ATRASOS E CONSEQÜÊNCIAS
Faz quatro horas. Quatro longas horas.
Eu apoiei o braço no encosto do sofá, trocando distraidamente os canais da Tv com o controle remoto. Havia passado das duas da manhã.
Isso acontecia bastante. Os atrasos.
O time o prendia até tarde, e as vezes ele dormia na concentração, principalmente antes dos jogos. Eu olhei para o relógio em cima da lareira, camuflado no que parecia um quadro mal feito. Ele indicava “trabalho”. O dela indicava “casa”, o de Ginny e Harry “Safadeza”.
Sorri um pouco. Quase tive um pire-paque quando ele cadastrara o apartamento de Harry assim.
“-Safadeza, Rony? Isso parece um pouco de hipocrisia da sua parte!”
Ele rira dela, e disse que isso era apenas uma brincadeira. Bobagem. Harry e Ginny haviam rido bastante e aquela entrara para o livro das milhares de bobagens que ele fazia. Bobagens tolas que me faziam rir e tornavam meu dia feliz.
Imensamente feliz.
Desde o quarto ano, quando a professora de adivinhação me dissera que eu era uma menina com alma de velha, que eu me perguntara o que seria de mim, sempre tão séria e compenetrada. Mesmo eu ficava triste de ser assim.
Mas então, eu descobrira que Rony mudava isso em mim, me fazia ser boba e menos ácida.
Mas em dias como esse, quando eu o espero até tarde eu penso se estamos no caminho certo.
Sei que existem dias em que é ele quem me espera. Mas é nosso trabalho. Nosso sonho. Eu não posso contar a ele tudo que penso.
Que nos próximos meses gostaria de casar e ter um filho. Talvez trabalhar menos e ficarmos mais tempo juntos. Mas ele não pode assumir essas responsabilidades agora.
Há algumas semanas Ginny me revelara que pensava em deixar a medicina. Que um ano fora o bastante para entender que cometera um erro.
Eu gostaria de ter a coragem dela e admitir que cometi o mesmo erro. Não gostei de ser auror. E não gosto de ser médica.
Assim como Ginny eu penso muito em largar tudo. Rony ganha bem. Na verdade bem demais! Eu sei que ele paga mais contas do que eu, mesmo assim, me sinto útil com meu salário. E de outra forma, o que eu faria? Preciso de uma ocupação. Sentir-me necessária!
Suspiro e olhou novamente para o relógio. Ele marca “casa”.
Finalmente. Espero que ele aparate ou entre pela porta. Nada.
Onde ele estaria? Faz uma hora que deveria ter chegado! Talvez tivesse ido até a casa de Harry...Mas ele não fazia isso, não sem antes lhe dizer oi, dar-lhe um beijo e convida-la para ir junto.
Quem diria que ele e eu seriamos tão grudentos???
Mas isso não importa. Onde ele estaria, penso pela milésima vez!
A porta abre e estou tão distraída que nem noto. Quando o vejo está na minha frente, de pé, ombros caídos e a mochila nas mãos. Ele a joga longe e anda além de mim, direto para a cozinha.
O que está havendo afinal? Ele nem me cumprimentou!
Ando rápida atrás dele, e o vejo beber leite direto da caixa como ele sabe que eu odeio que faça.
-Rony, o que foi? – pergunto com medo da resposta.
-Nada. – ele diz sem me olhar.
-Algum...Algum problema no trabalho?
Ele me olha com algo em seu olhar que me fere.
-Não, está tudo bem. – recoloca a caixa na geladeira e me olha de lado.
-Porque...Porque você demorou tanto hoje? - digo incerta de testar sua paciência. Ele parecia estar no limite.
-O técnico anda pirado por causa da última perca contra a Inglaterra. Nos fez treinar no escuro, para ver se assim nossos reflexos melhoram...- ele suspirou – Ele vai acabar matando todo mundo assim. Dirck, o apanhador quebrou a mão depois de errar o pomo... – disse inconformado.
-Ele vai estar bem para o jogo da quinta? – digo testado o terreno e me aproximando.
-Vai – ele dá de ombros – Dirck faz drama, mas é casca grossa. – ele me olha longamente e suspira – Hermione eu...
-O que? – pergunto ansiosa esperando que ele diga qual o real problema.
-Eu fiz uma coisa que com certeza você vai detestar.
-E o que seria? – perguntou, mais curiosa do que assustada. Ele nunca me trairia, ou mentiria gratuitamente.
-Eu esqueci de pagar o condomínio nesses últimos sete meses que estamos aqui – ele parecia esperar que eu brigasse com ele – Eu nem sabia o que era condomínio, quanto menos que tinha que pagar! – ele revelou exasperado.
-E o que tem isso, Rony?
-O que tem? O que tem isso? – ele disse irritadíssimo – Tem, que eu estava subindo para cá, quando o sindico me interceptou e me disse delicadamente que falaria com o dono do apartamento para nos...Desp-despencar!
-O que? – eu realmente não compreendia – você quer dizer: despejar?
-Isso! Isso aí mesmo!
-Rony...
-Tudo porque sou tão idiota a ponto de nem saber o que era isso! Hermione ele pediu que eu fizesse um cheque! Um cheque! E o que em nome de Merlim, é isso???? – ele esbravejou e ela não disse nada esperando que ele desabafasse – Ele disse que é imperdoável que não comparecêssemos as reuniões de condomínio! Que não recebamos cartas nos correios do térrio e que criemos...Animais! Animais! Nossas corujas agora são ‘animais’!!! – ele abriu novamente a porta da geladeira e a fechou a seguir com ódio mortal – E quer saber mais? Ele perguntou no que eu trabalho! Que tipo de trabalho tem um homem que sai cedo e chega tarde e nem ao menos paga as contas!!! Seus pais estavam certos! Isso não está dando certo, Hermione! EU ESTOU FAZENDO TUDO ERRADO!!! – ele gritou vermelho de raiva.
Eu suspiro não querendo interromper seu desabafo.
-Rony...Isso não é realmente importante, amor – digo baixinho e ele me olhou com um olhar desafiador de quem não crê no que ouve – Eu mesma me esqueci que existe o condomínio...E, além disso, trouxas tem hábitos estranhos, nem sei porque esse homem está implicando! Nossa vizinha de cima cria iguanas, que são enormes e esquisitos largatos! Ele não pode falar nada de nossas corujas, ou talvez nos devêssemos enfeitiça-las como Harry faz e as tornar invisíveis.
-E isso encerra o problema? – ele ironizou e eu nem sabia que ele sabia fazer isso gratuitamente.
-Rony...
-E o que eu vou fazer com os carros na rua? Eu não sei andar entre eles! Eu não sei o que é aquela coisa estúpida que eles colocam no ouvido e não entendo quando estão falando comigo ou com eles! Eu não sei se estou indo ao lugar certo, porque nunca lembro dos nomes! Eu nem sei usar a droga do elevador! – ele disparou quase gritando.
Merlim, meus pais tinham razão. Ele não agüentava mais. Tinha sido tirado do seu mundo e jogado no meu. Eu mesma não gostava muito de viver ali, quanto mais ele. Mas Rony não é do tipo de se queixar quando o assunto é importante, por isso ignorei os sinais. Sinto vontade de chorar, mas me controlo. Eu noto que ele está estafado e perto do limite, mas ele mesmo não nota.
-A gente pode procurar outro lugar...Bruxo. – sei que minha voz treme, mas não era a intenção.
Ele para e me olha. Suspira e estende a mão para mim. Eu me jogo no abraço dele.
-Desculpe, Hermione, eu não pensei antes de falar. Estou cansado, é só isso. – tenta sorrir.
-É sério, Rony, eu não me importo. Não precisamos provar nada aos meus pais, nem a ninguém! – digo decidida – Vamos procurar um lugar nosso, com a nossa cara. O que você acha?
-Eu acho que gostaria disso. – ele confessa e me sorri tímido – Eles estavam certos, afinal.
-E daí? – digo sorrindo mais alegre – Eu pago o sindico amanhã de manhã e digo a ele que você é escritor e trabalha fora. Trouxas são muito chatos, mesmo. E quem se importa com eles, ou com o que meus pais acham? É a nossa vida, rony, e eu a adoro.
-Eu também, Hermione. – ele me olha fundo nos olhos – Eu também.
E como sempre, meu mundo para e estou flutuando nos braços dele. E os problemas? Já não importam mais...
FIM