Hermione...
O restante do final do ano passou rápido, em meio a muita neve. Os preparativos para o segundo semestre do ano letivo estavam a todo o vapor, e o Prof. Flitwick instruía Hermione sobre o currículo que tinha abordado até então e como a escola administrava a questão docente. Ela aprendia tudo com rapidez e competência, deixando o seu antigo mestre inflado de orgulho.
As aulas então começaram, e Hermione aos poucos foi se adaptando aos alunos. Alguns estranhavam, pois ela tinha o hábito de andar pelas mesas verificando as tarefas e ajudando um ou outro que tinham mais dificuldade. Ela, normalmente, se abaixava perto dos menores, para ficar na mesma altura deles, e conversava os conduzindo às respostas. Eles aprendiam a pensar ao invés de apenas repetir conceitos. Já com os mais velhos, usava a linguagem deles, e sempre respondia com simpatia quando eles ficavam curiosos sobre sua história como heroína de guerra.
Em pouco tempo, ela passou a ser admirada pelos alunos, que pareciam cada vez mais ansiosos quando ela entrava em sala. Eventualmente, ela levava alguma atividade divertida e agradável, sempre de forma lúdica, para ser realizada em sala ou nos jardins. Os alunos, nessas ocasiões, adoravam e riam com ela. Não demorou muito para os professores saberem das técnicas de Hermione em sala de aula. Tanto que, certa vez, ela fora questionada por Madame Hoock pelo fato de não estar aplicando a devida disciplina aos alunos, e inserindo elementos fora do currículo em sua grade.
- Isto é uma escola, e não o exército. Não acredito que disciplina por si só ensine alguma coisa, Madame Hoock. – ela respondeu, mantendo o rosto impassível, mas seu coração pulava, com os olhares da sala de professores inteira sobre ela. – Muito pelo contrário. Eu, por boa parte da vida segui as regras com extrema disciplina e nem sempre isso resultou de forma absolutamente eficaz. Eu fui alfabetizada em uma escola trouxa e lá alguns métodos semelhantes podem ser encontrados. Nada do que aprendi lá corrompeu meu aprendizado em Hogwarts ou tem feito mal à minha vida adulta.
Vários “ohs” foram sussurrados.
Madame Hoock estava abrindo a boca para contestar, quando foi interrompida.
- Eu tenho absoluta confiança nos métodos de ensino da Professora Granger, querida. – Dumbledore, se aproximou por trás de Madame Hoock, a tocando no ombro. – Agradeço a sua preocupação e a compreendo. Porém, eu me certifiquei pessoalmente dos métodos que a Professora Granger decidiu aplicar em suas turmas, e asseguro que nenhum mal poderá recair sobre nossos alunos, caso façamos uso de alguns conceitos trouxas em determinados momentos. – Alguns professores se movimentaram com desconforto, obviamente não gostando nada do que ouviam. - Tenho certeza também que já podemos ver os resultados, em alunos mais felizes e menos desesperados com os exames. – ele sorriu com os olhos brilhando para Hermione. – Oh, a propósito, acredito que acabo de ter uma de minhas brilhantes idéias. Com licença. – e se retirou, com ar sonhador.
A fala de Dumbledore cessou a discussão, mas não colocou fim ao desagrado de alguns professores. Porém, nada impediu a mudança que, devagar, Hermione estabeleceu com suas turmas. Rapidamente, ela se tornou a professora querida de todos os alunos, e de vez em quando se encontrava no jardim, ao sol, conversando e rindo com eles. Ela estava sempre disponível, até mesmo para ajudar algumas alunas mais desajuizadas, a cuidarem de sua saúde sexual.
O semestre passou voando, e após os alunos saírem de férias, ela pensou que poderia ter um pouco de descanso, mas suas atividades aumentaram algumas semanas antes das férias. Ela havia sido convidada para ministrar palestras e dar workshops na universidade em que se formara, pelo fato de ter sido a mais brilhante aluna de sua turma e ter a admiração de todo o corpo docente.
Em seu segundo ano da graduação, ela bateu um recorde: foi a única aluna a tirar nota máxima numa determinada disciplina em toda a história da universidade. Isso lhe rendeu um prêmio e uma homenagem em sua formatura. Junto, veio - por mais um motivo em sua vida - a fama. Aproveitando-se disso, a universidade promovia os eventos, e os alunos conhecendo a lenda ‘Hermione Granger’, se apinhavam no auditório para ouví-la.
Toda essa maratona e as aulas em Hogwarts impunham o cansaço que estava pesando em todos, tanto que muitos estavam nos limites de sua paciência. Hermione era uma delas e sentiu-se imensamente grata ao entrar no seu quarto e tirar os sapatos naquela noite abafada de junho. Ela fez uma música relaxante tocar foi tomar um banho.
Quando saiu só de roupão, secando os cabelos com uma toalha, um barulho na janela chamou sua atenção. Era uma coruja, com uma carta no bico, com a qual ela ficou surpresa e comovida. Sua amiga da faculdade da França, Chris estava convidado-a para passar um fim de semana com ela, na Itália, onde os pais de Chris moravam. Hermione pensou que esse descanso seria muito bem vindo e imediatamente ela sentiu-se empolgada com a idéia.
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Algumas horas antes, Severo não imaginava que estaria nessa situação. Ele viu o borrão castanho do cabelo de Hermione virar à esquerda num corredor e apressou o passo para um trote, grato por seus sapatos não produzirem eco.
Alcançando o corredor, avistou-a.
- Hermione! – sussurrou – Hermione! – mais alto ao ver que ela o ignorou.
Ela diminuiu esperando que ele estivesse perto o suficiente e virou-se no lugar. Severo teve que estancar e parou nas pontas dos pés se equilibrando para não bater nela.
- O quê? – ela perguntou entediada.
Ele bufou recuperando o fôlego.
- O que há de errado com você?
- Nada. Tudo normal comigo.
Severo encarnou sua feição típica de situações como essa: alguém se fazendo de bobo na frente dele.
- Nem tente Severo! Essa sobrancelha comigo não funciona! O que quer saber? – ela cruzou os braços.
Suavizando a expressão, o homem olhou para os lados e disse em tom baixo.
- Quero saber o que houve.
- Já disse que não houve nada.
- Hermione... – ele se interrompeu tentando exercer uma paciência que não era de seu feitio. – Você sabe do que estou falando. Você saiu como uma louca sem me deixar explicar.
- Explicar o quê?
- Explicar...
- Não, Severo. Não há nada a explicar. Não preciso de explicações. E não preciso de ninguém me controlando ou mandando em mim.
Severo percebeu que positivamente sua boca estava aberta, mas não conseguiu dizer palavra.
- Com licença. – Hermione passou pelo lado direito dele, mas não foi tão rápida. No segundo seguinte estava presa à parede do corredor pelas mãos de Severo em seus ombros. O toque era firme e a pressão que ele exercia não a insultou verdadeiramente. Ela tinha sérios problemas perto deste homem, os quais não permitiu que transparecessem na sua expressão e na sua fala.
- Por favor, não quero discutir mais. Não me obrigue... – mas as palavras sumiram na boca ao ver a testa de Severo se mover para formar uma profunda fenda entre o olhar perdido dele. Depois de um momento ele soltou os ombros dela.
- Discutir? – conseguiu articular.
Hermione desviou os olhos dos dele e ele pode ver nitidamente tristeza ali. Esperou e percebendo que não suportaria mais tempo falou muito baixo:
- Me diga o que há de errado? O que eu fiz? Eu a ofendi? Você disse que não quer ninguém mandando em você... – ele estava confuso. Ao dizer essas palavras se deu conta de que recuara dois passos para longe dela. Uma angústia nunca antes experimentada ameaçou fechar a boca de seu estômago. O silêncio, há tanto tempo trancafiado, estufou o peito, satisfeito com a breve liberdade. - Hermione. – ele chamou em tom inquisitório.
Ela estava nervosa, incomodada. Quase perdeu totalmente o controle.
- O quê? O que você não entende? Terei de repassar o nosso papinho? Preciso dizer quais foram as suas palavras? – ela ofegou.
A expressão de Severo continha uma dúvida muito grande. Nada do que Hermione dizia parecia fazer sentido.
Ela esfregou o rosto com as mãos e respirou fundo.
- Olhe Severo, – disse estendendo as mãos com as palmas para frente. – vou ser bem sincera aqui. Não vou permitir que ninguém controle a minha vida. Vou onde quiser e faço o que quiser. – ela gesticulava para reforçar sua afirmação. - Tenho claro em minha mente que temos um compromisso e em nome disto eu tenho te respeitado. Continuarei te respeitando, pois não tenho motivos para não fazê-lo, mesmo que você não merecesse, mas devo te dizer uma coisa: eu jurei para mim mesma que nunca mais deixaria ninguém fazer isso comigo novamente. Não tente me controlar, não tente me subjulgar aos seus conceitos e desejos. Não posso e não vou me relacionar com alguém que não respeita a minha liberdade.
Se houvesse uma cadeira atrás de Severo, certamente ele cairia nela como uma colherada de purê. Estava atônito. Queria usar suas armas para mudar a situação a seu favor. Ser irônico, frio e cruel. Mas nada em seu organismo, a não ser este pensamento, desejava fazer isso. Não nessa situação, não com Hermione. Em qualquer outro momento e com qualquer outra pessoa ele não pensaria nem um segundo. Esta situação era diferente. Ele não queria estragar tudo. Fez um esforço para controlar seus impulsos.
- Eu lamento que tenha deixado parecer isso. Nunca imaginei que você sentiria isso.
- Nunca imaginou? – ela estava definitivamente nervosa, respirava rápido e corava. – Agora você virou santo?
- Por Mérlin!! O que você está dizendo?
- Chega! Não quero discutir, esqueça!
No mesmo momento Severo viu que Hermione se esqueceu quem ele era. Ele não deixaria barato. Não permitiria que esta confusão infundada tirasse seu sono. Moveu-se rapidamente para bloqueá-la, uma vez que tencionava sair.
- Não mesmo! Você não quer discutir, porém criou uma discussão e não vai fugir dela assim.
- O que você quer discutir? Não tem o que discutir. Já disse que não vou aceitar isso. Sem negociação. – ela disse enfática.
- Isso o quê? Fale a minha língua para variar! – ele disse, começando a ficar furioso.
Ela pressionou as têmporas com os dedos. Respirou tentando se acalmar.
- Muito bem, vamos tentar entender o que você quis dizer então.
- Sou todo ouvidos. – ele cruzou os braços na frente do corpo, forçando-se a uma paciência quase sobre-humana.
- Você não percebe? Dizer para mim que não farei a viagem se você não concordar, foi no mínimo ridículo de sua parte.
Ele esperou mais. Ela continuou.
- Não há “Você não vai se eu não estiver de acordo.” Eu vou se eu quiser ir, e ponto final. Será que é tão complicado assim? Será que preciso dizer novamente que não vai controlar a minha vida, que não vai mandar em mim? Eu não posso aceitar isso, ok? E não vou. Você decide o que quer fazer.
Mantendo a postura impassível Severo aguardou mais alguns segundos observando Hermione cruzar os braços. Claramente ela tentava se controlar. A respiração estava irregular, os olhos tinham um leve brilho e ela fazia um esforço para esconder o tremor nas mãos.
A mente de Severo procurava uma maneira de desfazer este nó. Pensava se deveria explodir com ela e dizer que fizesse o que quisesse da sua vida, ele não se importava, mas não era verdade. Ele se importava. Talvez pudesse manter a impassividade e deixar que ela se cansasse e fosse embora em silêncio. Mas, ao contrário, ele se viu descruzando os braços de Hermione e tomando suas mãos. Estavam frias e trêmulas.
Hermione recebeu com um tremor no estômago o calor das mãos de Severo nas suas. Eles ficaram em silêncio até que ela pôde levantar os olhos para os dele. Estavam incrivelmente mais negros e nítidos a julgar pela fraca luminosidade do corredor. Ela perdeu um pouco o foco ao ser perfurada pelas esferas. As palavras ficaram engasgadas na garganta. Ela soltou o ar com força e deixou a cabeça baixar, sentindo-se muito cansada de repente. Não conseguia processar direito o que estava acontecendo. Não se conformava que isto estava acontecendo de novo, era muito para ela.
Ela viu, então, a mão de Severo deixar a sua e tocar sua nuca por baixo dos cabelos. Um arrepio percorreu suas costas. Ele acariciou lentamente o local obrigando-a a fechar os olhos em contentamento. Este ponto fraco dela ele já descobrira. Sem perder o contato ele deslizou pela mandíbula e levantou o rosto de Hermione para olhá-la nos olhos puxando-a para mais perto com a outra mão.
- Nunca irei controlar sua vida ou mandar em você. – a voz não passava de um sussurro e acariciou os nervos de Hermione.
“Céus!”, ela pensou. “Como ele consegue fazer isso? É injusto!”
Ele deslizou uma mão pelo braço de Hermione subindo até o ombro e desceu novamente pelas costas para colar o corpo dela ao seu. Afagava novamente sua nuca. Ela não conseguiria fazer nada, mesmo que quisesse, por que na verdade ela não queria. Não nesse exato momento.
- Isso é injusto. – moveu os lábios num sussurro externando a repetição desta constatação que latejava em sua mente.
Um riso rouco e profundo pairou entre eles. Severo aproximou o rosto do ouvido de Hermione.
- A vida é injusta, eu lamento. – e voltando a olhar nos olhos dela completou. – Mas não estou jogando sujo com você. Isso é para acalmá-la.
- De certa forma está funcionando. Apenas de certa forma. – ela disse baixo, corando imediatamente.
Severo deu um riso mais solto e incontido.
- Me desculpa?
- Não é preciso. Eu já o desculpei no momento em que deixei você me tocar deste jeito.
Ele apertou o abraço nela, que deslizou os braços sobre os ombros de Severo, encaixando o corpo no dele sem esforço.
- Eu vou poder explicar tudo isso? – ele queria mesmo saber. Não desejava que ela ficasse com impressão errada sobre ele. Podia ser um bastardo, invariavelmente, mas que fosse julgado com razão. Não queria mais um troféu de maior idiota do século injustamente.
- Vai. – ela hesitou - Mas depois. Cansei deste assunto por hora. – terminou a frase olhando os lábios de Severo. Um desejo intenso de ser tomada por aqueles lábios se apossou dela e como se lesse isso em sua face Severo se aproximou devagar.
Num jogo silencioso e excitante eles se aproximaram e se afastaram. Severo roçou os lábios nos de Hermione muito brevemente para depois tocar com os seus o rosto, lóbulo e pescoço. Sentiu a pulsação dela aumentar a cada segundo e seu corpo ficar ligeiramente mais pesado nos seus braços. Ela enroscou os dedos nos cabelos de Severo fazendo esforço para manter a respiração no lugar, mas estava difícil. O perfume dele invadia os seus sentidos. Ela queria sentir os lábios dele tocando-a, mas ele mantinha o jogo. Suspiros vinham à existência sem controle de ambos. Esta etapa já estava superada para eles, não se constrangiam mais com suspiros.
Sem saber como, Hermione estava novamente com as costas coladas na parede fria do corredor. As mãos de Severo envolviam sua cintura e no momento em que uma delas tocou a pele quente por baixo da blusa, os lábios de Severo pressionaram a curva de seu pescoço, o que provocou nela um gemido estrangulado. Imediatamente Hermione mordeu o lábio inferior se amaldiçoando. “Gemidos” eram outra coisa. Isso sim era constrangedor. Sabia que ele tinha notado e que estava corada como nunca. Sua face queimava e ela fechou os olhos.
Severo tocou a face de Hermione, que sabia estar sendo profundamente observada. Lentamente abriu os olhos para deixar-se mais uma vez ser tomada pelas íris negras. Num impulso que nunca soube de onde veio ela se lançou para beijá-lo. Severo a recebeu consternado, algo que não durou mais que dois segundos. Logo ele investia no beijo com alguma cautela mas tão intensamente que sugou o fôlego de Hermione.
- Você vai explicar isso também? – ela disse tentando respirar normalmente quando se afastaram para apenas se olharem.
Ele inclinou a cabeça levemente como se considerasse a possibilidade.
- Hmm... Acho que não posso ainda. Preciso continuar testando enquanto não encontro explicação lógica para isso.
Hermione podia ver o fogo arder nos olhos de Severo. Ela convenceu-se que adorava isso, adorava esse jogo. Estar num corredor mal iluminado de Hogwarts, aos amassos com o Mestre de Poções era no mínimo excitante. Tentando recuperar a compostura falou:
- Bom, lamento muito, mas os testes se encerraram. Tenho aula amanhã cedinho e preciso praparar o material depois do jantar.
Uma sobrancelha de desagrado subiu instantaneamente.
- Sim, eu também lamento muito, mas somente por você ser politicamente correta demais e estragar meus planos. – ele retrucou mal-humorado.
- Planos?
- Deixa prá lá. Você tem aula amanhã cedinho.
- Severo... – ela olhou esperando a resposta.
Ele sustentou o olhar e por fim bufou inconformado sobre como podia estar perdendo sempre para Hermione.
- Eu queria ficar com você depois do jantar... Sei lá... – ele sentiu-se completamente estúpido. Tinha dito isso com uma sinceridade que o incomodava. E ainda pior, a idéia era no mínimo romântica. Romântica demais para os padrões de Severo Snape. Talvez ele não soubesse que era romântico o suficiente para Hermione.
Ela olhou para ele com um sorriso meigo nos lábios.
- Ah, por favor! Não faça essa cara de: “Que bonitinho! Ele está sendo gentil e romântico.” – ele se afastou dela e andou para o lado oposto do corredor ficando de costas. Agora ele estava constrangido e tentou esconder isso cruzando os braços dentro da capa.
Ela se aproximou e puxou levemente o braço de Severo até virá-lo de frente para ela. Eles se olharam por alguns segundos, Hermione esperando que ele dissesse alguma coisa. Nada.
- Por que você simplesmente não me convida? – ela disse por fim, controlando-se para não rir da situação.
- Por que você simplesmente vai recusar. – definitivamente ele estava ficando mal-humorado.
- Anda praticando Legilimência em mim?
A expressão dele mudou para outra, curiosa e quase ofendida.
- Claro que não! – ele tomou fôlego, mas foi interrompido.
- Então por que não me convida?
Com um suspiro pesado ele estava disposto a dizer que deixassem isso para outro dia, já tinham conversado e se entendido. Ela precisava preparar a aula e descansar. Mas o sorriso radiante de Hermione nocauteou as defesas de Severo. Ela podia ser linda, atraente, inteligente, mas quando queria era também muito, muito persuasiva. Ele gostava disso, mas não muito quando era contra si mesmo.
- Então... – ele tentou. – Vamos... – balançou-se desajeitadamente soltando os braços. – É... – com um grunhido de frustração ele se calou.
- Severo. – Hermione começou delicadamente. – Não se cobre tanto. Você sabe fazer isso sem tanto sofrimento.
- Mas você estragou tudo! Disse que tinha que se recolher. Agora eu me sinto patético fazendo um convite sabendo que ouvirei: “Obrigada, eu adoraria, mas não posso hoje.” – ele tentou uma imitação de Hermione curiosamente cômica.
- Você vai me convidar ou não? – ela controlou de novo a vontade de rir da cara que ele fazia.
- Vamos ficar um pouco juntos depois do jantar? Podemos tomar alguma coisa e conversar. – ele parou. – Satisfeita?
Hermione revirou os olhos. Como este homem podia ser tão infantil às vezes? Chegava mesmo a ser cômico.
- Olha, eu preciso preparar alguma coisa para amanhã. Então pensei que poderia fazer isso em vinte minutos e passar o resto do tempo com você. Portanto, sim, eu aceito o convite.
Ele arregalou os olhos.
- Mulheres! Se era assim, por que fez todo esse teatro?
- Para você se soltar. Você tem que deixar as coisas acontecerem naturalmente Severo. Antes mesmo de conversar comigo você criou uma barreira para tudo e já deu a sentença sem ouvir a defesa. Pense. – ela tomou o braço dele e começou a caminhar para irem embora. – Se você nunca abandonar a sua postura defensiva jamais poderá viver a vida plenamente. Deixe as coisas virem para você e depois de avaliar poderá se defender, recusar, aceitar ou o que seja.
- Oh! Muito obrigado pelo conselho, Alvo Dumbledore.
Hermione gargalhou alto e viu que Severo controlava um sorriso sem muito sucesso.
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Sentado em sua bejer com um livro antigo nas mãos Severo olhava pensativo o fogo da lareira. Lembrava-se da conversa que tivera com Hermione e as coisas que ela dissera. Será mesmo que a tinha ofendido tanto? Ela realmente parecera nervosa e quase magoada. Ela pensara que ele queria controlar sua vida e disse que nunca mais deixaria que alguém fizesse isso com ela novamente. Muito estranho. Sentiu-se preocupado. O que será que poderia ter acontecido com ela que a deixou assim, praticamente traumatizada com uma situação não tão grave. Considerou perguntar a ela, com algum tato, sobre isso. Afinal, ela tinha prometido que ele poderia se explicar, esse poderia ser o gancho para que ele descobrisse.
Olhou o relógio. Hermione estava um pouquinho atrasada. Haviam combinado, após terminarem o jantar, que ela iria ajeitar suas coisas para o dia seguinte e que se encontrariam em seus aposentos depois de meia hora. Tentou relaxar, talvez estivesse mesmo exigindo uma postura muito correta e grave para uma jovem tão cheia de vida como ela. Ele pensou ainda sobre o que ela disse quando estavam a caminho do Salão Principal. Deixar as coisas chegarem a ele e avaliar, depois agir adequadamente. Ela havia usado uma expressão engraçada: “Atirar primeiro e perguntar depois.” Os trouxas eram estranhamente criativos em certos aspectos.
A leve batida na porta o sobressaltou.
- Entre.
Hermione entrou devagar observando com cautela o ambiente. Era levemente iluminado. No lado oposto da porta havia uma mesa com pergaminhos, penas e um pequeno candelabro. A parede atrás da mesa era totalmente tomada por livros de todos os tamanhos e cores. Sua boca abriu-se instantaneamente, ela ficou fascinada e se aproximou, por um momento se esquecendo da presença de Severo. Tocou com uma quase reverência as lombadas dos livros percebendo quase de forma inconsciente como amava fazer aquilo.
- Pode levar o que quiser. – ele disse baixo do lado direito do aposento, fazendo-a virar-se para olhá-lo.
- Eu prefiro escolher melhor outro dia, se não se importar.
Ele assentiu e ela se aproximou devagar, observando tudo atentamente. Severo a olhava com curiosidade, buscando as impressões dela sobre tudo ali.
Hermione pisou no macio tapete de pêlos que ficava entre um sofá e a lareira na mesma parede da porta.
- Uma lareira nas masmorras. – ela mais afirmou do que perguntou.
- Sim, eu pedi uma adaptação a Dumbledore. Eu realmente não gosto muito da temperatura aqui no inverno rigoroso. Acabei me acostumando e sempre a acendo.
Devagar ela se aproximou da bejer que ficava ao lado esquerdo da lareira, pelo lado esquerdo dele e parou tocando seu joelho na parte externa da coxa dele. Inclinado o corpo para olhar as páginas do livro e perguntou:
- O que está lendo?
- Um livro antigo: “Novíssimas descobertas em Poções Avançadas.”
Quando ela tencionou voltar-se à posição normal, ele segurou a perna de Hermione na parte côncava de seu joelho. Um tremor subiu pelos músculos se alojando nas costas, na altura de sua cintura. Ela manteve-se inclinada e deu um leve beijo na face de Severo.
Ele deixou o livro descansando em seu peito e pegou Hermione pelo braço.
- Vem cá. – e lentamente trouxe o corpo dela para sentar-se em seu colo.
Ela corou, mas relaxou e acomodou-se, mais precisamente entre suas longas pernas flexionadas e abertas. Deixando suas próprias pernas descansarem pendendo da coxa de Severo, ela se deu conta, talvez cedo demais, de que estava enfiada no meio daquele homem. Ele tinha uma expressão observadora e quase divertida.
Severo a puxou delicadamente e colocou um leve beijo em sua boca.
- Está desconfortável? – ele sussurrou daquela forma que a fazia derreter.
Fazendo muita força para modular a voz, ela respondeu baixo.
- Não... – mas não conseguiu olhar para ele.
Percebendo o constrangimento dela ele apressou-se em dizer:
- Tudo bem, me desculpe. Eu acho que me precipitei.
Mas antes que ele pudesse se mover, Hermione se aconchegou em seu peito, recostando a cabeça na macia camisa de seda preta que ele usava para sentir o perfume, agora mais de banho, que ele exalava. Ela sentia em sua face o tremor do tórax de Severo respondendo às batidas do coração e pensou que, mesmo depois da visita à casa da árvore de Severo, em nenhum momento até ali estivera em tamanha intimidade com ele. Severo dispensou o pequeno livro ao chão e envolveu Hermione com os braços pousando o queixo no topo da cabeça dela. Ficaram em silêncio por alguns momentos.
- Você conseguiu cumprir suas tarefas para amanhã?
Ela meramente moveu a cabeça, absorta demais nele para mover mais algum músculo. Severo deslizava devagar a mão pelo braço de Hermione. Eventualmente ela percebeu alguma mudança nos batimentos cardíacos dele. Com um sorrido maroto desejoso de formar-se por completo em seu rosto ela indagou:
- Posso lhe perguntar uma coisa?
- Claro.
Levantando o rosto para olhá-lo, ela perguntou com cautela sem saber mais se queria mesmo saber a resposta:
- Em que está pensando?
Severo desviou por um momento os olhos para voltar a olhá-la em seguida. Ela pensou que ele havia parado de respirar e seu coração paralisara. Os olhos negros pareciam passar frieza e quase raiva. Mas ele piscou para ela e disse calmamente:
- Não sei se este é o melhor momento para dizer isso.
- É sobre nossa conversa daquela hora. – ela afirmou percebendo sobre o que ele estava pensando.
Ele assentiu brevemente. Hermione suspirou longamente e voltou a colocar a cabeça no peito dele. Severo manteve silêncio, decidido a não falar mais disso se ela não prosseguisse com o assunto.
- Lamento se o assustei com minha explosão, eu tento me controlar, mas nem sempre dá certo.
Severo vincou a testa, muito atento.
- Eu não quis ofender você. Apenas espero que você entenda, de qualquer forma, o que eu quis dizer. - ela continuou.
Ele pensou por um momento. Ainda não havia esclarecido nada em sua mente.
- Quase entendi o que você quis dizer, mas não entendi seus motivos. – ele moveu-se e a fez olhar em seus olhos. – Me desculpe se estiver sendo invasivo, mas você me deixou preocupado. Você disse que nunca mais deixaria ninguém fazer isso com você novamente...
Hermione assumiu uma expressão sofrida. Não conseguiu dizer nada imediatamente, na verdade não queria falar sobre isso. Tomando coragem ela tentou:
- Eu sei que disse, escapou. Mas... Eu entendo que você fique intrigado. Isso é passado. – ela tomou fôlego – Severo, por favor, eu sinceramente não gostaria de falar especificamente sobre este ponto, se não se importa.
Ele avaliou a face de Hermione para captar nada mais do que sinceridade nela.
- Está bem, não falemos mais disso. Mas, eu ainda quero me explicar e isso é o cumprimento de uma promessa.
Hermione suspirou.
- Não precisa, esqueça isso.
- Precisa sim! Eu quero. – ela não contestou e ele prosseguiu. – Acredito que você realmente não esteja sabendo, mas ocorreu um contratempo. É apenas uma suspeita, mas o Ministério está investigando. Houve um atentado na Itália. Morreram doze trouxas numa explosão em um café de rua, numa típica tarde de sábado. Como não há testemunhas, nenhuma prova foi encontrada, ninguém soube dizer de onde vieram as bombas, nem os terroristas e nenhum vestígio de explosivo foi localizado, o Ministério abriu inquérito para investigar um possível grupo anti-trouxas, bruxos nascidos trouxas e mestiços.
Hermione não deixou de perceber que ele usou a expressão adequada para se referir à bruxos nascidos em famílias trouxas.
- Mas nada foi noticiado? De onde o Ministério tirou a idéia de que se trata de um grupo terrorista?
- Receberam um bilhete anônimo, com ameaças de revolução e de que em breve os mestiços, e consequentemente os trouxas, começariam a ser eliminados. Porém, para variar, abafaram o caso evitando escândalos e pânico. Bem parecido com o que aconteceu quando Voldemort retornou.
- Será que mesmo depois de tantos anos esses idiotas não aprenderam nada? Continuam cometendo os mesmos erros, deixando as pessoas enganadas, sem saberem que podem estar correndo risco, sem poderem estar prontas para se defender.
Hermione teve o impulso de se levantar, sentindo o sangue começar a ferver.
- Ei! Fique calma, e fique aqui. – Severo falou apertando o abraço em torno dela.
Em silêncio, ela se acalmou nos braços fortes dele. Mas, como ele já esperava, a mente dela foi rápida. Ela se moveu para olhá-lo, assustada. Imóvel ele deu a resposta.
- Você está certa. Eu tive receio de que algo lhe acontecesse. Você vai para o local do atentado, ninguém sabe o que realmente aconteceu e ninguém sabe se vai acontecer novamente ou onde, ou o quê pode acontecer.
Hermione nada disse absorvendo as palavras dele e incapaz de conter sua mente trabalhando freneticamente. Por fim, pôde articular.
- Entendo. Você se preocupou que eu sendo nascida trouxa pudesse estar indo direto para a cova dos leões. Mas eles podem estar em qualquer lugar e atacar a qualquer momento novamente, se isso for realmente verdade e não só uma coincidência.
- Claro, mas aqui em Hogwarts você está segura, nada pode lhe acontecer. Aqui posso protegê-la e você não corre risco algum.
Hermione o observou. Parecia que ele não tinha se dado conta do que dissera, mas apenas por um momento. Em seguida virou o rosto para a lareira. Consternada, ela teve uma imensa vontade de abraçar Severo e lhe dizer que apreciava muito seu cuidado e preocupação, que estava realmente emocionada com o carinho dele e por ele ter pensado nela com tanto esmero. Ao invés disso, ela optou por uma atitude mais polida.
- Eu lhe devo sinceras desculpas Severo. Fui completamente tola e infantil julgando você pelos meus parâmetros, uma vez que você se mostra infinitamente mais nobre e notavelmente gentil comigo.
Severo a olhou um pouco espantado.
- Não precisava se desculpar, mas se fosse fazê-lo bastava apenas dizer: desculpe-me. – e pausou observando-a. Percebeu que ela parecia ligeiramente ofendida. – Mas que droga! De novo minha falta de tato. Hermione me escute. – ele envolveu o rosto dela com as duas mãos grandes. – Eu preciso saber que você está em segurança. Apenas isso. Nada nessas formalidades e desculpas muda o fato de que me preocupo com você. Sim, eu sei, isso tudo é muito estranho, mas você está a cada dia mais entranhada em mim, como poderia ser diferente?
Era algo para querer se matar. Ele estava praticamente se declarando para ele. Nada do que disse fazia sentido, mas ao mesmo tempo fazia TODO o sentido. Hermione se jogou no pescoço dele.
- Oh Severo! Obrigada por dizer essas palavras. – ela disse com um nó na garganta.
Ele a afastou devagar para olhar em seus olhos.
- Não precisa agradecer e nem se assustar. Eu pensei que as mulheres tivessem um sexto sentido e conclui que você, dona de uma mente especialmente ligeira, já tivesse percebido que eu me importo.
Hermione estava um tanto anestesiada pela diversidade de emoções que vivera em poucos minutos. Severo a abraçou mais uma vez e o cheiro dele despertou algum lugar no íntimo dela.
Eles se afastaram para se olharem e Hermione deu um leve beijo nos lábios dele. Um brilho de fogo nos olhos negros de Severo provocaram um tremor em seu estômago.
Subindo uma mão pelas costas de Hermione para fixá-la em sua nuca e começar a carícia que fazia formigar todo o seu sistema nervoso, Severo a trouxe para mais perto e a beijou calidamente.
- Por que você faz isso? – ela suspirou, após um momento de tirar o fôlego.
- O quê? – ele tinha uma falsa expressão de que não tinha entendido.
- Essas mãos...
Ele inclinou-se para roçar os lábios na orelha dela e sussurrou:
- Por que eu gosto. Muito mais do que você, se isso for possível.
O ar saiu com força dos pulmões de Hermione. Ela sentia-se vulnerável ali, no meio de Severo, mas ao mesmo tempo ela desejava mergulhar no infinito dele e se deixar levar. Ele depositava leves e medidos beijos na extensão de seu pescoço e sem perceber ela já estava com a cabeça inclinada dando acesso à ele.
- Por que você faz isso? – foi a vez dele perguntar.
Ela abriu os olhos e moveu a cabeça para olhá-lo diretamente. Sentia sua face ruborizada e a boca seca. Ele tocou a maçã do rosto dela, mas ela meramente moveu a cabeça sem saber como dizer qualquer coisa.
- Esse rubor nas faces toda vez que eu a toco. – ele tocou a cavidade do pescoço dela – Essa pele macia e cheirosa... Esse cabelo sedoso e vivo... – enroscou os dedos nos cachos que pousavam no ombro dela. – Lábios entreabertos e desejosos, numa distância perigosamente tentadora. – ele tocou um dedo no lábio inferior dela.
Ela fechou os olhos incapaz de suportar ouvir essas palavras e ao mesmo tempo olhar para os olhos de ébano que a devoravam lentamente. Um silêncio estranho a forçou a abrir os olhos, totalmente contra sua vontade.
Severo estava com a cabeça apoiada no encosto da poltrona e olhava Hermione se recompor. Talvez ele aguardasse uma resposta.
- Eu devo res...ponder? – sua voz falhou.
- Não necessariamente. – ele moveu-se para se aproximar dela – Se eu apenas souber que você estará perto o suficiente para que eu possa senti-la desta maneira. – e suspirou. – Hermione você faz alguma idéia do que provoca em mim? Você tem noção do que tem feito comigo durante estes poucos meses?
Ela vincou a testa.
- Você costumava ser mais espontânea comigo. Eu receio estar oprimindo você.
- Não é isso. Eu... Não sei bem. – ela o olhou profundamente e tocou a face dele. – Tudo o que temos vivido tem sido muito especial e eu também gosto muito. Mas parece que algo em meu íntimo tem medo de que qualquer aproximação maior irá nos fazer perder esse encanto, essa magia toda que nos rodeia quando estamos juntos. Eu tenho medo que nos acostumemos um ao outro e que percamos esse frisson. Que percamos a química... Oh, eu devo estar dizendo um monte de bobagens. – ela virou o rosto dele.
Severo pensou antes de reagir. Sentiu ser um momento crucial, que talvez definisse o que aconteceria com eles a partir dali.
- Hermione. – ele tocou o queixo dela para que pudesse olhá-la nos olhos. – Olhe para mim. – e olhou atentamente cada centímetro da face jovem, corada e encantadora. Falou num sussurro. – Não sou bom o suficiente para você, eu sei. E nem sou bom em relacionamentos. Mas eu sei ser bom em algumas coisas. Também não sei como faremos daqui pra a frente, apesar de termos assumido tudo, e acho normal que você tenha esta insegurança. Perdoe-me a sinceridade, mas eu não pensei muito nisso. Eu penso apenas em ver você, em estar com você, em ouvir você, tocá-la e senti-la comigo, em meus braços. Acho que sou bom em ser um bocado egoísta. – ele olhou a lareira, visivelmente incomodado. Se perguntou por que dissera aquilo.
Hermione olhou a face de Severo e, mesmo com todas as considerações que fazia sobre a vida dele, quem ele tinha sido, o quanto tinha sofrido e blá, blá, blá... Ela percebeu que queria também apenas isso. Segurou a face dele com as mãos e disse:
- Quer saber? Eu também quero estar com você, sentir-me segura em seus braços. Eu também quero apenas estar junto, sem nada a mais do que nós dois. Não sei por que digo essas coisas, me desculpe. - ela pausou e respirou – Olhe, você disse não ser bom em relacionamentos, pois bem, uma dica para você: mulheres são complicadas. Elas mesmas não se entendem e eu lhe aconselho a não tentar eventualmente, é uma batalha perdida.
Ele pareceu assustado.
- Claro que você pode sempre conversar comigo, sobre qualquer coisa. – ela apressou-se em dizer – Eu sempre me preocupo que você esteja bem e você pode me perguntar tudo o que quiser saber. Claro que eu posso me reservar ao direito de não dizer tudo, mas nada que uma...
- Shh... – ele tocou um dedo nos lábios dela – Você está tagalerando. – ele riu baixo e rouco. Ela relaxou e riu também. – O que exatamente você quer dizer? – ele a incentivou, porém, ao mesmo tempo a desencorajando ao acariciar os lábios dela.
- Hmm... Pensando bem, nada que não possa ser dito em qualquer outra ocasião, na verdade. Bem... Acho que... – e percebendo que ele não estava mais ouvindo nada sussurrou por fim – Beije-me Severo.
Um meio sorriso rompeu nos lábios dele e se defez na boca dela. Ele a tomou mais perto e desta vez ela não poderia se afastar, nem que quisesse. O aperto era quase possessivo, mas transportava para Hermione nada mais do que uma excitação crescente. Ela afundou os dedos nos cabelos macios e finos dele e o forçou a levantar o queixo, beijando o pescoço dele, absorvendo o cheiro da pele. Um leve tremor escapou do autocontrole de Severo e uma mão ousada alisou a parte de trás da perna de Hermione.
O comando da situação rapidamente voltou para Severo e desejoso de senti-la mais ele arriscou possivelmente todas as suas fichas. Numa continuidade de movimentos ele escorregou o braço pelas pernas dela e a levantou sem esforço. Ela ofegou levemente, mas logo enterrou o rosto no pescoço dele.
Antes que sua percepção sensorial pudesse lhe dar alguma direção, ela se viu deitada sobre o tapete de pele e a presença enorme e máscula de Severo parcialmente sobre ela. Atacada por beijos cheios de desejos e promessas, ela correspondia sem pensar por um momento no caminho que isso os levaria. Milhões de neuronios começaram a trabalhar contra o momento. “Calma, é cedo, ainda é cedo.” E outro beijo a entorpecia, juntamente com mãos ousadas que deslizavam pela lateral de seu corpo. “Não, não posso...” Até o momento em que Severo deslizou a língua pelo pescoço de Hermione até seu colo, invadindo o decote de sua blusa. Um ofegar estrangulado moveu os músculos de seu abdôme violentamente. Ele a beijou mais uma vez, mudando o ritmo até que estavam quase em câmera lenta.
Então a face de Severo coberta pelos cabelos flutuou sobre ela, que se deu conta de estar rígida sob ele. Ela o tocou e tirou algumas mechas para ver seus olhos. Ela queria dizer para pararem, mas não queria parar também. Não sabia se queria ou não, não sabia nada. Severo moveu-se devagar para deitar-se ao lado dela, que virou-se para olhá-lo. Sentiu-se um pouquinho estranha. Imaginou ver esta cena de cima, o Mestre de Poções deitado no chão...
Ela se aproximou devagar e encostou a testa na dele. Seus dedos brincaram com a casa do botão da camisa dele e ela sabia que estava sendo diligentemente observada.
Acariciando os cabelos dela Severo disse, tentando acalmar a própria respiração:
- Eu posso ter feito incontáveis bobagens a minha vida toda, mas quero fazer isso direito. Não apenas isso... Sabe do que estou falando. Mas tudo sobre nós... Eu quero fazer direito.
Hermione se afastou para olhá-lo melhor.
- Talvez eu esteja ligeiramente inclinado a viver um pouco, como Alvo vive me implorando para fazer. Mas devo dizer que tudo é culpa sua. Eu... Quem sabe eu aprenda alguma coisa tentando fazer algo diferente ao menos uma vez na vida. Considerando que não me resta muito tempo, eu gostaria de não desperdiçar minhas oportunidades com atitudes impulsivas e impensadas, então talvez eu obtenha algum sucesso afinal. Como você disse, vou atirar primeiro e perguntar depois. – e vincou a testa ao dizer isso.
Hermione explodiu numa gargalhada. Severo levou uma mão aos olhos percebendo o papel de idiota que fazia, mas não entendeu bem o que estava acontecendo. Ela ria descontroladamente, jogando as pernas para o ar e apertando a barriga.
Começando a ficar incomodado com a situação Severo apoiou-se sobre o cotovelo e pousou uma mão no braço dela. Retomando o fôlego ela o olhou e apertou a boca para reprimir outro acesso. Respirando fundo ela pediu um segundo com a mão estendida. Severo lhe deu uma expressão entediada.
- Desculpe... Eu...
- O que há de errado? Isso é realmente possível? Atirar e depois perguntar? Atirar o quê?
Mas ela gargalhou novamente.
- Hermione... – ele a puxou pela cintura – Adoro sua risada, de verdade, mas você pode se controlar um minuto e me dizer o que é isso?
- Adoro você! – ela se jogou nele, quase deitando-se em cima dele.
- Bom... Isso é bom mesmo, mas não responde à minha pergunta. – falou, alegre com a atitude dela.
- Veja, eu entendi tudo o que você me disse e acho maravilhoso. Mas, me desculpe, você fica adorável assim, meio perdido. – e riu novamente – Essa expressão significa exatamente o contrário do que você quis dizer. O “atirar” seria com uma arma de fogo, usada pelos trouxas. Quem atira primeiro e pergunta depois julga mal as pessoas sem dar chance de ouví-las ou avaliar a situação. Estou adaptando para nossa realidade. Mas seria, especificamente, matar alguém sem saber se a pessoa é mesmo culpada de alguma coisa.
Ele a olhava com uma cara horrível.
- Severo... – disse com voz manhosa, se inclinando sobre ele – Não faça assim. Lembre-se que sua cara feia não me assusta mais. – e o beijou docemente.
- Certo. Obrigado pela parte que me toca. Sei que não sou um belo exemplo de beleza, nem chego perto disso, mas você poderia disfarçar para variar.
Ela riu gostosamente da birra dele.
- Eu diria que você é agradável para mim, sem tirar nem pôr... Erm... Pensando bem, você é agradável para mim tirando aquela capa horrorosa e colocando aquele sobretudo elegante sobre um par de jeans, que tal?
Um sorriso irônico surgiu nos lábios dele e uma sobrancelha mal humorada na sequencia. Hermione forçou mais seu corpo contra o dele perdendo completamente o juízo. Ele a apertou com os braços sentindo longos cachos em seu rosto. Deixando a gravidade fazer o resto, Severo a enlaçou num impulso para que ela ficasse completamente sobre ele.
As respirações começaram a mudar enquanto se estudavam. Severo afastou os cabelos de Hermione para olhá-la nos olhos, talvez procurando ali algum desconforto pela posição peculiar que se encontravam. Mas o que viu foi somente desejo e lábios entreabertos, iguais aos que ele dissera a pouco gostar de ver.
Ela se inclinou lentamente e o beijou com cuidado. Faíscas de excitação marcaram a pele de Severo, do estômago até a parte interna de suas coxas. Sentir o peso de Hermione sobre ele, de forma tão espontânea e sugestiva estava colocando-o numa situação constrangedora. Deveria muito em breve tirá-la dali, ou ficaria como um adolescente em suas calças. Entretanto o que aconteceu a seguir foi algo, até então, impensado. Hermione se posicionou melhor sobre os joelhos roçando os seios no tórax dele e consequentemente o baixo ventre em sua intimidade. Foi suficiente para bombear o sangue necessário para deixá-lo maluco na mesma hora.
- Hermione...
- Shh... Se você disser alguma coisa eu terei que ir embora.
Então, como nunca antes havia imaginado ser capaz, Hermione deslizou seu corpo sobre o de Severo, iniciando um vai e vem enlouquecedor. Ela o sentia rígido sob seu púbis e ondas crescentes de excitação faziam seu ponto sensível latejar. Pensou que mais alguns minutos desse jogo poderiam fazê-la chegar ao paraíso. Severo a beijava, segurando firmemente em seus cabelos, não controlando mais os gemidos que eram soltos entre os lábios de ambos. Tudo acontecia muito lentamente até o momento em que as mãos de Severo seguraram o bumbum dela, pressionando seu corpo contra o dele.
Ele respirava tropegamente, buscando controle em algum lugar dentro de si, sabendo que não encontraria. Lentamente abriu os olhos e viu Hermione corada, os lábios vermelhos e inchados. Seus olhos estavam embaçados de desejo. Engolindo seco, ele tentou falar:
- Você... Você vai acabar me enlouquecendo. – o sussurro da voz de Severo, grave, profunda, cheia de desejo provocou um tremor delicioso no estômago de Hermione.
- Eu também quero fazer isso da forma certa. – ela sussurrou, piscando. – Quero muito, mas preciso saber: o que fazemos quando estamos nesta situação? Quando nossos corpos nos traem e tomam o controle sobre nós mesmos, sobre nosso juízo e bom-senso.
Ele respirou fundo e olhou para ela com carinho.
- Se você fizer absoluta questão de uma resposta eu posso tentar alguma coisa, mas sugiro que mudemos de posição... Desse jeito minha mente não consegue funcionar.
Pensando que estava tarde e que certamente iria dormir aos tremores lembrando desses momentos, ela relutantemente deslizou seu corpo, mas apenas para ficar ao lado dele. Mantinha-se colada o máximo possível ao calor, ao cheiro dele.
Limpando a garganta, ele arriscou:
- Bem, deixe-me ver. – ele suspirou pesadamente, tentando esquecer o que acabara de acontecer.
Ele sorriu com o canto esquerdo da boca, o que Hermione amava nele. A ruginha que surgiu ali foi coberta por um beijo doce e quente dela.
- Não quero nenhuma resposta. Bastou eu poder saber o quanto nos desejamos. – ela baixou os olhos – Eu gostaria de dizer tantas coisas, mas acho que posso dizer apenas que adoro estar com você. E se me permite o plágio: você, também, vai acabar me enlouquecendo.
Ela mordeu um canto do lábio inferior e sorriu lindamente para ele, que sentiu seu coração se aquecer. Mais do que qualquer excitação sexual, impulso físico ou respostas involuntárias de seu corpo, o que sentiu naquele momento iluminou seu ser. Não se julgava capaz de descrever completamente ou tentar entender, apenas era capaz de sentir e deixou fluir. Com o coração abruptamente ribombando no peito ele a puxou para mais perto. Com um beijo em sua testa e sem dizer uma palavra, ele se moveu para que ela descançasse a cabeça em seu braço, e meramente acariciou os cabelos dela. Ambos ficaram em silêncio por um longo tempo, deixando a adrenalina e o sangue diminuirem o ritmo.
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9h46 – 15 de julho
Severo estava inquieto sobre seus pés. Ele e Hermione aguardavam no saguão do aeroporto de Londres, onde ela pegaria o avião para a Itália. Ele estava furioso pelo fato de ela não ter escolhido uma chave de portal para ir até a Itália. Eles discutiram por um período relativamente longo, enquanto se dirigiam para o local do vôo.
- Severo, por favor, chega. Já está decidido, a passagem já está comprada. – ela tentou por fim no assunto, mais uma vez. – Eu não quero chegar em um lugar qualquer da Itália completamente bagunçada e descabelada por conta de uma viajem de portal.
- Eu disse que poderia te acompanhar. A gente resolveria isso com um aceno de varinha, Hermione! Por Merlin, você é uma bruxa! – ele murmurou entredentes.
- Sou uma bruxa sim! Moderna e flexível. Eu adoro viajar de avião, muito mais do que de portal, e quero aproveitar uma viagem tranquila, lendo algo agradável, como qualquer mortal. Não serei menos bruxa por tomar um avião, Severo.
Ele fechou uma careta horrorosa no restante do caminho até o aeroporto. Quando o vôo de Hermione foi anunciado, convocando todos os passageiros a se dirigirem para o saguão se embarque, ele se arrependeu por passar os últimos momentos com ela de cara virada.
Eles caminharam até o saguão, e Severo foi com ela até o limite onde era permitido. Ela parou à frente dele e virou-se, o olhando com brilho nos olhos. Usava um vestido xadrez que moldava seu corpo, de cores claras e botões elegantes em todo o seu cumprimento, que chegava aos joelhos, combinando com uma boina francesa de cor marfim e sapatos altos de cor marrom. Ele a achou excepcionalmente bonita neste dia. Adorava quando ela usava roupas trouxas.
Severo a pegou pelos dois cotovelos e colou o corpo dela no seu. Eles continuaram travando olhares, sem dizer nada. Hermione deixou sua mala de mão no chão e tocou o rosto de Severo vendo ele suavizar a expressão na mesma hora.
- Promete que vai se cuidar? – Severo enlaçou a cintura dela, aproximando seus rostos. – É a primeira vez que ficaremos longe por tanto tempo. – ele sentiu seu coração apertar no peito.
- Não se preocupe, eu pensarei em você o tempo todo. – ela sorriu. – Você vai sobreviver sem mim.
Severo gemeu baixinho e a beijou suavemente. O beijo se aprofundou, junto com o aperto de seus corpos. Ele sentia seu peito tremer com a falta antecipada que sentia do contato com ela. Estava empregnado dela e nem sabia como seria sem poder vê-la todos os dias. Ainda mais agora, que ela decidira estender sua visita a Chris em uma semana e não mais dois ou três dias.
Eles se separaram quando o auto-falante anunciou a última chamada para o vôo de Hermione. Ela viu a angústia dele e pensou se estava mesmo fazendo a coisa certa.
- Eu escrevo assim que chegar, prometo. – ela o assegurou, tentando manter-se segura também.
- Tome cuidado, querida, por favor. – ele disse baixinho no ouvido dela, a abraçando uma última vez.
- Tomarei, prometo.
Ela lhe deu mais um beijo suave e se afastou, caminhando para o corredor de embarque. Severo a acompanhou com os olhos até ela sumir de vista, acenando para ele antes de desaparecer. Ele ficou ainda alguns minutos ali, olhando para o nada. Uma sensação crescente de que ele nunca mais a veria se apoderando dele de forma impiedosa e avassaladora.
- Ah, o amor hein?! Deixa a gente como bestas o tempo todo. Hahaha...
Severo virou o tronco para o seu lado direito, onde um homem gorducho, com barba e boné de baisebal ficava roxo de rir, chacoalhando o corpanzil todo. Em questão de segundos, o homem parou de gargalhar e olhou receoso para Severo, que se aproximou em dois passos lentos e o olhava de cima com uma carranca. O homem engoliu em seco e se afastou sem dizer mais nada. Ele bufou e saiu batendo os pés para encontrar um lugar e aparatar.
Várias horas depois, Severo estava em pé na frente da amurada do corujal. Ele já estava ficando muito preocupado e a sensação de uma tragédia iminente só piorava. Então ele viu uma ave vindo em sua direção e afastou-se antecipadamente para ela entrar.
Quando ele pegou o papel de sua pata, ela esperou uma recompensa pela longa viagem que fizera e olhava para o homem, claramente ofendida. Ele então buscou uma bolacha em algum lugar, percebendo seus dedos trêmulos, e alimentou a coruja, que após perceber que nada mais viria dali, levantou vôo e foi sem empoleirar para um merecido descanso.
Olá Severo,
Cheguei bem, o vôo foi tranquilo e Roma é linda. Faz calor e ainda hoje vamos passear pelo bairro para tomar um ar. Aqui faz bastante calor.
Não se preocupe, está tudo bem e estou muito feliz.
Já sinto sua falta. Você ia adorar aqui. Vou te trazer um dia, ok?
Um beijo com saudades,
Hermione.
Ele releu o bilhete várias vezes, contrariado por terem sido poucas palavras. Ele não via a hora de receber uma nova carta dela, contando mais coisas e assim, tratou de responder imediatamente.
Deu a carta para outra coruja, uma vez que aquela lhe deu doloridas bicadas, recusando-se a trabalhar para ele novamente, e após, aproveitou a caminhada até os seus aposentos para tentar aliviar sua tensão.
E assim foi nos três dias seguintes da partida de Hermione. Severo ficava trancado em seu quarto a maior parte do tempo. Quando saía ele usava seu passo mais lento para se distrair ao máximo, mas percebia que só encontrava satisfação ficando em meio aos seus livros velhos e um bom whisky de fogo para lhe fazer companhia. O lugar onde ele visitava pelo menos três vezes ao dia era o corujal, mas nenhuma outra carta tinha chegado.
Foi no final do quarto dia que Hermione estava fora, que ele recebeu Alvo em sua porta.
- Severo, posso entrar? – o diretor olhava paciente para ele, que se mantinha à frente da porta. Após ele dar passagem para o velho bruxo, ele percebeu a expressão incomum em seu rosto.
- O que houve, Alvo?
- Sente-se, por favor. – o diretor não estava olhando exatamente para ele, agora.
- Estou bem em pé. – um nó formou-se em seu estômago. Tinha acontecido alguma coisa. Alvo se sentou lentamente e olhou o fundo da lareira apagada. – Alvo?
- Severo, eu recebi uma coruja do Ministério da Magia. Houve outro atentado nesta tarde.
Severo ficou branco. Sentiu seus ouvidos zunindo imediatamente e percebeu que precisava respirar, devagar se possível.
- O quê? – ele gritou. – Alvo, fale de uma vez!
- O atentado foi em Roma, num café de rua. Houve uma explosão, idêntico à outra vez. Até agora, não conseguiram encontrar nada, nenhuma prova. – Alvo se levantou, movendo as mãos com cautela enquanto falava. – Severo, nós não temos certeza de nada ainda. Foi há menos de três horas.
Severo estava mudo. Ele não conseguia organizar seu raciocínio. Mas por um segundo, um clarão lhe inundou. Se moveu para a lareira e pegou o pó de flu.
- Severo. – o tom do diretor era baixo e sombrio. Snape se virou e o olhou, sentindo novamente a tontura lhe apitando nos ouvidos. – Eu já tentei. Não obtive resposta.
Os dedos das mãos de Severo se fecharam com força. Hermione... Não era possível, não agora. Não! Ele tinha pedido tanto para ela não ir, pelo menos agora. A sensação de tragédia sentida há dias atrás caindo sobre ele como uma verdade incontestável. Hermione...
Snape sentiu as mãos do diretor em seus ombros, segurando-lhe com força. Hermione... Uma dor quase imperceptível em seus joelhos, ele buscou o ar inutilmente. Em sua mente só uma coisa ecoava: Hermione... Hermione...
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N/A - Olá queridas!! Como disse no meu aviso, eu demorei, mas voltei! E então, gostaram do granfinale cheio de suspense?! - hahahahaha - Espero que gostem do capítulo e que comentem mais, além de dar bronca em mim... x( - Agradeço à todos que estão acompanhando e curtindo. Pode não parecer, mas os posts de todos me incentivam muuuito!! Aguardem que no próximo muitas emoções nos aguardam!! Bjuuuussss