Uma rajada de vento formou uma nuvem de poeira. O olhar dela se aguçou ao detectar movimento na nebulosidade. O ar se desanuviou ligeiramente, possibilitando entrever cavalos e cavaleiros. Na densidade obscura da vegetação, era difícil dizer quantos eram, meia dúzia, talvez mais.
Hermione não avisou Rony da presença dos cavaleiros até que o pequeno bando viu o carro avariado e parou para fitá-lo curiosamente. Um Mercedes azul no fim do mundo não era uma visão comum.
- Rony, há alguém aí. - falou, finalmente.
- O quê? - Ele inclinou-se para ela. – Onde?
- Ali. - Hermione apontou, atormentada por um medo que não conseguia explicar. - A cavalo. Não está vendo!
- Sim, estou - respondeu ele.
- Quem acha que sejam?
Ela continuou a observá-los, achando estranho que não se tivessem aproximado para investigar.
- Vaqueiros mexicanos, pelo jeito - concluiu Ronald. - Ouvi dizer que há muitas estâncias nessa área. É região de gado.
Ela franziu o cenho, incerta.
- É, pode ser.
- Não se preocupe. Não vou correr nenhum risco.
Debruçou-se para o banco de trás e abriu sua velha mala de viagem. Hermione olhou por cima do ombro para ver o que estava fazendo. Arregalou os olhos, surpresa, ao ver o revólver de cano curto sendo retirado de sob uma pilha de roupas.
- O que vai fazer com isso?
Ronald ignorou a pergunta. Verificou se a arma estava carregada antes de enfiá-la na cintura e abotoar o paletó.
Ao abrir a porta, ordenou:
- Fique no carro.
O olhar dela voltou-se rapidamente para o bando de cavaleiros que se aproximava do carro serenamente. Quando Rony saltou, um dos cavaleiros separou-se dos demais e adiantou-se.
- Alô! - cumprimentou Rony, caminhando até o capo levantado.
- Buenos dias, señor - retrucou o homem.
Parou o cavalo e desmontou, o corpo robusto envolto num poncho sujo, de listras vivas.
- Fala inglês? - indagou Ronald.
- No hablo inglês - respondeu, sacudindo tristemente a cabeça.
- Olhe - Rony inspirou fundo e soltou um suspiro irritado -, meu carro enguiçou. - Fez sinal ao homem para que viesse para a frente do carro. - Está vendo! A mangueira do radiador rebentou.
O outro fez um comentário em espanhol que parecia adequadamente solidário aos problemas do ruivo. Dava de ombros, demonstrando a sua impotência para ajudar, enquanto se afastava do capo.
Os outros cavaleiros se haviam agrupado junto ao cavalo do homem, observando o que se passava.
Hermione contou oito homens, nove com o que falava com Ronald. Não podia reprimir a sensação estranha que lhe dava calafrios na espinha. Era como se alguma parte primitiva dela tivesse farejado o perigo.
Ignorando a ordem de Rony, saltou do carro.
- O carro não vai andar até que seja consertado. O que preciso é de... - Rony se interrompeu ao ouvir o barulho da porta do carro se fechando e olhou feio para Hermione. - Volte para o carro.
O olhar dela não se desviava dos cavaleiros.
- Vou ficar aqui.
Era um grupo heterogêneo de homens. A poeira cobria as suas roupas, uma variedade de ponchos e calças. Os cavalos eram pequenos e mirrados, insignificantes se comparados com os cavalos fortemente musculosos comuns no Estado natal da castanha.
Combinando a pantomima com uma tentativa de linguagem de sinais, Rony se esforçava para comunicar-se com o mexicano. Hermione o observava com o canto dos olhos.
- Tem alguma cidade ou aldeia aqui por perto onde possa consertar o carro! - Rony dizia as palavras devagar, fazendo mímica quando podia. - Tenho que achar alguém para consertar o carro... para que volte a funcionar. Comprendez?
O homem escutou e observou atentamente, mas, no final, sacudiu a cabeça pesaroso e levantou as mãos espalmadas.
- No entiendo, señor.
Rony murmurou baixinho para Hermione:
- Por que esses malditos mexicanos não aprendem a falar inglês! - Recomeçou tudo. - Há alguém por aqui que possa consertar o carro!
O olhar de Hermione percorreu, desconfiado, o grupo de cavaleiros, fixando-se sempre num único homem, embora, superficialmente, nada houvesse nele que o distinguisse dos demais. Usando um chapéu de cowboy de aba larga, coberto de pó, estava largado na sela, a mão enluvada pousada no arção dianteiro. No entanto, Hermione sentiu uma vigilância animal por trás da pose indolente.