Os três homens ainda riam quando Artur acompanhou Rony e Harry até a cozinha do chalé, algumas horas depois. Eles passaram bem na frente de Molly, e Artur ofereceu-lhes uma cerveja gelada.
Gina percebeu pelo olhar da mãe que o marido pagaria caro por suas atitudes. Mas ele também sabia que a esposa jamais arrumaria a cozinha na frente de estranhos. Preferia a morte do que se sujeitar a isso.
E Gina não sabia qual era o mais estranho na opinião da mãe.
- Vocês aceitam um lanche? - ofereceu Molly, educada.
- Que tal, Harry? Rony? Molly sabe preparar como ninguém um sanduíche de peito de peru.
- É uma ótima idéia, se não for dar trabalho – respondeu Rony.
A resposta de Harry foi apenas um sorriso para a especulativa Molly.
- Não será incômodo algum. Enquanto vocês se lavam, eu preparo os lanches. Gina? Você põe a mesa?
- É claro, mãe.
Em tempo recorde, Molly tinha a mesa cheia de sanduíches, saladas de batata, picles, pães e frios. Mostrou aos homens onde se sentar. Gina, depois de acomodar as filhas no balcão, juntou-se a eles.
- Como vão os preparativos do casamento, Rony? - perguntou Gina, dando uma mordida no sanduíche.
- Muito bem - respondeu, olhando de soslaio para Harry.
- Está tudo certo, Rony. Gina já conversou comigo.
- Conversou sobre o quê? - intrometeu-se Mollly
.
- Minha prima Hermione e Rony se casarão em setembro. Eles pediram que eu cedesse a casa para a recepção. Harry fitou Molly, que não desviou o olhar.
"Está melhorando", ele pensou.
- Que idéia adorável - elogiou ela.
- Eu ainda não disse sim - acrescentou Harry.
- E por que não? - continuou Molly.
- Harry não gosta de multidões, mãe.
Harry não respondeu à provocação, mas olhou-a, irritado. Gina sorriu e bebeu um gole do chá gelado. Ninguém se atreveu a dizer mais nada, e o assunto foi posto de lado. Rony parecia aliviado. Gina não se surpreenderia se Hermione tivesse mandando o noivo para saber algo sobre o tema. O dia do casamento se aproximava depressa, e, a julgar pela voz da corretora na última conversa por telefone, Gina podia afirmar que Hermione já tinha os convites prontos para enviar.
Distraída com o casamento, Gina nem percebeu que Rony comentava sobre uma feira de móveis que visitara na semana passada e sobre Harry ir para algum lugar.
- Aonde Harry vai? - interrompeu ela.
- Comprar madeira - respondeu Rony. - Harry sempre refaz seu estoque nesta época do ano. - Eles se olharam e sorriram. - Ele detesta quando chega perto da data.
- Que data?
- Nenhuma, Gina. Apenas preciso fazer umas compras de madeira para os novos projetos que Rony me trouxe.
- Quanto tempo você pretende ficar fora? - ela perguntou, sabendo que todos a olhavam, mas não conseguindo afastar a curiosidade. Sabia que, do jeito que as coisas caminhavam, nunca mais teria a oportunidade de conversar a sós com Harry.
- Uma semana ... Talvez duas. Ainda não sei direito - disse ele, sem tirar os olhos de Gina, que parecia aborrecida. Por que seria?, pensou Harry. Teria medo de ficar sozinha com as filhas? Não, pois estava acompanha dos pais. - Será que você poderia me fazer o grande favor de cuidar de Wilbur? - Quando percebeu o olhar confuso, preocupou-se. - Há algo errado, Gina?
- Não. É claro que não - respondeu ela, recostando-se na cadeira e forçando um sorriso. - As meninas adorarão ter a companhia de Wilbur o dia todo.
Harry a analisou com cuidado. O que haveria de errado?
Pelo que sabia, Gina não ficaria sozinha. Devia existir um outro motivo para aborrecê-la de tal maneira.
A menos que ela fosse... sentir sua falta. A idéia o arrepiou da cabeça aos pés.
Seus olhares se encontraram, e o que Harry viu nos olhos dela agradou-lhe o coração. Não, não podia ser possível. Havia outro problema com Gina. Procurou acalmar-se. Harry enxergava algo que não existia. E por que se surpreendeu? Já não sabia mais como agir com mulheres, muito menos ler-lhes a mente. Harry sorriu no intuito de minimizar a tensão dela.
- Quando você partirá?
- Hoje à tarde, depois de deixar Willy na cidade. Eu queria consertar a cerca antes de partir.
- Já está pronta.
- Sim. - Ele deu um tapinha nas costas de Rony e de Artur. - Eles me ajudaram bastante.
- Bem, faça uma boa viagem - desejou ela, fingindo entusiasmo. - Solte Wilbur quando você sair. Mais tarde cuidarei dele.
- Obrigado. Deixarei a comida em uma sacola na varanda.
Gina sorriu. Harry também. Artur serviu-se de salada de batata e mudou de assunto. Gina não prestava atenção a nada. Empurrou o prato para a frente e limpou os lábios com o guardanapo. O lanche tinha terminado. Pelo menos para ela, pois perdera o apetite.
Depois do café, Molly e as gêmeas limparam a mesa, enquanto Artur e Gina acompanharam Harry e Rony até a porta. Ela despediu-se, mas não saiu do lugar nem mesmo quando Harry entrou em casa.
Sentiu o braço do pai em seu ombros.
- Obrigada por ter ajudado com a cerca, papai, mas acho que mamãe ainda mostrará sua zanga por causa das suas costas.
- Eu cuido dela, querida. É você quem me preocupa.
-Eu?
- Sim, você. Eu soube como a cerca quebrou.
- Ah, pai, foi uma brincadeira idiota em que nós perdemos o controle.
- Só isso? Uma brincadeira?
- Sim, é óbvio. Por que a pergunta?
Artur passou a mão na testa da filha.
- Querida, eu a conheço e não é de hoje. Toda a vez que algo a incomoda, você franze o cenho. Como agora.
- O que poderia estar me aborrecendo? - perguntou ela, procurando demonstrar naturalidade.
Nesse instante, a porta da casa de Harry se abriu, e os dois apareceram. Conversaram enquanto se dirigiam até o carro, mas Gina não escutou nenhuma palavra. Olhou para a bagagem que Harry colocava no porta-malas. Abriu a porta do passageiro depois de afagar o cão. Antes, todavia, de entrar no automóvel, olhou para o chalé, encontrando com o olhar de Gina. Hesitou por um momento, mas acenou-lhe logo em seguida. Ao ver a caminhonete partir, Gina não conseguiu evitar um suspiro.
- Ele voltará logo - disse Artur.
Ela enxergou a compreensão no rosto do pai.
- Papai, eu sou tão transparente assim?
- Para mim sim, querida. - Abraçou-a com carinho. - Só uma coisa, filha.
- O quê?
- Não comente nada com a sua mãe.
(...)
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