Nem o caminho longo e poeirento até à cidade, nem as altas temperaturas tinham afetado o seu ânimo. Era o Quatro de Julho e o dia, que seria estridente e prolongado, ainda só começara.
Logo de manhã, a área de exposição estava a transbordar: rancheiros, cowboys, esposas, namoradas... E os que procuravam namorada para passar o dia. Havia animais de primeira classe expostos ao olhar do público, sobre os quais se podia conversar, alardear e observar com atenção.
Os cowboys luziam os seus melhores ornamentos. Camisas engomadas e calças jeans apertadas, as botas e os chapéus que se guardavam para as ocasiões, cintos com fivelas vistosas. As crianças vestiam o traje de domingo e a sua roupa prometia acabar coberta de pó e suja de lama no final do dia.
Para Gina, aquele era o primeiro dia livre de preocupações da temporada e estava decidida a desfrutar dele, precisamente para compensar tudo o que sofrera nos últimos tempos. Durante as próximas vinte e quatro horas iria pôr de lado as preocupações, os números dos livros de contabilidade e esquecer-se de que era a chefe, uma posição que tantos sacrifícios lhe custava. Naquele dia quente e ensolarado, iria limitar-se a desfrutar de fazer parte de um grupo de homens e mulheres que viviam por e para a terra.
Perto do picadeiro e da zona de estábulos, havia um murmúrio alegre de vozes. O cheiro forte dos animais impregnava o ar. De algum lado, vinha já a música de um violino. Ao entardecer, haveria mais música e baile. Primeiro, seriam feitos jogos para pequenos e grandes, entregariam os prêmios e ofereceria comida suficiente para alimentar duas vezes o país todo. O seu nariz detectou o cheiro de um bolo de maçã ainda quente quando alguém passou ao seu lado com uma cesta muito cheia. Sentiu água na boca.
Mas havia coisas mais importantes, recordou-se enquanto dava uma volta para confirmar quais eram as chances do seu touro.
Participavam seis concorrentes no total, todos muito musculados e de aparência feroz. Os chifres eram pontiagudos e perigosos; a pele, lustrosa e bem cuidada. Observou-os a todos com objetividade, reparando em quais eram as suas virtudes e defeitos. Não havia dúvida de que o seu maior adversário era o touro que o Double P apresentava. Ganhara o laço azul três anos seguidos.
Mas não naquele ano, disse para si em silêncio enquanto o percorria com a vista. Em peso talvez vencesse o seu, mas parecia-lhe que o seu touro era um pouco mais largo de ombros. E não havia dúvida de que a cor e as manchas do Hereford eram perfeitas, além de o perfil da sua cabeça ser superior.
“Chegou a hora de dares lugar a sangue novo”, disse ao campeão. Satisfeita consigo mesma, enfiou os polegares nos bolsos de trás das suas calças jeans. Um primeiro lugar e aquele laço azul serviriam para compensar tudo o que sofrera nas semanas anteriores.
- Sabes reconhecer um campeão quando o tens diante dos teus olhos...
Gina virou-se ao ouvir aquela voz ameaçadora, que ainda conservava um resto de firmeza. James Potter estava vestido na perfeição, mas a sua cara de falcão estava muito pálida por debaixo do chapéu. A sua bengala era elegante e com punho dourado, mas não lhe restava outro remédio a não ser apoiar-se nela com todo o seu peso. Quando os seus olhos se cruzaram com os dela, Gina viu que eram desafiadores e tinham mais vida que o resto da sua anatomia.
- Sei reconhecer um campeão assim que o vejo disse ela, e desviou o olhar para o seu próprio touro.
Ele soltou uma gargalhada e apoiou o seu peso sobre a outra perna.
- Ouvi falar muito do teu novo rapaz - James Potter observou o touro com o sobrancelha ligeiramente franzido e não pôde evitar sentir uma pontada de inveja. Ele também sabia reconhecer um campeão assim que o via.
Sentiu o calor do sol nas costas e, por um instante, apenas por um instante, desejou desesperadamente ser jovem outra vez. Os anos consumiam-lhe as forças. Se pudesse ter cinqüenta anos novamente e fosse o dono daquele animal... Mas não era um homem que gostasse de lamentações.
- Tem hipóteses - limitou-se a dizer.
Ela soube reconhecer uma pontada de inveja e sorriu. Nada poderia ter-lhe agradado mais.
- Um segundo lugar também não seria mau replicou sutilmente.
Potter lançou-lhe um olhar penetrante, ficou com a vista cravada nos seus olhos e depois desatou a rir-se ao ver que ela não hesitava.
- Meu Deus, és uma verdadeira mulher, não és, Gina Weasley? O velho ensinou-te bem.
O sorriso de Gina mostrava uma postura mais desafiadora do que divertida.
- Bom, o suficiente para gerir o Utopia.
- Pode ser - reconheceu ele. - Os tempos mudam.
Não havia dúvida de que havia um certo rancor nas suas palavras, mas ela podia entendê-lo. E até dar-lhe a sua compreensão.
- O que aconteceu ao teu gado... - ele olhou para ela e viu que a expressão de Gina era tranqüila, impassível. Sentiu o súbito desejo de estar sentado à frente dela numa mesa de pôquer e com um bom montante de dinheiro em jogo - foi abominável - disse com uma raiva que lhe roubou momentaneamente o fôlego. - Noutra época, os ladrões de gado eram enforcados.
- Enforcá-los não serviria de nada para recuperar o meu gado - afirmou Gina com calma.
- Harry contou-me o que encontraram no desfiladeiro - Potter olhava fixamente para os dois touros. Eram a seiva vital dos ranchos, proporcionavam os lucros e indicavam a sua posição no setor. - Muito duro para ti, e para todos nós acrescentou, e voltou a olhar para ela. - Quero que compreendas que o teu avô e eu tivemos os nossos problemas. Era um teimoso.
- É verdade - Gina concordou com tanta rapidez que Potter riu. - O senhor poderia compreender, sem qualquer problema, um homem assim.
Potter parou de rir e lançou-lhe um olhar relampejante que ela lhe devolveu.
- Compreendo um homem assim - reconheceu. - E quero que saibas que se lhe tivesse acontecido a ele, o teria apoiado, tal como teria esperado o seu apoio se tivesse sido ao contrário. Os confrontos pessoais não têm lugar nestes casos. Somos rancheiros.
Havia um toque de orgulho na sua voz ao pronunciar aquelas palavras que fez com que a própria Gina levantasse o queixo.
- Eu sei muito bem disso.
- Seria fácil dizer que podem ter tirado o gado pelas minhas terras.
- Seria fácil - repetiu Gina com um assentimento de cabeça. - Se me conhecesse melhor, senhor Potter, saberia que não sou tola. Se achasse que está a comer a minha carne, já estaria a pagá-la.
Os lábios de Potter curvaram-se num sorriso de admiração.
- O velho ensinou-te bem - repetiu depois de um momento de silêncio. - Embora continue a achar que uma mulher que gere um rancho precisa de ter um homem ao seu lado.
- Tenha cuidado, senhor Potter, estava a começar a pensar que podia chegar a tolerá-lo.
Ele riu-se novamente, tão satisfeito que Gina sorriu abertamente.
- Sou demasiado velho para mudar, menina os seus olhos semicerraram-se levemente, como Gina vira que os de Harry se semicerravam. Pensou que, dentro de quarenta anos, este teria o mesmo aspeto do seu pai, aquela mesma força um pouco diminuída. A força que alguém queria que o protegesse quando havia dificuldades. - Ouvi dizer que o meu filho te deitou o olho... Não posso acusá-lo de mau gosto.
- Ouviu isso? - replicou ela com calma. - E acredita em tudo o que ouve?
- Se não reparou em ti - contra-atacou Potter, - é porque não é tão inteligente como pensava. Os homens precisam de uma mulher que lhes faça assentar a cabeça.
- Ah, sim? - perguntou Gina secamente.
- Não te inquietes, menina! - ordenou Potter.
- Noutra época, teria arrancado o couro dele por dedicar mais de um olhar a uma Weasley. Os tempos mudam - repetiu com evidente falta de entusiasmo.
- Somos vizinhos há, pelo menos, um século, gostemos ou não.
Gina sacudiu a manga.
- Não estou a pensar em fazer ninguém assentar a cabeça. Nem numa junção.
- Às vezes, deparamo-nos com coisas de que não andávamos à procura - sorriu enquanto ela olhava fixamente para ele. - Olha para a minha Lílian, nunca imaginei que acabaria com uma beleza que faz-me sempre sentir que devo ir limpar os pés no tapete da entrada, mesmo que não tenha ido trabalhar no campo.
Gina riu-se e depois surpreendeu-se, dando o braço a Potter para se afastar dali.
- Tenho a sensação de que está a tentar enterrar o machado de guerra - ao reparar que o seu acompanhante dava um salto, Gina fez um barulho com a língua e continuou a falar. - Não se inquiete - pediu com calma. - O meu desejo também é declarar uma trégua. Harry e eu... damo-nos bem - disse finalmente. - Eu gosto da sua esposa e quanto a ti, digamos que o suporto.
- És tal e qual como a tua avó - murmurou Potter.
- Obrigada.
Enquanto caminhavam, Gina reparou que algumas pessoas olhavam para eles com curiosidade. Uma Weasley e um Potter de braço dado, realmente os tempos tinham mudado. Perguntou-se como se sentiria Alvo e decidiu que, do seu modo resmungão, teria aprovado. Especialmente quando provocava comentários.
Quando Harry a viu dirigir-se lentamente para a arena, interrompeu a conversa que mantinha com um cowboy. Gina estava a afastar o cabelo para trás das orelhas, depois moveu levemente a cabeça para o seu pai e as palavras que saíram dos seus lábios fizeram com que este se pusesse a rir. Se não estivesse já louco por ela, Harry teria se apaixonado naquele instante.
- Ouve, aquela que está com o teu pai não é Gina Weasley?
- Eh...? Sim - Harry não perdeu tempo a virar a vista para o seu interlocutor quando podia olhar para Gina.
- É muito bonita! - assinalou o cowboy com uma certa melancolia. - Diz-se que ela e tu... parou, gelado pelo olhar, frio e inexpressivo, que Harry lhe dirigiu, e pigarreou com a mão fechada diante dos lábios. - Só estava a dizer que as pessoas comentam que os Potter e os Weasley nunca se deram...
- Ah, não? - Harry aliviou o mal-estar do seu interlocutor com um sorriso antes de se afastar.
Nunca se podia ter a certeza do que pensava um Potter, disse para si o cowboy, abanando a cabeça.
- A vida prega-nos surpresas - comentou Harry quando se aproximou deles. - Não houve sangue?
- O teu pai e eu chegamos a um entendimento.
Gina sorriu-lhe e, apesar de não se terem tocado, James Potter confirmou que os rumores que ouvira eram verdadeiros. Era difícil de disfarçar a intimidade entre duas pessoas.
- A tua mãe fez-me prometer que faria de juiz no concurso de empadas de carne - resmungou Potter. Já não se sentia tão melancólico a pensar no que perdera. Ou melhor, sentiu uma grande satisfação ao aperceber-se de que se perpetuaria através do seu filho. - Depois iremos aos estábulos para vos ver - dirigiu um olhar penetrante a Gina. - Aos dois.
Afastou-se lentamente. Gina teve de enfiar as mãos nos bolsos das calças para se abster de o ajudar a andar. Sabia que o gesto não seria bem recebido.
- Veio ver os touros - informou Harry quando o seu pai já não podia ouvi-los. - Acho que para poder falar comigo, foi muito amável da sua parte.
- Pouca gente lhe chamaria “amável”.
- E pouca gente teve um avô como Alvo Weasley - virou-se para Harry e sorriu. - E tu, como estás? - mesmo que tivesse querido, não teria conseguido evitar tocar-lhe. Os seus dedos acariciaram-lhe a face.
- O que te parece?
- Não gostas que te diga que estás muito bonita.
Ela riu-se e dedicou-lhe um olhar coquete, com o bater de pestanas incluído. Era o primeiro gesto premeditadamente sedutor que a via fazer desde que a conhecia.
- Hoje é um dia especial.
- E vais passá-lo comigo? - estendeu-lhe uma mão.
Sabia que se lhe desse a sua em público, num lugar cheio de olhos curiosos e bocas desejosas de encontrar algum mexerico, seria um sinal de compromisso.
Os dedos de Gina entrelaçaram-se com os seus.
- Pensei que nunca irias pedir-me isto. Passaram a manhã como costumavam fazer os casais nas feiras do condado há décadas. Havia limonada para acalmar a sede e concursos para se divertirem. Era fácil rir quando o céu estava limpo e o sol prometia um dia ensolarado.
As crianças corriam de um lado para o outro com balões. Os adolescentes seduziam com a desenvoltura própria da sua idade. Os idosos mascavam tabaco e contavam histórias de outras épocas. O ar cheirava a comida e a animais.
Com o braço de Harry à volta da cintura, Gina misturou-se entre a multidão que via um concurso no qual vários homens tentavam apanhar um porco escorregadio. O chão fora molhado e depois remexido para que a lama estivesse em perfeito estado. O porco fora besuntado com gordura para que ficasse ainda mais escorregadio e, além disso, era muito rápido, pelo que conseguia fugir aos seus cinco perseguidores. As pessoas gritavam sugestões, vaiavam, animavam e riam-se às gargalhadas. O porco guinchava e saía disparado, como uma bala, para fora do alcance das mãos daqueles que pretendiam apanhá-lo, os quais caíam de cara no chão a dizer palavrões.
Gina olhou para Harry e depois, com uma ligeira inclinação de cabeça, apontou para a pocilga, onde continuavam os gritos e a animação.
- Não gostas de jogos, Potter?
- Gosto de inventar os meus próprios jogos apertou-a contra si. - Conheço um palheiro muito calmo.
Ela evitou responder com uma gargalhada. Harry nunca a vira mostrar-se deliberadamente provocadora e não sabia bem como se comportar, mas o brilho que percebeu nos olhos de Gina o fez decidir-se. Com um movimento suave, puxou-a mais para si e deu-lhe um beijo sonoro. Um grupo de cowboys que havia atrás deles aclamou-os. Quando Gina conseguiu recuperar-se viu que dois dos seus homens estavam a olhar e sorriam.
- É um dia especial - recordou-lhe Harry quando ela deixou escapar um sopro.
Gina inclinou a cabeça para trás para olhar para ele. Estava muito orgulhoso dela, decidiu, e merecia um segundo. O seu sorriso fez com que ele se perguntasse o que escondia na manga.
- Queres fogo-de-artifício? - perguntou ela, e, em seguida, deitou-lhe os braços ao pescoço e calou-o antes que ele pudesse responder.
Ele beijara-a de forma firme, mas cordial. O beijo que lhe deu, pelo contrário, sussurrava segredos que só eles dois conheciam.
- Senti a tua falta ontem à noite, Harry - sussurrou, e depois voltou a pôr a planta completa do pé no chão, de modo que os lábios de ambos se afastaram. Recuou antes de lhe oferecer a mão e um sorriso descarado.
Harry respirou fundo e deixou escapar o ar lentamente.
- Depois vais ter de acabar isto, Gina. Ela riu-se novamente.
- Assim espero. Vamos ver se Rúbio também ganha este ano o prêmio de quem consegue comer mais empadas.
Ele seguiu-a. Sentia-se como um adolescente que saía com uma garota pela primeira vez. De repente, via-a rodeada por uma aura de despreocupação. Por uma vez, livrara-se de todas as preocupações e responsabilidades e concedera permissão a si própria para se divertir. E talvez por aquilo a fazer sentir-se um pouco culpada, o dia ainda era mais especial.
Gina teria jurado que, naquele dia, o sol brilhava mais do que nunca e que o céu nunca estivera tão azul. Não recordava ter estado tão disposta a divertir-se em toda a sua vida. Uma fatia de bolo de cerejas pareceu-lhe um néctar dos deuses. Se pudesse, teria concentrado o dia, cada momento, e teria metido dentro de uma caixa de onde pudesse tirar uma hora de vez em quando, quando se sentisse sozinha e cansada. Como isso era impossível, Gina decidiu viver plenamente cada instante.
Quando o rodeio começou, estava inebriada de liberdade. Quando a Rainha do Quatro de Julho e a sua corte desfilaram à volta da arena, ainda apertava o laço azul entre os seus dedos.
- Deves-me cinqüenta dólares - recordou a Harry com um sorriso.
Este estava sentado no chão a mudar de botas.
- Porque não esperamos para ver o que acontece com a outra aposta?
- Como queiras.
Gina apoiou-se num barril e ouviu o regozijo da multidão nos degraus. Estava em forma e tinha consciência disso. A sua sorte tinha mudado e não havia problema que não pudesse enfrentar.
Muitos cowboys e outros concorrentes já estavam reunidos detrás da rampa. Embora tudo parecesse muito natural, a emoção flutuava no ambiente. O cheiro do tabaco escapava das caixinhas metálicas que os homens guardavam, invariavelmente, no bolso traseiro direito das calças jeans, e cheirava também ao óleo com que se engordurava o couro. Em seguida, ouviu o tinido metálico de esporas e arnês que indicava que todos estavam a verificar o equipamento. Primeiro, seria a corrida de cavalos. Quando ouviu que a anunciavam, Gina levantou-se e foi até à cerca para olhar.
- É estranho não participares - comentou Harry.
Ela moveu a cabeça com o propósito de a esfregar contra o seu braço. Essa era uma das escassas demonstrações de afeto que o desarmavam por completo.
- Demasiada energia - respondeu Gina a rir-se.
- Estou a dedicar o dia a vadiar. Reparei que estavas na lista para montar potros selvagens - inclinou o chapéu para trás e levantou a vista para ele.
Ele sorriu e encolheu os ombros.
- Estás preocupada comigo? Gina soltou uma gargalhada.
- Tenho um bom tratamento para baixar a inflamação das nódoas negras que te vão aparecer.
Ele percorreu-lhe a coluna com a ponta de um dedo.
- A idéia é tentadora. Encarregarei de fazer umas quantas, mas sabes - apertou-a entre os seus braços com um gesto que era carinhoso e possessivo ao mesmo tempo - que não me custaria nada esquecer isto tudo - baixou a cabeça e mordiscou-lhe os lábios, alheio ao que acontecia à sua volta. - O rancho não fica assim tão longe e não está lá ninguém. Num dia tão bonito... Estou a começar a pensar em dar um mergulho de cabeça.
- A sério? - ela inclinou a cabeça para trás para poder olhá-lo nos olhos.
- Hum...! A água deve estar fresquinha...
Ela fez um barulho com a língua e pôs os lábios sobre os dele.
- Depois da apanha do novilho com laço disse, e afastou-se.
Gina preferia os degraus aos estábulos. Ali ouvia os homens falarem de outros rodeios e outras corridas enquanto verificava o seu equipamento. Viu uma menina pequena vestida com roupa de camurça que ficava muito nervosa antes da corrida de barris. Um velho amassava um pedaço de resina na palma da luva com infinita paciência. Uma ligeira brisa levou até ela o cheiro da carne no churrasco.
Não, pensou, a sua família nunca poderia entender o atrativo daquilo. Cheiros simples, conversas simples. Estaria fora do seu ambiente, tal como sempre acontecera com ela antes, quando ia à ópera com a sua mãe. Era em ocasiões como aquela, quando outros a aceitavam tal como era, quando podia esquecer os momentos de pânico que sentira até ser adulta. Não, não era que carecesse de algo, como sempre achara. Simplesmente, era diferente.
Viu o concurso para montar touros, estremecida pelo perigo e animando os participantes, que se mediam contra animais de uma tonelada. Havia quedas, assobios e palhaços que tornavam divertido aquele espetáculo de terror. Meio a sonhar, inclinou-se sobre uma cerca no momento em que um touro sem cavaleiro bufava e investia na arena, para finalmente descarregar o seu mau feitio contra um palhaço que se protegia dentro de um barril. As pessoas falavam muito alto, mas ela distinguia perfeitamente a voz de Harry, que conversava com Rúbio ali por perto. Apanhava partes da conversa sobre o potro alazão que calhara a Harry. Muito agressivo. Gostava de tentar desmontar o cavaleiro escoiceando em círculos. Relaxada, Gina pensou que gostaria de ver Harry agarrado, com unhas e dentes, ao alazão e ganharia outros cinqüenta dólares.
Pensou que o dia fora feito para ela, para o desfrutar, quente, ensolarado e sem exigências. Talvez já alguma vez se tivesse sentido assim relaxada, assim feliz, mas custava-lhe recordar quando sentira ambas as sensações com tanta intensidade, e propôs-se a saboreá-las.
Então, aconteceu tudo tão depressa que não teve tempo para pensar, apenas para reagir.
Ouviu a gargalhada infantil quando estava a esticar os músculos das costas. Sem saber muito bem o que se passava, viu algo vermelho, que corria como uma bala, introduzir-se sob as tábuas da cerca e cair do outro lado. Mas depois viu o menino dentro da arena. Estava tão perto dela que lhe roçava nas calças jeans enquanto gatinhava atrás da sua bola. Antes que a mãe tivesse tempo de gritar, Gina já saltara a cerca. Pareceu-lhe ouvir a voz de Harry, entre furioso e aterrorizado, que dizia o seu nome.
Pelo canto do olho, viu que o touro se virava para eles. O animal, excitado e nervoso pela corrida, olhou para ela, mas ela não parou. Manteve o sangue-frio.
Não ouvia o caos dos espectadores, que se puseram em pé de um salto, nem a confusão que se criara nos degraus quando se pôs a correr atrás do menino. Sentiu como a terra tremia quando o touro correu em direção a eles. Não podia perder tempo a chamar o menino. Guiada pelo instinto, lançou-se sobre este e deixou que o impulso a projetasse para a frente. Caiu com uma pancada seca em cima do menino, que os deixou a ambos sem ar. Quando o touro lhes roçou, Gina sentiu uma baforada de ar quente.
“Não te mexas!”, ordenou a si mesma, esmagando o menino por debaixo dela quando este começou a contorcer-se. Não respires. Podia ouvir gritos perto dela, mas não se atrevia a levantar a cabeça para olhar. Não lhe dera uma chifrada. Engoliu em seco ao pensar naquilo. Não, se lhe tivesse dado uma cchifrada, já o teria sentido. E não a pisara. Ainda.
Alguém estava a dizer insultos e palavrões iradamente. Gina fechou os olhos e perguntou-se se seria capaz de se levantar. O menino estava a começar a chorar e ela tentou abafar o som do choro com o seu corpo.
Quando sentiu que umas mãos se introduziam sob as suas axilas, começou a lutar.
- Sua idiota!
Gina reconheceu a voz e relaxou. Deixou que a levantasse e a pusesse de pé. Teria gaguejado se ele não a tivesse segurado com tanta firmeza.
- O que pretendias?
Olhou para Harry, que estava muito pálido e a abanava.
- Estás bem? Estás machucada?
- O quê?
Ele voltou a abaná-la porque as mãos não paravam de lhe tremer.
-Bolas, Gina!
A cabeça de Gina ainda andava às voltas, um pouco como quando tentara mascar tabaco daquela vez. Demorou um momento para perceber de que alguém estava a agarrar-lhe uma mão. Abstraída, ouviu como a mãe lhe expressava uma gratidão envolta em lágrimas enquanto o menino soluçava aos gritos com a cara enterrada na camisa do pai. O menino dos Simmon, pensou enjoada. O menino que costumava brincar no pátio do rancho enquanto a sua mãe estendia a roupa e o seu pai trabalhava.
- Estás bem, Joleen - conseguiu dizer, embora a sua boca não quisesse obedecer à ordem do seu cérebro. - Talvez um pouco machucado.
Harry a fez calar-se e arrastou-a para a tirar dali. Ela tinha a impressão difusa de muitas caras e a raiva de Harry, que fervia.
- -... vou levar-te ao posto de primeiros-socorros.
- O quê? - voltou a dizer ao ouvir a voz de Harry, que penetrava finalmente na sua mente.
- Estou a dizer que vou levar-te ao posto de primeiros-socorros - cuspiu, mais do que pronunciar, as palavras enquanto se aproximavam da cerca.
- Não, estou bem - a luz tornou-se cinzenta por um instante e Gina abanou a cabeça.
- Assim que estiveres bem, vou apertar-te o pescoço.
Ela retirou a mão de um puxão e endireitou os ombros.
- Disse que estou bem - repetiu. Depois a terra inclinou-se e levantou-a no ar.
A primeira coisa que sentiu foi a comichão da grama na palma da mão. Depois, um tecido frio, mais do que úmido, molhado, sobre a cara. Gemeu com aborrecimento quando a água começou a escorrer-lhe pelo pescoço. Abriu os olhos, mas via tudo impreciso, luz e sombras. Fechou-os e tentou focar.
Primeiro viu Harry, horrorizado e pálido. Ajudou-a a endireitar-se um pouco e levou um copo aos seus lábios. Depois Rúbio, que mudava continuamente o peso de perna e fazia virar o chapéu entre as mãos.
- Não se passou nada - dizia a Harry com um tom de voz que tentava convencê-los a todos, incluindo a ele. - Foi um desmaio, mais nada. Às vezes, acontecem estas coisas às mulheres.
- O que sabes tu de mulheres? - murmurou ela, e, em seguida, reparou que o que Harry segurava nos seus lábios não era um copo, mas uma garrafa de brandy que limpava com eficácia a nebulosidade que a rodeava. - Não desmaiei.
- Pois foi uma imitação perfeita! - exclamou Harry.
- Deixem a garota respirar - a tranqüilidade de Lílian Potter, a sua voz elegante, tiveram o efeito mágico de fazer com que as pessoas que a rodeavam recuassem. Lílian penetrou entre a multidão e ajoelhou-se ao seu lado. Fez um barulho com a língua, retirou-lhe o pano molhado da testa e torceu-o para escorrer o excesso de água. - Os homens exageram sempre. Bom, Gina, causaste sensação!
Fazendo uma careta, Gina sentou-se.
- A sério? - apertou a testa contra os joelhos por um momento até ter a certeza de que não iria começar a ver tudo à roda novamente. - Custa-me a acreditar que desmaiei - balbuciou.
Harry soltou um palavrão e bebeu um gole da garrafa de brandy.
- Aquele touro quase a matou e ela está preocupada com o fato de desmaiar poder ter afetado a sua imagem.
- Olha, Potter...
- Eu, no teu lugar, deixava estar - avisou-a ele e, com meticulosidade, tapou a garrafa. - Se conseguires pôr-te de pé, levo-te a casa.
- Claro que consigo pôr-me de pé - replicou ela. - E não vou para casa.
- Tenho a certeza de que já te sentes bem - começou a dizer Lílian, e lançou um olhar de advertência ao seu filho. Para um homem inteligente, pensou Lílian, Harry mostrava uma considerável falta de bom-senso. Quando o amor aparecia, a sensatez esfumava-se. - O problema é que, se ficares, vais ter de suportar que toda a gente desfilando diante de ti para te felicitar pessoalmente - lançou um olhar à multidão que os rodeava. - És a heroína da semana - sorriu ao ver que as suas palavras faziam efeito.
A resmungar, Gina levantou-se.
- Está bem - as feridas começavam a doer-lhe. Em vez de o admitir, sacudiu o pó das calças. Não é preciso tu ires também - disse a Harry, muito tensa. - Sou perfeitamente capaz de...
Os dedos de Harry fecharam-se sobre o seu braço e puxou-a para a tirar dali.
- Não sei o que se passa contigo, Potter - disse entre dentes, - mas não vou agüentar.
- Se fosse você, deixaria as coisas tranqüilas por enquanto - as pessoas afastavam-se à medida que avançavam. Se alguém tivera a intenção de se dirigir a Gina, o olhar desafiador de Harry dissuadira-o imediatamente.
Depois de abrir a porta da sua caminhonete de um puxão, Harry empurrou-a para o interior de maneira não muito carinhosa. Gina puxou o cordão do chapéu, que estava pendurado nas suas costas, agarrou-o pela aba com ambas as mãos e enterrou-o. Depois cruzou os braços e dispôs-se a agüentar a hora de caminho em absoluto silêncio. Quando Harry se sentou ao volante, percebeu que não só perderia a apanha de novilho com laço, como também o seu direito a pavonear-se da vitória do seu touro durante o churrasco que aconteceria à noite. A injustiça da situação indignou-a.
E porque estava tão zangado?, perguntou-se com toda a justificação. Não fora ele quem morrera de medo, quem torcera o joelho e depois sofrera a humilhação de desmaiar em público. Tocou no cotovelo, os arranhões tinham-no deixado em carne viva. Afinal, provavelmente salvara a vida ao menino. Levantou o queixo enquanto o braço começava a doer-lhe com força. Então porque se comportava como se ela tivesse cometido um crime?
- Um dia, vais levantar o queixo assim e alguém vai agarrar-te por ele.
Ela virou a cabeça lentamente para olhar para ele.
- Posso saber o que se passa, Potter?
- Não me provoques - ele carregou no acelerador até o velocímetro atingir os cento e vinte quilômetros por hora.
- Olha, não sei qual é o teu problema - disse ela com firmeza, - mas dado que tens um, porque não o dizes de uma vez? Não estou com humor para agüentar mais comentários desagradáveis.
Desviou a caminhonete tão bruscamente para a borda que ela se viu atirada contra a porta. Quando estava a recompor-se do empurrão, ele já saíra do veículo e caminhava a passos largos por um campo coberto de ervas daninhas. Gina saiu da caminhonete, esfregando o braço dolorido, e foi atrás dele.
- O que raios se passa? - agarrou-o por uma manga, o aborrecimento dificultava-lhe a respiração. - Se queres conduzir como um louco, vou procurar alguém que me leve ao rancho.
- Faz o favor de te calares! - afastou-se dela. Distância, disse para si mesmo. Precisava de um pouco de distância para recuperar a calma. Na sua mente, ainda via aqueles chifres a roçarem no corpo de Gina. Se tivesse falhado com o laço, o touro... Não era capaz de pensar no que poderia ter acontecido. Tinham sido necessários três laços e a força de vários homens para afastar o animal dos corpos estendidos no chão. Tinha estado prestes a perdê-la. Num segundo, poderia tê-la perdido.
- Não me mandes calar - Gina apareceu diante dele e agarrou-o pela camisa. O chapéu caiu para trás quando levantou a cara para ele e começou a descarregar a sua raiva. - Acabou-se, não vou continuar a agüentar-te. Não sei como te deixei chegar tão longe, mas já chega. Volta a entrar para a caminhonete e vai-te embora para onde quiseres. Por mim, vai para o inferno!
Deu meia volta para partir, mas antes que pudesse fazê-lo, ele agarrou-a e apertou-a entre os seus braços. Ela debateu-se e começou a gritar, mas ele agarrou-a ainda com mais força. Quando deixou de resistir, Gina percebeu que estava a tremer e que a sua respiração era acelerada e ofegante. Estava dominado pela emoção, não pelo aborrecimento. Ela acalmou-se e esperou. Sem ter muita certeza de porque precisava que o consolasse, acariciou-lhe as costas.
- Harry?
Ele abanou a cabeça e afundou a cara no seu cabelo. Nunca estivera tão perto de se ir abaixo. Não era de distância que precisava, descobriu, mas daquilo. Senti-la entre os seus braços, sã e salva.
- Meu Deus, Gina, sabes o que me fizeste?
Desconcertada, apoiou uma face no seu peito, ali onde o batimento do seu coração era mais forte, e continuou a acariciar-lhe as costas.
- Desculpa - disse.
Esperava que fosse suficiente, embora ainda não soubesse o que fizera.
- Estava muito perto, muito perto. Mais alguns centímetros e... Ao princípio não tinha a certeza se não te teria dado uma chifrada.
O touro, disse para si Gina, de repente. Portanto não era que estivesse zangado, mas tivera medo, muito medo. Embargou-a uma sensação quente e doce.
- Não - murmurou. - Não me magoou. De perto não era assim tão terrível como, certamente, parecia de fora.
- Como? - segurou-lhe a cara entre ambas as mãos e obrigou-a a olhar para ele. - Eu estava a apenas a alguns passos quando atirei o primeiro laço. Já estava meio louco. Mais alguns segundos e teria te levantado do chão com uma investida.
Gina ficou a olhar fixamente para ele e engoliu em seco.
- Não... Não sabia.
Harry viu que as suas faces perdiam a cor que tinham recuperado com o aborrecimento. “E tinha de te dizer” pensou com fúria. Tomou-lhe ambas as mãos, levou-as aos lábios e enterrou a boca numa das palmas e depois na outra.
- Já passou - disse com mais domínio de si mesmo. - Acho que a minha reação foi exagerada. Não é fácil ver uma coisa assim - sorriu porque viu que ela precisava. - Eu não teria gostado que tivesses acabado cheia de buracos. Gina relaxou um pouco e sorriu.
- Eu também não. Na verdade, acabei com algumas feridas das quais não me sinto nada orgulhosa.
Ainda a segurar-lhe nas mãos, ele inclinou-se para a frente e beijou-a com tanta delicadeza que ela sentiu que a terra se movia novamente sob os seus pés. Gina percebeu vagamente que havia algo diferente, algo... mas escapou-lhe antes de ser capaz de precisar o que era.
Harry afastou-se dela. Sabia que estava a chegar a altura em que teria de lhe dizer quais eram os seus sentimentos, embora ela não estivesse preparada para o ouvir. Enquanto se dirigia para a caminhonete, decidiu que, dado que só iria abrir o seu coração para uma mulher uma vez na sua vida, faria como era devido.
- Vai tomar um banho quente - disse a Gina enquanto a ajudava a entrar na caminhonete. - E depois faço-te o jantar.
Gina recostou-se no banco.
- Afinal, isto de desmaiar não é assim tão mau.