“Acontece que às vezes você tem que fazer a coisa errada. Às vezes você tem que cometer um grande erro para descobrir como fazer a coisa certa.” – Grey’s Anatomy
Capítulo 14
O site da publicação dos resultados também demorou uma eternidade sem fim para carregar. Eu abri o link certo, dos resultados e me preparei. O que quer que viesse, eu aceitaria. Se passasse, seria mais uma etapa vencida. Se não... Bem, eu tinha passado por duas delas.
Abri o comando de localizar e digitei “Lily Evans”.
E, de alguma maneira, eu estava lá. Estava na lista. Tinha passado para a quarta fase. Então corri para saber qual era o tema do próximo conto.
Havia todo um texto introdutório inspirador, e depois era pedido que escrevêssemos sobre uma história de superação, de força de vontade.
Não era um tema difícil, para falar a verdade, mas era muito menos específico do que os últimos três. Tentei pensar em alguma coisa. Histórias de superação sempre me fazem pensar, basicamente, em doenças. Eu lembrei do cara que tinha conhecido no hospital quando fui fazer uma visita voluntária para as crianças, perto de um Natal. E quando estava indo embora, tinha encontrado esse homem. Ele era bem jovem, na verdade. Me contou que era atleta, jogava rugby, estava realmente atrás de uma vaga na liga profissional (e diziam que ele estava em vias de conseguir).
Só que daí, teve umas complicações enormes nos rins (não me lembro exatamente o que foi ou o porquê) e então precisava fazer hemodiálise duas vezes toda a semana, enquanto esperava na fila de transplantes. Mas ele me contou que, fosse como fosse, nunca mais ia poder ser atleta profissional. Só que, em vez de afundar na vida ou entrar em depressão ou qualquer coisa assim, ele aceitou o que tinha acontecido. Entrou na Faculdade de Artes de Londres e foi estudar cinema. E descobriu um verdadeiro interesse naquilo. Eu me lembro exatamente das palavras que ele me falou depois me contar toda sua história: “A cruz que recebemos só tem o peso que podemos carregar”.
A história de Evan McGoren era uma história de superação, era inspiradora. Se tem uma coisa de que eu tenho certeza, é de que não é fácil aceitar aquilo que recebemos quando estraçalha nossos sonhos, diminui nossos horizontes, nos torna dependentes de alguma coisa. Geralmente, é quando estamos doentes que começamos a nos perguntar por que não valorizamos a saúde quando estávamos bem durante tanto tempo. E então começamos a nos perguntar “por que eu?”. Por que motivo isso aconteceria com a gente? O que tínhamos feito de tão errado para merecer uma coisa daquela?
É por isso que aceitar e contornar a situação é tão difícil. E é por isso que quando você ouve histórias como a do Evan, fica inspirado e admirado. E começa a pensar em viver mais, aproveitar mais, agradecer mais por tudo aquilo que você tem.
Era uma bela história a dele, mas eu não tinha coragem de usá-la em um conto. De jeito nenhum. Eu acho que não conseguiria falar sobre uma história verídica de alguma pessoa que estivesse doente de verdade. Não era algo tão simples quanto se inspirar em um garoto que você considerava um completo idiota e que acabou se revelando o garoto mais incrível que você já conheceu na vida.
Então decidi ir atrás de alguma outra coisa. Eu tinha várias semanas pela frente; ia acabar pensando em alguma coisa legal. Ou podia ir atrás de outras histórias, outras fontes de inspiração. Eu tinha tempo.
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- Se eu tivesse uma máquina do tempo, matava Mendel antes que ele pudesse começar a analisar aquelas ervilhas estúpidas – James reclamou. Estávamos fazendo o dever de biologia na hora do almoço. Ele porque tinha decidido simplesmente ignorar o dever, eu porque tinha esquecido. Sim, eu me esqueci de fazer o dever de casa.
- Isso certamente representaria um problema. Genética é importante – eu disse.
- Claro que é. Mas não para mim. Eu nunca pedi para estudar biologia.
- Nem eu. Nem ninguém, melhor dizendo – respondi. Bom, tudo bem que fazer todos aqueles exercícios na hora do almoço não era algo que me deixou pulando de alegria, ainda mais porque eram todas questões dissertativas (qual é o problema das questões de múltipla escolha?). Só que, mesmo assim, ninguém podia realmente reclamar do que Mendel tinha observado.
Nem do que Newton, Bohr ou Shakespeare fizeram. Mesmo que seja chato (não Shakespeare, é claro. Só os caras da ciência).
James não gostava muito de estudar, mas ele era muito inteligente. Ele às vezes ignorava o dever de casa, mas não achava que vagabundear era uma forma de ser bacana. James não gostava muito de literatura (ou de ler), mas ele sempre sabia sobre as coisas que estavam acontecendo mundo afora. James gostava de filmes de ação ou cheios de efeitos especiais destruidores e sem grandes diálogos ou um grande roteiro, mas ele tinha assistido muito mais filmes de língua estrangeira do que eu. Bom, é claro que isso não é grande coisa, já que eu devo ter assistido uns cinco, no máximo. Mas a questão é que ele gostava de alguns deles. E não estou falando de Jackie Chan. Bom, não é exatamente minha culpa que eu não tenha nascido de um pai cinéfilo, o que, conseqüentemente, não tornou minha mãe cinéfila, e eu muito menos. James tinha seu pai, com todos aqueles DVDs para indicar a ele.
Acho que é desnecessário comentar que para que ele assistisse uma comédia romântica de Hollywood produzida em 2007, eu precisava fazer um esforço imensurável. Tanto é que eu ainda não tinha convencido a assistir nenhuma das minhas favoritas. E eu tinha até assistido Matrix com ele! Um deles, pelo menos.
James era, definitivamente, inesperado. E cada coisa que eu descobria a respeito dele me fazia gostar ainda mais daquele garoto.
E fazia com que eu me sentisse ainda mais culpada pelo que eu estive fazendo antes de ficar com ele.
Espanei esse pensamento da minha cabeça e recomecei a falar:
- E se você tivesse feito o dever no fim de semana, não precisava estar fazendo isso agora... – Não vi necessidade alguma em acrescentar que eu, obviamente, também não tinha feito a tarefa no final de semana. – Aliás, o que é que você foi fazer no sábado à noite, James?
- Por que é que você está me perguntando isso com esse tom acusador? – ele quis saber. Parecia divertido, na verdade. Muito.
- Não estou usando tom acusador nenhum. Só estou perguntando. Alguma coisa errada em querer saber o que você fez no fim de semana?
- Não, não tem nada de errado. – Ele parecia estar se divertindo muito mesmo, pelo sorriso que mostrava. – E já que você quer saber, tudo o que eu fiz foi jogar FIFA 2009 no Peter. E, fique orgulhosa, eu sou muito foda.
- Hm, só garotos? – eu perguntei, tentando soar desinteressada. Que pergunta imbecil. O que uma garota ia fazer durante rodadas e mais rodadas de FIFA? Sério.
- É, só garotos – ele concordou, parecendo estar se divertindo mais do que nunca. Whatever. – E você, o que é que fez no final de semana? Não estava em Londres, não é?
- É, isso aí – concordei, desistindo de tentar ler a questão no meu livro e prestar atenção à conversa ao mesmo tempo. – Estive em Brighton o final de semana inteiro. Meus tios deram uma festa de vinte e cinco anos de casamento. Sabe como é, foi um completo tédio.
- Imagino. Embora eu vá ter que dizer que não tem como ter sido pior do que o baile de gala a que eu fui obrigado a comparecer no mês passado. Para levantar fundos para a proteção das aves de rapina. Quase mandei todos eles pra p... Sabe, bem longe. Se querem uma desculpa para fazer uma festa, que arrecadem dinheiro para os miseráveis, ou para uma entidade de algum país de terceiro mundo, sei lá. Não pra pássaros.
James parecia extremamente revoltado com isso. Certo, eu também ficaria. É claro que os animais devem ser protegidos e tudo o mais... Mas a quem você deveria dedicar sua compaixão primeiramente? Às crianças que vão para a cama todas as noites com o estômago roncando de fome ou para os gaviões?
Não é uma resposta tão difícil assim.
- Tem razão. Isso é revoltante – eu concordei. Ia começar a dizer alguma coisa sobre como festas de bodas de... alguma coisa... eram realmente chatas, mas Clarissa passou por nós bem naquele momento e abanou. Eu abanei de volta e ela se afastou.
James parecia confuso.
- Eu não sabia que você era amiga dela – ele comentou. – Achei que todas as garotas da escola odiassem a Vermont.
- Hum, é, é mais ou menos isso – concordei. Porque era verdade e eu não podia negar. – Só que eu estava ajudando ela a estudar, sabe, pelo crédito extra. E daí ela me contou umas histórias e o porquê de ela ser... Assim. E daí eu vi que ela não é assim tão má. Quer dizer, o que ela passou não deve ter sido fácil.
James levantou as sobrancelhas e não falou mais nada. É claro que se fosse uma garota, e não James, ia implorar para ouvir qual era a história. A história que eu não tinha contado para ninguém. Afinal, Clarissa tinha confiado em mim para contar algo que praticamente ninguém sabia.
Essa compreensão meio que me assustou. Por que ela tinha confiado justo em mim? E por que ela estava sendo tão legal comigo?
Talvez, depois que ela me contou sua própria história, eu devesse retribuir a confiança e contar alguma coisa a ela. Para mostrar que se havia alguma chance de nós construirmos algum tipo de amizade, eu gostaria que isso acontecesse. É claro. Deve ser horrível ser tão solitária. Provavelmente isso fazia com que ela ficasse ainda pior com o restante do pessoal da escola.
Eu ainda estava pensando a respeito disso quando Dorcas apareceu em nossa frente. Quer dizer, ela não surgiu do nada. Ela veio andando e se aproximou. Obviamente.
- Estou interrompendo? – ela perguntou.
- Sim.
- Não – eu respondi, lançando um olhar para James. Por que ele iria responder que sim? Que falta de educação.
- Não – James concordou, rindo. – O que foi?
Ela sentou-se no banco ao lado dele.
- Hum, só queria informar. Que eu dei o fora no seu amigo hoje. Na verdade, agora mesmo.
James pareceu surpreso. Eu mesma pareci surpresa, é claro. Jane tinha me contado sobre a história de Dorcas e Remus Lupin, e apesar de eu não ter realmente pensado muito a respeito, não poderia imaginar isso acontecendo. Afinal, ela não tinha, basicamente, se sujeitado a ser a outra? Ela devia gostar muito dele para isso, não?
- Sério? – James perguntou. Dorcas assentiu. Seus olhos ficaram marejados. – Finalmente.
- Está feliz? – ela parecia incrédula. – Pensei que ele fosse seu melhor amigo e que fosse ficar do lado dele.
- Ele é meu amigo, mas você é minha amiga também. E só porque é meu amigo, não quer dizer que eu tenha de concordar com todas as merdas que ele fez. Especialmente com você.
Own, que fofo. Ele estava cuidando da sua amiga, protegendo-a do grande, mau Remus Lupin. Haha. Eu não deveria ficar fazendo piadas com isso.
- Se me permite fazer um comentário – eu comecei. Dorcas olhou para mim. – Acho que deveria contar isso a Jane. Ela vai ficar feliz por você.
- Hum, é. Suponho que ela e Emmeline vão ficar realmente aliviadas – Dorcas concordou. – Depois de elas tanto falarem, foi minha mãe quem eu resolvi ouvir. Na única vez em que comentei isso com ela.
- Bom, eu não conheço a história, mas acho que fez a coisa certa. – Eu tentei ajudar.
- Acho que sim. Eu só fico triste quando penso... Sabe, nas coisas que passamos juntos. Eu gosto de verdade dele. – Dorcas parecia realmente triste. – Mas ele não pode gostar de mim, certo? Porque se gostasse, não precisaria da namorada dele também.
Eu não sabia o que dizer; tentei mostrar um sorriso reconfortante. James estava calado. Imagino que ele saiba de coisas que nós não sabemos, sendo amigo de Remus. Mas ele também já tinha demonstrado que não concordava com o que o amigo dele estava fazendo.
- Então, o que estão fazendo? – a própria Dorcas foi quem mudou de assunto, olhando para nossos livros e cadernos.
- O dever de biologia – respondi.
- As questões de genética? – perguntou ela. Eu assenti. – Minha turma já fez essas. Querem as respostas emprestadas?
James concordou prontamente. Eu relutei por alguns segundos, mas acabei concordando. Então quer dizer que agora eu sou uma copiadora de dever de casa também.
Estou ficando cada vez pior. E nem me sinto mal por isso.
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Na quinta-feira, James foi viajar com o time de futebol da Marion Collins de novo. Eles foram para Blackpool, que é provavelmente a melhor praia desse país, então eu não consegui evitar certa inveja. Mesmo que ainda fosse inverno e a temperatura estivesse variando, basicamente, entre 11 e 15 graus Celsius.
James não ia nem jogar, porque ele ainda estava na sua última semana de repouso forçado, mas eu sei que para perder dois dias de aula (e ir para Blackpool) ele atuaria até como gandula.
Eu só não sei como foi que ele convenceu a escola a levá-lo. Ele era praticamente um peso morto nessa viagem.
De qualquer maneira, Sirius tinha voltado para o time. James me explicou a razão: papai Black, que há muitos anos tinha fugido com a amante para a Oceania, tinha voltado de repente. Disse a Sirius que ele queria pagar pelos estudos dos filhos na faculdade porque sabia que eles (especialmente Sirius, que tinha saído da casa da mãe) não teriam condições sozinhos (especialmente Sirius ,de novo, porque ele queria conseguir uma emancipação). Disse que ele não se arrependia de ter largado a Dona Walburga, mas que sabia que tinha agido errado deixando os filhos perdidos no mundo, sem pai.
Mas até parece que Sirius ia aceitar isso tão facilmente. James disse que isso tudo serviu para que ele visse que ele, na verdade, não tinha muitas perspectivas. Ele não tinha como pagar a faculdade, ele não tinha realmente um lar, ele não tinha plano algum. E o dinheiro que ele tinha guardado em alguma poupança no banco, um dia – não muito distante – iria acabar.
Então, apesar de o Senhor e a Sra. Potter terem dito a Sirius que ele podia ficar com eles por quanto tempo quisesse e que ele não devia nada eles, Sirius tinha feito algumas decisões nas últimas semanas. Ele estava atrás de algum emprego de meio-expediente, e tinha feito um teste para voltar para o time de futebol da Marion Collins, porque sabia que essa era a maior chance que ele tinha de conseguir uma bolsa de estudos na faculdade. E os olheiros da faculdade só tinham como vê-lo se ele estivesse em campo.
James disse que Sirius era bom, era atacante, era o cara dos gols. Ele só não soube me dizer por que exatamente Sirius desistiu do time, antes.
Acho que a razão é que às vezes até mesmo os garotos podem ser meio complicados.
Então, hoje meu almoço era sem James, de novo. E eu já tinha me acostumado com a presença dele. Ou nós sentávamos na mesa dele, onde todo mundo era super legal comigo (como de costume) e eu podia conversar com Jane sobre o mais novo episódio de Supernatural (que ela tinha começado a assistir por minha influência. Ou pela influência do Jensen Ackles, como ela costumava dizer)... Ou nós almoçávamos com os meus amigos, onde James sempre conseguia arranjar papo para conversar com todo mundo. Eu quase me sentia uma excluída entre os meus próprios amigos.
Eu saí da fila da comida depois de servir meu prato e procurei pelos meus amigos com os olhos. O refeitório ainda não estava muito cheio.
Marlene acenou para mim. Ela estava ocupando uma mesa com o garoto do Chile. Parecia que as coisas estavam funcionando ali. Eu ficava feliz por ela.
- Oi – me aproximei. – Fala – disse a ela.
- Hum, eu só estava chamando você para sentar. Ninguém mais chegou – Lene respondeu.
- Ah. – E daí vi Clarissa sentada em uma mesa não muito distante, sozinha. Fazia algum tempo que eu não conversava com ela. – Sabe o quê? Acho que vou sentar um pouco lá com a Clarissa... Tudo bem, certo?
- Sem problemas – disse Marlene. Eu assenti e disse um “até depois” para ela e Miguel, e depois me dirigi até onde Clarissa estava sentada. Ela sorriu e me cumprimentou quando me viu.
- Posso? – perguntei, indicando a mesa.
Ela entendeu e concordou.
- E... A sua amiga? – perguntei. Era mais ou menos a única amiga que ela tinha. Além de mim. Se é que eu poderia ser considerada amiga. Mas, de qualquer maneira, Clarissa entendeu.
- Ela está em Paris até a semana que vem – Clarissa respondeu. Uau, Paris no meio do semestre. Que maravilha. – E, então? Como está passando sem o Potter?
Eu sorri.
- Tudo bem. Eu ainda não virei uma Bella de Crepúsculo, sabe? – tentei fazer piada. Péssima. Lamentável.
- Ah, aquele filme... Não sei o que todo mundo viu naquilo. Achei péssimo – ela comentou.
Eu fiquei surpresa. Praticamente dez de dez garotas que liam ou viam Crepúsculo se apaixonavam pela história... Ou por Edward Cullen, o vampiro príncipe encantado. É claro que depois que você lia as seqüências e conhecia Jacob Black melhor, você conseguia ir esquecendo gradualmente de Edward.
Pelo menos foi isso que aconteceu comigo.
- Desculpe, mas é errado eu ainda achar estranho ver você com James Potter por aí? – Clarissa perguntou, mudando de assunto, parecendo divertida e ao mesmo tempo confusa. – Quer dizer, acho que já comentei que uma das primeiras coisas que eu vi na Marion Collins foi você dizer para ele parar de tentar te chamar sair porque você não curtia acéfalos ou qualquer coisa assim.
Eu ri. Fui obrigada. Essa é Lily Evans. Jogadores de futebol = acéfalos. Era mesmo assim que eu pensava. Pelo menos até o mês passado.
- Eu sei. Eu só mudei de opinião... Quando decidi começar a conhecê-lo melhor, e a passar tempo com ele e tudo o mais.
- Bom, tem aquela coisa de não julgar um livro pela capa... – Ela refletiu. – Mas se você o desprezava tanto assim, por que resolveu começar a andar com ele, para começar?
Clarissa parecia realmente confusa. Eu não sabia o que responder. James nunca tinha realmente me feito essa pergunta, de modo que eu nunca precisei arranjar uma boa história, uma boa desculpa. Era estranho perceber como essa era a primeira vez que alguém me questionava isso diretamente. E eu não tinha nenhuma historinha pronta.
Então lembrei de que estive pensando em contar alguma coisa significativa a Clarissa. Ela tinha confiado em mim para contar uma história sobre sua vida que poucas pessoas conheciam, afinal. Ela tinha confiado em mim. Eu devia confiar de volta, certo?
Sem realmente decidir por isso, comecei a falar:
- Pode guardar um segredo? – foi o que saiu.
- Hum, posso – ela concordou. – Eu guardo um bem grande de todo mundo, como você sabe...
Assenti.
- Certo. Tem razão. Então, vou começar do início. – Fiz uma pausa. – Eu gosto de escrever. Adoro, na verdade. Quero fazer isso na minha vida, quero que essa seja minha profissão. Então, faz alguns meses, apareceu um concurso de escrever contos, em uma das melhores revistas literárias de Londres. E eu comecei a participar. Passei pela primeira fase, pela segunda... E na terceira me apareceu o tema mais ridículo de todos. Sabe aquela história básica de filmes adolescentes, na qual uma nerd se apaixona por um garoto popular, fica com ele e acaba descobrindo que ele não era nada do que ela esperava?
Clarissa assentiu e eu continuei.
- Bem, esse era o tema do terceiro conto. Clichê, certo? Bem, eu escrevi uma história mais clichê ainda, porque não conseguia imaginar em como transformar esse tema em uma história realmente interessante e diferenciada. Só que daí a minha professora orientadora me disse para procurar mais fundo, para conhecer um garoto assim e ser a garota do meu conto, sabe? Tentar conviver com esse garoto, descobrir o quão parecido ou não ele era com a minha imaginação. E o garoto tinha que ser alguém que combinasse com a descrição. Bonito, popular, atleta, descerebrado... Foi aí que eu pensei em James. Eu o escolhi para servir de inspiração para o meu conto.
- Espera. O que você está me dizendo é que está com ele só porque queria experimentar a realidade dos jogadores populares? – Clarissa perguntou. Ela parecia desaprovar completamente.
- Não, não estou com ele por isso. Eu me aproximei dele por isso.
- Tudo bem. Então você quer dizer que você o usou, não é?
Ah, cara. Não acredito. Clarissa também, não. Eu sabia que não devia ter aberto a minha boca.
- Não é assim. Eu me aproximei dele por um motivo errado, tudo bem. Só que daí eu acabei descobrindo que ele não era nada como eu esperava, não era como eu o rotulava. E eu me inspirei nisso. Foi o que aconteceu com a garota da minha história também. O cara era diferente do que ela imaginava, porque ele não fechava com o estereótipo...
- Legal, você mudou de opinião a respeito dele. Mas, Lily, eu sei o que é você gostar de uma pessoa e no final das contas descobrir que tudo que ela fez foi mentir para você. Eu vivi isso. Você está fazendo a mesma coisa com James. Você construiu um relacionamento, ou o que quer que seja, sobre uma mentira. Você está fazendo exatamente como Michael.
Michael era o garoto que a tinha enganado, que tinha basicamente se juntado com umas garotas malvadas para humilhá-la. E as conseqüências foram bastante desesperadoras. Clarissa poderia, no mínimo, ter sofrido danos bem sérios à saúde. Para não falar em coisas piores.
Só que eu não entendia por que estava sendo comparada àquilo.
- A situação não é a mesma. Não é nem um pouco a mesma – discordei com uma voz fria que eu quase não reconheci como minha.
- Tem razão, não é – ela concordou. – Mas isso não muda o fato de você estar mentindo. Sei que não tem nada a ver comigo, mas se você realmente gosta dele agora, deveria deixá-lo saber sobre isso. Porque eu sei como é quando você finalmente consegue alguém de quem você tanto gostava... E no final, era tudo uma mentira. Não é bom, Lily. Obviamente ele não vai ter a mesma atitude idiota que eu tive, até porque não é a mesma coisa e... Bem, dá pra ver que ele nunca ia fazer uma bobagem daquelas, mas acho que ele ficaria bem chateado se acabasse descobrindo isso. Acho que ele pode ficar chateado se você contar, mas vai passar depois. Se você também contar o quanto gosta dele agora.
Suspirei. Ela estava coberta de razão, e eu não podia discutir. Ela estava tentando me ajudar a ficar com o garoto de quem eu gostava e não guardar uma mentira dele ao mesmo tempo.
- Eu... Eu sei. Eu vou contar, eu me sinto mal por ficar mentindo a respeito disso. É só que tudo parece tão bem no momento e eu estou tão feliz, que eu me acovardo. Eu tento não pensar nisso, porque eu não quero estragar tudo.
Clarissa assentiu e abriu um pequeno sorriso.
- É claro, Lily. Eu entendo – disse ela. – Mas você precisa. Precisa ser honesta e sincera. Afinal, todos nós cometemos erros de vez em quando, isso é humano. Reconhecer os erros é a parte mais difícil, e só as pessoas mais corajosas têm condições de admiti-los.
Eu dei de ombros. Eu sabia que precisava conversar com James logo, fosse qual fosse sua reação à verdade que eu ia expor. Ele tinha o direito de saber e decidir o que fazer com isso.
- Vou guardar isso comigo – Clarissa disse, do outro lado da mesa. Minha bandeja ainda estava intocada. – Mas estou acreditando que vai contar a verdade a ele. É a coisa certa a fazer, você sabe disso. E você não quer ser como Michael, certo?
Não, eu não queria.
Eu precisava dar um jeito nisso.
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N/A: Esse capítulo é a legítima prova de filosofia encheção de lingüiça. Sorry :( Mas ele é necessário. Sei que o James foi o maior coadjuvante ever nesse capítulo, mas é que este não é sobre aquele. Captaram? É mais sobre a Lily. Tem três coisas que são importantes aqui: a nova fase do concurso, Dorcas e Clarissa. Na verdade, depois daqui são mais seis capítulos e um epílogo, então as coisas estão começando a se encaminhar para os fatos que precedem os outros fatos que indicam o... Bem, o fim. Sacaram? E, como vocês sabem, não gosto de deixar as coisas sem respostas e nós soltos (embora eu saiba que provavelmente alguns vão ficar porque eu nem vou lembrar).
Acho que era só isso que eu tinha para dizer. Obrigada por passarem aqui, por lerem, por comentaram... Isso significa muito para mim (L) Estou sentimental, ignorem.
xoxo
Fernanda M.