Dia após a festa. Terça-feira. 10:00 AM.
A batida da caneta contra a mesa perfurava seus ouvidos. Até o próprio barulho do passar do relógio lhe incomodava. Tinha a cabeça apoiada nos braços que estavam cruzados em cima de sua carteira. Se orgulhava de dizer que era a melhor aluna em questão de notas, mas isso não quer dizer que era um robô.
O peso de suas pálpebras estava tornado-se insuportável. E se não fosse pelo som estridente que avisava o fim da aula, teria adormecido ali mesmo. Levantou-se recolhendo seu material. Uma garota aproximou-se sorridente, carregava seu caderno de arame branco.
- Não dormiu bem esta noite?
- É... Essa festa idiota que inventei de ir. - saíram da sala juntas, tomando os corredores movimentados e barulhentos. O chão bem lustrado, quase escorregadio. Tinha os armários pintados por tinta cinza quase fresca que avisava o recente retorno das aulas.
- Tão ruim assim? - perguntou quando chegaram em seus respectivos armários, um ao lado do outro.
- Bom, não. Até que foi engraçado. - usou o segredo do cadeado, abrindo o mesmo. - Você sabe Louise, eu me divertir.
- Doeu admitir? - guardaram o material em mãos e pegando o necessário. Voltaram-se para porta de vidro manchada pelo toque. - Estou indo atrás da Emma, você vai para onde?
- Draco.
- Então a gente se vê depois. - Hermione acenou levemente com a cabeça e deu as costas. Entre as pessoas, caminhou até o refeitório. O local estava rodeado de atletas, lideres de torcidas e os que tentavam desesperadamente se enturmar. Na opinião dela essa era uma das piores fraquezas humanas, a busca desenfreada pelo aceitamento.
Reconheceu de imediato Malfoy. Estava sentado em uma das mesas com a mesma expressão arrogante de sempre. Se encararam brevemente, ela foi sentar-se no canto e ele levantou-se de onde estava para ir juntar-se a castanha.
- Que cara de quem ta há anos sem dormir é essa?
- Que cara mentirosa de “eu não preciso de ninguém” é essa? – retrucou enrugando a testa.
- Você é realmente uma graça Hermione... – disse em meio a um sorriso sarcástico. Um breve momento de silêncio, que antecedia as perguntas iminentes, se instalou entre os dois.
- Então, você vai me contar ou eu preciso perguntar? – seu tom era quase cansado. Matinha os olhos sobre o loiro, estudando-o.
- Você já sabe de tudo. Não aconteceu mais nada. – a decepção veio implícita na frase. Passou a mão pelos cabelos curtos tentando mostrar uma falsa humildade.
- Bom, ela é o seu novo alvo para seus surtos perseguidores. – constatou o obvio.
- Por que você falando faz tudo parecer tão ruim? – comprimiu os olhos, a íris acinzentada cintilando.
- Me desculpe stalker. – não abafou a risada.
- Pode ri, mas você sabe que nenhuma consegue não é? - a expressão incisiva da castanha o obrigou a complementar. - Além de você, é claro.
- Certo certo. Boa sorte Mr. Lolita e, por favor, juízo. – mantiveram uma conversa fútil durante mais alguns minutos até Draco levantar-se em despedida.
Seus passos o levaram a saída do colégio, logo o frio percorreu seu corpo. As mãos no bolso do moletom tinham seus dedos agitados, esfregando-se uns nos outros compulsivamente. As coisas estão indo bem, está indo bem... Eu sempre consigo, sempre. Os pensamentos flutuavam por sua cabeça repetidamente. Os flashes não podiam ser afastados. A necessidade cutucando e perfurando para ser saciada. Ainda podia sentir sua pele arder apenas com a lembrança do contato da pele de Gina com a sua. Não podia controlar, queria respirar. Subiu em sua moto e deu partida. Pedindo para que o vento trouxesse alguma coisa boa.
Fim de tarde, estacionamento de Hogwarts.
O caminho para o estacionamento era consideravelmente longo quando se carregava uma pesada mochila nas costas, após alguns metros a mesma começava a pesar mais do que o real. Apressou os passos a fim de chegar mais rápido em seu carro e livrar suas costas de um grande mal. Em meio ao percurso sentiu algo vibrar no bolso de seu sobretudo preto, levou a mão para encontrar seu celular. No visor escrito: Ron.
- Você percebe que faz quinze minutos que nos vimos? – atendeu ao telefone proferindo a frase sem interrupções.
- Com toda certeza não é pela gentileza que nós somos amigos. – o tom do ruivo não deixava de ser cômico. Típico dele, até mesmo em horas inapropriadas.
- Claro... Então por que ligou? – perguntou tentando manter a cordialidade.
- Queria saber se você viu a Gina, ela não apareceu na saída.
- Não, não vi. Mas você percebe que ela já é bem grandinha e sabe achar o caminho de casa, certo? – ela não podia conter, o sarcasmo era parte de sua personalidade. No céu já se podia vê os primeiros sinais da escuridão, o frio tornava-se mais vigoroso ao passar dos segundos.
- Tudo bem engraçadinha. Se encontrar ela diga para não chegar tarde. – disse Ron. – E você também, vá para casa. Não é bom uma garota andar sozinha de noite.
- Claro, grande irmão protetor. – desligou o celular em seguida, guardando-o de volta no mesmo lugar. Há apenas alguns passos do veículo preto pode vê alguém encostado na traseira. Um suspiro escapou de seus pulmões involuntariamente ao reconhecer a pessoa. Tinha a pose prepotente habitual, alimentada por terceiros.
- Gina... Que coincidência, logo no meu carro. – murmurou entediada. O botão da chave fez a luzes traseiras brilharem rapidamente.
- Enorme. Mas que bom que é você, estou precisando de um favor. – um sorriso se mostrou na face mais esbranquiçada pelo frio, que já enrijecia os dedos e machucava a pele.
- Sério? E o que seria? – passou pela ruiva e se postou ao lado do acesso ao banco do motorista.
- Uma carona. – respondeu com uma voz quase inocente. Porém seu rosto nunca confirmava tal sentimento.
- Uma carona? Engraçado, porque seu irmão saiu faz quinze minutos.
- Pode parecer mentira, mas eu realmente perdi o Ron. – ao fundo a escuridão já havia tomado o espaço e a noite brilhava sem estrelas.
- Parece, ham? – era uma provocação já que a situação estava bastante obvia.
- Vamos lá Hermione, me levar até em casa não pode fazer mal. – implorou com o tom arrastado, as feições contorcidas para ajudar na dramatização.
- Se você está envolvida não creio muito nisso. – disse verdadeiramente, mas permitiu como sabia que aconteceria. A conversa era apenas uma introdução divertida. - Vai, entra ai.
Um sorriso genuíno formou-se novamente no rosto da mais jovem. Ambas entraram no carro sentindo o choque de temperatura atravessar seus corpos.
- Obrigada. – murmurou ao se acomodar. – Perder o Ron valeu muito à pena.
Hermione rodou a chave na ignição dando partida. E em alguns segundos o prédio de Hogwarts sumiu por trás delas. Gina mantinha sua atenção na mais velha, observando cada traço e não fazia questão de ser discreta.
- Sabia que é rude encarar as pessoas assim? – a castanha comentou sem se desconectar da estrada.
- Lhe intimida? – perguntou com um sorriso escondido.
- Não. – respondeu simplesmente. – Mas se for ficar me encarando todo o caminho então é melhor a gente iniciar uma conversa. Para ser menos grosseiro.
- Certo. – o silêncio retornou degradante. Percebiam que além da conexão entre terceiros eram quase desconhecidas. Colegas talvez. O que lhes faltava era a banalidade.
Hermione levou a mão ao rádio ligando-o. Um instrumental invadiu o interior do veículo, a música penetrou os ouvidos da castanha e automaticamente sentiu seu corpo relaxar.
- Mozart? Uau. – ergueu as sobrancelhas, incrédula. – Por essa não esperava.
- Você não viu nada. – disso soltando uma breve risada. – Enquanto a você? Conseguiu reconhecer Wolferl, acredite muita gente não sabe a diferença nem com um vídeo.
- Poucos sabem disso, mas eu também sou fã de música clássica. – confessou. Tinha uma careta no rosto, como se não falasse muito isso em voz alta. – Mas admito que Mozart não é meu favorito.
- Isso que é uma revelação. A imagem de líder de torcida definitivamente não combina muito com qualquer coisa além de pompons.
- Não seja preconceituosa. Nem todas as garotas têm um cérebro tão cheio de merda quanto você pensa.
- Nem todas as garotas têm um cérebro para ele ser preenchido de merda. – disse em tom pungente. Aquele era um conceito universal, lideres de torcida eram tão estereotipadas quanto os atletas e os assim chamados de excluídos, perdedores e sinônimos.
O carro entrou em uma rua conhecida, cercada de prédios luxuosos. Estacionou em frente a um imponente. O hall era iluminado por luzes amareladas vistas do exterior, ajudava a resplandecer o mármore que cobria parte da entrada, até mesmo o portão era esbanjador, folheado a ouro reluzente. Fazia algum tempo que a família Weasley havia deixado de ser associada à pobreza.
Gina destravou o cinto, mas permaneceu sentada. Hermione passou braço pela frente da mais nova, aproximando os rostos. Estavam tão perto que a castanha podia sentir a respiração da outra em sua pele.
A ruiva foi pega de surpresa pelo movimento. Imóvel, um sentimento de vitória veio-lhe a tona. Infelizmente para ela o mesmo foi destruído pelo barulho da porta sendo aberta. A mais velha abriu-a com a mão esticada anteriormente.
- Chegamos. – murmurou Hermione. Logo um sorriso arrogante surgiu. Isso é tão divertido. – Pode ir.
- Você é tão cruel. – sua voz era cômica e seus olhos brilhando reforçavam o que a expressão não mostrava. Saiu da mercedez fechando a porta em seguida.
- Recomponha-se para seu irmão não perceber. – disse um pouco mais alto para Gina, que já estava em frente ao prédio. A ruiva virou-se fazendo uma careta divertida em resposta.
Logo que ela sumiu por dentro do hall, Hermione deu partida para sua própria casa. Tinha que admitir que na pior das hipóteses ela ao menos se divertia com a situação.
Hogwarts. Refeitório. Quarta-feira. 13:15 PM.
Fracos raios de sol que atravessavam a janela de vidro opaco iluminavam os pequenos pós de poeira que preenchiam o ar, mesmo que o único sinal disso fosse alguns espirros aleatórios. Sentados na habitual mesa azul localizada estrategicamente perto da vista da janela, com bandejas preenchidas de comida, o almoço decorria como em qualquer outro fatídico dia.
- Último ano para vocês atletas conseguirem a bolsa de esportes. – disse tentando da um ar tenso a conversa.
- A gente já ta dentro, Louise. Você que devia se preocupar.
- Inferno não. Eu tenho papai e mamãe para pagar. – declarou com um sorriso presunçoso no rosto. Nestes momentos agradeci infinitamente pelo dinheiro por culpa que recebia dos pais ausentes.
- Vê que filha da mãe. – Harry apontou com o queixo para a loira.
- Enquanto uns se esforçam outros só precisam assinar o cheque. – completou o ruivo em um tom não tão amigável.
- Não seja hipócrita Ron. Seu pai iria fazer a mesma coisa. – respondeu sem pestanejar. Na mesa estavam sentados além dos três, Hermione que limitava-se a observar cena. Mesmo sabendo que o horizonte além do prédio era mais interessante que uma nova discussão entre aqueles dois.
- Mas ele não precisa. – seus dentes rangeram em desgosto.
- Só porque você consegue jogar uma bola numa cesta. – insistiu maldosamente.
- Sério? Vão começar? – Harry interveio com a sobrancelha erguida em descrença.
- Ron eu não vou com você hoje. – a voz que se espalhou no ambiente era assim chegada. Logo três cabeças foram erguidas encarando Gina que interrompera a dramática briga.
- De novo? E quem vai te levar? – perguntou mal humorado.
- Hermione. – agora a atenção da castanha foi desviada para a ruiva.
- Eu vou o que? – sua testa enrugada, surpreendida.
- Me da uma carona até em casa. – disse de forma direta e calma. Encarando as íris castanhas da outra, sem hesitar.
- É mesmo? – ergueu a sobrancelha num gesto tão típico dela. E na opinião de todos, deveras charmoso.
- Isso é ótimo, achei que era com algum vagabundo. Se a Mione vai te levar eu posso da umas voltas com... Sozinho. – a áurea cômica já estava de volta a Ron e a briga de segundos atrás havia sido esquecida. Tão rapidamente quanto surgia era assim que terminava as discussões.
- Tanto faz. Apenas não se atrase querida, porque não vou esperar. – e quando o querida estava na frase a sua única alternativa era concordar e manter a boca fechada.
- Sim senhora. – Gina saiu em surdina assim como chegara. Viram ela sentar-se juntos a algumas lideres de torcidas e caras de jaquetas horríveis apenas para enfatizar seu posto de atleta. A algumas mesas de distância um último olhar da ruiva foi dirigido a eles.
Hogwarts. Refeitório. 13:17 PM.
Draco POV’s.
E lá esta ela. Conversando, rindo. Eu até posso me enganar imaginando que é comigo que ela está interagindo. A luz reflete no ruivo de seu cabelo provocando um brilho encantador. E até seu cheiro se torna viciante depois de sentido uma vez. Tantas sensações que não podem ser ignoradas. Tão longe do habitual.
Eu não quero estar ao lado dela enquanto almoça. Quero estar na cama dela quando acorda, numa foto em sua frente enquanto se mata. Ser o essencial e o único. Marcá-la a ferro, a sangue, ou a qualquer coisa que faça perceberem que ela minha. E como odeio aqueles seus amigos que riem, brincam, lhe tocam mesmo que sem malícia. Eles estão longe de serem merecedores de um simples olhar. Tenho dúvidas de que eu seja.
Não posso te comprar, porque não é de dinheiro que você precisa. Uma Weasley, uma maldita Weasley. Odeio seu sobrenome por me lembrar do meu, mas quando estivermos juntos nada disso será válido. Nem palavras serão necessárias. Só o corpo, sempre o corpo. Porque é isso que você quer, eu sei.
E você está saindo, junto com aqueles seus amigos. Automaticamente eu me levanto, seguindo de longe. Você me quer te seguindo, observando e desejando. Eu já percebi. Todo seu jogo e provocação. Você é boa, garota. E sempre consegue o que quer. E eu vou lhe dar exatamente isso, só precisamos do momento certo para que seja perfeito. Tudo no momento certo sempre funciona.
Hogwarts. Lado externo. Bancos e mesas. 13:30 PM.
Gina POV’s.
- Onde você comprou isso? – a voz irritantemente estridente soava incansável. Perfurando seu ouvido e sendo registrada desagradavelmente pelo seu cérebro. Não queria estar ali. Ela não gostava dali.
As palavras começaram a soar tão longe, programadas para serem ignoradas. A densa bruma circulava, até o alcance de sua visão. Era cinzento, sufocante. No entanto tão mais cheio de vida do que todos aqueles ao seu redor.
Havia sacrificado sua sanidade mental quando decidiu ser aquilo que era aclamado. Sentada na bolha superficial, artificial. Esperando que os outros implorassem por ela. E eles o faziam. Às vezes ela queria que não fizessem, permitindo assim que sua imagem caísse por terras. Levando-a para longe, para o total desconhecido. Sem expectativas, sem honrarias. Onde ela poderia respirar sem ter que explicar o porquê de fazer. Foder em meio à rua e simplesmente ser ignorada, sem amigos, pais, qualquer um.
Queria o impossível. Quando tinha tudo almejado na sua idade, ansiava perdê-lo. Em um mundo ideal ela não se chamaria Gina, nem seria uma Weasley. Num mundo ideal ela não teria vontade de explodir e se afogar nas próprias incertezas. Ela seria uma garçonete rica que trabalhava no meio do nada e pegava carona com seu chefe para ir a sua cobertura bagunçada no centro da pequena cidade não registrada nos mapas.
Ela era insana. Mas infelizmente, não louca.