Capítulo 18 – Mandrágoras e Botões
“Então”, Snape nos observou, enquanto Harry e eu afundávamos nas cadeiras, “o trem não é bastante bom para o famoso Harry Potter e seu leal escudeiro Weasley. Queriam chegar acontecendo, não foi, rapazes?”
Claro, porque foi mesmo uma experiência agradabilíssima; mal posso esperar pela próxima oportunidade!
Francamente...
“Não, senhor”, Harry apressou-se, “foi a barreira na estação do King’s Cross, ela...”
“Silêncio!”, Snape interrompeu-a, “Que foi que fizeram com o carro?”
Como ele poderia saber do carro?
“Vocês foram vistos”, rosnou, mostrando uma edição do Profeta Diário que trazia dentro de um bolso, gemi por dentro enquanto ele começava a ler a matéria, lançando eventuais olhares desgostosos na nossa direção, “Acredito que o seu pai trabalha no departamento que coíbe o mau uso de artefatos trouxas?”, Snape fixou os olhos escuros e cruéis em mim, que encolhi levemente, e seus lábios finos se contraíram num sorriso maldoso, “Tsk, tsk... o próprio filho dele...”
Senti meu estômago afundar, ao pensar no que poderia acontecer ao papai se descobrissem que tinha sido ele quem enfeitiçara o carro, para começo de conversa.
“Reparei na minha busca pelo parque”, prosseguiu Snape, sem um pingo de piedade, “que houve considerável dano a um salgueiro lutador muito valioso”, concluiu.
Minha indignação foi tamanha, que não consegui me conter.
“Aquela árvore causou mais danos a nós do que nós a...”
“Silêncio!”, ele berrou, fazendo com que eu desse um pulo, “Infelizmente, vocês não fazem parte da minha Casa e a decisão de expulsá-los não cabe a mim. Vou buscar as pessoas que têm esse prazeroso poder. Esperem aqui”, acrescentou, com um sorriso deliciado, enquanto se encaminhava em direção à porta.
Sabe quando você tem aquela sensação de que o seu futuro está cada vez menos promissor?
Então.
XxXxX
Depois de meia hora de interrogatório por parte de Minerva McGonnagall e do próprio Dumbledore, Harry e eu não agüentávamos mais contar o que tinha acontecido naquela tarde; minhas esperanças de continuar no colégio estavam se esvaindo a medida que Minerva nos direcionava algum de seus comentários secos ou Dumbledore nos encarava com aqueles olhos cheios de decepção.
Como se ter perdido o trem, dirigido um carro problemático que quase nos abandonou no meio do nada diversas vezes, quase sido assassinado por uma maldita árvore gigante e ter Snape se divertindo às nossas custas com seus sermões já não tivesse sido o suficiente.
“Vamos buscar as nossas coisas”, eu disse, infeliz, já imaginando como informaria isso à mamãe.
Talvez eu fugisse de casa.
É, definitivamente, fugir de casa era a melhor opção.
Perguntei-me se os tios do Harry aceitariam mais uma criança para prender naquela cela.
“Do que está falando, Weasley?”, vociferou McGonagall, lançando-me um olhar irritadiço.
“Bem, os senhores vão nos expulsar... não é?”, questionei, confuso.
Percebi Harry se agitar levemente ao meu lado, aparentemente tão ansioso quanto eu pela resposta.
“Hoje, não, senhor Weasley”, Dumbledore pronunciou-se, calmamente, “Mas preciso incutir em vocês a gravidade do que fizeram. Vou escrever às duas famílias hoje à noite. Devo também preveni-los de que se fizerem isto de novo, não terei outra escolha se não expulsar os dois”
Sério, alguém nesse recinto ouviu o que nós relatamos?
Quem aqui acha que Harry e eu sequer vamos ponderar fazer tudo isso de novo? Nós quase fomos mortos diversas vezes e ainda demos a satisfação para Snape de nos encher de sermões no primeiro dia de aula!
Merlim, eu perco o ano, mas não me meto numa dessas novamente.
Snape balbuciou algo sobre como infringimos diversas leis e deveríamos ser punidos, ao que Dumbledore respondeu que isso cabia à professora McGonagall – o que, de certa forma, não chegava a ser uma fonte de alívio.
Quando ficamos sozinhos com ela, era como se toda a sala ficasse repentinamente muito fria.
“É melhor ir à Ala Hospitalar, Weasley, você está sangrando”, informou, as sobrancelhas erguidas.
“Não é nada demais”, apressei-me, passando a manga sobre a minha sobrancelha e percebendo a mancha de sangue que ficara no tecido, “Professora, eu queria ver a minha irmã ser selecionada...”, pensei em Gina, sozinha, provavelmente tão ansiosa quanto eu estava há um ano.
“A cerimônia da Seleção já terminou”, respondeu, friamente, “Sua irmã também ficou na Grifinória”
“Ah, que bom”, senti uma onda de alívio.
“E por falar na Grifinória”, ela acrescentou, os olhos fixos em nós dois.
“Professora, quando apanhamos o carro, o ano letivo ainda não tinha começado, por isso...”, Harry a interrompeu, “Por isso, a Grifinória não deve perder pontos, deve?”
Ela nos encarou em silêncio por alguns segundos e, apesar de estar sério, tenho certeza de ter visto a sombra de um sorriso brilhar em seus olhos por um breve instante.
“Não vou tirar pontos da Grifinória”, ela disse, para a nossa satisfação, “Mas os dois vão receber uma detenção”, concluiu.
É, podia ser pior.
Eu poderia estar morto.
Ou morando com os tios do Harry.
XxXxX
Harry e eu caminhamos pelos corredores, depois de nos entupirmos de comida.
“Dá para acreditar na nossa sorte?”, perguntei, enquanto começávamos a subir as escadas, “Quero dizer, poderíamos ter sido expulsos e só vamos ter que encarar uma detenção...”
Harry concordou com um aceno de cabeça, dando um sorriso; foi então que chegamos ao quadro conhecido de uma mulher gorda, que nos inspecionou de cima abaixo antes de perguntar, “Senha?”.
Harry e eu nos entreolhamos, e ele soltou um “Ahn...”, incerto; tínhamos esquecido completamente que, como perdemos o jantar, tínhamos por conseqüência perdido a entrega da senha pelo Monitor Chefe.
Bem, pensando que neste ano ele seria o Percy, até que não foi tão ruim assim.
Tirando pelo fato de que, você sabe, talvez Harry e eu tivéssemos que passar a noite nos corredores frios de Hogwarts, fugindo do Pirraça e do Filch e esse tipo de coisa.
Foi então que ouvimos passos rápidos às nossas costas e, quando nos viramos, vimos um punhado de cabelos castanhos cheios e Hermione surgiu, ofegante.
“Aí estão vocês! Onde se meteram?”, ela exclamou, veemente, “Os boatos mais ridículos... alguém disse que vocês foram expulsos por terem batido com um carro voador”, e revirou os olhos, ridicularizando a versão.
“Bem, não fomos expulsos”, ofereceu Harry, tão certo quanto eu que Hermione não seria a pessoa a ficar mais animada com a perspectiva do que realmente tinha acontecido.
Apesar de, sabem como é, ser até meio maneiro; agora que eu não corro mais o risco de ser expulso.
Ou morrer.
“Vocês vão me dizer que realmente chegaram aqui voando?”, perguntou, com severidade, parecendo uma versão Mini-Mim da McGonagall.
O que é meio assustador, se você pensar comigo, porque ela tem só doze anos.
“Pode poupar o sermão”, soltei impaciente, “e nos dizer qual é a nova senha”
Porque, sinceramente, nós já recebemos o sermão de várias pessoas, sem contar com o fato da experiência de quase morta, que também é muito instrutiva; quero dizer, eu não sei porque as pessoas continuam insistindo em brigar com a gente, como se Harry e eu estivéssemos extremamente satisfeito com a conseqüência dos nossos atos.
Quero dizer, minha varinha quebrou, quase morri, depois quase fui expulso (e morto, ato contínuo, pela minha mãe tirânica), ouvi sermões intermináveis da McGonagall e do Dumbledore e, como se isso não fosse suficiente, dei um motivo para Snape sorrir essa noite.
O que é inaceitável.
Então, sim, perdoem minha rudeza, mas não estava afim de ouvir qualquer coisa que Hermione pudesse querer dizer.
Hermione lançou-me um olhar atravessado.
“É ‘maçarico’”, ela informou, “Mas não é isto que está em questão...”, começou, para o meu desespero.
Mas antes que ela pudesse continuar, o som de aplausos altos e entusiasmados vieram de dentro da abertura do quarto; mãos firmes agarraram a Harry e a mim, e nos puxaram escadas acima, onde encontramos todos os estudantes da Grifinóri ainda acordados, aparentemente esperando por nós.
“Genial!”, exaltou-se Lino Jordan, “Um achado! Que entrada! Aterrisar um carro voador no salgueiro lutador, vão comentar isso durante anos!”, concluiu, enquanto Hermione entrava no Salão Comunal, com uma expressão de poucos amigos.
Várias pessoas bagunçaram meus cabelos e ouvi diversas parabenizações; alguns instantes depois, Fred e Jorge abriam caminho pela multidão de alunos exultantes, colocaram-se à nossa frente e perguntaram, em uníssono, “Por que não viemos de carro, hein?”.
Senti minhas bochechas pinicarem e meu corpo parecia estar morno por dentro; estava me sentindo completamente satisfeito com toda aquela atenção.
Foi então que Harry me cutucou e, com um gesto discreto de cabeça, apontou para algo do outro lado do Salão Comunal; Percy estava tentando abrir caminho entre os alunos do primeiro ano, obviamente querendo dar outro (adivinhem o que?) sermão na gente.
“Temos que subir”, soltei, alto, para que todos conseguissem ouvir, “Um pouco cansados”, acrescentei, com um falso bocejo, para dar um toque a mais de realidade para o argumento, agarrei Harry pelo cotovelo e comecei a abrir caminho em direção à escada.
Harry começou a se despedir de algumas pessoas, inclusive da Hermione, que não parecia mais satisfeita do que Percy. O caminho todo até o outro lado do Salão foi feito sob palmadas amistosas e exclamações de admirações.
Finalmente consegui pisar um pé no primeiro degrau da escada e, rapidamente, Harry e eu subimos até o nosso antigo quarto, onde lia-se ‘ALUNOS DO SEGUNDO ANO’, abrimos a porta e observamos as mesmas camas, com os nossos malões já sobre as camas que utilizamos no ano anterior.
Olhei para Harry e, sentindo-me culpado, resolvi admitir, “Sei que não deveria estar curtindo isso nem nada, mas...”, entretanto, fui interrompido pela porta se abrindo novamente e Simas, Dino e Neville entraram, saltitantes e entusiasmados.
“Inacreditável”, sibilou Simas, jogando-se em sua cama.
“Legal!”, aprovou Dino, dando um sorriso largo.
“Um assombro!”, concordou Neville, os olhos arregalados, como se imaginasse como seria se fosse ele quem estivesse dentro do carro.
Arrisquei um olhar para Harry, que também sorria.
“Como vocês fizeram isso?”, perguntou Simas, assombrado, “Quero dizer, é simplesmente... uau!”, completou, por falta de palavra que se encaixasse com perfeição.
“Bem, vocês sabem”, dei de ombro, com uma modéstia forçada, “Qualquer um teria feito isso”, conclui, descartando o assunto com um aceno de mão, o que fez Harry rir.
“Mas como isso aconteceu?”, questionou Dino, sentando na beirada da cama de Simas, que era a mais próxima da porta.
“A plataforma fechou quando tentamos entrar”, Harry assumiu a explicação, “E então, Rony teve a idéia de pegar o carro voador do pai dele... o resto fala por si mesmo, acho”
“Eu queria que a minha avó tivesse um carro voador”, resmungou Neville.
E continuamos conversando por horas.
XxXxX
Acordei no meio da noite com sede e, notando que não tinha água no quarto, resolvi procurar por algo no Salão Comunal; assim que desci as escadas que davam acesso ao mesmo, surpreendi-me ao me deparar com uma pessoa ocupando o salão, debruçada sobre algo à luz da lareira.
“Gina?”, perguntei, surpreso, “É o meio da madrugada, o que você está fazendo?”
“Rony!”, ela soltou, sobressaltada, fechando o livro com um estrondo, “Eu... eu estava sem sono”, ela disse, envergonhada.
“As primeiras noites são sempre assim”, informei, repentinamente lembrando-me de como eu tinha me sentido no ano anterior, “mas não se preocupe, em breve toda essa ansiedade vai passar. Viu algum jarro d’água por aí?”, perguntei.
“Tem um em cima da mesa central redonda”, Gina informou, apontando para o local com uma pena, “Então, você e o Harry já começaram o ano causando uma impressão e tanto”, ela soltou, casualmente.
“Ah, pois é”, dei de ombros, modestamente, enquanto colocava um pouco de água em um copo avulso, “Não tínhamos muita escolha, você entende... era isso ou perderíamos um ano de colégio”
“Foi muito perigoso?”, ela perguntou, subitamente preocupada.
“Nada que o seu irmão aqui não pudesse controlar”, contornei sua preocupação.
“Disse aquele que tem medo de aranhas”, cantarolou a garota, subindo e descendo as sobrancelhas de forma zombeteira.
Odeio isso nela.
“Aranhas são diferentes”, resmunguei.
“Eu sei, elas são super aterrorizadoras com aqueles dois centímetros”, Gina concordou, irônica, passando a mão pelos cabelos cor de fogo. Ao perceber minha expressão, riu e mudou de assunto, “Mas você sabe que a mamãe vai te matar, né?”
Dei de ombros, porque eu realmente não queria pensar nisso naquele momento; ficamos em silêncio por alguns instantes, observando o fogo crepitar na lareira.
“Bem”, soltei, esfregando os olhos e sentindo o alívio de ter matado a sensação de sede, “Quer que eu fique aqui, te fazendo companhia? Poderíamos jogar uma partida de xadrez bruxo”, sugeri, as sobrancelhas erguidas.
“Ah, não”, Gina sorriu, dispensando minha oferta, “Pode ir, Rony, eu vou só terminar o que eu estava fazendo e já vou para a cama”
“OK”, concedi, dando as costas em direção às escadas, “Só tome cuidado para não deixar essa coisa de livros subir à sua cabeça, sabe como é... você pode acabar virando a Hermione”, estremeci só com o pensamento.
“Não se preocupe”, a voz de Gina soou às minhas costas, à medida que eu subia as escadas em direção ao meu dormitório.
XxXxX
A manhã seguinte estava nebulosa, para se opor ao meu ótimo humor; as pessoas continuavam sorrindo com admiração quando eu passava pelo corredor com Harry.
Chegamos à mesa do café da manhã, repleta de comidas maravilhosas e ocupamos um lugar em frente a Hermione que estava entretida lendo o livro ‘Viagens com Vampiros’; a garota ergueu os olhos do livro quando nós chegamos, desejou bom dia formalmente, e voltou a lê-lo, deixando óbvia sua desaprovação.
Sério, o que é que ela queria?
Que Harry e eu simplesmente não fossemos ao colégio?
Neville chegou em seguida, ocupando o lugar vago ao lado de Hermione, e sorrindo para nós; ele começou a se servir de mingau de aveia, enquanto comentava como estava quase na hora do correio e coruja e que, provavelmente, sua avó teria lhe mandado algo que havia esquecido em casa. De novo.
Alguns segundos depois disso, um barulho alto fez-se ouvir e as corujas invadiram o Salão Principal, as asas batendo com alvoroço e, aos poucos, embrulhos e cartas começaram a cair do céu; um pacote caiu na cabeça de Neville, fazendo-o soltar um gemido e acariciar a área atingida, enquanto abria o embrulho com a outra mão livre.
Assim que Neville conseguiu abrir o pacote, um borrão atravessou o ar rapidamente e atingiu, com força, a jarra de leite de Hermione, esparramando leite para todos os cantos e sujando a capa do livro da garota.
“Errol!”, exclamei, horrorizado, puxando-a pela pata molhada. Depositei-a na mesa, cuidadosamente e percebi o envelope vermelho em seu bico, “Ah, não...”, gemi, já sabendo do que se tratava.
“Tudo bem”, Hermione contrapôs, enquanto cutucava relutante a coruja com a ponta dos dedos, “Ele ainda está vivo”
Quem se importa se Errol está vivo?
Eu vou morrer em muito breve, pelo o que este envelope indica.
“Não é isso”, retruquei, pálido, “É isto”, apontei para o envelope e percebi que Neville, com os olhos esbugalhados, parecia ser o único que entendia a gravidade da situação.
“Que foi?”, perguntou Harry, os olhos verdes piscando confusos por trás dos óculos.
“Ela...”, minha voz falhou, “Ela mandou um ‘berrador’”, gemi, baixinho.
“É melhor abrir, Rony”, aconselhou Neville, gentilmente, “Vai ser pior se você não abrir. Minha avó um dia me mandou um e não dei atenção”, ele engoliu em seco, como se só a recordação fosse demais, “foi horrível”, completou, num fio de voz.
“Quem é um berrador?”, Harry questionou, ainda completamente alheio à situação.
Entendem como o fato de ele ter vencido Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado ás vezes me surpreende?
“Abra”, Neville insistiu, ignorando a pergunta de Harry, “Termina em poucos minutos...”
Engoli em seco e aquiesci; lenta e relutantemente retirei o envelope da boca de Errol e abri-o, no exato instante em que Neville teve a brilhante iniciativa de tampar os ouvidos. Assim que meu dedo abriu o envelope, a voz estrondosa da minha mãe começou a sair, trazendo a atenção de todas as almas vivas – e algumas mortas também, como Nick-Sem-Cabeça – na nossa direção.
“... ROUBAR UM CARRO, EU NÃO TERIA ME SURPREENDIDO SE O TIVESSEM EXPULSADO, ESPERE ATÉ EU PÔR AS MÃOS EM VOCÊ, SUPONHO QUE NÃO PAROU PARA PENSAR NO QUE SEU PAI E EU PASSAMOS QUANDO VIMOS QUE O CARRO TINHA DESAPARECIDO...”, a essa altura os pratos e talheres sacudiam sobre as mesas, “... CARTA DE DUMBLEDORE À NOITE PASSADA, PENSEI QUE SEU PAI IA MORRER DE VERGONHA, NÃO O EDUCAMOS PARA SE COMPORTAR ASSIM, VOCÊ E HARRY PODIAM TER MORRIDO...”, sentia minhas orelhas queimando e não ousava olhar para outro lugar que não a minha tigela de mingau, “... ABSOLUTAMENTE DESGOSTOSA, SEU PAI ESTÁ ENFRENTANDO UM INQUÉRITO NO TRABALHO, E É TUDO CULPA SUA, E, SE VOCÊ SAIR UM DEDINHO DA LINHA, VAMOS TRAZÊ-LO DIRETO PARA CASA”, rosnou, por fim.
Então, o envelope que eu tinha deixado cair em algum momento durante o interminável discurso pegou fogo em frente aos nossos olhos; lentamente, algumas pessoas começaram a rir e, então, o som de diversas conversas indistintas tomou o Salão.
“Bem, não sei o que é que você esperava, Rony”, a voz de Hermione surgiu do outro lado da mesa, embora eu não conseguisse vê-la, já que meus olhos estavam fixos no conteúdo cinzento da tigela, “mas você...”
“Não me diga que mereci”, rosnei.
Hermione se calou e, pouco depois disso, a professora McGonagall passou entregando nossos horários.
Sério mesmo, como é que tudo pode mudar tão rápido?
A vida é uma porcaria.
XxXxX
“Vocês não estão ansiosos para as aulas deste semestre?”, Hermione perguntou, ansiosa, enquanto caminhávamos na direção das estufas, onde um grupo numeroso de alunos já se encontrava.
“Não”, respondi, lançando-lhe um olhar incrédulo, “As aulas são praticamente as mesmas do ano passado”, lembrei-a.
Ela revirou os olhos com o meu comentário.
“Eu sei disso, mas esse ano temos assuntos muito mais interessantes”, contrapôs, “e certamente ter o senhor Lockhart como professor será algo extraordinário”.
Nesse momento, paramos de andar porque alcançamos os outros alunos e vimos a professora Sprout e o supracitado Lockhart aproximarem-se, com o lado dos olhos percebi Hermione sorrir, exultante.
“Ah, alô pessoal!”, ele cumprimento, as vestes impecáveis em comparação com a roupa cheia de sujeira da professora Sprout, “Acabei de mostrar à professora Sprout a maneira certa de cuidar de um salgueiro lutador! Mas não quero que vocês fiquem com a idéia de que sou melhor do que ela em Herbologia!”, acrescentou, dando uma piscada de falsa modéstia, “Por acaso encontrei várias dessas plantas exóticas nas minhas viagens...”
“Estufa três, rapazes!”, a mulher sibilou, lançando um olhar contrariado na direção do professor, e começando a se encaminhar em direção a mesma, empurrando os alunos mais lerdos.
“Estufa três?”, perguntei, excitado, “Quer dizer que finalmente vamos ver algumas coisas interessantes!”, lancei um olhar para Hermione, esperando que ela concordasse comigo, mas ela olhava por cima dos ombros, distraída, “Hermione!”
Ela voltou-se para mim, levemente corada.
“Oi?”, perguntou, timidamente.
“O que é que você estava olhando?”, perguntei, o cenho franzido, enquanto entrávamos na estufa e o cheiro de terra molhada invadia nossos sentidos.
“Nada, eu...”, ela começou, sem graça, mas foi interrompida pela mão de Lockhart.
Ela imediatamente fixou os olhos nele e esqueceu-se completamente do que estava falando.
“Harry”, o professor chamou-o, “Estou querendo dar uma palavra... a senhora não se importa se ele se atrasar um minutinho, não é, Professora Sprout?”, e, sem aguardar uma resposta, puxou-o para fora da estufa.
“Sentem-se”, berrou a professora, obviamente irritada, “Sentem-se imediatamente”.
Puxei Hermione pelo cotovelo em direção a uma mesa disponível.
“O que você acha que eles estão conversando?”, perguntei para Hermione.
Ela deu de ombros, enquanto ocupava o lugar ao meu lado e lançava um último olhar em direção à porta.
Sério mesmo, qual era o problema dela?
Entretanto, antes que eu pudesse perguntar o que estava havendo, a porta da estufa se abriu e Harry entrou, apressado, os olhos varrendo as mesas e, assim que nos encontrou, caminhou a passos largos em nossa direção e sentou-se no banco entre a gente.
A professora, que acompanhou-o com o olhar, esperou que ele se ajeitasse para começar a dizer que iríamos mudar as mandrágoras de vaso. Quando ela perguntou quem sabia quais eram as propriedades da mandrágora, adivinhem só?
Hermione Granger ergueu a mão ao ar imediatamente, fazendo com que eu revirasse os olhos e Harry mordesse o lábio inferior para evitar um riso.
“A mandrágora é um tônico reconstituinte muito forte”, ela disse, prontamente, “É usada para trazer de volta as pessoas que foram transformadas ou foram enfeitiçadas no seu estado natural”, concluiu, com um aceno de cabeça.
Como ela podia ser tão inteligente?
Era até irritante, na verdade, a forma como o rosto dela se contorcia numa expressão de satisfação quando via os professores ficarem impressionados com a precisão de suas respostas.
Metade do tempo, eu achava que Hermione era na verdade uma mulher de quarenta anos presa no corpo de uma menina de doze.
“Excelente”, a professora exultou, deliciada, “Dez pontos para a Grifinória. A mandrágora é parte essencial na maioria dos antídotos. Mas, é também perigosa”, ela acrescentou, seu rosto ficando repentinamente sério, “Quem sabe me dizer por quê?”
Hermione ergueu a mão tão rapidamente que Harry teve que desviar para não ter seus óculos arrancados; trocamos olhares significativos.
Ela devia ter alguma obsessão; sofrer de ‘respostomaníaca’ ou coisa do gênero.
“O grito da mandrágora é fatal para quem ouve”, Hermione respondeu.
“Exatamente”, a professora sorriu, os olhos brilhando por ter uma aluna que entendesse tão bem sobre suas queridas plantas, “Mais dez pontos. Agora, as mandrágoras que temos aqui ainda são muito novinhas”, ela disse, gesticulando na direção de uns tabuleiros fundos que estavam mais ao canto da sala e todos nós, curiosos, caminhamos para ver o que tinha lá dentro: uma fileira comprida se estendia, pareciam repolhos verde-arroxeados.
“Agora”, a voz da professora fez-se ouvir acima dos sussurros dos alunos, “apanhem um par de abafadores de ouvidos”, ela instruiu, e assim que ouvimos isso, giramos nos calcanhares e corremos em direção às mesas.
Desesperado, agarrei o primeiro abafador que não era nem peludo nem rosa, e voltei para perto dos tabuleiros, posicionando-me entre Harry e Hermione, que também já tinham abafadores em mãos.
“Quando eu mandar vocês colocarem os abafadores de ouvidos”, disse a professora, séria, “certifiquem-se de que suas orelhas ficaram completamente cobertas; quando for seguro remover os abafadores, eu erguerei os polegares para vocês”, ela ergueu os polegares para ilustrar, “Certo... coloquem os abafadores”, ela ordenou, já colocando os próprios.
Eu rapidamente coloquei os meus, cuidando para que estivessem bem colocados, e observei a professora dobrar as mangas de suas vestes, agarrar um dos rabanetinhos e puxá-lo com força, puxando uma coisa bizarra de lá.
Eu já tinha ouvido mamãe mencionar mandrágoras uma vez que parece que uma delas tinha surgido na nossa horta, mas nunca tinha visto uma; ela era estranha, parecendo um bebê e, pelas caretas, estava berrando com todo o pulmão que tinha.
Que nojo.
Não era à toa que mamãe não queria tê-lo na horta.
Bom, isso e o treco do berro dele ser fatal, acho.
Então, a professora retirou um vaso de sob a bancada, colocou a mandrágora no interior e começou a cobri-la com um composto escuro estranho até que apenas as folhas ficaram do lado de fora, assim como estava no tabuleiro.
Depois, limpou as mãos e ergueu os polegares; todos nós tiramos os abafadores.
“As nossas mandrágoras são apenas mudinhas, por isso seus gritos ainda não dão para matar”, esclareceu, “Mas, elas deixarão vocês inconscientes por várias horas, e como tenho certeza de que nenhum de vocês quer perder o primeiro dia de aula, certifiquem-se de que seus abafadores estão no lugar antes de começarem a trabalhar. Chamarei sua atenção quando estiver na hora da saída”, concluiu.
Harry, Hermione e eu ficamos em volta de um tabuleiro e um garoto da Lufa-Lufa aproximou-se, identificando-se como Justino Flinch-Fletchley, e identificando cada um de nós.
“... e Rony Weasley”, ele disse, depois de falar os nomes de Harry e Hermione, “O carro voador era seu, não era?”, ele perguntou, apenas acenei, distraído, já que não queria desmaiar e estava tentando desesperadamente prender o abafador da melhor maneira possível.
Depois, eu vi que ele continuou falando, mas não ouvi nada.
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“Aquilo era loucura”, reclamei, enquanto abandonávamos a estufa em direção ao castelo, “Aquilo não eram plantas, eram seres cuspidos do inferno”, cuspi.
“As mandrágoras são difíceis de lidar”, Hermione respondeu, revirando os olhos, “Achei muito legal a professora Sprout nos dar a oportunidade de entrar em contato com elas. Se você soubesse a importância delas para o mundo bruxo, Ronald, certamente não ficaria reclamando...”
“Se elas fossem tão importantes para o mundo bruxo”, interrompi-a, “minha mãe não ameaçaria o meu pai de estuporá-lo se ele não tirasse uma que apareceu na nossa horta”
Harry resolveu colocar-se entre nós dois, antes que uma discussão começasse.
“Qual é a próxima aula?”, perguntou, querendo mudar de assunto.
“Transformações”, disse Hermione, sem sequer olhar o horário, “Já decorei o horário”, respondeu à pergunta ainda não formulada por um de nós dois, com um sorriso tímido.
XxXxX
Eu gosto das aulas de Transformações, normalmente.
É óbvio que eu nunca tinha ido a uma aula de Transformações com uma varinha remendada porcamente por fita adesiva.
Acredite-me: não é tão divertido.
“Como é o primeiro dia de aula e tenho certeza que vocês não praticaram magia durante as férias”, a professora McGonagall disse, observando a sala com uma expressão indiferente, “começaremos esta aula com um feitiço simples”, com um aceno de sua varinha um besouro surgiu na frente de cada aluno, “vocês transformarão esses besouros em um botão, assim”, fez um movimento com a varinha e, imediatamente, o besouro que andava sobre sua mesa paralisou-se, começou a ficar achatado e redondo, até tornar-se um botão escuro de plástico que ela segurou na palma da mão, mostrando para os alunos.
“Ah, não parece tão difícil”, disse Hermione, claramente aliviada, “Fiquei preocupada que ela fosse exigir algo mais trabalhoso, como a professora Sprout”, disse, enquanto dava um toquinho de leve no besouro com sua varinha, tentando guiá-lo para o centro da mesa.
“Fale por você”, Harry respondeu, num murmuro, “eu não lembro mais nada do que aprendemos no ano passado”.
“É, eu também não”, concordei, amargo; então, minha varinha estalou quando movimentei-a, atraindo a atenção de todos para mim.
A professora McGonagall me observou com as sobrancelhas erguidas.
“Algum problema, senhor Weasley?”, perguntou.
“Não, professora, nenhum!”, dei um sorriso amarelo e abaixei a varinha, na esperança que ela não visse o estado lastimável em que esta se encontrava.
Assim que a atenção de todos voltaram-se para a nossa árdua tarefa, Harry, Hermione e eu começamos a tentar colocar em prática o que a professora tinha demonstrado. Hermione conseguiu com perfeição de primeira, Harry parecia muito mais preocupado em tentar evitar que seu besouro caísse da mesa e cada vez que eu mexia minha varinha, ou ela soltava faíscas ou fumaça.
O que não era agradável.
“Rony, tem certeza que essa varinha é confiável?”, Hermione perguntou, preocupada, “Talvez seja melhor você não ficar movendo ela por aí... pode acabar colocando fogo em alguma cortina...”
“Não, Hermione, isso não será problema”, resmunguei, mal humorado, “Porque colocar fogo em algo seria uma utilidade e isso é uma coisa que essa coisa estúpida aqui”, rosnei, acenando a varinha em todas as direções e observando-a estalar algumas vezes mais, “não tem utilidade nenhuma!”
Hermione lançou-me um olhar relutante.
“Quer tentar usar a minha?”, ofereceu, estendendo a sua varinha.
“Não”, respondi, teimoso, apoiando o meu cotovelo na mesa, emburrado, “Eu vou dar um jeito sozinho”
“Então acho melhor você pedir um novo besouro, Rony...”, pronunciou-se Harry, inclinando-se para me ver, já que Hermione estava entre nós, e apontando para o meu cotovelo.
Eu tinha acabado de esmagar o meu besouro.
Ótimo.
XxXxX
Eu estava extremamente rabugento quando chegamos ao refeitório e não melhorou nada quando Hermione tirou dos bolso uns quinze botões pretos e redondos.
“Eu não tenho idéia do que vou fazer com isso”, declarou, enquanto nos sentávamos à mesa da Grifinória, “Eu poderia mandá-los para minha avó, ela adora bordar”, acrescentou, pensativa.
“Claro, você podia acrescentar que é feito de besouro. Ela certamente vai adorar”, acrescentei, sarcástico, fazendo Harry dar uma risada, e Hermione apenas lançou-me um olhar atravessado, mas não disse nada.
“Acho uma ótima idéia você mandar os botões para a sua avó, Hermione”, Harry disse, recebendo um sorriso grato da garota, “Que vamos ter hoje à tarde?”, perguntou, puxando um prato para perto e começando a observar as travessas de comida do almoço.
Puxei a agenda de Hermione para perto para ver o horário, mas ela logo respondeu que seria Defesa Contra as Artes das Trevas; foi então que eu vi que o horário dela estava meticulosamente colado na contracapa de sua agenda.
E que os horários que apontavam aula de DCAT estava cheio de coraçõezinhos.
“Por que”, comecei, entre perplexo e enojado, “você sublinhou com coraçõezinhos as aulas do Lockhart?”
Hermione arrancou a agenda das minhas mãos com as bochechas tão vermelhas que pareciam ser da cor do meu cabelo.
Eu não sei exatamente o porquê, mas alguma coisa dentro de mim grunhiu, desgostosa com a situação.
Provavelmente era meu estômago, exigindo comida.
Continua...
N/A: Aqui está um novo capítulo dessa minha fic!
É, sem sombra de dúvidas, uma das minha fanfics favoritas! (:
Amo escrever ela, mesmo que quase ninguém leia. HAHAHA
Comentem me dizendo o que vocês acharam, OK? :*
Amo vocês e até o próximo capítulo,
Gii Weasley.