Harry deu de ombros, um pequeno movimento dos ombros largos. Sentindo-se mal, a cena saiu de foco e ela visualizava outra: Harry, jovem, a água escorrendo naqueles ombros bronzeados quando saía do mar para o deque do iate, o corpo nu e despudoradamente pronto para ela. E o dela estava igualmente pronto para ele.
E ela estava sempre pronta para ele! Pronta, faminta, esperando. Faminta pela intimidade que o trouxesse para perto e ali o mantivesse. Não tinha inibições e suspeitava que ele não permitiria ter nenhuma. Com a privacidade garantida, não ficou inibida em vestir uma das camisas dele, sem nada por baixo, disponível para o toque dele. Como amante, ele lhe abrira os olhos para um mundo novo de prazer e tinha deixado marcas em seu corpo de uma maneira que jamais conseguiria esquecer. Desfrutaram inúmeras horas de intimidade: ele a mantinha na cama, acariciando e beijando cada pedacinho dela: a curva do pescoço, a carne macia da parte interna do braço, os dedos. Se ela fechasse os olhos, sabia ser capaz de sentir a língua molhada desenhando devagar figuras em toda a extensão de seu corpo.
Excitada ao máximo, invariavelmente esquecia a ordem de permanecer parada e o buscava, curvando as costas, abrindo as pernas, gemendo de prazer quando ele cuidadosamente afastava os lábios de seu sexo e passava a ponta da língua neles. O orgasmo começava antes de ser penetrada, e quando ele estava dentro dela, uma parte ansiava por sentí-lo sem a barreira da camisinha, que ele sempre insistira em usar.
De repente Gina percebeu o perigo que corria. Não! A negação silenciosa e torturada reverberou no cérebro dela. O que estava acontecendo? Como ele podia fazê-la lembrar-se de tudo hoje?
— Não é óbvio? — ouviu Harry dizer, frio. — Dumbledore conhecia sua situação financeira. Pediu que eu fizesse tudo a meu alcance para proteger os filhos e o futuro deles. Obviamente, tornando-me o tutor, acreditava que eu me sentiria obrigado moralmente a mantê-los financeiramente.
— Não, ele não faria isso — protestou. Mas mesmo ao dizer as palavras sabia estar enganada. Era exatamente o tipo de coisa que Dumbledore teria feito, pelo melhor dos motivos. Trazia o senso de família enraizado. Tinha orgulho de os gêmeos carregarem seu nome. Havia se preocupado com ela e a protegido da dor de amar Harry e ser por ele rejeitada, mas os meninos tinham o sangue dos Potter nas veias e, no final, isso importava mais do que ela.
Gina tentava permanecer forte, concentrar-se no que Harry dizia, em vez de mergulhar no passado, mas as memórias a dominavam perigosamente e a faziam se sentir assustadoramente fraca. Como era possível que ficar ao lado dele despertasse tantos pensamentos eróticos que ela acreditava terem sido deixados para trás?
— Para cuidar deles financeiramente — repetiu Harry, acrescentando lentamente como se lhe enfiasse uma faca através das costelas até alcançar-lhe o coração. — E para protegê-los da mãe.
O cérebro demorou muitos minutos para absorver o que ouvira e muitos outros mais para reagir diante da injustiça das palavras.
— Eles não precisam se proteger de mim nem precisam de você.
— Dumbledore, obviamente, não concordava com você, nem a lei. Sou o tutor. Eles são meus pupilos. Esse foi o último desejo do pai.
— Mas sou a mãe deles.
— O tipo de mãe que podem supor que seria melhor não ter.
— Você não tem o direito de dizer isso. Não sabe nada de meu relacionamento com meus filhos.
— Conheço você. Você se entregou a Dumbledore porque ele estava preparado para lhe dar o que eu não lhe daria. Agora ele está morto e em breve você estará procurando outro homem para substituí-lo. Sem dúvida, Dumbledore temia que se você voltasse a se casar, seu novo marido pudesse não se interessar pelos filhos dele, e queria protegê-los.
— Eu nunca me casaria com um homem se achasse que não iria amá-los como se fossem seus.
— Não mesmo?
Gina suspeitou saber o que ele pensava.
— Você ainda não perdoou sua mãe, não é? Bem, não sou igual a ela, Harry. Amo meus filhos...
— Chega! Isso não tem nada a ver com minha mãe.
Gina não ia discutir com ele. Qual o sentido daquilo? Seria como tentar quebrar granito com as mãos. Mas sabia ter razão. Harry julgava as mulheres pelo fracasso da mãe, e condenava todas. Queria acreditar que todas as mulheres eram capazes de abandonar os filhos por dinheiro, porque precisava acreditar nisso; pois pensar direito significava aceitar que a própria mãe o abandonara devido à sua incapacidade de merecer o amor maternal. Ele falava sobre suas convicções como se fossem verdades escritas em pedra, e Gina sabia que em sua cabeça, em seu coração, elas eram. A seus olhos, ela já estava condenada, e permaneceria condenada. O que ele acreditava não podia ser alterado, porque ele assim o desejava.
Tinha aprendido em sua muitas vezes difícil e dolorosa jornada de amadurecimento e aceitação do próprio passado... E, acima de tudo, aprendera que era impossível trilhar para outro a jornada de auto-conhecimento e cicatrizar as feridas em seu lugar.
Harry havia decidido sacrificar a habilidade de amar e ser amado usando como proteção um orgulho amargo que não permitia que ele percebesse o desejo sexual feminino motivado por nada além da mais sórdida forma de interesse.
Dumbledore podia ter acreditado estar agindo corretamente, mas Gina desejava que ele não tivesse trazido Harry de volta à sua vida — e, mais importante, à vida dos filhos. Eles eram tudo para ela. Não havia nada que não fizesse para protegê-los, nenhum sacrifício.
— Você não precisava concordar com o pedido de Dumbledore — forçou-se a dizer. — Por que o fez? Meus filhos não significam nada para você.
(...)
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