Não me toque
Ela poderia simplesmente parar de me tocar...?
Dias estranhos acontecem sempre. Você pode planejá-los, estar totalmente preparada para eles. Eles continuam estranhos. Existem milhares de motivos para não se levantar de uma cama no domingo. Pode estar frio, você pode estar com preguiça, você pode ter absoluta certeza de que o dia vai ser uma merda, ou você pode ter admitido para a namorada do seu irmão – sua melhor amiga – que sente atração por ela. Mas se for Gina Weasley pode ser isso tudo. Eu sei, minha vida é maravilhosa. Quer trocar?
Os raios de sol entravam quase imperceptíveis pela janela. Olhei o relógio no criado-mudo. 7:30hs. Alguém empurrou a porta suavemente. Rapidamente fingi estar dormindo.
– Ginevra...? – murmurou minha mãe. Eu não respondi. – Estamos indo ao beco diagonal. Eu e os meninos. Quer ir?
– Não. – Eu não tinha vontade nem de respirar naquele dia. Ela repetiu o mesmo pedido para Hermione. Ótimo. Eu precisava de um dia sozinha.
– Ah, Srª Weasley...Está tão frio. Não vou não. – ouvi Hermione murmurar sonolenta ao meu lado.
– Ok. – disse mamãe – Comportem-se. E Gina, por favor, verifique se Jorge come algo.
– Ok, mãe. – me virei para a parede.
– Tchau, Srª Weasley... – murmurou Hermione.
– Molly, querida. – corrigiu minha mãe.
Silêncio. Eu estava quase pegando no sono novamente. Hermione se virou e me abraçou pelas costas encaixando seu corpo no meu. Mesmo meu cérebro praticamente inconsciente meu corpo queimou imediatamente. Aquilo tinha que acabar.
Your hand is like a torch each time you touch me
Sua mão é como uma tocha, toda vez que você me toca
– Herms... – murmurei.
– Fala...
– Me solta. – ordenei sonolenta. Mal conseguia abrir os olhos. Ela ficou em silêncio.
– Por que? – ela perguntou finalmente.
– Não faça perguntas que não condizem com a sua inteligência. – eu respondi.
– Mas...eu gosto de ficar assim com você. – ela murmurou. Eu coloquei as mãos nos olhos fechados. Por que estava tão difícil conversar com Hermione ultimamente?
– Eu também. – respondi. – Esse é o problema.
– Ginny é para sermos sinceras? – ela perguntou.
– De preferência. E se você me soltar talvez eu possa ser mais coerente e portanto mais sincera. – eu falei.
– Eu sou viciada em você. – ela disse. Por que ela tinha que dizer essas coisas?
– É? Que pena que diferente de uma dose de cocaína, eu tenho sentimentos. – eu respondi.
– É tão difícil assim? – ela perguntou. Eu ri infeliz.
– Hermione eu te amo. – eu disse.
– Eu sei. Eu também te amo. – ela respondeu me apertando.
– Você não está entendendo... – eu disse – Eu acho que te amo de verdade. Eu não consigo encontrar outra explicação.
– Você só está atraída por mim. – ela disse.
– Herms, o que acontece, se você ama demais uma pessoa, durante sete anos, como amiga. E de repente você quer beijá-la, tocá-la... – era tão difícil de entender? – O que acha que acontece com aquele amor todo? Hermione, pode me soltar?
Ela suspirou.
– Estamos sendo sinceras? – ela perguntou.
– Eu não conseguiria mentir com seus braços em mim assim. – eu disse.
– Eu entendo o que quer dizer. Eu sempre quis... você. Entende? – ela murmurou.
– Não entendo, não. Você me quer? – isso estava ficando pior.
– Mais do que tudo. – ela murmurou.
– Mentira. – eu me soltei dos braços dela um pouco irritada.
– Por que seria? – ela perguntou.
– Você está namorando o Ronald! – eu queria me virar e encarar a mentira nos olhos dela mas eu tinha medo. Medo de ver exatamente isso. – Se você realmente me quisesse você teria terminado com ele e nós estaríamos de outra maneira nessa cama agora.
– Percebe quantas pessoas estão envolvidas? Como acha que sua família se sentiria? E o Ronald? E o Harry? Meus pais? Não é como escolher entre dois namorados Ginny, é pior que isso. – ela parecia estar tremendo.
– Andou conversando com a minha consciência ultimamente? – eu perguntei séria.
– Não. – ela respondeu também séria. – Eu sou ela.
– Ah, ok.
Silêncio.
– Posso te abraçar? – ela perguntou.
– Deixa eu tentar entender: Você me quer certo?
– Certo.
– Mas você continua namorando com o meu irmão, certo?
– Certo.
– E mesmo assim você quer continuar me torturando?
– Ahm...?
– E ainda assim você diz que se sente atraída por mim? Que me quer bem?
– Não é tortura só para você Ginevra. Eu queria muito poder fazer... tudo aquilo que eu penso em fazer. – ela me abraçou de novo – Eu não posso ter pelo menos um pouco? – ela encostou os lábios na minha nuca eu tive um espasmo no corpo inteiro.
– Herms pára. – eu murmurei. Eu quase não conseguia falar.
– Você diz que eu te torturo... – ela sussurrou no meu ouvido.
– Pára...
– Mas você sabe o que é tortura? – ela perguntou acariciando meus cabelos.
– Adianta eu mencionar que não desejo saber? – eu perguntei. Eu mal conseguia respirar.
– Eu vou te dizer... – ela aspirou meu cabelo – Sabe o quanto o seu cabelo é lindo? – já viu como um ratinho fica imóvel se você o encurrala? Eu estava assim, rígida. – O quanto o cheiro que você tem é delicioso? O quanto seus olhos são maravilhosos quando você ri? O quanto o calor da sua pele é atraente?
Eu me virei subitamente.
– Hermione – Eu estava tão perto dela, se eu me movesse um milímetro nossos lábios se tocariam. Os olhos dela brilhavam de uma maneira entorpecente. Eu apoiei a mão no rosto dela. – Fica comigo?
That look in your eyes pulls me apart
Este olhar em seus olhos me leva além
Ela balançou a cabeça sorrindo tristemente.
– Eu faço qualquer coisa. – eu implorei – Eu vou com você para qualquer lugar do mundo. A gente só precisa aparatar! – Eu a abracei forte.
– Não é assim que funciona. – ela disse. Uma raiva parecia tomar conta de cada célula minha. Eu a soltei.
– Claro que é! – ela não entendia meu desespero? Eu faria tudo, absolutamente tudo, para tê-la.
– Eu não sou lésbica. – ela falou fechando os olhos.
– Eu também não. – eu respondi com raiva.
– Não podemos fazer isso. – Hermione disse abrindo subitamente os olhos.
– Pare de repetir isso! – eu gritei. Eu ia me levantar, mas ela me segurou pelos ombros.
– Eu não sou lésbica. – ela repetiu – Não quero ser, não quero que meus pais passem por isso, não quero que sua família passe por isso.
– Eu também não porra! Eu só te amo! – eu me levantei. Ela se sentou. Eu respirei fundo. Apoiei o rosto nas mãos tentando me controlar – Fica comigo.
– Não posso. – ela passou as mãos pelo cabelo parecendo desesperada.
– Então escute: – Eu apontei um dedo para ela – Nunca mais me toque. Não chegue perto de mim. Eu não sou brinquedo.
Don't open the door to heaven if I can't come in
Não abra a porta do paraíso se eu não posso entrar
Don't touch me if you don't love me sweetheart
Não me toque se você não me ama, querida
Eu me virei para ir em direção à porta.
– Você está acabando com a nossa amizade? Está me dando um ultimato? – Ela perguntou.
– Amigos não precisam dormir com outros. – eu disse levando a mão a maçaneta.
Ela me puxou subitamente pelo braço. Me girou e me fitou.
– Pare de agir como se fosse culpa minha! – ela falou irritada.
– Chega Hermione. Essa conversa já sugou o que tinha que sugar de mim. – Eu sai. Parecia que seria impossível respirar. Fui até o banheiro, me despi abri o chuveiro na água mais quente possível e entrei. A água queimava minha pele como se eu estivesse sendo lentamente escaldada, mas era bom, bom eu acho que era. Deixei a água escorrer por mim até estar com a pele avermelhada.
Meu cérebro parecia entorpecido. Eu acho que me esqueci do tempo, quando me dei conta o banheiro estava cheio de vapor d'água. Eu me sentei no chão do box sentindo minhas pernas cansadas.
– Você vai ficar toda ardida depois. – eu escutei. Abri os olhos de um susto.
– Hermione! Quando a porta está trancada isso significa que a pessoa dentro do cômodo não deseja que alguém entre!
– Alorromora não concorda com isso. – ela murmurou. Ela estava com o baby doll azul, que era o favorito dela. Tinha uma expressão estranha.
– Se vira, eu estou nua. – eu reclamei entrando novamente na água. E então me dei conta de algo – Há quanto tempo você esta ai?
– Há algum tempo. – ela disse displicente – Meu feitiço de desilusionar está ótimo não?
– Se vira. – eu repeti irritada. Ela suspirou e se sentou no chão de costas para o box.
– Mais calma? – ela perguntou.
– Não significa que penso diferente. – eu disse antes de enfiar a cabeça debaixo d'água. Queimou minhas bochechas.
– Quanto tempo vai demorar para sair daí? – ela perguntou.
– O tempo necessário para que você saia do banheiro. – eu peguei o vidro de shampoo e coloquei uma boa quantidade na mão.
– Esperava que dissesse isto. – ela respondeu – Isso é o que eu preciso para que você me escute. Eu não quero perder sua amizade, Ginny. – ela falou meu nome de um modo doce, mas que me soou falso. Como se estivesse convencendo uma criança a comer legumes – Vamos fingir que nada disso aconteceu? Continuar sendo amigas como sempre fomos?
Eu estava com a cabeça embaixo d'água enquanto ela falava, quando abri os olhos ela olhava para mim de um jeito, de um jeito que... porra. Ninguém nunca havia olhado para mim daquela maneira. Ninguém nunca havia despertado tanta coisa em mim com um olhar. Como uma coisa podia piorar tanto assim em 24hs? Fechei o chuveiro e saí.
– Desculpa...eu não ia olhar... eu... – seja qual fosse a minha expressão estava deixando ela assustada. Ela se levantou. Eu andei até ela.
– Você quer fingir que nada disso aconteceu? – eu andei passo por passo, nua, encaminhando ela em direção à parede.
– Eu não quero que as coisas mudem... – ela murmurou. Ela tentou dar mais um passo para trás e se deu conta de que eu havia a empurrado para a parede. Eu a prendi com o meu corpo. Senti a água quente molhando a roupa dela. Senti a pele nua das pernas dela molhando junto com a minha.
– Ginny...você não pode me beijar. – ela declarou. A respiração dela estava irregular, aquilo estava me atiçando. Ela fechou os olhos – Você não pode. – Eu prendi as duas mãos dela na parede com as minhas entrelaçando nossos dedos. A varinha voou das mãos dela.
– Não posso? – eu murmurei à um centímetro da boca dela. – O que você faria se eu o fizesse?
– Bateria em você, te azararia...
– Você conseguiria me parar? – a roupa dela estava agora completamente molhada pela água que escorria dos meus cabelos.
– Claro que sim. – ela respondeu. Eu acariciei o rosto dela.
– Eu acho que não. – eu disse.
– Claro... – eu interrompi a frase dela encostando meus lábios em seu pescoço. Um cheiro tão bom. Uma mistura do perfume dela com o cheiro da minha cama. Fiquei três segundos absorvendo aquilo.
– Você quer esquecer isso Hermione? – eu perguntei falando próxima ao ouvido dela. Ela arfou.
– Sim...
– Vamos falar de situações hipotéticas? – eu perguntei voltando a olhar o rosto dela. Ela mantinha os olhos fechados, apertados como se esperasse a picada de uma agulha. Ela arfava levemente, e em meio ao meu aturdimento eu adorei saber que podia causar isso a alguém. Adorei saber que podia causar isso a ela. Me agarrei a isso como uma bóia no oceano. A maldita esperança. Meu quarto erro.
– Precisamos conversar assim? – ela perguntou tentando soltar os próprios pulsos, o esforço foi tão frágil e desinteressado que eu quase gargalhei.
– Te incomoda? – eu perguntei sorrindo para mim mesma.
– Um pouquinho... – Hermione mumurou.
– Que pena... Podemos falar das situações hipotéticas? – eu insisti.
– Só falar?
– Só falar.
– Ok.
– Abre os olhos. – eu ordenei.
– Você está nua. – ela justificou.
– Eu estou colada em você. Não creio que isso faça diferença. Além do mais você não parecia se importar muito com isso agora há pouco. – eu murmurei revirando os olhos. Hermione era completamente louca. No mínimo. Ela abriu os olhos, e olhou diretamente para os meus.
– Você está molhada...
– Eu sei. Você está também agora.
– Eu estou ouvindo seu coração bater.
– É o que acontece se você fica tanto tempo colada em alguém. – eu expliquei.
– Isso é uma vingança? – ela perguntou, olhando para minha boca. Eu olhei para a boca dela. Só mais um centímetro. Apenas isso. Um centímetro. Um movimento errado de cabeça e nossos lábios se tocariam.
Minha respiração estava incontrolável, havia partes do meu corpo reagindo que eu nunca imaginei que reagiria. Minha boca estava seca.
– Estou tentando entender. – eu disse tentando soar sarcástica – O que amigas podem fazer?
– Amigas podem... – ela engoliu em seco e fitou algum ponto acima da minha cabeça – se abraçar...
– Como estamos fazendo?
– Algo assim... – ela murmurou.
– O que mais? – eu perguntei olhando para o rosto dela. Ela estava rubra.
– Se cumprimentar com beijos no rosto...
Eu encostei meus lábios no canto esquerdo da boca dela. As mãos dela se fecharam nos pulsos presos. Ela fechou os olhos novamente.
– Amigas podem fazer carinho? – eu perguntei.
– Acho que sim... – ela murmurou.
Eu acariciei a perna dela até minha mão se perder na barra do baby doll. Ela arfou de novo. Senti sua pele arrepiada nas pontas dos meus dedos.
– Chega Ginevra. – ela falou quase sem voz.
– Me diz no que você está pensando agora? – eu perguntei.
– Eu...
– Fale a verdade. – ordenei retirando a mão suavemente.
– A verdade não é uma boa coisa. – ela respondeu.
– A verdade é a coisa que eu quero. Me conceda ao menos isso. – eu exigi.
– Em... transar com você embaixo do chuveiro. Em beijar você, em tocar você... – ela enrusbecia mais a cada palavra.
– Amigos podem fazer isso Hermione? – eu perguntei seca.
– Não. Não podem.
– Podemos ser amigas Hermione? – meu tom de voz se tornou subitamente agressivo.
– Por que está fazendo isso comigo? – ela perguntou olhando nos meu olhos novamente.
– Não estou fazendo nada. Não tenho culpa pelo que está pensando. Ignore o que você sente. – eu repeti as palavras dela. Eu a soltei. – Agora, saia do banheiro.
Eu me afastei dela. Por um segundo ela continuou imóvel e então se encaminhou para a porta.
– O que está tentando provar? – ela perguntou parando alguns passos antes da porta. Eu peguei uma toalha e me enrolei.
– Que não é bom você me tocar se não quer arcar com as consequências. – eu respondi.
– Vamos tentar? – ela perguntou. Eu fechei os olhos. – Tentar ser amigas? Só isso?
– Sabe quando você vai em um zoológico e há uma porta dizendo: “Não entre”? Você sabe que pode haver um leão lá dentro. Mas se você quiser, você pode entrar? – eu continuava mirando a parede.
– Se quiser pode sim. – ela falou – Mas corre o risco de ser devorado.
– O que você faz quando vê uma porta dessas, Herms? – eu perguntei já sabendo a resposta.
– Eu me afasto. Por que? Você não? – ela perguntou.
– Infelizmente eu nunca consigo evitar entrar por uma porta dessas. – eu disse olhando para ela.
Ela abriu a boca como se fosse dizer algo, fechou-a de novo e saiu.
Eu me virei para o chuveiro, abri o máximo que pude e me enfiei debaixo d'água fria. Era como se fagulhas de gelo penetrassem no meu corpo. Eu me sentei embaixo dela, pensando... E se Hermione estivesse certa? E se talvez devêssemos ter pelo menos um pouco do que queríamos? Um calor se espalhou por todo o meu corpo quando lembrei da pele dela na minha. Um calor que nem mesmo a água aplacou. Inconscientemente minha mão deslizou até entre as minhas pernas. Eu retirei-a antes mesmo de me tocar. Me sentindo ridícula, suja, me sentindo só.
Não imagino quanto tempo fiquei ali no chuveiro. Quando saí a minha pele estava enrrugada. Mas meus pensamentos estava mais racionais. Eu não queria perder Hermione, a amiga. Muito menos por uma coisa de 24hs. Enxugando os cabelos eu entrei no quarto. Ela estava sentada na janela, havia um livro no seu colo, mas ela olhava para o quintal. Ela havia retirado o baby doll, e vestia um jeans e um casaco de moletom. Eu sei que ela me ouviu entrar, mas ela não se virou. Peguei a escova de cabelo e me sentei na cama.
– Levei um pouco de torradas com leite para o Jorge, acho que ele comeu. – Hermione começou a folhear o livro displicentemente.
– Obrigada. – eu respondi. Começando a escovar os meus cabelos.
– Talvez você devesse convencê-lo a sair um pouco. – ela continuou.
– Vou falar com o Ronald sobre isso. – eu murmurei.
– É. Talvez ele o convença. – ela disse ainda olhando para o livro.
– Hermione... me desculpe. – eu murmurei envergonhada – Você tem razão. É idiotice. Eu sou uma idiota.
– Vamos só esquecer? – ela perguntou. Eu balancei a cabeça afirmativamente.
Eu olhei para ela sorrindo. Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para ver aquele sorriso.
O dia passou normalmente. Mamãe e os meninos não voltaram antes do almoço. Improvisamos comendo sanduiches e à tarde resolvemos caminhar, subir a colina. Era realmente como se nada tivesse acontecido. Conversamos sobre tudo. Rimos muito. Foi uma boa tarde. O sol se punha e nós duas estávamos deitadas na grama olhando para o céu que estava escurecendo.
– E então a Umbridge fez aquela cara! – ela gargalhou. Havíamos passado os últimos minutos relembrando Hogwarts. O episódio agora era a partida de Fred e Jorge da escola.
Eu comecei a ri descontroladamente. Realmente era uma boa lembrança.
– Eles passaram o dia inteiro tentando destruir os fogos... – eu ri mais ainda. Era engraçado. Mas havia algo mais naquela minha risada incontrolavel, ela me acompanhou.
– E o pirraça! A bengala! – ela lembrou. Eu morri de rir. Ri demais. Eu me virei na grama. Nossos olhos se encontraram. Paramos de rir ao mesmo tempo. Seria possível que era tão incontrolável?
– Já pensou na hipótese de ser um feitiço? – eu perguntei delirando.
– Como? – ela perguntou.
– Isso. – eu olhei para a boca dela.
– Talvez...
– Um beijo seria fácil? – eu perguntei.
– Fácil? – ela estava intrigada. Seus olhos vistoriavam os meus.
– De esquecer...
– Talvez... Se fosse só um. – ela disse – Mas e o Ronald?
– Dividíamos sorvetes quando erámos pequenos... – eu comentei.
– Comparação infeliz Ginevra. – ela retrucou meio irritada.
– Eu sei. Não consegui penar em nada melhor. – eu justifiquei.
Ficamos alguns segundos nos encarando. Tão perto. Por algum motivo o céu parecia insignificante comparado aos olhos dela.
– Sabia que existe uma teoria de que coisas que acontecem durante menos de cinco minutos na verdade não entram no continuum espaço-tempo? – eu expliquei.
– Quem te disse isso? – ela perguntou desconfiada.
– Luna. – respondi. Hermione riu.
– Eu gosto da Luna. – ela disse de repente.
– Eu também.
– Se for menos de cinco minutos...
– Se for só essa vez...
Eu me inclinei até ela e toquei os lábios dela com os meus. Meu quinto erro. Mas não foi nisso que eu pensei. Na verdade não pensei em nada. Uma sensação incrível. O sabor, a textura, meu cérebro absorvia cada detalhe. Eu puxei-a para mim querendo sentir seu corpo no meu, como no banheiro. O beijo suave de repente tomou um novo ritmo. As mãos dela estavam agarradas fortemente nos meus cabelos, eu a prendia pela cintura. Nós beijávamos com volúpia, era rápido, intenso, mas perfeitamente sincronizado. Eu esqueci de tudo, de quem era ela, de onde estávamos. Só o que importava era saciar aquela sede enorme. Eu beijei o pescoço dela e não me importei se deixaria marcas, cravei as unhas nas pernas dela. Eu a queria mais do que tudo, eu a queria por completo. Mas foi ela, foi ela quem desencadeou tudo. As mãos dela voaram para o botão da minha calça. E as minhas entraram por baixo da blusa dela. Toquei os seios dela por cima do sutiã, deslizei os dedos pela pele macia dela até chegar ao fecho...
Your kiss is like a drink when I'm thirsty and I'm thirsty for you with all my heart
Seu beijo é como beber quando tenho sede e tenho sede de você com todo meu coração
– Ginny!
Não me pergunte como voamos à quase dois metros de distância uma da outra. Eu ainda arfava.
– Mione! – repetiu a voz do infeliz do meu irmão soando longe através das árvores. Eu sei. Eu deveria estar me sentindo culpada. Mas eu só conseguia ter vontade de matá-lo. Continuávamos imóveis.
– Sua calça! – falou Hermione de repente. E isso deu início à um frenesi. Começamos a nos movimentar rapidamente tentando apagar todos os sinais dos segundos anteriores. Fechei a calça e comecei a arrumar os cabelos. Ela ajeitou a blusa.
– Vamos. – eu falei.
Nos levantamos e começamos a caminhar na direção da voz. Eu olhei para o rosto de Hermione, rubro, úmido. Os olhos ainda tinham o mesmo brilho de alguns minutos atrás embora assutadiços.
– Corra! – eu ordenei.
– Como? – ela perguntou.
– Confie em mim. Seu rosto está vermelho, você está úmida de suor...
– Ok.
Corremos até avistar os cabelos de Ronald à certa distância. Harry estava com ele.
– Aí estão vocês! – gritou Ronald – Mamãe já estava preocupada.
– Estávamos... – eu parei perto dele arfando mais que antes – ...correndo.
– Estou vendo. – ele disse – Mas de que?
– Nada. Só diversão. – explicou Hermione.
– Hermione por que tem cabelos da Ginny em suas mãos? – perguntou Ronald. Olhei para as mãos dela. Pelo menos cinco fios enormes e flamejantes estavam entre os dedos dela. Indiscutivelmente meus cabelos. Ronald não parecia desconfiado, ele nunca desconfiaria de algo assim, mas eu não queria dar margem. Principalmente com Hermione com aquela expressão culpada.
– Eu tropecei. Ela me segurou pelos cabelos. – eu disse. Só o Ronald mesmo para acreditar numa dessa. Bendito intelecto inferior. Hermione se livrou dos fios e começamos a descer juntos. Harry passou um braço pelos meus ombros. E Ronald segurou a mão de Hermione. Os dois começaram a falar sem parar sobre o que tinham feito durante o dia, eu não conseguia escutar uma palavra. Hermione parecia estar da mesma maneira, ela olhava para mim de três em três segundos. Eu mal podia esperar pelo meu quarto.
O jantar transcorreu normalmente. Um acontecimento raro, Jorge jantava conosco. Ninguém parecia notar os olhares indiscretos e assustados de Hermione para mim. Uma frase permeou meu pensamento durante todos aqueles intermináveis minutos. Um beijo. Apenas um. Seria fácil? De esquecer? Fui para o quarto novamente antes de todo mundo. Deitada na cama eu mal podia esperar até que ela subisse. Mal podia esperar para sentir seu cheiro de novo, mesmo que fosse apenas isso. Duas horas se passaram e nada. Tudo estava excessivamente quieto. Onde estava Hermione?
Eu estava com muita sede, fosse isso uma desculpa inconsciente, um soco do destino, fosse o que fosse eu estava com sede. Desci as escadas devagar, sonolenta. Peguei um corpo de água na cozinha pensando vagamente que Hermione talvez estivesse no banheiro.
Ao passar pela porta da sala escura, uma sombra disforme no lugar onde seria o sofá me chamou atenção. Meus olhos se acostumaram à escuridão e eu vi que a sombra na verdade eram duas. Ronald estava sentado no sofá e Hermione estava sentada no colo dele. A camisola dela subia o suficiente para revelar que ela estava sem a calcinha. As mãos dele se perdiam entre as pernas dela, as dela dentro da calça do pijama dele. Um estrépido me despertou. Eu deixei o copo cair.
– Gina! – gritou Ronald. Ele retirou as mãos rapidamente da camisola dela e ela saiu do colo dele. Hermione começou a andar na minha direção. – Você não vai contar não é Gina? – Ronald perguntou com o tom de voz afogueado. Eu comecei a recuar e antes que me desse conta estava no alto da escada correndo. Entrei no meu quarto me enfiando debaixo das coberta. Eu sabia... Eu sabia...
– O que você esperava? – eu falava comigo mesma – Você sabia!
Abraçada aos joelhos eu tentava fazer minha respiração voltar ao normal. Eu não havia sido enganada. Aquilo era natural. O que não era natural era o que eu sentia naquele momento. Aquela sensação enorme de dor, de traição. Eu não tinha direito de sentir nada disso. Alguém puxou o cobertor de cima de mim.
– Oh, Ginny, por favor. Não faça isso! – a voz dela soava meio apavorada. Eu me sentei rapidamente enconstando-me na parede.
– Eu estou bem – eu falei – Estou ótima. – insisti – Está tudo bem.
– Como tudo bem? Você está chorando! – ela falou sentando-se na cama.
– Não estou não. – eu limpei meu rosto e senti as lágrimas, eu não havia me dado conta delas.
– Pare de agir assim. Você sabia como ia ser! – ela falou. Eu só queria que ela calasse a boca.
– Estou bem. Estou ótima. – eu repeti debilmente.
– Pára de repetir isso! – ela exclamou – Ginny a gente falou, era só um beijo lembra?
– Claro que eu sei. Estou bem, sério. – eu estava pensando mais claramente. O suficiente para fingir. – Eu nem me lembro mais, era para esquecer não é?
Ela estendeu a mão para tocar meu ombro. Eu me retraí como se tivessem estendido uma cobra na minha direção.
– Por favor, não me toca. – ela recuou a mão – Se importa se eu dormir na sua cama? – Eu me levantei levando o travesseiro, peguei o cobertor e me deitei. Alguns minutos depois eu ouvi o som da outra cama rangendo enquanto ela se deitava. Eu ainda não tinha conseguido me livrar daquela sensação horrorosa, daquela sensação de não saber onde dói. Eu só queria tirar o toque dela do meu corpo, de todo ele. Queria não me lembrar mais.
You don't love me then act like as though we've never kissed
Você não me ama, então finja que nunca nos beijamos
Don't touch me if you don't love me sweetheart
Não me toque se você não me ama, querida
Don't give me something that you might take way
Não me dê nada que você poderia tomar de volta
To have you then lose you wouldn't be smart on my part
Ter você e depois te perder não seria inteligente da minha parte
Don't open the doors to heaven if I can't come in
Não abra a porta do paraíso se eu não posso entrar
Don't touch me if you don't love me sweetheart
Não me toque se você não me ama, querida
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N/A: Bom aí está. Meio louco, meio incoerente, mas postado. Espero que gostem. Respondendo à perguntas que surgirão na cabeça de vocês: Sim minha Hermione é louca, sim minha Ginny é esquisita, e não eu não posso fazer nada quanto à isso por que elas criaram vontade própria e não obedecem mais a mim. *suspira* Não queiram que seus personagens façam isso. O próximo capitulo deve demorar um pouquinho, agora vou terminar a fic do projeto do Juliano, vou escrever a Sirius e Bella da SP e provavelmente retomar o “Fale com Hermione”. Portanto aproveitem. ;)
Muito obrigada pelos comments e pelo carinho. Amo vocês!
*ajeita capa roxa, ajeita o cabelo, sente falta da Tonks, dá tchauzinho e...crack!*