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FELIZ ANO NOVO
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O telefone escorregou de sua mão e o baque surdo que fez no chão a trouxe à realidade, pelo menos o suficiente para se juntar a ele na contagem regressiva. "Um."
Mas contagem regressiva para o quê? Queria dizer que era apenas pelo ano novo, mas as batidas descompassadas de seu coração se recusavam a deixá-la acreditar nisso. Ele dissera que ia se encontrar com a garota que gostava e ela, de certa forma, até incentivara, mas nunca, nunca pensou que acabaria encontrando ele ali parado à porta. E agora seu corpo tremia. De expectativa, de receio, de insegurança. Ela temia o que ele iria fazer; na verdade, o que ele podia não fazer. Mas ele nem permitiu que esses pensamentos ficassem muito tempo circulando em sua cabeça. Com um passo a frente ele segurou o rosto dela em suas mãos e tomou seus lábios com suavidade.
Ela ficou parada, tentava se concentrar para não sucumbir às pernas bambas, enquanto os lábios dele dificultavam qualquer forma de pensamento coerente. Ele não estava em melhor situação. Ainda não acreditava que tivera realmente coragem de ir até ali. Se não tivesse ligado para Monica de novo, nunca teria conseguido subir as escadas até o apartamento dela. Na verdade ele não tinha certeza de nada até que ela abriu aquela porta. E depois disso ele só conseguia pensar em uma única coisa. Mas nem em seus maiores devaneios poderia ter imaginado como seria aquele beijo, o sabor que teria, a reação dela. Ou a falta de reação. Sentiu suas orelhas queimarem ainda mais ao imaginar o que passaria na cabeça dela, devia achar que ele ficou maluco. Nunca devia ter feito aquilo. Precisava pedir desculpas, e afastava os lábios dos dela para tanto quando sentiu braços enlaçando seu pescoço.
Não havia outra escolha para ela. Quando sentiu os lábios dele se afastando, lançou seus braços ao redor do pescoço dele, impedindo que a distância aumentasse. Estava há meses esperando por aquele beijo, não iria terminar assim tão rápido. E ao fazer isso a resposta foi imediata: o beijo se tornou intenso, as mãos dele enlaçaram sua cintura mostrando que ele precisava daquele contato tanto quanto ela, enquanto as suas avançavam pelos cabelos dele como sempre quisera fazer. Estremeceu com o contato dos fios em sua pele, e isso foi o suficiente para fazê-la rir.
"Que foi?" Ele perguntou ainda com o rosto colado no dela. Tanto por seus lábios ainda ansiarem pelos dela, como por não saber como encará-la. Ela definitivamente não era a primeira garota que beijara, mas mesmo assim, dessa vez era muito diferente. Era Monica e isso bastava para deixá-lo sem ação.
"Teu cabelo é macio." Ela riu agora mais abertamente e bagunçou ainda mais o cabelo dele. Depois, com um meio sorriso, lhe deu mais um beijo leve. "Feliz ano novo."
"Feliz ano novo."
Ele mal havia encostado os lábios mais uma vez nos dela quando ela se afastou alguns passos dele. Fechou a porta e depois, entrelaçando seus dedos com os dele, o levou até o sofá, sentando na parte não ocupada pelo gato. "Onde é que a gente estava, mesmo?"
"Tavas te impressionando com a qualidade do meu cabelo." Ele riu e recostou a cabeça para trás no encosto do sofá.
"Parece ainda mais idiota quando falas assim." Ela riu também e depois se deixou escorregar pelo sofá até deitar a cabeça nas pernas dele.
Enquanto assistiam as reportagens sobre a queima de fogos no Rio Tâmisa, Hugo acariciava a cabeça dela calmamente. "Se fizer te sentires melhor, teu cabelo também é macio." Ele não resistiu a piada.
"Isso realmente me consola." Ela riu e se virou para encará-lo sem levantar o corpo. Não que isso diminuísse o ridículo de estar pensando em maciez de cabelo durante um beijo. Principalmente um beijo como aquele... Tão aguardado e ao mesmo tempo inesperado. "Obrigada pelo cavalheirismo."
"Ah, sem problemas... É assim que eu sou, não posso evitar." Disse com falsa pompa e ergueu a cabeça dela com o braço enquanto baixava a sua. O beijo dessa vez foi mais terno, mas nem por isso menos intenso. Mas foi mais breve do que queria, logo ela rompeu o beijo e suspirou. Mas não um suspiro alegre, mas um pensativo. Ele não acreditava que aquilo podia ser um bom sinal...
"A gente não devia estar fazendo isso, Hugo."
Ele lhe deu um leve beijo antes de responder. "Me de um bom motivo." Não ia deixar ela simplesmente dizer que não podiam ficar juntos. Não depois de sentir que ela também queria aquele beijo...
"Tens dezessete anos."
Ele lhe beijou novamente. "E tu tens vinte e dois. Agora me diga algo que eu ainda não saiba." Mais um leve beijo. Ele mesmo estava impressionado como todo o receio de segundos atrás agora se transformara em confiança. Ele a beijara e ela gostara. Não se cansava de lembrar disso. Agora ficava mais fácil de repetir a dose. "E que importe."
"Amanhã vais voltar pra escola."
Ele sorriu ao beijá-la mais uma vez. "E tu vais voltar pro hospital. Podes fazer melhor que isso." Ele riu e lhe deu outro beijo.
"Pára com isso, Hugo." Ela riu e se forçou para fora dos braços dele, sentando-se ao seu lado, mas ele a abraçou novamente e lhe deu mais um beijo. Ela o empurrou levemente e suspirou. "Pára. Não consigo pensar contigo me beijando." Ele não pôde evitar de se sentir mais leve com essa notícia. Ela, sem notar o efeito do que disse nele, ficou séria e o encarou enquanto nervosamente enrolava a ponta dos cabelos com o dedo. "É sério, Hugo... Pensa bem, tu mesmo me disse no outro dia que a gente tem tão pouco em comum... Qual a chance da gente dar certo?"
"E por que tu já queres logo pensar que não vai dar?" Ele parou a mão dela que brincava com o próprio cabelo e entrelaçou seus dedos nos dela. "A gente gosta de ficar juntos, isso não é suficiente? Pelo menos por enquanto?" Ela ficou em silêncio olhando pra ele. "Sabe, não faz muito tempo uma amiga minha me convenceu a tomar uma atitude apavorante com um raciocínio interessante. Mesmo que dê tudo errado, pelo menos se vai ter uma boa história pra contar pros filhos no futuro." Ele parafraseou o que ela lhe havia dito minutos atrás no telefone.
Reconhecendo as próprias palavras Monica sorriu e se permitiu olhar apaixonadamente para ele. "Deve ser muito inteligente essa tua amiga."
"É sim." Ele aproximou o rosto do dela e tocou a testa na dela.
Ela não sabia o que responder a ele. Não tinha como lutar contra a própria lógica. E no fundo nem queria lutar. Tomando a iniciativa, beijou o lábio inferior dele. "Tu vais voltar pra Escócia amanhã..."
"Já falasse isso."
"Não é justo." Ela gemeu levemente quando a mão dele avançou por suas costas sob a camisa dela, e ele compreendeu qual era o verdadeiro problema.
"Tem Hogsmeade."
"É uma boa idéia." Ela nunca tivera um diálogo com frases tão curtas... Mas não queria desperdiçar o tempo que tinham tentando pensar coerentemente. Cada beijo que davam era como se fosse o último. Não queria pensar a respeito, mas sabia que o tempo estava contra eles naquela noite. E por mais que Hogsmeade fosse uma boa solução, demoraria semanas até lá. Queria pedir que ele ficasse ali aquela noite, mas não sabia se era uma boa idéia.
"E ainda temos algumas horas."
Ela sorriu ainda com os lábios nos dele ao ver a sincronia de pensamentos. Mas antes que pudesse se censurar, resolveu dizer a ele o problema daquele plano. "Teus pais não vão gostar."
"Eu não estou preocupado com eles no momento." Sem mais forças pra resistir, ela colou seu corpo no dele e se rendeu. Não tinha mais argumentos. E nem queria ter.
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N.A.: Oi pessoal! *olha bem ao redor e tenta achar alguém que ainda leia* Queria ter postado ontem, que era dia do Contador de Histórias, mas precisava dar uma ajeitada ainda no texto e depois fui pra festa de aniversário da minha tia. Bem, eis mais um capítulo. Acho que ficou bem bacana. Gostaram? Se sim, gritem 'viva!"! Hehehe.