CAPITULO 126 - ORGULHO
O conde de Valença se mantinha parado, imóvel.
Ocasionalmente, Elly erguia seu olhar da tela e o analisava. Então corava, e voltava sua atenção para o trabalho de pintar.
A presença de Hermione era totalmente dispensável, e havia sido esquecida. Ela não se importava, estava ocupada costurando.
Sua atenção totalmente voltada para os delicados tecidos. Graças às dicas das moças do Rosie Nell ela havia pegado o jeito na costura.
Não tinha mistério, precisava apenas de atenção e dedicação. E em sua busca por calmaria, tempo era o que não lhe faltava.
Sentada na poltrona ao lado, Anna também costurava. Cabisbaixa, não tinha coragem de falar com a patroa a menos que ela falasse primeiro. A vergonha a matava, e não podia conceber a idéia de irritá-la ainda mais.
Sua atenção foi atraída quando o conde começou a conversar com Michelle. Ele era tão atencioso que fazia Hermione rir por dentro.
O imponente Conde de Valença flertava abertamente com a assustada Elly. Cheio de delicadezas, tentava disfarçar a corte, mas não conseguia esconder dela seu interesse.
Hermione se esforçou para não prestar atenção na conversa de ambos, mas quando o conde elogiou os olhos vivamente claros de Elly, foi demais para ela.
-Vamos para o meu quarto, Anna. Estou com dores nos pés. Papai, vou me deitar um pouco – ela avisou, apressada para deixá-los sozinhos.
O conde lhe dirigiu um amplo sorriso cúmplice e Elly pareceu corar ainda mais.
-Está ficando lindo, Elly – ela continuou olhando sobre o ombro de Elly – Mas não se esqueça de enfeiá-lo um pouco, não queremos que se sinta muito envaidecido não é? – brincou.
O conde reclamou, mas ela não deu resposta, preferindo deixá-los enquanto riam.
-O Conde parece estar se apaixonando – Anna disse incerta.
-Sim, parece que o amor tomou Londres – ela alfinetou, incapaz de perdoar totalmente a jovem.
-Sinto muito, Sra. Hermione – ela disse a beira das lágrimas.
-Não chore, Anna. Não se atreva a chorar sobre o leite que você mesma derramou. Não estou com raiva de você. Estou brava e vai passar. Não me peça para esquecer imediatamente! Está acima da minha capacidade!
-É que sinto causar tantos transtornos. Sinto muito ser um estorvo em sua casa. Imagine ir para a casa com sua família, quando meu lugar não é esse. – ela fungou.
Hermione entrou no quarto, que era seu sempre que visitava a casa de seu pai e sorriu para a jovenzinha.
-Quanto a isso fique tranqüila. Tinha planos de levá-la comigo para me ajudar com o bebê. Só não esperava que fosse nessas circunstâncias. – suspirou - Juanita ficará muito chateada comigo. Deveria ter cuidado de Duran como se fosse meu filho, e não ter arrumado uma esposa para ele! Deus, vocês dois são crianças!
-Muitas moças casam mais novas que eu! – ela tentou se defender.
-Não se atreva a querer discutir esse assunto comigo – Hermione avisou – Estou irritada com esse assunto. Muito irritada. Por mim, tinha dado uma sova em vocês dois! Agradeça a Rony por não ter deixado.
Anna se encolheu e não respondeu nada. Era bem verdade que Hermione não tinha direito de querer corrigi-los, pois não era nada deles, mas na postura atual de protetora, ambos se sentiam no dever de responder a ela sobre seus atos.
Uma estranha ligação vinda do simples fato do amor ter nascido entre eles, como irmãos. Ou mãe e filhos.
-Devo agradecer ao Sr. Wesley, ele me ajudou com o enxoval, mas pediu que não lhe contasse – ela confidenciou.
-Ele fez isso? – o susto quase a fez derrubar a delicada peça infantil que costurava – Não acredito!
-Acredite. Vou comprar panelas. Minha mãe sempre dizia que panelas fazem muita falta!
-Não sei... Temos muitas panelas em casa. E vocês farão suas refeições conosco no começo. – Hermione disse pensativa – Preocupe-se com roupa de cama, toalhas, e roupas íntimas para você. O resto usará o de casa. Deve saber, Anna, que irá demorar até terem um lugar de vocês dois!
-Sei disso – ela disse humilde.
-A fazenda em que viemos não é tão elegante como as casas que está acostumada a trabalhar. É simples, temos pouco espaço. Terá que viver com a mãe de Duran. E ela tem muitos filhos pequenos. Vai ser difícil no começo, mas se as finanças estiverem indo bem, talvez possamos ajudá-los a construir uma casinha nos fundos do celeiro e... – parou de falar quando notou que estava sonhando acordada – Estou fazendo planos para sua vida, e não é justo.
-Não me importo. Faz muito tempo que não tinha planos em minha vida. – ela sorriu agradecida.
-Anna, Anna, Anna! Que confusão você me meteu! Porque tinha que cativar minha afeição? Agora terei que agüentar os gritos de Juanita, e ainda tentar defendê-la! – brincou, e a moça até sorriu.
Estavam entretidas, com Hermione lhe contando sobre a fazenda, sobre a vida na fazenda e sobre Juanita e sua família, que logo seriam a família de Anna também quando Rony chegou.
-Achei que estivesse aqui – ele disse apressado, nervoso.
-O que aconteceu? - ela deixou a costura e ficou assustada – Saiu tão cedo, nem o vi sair da cama!
-Precisei ir atrás de Harry! – Rony estava definitivamente nervoso – Preciso voltar para casa, Hermione, temos que ir embora ainda hoje!
-Como assim? – ela levantou-se em pânico.
-Gina voltou para casa. Aquela maluca voltou mesmo para casa!
-Rony... – Hermione se acalmou ao entender que ele falava do assunto Gina -...Precisamos conversar sobre sua irmã e Harry. – Sei algumas coisas que precisa saber.
-É mesmo? - ele não acreditou.
-Porque não me leva para passear no jardim? – ela pediu sorrindo meiga, para acalmá-lo – Anna termine essa costura para mim?
-Sim, senhora – Anna sentiu-se feliz em agradá-la.
Rony ajudou-a a descer as escadas, pois atualmente Hermione tinha muito medo de escorregar nos degraus. Ela apertou seu braço com carinho e lhe disse em tom de segredo:
-Meu pai está na saleta, enamorado de Elly. Não devemos atrapalhá-los.
-Acha uma boa idéia que ele se apaixone por uma mulher que não lembra quem é?
-Elly é quem sempre foi. Veio da França para ser feliz, e é obrigação de meu pai que ela seja feliz. Sinto que ela fará toda diferença na vida dele. – suspirou – Meu pai gosta de Londres e sua vida é aqui. Precisa ter alguma alegria, uma companhia que o faça sorrir. Deve ter notado, mas ele é um homem que faz muito bem as pessoas.
-Sim, como a filha tem o dom de mudar a vida das pessoas a sua volta – ele elogiou enquanto a conduzia pelo amplo jardim.
-Existe uma fonte, atrás daquelas árvores – ela apontou – Gostaria de vê-la?
-Estou mais preocupado com minha irmã, Hermione. – avisou.
-Vamos sentar perto da fonte, e conversar sobre a sua irmã. – assegurou-o.
Andaram por uns dez minutos, até estarem completamente protegidos pelas árvores do amplo jardim. Hermione suspirou e aspirou o ar da natureza, sentindo saudade de casa.
Bem camuflado pelas folhagens, havia um banco adornado por anjos, e uma fonte que expirava água sempre fresca. Ela sentou-se, aliviando o peso sobre os pés e, olhou para os passarinhos que se banhavam na água clara da fonte.
-Admiro seu ar de contemplação – ele ironizou – mas quero saber o paradeiro da minha irmã, Hermione!
-É claro que quer saber – ela sorriu – Porque não se senta?
-Porque não gosto de ser o último a ficar sabendo das coisas!
-Pretendia contar hoje cedo, mas saiu antes que eu acordasse.
-O que esperava? Tinha que ajudar Harry a encontrá-la.
-E conseguiram? – ela sorriu provocativamente.
-Não. Também não pude falar com Harry. O louco abandonou tudo, deixou a casa, os negócios, seu administrador estava desesperado hoje cedo sem saber do seu paradeiro. Seu cavalariço garantiu que pegou o trem ontem à noite, e levava consigo apenas as roupas do corpo! Nem um vintém a mais! Tem noção da loucura que ele fez?
-Harry fez isso? - ela cobriu os lábios, surpresa e deliciada – Não acredito! Pobre Harry!
-Pobre Harry? Hermione o que você sabe que eu não sei? – perguntou exasperado.
-Não era para Harry ir tão longe – começou a falar pensativa – achamos que ele passaria uns dois dias preocupado, e isso lhe serviria de lição. Só isso. Nunca achei que seu amor fosse tão grande. Apesar de nunca ter duvidado que amasse Ginerva.
-Seja objetiva! - ele mandou fitando-a com nervoso.
Hermione sorriu vitoriosa.
Estava linda naquela manhã. Usava a cor verde, que a deixava mais alegre. Os cabelos estavam trançados, e havia uma fita dourada trançada junto com as mexas. Usava os brincos que o conde lhe dera, e o colar que ele a presenteara. Havia colocado um broche que lhe era estranho, e esse brilhava contra a luz do sol, que batia em sua face.
-Harry merecia uma lição. Gina pretendia assustá-lo, apenas isso. Imagine se ela seria louca de deixá-lo e colocar seu casamento a perder! Está magoada, mas o ama. Sabia que o Sr. Lovegood viajou?
-E o que tem isso a ver com desaparecimento premeditado da minha irmã? – exasperado ele fitou-a com reprovação.
-Bem, Gina está confortavelmente hospedada com Luna em sua casa. Aliás, ao lado da nossa casa. Por isso levou a governanta junto, para ter ajuda no tempo em que ficar ali. Como vê, Harry se mobilizou à toa.
-Se mobilizou à toa? Ele está desesperado! Tem idéia do que acontecerá quando ele chegar à casa dos meus pais?
-Não seja tão dramático, Ronald! Não acontecerá nada demais. Terá que sentar e esperar. Não é o que Gina vem fazendo há dias? Sentar e esperar que ele a note? Pois bem, se você correr pode escrever uma carta para ele, e enviar através de um dos mensageiros do conde. A carta chegará antes de Harry e seus pais já saberão de tudo, por isso não haverá problemas familiares.
-E porque não enviar uma carta para a primeira parada do trem? Harry saberia de tudo e poderia voltar – ele disse pensativo.
-E que graça teria? Deixe-o passar vários dias de privação e sofrimento. Saberá o valor do amor de Gina, quando estiver sofrendo de solidão!
-Hermione, não seja tão cruel.
-Cruel? Gina é sua irmã, mas apesar disso, deve saber dos detalhes sórdidos. Segundo ela me contou, Harry só a vê e fala com ela durante poucos minutos do dia, antes de se deitar. Usa de seus atributos e vira para o lado, como se ela não fosse nada. Acha que ela merecia tão pouco carinho? Gina é um doce. Tudo que faz é para agradá-lo! Sequer se importou que estivesse sendo difícil sua adaptação em Londres! Acha, com sinceridade, que Harry não merecia essa lição?
-Morda a língua antes de acusar Harry – ele avisou, um dedo em risque – Há meses tudo que faço é para agradá-la, e me trata como um inimigo. Acusa Harry de um crime que também comente.
Hermione calou-se com um olhar rancoroso.
-É diferente – ela disse afinal.
-Diferente como? – ele cobrou dela uma resposta.
-Quando o conheci era o pior momento da vida de alguém! Estava... Destruída em todos os sentidos! E tudo que você queria era a minha fazenda! Como poderia ter algum respeito por você? Abusou da minha situação para se dar bem na vida! Eu tinha todas as razões para detestá-lo. Mesmo assim, a única coisa que fiz foi negar a você minha afeição de esposa. No resto, não pode me repreender. Tratei da casa, cuidei das suas coisas, cuidei que tivesse todo o conforto que um marido deve ter! Ou estou mentindo? Tínhamos um acordo, e ele não envolvia amor!
-Amor? Tem razão. Não envolvia amor – ele calou-se tendo essa verdade esfregada em seu rosto com tanta crueza que doía. – Mas isso mudou, não mudou? Cuida das minhas coisas por querer e não obrigação, não é? E sente algum afeto por mim, não é? Mesmo que um leve carinho.
-Eu já lhe disse, me acostumei com você – disse envergonhada.
-É melhor que não tentemos entender nossa relação nesse momento. – ele desconversou – então, Gina está em segurança?
-Sim.
-Mesmo? – ele insistiu.
-Mesmo – ela retrucou, desafiando-o a duvidar dela.
-Vou seguir sua sugestão e escrever para os meus pais, mas saiba que se Harry se separar dela, a culpa será em parte sua. E teremos que conviver com ela em nossa casa para sempre – disse desanimado.
-Não seja bobo. “Se” Harry for tolo a ponto de se separar, não demorará nada, ela conhecerá alguém que lhe de valor!
-Uma mulher não pode se casar novamente a menos que enviúve Hermione.
Ela riu com escárnio.
-Acha mesmo que com a beleza de Gina nenhum homem a tomaria por esposa, mesmo sem a benção de Deus?
Rony queria negar, mas não podia. Satisfeita em estar certa, ela deu de ombros.
-Se um dia nos separarmos, eu me casaria novamente, mesmo sem um papel para comprovar – ela avisou em tom de provocação.
Quem riu dessa vez foi ele.
-Nunca quis um marido. – ele lembrou-a.
-Nunca quis o marido que tenho. – ela que o lembrou dessa vez – Agora, que descobri que posso ter um marido, sem me preocupar em me rebaixar a ele, posso começar a pensar nas minhas opções.
Algo de preocupação fechou a expressão de Rony, e Hermione fingiu não notar. Ele não respondeu, apenas chutou uma pedra do chão, segurando algo que queria lhe dizer.
Queria dizer a ela que a mataria se ousasse ser de outro homem, mas não tinha coragem. Não era verdade. Ele seria aniquilado se isso acontecesse, mas não teria coragem de negar a ela a felicidade.
-Quando quiser outro, basta me avisar - ele disse por fim, querendo talvez magoá-la também.
-Assim tão fácil? – ela perguntou com a sombra de um sorriso, tentando disfarçar a mágoa – Deveria saber... A fazenda já é sua.
Rony olhou para ela surpreendido por sua conclusão.
-Tem razão, a fazenda é minha. – ele concluiu com um quê de amargor na voz.
-Faça bom proveito dela então – Hermione deu de ombros.
-O dia que nos separarmos, deve procurar um homem sem culhões Hermione, pois nesse momento, sinto o incontrolável impulso de colocá-la sobre meus joelhos e lhe dar uma surra bem merecida.
-Não se preocupe, já fui surrada para uma vida toda – ela disse olhando para outro lado, magoada.
-E eu não fiz nada para impedir isso – ele lembrou se culpando.
-E como poderia? Aquele homem nem deveria ter cruzado meu caminho!
Rony pensou em contar-lhe que sim, aquele homem cruzaria seu caminho, pois eram ordens de alguém que a queria morta.
Esse problema o preocupava muito. Mas não tinha jeito de resolver enquanto não apanhasse a ex-mulher do conde.
Os dois estavam convencidos que sem dinheiro ela não poderia conseguir comparsas, e sozinha não chegaria a ter oportunidade de fazer mal a Hermione. Mas o problema, era que enquanto ela vagasse por aí, eles não teriam paz!
-Mas não se preocupe, o dia quem nos separarmos, me casarei com um homem totalmente diferente de você – era verdade, ela pensou.
Não poderia viver ao lado de um homem como Rony sem morrer de sofrimento. Se o perdesse, sua vida seria triste e sem felicidade alguma. E não poderia conceber a idéia de viver ao lado de um homem que a lembrasse Rony.
Para ser totalmente sincera, não teria coragem de se casar novamente, mas ele não precisava saber disso.
-De qualquer modo a escolha é sua – ele rebateu, ferido de morte por seu pouco caso.
-Sim, a escolha é minha.
Hermione baixou o rosto, escondendo dele seus pensamentos mais íntimos.
Quando ergueu os olhos, era ele quem fugia de um confronto. Andou alguns passos olhando para a bela fonte e suas águas cristalinas.
O silêncio entre eles poderia ser tocado de tão denso e profundo.
Vários minutos depois, e Hermione olhou para ele demoradamente. Para suas costas na verdade, pois ele estava de costas para ela, parecendo muito interessado em seus próprios pensamentos.
Arrependida de tê-lo magoado, pensava num modo de desfazer a besteira que dissera. E porque isso? Rony deixara claro que se um dia a deixasse – e havia essa possibilidade, ou não divagariam sobre isso! – permitira que vivesse com outro e tivesse-o por um novo amor.
-Não estive trabalhando na doçaria de Roxinne como pensou – ela disse de repente, chamando sua atenção e também o surpreendendo por dar satisfações.
-Não? – perguntou irônico.
-Tem razão ao dizer que me desgastei, mas não estivesse trabalhando – explicou.
-E o que fazia no Rosie Nell? Vi seus bolos nas vitrines! E provei um deles, para ter certeza que era você quem estava por trás disso! - ele acusou.
-Reconhece meus doces? - ela ironizou.
-Explique-se, Hermione.
-Está bem – ela suspirou chateada, e ao mesmo tempo feliz em ser o centro da sua atenção novamente. – Estive no Rosie Nell todos os dias, ensinando a arte de cozinhar para algumas moças. Apenas duas se sobressaíram e mostraram talento natural para isso. São duas órfãs, e achei que se as ensinasse tudo que sei, poderiam ter um trabalho quando atingirem a maior idade e forem expulsas do orfanato. Roxanne me garantiu que as contratará, pois elas souberam reproduzir meus doces com perfeição. Não fui eu quem fez. Apenas ensinei, e durante o tempo de preparo e cozimento, tenho assistido às aulas que Roxanne preside.
-Aulas? Aulas de que? – surpreendeu-se.
-De literatura. De inglês. De etiqueta. São varias as disciplinas. Não estou engajada como deveria – ela circundou a barriga com as mãos, mostrando a ele a razão – mas gosto de aprender um pouco mais. É divertido.
-Imagino que seja – não pode se zangar com ela. – Sempre fui preguiçoso demais para entender o prazer que algumas pessoas especiais podem ter pelo estudo. – confessou.
-Sinto prazer com muitas coisas. – ela explicou – Mas ler um bom livro, ou cuidar da terra e aspirar o ar puro, são atitudes que sempre irei desejar ter.
-Compraremos alguns livros para levar para casa – ele prometeu.
-Já tivemos muitos gastos – ela negou – Poderia aceitar a mesada que meu pai oferece, mas...
-O conde lhe ofereceu uma mesada? - ele quase não acreditou nisso – Disse a ele que não precisamos do seu dinheiro! Os presentes que ele lhe der são presentes de um pai, e não posso interferir ou impedir! Mas dinheiro...! – indignado maneou a cabeça.
-Porque os homens são tão estúpidos? - ela perguntou sorrindo – Não aceitei. Pronto.
-Seu pai não acredita que eu possa cuidar de você! – ele disse ofendido.
-Ele acredita que tenho direito a desfrutar de todo o conforto que pode me proporcionar. Que se houvesse sido criada com ele, teria tido do bom e do melhor. É no que acredita. Outro dia ele me perguntou de que serviria nosso orgulho, se no dia que ele morrer, herdaremos tudo. Não tive resposta para lhe dar, porque no fundo, ele tem razão. É meu pai, e não há honra maior do que aceitar desfrutar daquilo que ele levou a vida toda para construir. Chega a ser meu dever de filha – seu sorriso se alargou ao notar sua surpresa – Sei o que está pensando.
-Sabe?
-Sim, está pensando que o aceitei muito rápido em meu coração. Não é?
-Também. – ele fingiu não notar que ela sabia que mentia. É claro que era isso que ele pensava.
-É muito fácil se apaixonar pelo conde. E acredito que precisava desesperamente ter um pai. Ou uma mãe. Qualquer um que me amasse do modo como minha família me amou. De um jeito torto, é verdade. Mas sinto falta desse amor.
-Amor que não posso lhe dar? – ele perguntou a cada minuto mais magoado. Queria lhe dar o céu e as estrelas, mas sequer conseguia fazê-la sentir-se amada!
-É algo diferente. – ela disse se agitando, e levantando-se do banco.
Alisou a saia do vestido e afastou a longa trança que pendia sobre o peito. De costas, foi ela quem fitou a fonte com demasiada atenção.
-Porque é diferente?
-Eu não sei. Mas é diferente.
-Não entendo como pode ser diferente, ou é amor ou não é! – ele chegou ao seu limite, chegando a se irritar.
-Como pode dizer isso? – ela virou-se para ele, horrorizada. – pode dizer que ama seu pai, sua mãe e seus irmãos, do mesmo modo que já ama seu filho, que não nasceu? Pode dizer que é igual?
Sua veemência o calou. Hermione tinha toda razão do mundo.
-Não, não é igual. – admitiu. – E você? Ama o filho que carrega?
-Não ouse me perguntar isso – avisou sentindo os olhos enxerem de lágrimas por sua desconfiança – O que sinto em relação ao nosso casamento não pode ser confundido com o que sinto pelo meu bebê!
-Nosso! Nosso bebê! – lembrou-a, chegando muito perto, e olhando fundo em seus olhos – Não quero que haja distinções entre o pai e a mãe. Não se esqueça disso!
-Não esquecerei – seu orgulho obrigou-a a enfrentá-lo.
Se fosse homem, seria uma queda de braço. A venceria numa queda de braço ou um jogo de cartas. Mas era mulher, a sua mulher.
Sua doce e frágil mulher.
-Quando pensar em ter outro marido, lembre-se disso – ele disse em tom rouco de ameaça.
Ela não teve tempo de pensar. Rony tomou-a em seus braços, beijando-a com fervor e agonia.
Seus braços seguraram-na com rudeza pelas costas, uma das mãos subindo e amassando sua trança entre os dedos, enquanto segurava sua cabeça no lugar que queria.
Os lábios dele queimaram sobre os dela, e Hermione permitiu que sua língua avançasse, obtendo dela toda colaboração que poderia desejar.
O beijo durou minutos, ou segundos, o importante era que nenhum dos dois deseja se afastar.
A mesma necessidade de Rony, brilhava nos olhos de Hermione, quando sem ar os dois se afastaram.
As mãos pequenas e delicadas agarravam as mangas do casaco de Rony, marcando o tecido e avermelhando os dedos frágeis.
Arfante ela se afastou, os cabelos bagunçados, os lábios machucados e úmidos de sua paixão.
Sem ar e sem vontade de lutar.
-Me lembrarei – ela disse por entre um suspiro, virando-lhe as costas e andando apressada por entre as árvores.
Rony deixou-a ir.
Autora: FELIS PÁSCOA!!!!!!!!!!!!!