- Feio, feio, feio! – Gina embolou o novo vestido, atirando-o na cama.
Um lindo vestido Tocca? Ah, qual é, como é que isso pode ser feio?
A cada dia dessa semana, Gina vestiu o uniforme marrom, foi para a escola, voltou para casa, viu tv, jantou, viu mais um pouco de tv e foi dormir. Ela até fez o dever de casa. Não falou com ninguém exceto os pais dela e os professores e talvez um oi de passagem para as meninas da escola. Estava começando a se sentir pela metade, uma sombra de seu antigo eu, uma garota que as pessoas conheceram mas da qual não se lembravam mais. Os olhos e os cabelos lhe pareciam insípidos, e o belo sorriso e o comportamento tranqüilo tinham sumido até segunda ordem.
Agora era sexta-feira, a noite da festa Beijo na Boca. E a pergunta que ela não conseguia responder era: ir ou não ir?
Há bem pouco tempo, antes de festas elegantes como esta, Gina e as amigas passariam metade da noite juntas, se vestindo, bebendo gim-tônica, dançando em volta da roupa de baixo, experimentando os acessórios mais loucos. Mas nesta noite Gina esquadrinhou seu armário sozinha.
Havia uma calça jeans com um rasgão na perna de quando ela prendeu em uma cerca de arame farpado em Ridgefield. O vestido de cetim branco que ela usou na festa de Natal da sétima série. A velha jaqueta de couro do irmão. O tênis fora de moda que deviam ter ido para o lixo anos antes. E o que era isso? Um suéter vermelho de lã – de Harry. Gina o segurou para perto do rosto e o cheirou. Tinha o cheiro dela, não dele.
No fundo do armário havia um vestido de veludo preto que Gina comprara com Hermione em uma loja chique. Era um vestido próprio para beber, dançar e circular decorativamente em uma casa enorme cheia de gente se divertindo. Lembrava a garota dos bons tempos que ela fora na época em que comprara o vestido – seu velho eu, a garota que fora até duas semanas atrás. Ela deixou o robe cair no chão e colocou o vestido pela cabeça. Talvez ainda lhe conferisse parte de seu poder.
Descalça, foi até o quarto de vestir dos pais, onde eles estavam se arrumando para um evento de gala.
- O que vocês acham? – perguntou Gina, dando uma volta na frente deles.
- Oh, Gina, você não vai usar isso. Diga-me que não – exclamou sua mãe, prendendo um longo colar de pérolas no pescoço.
- Qual é o problema dele?
- É uma velharia horrorosa – disse a sra Weasley. – É o tipo de vestido que acompanharia minha avó no caixão.
- O que há de errado com uma daquelas roupas que você comprou com sua mãe na semana passada? – sugeriu o sr. Weasley. – Não comprou nada para usar na festa?
- É claro que ela comprou – antecipou-se a sra. Weasley. – Comprou um vestido preto adorável.
- Ele me deixa uma freira gorda – disse Gina, rabugenta. Colocou as mãos nos quadris e fez uma pose diante do espelho de corpo inteiro da mãe. – Gosto deste. Ele tem caráter.
A mãe suspirou em desaprovação.
- Bem, o que Hermione vai usar?
Gina olhou a mãe e piscou. Sob circunstâncias normais, ela saberia exatamente o que Hermione usaria, até a calcinha. E Hermione insistiria em comprar sapatos com ela, porque, se você compra um novo vestido, tem de ter um novo par de sapatos. Hermione adora sapatos.
- Hermione disse a todo mundo para usar um clássico – mentiu Gina.
A mãe estava prestes a responder quando Gina ouviu o telefone tocar em seu quarto. Era Harry ligando para se desculpar? Hermione? Ela correu pelo corredor descalça, tropeçando para pegá-lo.
- Alô?
- E aí, safada. Desculpe por não te ligar antes.
Gina respirou fundo e se sentou na cama. Era Rony, seu irmão.
- Oi.
- Eu te vi no jornal no domingo passado. Você é maluca, ou o quê? – Rony riu. – O que a mamãe disse?
- Nada. Posso fazer o que eu quiser agora. Todo mundo pensa que eu, tipo assim, estou acabada ou coisa parecida. – Gina procurava as palavras certas.
- Isso não é verdade. Ei, o que é que tá pegando? Você parece triste.
- É – disse Gina. Seu lábio inferior começou a tremer. – Tô meio assim.
- Assim como? O que foi?
- Sei lá. Tem uma festa que eu tenho que ir, e todo mundo vai. Você sabe como é – começou ela.
- Isso não parece tão ruim – retrucou Rony com delicadeza.
Gina ajeitou os travesseiros na cabeceira da cama e se enfiou debaixo do edredom. Apoiou a cabeça nos travesseiros e fechou os olhos.
- É, só que ninguém mais fala comigo. Eu nem sei por quê, mas desde que voltei é como se eu tivesse a doença da vaca louca ou coisa parecida – explicou ela. As lágrimas começaram a cair de suas pálpebras fechadas.
- E a Hermione e o Harry? Eles devem estar falando com você. São seus melhores amigos.
- Não são mais – disse Gina baixinho. Agora as lágrimas jorravam livremente em seu rosto. Ela pegou um travesseiro e apertou-o contra as suas bochechas para deter o choro.
- Bem, sabe o que eu acho? – tornou Rony.
Gina fungou e limpou o nariz nas costas da mão.
- O quê?
- Eles que se fodam. Totalmente. Você não precisa deles. Você é tipo a gata mais cool do hemisfério ocidental. Eles que se fodam.
- Tá – disse Gina dubiamente. – Mas eles são meus amigos.
- Não são mais. Você só está dizendo isso para se convencer. Pode ter novos amigos. Estou falando sério, Gina. Não deixe que esses babacas transformem você numa babaca. Manda eles à merda.
Era o perfeito Ronysmo. Gina riu, esfregou o nariz escorrendo no travesseiro e o atirou pelo quarto.
- Tudo bem! – Ela se sentou. – Você tem razão.
- Eu sempre tenho razão. É por isso que é tão difícil me prender. A demanda por gente como eu é enorme.
- Estou com saudade – disse Gina a ele, roendo uma unha cor-de-rosa.
- Eu também.
- Gina? Estamos indo! – Ela ouviu a mãe gritar do corredor.
- Tá legal, é melhor eu ir – disse Gina. – Te adoro.
- Tchau.
Gina desligou. Na beirada da cama estava o convite para a festa Beijo na Boca que Luna tinha feito para ela. Gina o rasgou e jogou na cesta de lixo.
Rony estava certo. Ela não tinha de ir a uma festa beneficente idiota só porque todo mundo ia. Ela nem queria ir. Fodam-se. Ela era livre para fazer o que quisesse.
Gina levou o telefone para a mesa e vasculhou uma pilha de papéis até achar a lista de alunos da Beauxbatons Academy, que tinha vindo com a correspondência na segunda-feira. Gina leu os nomes. Não era a única a matar a festa. Ela podia achar outra pessoa com quem sair.