No que concernia a Harry, aquele era simplesmente outro dia mais no inferno. Não estava seguro de por que tinha pensado que seria preferível matar o tempo em um uniforme laranja que em um verde.
Mas dois anos atrás, quando em um arranque de ira tinha decidido disparar sobre o capacete de seu comandante, imaginou-se que algo, inclusive um tribunal de guerra e o cárcere, seria melhor que o que o Exército reservava para ele.
Deus, que equivocado estava.
Agora ia passar os próximos vinte e cinco anos dentro dessas quatro paredes, escutando os outros detentos soltar discursos estúpidos enquanto tinha que lutar diariamente para deixar claro o fato de que ele era o galo do galinheiro e que se alguém queria algo dele, ia ter que morrer por isso.
Oh, sim, sua vida era maravilhosa.
—Potter?
Elevou a vista das cenouras que estava cortando com uma colher para observar que um dos guardas o olhava.
—Tem visita.
Levou-lhe uns vinte segundos assimilar essas palavras inesperadas.
Visitas? Para ele?
Quais eram as probabilidades disso? Sua família o tinha abandonado no dia que tinha sido detido.
O mesmo tinha acontecido com seus amigos. Não é que nunca tivesse tido muitos. Sempre tinha sido um solitário a maior parte do tempo, algo que tinha a ver com o fato de que fora um garoto do Exército cuja família era transportada de lugar em lugar cada três ou quatro anos. Os únicos verdadeiros amigos que tinha tido tinham sido o velho louco do Jack e Brian. Jack estava agora escondido em um refúgio longe do mundo, e o mais provável era que não tivesse nem idéia do que tinha acontecido a Harry nem a Brian.
Estremeceu-se ante a dor que o rasgava. Como tinha podido sua família cortar todos os laços com ele tão facilmente? Nunca teria feito isso a alguém, mas apesar de todos seus intentos e propósitos, ficou completamente órfão e abandonado por todos aqueles que uma vez, equivocadamente, tinha acreditado próximos. Nenhum deles queria que a mancha que supunha seu encarceramento os poluísse. Como se fossem eles que tivessem de viver o horror em que se converteu sua vida.
Durante os últimos dezoito meses quão únicos tinham vindo a vê-lo tinham sido seu advogado e um estúpido babaca que queria contratá-lo para matar pessoas.
Sim, muito bem. Isso de matar por um salário se acabou. Se o tio Sam não tinha podido conseguir isso dele, ninguém poderia. Seus dias de apertar o gatilho se acabaram. Harry desligou esse aparelho tão viril que era o processador de comida, logo se limpou as mãos em seu igualmente viril avental. Tirou o avental por cima da cabeça e o pendurou em um gancho na parede.
—Não pode sair. — gritou o cozinheiro chefe ao guarda, que era mais de sete centímetros mais alto que Harry. De constituição robusta, Hank não era o mais benevolente dos guardas dos prisioneiros. Mas sim era desses que fazem que todos tenham má reputação. Se não tivesse sido por um capricho do destino, não cabia dúvida de que esse homem deveria ter estado no lugar de Harry, quer dizer, detrás daquelas grades que desfrutava golpeando quando descia aos corredores durante a noite. Harry realmente detestava esse idiota — Temos que acabar com a comida.
—Então será melhor que encontre outro que faça funcionar o processador de comidas. —disse Hank — Estas pessoas não são o tipo de pessoas que gostam de esperar.
Harry soprou.
—O que acontece? Acaso temos lá fora o fodido presidente ou algo parecido?
Hank fez uma careta com o lábio.
—Controle-se, Potter. Não são o tipo de pessoa a quem pode se permitir encher o saco.
Sim, claro. As pessoas terminavam enchendo o saco de todo tipo de gente em algum momento. Nem o próprio presidente, por maior que fosse, salvava-se disso.
—Possivelmente você não, Hank, mas já veremos o que acontece comigo.
Hank não parecia impressionado por sua atitude.
—Será seu funeral.
O guarda o conduziu para o vestíbulo, onde o estavam esperando para esbofeteá-lo. Harry ficou rígido. Uma parte dele preferia lutar antes que mostrar-se submisso, mas nas primeiras semanas de seu lamentável fechamento tinha aprendido que lutar contra os guardas realmente não merecia a pena.
No Clube Leavenworth a humilhação diária era tão somente uma parte do curso. E se era realmente afortunado, poderiam inclusive despertá-lo em plena noite e o fazer esfregar privadas com sua escova de dentes outra vez.
Oh, maravilha.
Apertando os dentes, esforçou-se para não reagir enquanto Hank o agarrava pelo braço e o arrastava para a sala de convidados que estava reservada para as consultas com os advogados. Não tinha estado ali desde a última vez quando seu advogado lhe havia dito que a última apelação que tinha feito tinha sido rechaçada. Agora o advogado, que tinha tirado até seu último centavo, não retornava as suas chamadas. Sim... sua vida dava para rir.
Não é necessário dizer que não se sentia particularmente excitado ante a idéia de estar ali outra vez enquanto todas essas emoções reprimidas se agitavam em seu interior, enchendo-o de ira.
Em algum momento chegaram à sala correta — e a sorte quis que fosse a mesma sala em que tinha perdido sua última esperança —, o guarda abriu a porta e o empurrou para dentro.
Harry deu um tropeção, mas conseguiu manter o equilíbrio e cair rígido na banqueta. Os orifícios de seu nariz se alargaram enquanto mantinha presa sua raiva e conservava o olhar no chão. Ansiava desesperadamente dedicar um olhar de ódio a Hank, mas sabia muito bem que era melhor não fazê-lo. Em lugar disso, notou como trabalhava um músculo de sua mandíbula enquanto se endireitava para olhar às pessoas que estavam ali para falar com ele.
Como o resto da prisão, a sala era cinza, mas embora as paredes tivessem estado pintadas de um rosa picante com putas nuas retratadas nelas, as pessoas que tinham ido a vê-lo teriam destacado.
Tinham sido treinadas pelo governo. Ele podia cheirá-lo. Surgia de cada poro de seus corpos, apesar de que fossem vestidos como civis e o homem levasse o cabelo mais comprido que a mulher que havia a seu lado. Harry fixou o olhar no braço direito do homem, onde aparecia uma tatuagem por debaixo da longa manga azul escura. Levava calças negras vincadas e uma gravata de listras vermelhas, mas tudo isso não conseguia ocultar o fato de que aquele homem não era tão refinado como pretendia aparentar.
Havia nele algo selvagem e perigoso... era o tipo de homem com quem tinha que brigar em um bar porque sua mulher se atreveu a olhá-lo.
E que Deus o protegesse se fosse tão estúpido para falar com ela.
A mulher que havia a seu lado apresentava uma estranha dicotomia. Era uma vietnamita-americana se ele não se equivocava. Vestida com uma blusa branca e uma saia negra curta, aparentava seriedade e calma. Entretanto, seus instintos lhe diziam que aquilo era só uma fachada. Seus movimentos eram muito precisos. Muito estudados. Harry sentia que ela era tão agudamente consciente dele como ele o era dela. Seu cabelo castanho claro e curto emoldurava perfeitamente seu atrativo rosto e o observava com um par de desalmados olhos negros.
Mas era a mulher que se achava de pé em um canto, com os braços cruzados sobre o peito, quem lhe chamava mais a atenção. Estava totalmente inexpressiva e vestida com calças jeans, uma camiseta vermelha folgada e uma jaqueta de couro marrom. Não era muito alta, devia medir um metro e sessenta ou pouco mais. Não era pequena nem gorda, mas sim de compleição bem firme.
A imagem de uma guerreira amazona surgiu em sua mente. Sim, podia imaginá-la dessa forma. Com uma espada em uma mão e um chicote na outra, enquanto enfrentava sem medo o inimigo.
Ou melhor ainda, nua sobre o cara que ela mesma tinha prendido a sua cama.
Aquele pensamento quase o faz sorrir. Só a dor de sua repentina ereção o fez evitar isso. Tinha passado muito tempo da última vez que tinha falado com uma mulher. Não teria se importado nada estar tão perto de uma para que esta pudesse efetivamente chegar a atá-lo.
O que teria dado para estar cinco minutos a sós com ela…
Harry se esforçou por não delatar esses pensamentos, mas era difícil.
Ela tinha uma longa juba ruiva atada em uma trança que lhe chegava até a metade das costas. Sem dúvida, seu cabelo seria suave ao tato. Como seda contra seu rosto enquanto ele se aproximava de seu pescoço...
Aquilo bastou para que lhe desse vontade de gemer.
A mulher usava uns óculos com armação de tartaruga marinha que estavam muito longe de ocultar seus olhos castanhos, que tinham um ar felino. Algo ardente e perverso surgia em seu interior quando a contemplava.
Cada parte dele parecia extranhamente sensível a sua presença. Sim, passara muito tempo na prisão. Ela estava muito longe de ser seu tipo. Parecia mais capaz de dar um chute no traseiro de um homem do que montá-lo.
E, entretanto, tinha que esforçar-se para não olhá-la fixamente, e nem sequer sabia bem por que. Seus lábios e seus olhos eram um pouco grandes e sua postura um pouco masculina.
Mas inclusive assim, havia algo nela que resultava do mais atrativo.
O guarda o conduziu até uma cadeira em frente à mesa ante a qual se achavam eles.
—Tire suas algemas — disse o desconhecido em um tom aborrecido.
—Isso vai contra o protocolo.
—Que-o seja — repetiu isso, acentuando as sílabas de cada palavra sem nem sequer olhar ao guarda.
Hank lhe lançou um olhar de ódio antes de obedecer à contra gosto. Harry se conteve para não fazer uma careta enquanto Hank puxava sua mão com tanta força que, por um momento, acreditou que ia quebrá-la.
—Muito bem, se atacá-los...
—Se nos atacar, morrerá antes de cair ao chão. — disse a mulher que estava sentada em tom distraído enquanto procurava algo em sua grande maleta de couro negro — E estou segura de que ele sabe.
Harry esfregou os pulsos enquanto segurava a cadeira para retirá-la. Sentou-se e, olhou com expressão áspera ao casal que tinha diante.
O guarda se colocou junto à porta.
—Espere fora. — disse o homem.
—Isso...
—Espere. Fora. — acentuou de novo as sílabas. Oh sim, haveria um inferno aguardando-o quando esses três partissem e Hank pudesse lhe demonstrar sua superioridade. Harry não podia esperar.
O guarda fez a eles um gesto de desprezo antes de obedecer.
—Obrigado. — disse Harry com sarcasmo enquanto sua ira crescia outra vez — Estou desejando voltar aí dentro. Vocês se especializam em algo que não seja enemas de ácido?
Os olhos da mulher vietnamita brilharam ao ouvir aquilo enquanto colocava sua maleta no chão.
—Oh, é arrogante. Eu já gosto.
O homem, igual à outra mulher, que continuava afastada a um lado, tinha um rosto absolutamente inexpressivo. Harry não podia deixar de sentir admiração por isso. Necessita-se muitíssima prática para ser capaz de não transparecer nenhuma emoção. Ele sabia muito bem, já que tinha praticado religiosamente.
Quando o homem falou, seu tom foi tão frio quanto a linguagem de seu corpo.
—Estamos aqui para lhe fazer uma oferta especial, senhor Potter. Uma oportunidade dessas que se dão só uma vez na vida.
Harry soprou.
—Oh, espere. Já vi esse filme. Eu faço um trabalho para você e você me deixa partir. Então, quem sou? Não posso ser Eddie Murphy, não sou negro. Não sou calvo, assim tampouco posso ser Vin Diesel. Portanto, o que fica?
A mulher lhe dedicou um sorriso malvado.
—Pense no Snake Plissen. Viu “Escapar de Nova Iorque”? Você faz o trabalho e, se não estragar as coisas, o deixaremos com vida.
—Sim, vi esse filme. Ao final eles tentam matá-lo de todas as formas.
O homem ainda não tinha deixado transparecer nenhum tipo de emoção.
—Bem, então já conhece nossos métodos. Isso me economiza muito tempo de treinamento e a você muitas surpresas.
Harry sacudiu a cabeça. Estavam mais cheios de merda que um prado de vacas.
—Olhem, não me fodam. Não tenho tempo para isto...
—Ah, não? — perguntou a mulher — Me parece que tempo é o único que te sobra.
Ele a olhou com ódio.
—Por que não procura outro imbecil para esta aventura suicida? Sei que o Exército não vai me deixar ir como se nada tivesse acontecido.
—E nós tampouco. —disse o homem— Nunca deixamos que as pessoas irem como se nada tivesse acontecido.
Por que isso não lhe surpreendeu? Provavelmente, porque os três tinham a atitude de... bom, a falta de outro termo melhor, digamos de Satã.
—Quem são vocês? Wolfram e Hart?
A mulher vietnamita-americana riu ao captar a referência ao programa de televisão.
—Oh, não, querido, eles só ficam com sua alma. Nós pretendemos ficar inclusive com algo mais que isso.
Não era muito reconfortante.
O homem esfregou o olho direito.
—Este é o trato que o oferecemos. Você resolve nosso assunto nos deixando completamente satisfeitos e, em lugar de passar os próximos vinte e cinco anos cortando batatas e fazendo bordado para o Exército, trabalha para nós. É obvio nos pertencerá, noite e dia.
Isso soava excelente... Não, ele não ia trocar uma situação de merda por outra igual.
—A escravidão é anticonstitucional.
—Diga isso ao governador. — respondeu a mulher vietnamita-americana.
Harry a observou enquanto abria uma pasta de cânhamo e revisava seus conteúdos.
Ele não acreditou nem durante um minuto em nada daquilo, mas sua curiosidade o traía. Inclinou a cabeça para trás para tentar ver o que ela estava olhando, mas não pôde.
Instintivamente, pensou que já conhecia aquele guia.
—Então, a quem querem que mate?
O homem foi quem respondeu.
—Ninguém disse...
—Deixa de conversa fiada. — soltou Harry interrompendo-o. Queria a verdade, e a queria ouvir sem rodeios — Não sou estúpido. Só tenho uma habilidade na vida. Sou um franco-atirador. Se estão aqui, significa que querem alguém morto, necessitam-no desesperadamente, e não podem encontrar ninguém o bastante idiota para fazê-lo.
—Não é verdade. — a mulher que estava de pé por fim falou, com uma voz que lhe recordou a de Lauren Bacall. Era uma voz grave, ligeiramente adornada com a matiz de algum acento de Nova Inglaterra — Há muitíssimos homens suficientemente estúpidos para isto. Só que nenhum tem tanto talento quanto você, senhor Potter.
Ele riu amargamente ao ouvir isso.
—Odeio que me chamem senhor Potter. Recorda a minha professora de terceiro grau, da escola paroquial a que fui quando era menino. Ela usava esse nome justo antes de me golpear os nódulos com uma régua ou antes de me envergonhar em frente aos outros estudantes.
Ela entrecerrou esses olhos castanhos como se duvidasse entre mostrar-se zangada ou divertida.
—Seja como for, precisamos de você particularmente para levar a cabo esta missão.
Ele soltou um bufo. Missão. Um grande eufemismo para o que em realidade queriam.
—O que acontece com todos os imbecis do governo para que não possam dizer as coisas com claridade? Sempre têm que ir pelos ramos e usar eufemismos ou malditos anacronismos para tudo?
—Bem. — a mulher de olhos castanhos se adiantou para olhá-lo com raiva. Deteve-se uns poucos centímetros da mesa, o bastante perto para que ele pudesse notar que usava um perfume caro, o qual parecia uma estranheza tendo em conta a dureza de sua atitude — Precisamos que mate um assassino antes que ele leve a cabo seu objetivo. Ou você come o urso, ou o urso come você, senhor Potter. Ou para agradá-lo, dito bem claro... você encontra e mata o assassino ou nós matamos você. Fim da história.
Harry se burlou.
—Se tiverem tanto interesse em matar alguém, por que não o fazem vocês mesmos?
Ela deu de ombros despreocupadamente.
—Faria-o se soubesse quem é. Mas, infelizmente, não sei. E, além disso, não tenho a habilidade que você possui.
A outra mulher fechou a pasta e a colocou sobre a mesa.
—Sabemos tudo sobre seu treinamento no corpo oculto do Exército, senhor Potter. Inclusive temos um de seus velhos camaradas em nossa palmilha, mas infelizmente se deu contra uma árvore esquiando em uma zona perigosa e complicou nossos planos. Dado que estará fora de serviço durante um tempo, ele o recomendou para substituí-lo. Aparentemente não está à corrente do lugar onde se aloja atualmente.
O homem deslizou a pasta para ele.
—Se aceitar trabalhar para nós, estamos em condições de suprimir sua documentação. Será dada a você uma licença honorável do Exército e seu pequeno período no cárcere será apagado de todas partes menos de seus pesadelos.
Aí havia algo pelo qual seria capaz de matar... Possivelmente.
Harry abriu a pasta que continha os papéis da licença, já assinados, junto com uma ordem do Pentágono e do governador de libertá-lo de sua custódia.
Estava impressionado. E quando olhou o papel que havia debaixo onde vinha escrito seu novo pagamento e benefícios, ficou ainda mais impressionado.
Mas ainda ficavam muitas perguntas sem resposta.
—Quem é sua gente?
O homem se inclinou para trás.
—Não precisa saber isso agora. Depois de que tiver aceitado a oferta falaremos sobre os detalhes.
Soava bem. Muito bem, de fato, e ele não era tão inocente para pensar que estavam sendo benevolentes com ele. Nada na vida vinha sem um preço que frequentemente a gente compreendia quando já era muito tarde.
—Há um detalhe que quero saber agora.
—Qual é?
—Depois de fazer este trabalho, o que me ocorrerá?
Os olhos azuis do homem se cravaram nele.
—Continuará trabalhando para nós. A efeito prático somos seus agentes de liberdade condicional.
—Só que levamos revólveres. — disse a mulher de olhos castanhos — Revólveres grandes. E não temos inibições na hora de usá-los. Se tentar nos foder ou nos trair o mataremos. Sem rodeios. Adeus, senhor Potter. São palavras bastante claras para você?
Ele sacudiu a cabeça ante sua frieza.
—Aposto que dormirá bem esta noite.
—Não tem nem idéia.
Harry folheou as páginas da pasta enquanto refletia a respeito do que o estavam oferecendo. Como podia dizer não? Como podia dizer sim?
E o mais importante, em que demônios ia meter-se? De repente, sentiu-se como Joe Ardi de pé frente ao senhor Aplegare. Vagamente se perguntou se a descarada mulher que seguia ali de pé se chamaria Lola.
Entretanto, o diabo sempre era retratado como um homem mais velho, e o que tinha diante dele...
Embora fosse certo que havia algo malvado nele.
—Quanto tempo tenho para tomar minha decisão?
A mulher vietnamita-americana deu de ombros.
—O juiz disse vinte e cinco anos sem possibilidade de liberdade condicional. Isso significa que terá... cinquenta e quatro anos quando sair? É realmente uma merda, não? Não haverá mulheres quentes com saias curtas para correr atrás porque será um velho de merda sem futuro. Terá passado os melhores anos de sua vida lutando contra homens que pensam que tem um precioso traseiro sobre o qual adorariam equilibrar-se.
Harry enrugou a cara com desgosto.
—Ela é assim em casa?
O homem seguia sem mostrar nenhuma emoção.
—Acrtedite em mim, está sendo amável com você. Normalmente é muito pior. — olhou a mulher que tinha a seu lado — Está bem, Hermione?
—Nunca estive melhor.
Harry respirou profundamente, mas já sabia o mesmo que eles. Em realidade não tinha escolha. A última coisa que queria era esbanjar sua vida entre as grades. Como havia dito a mulher de olhos castanhos, era uma merda estar aí.
Inclinou-se para trás enquanto olhava aos três.
—Não querem saber se não pretendia matá-lo e sou inocente?
—Isso não nos importa. — disse o homem tranquilamente — Além disso, inclusive embora quisesse matá-lo poderia mentir dizendo que não.
Harry se levantou devagar e deslizou a pasta ao homem por cima da mesa. Olhou às mulheres, logo continuou olhando ao homem de maneira resolvida. A ira cresceu em seu interior e estava seguro de que podia ver-se em seus olhos.
—Se tivesse querido matar esse filho da puta, agora estaria morto. Eu não cometo esse tipo de enganos. Um disparo. Um morto. Eu vivo e morro por meu código de franco-atirador.
—É por isso que o queremos, senhor Potter. — disse com calma a mulher que estava sentada.
O homem o olhou fixamente sem pestanejar.
—Então, qual é sua resposta?
—Me tirem deste fodido lugar.
O homem e a mulher ficaram em pé de uma vez. A mulher vietnamita-americana levantou uma pequena bolsa de compras do chão, logo o ofereceu enquanto a outra mulher e o homem se moviam para a porta.
—Bem-vindo de volta ao mundo, senhor Potter. — disse com um sorriso que era uma estranha combinação de paquera e maldade — Vista-se, Joe o estará esperando fora para tirá-lo daqui.
Harry estava surpreso por suas palavras. Não era possível que fosse tão fácil.
Agarrou a bolsa de plástico e a abriu para encontrar umas calças jeans, uma camisa texana e um par de tênis Nike para correr. Tudo era de seu tamanho.
Sim, essas pessoas eram definitivamente agentes secretos.
—Eu sou Joe. — disse finalmente o homem — Simplesmente, bate na porta quando estiver preparado para sair.
Harry permaneceu em silêncio enquanto o deixavam a sós. Aquele era o momento mais surrealista de sua vida. Inclusive mais estranho que seu primeiro dia na prisão. “Oh, Por Deus, não pense nisso.”
Deveria existir alguma maneira de apagar algumas lembranças da mente humana de forma permanente. Mas logo, se podia acreditar no que eles haviam dito, tudo aquilo ficaria para trás. Uma parte dele ainda não podia acreditar. Estar de novo fora sem nenhum imbecil segurando um rifle atrás dele... A felicidade o embargou enquanto tirava sua roupa de presidiário e a substituía pelos jeans e a camisa. Quase se sentia humano outra vez. Quase.
—Sim, mas o que vão fazer quando se derem conta de que não estou disposto a voltar a matar ninguém alguma vez mais?
Deveriam ter procurado um pouco mais profundamente em seu relatório para ver qual era a razão exata pela qual tinha disparado um tiro em seu comandante.
Oh, bom. De todos os modos, quanto dano podia lhe fazer uma bala na cabeça? Ao menos, liberaria-o de sua desgraça.
A merda. Se eles tentavam atirar nele, ele os ensinaria por que era o melhor franco-atirador de sua unidade.
(...)
Feliz páscoa a todos :D
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