Capitulo 116 – ENGRAÇADINHO
As escadas nunca lhe pareceram mais escorregadias ou estreitas do que naquela manhã. Cambaleando, Rony se apoiou no corrimão, trocando os pés de um lado para o outro, como se estivesse dançando uma música lenta.
Ergueu o pé, mas o degrau fugiu. Onde estaria o degrau? Olhando em volta, ele não viu para onde o degrau havia corrido! Quando olhou para o pé novamente, enxergou o degrau.
Ah, ali estava ele! Rindo sozinho, colocou os dois pés nesse degrau e deu um pulinho sobre ele, se glorificando por ter recuperado o degrau fujão!
Ah, mas a luta não havia acabado! O próximo degrau também tentou fugir. E o próximo também!
Confiante que terminaria a árdua tarefa de descer as escadas resvalou faltando quatro degraus, e se agarrou ao corrimão.
Não! O corrimão havia fugido também!
Precariamente apoiado no chão de tapete macio, ele encarou o corrimão, que havia reaparecido por magia.
Olhou para ele, e como quem confidenciasse um segredo, começou a tecer um sermão sobre não desaparecer bem na hora que o seu senhor precisasse dele.
Compenetrado, teceu um longo sermão, com a voz enrolada, e foi desse modo que Hermione o encontrou.
Descalço, com a calça do pijama colada ao corpo, a camisa pendendo sobre o corpo, completamente desalinhada e amassada. Seus cabelos ruivos espetados e amarrotados para todos os lados.
Hermione deixou-o dialogar com o corrimão, achando graça.
Ela havia descido mais cedo, quando o relógio a reconfortara afirmando passar das duas da tarde. Salvo do duelo, deixou-o dormir em paz, enquanto se banhava, vestia e descia para almoçar, pois seu bebê não podia padecer por causa dos pais inconseqüentes que tinham.
Quase gargalhou quando ele tentou montar o corrimão, dizendo que iria domá-lo, para não voltar a fugir de seu senhor.
-Rony! – ela o puxou de volta pela camisa, rindo – Deixe o corrimão em paz, ele não pode entendê-lo!
-Hã? – ele virou-se, procurando em volta de si mesmo, como se procurasse alguma coisa girando em torno de si. – Quem?
-Rony, sou eu – ela segurou-o para que parasse.
-Hermone? – ele errou seu nome, maneou a cabeça várias vezes repetindo – Henone? – pareceu pensar consigo mesmo – Não... Não é Henone...?
-Hermione – ela segurou seu rosto, olhando em seus olhos sem foco.
-Her-mione? – enrolou a língua, e ela sentiu o coração apertar.
Tadinho; estava completamente fora do eixo.
-Venha sentar comigo no sofá, amor – ela o puxou gentilmente em direção ao sofá da sala de estar, ricamente adornado em sua madeira lustrosa com detalhes em dourado e estofado gracioso.
Rony despencou sobre o sofá, jogando-se contra ela, meio deitado, meio sentado, as costas apoiadas em seu peito, e Hermione ajudou-o a deitar em suas pernas com a cabeça sobre suas coxas.
-Está com muito sono, querido?
-Hum... Não – seu bocejo desmentiu-o vergonhosamente – Hum... – ele acomodou-se e fechou os olhos.
-O dedo está doendo muito? – perguntou arrependida.
-O dedo? – olhou para a mão enfaixada e sentou-se correndo, apavorado – onde estão os meus dedos? Eles fugiram!
-Aqui, eles estão aqui – disse pacientemente, segurando carinhosamente sua mão e mostrando as pontas dos dedos que se sobressaiam à atadura – viu, eles não fugiram.
-Ainda bem – ele disse aliviado, deitando-se novamente – ainda bem.
-Sim, ainda bem – ela se curvou e beijou sua testa, enquanto ele fechava os olhos. Acariciou seus cabelos ruivos, com toda a gentileza de uma mulher apaixonada. – gosto muito dos seus dedos, Rony. Eles não podem fugir.
Ele riu e ela o acompanhou, adorando o modo como o efeito do tônico para o sono o abalava.
-Também gosto dos seus dedos – ele olhava para cima, com seus olhos adoravelmente abobalhados, azuis e límpidos – E da sua boca...
-Gosta da minha boca? – instigou, sorrindo.
-Seu pescoço... Sua barriga... Tão lisinha... Como uma boneca de porcelana, sua pele tão macia... Sua barriga não vai fugir, não é? - ele tentou sentar-se novamente, assustado e Hermione o puxou de volta.
-Não, olhe! Minha barriga está aqui, no lugar de sempre. Crescendo com o nosso bebezinho – ele tocou sua barriga, os dedos espalmados, enquanto seus olhos se arregalaram tão bonitos e vivos, mesmo perdidos na confusão causada pela química, que Hermione se curvou e o beijou.
Terminou o beijo, molhando seu lábio inferior com a língua, num carinho malicioso, pena que ele não tinha a menor consciência do que fazia!
-Você me beijou... – ele disse surpreso.
-Beijei – concordou.
-Me beijou espontaneamente...
Sua incredulidade a fez pensar se suas recusas haviam causado nele dúvidas sobre seus sentimentos. Rony sempre parecia tão convicto do quanto ela o desejava e queria; que era surpreendente pensar que tinha dúvidas sobre ela.
-Beijei sim – concordou de novo, dando-lhe corda para ver o que ele revelaria.
-Me beijou... Porque gosta de mim... – ele abriu aquele seu sorriso fácil e encantador, tão inocente, em sua essência mais terna, em volto pelas sombras da semi-consciência.
-Gosto de você, gosto muito de você – ela confessou.
-Gostar não é amar – ele disse ficando sério.
-E por acaso posso amar alguém que eu não goste? – provocou, sorrindo quando ele gargalhou.
-Esperta demais para uma mulher... Meu pai dizia, quando eu era pequeno, para ter medo das mulheres inteligentes demais... – disse pensativo.
-Por quê?
-Porque elas percebem o quanto sou burro.
Hermione gargalhou, livre de medos, pois ele estava num mundo a parte.
-E porque seu pai casou com Molly? Porque ela não era inteligente? – seguiu acariciando seus cabelos, uma das mãos pousada sobre seu peito, sentindo o coração acelerado sob a palma.
-Nããããoooooooooooooo. Mamãe é inteligente. Mas vale a pena, porque é boa de cama. Ou deve ser, ou meu pai teria uma amante. Ou várias... Sei lá... Do que estamos falando mesmo?
Ele sacudiu a cabeça tentando lembrar.
-Você estava me contando como gosta de fazer amor comigo – ela mentiu, arrancando um suspiro de seu apaixonante Rony abobalhado.
-Sim, e como gosto. Nossa...
-É melhor que as duas gêmeas juntas? – cutucou, mordendo o lábio, seu senso de decência dizendo-lhe para que não tirasse proveito dele naquele estado.
Rony assobiou baixinho, num gesto tão malditamente machista e masculino, que precisou se controlar para não reclamar, e lembrar-se que estava em outro planeta naquele exato momento.
-Melhor que a viúva e a madame Roxanne juntas? – perguntou amarga.
-Melhor assim – ele agarrou os braços, abraçando-os bem largos, como faria uma criança para mostrar o ‘tantão’ a mais que apreciava sua companhia.
-E as outras mulheres? Houve outras não foi?
-Quem? – ele pareceu aturdido – Hum... Mulheres... Gosto muito de mulheres... – sua mão agarrou seu seio, e Hermione desistiu de um dialogo produtivo.
-Quieto. – recompôs sua mão no lugar e ergueu as vistas para Anna que esperava acanhada na porta da sala, vinda cozinha.
-Devo servir o almoço para o Sr.Wesley?
Hermione olhou para ele pesarosa. Queria ficar mais um pouquinho com esse Rony bobinho.
-Não, prepare um pouco de café bem forte e reforçado. Preciso despertá-lo totalmente, para conversarmos. – suspirou enquanto Rony brincava com uma das fitas do seu vestido.
-Adolph disse que ficará na cidade até a senhora mandar chamá-lo. Acho que está receoso de ser acusado.
-É melhor assim. – ela concordou. – Rony, vamos levantar, preciso te levar para a cozinha. Anna! Corre com esse café!
Tentava empurrar a muralha ruiva para levantar do sofá. Rindo, conseguiu convencê-lo a levantar.
-Henone, onde está você? – ele perguntou, errando novamente seu nome, quando não a viu a sua frente – Você fugiu?
-Aqui Rony, estou aqui. Do seu lado – segurou sua mão sã e o puxou gentilmente para a cozinha – Vamos tomar um café quentinho? Você quer? Está com fome?
Rony se deixou guiar com tanta entrega, que ela sentiu o coração apertar de culpa.
Se ele a perdoasse por tudo, passaria a ser a mulher mais calma, serena, dócil, obediente e doce de todo o mundo.
Pobre bebezão, com uma mulher tão má e voluntariosa. Não era a primeira vez que faria essa promessa, mas esperava ser a última. Com a ajuda de Anna, colocou-o sentado na cadeira e serviu o café bem amargo e quente.
Ele reclamou muito, fazendo uma grande bagunça ao seu redor.
-Acho melhor colocá-lo para dormir mais um pouco – Hermione disse por fim, parte sua aliviada de não precisar enfrentá-lo logo.
Antes que pudesse ajudá-lo a levantar, Rony tombou para frente, adormecendo sobre a mesa, com o rosto em cima do braço.
Hermione gemeu baixinho, culpando a si mesma por todas as suas desgraças.
Tinha uma vontade incontrolável de correr para a casa do conde, se trancar em seu quarto e pedir que a protegesse. Pois quando Rony acordasse, tiraria seu couro. Não, no exato sentido da palavra, mas acabaria com seu orgulho e prepotência.
E merecidamente.
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Rony acordou daquele torpor com o balanço desajeitado embaixo dele. Abriu os olhos e olhou em volta, dando de cara com uma muralha de pele e pêlos. Estava no colo de alguém.
Um homem o carregava como se fosse uma donzelinha.
Estava em seu quarto, sendo carregado para a cama. Em alerta, debateu-se obrigando o homem a soltá-lo. Com um movimento ágil, afetado pelo estranho torpor a qual era vítima, conseguiu pegar o homem de surpresa, e apesar de não o derrubar, o fez se abaixar para escapar de cair.
Com rapidez, apanhou a arma que ficava na gaveta do criado mudo.
Só então, olhou para quem o carregava.
Era o mesmo homem gigante que o seqüestrara! Mas como?
Teria sonhado a sua fuga? O dedo dolorido em sua mão era a prova que não. Tinha a lembrança vivida de ter voltado para casa e encontrado Hermione.
Hermione!
Aquele desgraçado o seguira até em casa!
-Onde está minha mulher? – ele gritou apontando a arma para Adolph.
Com um dos joelhos no chão, o homem olhou para ele, sem responder nada, apenas depois de ponderar, respondeu:
-Calma, senhor. A Sra.Wesley estará aqui em um minuto.
-MENTIRA! O QUE FEZ COM MINHA MULHER?
Como não obteve respostas, pois Adolph não desejava enfurecê-lo ainda mais, apontou a arma para a cabeça do homem:
-Levante-se! – ordenou.
Quase se arrependeu, porém não atiraria em um homem rebaixado ao chão. De pé, chegava facilmente aos dois metros e vinte. Talvez houvesse um certo exagero, mas era bem mais alto que ele que tinha um metro e noventa e dois.
Ombros largos, como uma parede de concreto, usava uma camisa cara, de linho de boa qualidade, a calça justa mostrava músculos nas coxas do tamanho de toras de madeira. Seus pés eram tão grandes quanto suas mãos. O rosto era expressivo, com a cor se sobressaindo contra os olhos verdes.
Aturdido, quase puxou o gatilho quando a porta do quarto, que estava apenas encostada abriu-se. Hermione parou surpresa e assustada.
-Hermione, você está bem? – ele perguntou, no momento não assimilando que ela estava livre e faceira até um segundo atrás.
-Rony, abaixe a arma – ela disse suave, olhando de um homem para o outro.
Era claro como o dia que Adolph não estava nada feliz em ter uma arma apontada para seu rosto.
-Esse homem me seqüestrou! – ele contou – Está dentro da nossa casa! Quero que saia agora daqui Hermione, e chame as autoridades. Dou conta dele. Agora vá e se proteja!
Nervoso, sentiu-se confuso e a mente um pouco embaralhada.
Hermione baixou o rosto, a beira das lágrimas.
-Rony, não faça siso. Adolph não me fará mal. Ou a você.
-Sabe o nome desse homem? – fitou-a sem entender.
-Rony... – as palavras lhe faltaram.
-Saia logo daqui, Hermione! - ele exigiu.
-Adolph, desça e vá cuidar dos seus afazeres. Anna precisa de ajuda nas compras agora que Duran está estudando – ela disse com naturalidade, andando até o homem e tocando gentilmente sobre seu braço, para acalmá-lo, pois era um homem de sangue quente e muito grande para ser irritado.
-Como à senhora desejar – ele fez uma educada mesura, sem nunca afastar os olhos de Rony, e se virou para deixar o quarto.
Em outra ocasião não teria dado sequer um passo antes que Rony o impedisse. Mas a postura de Hermione o confundiu.
-O que está acontecendo aqui, Hermione?
-Guarde essa arma – ela disse séria – Achei que tivéssemos passado dessa face se apontar armas um para o outro. – andou nervosamente até perto dele.
Rony guardou a arma na gaveta e virou-se para olhar em seus olhos.
-Achei que ele houvesse te machucado – disse pesaroso, e ainda nervoso.
-Adolph? Não! Ele é grande e assustador, mas só por fora – sua voz estava muito baixa, era verdade, mas isso era culpa do enorme nó de choro que havia se formado em sua garganta.
-Conhece esse homem? – sua postura enrijeceu; intrigado e arrepiado com a suspeita sobe sua lealdade para com ele.
-Sim, é nosso cavalariço. Devolvi Olfrey para meu pai. Ele era muito ranzinza. – seu ar de naturalidade foi traído pelo nervoso de suas mãos, e pelo ato de morder o lábio.
-Este homem me seqüestrou! – disse indignado.
-Não, ele não fez isso. – ela ergueu os olhos para olhar nos dele, já que confessaria seu pior pecado, desde que nascera. – Eu o seqüestrei.
AUTORA: que bonitinho! Eu queria um Rony bobinho para mim!