...desastre da moda existe uma romântica incurável
- O que eu procuro é tensão - explicou Lila Brown à pequena turma de estudos avançados de cinema da Beauxbatons. Ela estava de pé diante da turma, apresentando sua idéia para o filme que realizava. - Vou fazer uma tomada dos dois conversando em um banco do parque à noite. Só que não dá pra ouvir o que eles estão dizendo. - Lila fez uma pausa dramática, esperando que uma das colegas dissessem alguma coisa. O sr. Beckhan, o professor, sempre dizia que elas deviam manter as cenas mais vivas com diálogos e ação, e Lila estava fazendo deliberadamente o contrário.
- Então não tem diálogo? - perguntou o sr. Beckham de onde estava, parado no fundo da sala. Ele estava dolorosamente consciente de que ninguém mais na turma ouvia uma só palavra do que Lila dizia.
- Vocês vão ouvir o silêncio dos prédios, do banco e da calçada, e ver as luzes da rua no corpo deles. Depois verão suas mãos se mexerem e os olhos falando. E aí é que vão ouvir os dois falando, mas não muito. É uma cena emocional - explicou Lila.
Ela pegou o controle remoto do projetor de slides e começou a passar as fotos preto-e-branco que tinha tirado para demonstrar a visão que queria para seu curta-metragem. Um banco de madeira no parque. Um pedaço de asfalto. A tampa de um bueiro. Um pombo-correio em uma camisinha usada. Uma bola de cliclete pendurada na beirada de uma lata de lixo.
- Rá! - exclamou alguém do fundo da sala. Era Hermione Granger, rindo alto enquanto lua o bilhete que Rain Hoffstetter tinha acabado de passar para ela.
Pelos bons tempos
Ligar para Gina Weasley
Você entende de... doença venérea??
Lila olhou para Hermione. Cinema era a matéria favorita de Lila, o único motivo para ela ir à escola. Ela levava o curso muito a sério, enquanto a maioria das outras meninas, como Hermione, só considerava o curso de cinema um intervalo para os malditos cursos de conhecimentos avançados - cálculo avançado, biologia avançada, história avançada, literatura inglesa avançada, francês avançado. Iam direto para Yale, Harvard ou Brown, aonde suas famílias iam há gerações. Lila não era igual a elas. Seus pais nem sequer foram à faculdade. Eles eram artistas, e Lila só queria uma coisa da vida: ir para a Universidade de Nova York e se formar em cinema.
Na verdade, ela queria outra coisa. Ou outro alguém, para ser mais preciso, mas vamos falar nisso daqui a pouquinho.
Lila era uma anomalia na Beauxbatons, a única menina da escola que tinha cabeça quase raspada, usava suéter preto de gola alta todo dia, lia Guerra e paz de Tolstoi repetidamente como se fosse Bíblia, ouvia Belle e Sebastian e bebia chá preto sem açúcar. Não tinha amigas no Beauxbatons e morava em Williamsburg, no Brooklyn, com a irmã de 22 anos, Ruby. Mas então o que ela estava fazendo na minúscula e exclusiva escola particular para meninas no Upper West Side com princesas como Hermione Granger? Era uma pergunta que Lila se fazia todo dia.
Os pais de Lila eram artistas revolucionários da antiga que moravam em uma casa feita de pneus de carro reciclados em Vermont. Quando ela fez 15 anos, eles permitiram que a ternamente infeliz Lila se mudasse para a casa da irmã mais velha, baixista, no Brooklyn. Mas eles queriam se certificar de que ela tivesse uma boa e segura educação no secundário, então a matricularam na Beauxbatons.
Lila odiava a escola, mas nunca disse nada aos pais. Só faltavam oito meses para se formar. Mais oito meses e ela finalmente escaparia para o centro da cidade, para Universidade de Nova York.
Mais oito meses da piranhazinha da Hermione Granger e, pior ainda, de Gina Weasley, que estava de volta em todo seu esplendor. Hermione Granger parecia absolutamente orgásmica com a volta da melhor amiga. Na verdade, toda a fila de trás da sala de cinema escrevinhava, passando bilhetes enfiados nas mangas de seus irritantes suéteres de cashmere.
Bem, que se fodam. Lila ergueu o queixo e prosseguiu na apresentação. Ela era superior àquela bobajada. Só mais oito meses.
Se Lila tivesse visto o bilhete que Parvati Patil acabara de passar a Hermione, talvez ela se solidarizasse um pouquinho com Gina.
Querida Hermione,
Me empresta 50 mil dólares? Sniff, sniff, sniff. Se eu não pagar o que devo a meu traficante de coca, vou me dar mal.
Que merda, minha virinha está coçando.
Me dê uma resposta sobre o dinheiro.
Um beijo,
Gina Weasley
Hermione, Rain e Parvati riram ruidosamente.
- Shhhhh - sussurrou o sr. Beckhan, olhando para Lila com simpatia.
Hermione virou o papel e rabiscou uma resposta.
Claro, Gina. O que você quiser. Me liga da cadeia. Eu soube que a comida lá é muito boa. Harry e eu vamos visitar você quando tivermos tempo, o que pode ser... sei lá... NUNCA?!
Espero que a doença venérea melhore logo.
Beijos,
Hermione
Hermione passou o bilhete a Parvati, sentindo só a mais leve pontada de remorso por ser tão cruel. Havia tantas histórias sobre Gina que ela sinceramente não sabia em quem acreditar mais.
Além disso, Gina ainda não tinha contado a ninguém o que estava fazendo de novo ali, então por que Hermione devia dizer alguma coisa para defendê-la? Talvez parte daquela história toda fosse verdade. Talvez algumas dessas coisas realmente tenham acontecido.
E, além de tudo, passar bilhetes é muito mais divertido do que pegá-los.
- Então eu vou escrever, dirigir e filmar isto. Eu já coloquei meu amigo, Dan Lovegood, da Durmstrang Isnt, como o princípe Andrei - explicou Lila. As bochechas arderam quando ela falou no nome do Dan. - Mas ainda preciso de uma Natasha para cena. Vou fazer a seleção amanhã depois da aula, no Madison Square Park, ao anoitecer. Alguém está interessado?
A pergunta era uma piadinha particular. Lila sabia que ninguém na sala sequer a estava ouvindo; estavam ocupadas passando bilhetes.
O braço de Hermione se ergueu.
- Eu vou dirigir! - anunciou ela. Obviamente não tinha ouvido a pergunta, mas Hermione estava tão desesperada para impressionar os funcionários de admissão de Yale, que sempre era a primeira voluntária para tudo.
Lila abriu a boca para falar. Dirija isto, ela queria dizer, mostrando o dedo médio a Hermione.
- Abaixe a mão, Hermione - suspirou o sr. Beckhan, cansado. - Lila acabou de nos dizer que ela é a diretora, roteirista e cinegrafista. A não ser que você queria fazer o papel de Natasha, sugiro que se concentre em seu próprio projeto.
Hermione olhou para ele de mau humor. Ela odiava professores como o sr. Beckham. Ele era agressivo porque era de Nebraska e finalmente tinha conseguido realizar seu triste sonho de morar em NY só para se ver ensinando em um curso inútil em vez de dirigir filmes de vanguarda e ficar famoso.
- Não faz mal - disse Hermione, enfiando o cabelo escuro por trás das orelhas. - Acho que não tenho tempo mesmo.
E não tinha.
Hermione era presidente do conselho de Serviço Social e dirigia o clube de Francês; era orientadora da 1º série em leitura; trabalhava numa sopa dos pobres uma vez por semana; tinha aulas de preparação para os exames de aptidão escolar nas terças-feiras e, nas quintas à tardinha, fazia um curso de design de moda com Oscar de la Renta. Nos fins de semana, jogava tênis para manter a pontuação no ranking nacional.
Além disso tudo, estava no comitê de planejamento de cada função social que qualquer um se preocupasse em inventar, e o calendário de outono-inverno estava ocupado, ocupado, ocupado. Seu PalmPilot vivia com memória insuficiente.
Lila acendeu as luzes e voltou para a carteira na frente da sala.
- Tudo bem, Hermione, eu queria uma loura para o papel de Natasha. - Lila alisou o uniforme em volta das coxas e se sentou delicadamente, numa imitação quase perfeita de Hermione.
Hermione deu um sorrisinho afetado para a cabeça espinhosa e careca de Lila e olhou para o sr. Beckham, que limpou a garganta e se levantou. Ele estava com fome, e a sineta ia tocar em 5 minutos.
- Bem é isso, meninas. Podem sair um pouco mais cedo hoje. Lila, por que não coloca um cartaz no corredor para a seleção de amanhã?
As meninas começaram a guardar suas coisas e a sair da sala. Lila rasgou uma folha em branco do bloco e escreveu detalhes necessários no alto da página. Guerra e Paz. Curta-metragem. Seleção para Natasha. Quinta-feira, ao pôr-do-sol. Madison Square Park. Banco do parque, esquina noroeste. Ela resistiu a escrever a descrição exata da garota que estava procurando, porque não queria espantar ninguém. Mas tinha um quadro claro em sua mente, e não ia ser fácil encontrar a menina certa.
A Natasha perfeita seria clara e loura, de um louro escuro natural. Não teria uma beleza óbvia demais, mas o tipo de rosto que atrai os olhares. Seria o tipo de garota para fazer Dan inflamar - cheia de movimentos e risos -, exatamente o oposto da energia silenciosa de Dan, que ardia por dentro dele e fazia suas mãos tremerem às vezes.
Lila abraçou a si mesma. Só de pensar em Dan ela sentia vontade de urinar. Sob a cabeça careca e a inacreditável gola rulê, ela era só uma garota.
Encare a realidade: nós somos todas iguais.