A chuva de ordens parecia não ter fim. Justo quando começou a copiar os relatórios, o interfone tocou.
— Sim! — Se ela não terminasse os relatórios até o fim do dia, com certeza ele reclamaria. Severo Snape não precisava de uma simples secretária, mas de uma super-mulher!
— Traga-me a pasta Smith.
— Sim, senhor.
Maureen foi até o arquivo e blasfemou quando encontrou três pastas com o nome de Smith. Sem perder tempo, levou-as até a mesa dele. Notou então que Snape massageava a perna com a testa franzida. Ele parecia estar sentindo tanta dor que Maureen parou, sem saber o que fazer.
Ele ergueu os olhos e fitou-a com aspereza.
— Eu já não lhe dei trabalho o suficiente, Srta. Parker? Ou gostaria de mais algumas tarefas antes de conseguir sair esta noite?
Maureen virou-se de imediato e voltou para sua mesa. Sentada diante dos pergaminhos, ela não conseguia tirá-lo da cabeça. Havia muita virilidade no rosto austero dele, embora não revelasse nenhuma emoção. Severo Snape era difícil demais de ser esquecido...
O final do expediente aproximou-se rapidamente. Maureen ainda tinha dois rolos de pergaminho para terminar e estava determinada a ficar o tempo que fosse preciso para cumprir todas as ordens que havia recebido.
— Olá! — Elly saiu do elevador as dezessete e trinta e a cumprimentou. — Fiquei até agora esperando por você.
— Sinto muito, mas ainda não terminei.
— Ora, deixe isso... Tenho certeza de que a velha Elizabeth não espera uma mesa limpa quando chegar amanhã cedo.
— A questão não é o que ela espera, mas o que o Sr. Snape ordena. Eu nunca conheci ninguém como ele. — Ela baixou a voz. — Tudo dever ser feito segundo seus desejos.
— Mas este É o departamento dele.
— Bem, escute, eu não trocaria de lugar com Elizabeth por nada deste mundo.
— É isto que pensa, Srta. Parker?
Maureen engoliu em seco. Ela se virou e encarou Snape, desprezando-o por ficar ouvindo a conversa alheia.
— Por hoje é só, Srta. Parker. Pode ir.
Ela abriu a boca para argumentar, mas preferiu aproveitar a oportunidade que lhe fora oferecida para escapar.
— Obrigada. E gostaria de dizer que foi uma experiência memorável trabalhar para o senhor, Sr. Snape.
Ele já tinha se virado, recusando-se a dar valor ao comentário.
— Entretanto... — Maureen ergueu a voz, forçando-o a ouvi-la. — Eu ainda prefiro trabalhar para o Sr. Potter, que é bem menos agressivo e mil vezes mais razoável.
— Maureen ! — Elly tentou calá-la.
— Passe bem, Srta. Parker. — A carranca de Snape estava ainda mais acentuada.
— Adeus, Sr. Snape. — Com isto, Maureen pegou a bolsa e saiu da sala, Elly seguindo-a apressada.
— Nossa, mas o que foi que aconteceu esta tarde?
— Nada.
— É difícil de acreditar.
— Ele não melhorou nada depois do almoço. É simplesmente insuportável trabalhar para esse Snape.
— Bem, parece que vocês não simpatizaram um com o outro...
— Eu sou uma pessoa muito paciente, tentei fazer um bom trabalho... Mas não existe desculpa para alguém ser tão rude e arrogante. Ele não tem o direito de jogar o mau humor dele sobre mim ou qualquer outra pessoa.
— Certo — Elly respondeu, mas sua boca curvou-se como se estivesse segurando o riso.
— Você acha isso divertido?
— Não, não. Eu só estava pensando que você poderia ser a mulher certa.
— Certa para quê?
— Desde quando o Sr. Snape veio para o Ministério, nós mulheres aqui do departamento temos esperado por uma mulher certa para ele. Uma mulher exatamente como você... E o tempo todo você estava bem debaixo dos nossos narizes!
— Do que você está falando?
— Severo Snape precisa de uma mulher com nervos de aço e que consiga enfrentá-lo. Ele ficou inconsolável depois que a tal da Granger o largou...
— Ah?! COMO?
— Ele precisa se apaixonar de novo, Maureen.
— Granger? Hermione Granger? Impossível. E, por Merlin! Ele é uma pedra de gelo!
— Eu não teria tanta certeza assim... Ele trabalha duro porque esta é uma única coisa que lhe resta. Não existe mais nada para preencher o vazio interior que ele sente.
— Ora, você não pode estar acreditando que uma mulher seria capaz de mudar toda esta situação!
— Não qualquer mulher, mas alguém especial.
— Bem, deixe-me fora disso.
— Tem certeza?
Mesmo que a idéia de ter Snape a seus pés lhe agradasse, Maureen estava convencida de que não valeria a pena tentar. Um homem como aquele era incapaz de qualquer emoção. E o cabelo dela, por mais que Elly não lhe fosse sincera, era uma porcaria.
— Oh, eu me esqueci de lhe contar.
— O quê? — Pelo olhar de Maureen, ela tinha certeza de que não ia gostar.
— Elizabeth mandou uma coruja hoje à tarde...
— E então? — Maureen já podia sentir um frio no estômago de ansiedade.
— Ela parece estar se recuperando.
— Ótimo.
— Mas, infelizmente, ainda não poderá voltar ao trabalho. Tenho a impressão de que você vai ficar mais um dia com o Sr. Snape.
— Oh, não! Prefiro pedir demissão a suportar aquele troglodita!
Elly não disse nada por um momento.
— Em outras palavras, você está disposta a deixá-lo acreditar que tudo o que ele disse sobre secretárias jovens é a mais pura verdade?