Assim, flexionou os dedos dormentes e ficou calada.
Embainhando a faca, Potter dirigiu-se para a porta.
- Aonde vai? - indagou ela, com um leve meneio de cabeça, tentando não demonstrar a sua apreensão por ficar sozinha com o líder renegado.
Potter parou, olhou de Hermione para o patrão, depois de novo para ela.
- Cuidar dos cavalos.
Retirou-se, e o olhar dela ricocheteou dos olhos escuros e brilhantes. Teve a estranha sensação de que ele estava lendo os seus pensamentos, e virou-se bruscamente. A espinha ficou toda arrepiada, sentindo a sua presença. Hermione não ficou surpresa ao ouvi-lo falar a uns trinta centímetros às suas costas.
- Señora.
O tom de voz baixo e imponente foi acompanhado por uma mão que apareceu ao lado, para indicar-lhe que devia seguir pelo corredor.
Este se bifurcava em dois quartos. Mandou, com um gesto, que Hermione entrasse no último. Observando-o, ela adivinhou que seria a sua nova prisão.
A cela austera consistia em um catre com aparência desconfortável, uma cômoda tosca com uma bacia e uma jarra de água em cima e uma cadeira. Uma cortina toscamente tecida, de uma fazenda alaranjada fosca, pendia da única janela.
Seu olhar, que corria o aposento, deteve-se no espelho retangular que encimava a cômoda. Hermione fitou o seu reflexo, chocada. Parecia uma vagabunda emaciada. O rosto estava manchado de sujeira e suor.
O cabelo embolado e descabelado, o seu brilho sedoso oculto sob inúmeras camadas de pó. O sarape empoeirado que a cobria tornava informe o seu corpo.
Inconscientemente, Hermione levou a mão ao rosto, como que para certificar-se de que o reflexo que via era realmente dela. Sentiu a sujeira grossa que cobria a sua pele geralmente tão sedosa. Aquilo despertou os seus sentidos para a imundície que cobria o resto do corpo e o fedor de suor e o cheiro de cavalo que se desprendiam da sua pele e das roupas. Mal parecia humana, e deu as costas ao espelho, enojada.
- Há algum lugar onde eu possa me lavar? - perguntou Hermione rapidamente.
Nem um lampejo de compreensão perpassou pela máscara entalhada das feições dele. Hermione soltou um suspiro impaciente, perguntando-se como faria para ele compreender o que queria.
- Quero me lavar! Está entendendo? - Esfregou as mãos juntas num gesto de limpeza. - Lavar. Tomar banho.
Ele ficou olhando para a mímica, depois foi até a cômoda e derramou água da jarra dentro da bacia.
Fez um gesto para Hermione.
- Não. Não. - Ela sacudiu a cabeça, resoluta. - Escute, senhor... seja lá como se chame.
Hesitou antes de preencher o tempo com um dar de ombros desinteressado.
- Malfoy, Draco Malfoy. - interrompeu ele, serenamente.
Nem um vestígio de emoção era visível no rosto imponentemente masculino, ou nos olhos cinzas e insondáveis.
- Señor Malfoy! - repetiu, para determinar se era mesmo o nome dele. O homem inclinou de leve a cabeça, com um ar ligeiramente arrogante, em aquiescência. - Señor Malfoy - recomeçou Hermione -, não estou apenas querendo lavar as mãos. - Repetiu de novo o gesto de se esfregar. - Quero me lavar inteira... meu cabelo, minhas roupas, tudo. Compreende?
A expressão dele era inescrutável. Sem dúvida, estava entendendo o que ela queria dizer, pensou a castanha, irritada. Perguntou-se se ele não estaria sendo deliberadamente obtuso quando indicou de novo a bacia.
- É muito pequena - exclamou bruscamente, e sentou-se no meio do chão, fingindo lavar-se. - Quero tomar um banho... numa banheira grande. Compreende?
Ouviu-se uma risada vinda dos lados da porta.
- O que está fazendo? - perguntou Potter, divertindo-se claramente, os olhos verdes rindo de Hermione.
Ela ficou rubra de vergonha. Rigidamente, ficou de pé, limpando os fundilhos das calças enquanto tentava recobrar alguma dignidade.
- Quer explicar a este imbecil de língua espanhola que quero tomar um banho? - falou, com frieza.
- Os encanamentos aqui são estritamente do tipo externo - replicou Potter, a boca ainda se repuxando numa risada silenciosa.
- Sem dúvida tem de haver por aqui alguma coisa maior do que esta bacia cretina. Onde vocês tomam banho? - desafiou Hermione. - Ou não tomam?
Uma interrupção em espanhol impediu Potter de responder à pergunta, pois respondeu ao patrão. A troca de palavras entre eles foi breve, musicalmente fluida, e baixa.
- Meu banho? - lembrou Hermione a Potter, quando a conversa deles parecia ter terminado.
- Baño - soou a palavra baixa em espanhol.
- Isso quer dizer banho - traduziu Potter.
- Pelo menos entenderam o que eu quis dizer - suspirou ela, impaciente.
- Como eu já disse, as instalações sanitárias aqui são primitivas - continuou Potter -, mas há um riacho que usamos para tomar banho.
- Vou ter permissão para usá-lo? - perguntou, formalmente.