera traumas extremos, como no dia das masmorras. Mas o bebê parecia vivo e bem, afinal, a barriga não estaria crescendo se não estivesse, não é?


Passado o período crítico de recuperação ao ataque sofrido ao castelo, eles voltaram à missão anterior: a invasão à Hogwarts. A princípio Ginny não ficou muito satisfeita de voltar àquele trabalho, mas assim que reviu suas anotações, sentiu um desejo intenso de fazer aquilo dar certo. Afinal, Jack morrera para proteger a Sala de Planejamentos, e isso significava que o mínimo que ela podia fazer é continuar seu trabalho, de preferência melhor do que antes.


Planejar a invasão permitiu distraí-la dos pensamentos em geral. Apesar de Jack, estava relativamente feliz com seu relacionamento, o que era um bom motivo para se preocupar. Toda vez que se permitia pensar no seu futuro, caia no receio constante de perder quaisquer dos membros de sua nova e pequena família, ou então de que algo acontecesse a ela própria e tivesse que deixá-los sozinhos. Eram pensamentos perturbadores e ela preferia ocupar sua mente com trabalho a deixar que ela vagasse por infelicidades.


Felizmente o trabalho foi sua âncora para manter os pés e a cabeça no chão. Tudo foi muito mais fácil uma vez que agora o grupo Cinco a respeitava. Ainda estava longe de ser querida, mas pelo menos era aceita sem que a atacassem.


Depois de algumas semanas de estudos, projetos e dedicação, finalmente chegaram a um plano. Estava tudo certo: Dumbledore estaria longe, a Ordem da Fênix estaria ocupada e os alunos e professores estariam entretidos em suas aulas. Ginny foi grata de ser irmã dos gêmeos, que a presentearam com um ótimo conhecimento das passagens secretas da escola e que seriam muito úteis nesta empreitada. E enfim, pela primeira vez desde que estivera nos grupos inferiores, iria sair em missão - e iria comandá-la.


Ginny estava otimista; daria tudo certo. Era a melhor missão que já projetara.


De início Tom não aprovou a idéia de Ginny ir junto, mas felizmente não expressou sua opinião na frente dos outros. Quando tiveram um tempo sozinhos, entretanto, ele disse que não achava certo que ela fosse, mesmo porque ela não era a melhor duelista que ele conhecia. Ginny concordava nesse ponto, mas não foi o suficiente para fazer sua cabeça. Ela argumentou que sobrevivera ao ataque dos Aurores no mês anterior e que não era tão incapaz em magia, a não ser que ele se julgasse um mal professor, uma vez que ele a treinara pessoalmente. Então ele disse que não se tratava disso, mas em colocar-se em risco desnecessariamente. Ginny disse que, sem querer se gabar, por causa dela a Ordem das Trevas não levara a pior no último ataque, e isso finalmente pareceu convencê-lo. Por fim, para finalizar grandiosamente, disse que ele estaria lá para protegê-la de qualquer coisa, o que acariciou seu ego e o deixou de bom humor o dia todo.


Uma coisa, porém, incomodou o grupo todo: missão de Ginny, condições de Ginny. Ela sempre fora contra o uso de violência em suas missões, mas nunca tivera autoridade para assegurar que essa cláusula fosse cumprida. Agora, indo junto, poderia enfim gerenciar pessoalmente o grupo Cinco para que não machucassem ninguém, afinal, estariam em uma escola!


A investida estava marcada para quarta-feira, e a ansiedade dela aumentava a medida que a semana corria. Ela não mandou mais cartas para Hermione; quanto menos a amiga soubesse, mais segura estaria. Mesmo que não houvesse mortes, alguém perceberia que elas evitavam se atacar, e isso talvez trouxesse problemas às duas.


Sua ansiedade era visível também pela possibilidade de encontrar alguém que não estivesse esperando, como algum de seus irmãos. Depois de muito remoer seu encontro com Ron, chegara a conclusão de que ele provavelmente não contara nada à sua família; não fazia o estilo dele espalhar a notícia, principalmente porque não era agradável. Harry e Hermione deviam ter incentivado seu silêncio. Sendo assim, seria chocante se a encontrassem.


Na manhã do ataque, sua barriga parecia repleta de borboletas carnívoras. Ela tentou não demonstrar, mas Tom percebeu. Ele deixou-a dormir até as dez, mas ela não conseguiu. Então ela pediu que conversassem sobre qualquer coisa que não fosse o ataque, o que ele fez, para seu alívio. Sentiu-se grata.


Ela almoçou mal, e ele lhe lançava olhares avaliadores durante a refeição.


Por fim deu duas da tarde, e eles se prepararam para sair. As borboletas começaram a comer seu estômago.


- Está na hora - disse Lucius, depois de bater na porta do quarto 13. Ela respirou fundo várias vezes, e quando Tom voltou até ela, afagou a raiz de seus cabelos e deu-lhe um beijo carinhoso, o que fez as borboletas descansarem por um momento.


- Você vai se sair bem. Eu vou estar na retaguarda - disse ele, em voz baixa, ao seu ouvido.


- Aposto que é a retaguarda mais invejável que qualquer Comensal da Morte já teve - respondeu Ginny, com um sorriso nervoso.


Ele apertou sua mão na dele, ambos pegaram seus mantos, Ginny encaixou sua nova máscara e saíram do quarto.
.
.


II


 


Aparataram em Hogsmeade, entre as árvores. O vilarejo estava quase vazio, mas não queriam dar motivos para serem vistos. Rabastan andou alguns metros, para fora de sua visão, e fez um sinal. Da vidraça da Dedosdemel, um clarão piscou duas vezes. Os discípulos de Bellatrix haviam feito sua parte, então eles saíram, cobertos com feitiço Desilusório, e entraram pela porta que se abriu assim que se aproximaram.


Uma vez ali, o nervosismo deu espaço para a excitação. Aquela era sua empreitada mais ousada, e sentiu-se repentinamente confiante.


- Para o porão - disse, rapidamente, assim que todo o grupo Cinco estava dentro da loja. Um dos Algozes, com suas roupas e máscaras de rosto plenas e pretas, deu passagem para a portinha do balcão, e eles começaram a passar. Atrás do balcão, ela viu os donos da loja amarrados e amordaçados, vivos. Bom. Até agora tudo estava conforme o combinado.


Ginny chegou ao porão escuro, e todos estavam com as varinhas acesas. Ela acendeu a própria e procurou pelo alçapão escondido no chão. Depois de dois minutos, achou-o, atrás de umas caixas. Ela fez sinal para que os outros se aproximassem e abriu a passagem com um movimento da varinha.


Ela fez menção de entrar primeiro, mas uma mão segurou sua capa. Ela viu Tom fazendo sinal para dois Algozes descerem na frente, que obedeceram sem dizer uma palavra, fazendo a claridade de suas varinhas descerem gradualmente. Alguns segundos depois, um deles voltou e fez sinal de positivo com a mão.


Tom pulou primeiro, e ajudou-a a descer, educadamente. Ela sorriu quando sentiu os pés no chão e continuou o caminho. Este lhe era familiar. Sempre descia com Harry ali quando estavam na escola, para comprar doces fora dos fins de semana programados. Fizera isso uma vez com os gêmeos também.


A passagem descia por vários metros, depois se horizontalizava. Ela ouvia os passos dos colegas às suas costas, e a respiração de Tom quase ao seu lado. Via as luzes das varinhas dos dois batedores à sua frente e sabia que estavam chegando quando o caminho ficou baixo. Ela teve que dobrar um pouco os joelhos para passar, e olhou com um sorriso ordinário para Tom e seus um metro e noventa. Ele não retribuiu, e deu um muxoxo.


Quando chegaram ao fim da passagem, que subira um pouco, os dois Algozes esperavam, ladeando a saída com olhares que aguardavam por ordens. Ginny disse que deviam voltar e esperar com os outros na loja; se não aparecessem em uma hora e meia, para voltarem para Basilisk Hall.


Então ela bateu com a varinha nas costas da estátua corcunda de um olho só. Isso a fez se afastar.


Ginny espiou para fora, checando se o corredor do terceiro andar estava vazio. Depois de confirmar, fez sinal para que os outros subissem e saiu, indo para o outro lado, onde havia um vão entre duas estátuas. Ela se viu em companhia segundos depois.


Depois disso Tom pegou a liderança. Eles foram deslocando-se pelo castelo aos poucos, atentos a qualquer barulho à frente ou dentro das salas, mas não encontraram ninguém. Parecia a Ginny que estivera ali ontem mesmo, e apesar dos anos que separava o presente dos tempos de Monitor-Chefe de Tom, ele parecia sentir o mesmo, pelo modo preciso como conduzia-os pelo menor caminho em direção à sala do diretor.


Alguns corredores e passagens secretas depois, eles chegaram ao corredor da gárgula de pedra. Aquilo era estranhamente nostálgico.


Pararam em frente à estátua, alguns mais próximos, outros mais afastados, nas sombras. Tom olhou para Ginny, que retribuiu o olhar.


- Esquecemos da parte da senha, não é? - disse ela, baixinho, sentindo-se meio burra. - Você não pode simplesmente explodir a gárgula e ficamos por isso mesmo?


Ele levantou uma sobrancelha.


- Onde está sua sutileza, GW? - perguntou ele, também em voz baixa, em deboche. Então voltou a olhar para a estátua. - Eu duvido que a entrada não esteja enfeitiçada para esse tipo de tentativa. Certamente iria disparar algum alarme. Além do mais, eu não conseguiria explodir uma estátua sem fazer barulho… Acho que temos uma falha de logística.


Ginny sentiu-se frustrada. Era um plano muito bom, porque tinha que ter se esquecido de algo tão simples?


- Vem vindo alguém - sussurrou Bellatrix, de repente, e todos pararam e se encostaram na parede, às sombras, intercalando-se com armaduras. Ginny ouviu um barulho de passos, então um menino com uniforme virou a esquina. Ele tinha um distintivo no peito.


Então Ginny teve um estalo.


Virou-se discretamente para Tom, atrás da armadura seguinte, e torceu para que ele lesse seus pensamentos. Ele olhou-a por alguns instantes, então fez sinal afirmativo com a cabeça.


Ela voltou a olhar para o garoto, que estava perto agora. Devia ter uns dezesseis anos. Se aquela insígnia fosse verde ou azul, Tom abordava-o. Se fosse vermelha ou amarela, ela fazia.


Era vermelha.


Ginny tirou a máscara e enfiou-a debaixo da roupa, desvestiu a capa mais externa que poderia a incriminar e pendurou-a no braço, ao mesmo que sentia o Feitiço Desilusório nela ser retirado, então avançou repentinamente, antes de o monitor chegar onde ela estava. O rapaz parou na mesma hora, e ela viu-o fazer um movimento rápido em direção à varinha, instintivamente.


- Ei, ei! Não me ataque, por favor! - disse ela, rapidamente, no seu tom de voz mais simpático, levantando as mãos para mostrar que estava desarmada. Ela deu alguns passos para o lado, de modo que o menino olhasse-a e ficasse de costas para os outros, caso resolvesse olhar naquela direção.


- Quem é você? - perguntou o monitor de Gryffindor, desconfiado. Ele não abaixou a varinha.


- Vim ver o professor Dumbledore - justificou-se ela, em voz inocente. - Tinha um encontro com ele agora, mas não sei a senha. Estava pensando se não poderia me ajudar.


O garoto abaixou a varinha alguns centímetros, mas não baixou a guarda completamente.


- Não me lembro de o diretor ter falado sobre alguém vir aqui hoje - continuou ele, sem se abalar.


- Ah, nossa… Bom, ele pode ter se esquecido - disse, pensativa. - Também, com todas as preocupações que ele deve estar tendo no momento… Tudo bem - disse, em voz conformada, ligeiramente decepcionada, baixando as mãos. - É melhor eu voltar outro dia, ele deve ter outras coisas para resolver, mesmo…


O rapaz baixou mais um pouco a varinha.


- Bom, se está mesmo falando a verdade… Você não tem cara de… - começou o monitor, mas parou, corando um pouco.


- Do que? - quis saber ela, em tom ingênuo.


- De Comensal da Morte - confessou ele, encolhendo um pouco os ombros.


Ela deu uma risada amigável.


- Definitivamente, não. Mas você está certo em desconfiar, hoje em dia é perigoso acreditar em qualquer um - disse, ficando mais séria.


- É… Bom, a senha é “doce de leite” - disse o monitor, eficientemente, agora guardando a varinha. - Espero que não esteja atrasada.


- Na verdade, não - disse, calmamente, pegando sua máscara novamente, com calma. Colocou-a, observando o rapaz entrar em pânico. Então olhou por cima do ombro deste. - Estamos bem na hora.


- Bom trabalho, GW - disse Tom, apontando a varinha para o monitor, que congelou ao ouvir uma voz vinda de trás dele. O grupo Cinco dava risadinhas.


- Seja gentil - Ginny lembrou-o, sobre as condições da missão, enquanto recolocava a capa.


- Você e seu coração mole - desdenhou ele, olhando-a de um jeito estranho. - Ele viu seu rosto.


- Onde é que isso muda minha missão? - rebateu ela, tirando a varinha do bolso. - Que eu saiba, você é um ótimo obliviador.


- Perda de tempo - retrucou ele, com um muxoxo impaciente, mas os olhos do rapaz saíram de foco por alguns momentos, fazendo-o se esquecer do choque repentinamente. - Sua vez.


- Imperio - disse, calmamente, fazendo com que o monitor saísse sem olhá-los duas vezes.


- Está ficando boa nisso - comentou Tom, chegando mais perto da gárgula de pedra. Os Comensais seguiram-nos. Ginny ignorou-o.


- Fácil demais, não acha? - disse ela, virando os olhos para ele.


- Sim - respondeu, pensativo. - O que você sugere?


Ginny pensou um pouco.


- Barreiras restritivas? Ou a mesma idéia - disse, por fim.


Ele olhou-a, avaliando.


- Faz sentido. Isso exclui o resto do grupo. Dumbledore não acharia que eu viria pessoalmente.


Eles se encararam por alguns segundos, então Ginny explicitou a conversa enigmática para os colegas.


- Achamos que pode haver algum feitiço que reconheça Marcas Negras. Vamos entrar sozinhos - disse, vendo-os se entreolharem. - Voltamos logo.


Assim que Ginny disse, todos voltaram para as sobras, atrás das armaduras. Ela olhou para Tom uma última vez antes de dizer a senha.


A gárgula criou vida e saltou para o lado. Ele fez sinal para que ela fosse primeiro.


A subida foi um pouco tensa. Sabia que haviam distraído toda a Ordem da Fênix, com certeza, mas e se Dumbledore estivesse lá? Tom colocou as mãos em seu ombro, como se ouvisse seus pensamentos.


- Varinha erguida - lembrou ele, antes de a escada parar na porta de madeira. Ela assentiu com a cabeça e girou a maçaneta.


A sala do diretor estava exatamente como da última vez em que ela estivera ali. Havia os objetos em cima da mesa, os quadros do ex-diretores, todos dormindo, o poleiro de Fawkes… O sol da tarde entrava na sala ela janela, fazendo-a refletir um tom amarelado e morno.


Ela apontou para os quadros e levou o dedo aos lábios, em sinal de que deveriam fazer silêncio. Tom concordou. Ele foi até a escrivaninha e começou a abrir as gavetas, o mais silenciosamente possível. Ginny foi até um armário encostado na parede e abriu-o devagar, para não ranger. Havia somente a penseira, alguns frascos e outros objetos parecidos com os que haviam em cima da mesa. Ela olhou ao redor, imaginando onde mais poderia procurar, e viu uma porta entreaberta semi-oculta por uma tapeçaria.


Ginny cruzou a sala em silêncio, e estava quase tocando a porta quando ouviu um ruído enregelante bem acima de sua cabeça. Era um som melodioso e breve, e Ginny reconheceu a grande fênix cintilante, com sua longa calda de penas, empoleirada em uma das toras que sustentavam o teto, observando-os.


A ruiva olhou rapidamente para Tom, que a olhava como se estivesse congelado e para os quadros, que continuavam dormindo, e voltou a olhar para Fawkes. A fênix abriu as asas, para seu nervosismo, e planou até pousar ao seu lado, numa estante. Deu outro pio sonoro, embora mais breve, e piscou-lhe. Parecia estar reconhecendo-a.


- Olá, Fawkes - disse, num sussurro, levantando a mão para acariciar a cabeça penosa e acetinada da ave, que abaixou o pescoço para receber o agrado. - Seja uma boa fênix e não faça barulho.


O pássaro piou baixinho e abriu as asas mais uma vez, assustando-a. Mas o farfalhar de suas asas era silencioso, e Ginny viu o animal de plumagem vermelha e dourada entrar pela porta entreaberta. Ela olhou ao redor brevemente, e seguiu-o.


Ela subiu uma pequena leva de degraus circulares, como se estivesse numa torre contígua. Havia um arco ao fim da escada, que abria-se para um cômodo circular e claro. Era um quarto. Havia uma pequena sacada com uma porta dupla de vidro por onde entrava o sol, deixando as paredes douradas, uma cama, um criado-mudo, um guarda roupas e um baú. Era muito bem arrumado.


Fawkes estava pousada no pé da cama, olhando-a.


Ela desviou o olhar e virou-se para remexer o guarda-roupa.


- Será muito deselegante de sua parte se fizer isso - disse uma voz baixa às suas costas, fazendo-a saltar e rodopiar ao mesmo tempo.


Dumbledore estava sentado na cama calmamente. Observava-a com aqueles imperturbáveis olhos azuis.


- De onde o senhor surgiu? - perguntou ela, mecanicamente, num sussurro assustado, apontando-lhe a varinha, embora soubesse que não tinha chance alguma se ele decidisse atacá-la.


Ele apenas sorriu em resposta.


- Eu ficaria muito feliz se não alardeasse; gosto muito do meu quarto para ter que destruí-lo - disse Dumbledore, no mesmo tom baixo de antes.


Ginny não disse nada. Não iria chamar Tom se não fosse necessário.


Dumbledore sorriu.


- Então é verdade. Surpreendente… Uma Weasley usando uma máscara. Realmente surpreendente - dizia ele, por mais que não tivesse como ele saber que era ela. - Mas acredito que não tenha vindo até aqui para conversar. O que você quer está na primeira gaveta do armário de cabeceira. Posso?


Ginny hesitou. Por que ele lhe entregaria o Pentagrama? Havia algo estranho ali.


- Ah, eu não quero confundi-la. Eu só vou te entregar caso aceite minha condição - respondeu o diretor, direto aos seus pensamentos.


Ela assentiu com a cabeça.


- Mostre-me.


Ele puxou o puxador da gaveta e colocou a mão lá dentro. Ginny torceu para que ele não tirasse a varinha, mas Dumbledore simplesmente puxou uma corrente fina e dourada, que terminava em um pingente de uns cinco centímetros.


Ela observou com ansiedade a estrela de cinco pontas circundada de pedras verdes e roxas que girava pendente e lentamente.


- Você deve estar se perguntando por que eu te entregaria o objeto passivamente - disse Dumbledore, em voz mais baixa, não atrapalhando seu transe.


- É uma boa pergunta - respondeu ela, os olhos ainda fixos na estrela.


- Bom, para começar, eu não tenho nada contra você.


- Sabe que não é pra mim.


- Sei. Aí entra outro motivo pelo qual eu te entregaria - disse o outro, calmamente. - Ele ficaria muito feliz se você conseguisse o Pentagrama para ele.


- Provavelmente. Mas não é bem uma resposta, o senhor sabe - disse Ginny, displicente.


Dumbledore sorriu.


- Apenas me diga uma coisa - disse Dumbledore, em tom curioso. - Você gosta mesmo dele?


Ginny piscou e desviou os olhos do pingente.


- O que?


- Você gosta dele? - repetiu o professor, calmamente. - Gosta de Tom?


Ela ergueu as sobrancelhas. Não só porque ele fizera uma pergunta estranhamente direta, como também porque ele o chamara do mesmo modo como ela o chamava.


- Sim, eu acho que sim - respondeu, não sabendo como aquela informação poderia ser útil a alguém.


- E vai ficar com ele até o fim? Não vai desistir dele? - continuou o velho, sem desviar os olhos dela.


Ginny sentiu a resposta sair mais rápido do que gostaria.


- É claro que não vou desistir dele!


O diretor sorriu. Atirou-lhe o pingente, que cintilou em sua direção. Ginny pegou-o no ar.


Ela olhou para o objeto em sua mão com admiração, então olhou para Dumbledore.


- Obrigada - disse, surpresa. Não achava realmente que ele fosse lhe entregar.


- Agradeça tendo cuidado com meus alunos.


Ela assentiu e continuou apontando-lhe a varinha enquanto recuava até a entrada, mas ele apenas ficou com as mãos cruzadas sobre os joelhos. Então ela virou-se e desceu três degraus antes de esbarrar em algo.


- Estava falando com alguém? - perguntou Tom, desconfiado, parando-a.


Ginny olhou para baixo antes enquanto respondia.


- Com Fawkes. Vamos, achei o Pentagrama - disse, levantando o objeto e torcendo para que ele não checasse se ela estivera mesmo conversando com um pássaro.


Ele pegou o pingente e olhou-o por alguns segundos, então encarou-a com um sorriso amplo.


- Tão eficiente!


Ginny sentiu-se corar quando ele lhe deu um beijo breve.


- Não fiz nada demais…


- Claro que fez, procurou no lugar certo… Vamos.


Ela agradeceu em silencio quando saíram pela porta ao final da escada, cruzaram a sala e foram em direção à porta principal.


Ao chegarem no corredor, os Comensais estavam cochichando.


- Mestre - chamou Lucius, num sussurro, quando os viu. Tom fez um sinal interrogativo com a cabeça. - Snape acabou de passar por aqui. Ele vai nos ajudar a voltar sem encontrar ninguém nos corredores.


Ginny sentiu como se tivesse levado um chute na barriga.


- O que? - exclamou, num sussurro.


- Snape…


- Eu ouvi!


- O que foi, Ginny? - perguntou Tom, vendo que ela parecia desconfortável.


- Snape. Não confio nele - disse, finalmente. Desejava ter dito isso antes.


- E você diz isso agora?! - desaprovou Tom, num início de ataque de raiva.


- Fale baixo. Vamos tentar chegar à passagem antes que alguém nos alcance.


Em silêncio, todos eles voltaram a se enfileirar próximos a parede e se deslocaram em direção ao corredor do terceiro andar. Estavam próximos, quando ouviram passos e, em seguida, uma porta se abriu, revelando uma menina de tranças que saiu e, sem lançar olhares para os lados, cruzou o corredor em linha reta até um bebedouro. Pelo seu tamanho, devia ser do primeiro ano.


Todos estacaram na mesma hora, mas, apesar de estarem à margem do corredor, estavam muito visíveis. O Feitiço Desilusório começara a dissipar havia uns vinte minutos.


Enquanto a menina bebia água, Ginny ouvia a voz do professor Flitwick dando aula na sala aberta. Dumbledore havia dito para ser cuidadosa com os alunos; o melhor meio de cumprir aquele pedido seria não sendo vistos, mas haviam chego à uma situação complicada. Ginny era contra enfeitiçar alguém daquele tamanho, mas provavelmente era a única que pensava daquela maneira.


Ela levantou a varinha antes que mais alguém o fizesse. Felizmente a Imperius não tinha cor, barulho ou rastro, mas realizar feitiços daquele nível sem verbalizar ainda não era a especialidade dela. Esperava conseguir.


Ginny sussurrou. A maldição parou a garotinha, que endireitou-se, virou-se de volta para a sala e entrou, fechando a porta ao cruzá-la.


Ela sentiu uma mão em seu ombro quando enfim parou para respirar, e então continuaram, nos passos mais rápidos e silenciosos que conseguiram produzir.


- Tão óbvia - reclamou Rookwood, quando viraram a esquina. - O professor vai perceber quando olhar pra ela!


- Devia ter feito você, então, ao invés de ficar parado esperando ela gritar - retrucou Ginny, raivosa, num sussurro.


- Perdão, eu não sabia que tinha permissão para amaldiçoar crianças!


- Você tem permissão para usar o cérebro, Rookwood!


- Calem a boca, vocês dois - ela ouviu a voz de Tom, entre dentes, encerrando a discussão e freando quaisquer Comensais que haviam começado a rir. - Bella, cheque com seus homens se está tudo bem.


Eles pararam à sombra de uma grande estátua de um hipogrifo. Bellatrix levantou a manga da blusa e tocou a própria Marca Negra com a varinha, enquanto todos, menos Ginny e Tom, faziam careta. Eles aguardaram alguns segundos, Bellatrix de olhos fechados.


- Não estão respondendo - disse ela, depois de mais alguns segundos, abrindo os olhos, por fim, com uma expressão tensa.


- Percebi - disse Tom, sem perder a cabeça. Ginny viu-o virar os olhos para ela. - Há alguma outra saída?


- Esqueça - disse ela, que estivera pensando enquanto Bellatrix tentava se comunicar com seus capangas, esquecida de manter a voz baixa. Estava pensando no Mapa do Maroto. - Se Snape avisou a Ordem da Fênix, Harry já deve ter nos localizado. Talvez seja melhor sairmos pela frente.


Ginny mal terminara de dizer as palavras, sua varinha saiu voando de sua mão.


- Talvez seja melhor ficarem exatamente onde estão, assim podemos providenciar sua prisão pacífica - disse seu ex-namorado, que, pelo som da voz, estava à alguns metros de distância às suas costas.
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Ginny sentia-se imprestável sem sua varinha. Pensou em xingar ao se virar.


- Parados! Joguem as varinhas no chão! - disse uma voz alta e autoritária vindo de sua direita, do corredor por onde acabaram de passar. Ela olhou, e o que viu fez sua barriga esfriar.


Metade de sua família estava ali, enfileirada, apontando-lhes as varinhas, ameaçadoramente. Bill, Percy, Ron e seu pai encaravam-nos.


- Cuidado - alertou Harry, no fim do outro corredor. - Eles não estão sozinhos.


A frase era valida para ambos os grupos, pensou ela. Ginny olhou na direção de Harry, e viu-o ladeado por Fred e George e seguidos de perto por Hermione, Charlie e sua mãe. Ele segurava o mapa, como sabia que faria.


- Só pode ser brincadeira - resmungou ela, desconfortável, vendo-os todos com olhar ofensivo em sua direção. Tom deve ter ouvido, porque ela ouviu um riso baixo às suas costas.


- Não se preocupe. Tem uma passagem atrás de nós.


- Onde?


- Atrás da estátua - respondeu Tom, em voz baixa e calma.


- Não conheço essa. Onde vai dar? - perguntou ela, tendo um ligeiro pressentimento.


- Perto do banheiro feminino.


Ela sorriu levemente por trás da máscara. Obviamente.


Ginny viu-o cutucar Bellatrix, que apontava a varinha para Harry, e cochichar alguma coisa. A outra assentiu com a cabeça enquanto Lucius inclinava-se para ouvir também.


O que aconteceu em seguida a surpreendeu. Tom saiu da barreira de Comensais, tranqüilamente, girando a varinha nos dedos, como ele gostava de fazer.


- Se podemos resolver isso com diplomacia, por que brigar, não é? Pessoalmente, acho desnecessário assustar os alunos - expôs ele, para os adversários, em voz calma.


- Claro. Só devolva o Pentagrama, e podem ir embora pacificamente - respondeu Harry, numa cordialidade irônica.


- Receio que isso não seja possível - rebateu Tom, ainda em voz calma. - Mas mesmo assim, prefiro evitar confusões aqui dentro.


Bellatrix a cutucou discretamente. Ela olhou e viu a outra apontar ligeiramente para trás com a cabeça. Ginny retrocedeu devagar e viu Adam desaparecendo numa fenda atrás do suporte de pedra da estátua do hipogrifo.


Entendendo a deixa, Ginny foi retrocedendo devagar até encostar na parede, então deu alguns passos para o lado e entrou no buraco.


Era uma passagem estreita que descia. Ao fim, ela empurrou um quadro e saiu no corredor do segundo andar, a alguns metros do banheiro feminino onde Myrtle ficava. Adam, e Rabastan já estavam ali. Instante depois o quadro por onde saíra bateu em suas pernas e ela afastou-se a tempo de ver Bellatrix saindo pela passagem.


- Vamos! - disse a outra, com urgência, quando saiu. Ginny olhou confusa.


- Vamos aonde? Ainda não estão todos aqui - disse, já pressentindo a resposta.


- Vamos nos dividir. Devemos ir para o departamento de Defesa Contra as Artes das Trevas - disse Bellatrix, jogando os cabelos para trás e saindo na frente. Os outros acompanharam-na. Ginny ficou parada, olhando para o quadro de onde saíra.


Não, não ia se separar de Tom. Aquilo não ia dar certo.


No mesmo instante que decidiu voltar, houve um baque no andar de cima, como uma explosão, que tremeu o quadro. Vozes alteradas, e então alguém puxou sua mão, ao mesmo tempo em que o quadro girava para o lado e ela vislumbrou um par de cabelos acobreados em meio à poeira que saía da passagem.


- Eles sabem se virar - garantiu-lhe Adam, ofegante, enquanto puxava-a aos galgos pelo corredor. Um feitiço passou raspando em sua bochecha.


Ela correu com mais ânimo depois disso, principalmente porque não tinha mais uma varinha.


Eles desceram uma leva de escadas e encontraram-se no lado oposto do departamento de Defesa Contra as Artes das Trevas. Os passos ainda ecoavam, seguindo-os. Ela não se virou, correu mais rápido do que nunca.


Bellatrix se virou de repente, quase fazendo-a esbarrar e cair. Ginny viu-a atirando dois feitiços. Pelo gemido que ouviu atrás dela, teve certeza de que ela acertara o alvo.


- Pare de atacar! - pediu ela, num misto de rispidez e súplica, sem saber quem tinha sido atingido.


Bellatrix ignorou-a e tornou a correr. Rabastan e Adam já estavam virando o corredor.


O que Ginny viu quando fez a curva fez seu estômago revirar.


Os outros três haviam parado, perdidos, frente ao mar de estudantes que inundava o corredor; era hora do intervalo. Não esperavam por isso.


Bellatrix foi a primeira a sair do choque. Levantou a varinha e produziu um estampido alto e silenciador. Os alunos pararam na mesma hora para saber o que estava acontecendo.


- Saiam do caminho! - vociferou ela, avançando em sua direção, ameaçadoramente com a varinha na mão. Um caminho abriu-se instantaneamente entre as crianças, entre as quais algumas correram de volta para a sala de onde tinham saído e o restante encostou na parede, aterrorizado demais para sair do lugar.


Aparentemente a Comensal conseguira atrasar os Weasley, pois correram entre os alunos sem sinal dos passos na sua cola. Ginny olhou para trás para se certificar.


A próxima coisa que sentiu foi o choque esmagador do lado esquerdo de seu corpo contra algo sólido. O que quer que fosse, caiu com ela no chão, enquanto as crianças começavam a gritar e correr.


- Mas que inferno, GW! - protestou uma voz masculina bem conhecida sua, à sua direita.


- Desculpe! - pediu, sentindo-se culpada, enquanto se levantava.


- Estou vendo dois, pai! - gritou uma voz às suas costas, que ela reconheceu como sendo a do irmão mais velho. Gelou.


- Ataque! - ela ouviu a resposta.


Ginny ouviu um estampido, e no segundo seguinte, algo grosseiro apertava suas canelas e braços, fazendo-a cair de novo.


- Merda - xingou baixinho, o rosto raspando o chão de pedra. - Me ajude, Lucius!


Ela sentiu a corda que apertava seus braços contra o corpo se afrouxarem, mas parou por aí. Ela virou se barriga pra cima e viu o colega disparando feitiços contra seu pai.


- Lucius Malfoy - ela ouviu seu pai dizer, depois de rebater um feitiço. - Parece que está sozinho desta vez.


- Não conte com isso, Arthur - respondeu Malfoy, antes de atirar outro feitiço, que foi bloqueado em cima da hora.


Ginny tentou tirar as cordas que juntavam suas pernas com as mãos, mas elas não se mexeram. Ela rastejou para trás, sentindo-se estúpida em ter que se movimentar feito uma minhoca.


Bill ultrapassou os dois homens que duelavam e avançou com a varinha para ela. Ela tentou rastejar mais rápido, os olhos arregalados no irmão, mas só o que conseguiu foi se enrolar, escorregar e bater a cabeça no chão. A visão embaçou e ela apertou os olhos, tonta.


- Stupefy - disse uma voz próxima, mas não foi a de Bill.


Ela abriu os olhos na hora que ouviu o barulho de um corpo desabar aos seus pés. Houveram gritos e explosões vindos da esquina próxima. Olhou para o lado e viu Tom de pé, olhando-a.


Ele não fez comentários, apenas apontou a varinha para ela e Ginny sentiu a corda desaparecer. Em seguida, estava sendo magicamente colocada de pé.


- Tome - disse ele, com urgência, colocando algo em suas mãos. Era sua varinha e o Pentagrama.  - Guarde.


Tom segurou o ombro de sua capa e puxou-a para o lado oposto do corredor, enquanto ela enfiava o pingente no bolso e ouvia as crianças gritarem e correrem.


- Infractus - disse o amante, seguro, apontando a varinha para seu pai, e houve um ruído esquisito antes de Ginny ver o último caindo sobre a perna direita com um urro de dor. - Lucius!


O colega seguiu-os. Eles ignoraram os alunos que corriam desnorteados tentando fugir. Ginny não teve tempo de sentir pena do pai.


- Onde estão os outros? - perguntou ela, ofegante, enquanto corriam.


- Vindo - respondeu Tom, brevemente, ainda segurando sua roupa.


Dois segundos depois, ela percebeu outras pessoas correndo junto com eles. Era Rodolphus e Rookwood. Estavam sendo perseguidos por outros.


Eles evitaram o corredor que se abria para a direita e viraram para a escada. No piso inferior era possível perceber uma movimentação.


Adam estava aflito bloqueando os feitiços de sua mãe e Charlie, Rabastan duelava com Fred e George e Bellatrix duelava com Harry e Hermione. A coisa não estava muito justa, mas ainda assim ela temia por Harry e Hermione, que não se encaixavam na “proteção-Weasley” que se instaurara desde que ela entrara para a Ordem, e Bellatrix era uma das Comensais mais perigosamente competentes.


Ginny pensou rápido. Com a chegada deles, eram sete Comensais mais Tom, contra dez dos outros, entre seus familiares, Harry e Hermione. Quase um para um. Ela resolveu ficar com Hermione.


A chegada deles mudou as coisas. Harry desvencilhou-se do duelo com Bellatrix e começou a atacar Tom, que reagiu; Percy surgiu de repente e começou a duelar com Rodolphus, Bill e Ron aparecendo em seu rastro e entrando na briga, indo confrontar Rookwood e Bellatrix, respectivamente. Seu pai apareceu mancando segundos depois, mas apesar da expressão de dor, fez questão de continuar seu duelo com Lucius.


O fato de Ron ter ido defender Hermione facilitou as coisas. Ginny atirou um feitiço paralisante na amiga, que desviou a tempo, mas foi o suficiente para mudar sua atenção para ela.


Hermione começou a atacá-la com destemor, e a garota começou a achar que havia sido uma má idéia tê-la provocado, enquanto recuava e apressava-se nos feitiços-escudo. Talvez fosse hora de dar um toque.


- Você não se atreveria a machucar alguém menos capacitado do que você, Hermione - disse, numa voz alta o suficiente para que a rival ouvisse, mas não o suficiente para os outros, depois de rebater um Feitiço Estuporante.


A outra congelou.


- GW? - perguntou ela, apenas para confirmar, surpresa.


- Sim. Não pare de me atacar! - disse, entre os dentes.


A outra obedeceu. Lançou-lhe um Feitiço das Pernas-Presas, que Ginny bloqueou.


- Essa batalha é perigosa para você. Não deixe mais ninguém te atacar - aconselhou ela, antes de lançar um Impedimenta.


Hermione desviou.


- Sei me cuidar - respondeu a amiga, ofegante. Lançou-lhe um jato de fagulhas de aparência inflamável e ela foi obrigada a se deslocar alguns passos para evitá-los. - Sou uma Aurora!


- Você não está entendendo. Os únicos alvos aqui são você e Harry - respondeu Ginny, em tom de quem não quer nada. Atirou uma Azaração do Morcego-Meleca.


Hermione não foi capaz de evitar esse. O feitiço a atingiu e inúmeras asas de morcego em movimento começaram a brotar de seu rosto. Esta parou, aflita, enquanto decidia o que fazer, os sentidos embaralhados.


- Desculpe - pediu Ginny, com sinceridade. - É para o seu próprio bem. Stupefy.


Assim que Hermione perdeu os sentidos, ela fez menção de observar o resto do combate, antes de sentir algo quente atingir suas costas.


Fora um Feitiço Paralisante, ela percebeu, meio segundo mais tarde. Concluiu, porém, que não passara de um feitiço-perdido, já que ninguém a estava atacando. Ela observou, petrificada, que Adam estava sendo rendido e que seus oponentes avançavam para Rabastan. Este não continuaria combatendo por muito tempo se o irmão não tivesse estuporado Percy e vindo em seu auxílio. Lucius e seu pai continuavam numa batalha violenta próximos aos degraus da escada. Ron estava levando uma pior para Bellatrix, mas foi acudido a tempo pelo grupo que largou os irmãos Lestrange desacordados. Rookwood atacava Bill com perícia a alguns metros, e conseguiu fazer um machucado feio o suficiente em seu irmão mais velho para que esse se distraísse da luta por dois segundos, o necessário para que fosse acertado com um Petrificus Totalus, tirando-o da luta. Rookwood foi ajudar Lucius.


Antes que se atentasse a última dupla de duelistas, houve um estampido alto e algo aterrissou com força a alguns palmos dela. Ela viu Tom avançando de trás do grupo que tentava conter Bellatrix e acertar todos eles com uma onda azulada de contenção, fazendo-os recuarem. Ginny sentiu o movimento voltar às pontas dos dedos e ir subindo pelos braços mais lentamente do que gostaria; metade dos Weasley agora chegavam perto demais dela para que se sentisse à vontade.


Felizmente, Tom percebeu.


A garota reparou, com satisfação, que o feitiço havia sido interrompido. Não perdeu tempo em correr na direção oposta, chegando até seu grupo em três segundos.


Enquanto encarava os Weasley e apontava-lhes a varinha da fileira de Comensais, uma lacuna se abriu entre os dois grupos, que pararam para respirar, preenchida apenas pelos corpos inconscientes no chão. Ela percebeu Lucius e Rookwood emergindo ao lado deles e imaginou que seu pai havia sido, enfim, rendido às suas costas.


Sua mãe, Ron, Fred, George e Charlie permaneciam em pé. Harry saiu de trás deles um segundo depois, suado, ofegante e com os cabelos caídos na testa. Quando percebeu a trégua, encurvou-se um pouco, a mão da varinha no joelho e a outra pressionando a cicatriz. Ela ouviu Tom ao ser lado fazer um barulho anasalado que podia ser um riso.


- Como eu disse antes, acho que podemos resolver isso sem violência - disse Tom, que contava ainda com assistência dela, de Bellatrix, Rookwood e Lucius. Adam estava preso por cordas atrás dos Weasley, como ela estivera há pouco tempo, enquanto Rodolphus e Rabastan estavam desacordados em meio a lacuna que os dividia. - Basta me deixar reanimar meus homens e vamos embora sem causar maiores confusões.


Harry tirou a mão da cicatriz e encarou-o. Ginny não sabia o que ele estava pensando, mas sabia que não ia desistir assim, tão fácil.


- Está com a Comensal do lado - disse ele, de repente, em voz alta e significativa, para os outros. Ginny se viu de uma hora para outra o principal alvo das varinhas dos seus familiares.


Foi mais forte do que pôde reagir. Todos eles gritaram “Accio” ao mesmo tempo, e Ginny tentou segurar a correntinha que escapava de seu bolso, mas ela escorregou por entre seus dedos.


- Não! - A garota fez menção inconsciente de ir atrás do objeto, mas foi freada por um puxão na capa. Ela ouviu o mestre suspirar


- Ron! - disse Harry, e o irmão avançou um passo com a mão estendida; o pingente foi pousar direto na sua mão aberta. Um segundo depois ele apontava a própria varinha para o objeto. - Se reagirem, Ron destrói o Pentagrama.


Ele virou-se, culpada, levando as mãos à cabeça.


- Me desculpe!


Tom olhou-a de cara feia por um segundo e tornou a olhar para os outros.


- Está certo - ela viu Tom dizer, na sua voz mais cordialmente perigosa. - Se vocês querem assim, é assim que vai ser…


Ginny não entendeu de imediato quando sentiu uma varinha cutucar sua cabeça, e pretendeu virar a cabeça para olhar. Antes que o fizesse, porém, havia captado a proposta. Ah, aquilo seria interessante…


Ela olhou para a frente, simulando apreensão. Todos, com exceção de Harry, estavam ligeiramente surpresos com a situação. Por que algum deles se importaria com um Comensal da Morte? Fred e George se entreolharam, desconfiados.


Alguns segundos depois, Ron pareceu ter entendido, porque se mexeu involuntariamente na fileira.


- Esperem, não ataquem! - disse ele, de repente, parecendo perturbado. Os outros olharam-no com os cantos dos olhos, surpresos. O irmão então se dirigiu ao inimigo - Deixa ela em paz!


Ela ouviu Tom rindo antes de responder.


- Por que eu deveria? A única coisa que ela precisava fazer era manter o Pentagrama longe de vocês, e nem isso ela foi capaz de fazer. Chega a ser vergonhoso. Neste caso, ela ainda pode servir para alguma coisa. É uma troca justa, você não acha?


Harry deu um estalo desdenhoso com a língua. Os Weasley voltaram a atenção para ele.


- Não dêem ouvidos! É um truque! - acusou ele, furioso, vendo que Ron estava caindo na artimanha.


- Não é um truque! - respondeu Ron, exasperado, para Harry, apesar de continuar olhando para ela. - Você sabe! Você viu no mapa!


Charlie virou-se para Ron, com expressão confusa, depois se entreolhou com sua mãe. Eles estavam entendendo que os dois mais jovens sabiam de algo que eles não sabiam.


- Não faz diferença - rebateu Harry, voltando a apertar os olhos com a dor na cicatriz de ficar exposto ao olhar fixo do rival. - Ataquem!


- Você podem atacar, mas por que não esperam para ver? - disse Tom, lentamente, como uma criança prestes a cometer uma traquinagem. De fato ia. - Acho sensato tirar sua máscara agora, Ginny.


Ela assentiu, sentindo o coração bater com mais força. Segurou a máscara de rosto inteiro que havia feito na semana anterior e levantou-a, fazendo cair o capuz no movimento.


Seguiu-se um silêncio pesado quando ela abaixou o braço, pendendo-o ao lado do corpo, o seu mais fiel refúgio preso entre os dedos.
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III


 


Era óbvio que eles estavam em choque; encaravam-na como se ela fosse uma alucinação. Ginny então viu a cor desaparecer do rosto de cada um, gradativamente. Por fim, sua mãe levou a mão à boca e deixou escapar um lamento que a garota não entendeu se era de desgosto ou de felicidade.


- Ginny! Ginny! - soluçou a mulher, sem saber o que dizer, deixando cair a varinha quando levava às duas mãos ao rosto. Ouvir seus lamentos foi meio perturbador, mas ela agüentou firme.


Os Comensais riram. Os irmãos fitavam-na com os olhos arregalados e confusos, mas não abaixaram as varinhas.


- Segura firme, mamãe. Não pode ser ela - disse um dos gêmeos, olhando preocupado para a mãe, que estava entrando em crise.


- Não pode ser eu, George? - perguntou ela, sabendo que a identificação no final da frase colocaria fim na dúvida. O irmão abriu a boca, incrédulo, e os outros não tiveram reações muito diferentes.


- Podemos negociar agora? - disse Tom, numa voz calma, porém cheia de satisfação pela situação incômoda entre os oponentes.


- O que fizeram com você, filha? - perguntou sua mãe, de repente, deliberadamente ignorando-o.


- A senhora se refere ao que, exatamente? - perguntou ela, abrindo um sorriso torto. - Fizeram várias coisas comigo ao longe desses anos. Não pode esperar que eu me lembre de todas…


- Eu acho que ela está se referindo à como você passou a usar uma máscara, Ginny - comentou Tom, ao seu lado, a varinha ainda apontada para ela, numa voz falsamente prestativa, enquanto os outros riam.


- Ah, sim - disse ela, entrando na brincadeira. - É uma longa história, mas tenho certeza que Harry poderá lhes dar detalhes.


O ex-namorado fez uma careta que indicava mais desagrado do que apenas dor na cicatriz. Todos olharam-no, mas ele preferiu continuar encarando-a com raiva e silêncio.


Ginny não conseguiu conter o sorriso. Harry ali facilitava as coisas. Era mais fácil ser cruel enquanto encarava-o.


- É uma pena que ele não queira me ajudar a contar a história, já que foi por causa dele que eu desapareci - confessou, com uma espécie de satisfação perversa enquanto encarava-o nos olhos. Ao menos via-o se remoendo. - Não foi muito sensível da parte dele terminar o namoro no dia do meu aniversário. E já que eu não servia para nada ali, resolvi tentar algum reconhecimento em outro lugar.


- Que irônico… Eu fiz isso - disse Tom, entoando um quê de orgulho que a fez alargar o sorriso. - Eu a transformei numa bruxa de verdade, embora, admito, ela já tivesse tudo o que precisava… Apenas a lapidei.


Ela continuou sorrindo, mas não fez comentários.


- Comensais, reanime os outros e vão. A reunião de família vai demorar um pouco - disse Tom, em voz pouco mais baixa, dirigindo-se ao grupo deles.


- Milord, tem certeza? - perguntou Bellatrix, em voz baixa e preocupada.


Ginny não ouviu uma resposta, mas dois segundos depois, Bellatrix e os outros estavam indo até os colegas desacordados e reanimando-os e, pouco depois, dirigiram-se ao corredor às suas costas e não voltaram mais.


- Melhor agora que temos privacidade, não é, Ginny? - disse Tom, em voz divertida e baixa, mas alta o suficiente para que os outros ouvissem. Ela sentiu um movimento atrás dela, e logo depois, um braço segurava-a quase ao redor de seu pescoço, a varinha ainda encostada em sua cabeça. - O que acha de uma pequena encenação? - perguntou-lhe num murmúrio, repentinamente, ao ouvido. Ginny observava as reações de seus familiares frente à mudança de posição do rival.


- Especifique - disse ela, num murmúrio tão baixo quanto, tentando não mover muito os lábios.


- Os pegaremos pela dúvida. Se acharem que você é inocente, maiores chances de termos de volta o Pentagrama. Vou te tirar de uma Imperius. Você entendeu, não? - ela ouviu a resposta apressada.


- Deixa comigo - tranqüilizou-o Ginny, tentando não sorrir.


A julgar pelas caras ansiosas e perplexas dos Weasley, não deviam ter percebido que eles estavam conversando; deviam estar achando que Tom estava cheirando seu pescoço, pensou ela, segurando o riso.


- Não queria muita platéia; eles perderiam o respeito - disse Tom, voltando a se dirigir aos Weasley. - Mas sugiro que me devolvam o Pentagrama, ou será pior para ela. Já disse que Ginny não me tem mais nenhuma serventia. Ela vem cometendo uma série de falhas há algum tempo, e só tolerei porque sempre havia quem as corrigisse. Eu até reconsideraria se ela aceitasse trabalhar por conta própria, mas ela é rebelde demais para isso; infelizmente, a Maldição Imperius condena um terço da sua inteligência… É uma pena. Ginny tinha potencial.


Ginny continuou impassível. Os rostos de seus familiares tingiram-se de branco esverdeado quando processaram a informação. Harry fez uma cara estranha que ela não conseguiu decifrar.


- Ah, imaginei que ficariam confusos… Mas Ginny pode confirmar minha história. Finite Incantatem.


Ela revirou os olhos, numa expressão vazia, e quando voltou a focar o olhar, piscou, atordoada, para os Weasley.


- O que… Onde…? - perguntou, fingindo confusão. Então aparentou perceber a varinha apontada para sua cabeça. - Ah! Por favor, por favor, não… Me deixe em paz, por favor!


Ele deu um riso baixo e mau ao seu ouvido.


- Você se lembra do último ano, Ginny? Se lembra das coisas que você fez? De quando planejou todos aqueles ataques contra aquelas pessoas? - provocou ele, em teatro para os observadores.


Ela torceu o rosto numa expressão transtornada.


- Por que está fazendo isso comigo? O que mais quer de mim? Por favor, por favor…


- Quero que conte a eles o que aconteceu há dois anos - disse ele, ainda numa voz de cruel satisfação.


Ginny olhou para a mãe, os irmãos e o ex. Conseguiu fazer os olhos se encherem de lágrimas.


- E-eu fui até ele, e-eu estava com raiva… Mas eu me arrependi! Eu tentei ir embora antes que… que me obrigassem a fazer alguma coisa, mas ele não deixou…! Ele me prendeu, me enfeitiçou! Por favor, acreditem em mim!


Os Weasley pareciam perplexos, mas Harry encarava-a com mais raiva que nunca.


- Não acreditem no que essa… desqualificada está dizendo! É mentira, tudo mentira! São cúmplices! - gritou ele, de repente, em tom de acusação, apontando-lhes a varinha.


Ela quis rir com a adjetivo que ele usara - tinha certeza que não usara um nome pior para não chocar sua mãe -, mas segurou firme. Concentrou-se na expressão de desilusão que fez surgir em seu rosto.


- Não, Harry… Me desculpe, me desculpe, eu nunca deveria ter ido…! Estou dizendo a verdade, você sabe que estou! - pediu, num lamento desesperado, encarando-o nos olhos. - Eu tentei fugir, eu tentei…! Eu resisti, eu lutei contra a maldição, mas me machucaram tanto… Eu não consegui! Me desculpe, Harry, me desculpe, por favor!


Tom riu com a encenação comovente dela.


- Tivemos alguns problemas de comunicação no começo, então precisei lhe dar algumas aulas de disciplina… Nada que o tempo e a aceitação não tenham curado, não é, Ginny?


Ela soluçou e caiu no choro. Foi o golpe de misericórdia.


Os Weasley se entreolharam, abalados. Sua mãe também tinha lágrimas no rosto. Harry ainda encarava-a com fúria, mas seus olhos estavam anormalmente brilhantes por trás dos óculos. Ele torceu a expressão com desgosto.


- Não é verdade! Não é verdade! Não acreditem neles, pelo amor de Deus! - disse ele, menos violentamente do que antes, mas ainda bem ofensivo. Havia, porém, algo em sua voz; seria esperança?


- Você podem acreditar em Potter e ver o que eu faço com ela, ou podem abaixar as varinhas agora e devolverem o Pentagrama, e tudo se resolverá bem - envenenou Tom, lentamente.


- Não devolvam! - choramingou ela, corajosamente. - Eu não sou mais importante…


Isso fez mais efeito do que estava prevendo. Todos eles abaixaram as varinhas e as jogaram no chão, menos Harry. Este olhou desgostoso ao redor, e parecia furioso consigo mesmo. Então, depois de um tempo, pareceu admitir derrota; deu um urro raivoso e deu costas aos Weasley, indo para o fim do corredor para andar com passos duros de um lado para outro.


Os irmãos olharam para Ron e fizeram um gesto afirmativo. O irmão mais novo respirou fundo e então atirou a estrela dourada em sua direção.


O amante soltou-a por um segundo, a tempo de pegar o pingente no ar, então voltou a segurá-la. Ainda mantendo-a de refém, e ela fingindo inocência, eles foram recuando lentamente.


Os Weasley ainda observavam-nos se afastando com rostos ansiosos. Então, quando estavam longe o suficiente, Tom começou a rir sua risada mais característica, a que arrepiava.


- Ela não é uma ótima atriz? - perguntou ele em voz alta, maldosamente, mal contendo a excitação.


Ela viu as expressões congelarem nos rostos de seus familiares, como se tivessem pisado em algo desagradável. Ginny não conseguiu conter o sorriso largo que forçou os cantos de sua boca.


- Quando foi que se tornaram ingênuos? - provocou Ginny, em voz alta e sem sinais de que estivera aos prantos ainda à pouco. - Sempre me ensinaram a não confiar em ninguém suspeito, estou surpresa de vê-los cometendo esse tipo de erro. Dois anos! Acham que eu não daria um jeito de avisar? Harry os avisou, mas vocês nem quiseram ouvir… - Ela sentia a perversidade crescer dentro dela a cada minuto, e admirava-se ao perceber o quanto aquilo era satisfatório. O choque repulsivo no rosto dos irmãos fazia seu sorriso se tornar cada vez mais demente. - Como puderam achar que não sou fiel ao meu mestre?


Tom tornou a rir ao seu ouvido.


- Vamos - disse ele, apressado, embora houvesse prazer em sua voz.


Ela deu um último riso antes que ele a soltasse, pegasse sua mão e saíssem rapidamente pelo corredor que virava à sua direita. Correram, sem olhar para trás. Desceram duas levas de escadas saltando três degraus por vez. Ela sentia-se surpreendentemente leve, vívida e excitada. Não ouviu passos às suas costas, mas não pararam um instante sequer. Encontraram alunos no seu caminho, mas ignoraram-nos. Ele fez a grande porta do saguão se abrir com um gesto da varinha antes mesmo de chagarem nele, e saíram para os jardins. O sol morno tocou seu rosto junto com uma brisa libertadora. Ao longe o portão, mas não se importaram com a distância.


Ginny olhou-o enquanto corria, de mãos dadas, e ele retribuiu seu olhar. Ambos sorriram como se fossem cúmplices de uma travessura. Ginny desejou muito estar a sós com ele, porque se sentia extremamente viva ao seu lado. Sabia que era errado, sabia que estavam prejudicando os outros, mas ela não se importava com nada disso no momento. Tudo o que queria era que estivessem juntos por toda a vida.


O portão se escancarou antes que o tocassem. Tom correu à frente, puxou-a e Ginny teve o prazer de ver-se em seus braços ao mesmo tempo em que se transportavam para longe dali.
.
.


De uma janela nos andares superiores, Dumbledore observava indiferente quando, alguns minutos depois dos Comensais vestidos de preto terem atravessado o jardim, Ginny e Voldemort desaparataram além do portão. Respirou fundo, pensativo. Teria feito a coisa certa?


- Lamento que esse seja seu fardo, Ginny. Tão jovem para carregar uma responsabilidade tão grande… - murmurou consigo mesmo. - O destino tem sido cruel com nossas crianças…


E ele se lembrou de Hogwarts, há muitos anos, naquele mesmo gramado ensolarado. Lembrou-se do garoto mestiço que andava sozinho entre as aulas, detentor de um dom raro para a magia. Lembrou-se de como esse garoto tão bonito e inteligente fora se tornando algo ruim e repulsivo.


Lamentava por ele também. Apesar de tudo, sentia-se responsável por não ter percebido antes.


Se Ginny simplesmente tivesse nascido algumas décadas antes… Talvez tudo tivesse sido diferente, então…


- O que foi que você fez, Dumbledore? - perguntou uma voz chocada às suas costas. Ele virou-se e viu os quadros dos antigos diretores observando-o, espantados.


Suspirou.


- O que tinha que ser feito - respondeu, cansado. - O que tinha que ser feito…


 


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Nota – Música: Imperfect Tenses, composta por Floor Jansen e Mark Jansen, da banda de metal sinfônico holandesa After Forever, apresentada no álbum Decipher, num belo dueto entre Flooor Jansen e Rein Kolpa, tenor belga. Essa música foi uma das que melhor serviram ao capítulo, felizmente!

PS: MIIIIL PERDÕES PELA DEMORA! Eu estava com um grave problema com o F&B e não pude postar antes. Quem não quiser esperar pode ler a fanfic na íntegra na fanfiction.net, adicionando "/~arkanusa " ao endereço.

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