Maureen duvidava que aquele homem suportasse qualquer coisa. Tudo era feito segundo a conveniência dele e à custa de outras pessoas.
Ela pegou a bolsa e desceu de elevador até o andar abaixo, onde ficava o departamento pessoal e o quartel dos aurores. Elly estava sentada à escrivaninha. Levantou-se, surpresa, quando Maureen entrou.
— E então? Como está indo?
Maureen sacudiu a cabeça lentamente.
— Não sei... Ele é sempre assim?
— Sempre. No fundo, exige mais de si mesmo do que dos outros...
Maureen não se surpreendeu. Já imaginava algo assim.
— Ele me deu uma hora para almoçar, mas acho que espera que eu demonstre minha gratidão chegando mais cedo.
— Eu vou com você.
Mesmo que detestasse admiti-lo, Maureen estava intrigada com Snape. Quem sabe Elly pudesse lhe contar algo sobre ele? Durante dois anos vira-o apenas a distância, sabia da atuação dele durante a Guerra - e ficara fascinada – assim como também fora diretor de Hogwarts. Todavia, jamais imaginara que fosse tão rabugento.
Quando elas chegaram, o refeitório estava quase deserto. Era difícil encontrar algum funcionário almoçando àquela hora. Elas decidiram dividir uma salada de legumes e pediram um sanduíche de presunto para cada uma e sentaram-se à mesa.
Maureen tentou tocar casualmente no assunto Severo Snape. Não queria que seu interesse ficasse muito óbvio. Ela não conseguia imaginar nenhuma secretária, até mesmo Elizabeth Mimsy, agüentando-o por mais de uma semana.
— Por que ele tem tanto preconceito com secretárias jovens?
— Eu não faço a menor idéia.
— Você não acha que... — Maureen fez uma pausa e tomou um gole de água. — Você não acha que ele seria bastante atraente se não parecesse zangado o tempo inteiro?
— A única coisa que eu acho é que Severo Snape é um homem muito infeliz.
Maureen ficou chocada com aquelas palavras.
— Por que ele manca? — perguntou de uma forma natural, procurando disfarçar a apreensão. Afinal, ele parecia jovem demais para precisar de uma bengala... Devia ter pouco mais de quarenta anos, embora fosse difícil precisar a idade de alguém que estava sempre sisudo.
— Você sabe de tudo o que ele fez pelo mundo bruxo durante a Guerra. Uns dizem que foi uma fratura, outros dizem que é uma maldição lançada. Eu até já ouvi a história, mas não me lembro mais dos detalhes. Sei apenas que a perna esquerda dele dói muito, às vezes. Costuma ficar irritadíssimo quando isso acontece.
Pelo pouco tempo que permanecera ao lado dele, Maureen podia concluir que a perna estava atormentando-o demais. Lembrava-se do modo como ele se apoiara com força na bengala, enquanto o elevador subia. Talvez houvesse uma chance do humor de Snape melhorar, embora Maureen duvidasse de que isso pudesse fazer com que se afeiçoasse a ele.
Parte do problema, pensou, era que se desapontara com ele. Talvez tivesse idealizado demais a figura do chefe de todo o departamento, durante os dois anos em que o estudara a distância. Não sabia bem que tipo de pessoa encontraria nele, mas se decepcionara de qualquer modo, e muito, naquelas últimas horas.
Terminando a salada, Elly perguntou:
— Você vai passar na minha sala quando terminar o serviço?
— Oh, sim... Quero lhe contar mais um episódio do horror que é trabalhar com aquele monstro!
— Oh, ele não é tão mau assim. Acredite.
— Ele é o homem mais arrogante e insuportável que eu já tive o desprazer de conhecer.
— Dê-lhe um ou dois dias para se acalmar.
— Nunca.
Terminado o almoço, Maureen colocou os pratos no balcão e tomou um cafézinho. Quando voltou ao trabalho a porta de comunicação com a sala de Snape estava fechada. Não tinha a mínima idéia se ele estava ou não lá dentro. Então se sentou e começou a ler os relatórios que ele lhe deixara sobre a mesa, aparentemente para que ela os copiasse também.
Maureen virou a página e continuou lendo.
— Vejo que é pontual, Srta. Parker. — A voz grave soou por trás dela. — Gosto disso.
Ela cerrou os dentes. Todos que trabalhavam com Snape achavam-no maravilhoso. Ela, ao contrário, apenas se enfurecia.
— Mas acho melhor que pare de perder tempo e comece a trabalhar.
— Sim, senhor — A moça lançou-lhe um sorriso ácido e, por um instante, pensou ter visto um ar divertido naqueles olhos negros. Mas ela duvidava muito que um homem insensível como Snape soubesse sorrir...
Enquanto a tarde avançava, Maureen adquiria uma certeza cada vez maior de que Severo Snape não pedia, apenas ordenava. Quando queria algum documento, queria-o no mesmo instante, sem dar tempo para que ela o procurasse. Não admitia desculpas, tampouco ignorância. Em suma, não a tratava como secretária, mas como... Como que os trouxas diriam, mesmo? Ah, um robô.