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O INÍCIO DA TEMPESTADE
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Hugo aparatou a quase um quilometro de sua casa. Já podia prever o sermão que o estaria esperando em casa, então não tinha pressa de chegar. O céu estava numa perfeita mistura de noite e amanhecer, o sol começava a expulsar preguiçosamente as estrelas, mas algumas teimavam em continuar seu show aéreo. Mas ele não registrava nada disso.
Enquanto caminhava lentamente pela rua deserta, com as mãos nos bolsos e um sorriso permanente no rosto, a única coisa que conseguia ver era o rosto de Monica sorrindo, apenas sentia o toque da mão dela, tão pequena comparada com a sua, o gosto doce de sua boca, e o perfume dela parecia impregnado em tudo ao seu redor.
Não que ele estivesse reclamando...
E apesar de estar caminhando o mais lentamente possível, aquele quilometro foi vencido rápido demais. Antes do que gostaria estava abrindo a porta de casa. Mas ao invés do sermão de sua mãe, ouviu apenas a conversa animada na cozinha e sentiu o cheiro delicioso de café. Tinha algo muito estranho acontecendo... Deu alguns passos através da sala em direção à cozinha antes de ser interrompido.
"Escritório." Comandou seu pai. Semblante fechado: sinal de perigo. Hugo odiava quando a bronca vinha de Ron. Ele sabia lidar com sua mãe, ela se preocupava demais e, conseqüentemente, brigava demais. Por isso mesmo era mais fácil de pedir desculpas e ficar tudo esquecido. Seu pai, por sua vez, era difícil de se envolver nessas querelas. Quando o fazia era pra amenizar a irritação de Hermione. Por isso que Hugo sabia que estava encrencado...
"Pai, eu..." Hugo começou assim que fechou a porta atrás de si, mas foi interrompido.
"Não me interesso pelas tuas desculpas, rapaz." E nessas situações Hugo compreendia como seu pai, um homem tão gentil e engraçado, conseguiu trabalhar por tantos anos como Auror. "Não interessa se já és maior de idade. Nada justifica desaparecer daquela forma. Não quero nem imaginar a pilha de nervos que tua mãe ficaria se eu não tivesse inventado uma desculpa pro teu sumiço." Agora podia compreender a falta de sermão materno. "Quando entrares naquela cozinha vais pedir desculpas por não ter se despedido antes de ir para uma festa com teus amigos, e dizer que só não fizesse porque não querias incomodar a tia Angelina." Ronald deu uma pausa, mas Hugo sabia que havia mais, então ficou aguardando. "Espero que isso não se repita." Então apoiou a mão nas costas de Hugo e caminhou com ele para a cozinha. "Querida, olha só quem apareceu." Hugo se impressionou com a mudança de tom do pai. Parecia até que nem haviam tido a conversa de segundos atrás.
"Hugo!" Ele se viu então envolvido pelo abraço da mãe. "Feliz ano novo! Como estava a festa?"
"Legal até..." Ele disse relutantemente enquanto se sentava à mesa. "Mas fui mais para encontrar uma amiga. Passei a maior parte do tempo conversando com ela." Estava decidido a contar a verdade, mesmo sem estragar a história que seu pai havia contado; e até para ele ficar sabendo o que realmente acontecera. "Desculpa não ter te avisado ontem, mãe... E eu também não planejava chegar tão tarde."
"Tudo bem, Huguito. Chegamos ainda a pouco também." Ele ouviu Rose entrar. E estava acompanhada. "Só que perdesse um show de fogos! O papai e o tio George se superaram." Ela deu um beijo no rosto do pai e se sentou próxima a ele com Malfoy a seu lado.
"E essa tua amiga, conhecemos ela?" Seu pai questionou com uma pitada de aspereza que provavelmente só ele notou.
"Acho que não..."
"Por acaso é aquela Monica que tanto te manda cartas?" Hermione perguntou com um sorriso no rosto. Hugo apenas acenou afirmativamente com a cabeça tentando controlar o sorriso que voltava a tomar conta do seu rosto. Novamente sua mente começou a ser inundada das lembranças daquela madrugada. Mas a irritante voz do Malfoy o trouxe de volta à realidade.
"Monica?!" Perguntou surpreso. "É quem eu estou pensando, ou...?"
Hugo olhou pra ele ainda com um sorriso no rosto. Monica deveria se orgulhar porque nem a presença de um Malfoy ali, ao lado de sua irmã, conseguia diminuir o sentimento de euforia dele. "Eu só conheço uma Monica, então é bem possível que sim."
"Conheces ela?" Rose perguntou surpresa.
"Trabalha comigo no hospital. É muito competente e bem legal. Sempre pronta pra dar uma força."
"No St. Mungus?" Hugo engasgou com a pergunta do pai. Hora de descobrirem a pequena diferença de idade deles...
"Ao que tudo indica ela vai ser minha supervisora no próximo semestre." Scorpius acrescentou entre goles de café. E tudo que Hugo podia pensar é que isso só faria seus pais acharem que ela era ainda mais velha.
"Ela se forma esse ano. A pesquisa dela é pra ajudar os trouxas que tem efeitos colaterais do feitiço da memória... É bem interessante." Hugo tentou emendar e viu seus pais trocando olhares antes de sua mãe virar e perguntar a idade dela. Ele engoliu o pedaço de pão inteiro e respondeu fixando o olhar em sua comida. "Vinte e dois." Hugo tentava parecer incrivelmente interessado no rótulo da geléia de laranja, mas a verdade é que não queria encarar sua mãe. Principalmente quando viu Rose cutucar Malfoy e saírem em silêncio da cozinha.
Após alguns segundos ele ouviu seu pai perguntar lentamente. "Só pra gente entender direito. Tua namorada tem vinte e dois anos?"
"Monica tem vinte e dois sim..." Ele tentou ignorar o salto mortal que seu estômago deu ao ouvir alguém se referir a Monica como sua namorada.
"Tu não achas que ela é um pouco velha demais pra namorar contigo?"
"Acredite, pai, eu já me perguntei isso diversas vezes." Ele sorriu ao encarar Ronald e pela primeira vez naquele dia seu pai genuinamente retribuiu o sorriso. "A gente discutiu bastante sobre isso essa noite também." Bem, isso não era totalmente mentira, mas não era bem uma verdade... "A gente resolveu tentar... Conversamos já faz um tempo e a gente realmente gosta de ficar juntos. Isso que importa, não é?"
"Não fale bobagem, Hugo!" Sua mãe se manifestou pela primeira vez. "Isso não muda o fato dela ser cinco anos mais velha! O que ela pode querer contigo?!"
"Obrigado por me chamar de desinteressante, mãe." Hugo disse com rispidez, fechando seu semblante. "E só pra lembrar, tu és mais velha que o pai."
"Seis meses! Não seis anos!" Ela disse ainda sem mudar o tom de voz. "E não ponha palavras na minha boca! Tenho certeza que és interessante para garotas da tua idade. Mas e ela? O que uma garota de vinte e poucos anos pode querer com um garoto de dezessete?"
Pelo tom que ela usou ele já sabia o que ela realmente queria insinuar. "Não começa com o discurso de que ela só se interessou porque sou filho de vocês!" Por mais que ser filho de um herói de guerra fosse algo interessante, até chegar a Hugo o interesse já havia praticamente desaparecido. Tinha Weasleys e Potters mais velhos suficiente pra isso deixar de ser novidade. "E se quer saber, ela estudou com James, então se ela quisesse um filho de alguém famoso não teria melhor partido que ele." Hugo largou a torrada e se levantou bruscamente. "Perdi a fome."
Correu escada a cima o mais rápido que pôde, mas não conseguiu escapar da inevitável discussão que se desenrolaria entre seus pais. "Ele já é adulto." "Não tem real noção do que está fazendo." "Já ouvisse falar dessa garota antes?" Sabia o que iria acontecer em seguida. Só não sabia como ela iria reagir a isso...
Deu duas batidas na porta do quarto de Rose e abriu uma fresta da porta. "Estão vestidos?" Perguntou antes de olhar. Com a confirmação entrou no quarto. "Já avisasse pra ele?"
"Já me avisou. Relaxa." Disse com aquele irritante sorriso que só os Malfoy têm. "Se realmente depender de mim eles vão adorar ela em menos de uma semana."
"Se tu falar a verdade eles vão sim." Hugo suspirou e passou a mão pelos cabelos. "Eu não estou a fim de entrar naquela cozinha de novo. Tu diz pra eles que eu já fui? Vou passar na casa dos Longbottom e depois vou pra King's Cross."
"Pode deixar, Huguito. A gente tenta acalmar os ânimos aqui." Rose abraçou o irmão.
"Quem sabe quando eu chegar lá embaixo eles lembrem que Rose já fez a pior escolha possível." Scorpius brincou com a própria situação. Os irmãos riram, mas sabiam que era verdade. O que era uma diferença de idade comparada com namorar um Malfoy?
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Parece até mentira, mas foi só a senhora embarcar de volta à Tanzânia que mil e uma coisas aconteceram... Bem, não foram mil e uma, mas parece. Não vou ficar enrolando, escrevi só pra dizer que eu estou definitiva e completamente apaixonada... Eu sei que estás rindo ou revirando esses olhos murmurando que já sabias... Bem, todo mundo sabia! Acho que só eu não tinha certeza... Ou não queria ter... Ele tem só dezessete anos, mãe. Acredita? Pois é... Mas ele não é um garoto bobo. Ele é esperto, engraçado e tem uma alegria contagiante. Mas o mais importante é que com ele eu consigo relaxar. Ainda mais do que eu conseguia com Phillip. Ele me deixa mais ousada, mais despojada, mais... Mais de bem com a vida, de certa forma. E sabe o que é mais incrível? Ele apareceu à meia-noite aqui na porta do apartamento. Estou meio zonza ainda só de lembrar o beijo que me deu... Acho que posso dizer que estamos juntos. E não podia querer mais nada. Pois é, dona Janet... Parece que sua filha finalmente virou borboleta! Só que ele ainda tem alguns meses em Hogwarts... Acho que vão ser os piores meses da minha vida... (Tenho direito de ser melodramática, não tenho?)
Podia ficar falando sobre isso a noite toda, mas tenho que dormir porque em algumas horas volto ao hospital. E antes que pergunte, sim, passei a noite aproveitando as poucas horas que teríamos juntos antes da vida real bater à porta.
Beijos,
Monica.
Assim que Monica clicou no botão enviar, se jogou sob os edredons abraçando os travesseiros. Esperava conseguir se acalmar o suficiente para dormir. Desde que Hugo saíra dali não parava de pensar no que acontecera. Tudo parecia irreal. Ela se arrepiava só de lembrar do toque da pele dele. Era fechar os olhos e lembrar do sorriso e do desejo que brilhava nos olhos dele. E sabia que mesmo que pegasse no sono, ele seria o principal tema.
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N.A.: Oi pessoal! Mais um capítulo! *faz a dança da vitória* Espero que tenham gostado. Beijos!