A Floresta das Sombras
(Segunda parte)
A Verdade e a Lenda
Os bardos contam o que sabem por ouvir dizer. Raramente se encontrará algum deles que tenha sido, de verdade, testemunha do que ocorreu. Até onde se sabe, sua visão é limitada e fantasiosa e nenhum deles tem qualquer pudor em suprir as lacunas com suas próprias invenções e quimeras. Não há história na visão dos bardos, embora, reconheço, haja belezas sem fim e maravilhas.
Os cronistas sim. Estes são estudiosos. Como os bardos, eles, muito raras vezes, são testemunhas dos fatos que narram. Mas, ao invés de se renderem aos seus devaneios e invencionices, saem a campo, perseguem a verdade, perguntam, documentam, entrevistam. São tão dedicados em sua busca, tão completamente imersos em sua vontade de saber, que é tão fácil mentir para eles. Os pobres cronistas acreditam em tudo o que ouvem. Acreditam, por vezes, até mesmo nos bardos e nos populares que mal sabem a diferença entre o imaginado e o verdadeiro.
Então, temos os velhos. Os que viveram. Os que contam buscando os fatos na memória, no passado, nas lembranças que escorrem como a água de uma moringa rachada. Esses testemunharam. Eles realmente estiveram lá. Mas o que é a sua lembrança? Um conjunto de imagens manchadas pelas cores alegres da juventude, da vitalidade, da saudade de tempos e pessoas que já não mais existem. Serão as memórias dos velhos mais verdadeiras que as invenções dos bardos ou a credulidade dos cronistas? Eu não saberia dizer.
Aqui estou em minha poltrona quente, em frente à lareira, com os pés já enrolados em peles de carneiro. Minha filha vem e me pergunta de que mais preciso e eu apenas agradeço e peço um pouco mais de vinho. Quando a olho e vejo que nem mesmo ela é mais tão jovem, percebo o quanto do tempo que me resta é curto. Então, tenho todas estas lembranças coloridas e é tão bom tê-las, sua presença me aquece tanto quanto o fogo ao qual minha filha não deixa faltar achas de lenha.
Ela sai e eu volto às minhas antigas aventuras. Não quis escrevê-las quando meu melhor amigo, companheiro e líder se foi. Eu ainda era vigoroso, sendo um bruxo, e, naquela época, lembrar era muito vivo, não tinha as cores claras que hoje vejo. Porém, agora, tudo o que me lembro parece estar escorrendo para fora de mim, tudo indo, sem nada ficar. Se perdendo como a neve que derrete nas janelas. Logo será primavera e eu, talvez, eu não veja outro verão.
Por isso, resolvi verter minhas memórias nos longos pergaminhos que minha filha pacientemente faz. E digo, desde já, não estou a escrever para desdizer os bardos ou corrigir os cronistas. Escrevo apenas para, por uma última vez, poder lembrar.
Todas as histórias sobre Robin dizem a mesma coisa. O jovem Robert de Lockesley, já órfão de um pai traído pela política dos normandos, acusado de assassinato, seguiu para as Cruzadas. E então, ele retornou. Ah, eu sei bem mais sobre isso. Existem muitas léguas, aventuras e desafios nesta frase curta: ele retornou. Eu sei. Como eu sei...