Esse capítulo é dedicado a Anis, minha companheira, leitora, adversária de campo minado, terapeuta e, acima de tudo, amiga. E vem com um pedido de que ela deixe uma review dizendo o que achou desse capítulo difícil por motivos que tratarei na N/A, assim como de que ela dê a todos nós uma melodia para A Canção do Pirata Perdido. Postarei com muita alegria no multiply se ela nos der essa honra.
Esse é seu, Anis!
A Senhora dos Mares
Capítulo 5
A Canção do Pirata Perdido
O interior da casa de Albus Dumbledore conseguia ser ainda mais impressionante que o exterior. As paredes eram cada uma de uma cor diferente e estavam cheias de prateleiras com dezenas de vidros de todos os tamanhos preenchidos com uma imensa variedade de coisas multicoloridas; o chão também estava atulhado de estranhos objetos feitos de madeira e ferro, alguns até mesmo se moviam. Havia uma mesa à esquerda cheia de vidros com líquidos encaixados em estruturas de ferro, livros, penas, tinteiros, conchas e outras várias coisas que Lily não conseguiu identificar. Um vão na parede oposta dava acesso a outro cômodo.
- Fiquem à vontade – disse Dumbledore, e Lily imaginou se era possível ficar à vontade num lugar como aquele. Parecia que estava dentro de um arco-íris, num sonho bizarro. – Sirius, não pise nisso, pode matá-lo antes que diga Lady Tiocvari.
Lily arregalou os olhos e segurou o vestido mais alto e junto ao corpo enquanto seguia o Capitão do Esmeralda. Foi grande a sua decepção quando viu que o outro cômodo era praticamente igual ao primeiro; a diferença era apenas que ali havia uma mesinha redonda e alguns bancos de três pés, onde foram convidados a se sentar.
- Vou preparar o chá – anunciou o anfitrião animadamente. – Cuidado com o que tocam.
A ruiva estava decidida a não tocar em nada, exceto o banquinho alto onde se acomodara, mas não conseguiu evitar devorar tudo com seus olhos atentos e curiosos. Em menos de um minuto, Albus estava de volta e Lily não se surpreendeu ao ver o chá pronto. Não se surpreenderia facilmente depois de tudo o que presenciara. Pelo menos era o que acreditava.
- Vejo que receberam minha mensagem – disse ele, colocando a bandeja sobre a mesa e servindo quatro xícaras.
- É sempre uma surpresa agradável ver Roxy em meus sonhos – sorriu Sirius.
- Imagino que sim – disse Dumbledore, e subitamente seu rosto estava sério. – Roxanne só aceitou fazer essa gentileza para mim porque poderia vê-lo. Está cada vez mais resistente a aprender mais sobre seus poderes e, principalmente, em usá-los.
- Por que o senhor mesmo não enviou a mensagem? – perguntou Lupin.
- Ora, é muito mais agradável receber a visita de minha neta do que a minha. Chega a ser uma descortesia interromper os sonhos de alguém e substituí-los por um velho como eu – disse simpaticamente, bebericando seu chá. – Além disso, uma ligação emocional aumenta a possibilidade do feitiço dar certo e nós não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar certos materiais.
Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas tomando o chá.
- Que indelicadeza a minha – disse Dumbledore subitamente. – Nem ofereci alguns biscoitos.
Assim que ele saiu, Lily olhou para os três piratas, impaciente.
- Pensei que vínhamos procurar um tesouro, não tomar chá – sussurrou a ruiva.
- Não o apresse, Lily – foi tudo que Remus pode dizer.
O homem já voltava com um novo bule de chá e cookies. – Ele sorria e Lily teve a impressão de que ouvira o que haviam dito. Na verdade, ela tinha a impressão de que nada jamais passaria despercebido pelos ouvidos e, principalmente, os olhos brilhantes de Dumbledore.
Alguns cookies depois, Albus falou:
- Recebi uma mensagem do Templo. – Seu tom era sóbrio e claro de tal forma que Lily jamais desacreditaria de qualquer palavra que ele dissesse, por mais excêntrico que lhe parecesse. – Uma Dama do Templo teve uma visão sobre vocês. Sobre todos nós. Ela viu a guerra, viu uma grande ameaça à Senhora dos Mares. O Grande Senhor está adormecido há anos, acomodado... – Ele parou com um suspiro. – É uma longa história.
- Temos algum tempo, Albus – disse Sirius, estimulando-o a prosseguir.
Com um sutil sorriso, Dumbledore continuou:
- Não tanto tempo quanto é necessário. A Mensageira disse que o que vocês deviam saber é que devem se preparar e vir até mim quando o momento chegar. Todos vocês.
- Eu? – Lily não pode evitar interromper; o que ela tinha a ver com isso?
- Ora, senhorita – disse Dumbledore pacientemente. – Seus companheiros não lhe disseram que possuem o dom da magia? Todos vocês possuem.
- Eu tenho o dom da magia? Como Roxy? Eu poderia me transformar num corvo? – ela disparou, tão rapidamente quanto as perguntas haviam surgido em sua mente.
- Não como Roxanne – ele disse, suspirando diante da ingenuidade da moça. – Roxanne foi treinada por mim e pela mãe dela, sua magia evoluiu desde que ela era pequena, se tornando mais forte e sábia. Você, como James, Remus e Sirius, não teve treinamento quando criança; cresceu sem saber que tinha capacidade de realizar mágica.
- Se eu tenho esse poder, qualquer um pode ter – murmurou ela, descrente.
- Não. Qualquer um, não. – Ele pareceu cansado, como se aquele discurso fosse extremamente recorrente. – Deixe-me contar uma pequena história para que entenda. Já ouviu falar da caça às bruxas? Durante a Idade das Trevas? A maior parte das bruxas começou a deixar seus filhos crescerem sem desenvolverem seus poderes, sem sequer saberem que tinham poderes, para que ficassem livres da Inquisição. A magia desapareceu não por ter sido exterminada, mas por ter sido ocultada, dentro de seus portadores. Poucas famílias mantiveram a tradição mágica, ainda que em segredo. Uma delas é a minha.
Lily olhou para Sirius, para Remus e, por último, para James, pedindo uma confirmação, implorando por compreensão.
- Dumbledore, não tente confundi-la – pediu James. – Toda essa história de mágica...
- Confundi-la? – a voz do anfitrião subitamente se tornou grave e poderosa, e ele se ergueu. – Essa jovem terá um papel importante na guerra que virá, ela precisa compreender o mundo como vocês compreendem, ou ao menos deveriam. – Ele fitou Lily diretamente nos olhos, sério e sábio. – Mágica existe. Você já a viu várias vezes hoje e talvez tenha visto durante sua vida também. Precisamos aprender a lidar com nossa mágica, não apenas porque é uma tradição milenar, um dom divino, mas porque precisaremos nos defender. Nossos inimigos estão treinando nesse mesmo momento e vocês se recusam a aceitar a única coisa que pode salvá-los.
O silêncio reinou durante longos e desconfortáveis segundos.
- Este mago aqui está velho demais para lutar sozinho – declarou, apontando o polegar para seu peito. – Roxanne precisa entender o que está acontecendo para se proteger. Vocês precisam aprender antes que seja tarde.
Lily olhava para Dumbledore, o rosto do anfitrião parecia subitamente enrugado e cansado demais.
- Se você tem algo para nos contar, Dumbledore, estamos dispostos a ouvir – disse Potter.
- É uma boa decisão, James. Seu pai se orgulharia.
Lily ficou mais atenta quando o pai do Capitão foi citado e viu que James também. Dumbledore abriu os braços e sua expressão se suavizou.
- Eu cometi erros – explicou. – Como vocês aprenderam graças a Peter Pettigrew, a confiança é algo muito delicado. Eu confiei na pessoa errada e a visão da jovem Sacerdotisa é a confirmação de que meu erro trará consequências gravíssimas. O fato é que precisaremos lutar se quisermos salvar o mundo que conhecemos.
- O que...
- Agora não, Remus – interrompeu Dumbledore. – Vocês entendem a gravidade do que estou dizendo? As pessoas sem mágica não podem se defender dos magos, mas podem lutar. Vocês podem fazer as duas coisas. São um esquadrão de elite para o nosso lado.
- Certo, mas como? – Sirius expressou a pergunta que todos desejavam fazer. – Como vamos aprender mágica a essa altura?
- A mágica é fruto da sabedoria – explicou. – Escrevi muitos livros durante minha vida e creio que um deles possa acompanhá-los em sua missão, adiantando seu aprendizado. No mais, tentarei eu mesmo me encarregar disso. A senhorita sabe ler?
- Sim – respondeu a ruiva. Havia aprendido a ler e escrever ainda pequena, mas fora com Charlotte que ela realmente lera livros e escrevera cartas.
- Excelente, ficará incumbida de lembrar a esses três homens da necessidade dos estudos – afirmou Dumbledore, alisando a barba com uma expressão concentrada.
- Dumbledore, e sobre aquilo que Roxanne falou na mensagem? – perguntou Potter.
- Para conseguir alcançar a cura de Lupin, vocês precisam entender primeiro o que precisam fazer. Entender e aceitar.
Lily imaginou que ele e os amigos acreditavam que a solução para o problema de Lupin fora um pretexto para levá-los até ali. Aparentemente, depois de uma hora na companhia daquele homem, Lily o compreendia melhor que os três.
- É a nossa missão. É isso, não é?
Dumbledore confirmou. Lily sentiu que estava disposta a arriscar-se naquela missão. Mesmo que acreditar naquilo significasse acreditar na guerra que a Sacerdotisa previra. Olhando novamente para o mago à sua frente, decidiu-se.
- O que devemos fazer?
- Vocês deverão ir à Ilha da Deusa – respondeu Dumbledore com simplicidade. – Seguirão a lenda: deverão encontrar uma forma de convocá-la e barganhar um acordo que favoreça nosso companheiro.
- E onde fica essa ilha? – perguntou James.
- Eu não sei – respondeu Albus e Lily viu James prender a respiração, sufocando uma imprecação. – Mas a Srta. Evans talvez possa nos dizer.
- Eu?
Lily não poderia estar mais perplexa. Não entendia nada de navegação, estivera em um navio apenas como enfermeira da Marinha e somente por alguns meses. Como poderia lhes oferecer a direção de uma ilha mágica?
- Sim – respondeu Dumbledore, como se fosse óbvio.
- É um velho feitiço pirata – explicou Potter. – Só pode ser feito com mulheres.
- Ah, podem ignorar a má sorte trazida por nós na hora de fazer feitiços? – ela não pode evitar zombar.
- Geralmente usam-se prisioneiras – disse Sirius. – Mas você poderá fazer de bom grado, não é mesmo? – Sirius acompanhou a pergunta com um sorriso sedutor. Lily torceu os lábios em uma careta. Por acaso ele pensava que ela fosse Roxanne?
- O que eu tenho que fazer? – perguntou, afinal.
- Deixar que o Capitão a enfeitice – disse Sirius. – Quando acordar, dirá as coordenadas que devemos seguir.
- E o que exatamente ele deverá fazer para me enfeitiçar? – ela insistiu, cheia de suspeita.
Potter rolou os olhos exalando impaciência e superioridade.
- Não aja como se não a respeitássemos – disse o Capitão. – Você só terá que me deixar cantar uma música. Vai adormecer, e na manhã seguinte saberemos que direção tomar.
Lily virou-se para Remus e em seguida para Dumbledore, como se pedindo a confirmação de que aquilo era realmente tudo.
- Certo – concordou. – Eu posso fazer isso.
- Claro que pode – disse Albus com energia. – James, aqui estão os seus óculos. Tente não danificá-los novamente, é muito trabalhoso fazer um – falou entregando a Potter uma armação como a que ele usava no rosto. – Se puderem me acompanhar, o livro está na sala de visitas.
Dumbledore foi seguido até o primeiro cômodo e cantarolou enquanto folheava os livros sobre a mesa. Quando finalmente achou o que procurava, virou-se para Lily.
- Cuide bem disso – pediu, entregando-lhe um pesado livro de capa negra. – E obedeça-o, assim como a mim.
- Certo – ela concordou com o cenho franzido. De repente começava a imaginar por que estava se envolvendo em tudo aquilo. Parecia uma completa loucura.
- Separei algumas coisas para essa viagem – disse ele, movendo-se na direção de uma das prateleiras. – Só tive tempo de fazer dois colares. São valiosíssimos, escolham bem quem deverá usá-los.
- Para quê servem? – perguntou Remus, recebendo os cordões pretos, cada um com um estranho pingente feito de conchas.
- São encantados – explicou. – Para que seu portador não sofra danos mágicos. Como eu disse, deverão escolher bem quem ficará com eles.
- Por que o senhor simplesmente não diz quem de nós deverá usá-los? – perguntou Lily.
- Ora, minha querida, isso destruiria toda a emoção – sorriu ele. – E todos precisamos de um pouco de emoção, não é mesmo? Aqui, Sirius, segure isso.
Ele colocou um pequeno vidro em forma de gota numa das mãos de Sirius e virou o conteúdo de um dos frascos da mesa dentro dele. O líquido era viscoso e tinha uma cor azul turquesa.
- Tampe – ordenou, entregando a Sirius uma rolha. – Devem tomar muito cuidado com essa. É uma poção curadora fortíssima; algumas gotas sobre o ferimento, mais algumas na boca do ferido e a morte será evitada. E essa: usem apenas se estiverem em grandes apuros. – Entregou a Sirius um frasco com uma poção vermelho sangue. – E essa pode torná-lo invisível. – Dessa vez a cor da poção que foi posta na mão de Sirius era verde-claro. – E isso é para quando tudo parecer estar acabado. – Dumbledore entregou a Potter uma caixa. – Abra quando conseguirem terminar o que vão fazer.
Lily puxou a bolsa em sua perna para guardar as poções.
- Qualquer outra coisa que possam precisar estará no livro – disse o mago por fim.
- Dumbledore – James chamou, sério. – Você parece saber que vamos ter sucesso.
A caixa na mão do Capitão era seu maior argumento, de modo que ele a indicou.
- Os bons pensamentos são poderosíssimos – disse ele com um sorrisinho misterioso. – Além disso, tive uma indicação na visão da Sacerdotisa de que Remus não será mais um homem amaldiçoado quando a guerra estourar.
- Como a...
- Sem mais perguntas – Albus interrompeu Remus. – Por que não deixam esse velho mago descansar? Vocês têm um feitiço para fazer e uma longa viagem pela frente.
O homem já tinha aberto a porta.
- E se não conseguirmos chegar antes da lua cheia? – perguntou Sirius subitamente.
- Estarei observando vocês – garantiu Dumbledore, indicando que já havia refletido sobre isso também. – Poderei protegê-los por duas ou três noites, no máximo. De qualquer forma, Sirius, não deixe de dormir. Roxanne entrará em contato com você por mim. Lembrem-se de voltar a mim quando terminarem o que vão fazer.
A essa altura já estavam todos do lado de fora e o mago apenas fechou a porta, encerrando seu contato.
- Talvez seja apenas uma forte impressão – disse Lily, umedecendo os lábios. – Mas a mim parece que ele nos expulsou de sua casa.
- A mim parece que ele nos disse dezenas de coisas, mas também não disse nada – falou Sirius.
Eles olharam para a casa e para o jardim. Tudo voltara a ser simples e estranhamente acinzentado. Lily abraçou o livro, sentindo o vento frio da noite.
- Os dois estão certos, creio eu – disse James, parecendo achar graça da situação. – O fato é que não temos opção, exceto obedecê-lo.
- É, parece que não vamos ter diversão hoje – resmungou Sirius.
- Os homens vão ficar irritados – alertou Lupin, parecendo ele mesmo bastante resignado.
Lily se perdeu nesse último comentário. Não sabia dos planos dos piratas e por isso não entendia que as ordens de Dumbledore haviam encerrado qualquer perspectiva de o segundo grupo de piratas, o grupo que os incluía, desfrutar das mulheres de Big Turtle naquela noite. Teriam que se apressar em direção ao alto-mar enquanto Lily descobria a direção para a qual seguiriam.
Quando chegaram ao barco, o primeiro grupo já havia retornado e as ordens de Potter para que preparassem o Esmeralda para partir foram recebidas com a esperada insatisfação. Isso não afetou a Capitão, de modo que em uma hora já estavam prontos para zarpar rumo ao mar aberto.
Lily havia se lavado e comido algumas frutas nesse período. Não conseguia se impedir de sentir uma grande ansiedade com relação ao feitiço que seria feito com ela e duvidava que fosse capaz de dormir por mais que cantassem para ela.
Potter abriu a porta sem bater, fazendo-a sobressaltar-se. A ruiva tinha estado observando a pintura que concluíra ser de Ulisses Potter, logo atrás da mesa do Capitão.
- Ainda remoendo o que meu pai lhe fez? – perguntou James, fechando e trancando a porta atrás de si.
- Só... Imaginando o que o levou a partir para... Como é mesmo o nome?
- Os domínios de Davy Jones – respondeu.
- Isso. O que o levou a partir para os domínios de Davy Jones.
- E o que concluiu? – ele perguntou, parando com as mãos espalmadas sobre a mesa, os olhos fixos nela.
- Remorso, talvez. Solidão. Não sei, Capitão. O senhor tem razão quando diz que seu pai era um homem muito misterioso.
- Sabia que concordaria comigo cedo ou tarde.
Ele sorriu, prepotente, e ela meneou a cabeça.
- Pronta para ser enfeitiçada? – o pirata perguntou.
- Não sinto sono algum – ela confessou.
- Eu a farei dormir – disse ele, indicando a cortina azul que dava para seu quarto, onde na verdade não ia há duas semanas.
Lily engoliu em seco. Um estranho pensamento subitamente lhe veio à mente: se Ulisses Potter era misterioso, James Potter era ainda mais.
Ela seguiu o caminho apontado por ele e deitou-se tensa sobre a cama. Ele a observou por alguns segundos e sorriu.
- Tente ficar mais calma – pediu. – Esvazie sua mente de qualquer pensamento.
A ruiva olhou-o, não parecendo nem um pouco inclinada a fazer aquilo.
- Vamos lá, Lily. Pelo feitiço. Por Remus.
- Você é o único que pode fazer isso? – ela perguntou, as bochechas adquirindo um suave tom rubro.
- Por que a pergunta?
- Não sei. O senhor não me parece o tipo que canta – ela murmurou.
Ele riu. Uma risada ao mesmo tempo grave e suave. Relaxada.
- Desculpe-me, Capitão, mas o senhor não me parece capaz de fazer algo assim tão delicado.
James semicerrou os olhos.
- Eu poderia surpreendê-la, Lily Evans.
Ela fixou os olhos verdes nos dele, realmente surpresa.
- Vamos ver.
Ele sorriu de lado e olhou fixamente para o chão por alguns segundos, como se tivesse encontrado ali algo extremamente interessante.
- Quanto à sua pergunta: sim, eu sou o único que pode fazer isso. Agora feche os olhos.
Ela obedeceu. Estava mais calma, mais à vontade.
- Capitão – chamou. – Tudo o que aconteceu hoje foi mesmo real? Tudo o que aconteceu nas últimas duas semanas foi real?
James observou-a silenciosamente. O rosto arredondado, o nariz pequeno, os cílios ruivos. Era uma menina, inocente e frágil, perdida num navio pirata. Ao mesmo tempo, era uma mulher obstinada e teimosa buscando seu destino.
Ele permaneceu calado por tanto tempo que ela tornou a abrir seus olhos, imaginando se ele ainda estava ali.
- Capitão?
- Foi real para mim – respondeu, pigarreando. – E para a senhorita?
Ela sorriu, olhando para o teto.
- Foi absolutamente irreal – respondeu. – Mas não me importo. Por mais estranho que possa parecer, estou feliz aqui.
Lily voltou a fechar os olhos.
- Pronta? – ele perguntou depois de alguns segundos.
- Como vou me sentir? – ela perguntou.
- Não sei, senhorita.
- Nunca perguntou a nenhuma mulher que enfeitiçou como ela se sentia? – disse ela, o conhecido tom de reprimenda quase palpável em suas palavras, fazendo-o sorrir.
- Perguntarei a você pela manhã – garantiu. – Agora faça como pedi. Esvazie sua mente, vá para um lugar em que se sinta tranquila.
- Eu já estou – a resposta dela o surpreendeu, mas não parou novamente para refletir. Teria a noite toda para isso.
James inclinou-se em direção ao ouvido de Lily, os próprios olhos fechados, e cantou.
No mar os sonhos se encontram
E, como as ondas, vêm e vão
No mar os homens buscam vida
Liberdade, ouro e paz
Bela dama, feche os olhos
O seu sono eu vou velar
Doce anjo, adormeça
Meu caminho vem guiar
Na imensidão, muitas estrelas
Uma só guarda o que busco
Quando ao sol despertar
Traga consigo o meu segredo
Ele finalizou com uma longa última sílaba e abriu os olhos. A respiração de Lily estava calma e constante, seu corpo relaxado. A Canção do Pirata Perdido a encantara com seu poder.
Potter se sentou no chão, ao lado da cama, para cumprir sua promessa de velar o sono da ruiva.
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Exatamente como dissera a canção, Lily despertou junto aos primeiros raios de sol. Ela sorriu com a visão do sempre imponente e poderoso Capitão vulnerável diante dela, adormecido no chão.
Não durou muito. Ao primeiro rangido da cama, James acordou. Ele se pôs de pé, cheio de dignidade e espanou a sujeira da roupa.
- Bom dia, Capitão – ela disse, sentando-se.
- Bom dia. Para onde vamos, senhorita?
As coordenadas saíram de sua boca sem que pudesse refreá-las. Lily arregalou os olhos de imediato enquanto James sorria.
- Vista-se – disse ele. – Vou repassar nossa direção para os marujos.
Ela concordou com um gesto da cabeça. Por alguns instantes ele desapareceu por trás das cortinas, mas rapidamente voltou.
- Então, como se sentiu? – perguntou passando a mão direita pelos cabelos.
Ela sorriu.
- Normal. Adormeci profundamente, não tive sonho algum. Sinto-me muito disposta.
- Excelente.
Ele também sorriu e tornou a sair.
Quando Lily pisou no convés, acreditou que o sol perderia seu posto de grande fonte de luz, pois o sorriso de Remus não podia ser mais brilhante. Assim que a viu, o pirata envolveu-a em seus braços e tirou-a do chão, fazendo a ruiva soltar um gritinho de surpresa.
- Remus, me ponha no chão – pediu ela, constrangida.
- Não até tê-la agradecido o suficiente – respondeu. – Graças a você estamos finalmente caminhando para uma solução. Você nos deu um caminho!
- Qualquer mulher poderia ter feito isso – ela disse, modesta, se desvencilhando dele assim que seus pés tocaram o chão. – Fico lisonjeada, mas não acho que seja para tanto.
- É claro que é para tanto. Dumbledore disse que não estarei mais amaldiçoado!
- Sim. Ele disse também que uma guerra aconteceria, lembra?
Mas ele não parecia estar ouvindo. Já valsava animadamente em direção a Steve, que lançou-lhe um áspero:
- Não me toque, Lupin.
Lily sorriu para o chão, contente pelo pirata. Lembrou-se do livro que Dumbledore lhe dera e voltou ao quarto para pegá-lo. Aproveitou também para guardar os delicados vidrinhos de poções em segurança dentro de seu baú. Quando voltou, escolheu um lugar no convés para se sentar: um canto próximo ao mastro principal onde as velas faziam sombra durante praticamente toda a manhã.
A ruiva passou a mão pela capa negra lisa do livro, sentindo a textura. Era couro de animal, tinha certeza, talvez um lustroso búfalo. Abriu o livro e encontrou uma contracapa curiosa: um cavalo alado fora desenhado ali e logo abaixo estava escrito numa caligrafia fina e inclinada:
Magia Básica para Bruxos Novatos e Irresponsáveis
Por Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore
Sorriu. Claro que ele não perderia a chance de desdenhar do fato de James, Sirius e Remus terem ignorado o fato de terem poderes mágicos. Passou a página com delicadeza.
Considerações iniciais
O poder é tanto um fardo quanto um dom.
Não importa de onde se acredite que a mágica vem, deve ser usada com responsabilidade e unicamente para o bem. Um bruxo que usa seu poder para o mal deve ser punido através da perda de toda a magia, pelo Expurgo de Mérlin.
Um bruxo não deve usar magia contra outro bruxo, exceto em situações extremas.
Mesmo a magia que pode favorecer uma pessoa não-mágica deve ser evitada, pois está sujeita a diversas interpretações.
O poder desperta o medo, o medo desperta a desconfiança.
Havia cerca de quatro páginas que discutiam essa temática. A forma como os bruxos sempre foram mal interpretados, como alguns deles realmente foram traiçoeiros e como o poder os tornou culpados de tudo o que acontecia à sua volta. Lily compreendeu rapidamente que ali estava uma lição valiosa: o fardo devia ser levado com cuidado, o dom devia ser usado com parcimônia. Ela compreendia a situação dos não-mágicos e concordava que a mágica devia ficar entre os bruxos enquanto fosse possível, tanto pela natureza humana quanto por segurança. Mesmo assim, era uma pena.
O primeiro capítulo ensinava técnicas de concentração. Formas de sentir o poder e canalizá-lo. Lily teve muita dificuldade naquilo, de modo que terminou fechando livro com um estrondo e se afastando frustrada em direção à cozinha. Lá, ela encontrou Sirius.
- Algum problema, Lily?
- Não consigo compreender sequer a lição número um do livro de Dumbledore – disse ela com sinceridade. – Eu devia fazer um exercício básico que consiste em canalizar minha energia para fazer o livro levitar, mas não consigo. Talvez ele esteja errado em acreditar que eu seja uma bruxa.
- Dumbledore não se enganaria quanto a isso – ele disse, achando graça da irritação da ruiva. – Vá descansar sua mente, à noite trataremos disso.
Sirius cumpriu sua promessa. Ao pôr-do-sol daquele dia, eles se reuniram na cabine de Potter para ouvir sobre o que Lily tinha lido e estudar sua primeira lição. Ela explicou com ar professoral cada linha que tinha interpretado e respondeu perguntas gentilmente. Quando chegou ao ponto do qual não conseguira passar, fez questão de ler o livro em voz alta de modo que eles pudessem ouvir diretamente as palavras de Dumbledore e, talvez, perceber algum detalhe essencial de que ela sozinha não tivesse se dado conta.
Mas a escrita parecia muito clara e objetiva, diferentemente do próprio Dumbledore. Eles não conseguiram detectar nada que a própria Lily já não tivesse refletido várias vezes. Depois de uma sugestão de Sirius para que vissem se não haveria algo mais explicativo no capítulo seguinte, a ruiva descobriu também que as páginas seguintes estavam em branco, exceto a última:
O grande mago não se apressa.
Eles souberam que precisariam aprender aquela lição para que a já conhecida letra inclinada lhes ensinasse o próximo passo.
Dentre os quatro, aquele que ficou visivelmente mais transtornado com o fato de não conseguir executar a única e aparentemente simples ordem daquele capítulo foi Potter. O Capitão manteve o cenho franzido enquanto observava e, quando Sirius deu a noite por encerrada, pediu a Lily para ficar com o livro.
Certa de que só poderia se irritar mais se continuasse lendo o livro repetidamente, ela concordou, desejando-lhe sorte.
A manhã seguinte da ruiva foi toda dedicada a trabalhar sua concentração, a sentir e canalizar seu poder. Não houve nenhum avanço, a não ser que se considerasse o fato de ela ter tropeçado no convés enquanto caminhava de um lado para o outro e arranhado as mãos.
Depois do pequeno acidente, Lily resolveu dar a si mesma a tarde de folga. Foi, como ela esperava, excelente. Conseguiu descansar sua mente fazendo trabalhos simples como consertar botões, esfregar roupas e conversar. Larry lhe contara, enquanto ajudavam Rupert a descascar batatas para o jantar, que em breve uma estrela cadente passaria no céu. Os conhecimentos do alegre pirata vesgo em astronomia eram impressionantes, de modo que Lily se pegou pensando que talvez pudesse pedir à estrela – havia uma crença de que os pedidos feitos a esse tipo de estrela seriam sempre atendidos – que a fizesse executar a primeira lição de Dumbledore. Imediatamente mudou de ideia: pediria que garantisse o bem estar de seu pai, Charlotte, Petunia e de toda a tripulação do Esmeralda. Por fim, decidiu que desejaria o fim da maldição de Lupin.
O sol já havia percorrido quase três quartos do céu quando Potter se postou ao lado dela, junto à amurada da proa, onde dias antes ele havia lhe revelado sobre a morte de Ulisses Potter.
James tirou o chapéu de sua cabeça e colocou sobre a cabeça da ruiva.
- Vai acabar se queimando se não se proteger do sol – ele disse, o persistente sorrisinho enigmático ali, fazendo Lily cerrar os olhos, ansiosa por compreender o significado daquela expressão.
- Eu gosto do sol – respondeu com simplicidade, mas ajustando o chapéu sobre a cabeça cuidadosamente.
Eles ficaram em silêncio por um minuto ou dois. O vento finalmente estava a favor de seu percurso, de modo que o barco zarpava a toda velocidade em direção a oeste. O mar estava calmo, azul num tom muito parecido com o dos olhos de Sirius.
- Gostaria de pedir-lhe desculpas – disse Potter, subitamente.
Aquela era a sentença pela qual a ruiva menos esperava. Ela fitou o perfil dele – mais uma vez o pirata não a olhava diretamente enquanto conversavam.
- Pelo quê?
- Por minha indelicadeza – ele respondeu, parecendo ao mesmo tempo confuso e impaciente quando encontrou seu olhar.
- Oh – ela murmurou e em seguida sorriu. – Por qual delas, Capitão?
Potter olhou-a como se a moça estivesse completamente fora de si, mas ainda assim respondeu mantendo o tom de voz brando.
- Pelo modo como lhe falei n'O Corvo, na casa de Ed.
- Ah, isso.
Ele inspirou profundamente.
- Sinto muito por tê-la feito chorar.
O rosto de Lily se suavizou e foi a vez de ela fitar o mar enquanto ele observava seu perfil. Ela refletiu por alguns segundos longos demais para Potter.
- Tudo bem, Capitão – disse por fim, consciente de que não fora apenas ele a causa de seu pranto. – Tenho certeza de que o restante de sua tripulação é mais disciplinada, além de capaz de se defender.
- Não é uma questão de disciplina – ele disse, o rosto refletindo toda a curiosidade que sentia. – Piratas não são disciplinados. A senhorita se colocou em risco por um motivo bobo.
- Um motivo bobo? – ela perguntou, ansiosa.
- Estava óbvio que queria garantir a Roxy que não é uma prostituta.
- O senhor acha que sempre sabe de tudo – ela disse, revirando os olhos.
- Me corrija se falei alguma mentira, Srta. Lily.
- Não – ela disse. – Não é mentira. Pode não parecer importante para o senhor, mas era importante para mim. Tenho uma família e uma reputação a zelar.
James sorriu para ela, meneando a cabeça.
- Uma das coisas mais importantes que meu pai me ensinou foi que não importa o que as pessoas pensam de você, mas o que você realmente é. "Se estiver bem consigo mesmo, estará bem", ele dizia.
- Seu pai não é o tipo de homem que dá grandes conselhos – a ruiva apontou, mas em seguida se arrependeu.
Por mais que fosse um homem ruim, Ulisses Potter era pai de James. Havia algum tempo ela decidira o tratar com o mesmo respeito com que tratava todos os mortos.
- Para mim, esse foi um grande conselho – ele disse secamente.
- Eu sei. Imagino que para mim também, apesar de ter vindo com um pouco de atraso. – Ela fitou-o, silenciosamente arrependida.
Ele compreendeu, lembrando o quanto fora difícil ir até ela e se desculpar.
- Na verdade, aprendi algo com isso tudo – murmurou Lily, ansiosa por mudar de assunto. – O senhor estava certo.
- Em quê? – ele perguntou, ainda ligeiramente distante, mas sinceramente interessado.
- Foi realmente melhor não ter encontrado o antigo Capitão – respondeu, tomando cuidado para não usar o nome de Ulisses Potter. – Eu jamais teria tido coragem de fazer o que imaginava que faria quando o encontrasse.
James a olhou com cuidado.
- Matar não é algo simples – disse ele.
- Agora, eu sei. Nem mesmo machucar é algo simples. Eu não seria capaz. Não porque sou uma pessoa boa ou coisa parecida; eu não sou – ela falou rapidamente, como se refletir o que dizia fosse tornar tudo ainda mais confuso. – Talvez porque já cuidei de muitos feridos, já presenciei a dor e a morte da guerra. Simplesmente não poderia ferir alguém.
Ele balançou a cabeça de cima para baixo algumas vezes, indicando compreensão. James também percebeu o desejo dela de justificar sua fragilidade enquanto integrante daquela tripulação. Era curioso o modo como ela estava sempre lançando mão de argumentos mesmo nas entrelinhas.
- O que eu vi em Big Turtle foi tão terrível. Eu temi tão profundamente por Sirius, Remus e você. Se algo lhes tivesse acontecido por minha culpa...
Lily encerrou seu pensamento ali, como se concluí-lo fosse assustador demais.
- Como lhe disse no dia em que pisou neste barco, o mar não é um lugar tranquilo. É de uma profunda beleza, é sedutor, mas é perigoso, tão surpreendente que parece até mesmo traiçoeiro.
Os olhos da ruiva se fixaram em James e ela sentiu vontade de sorrir, mas tentou manter-se tão inexpressiva quanto ele. Era como se o Capitão tivesse acabado de se descrever.
- Imagino que haja uma forma de lidar com o mar sem precisar lutar contra ele – ela disse, calmamente.
- Lutar geralmente não é uma boa ideia.
- Pensei que aqui sobrevivia o mais forte e que ele nem sempre é o mais moralista – a ruiva o parafraseou cheia de ironia.
James sorriu.
- Não estava falando do mar quando disse isso, mas dos homens dele. Com os homens existe a diplomacia, mas ela raramente funciona.
- Claro, para que conversar se podemos arrancar membros – ironizou.
Ele se limitou a sorrir novamente.
- Então, existem outras formas? – ela perguntou.
- É claro que há outras formas. O mar nem sempre é compreensível, mas com o tempo você passa a ser capaz de lê-lo. Pode interpretar sua raiva nas calmarias ou mesmo antecipar uma tempestade.
- E mesmo assim tenho a impressão de que ele vai ser sempre misterioso – ela disse, àquela altura sem saber a quê (ou a quem) se referia.
- Creio que sim. Mas talvez esteja aí a beleza.
Lily achou aquele comentário estranhamente sensível para um pirata, mas, principalmente, sensível demais para o James Potter que ela conhecia.
- Eu também acho que deve saber se defender – ele disse, passando as mãos pelos cabelos já desalinhados, assanhando-os ainda mais. A mania já era velha conhecida da ruiva àquela altura. – Mas não sei como podemos providenciar isso.
- Nem eu – ela disse e, vendo a expressão duvidosa dele, acrescentou. – Na verdade pensei em aprender a lutar com espadas, mas não acho que seja uma boa ideia.
- Você se surpreenderia se soubesse o quanto podemos agir quando nossa vida está em perigo – James disse.
- Não sei – a voz dela não passou de um murmúrio.
- Veja bem, você mesma agiu assim. Não apenas por sua vida, mas pela vida das pessoas com que se importa. Ou pensa que não vi quando quebrou a garrafa de rum na cabeça daquele homem para ajudar Sirius?
O rosto dela enrubesceu.
- E também quando escapou rapidamente de Snape – ele disse. – Seu maior problema é não estar habituada ao derramamento de sangue.
- Não sei se posso me acostumar – confessou sussurrando.
- Depois do primeiro impacto é mais fácil – ele garantiu. – Além disso, não estou pedindo que tome partido, apenas que aceite a necessidade que o resto da tripulação tem de lutar.
- Posso aceitar isso – ela disse, ainda que incerta. – Mas que utilidade teria eu, sem empunhar uma espada?
Ele franziu o cenho e sua mão tornou a voar para seus cabelos.
- Esses homens passaram tanto tempo longe de mulheres de verdade que se esqueceram do que elas são capazes. Duvido que qualquer um deles possa viver longe de sua presença, agora. Sam veio para esse barco antes de completar dez anos, nem mesmo se lembra do que é ter uma mãe. E o velho Anão? – James meneou a cabeça mostrando que ele se impressionava com o que dizia. – Ele não sorria há anos.
- Está sugerindo que eu fique aqui para servir de mãe para seus marujos?
James fechou os olhos com força e Lily não se surpreendeu em ver os dedos do pirata deslizarem por seus cabelos escuros novamente. Inconscientemente ela registrou que aquilo ficava mais frequente quando o pirata estava nervoso.
- É claro que não – respondeu ele, abrindo os olhos com impaciência. – Estou dizendo que sua presença aqui é bem-vinda. Eles gostam de você. Além disso, vi que suas habilidades como enfermeira são bastante úteis.
- E o senhor, Capitão, o que acha de minha presença aqui? – perguntou, cerrando os olhos.
- Estava confortável com nosso tratamento anterior – disse ele. – Prefiro que me chame de você enquanto a chamo de Lily.
- James, o que você acha de minha presença em seu navio? – Ele ficou em silêncio, apenas fitando-a. – Porque parece confortável em dizer como sua tripulação se sente, mas e quanto a você?
- Compartilho dos mesmos sentimentos de minha tripulação – finalmente respondeu. – Até agora tudo o que nos trouxe foi boa sorte.
- Com exceção da briga n'O Corvo – lembrou.
- Escolhemos entrar naquela briga.
Lily arregalou os olhos. Só agora se dava conta de que aquilo era verdade.
- Por quê? Por que não deixou Severus me levar?
Ele fez uma careta.
- Eu não sei – disse James, pela primeira vez parecendo não pensar numa resposta. – Porque pirata nenhum leva um membro da minha tripulação sem a minha autorização.
- Você tem uma rixa com ele – ela disse. – Aposto como só fez aquilo para mostrar que tinha algo que ele queria.
- Está enganada. Eu coloquei a mim e a dois homens de minha inteira confiança em risco para defendê-la. Sabia que ia causar um desastre no bar e irritaria Ed. Acha que eu faria isso por uma maldita rixa? – Potter estava exaltado e perplexo; Lily engoliu em seco enquanto o encarava. – Há tempos que percebi que tem uma ideia errada sobre mim, mas vejo que também não faz a menor questão de tentar mudar isso.
- Tenho uma ideia errada? – ela perguntou, sem saber de onde vinha a coragem para enfrentar um homem maior e mais forte que ela com duas pistolas e uma espada presas à cintura. – Então você não é um homem prepotente, arrogante, rude e incapaz de pensar em algo além de você mesmo e esse navio?
A mão dele se fechou sobre o cabo da espada e Lily prendeu a respiração.
- Quer saber, senhorita? – a voz dele tremeu com sua raiva. – Eu não me importo. Não me importo com o que pensa. – Ele arqueou as sobrancelhas, incisivo. – Acredite no que quiser, afinal, está sempre certa, não é mesmo?
E antes que ela pudesse compreender o significado de todas as palavras dele, Potter já havia lhe dado as costas.
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Remus a procurou naquela mesma noite. O pirata se sentou ao lado da ruiva, comentou sobre como estivera tentando fazer o que o livro pedia sem sucesso e falou sobre a comida de Rupert; por fim, Lupin a fitou com seus olhos cor de rum e lançou:
- O que aconteceu?
- O que aconteceu quando?
Ela obviamente sabia. Mas, como no resto da tarde, se negava a pensar na conversa que tivera com Potter. A verdade era que quanto mais pensava, mais se convencia de que estava profundamente errada.
- Hoje.
- Não sei do que está falando.
- Lily – ele a chamou num tom muito parecido com o que Roger Evans usava com ela quando lhe escondia algo. – Estou falando disso que a está incomodando. Que está incomodando você e James.
- Por que não pergunta a ele? – perguntou num tom implorativo, quase infantil.
- Por que será que ele me disse a mesma coisa? "Por que não pergunta a ela, Remus?" – disse o pirata, fazendo uma imitação da voz de James que continha seu tom grave, impaciente e irônico.
Lily não pode evitar sorrir.
- O que vai fazer se eu não contar? – questionou, suspirando.
- Voltarei até ele. Depois até você novamente. Até que um dos dois baixe a guarda e me dê a verdade. Talvez eu peça ajuda a Sirius.
- Ah, não, por favor. Eu não suportaria Sirius me perguntando.
- Veja só como são parecidos. Foi exatamente o que ele disse.
- E ainda assim, você não conseguiu o que queria.
- Não. Por isso vim falar com você.
- Claro. Veio falar com a mais fraca.
- Na verdade vim falar com a mais esperta.
Lily o fitou por alguns segundos, aguardando a resposta da pergunta que ela não fizera.
- James é um homem inteligente, Lily, mas tem um orgulho maior que os sete mares juntos. Espero que você tenha o bom senso de ser diferente.
- Por que eu deveria? Ele está bem assim, não está?
- Você acha que ele parece bem?
Ela esperou alguns segundos e então rolou os olhos lentamente na direção do Capitão. Potter estava sozinho com seu prato de comida e um copo de rum, sentado no primeiro degrau da escada que levava à sua cabine, inexpressivo e tranquilo. Como se sentisse a força do olhar de Lily, ele ergueu seus próprios olhos e encontrou os dela.
A ruiva desviou primeiro.
- Não sei – respondeu, franca. – Nunca sei de nada quando se trata dele.
- Certo – concordou pacientemente. – Eu conheço James muito bem, eu sei. Está pensativo, chateado, incomodado.
Lily lembrou-se das palavras do Capitão a respeito do mar. Parecia que fazia tanto tempo que haviam tido aquela conversa tranquila.
- Sim – disse ela, incentivando-o a prosseguir.
- Você já viu James chateado alguma vez? Já o viu parecer triste?
- Não.
- Sabe por que você nunca viu, Lily?
Ela meneou a cabeça em negação.
- Porque James não expressa seus sentimentos como as pessoas em geral. Ele não olha diretamente nos seus olhos e diz que se importa com você. Ele defende você de um perigo em potencial. Ele faz coisas pequenas e simples que podem estar bem diante dos seus olhos, ou mesmo sobre a sua cabeça, sem que perceba. Às vezes ele faz piadas sobre você, comentários ácidos...
- Por que ele não age como uma pessoa normal? – ela perguntou, surpreendo-se com o quanto desejava aquela resposta.
- Eu não posso dizer com certeza. Creio que ele é como o mundo o fez ser. Muito parecido com o pai, mas, se você olhar de perto, do ângulo certo, vai ver que tem muito da criação da mãe.
- Mas ele faz questão de esconder – argumentou Lily.
- Você pode pensar melhor que eu nos diversos motivos que podem existir para isso. – Ele sorriu, tocando a mão dela. – Eu sei qual é o problema de vocês. Parecidos demais, geniosos demais. Seja lá o que aconteceu hoje à tarde, é bom que você saiba que não o deixou nem um pouco contente.
Lily suspirou e Remus se levantou.
- Eu acho que posso estar errada – ela disse, antes que ele se afastasse. – Quanto ao que aconteceu mais cedo. Mas se eu disser isso a ele, vai ficar todo cheio de si.
- Tem certeza?
- Não – disse impaciente. – É claro que não. Nunca sei o que pensar dele.
Remus sorriu.
- Quem sabe ele não se sente da mesma forma com relação a você?
A frase ficou no ar, pois Remus se afastou para jogar cartas com Sirius, Steve e Sam.
Lily ficou pensando nas palavras do pirata por mais alguns minutos. Decidiu se recolher quando, como se lhe dissesse algo, o chapéu do Capitão pesou sobre sua cabeça.
N/B – Livinha: Primeiro, fiquei encantada com a casa do Dumbie! E enquanto ele explicava tudo, tive a impressão que voltávamos aos tempos de Hogwarts, tratando os quatro como se fossem seus alunos. Mas a história da Ilha da Deusa, as Sacerdotisas prevendo a guerra...Ahm, irmãzinha! Que aflição e ansiedade que eu fico! Porém, como nem tudo são espinhos... Até eu quero ser enfeitiçada, agora! Hahahahaha! Mas meu pirata ainda não está na história! Deve estar prevendo como vai entrar nos mares, sendo que prefere o céu com seus dragões..rsrsrs.. OK, brincadeiras à parte. Adorei o capitulo! Dumbledore e sua sabedoria inquietante; Lily e James, cabeça dura e arrogante respectivamente; Remus tentando acalmar os ânimos com sua perspicácia... Espero cada vez mais gulosa por mais, querida! Um beijo especial e FELIZ ANIVERSÁRIO nesse 15º dia de março!! Te amo de montão!!
N/B – Alessandra (Sandy Meirelles): Por Merlim, Morgana e todos os bruxos do primeiro escalão! O que foi aquela travada de olhar entre Lilly e James?E o que foi a tensão de um simples "Eu a farei dormir"? Estou adorando a aventura em alto mar, mas como romântica de carteirinha vitalícia, estou aqui, deliciada com o início dos sentimentos desses dois!!! Bom, mas, tenho que mencionar o Dumbledore. O Dumbie foi simplesmente... o nosso Dumbie! Enigmático, dizendo sempre menos que a nossa mente ansiava!!! E amore.... Eu desejo, do fundo do meu coração, que o Mago maior deste Universo seja sempre, mas sempre benevolente contigo! E lhe lembro que ser benevolente não significa brindar-lhe com tudo que você almeja. Ser benevolente é proporcionar momentos felizes intensos o suficiente para serem sempre lembrados com um sorriso de puro deleite nos lábios e felicidade no coração; mas significa também – e principalmente – brindar-lhe com sabedoria o suficiente para degustar o gosto amargo da decepção e derrota de forma didática, sabendo que são importantes em seu crescimento e – o mais importante – que são temporários! Sempre me pergunto como em uma única passada d'olhos em você, em uma festa julina, me apeguei tanto!!!! Talvez a Senhora dos Mares me explique!!! Mais que feliz dia 15, desejo-lhe feliz VIDA! Longa e maravilhosa vida! Amo você! – Alê.
N/A: Olá, queridos leitores!
Se vocês leram as N/B's acima, sabem que hoje é meu aniversário e que estou dando uma de loja de eletrodomésticos (O aniversário é meu, mas o presente é de vocês!) e postando o capítulo novo nessa data tão especial (e absolutamente pontualmente, vale lembrar – três semanas!). É madrugada de segunda, mas como eu tenho que ir pra Universidade (o Campus é a uma hora e meia da minha casa... de ônibus), esse é o horário que tinha pra postar.
Não quero soar saudosista, até porque acho que não tem tanto tempo assim que seguimos juntos com essa história, mas em datas como essas é sempre bom lembrarmos a necessidade de valorizar tudo o que temos na vida. E uma coisa muito, mas muito importante mesmo que eu tenho nessa vida são vocês, idolatrados leitores, e minhas irmãs de coração. Obrigada por estarem sempre comigo! Obrigada por fazerem parte da minha vida! Obrigada por suportarem o ritmo em que levo a fic, a minha Lily, o meu James, o meu Sirius, o meu Remus... Todo esse mundo que deixou de ser particular há algum tempo e passou a ser nosso.
E, se não for pedir demais, deixem aquela review dizendo um "feliz aniversário" e, lógico, o que acharam desse novo capítulo. Vou amar.
Aliás, A Canção do Pirata Perdido não foi exatamente um capítulo de que gostei, mas foi necessário. Sei que tem muita gente louca pra ver beijos e declarações de amor e juro (a Anis, a quem dediquei o capítulo, e a Mony estão de prova) que a opinião de vocês é importante pra mim, tiro muitas idéias da reviews e lamentei muito não poder dar o tipo de romance que todas querem ver. Mas ninguém pode dizer que não há romance em tudo o que aconteceu, não é? Só tenham paciência. E tentem apreciar as coisas da forma como elas estão acontecendo. Mais uma vez, obrigada.
Quero agradecer principalmente às minhas betas Lívia e Sandy. Elas betam separadamente – primeiro a Liv e depois a Sandy – e deixam comentários em cores diferentes pra me mostrar como se sentiram... Ah, é sempre tão bom ler um capítulo betado! É como ler uma review meticulosa cheia de sagacidade e sarcasmo. Um exemplo nesse mesmo capítulo foi que a Liv (que vai se formar em letras) explicou com seu ar professoral e digno de McGonagall que cookies é uma palavra estrangeira e, portanto, deveria vir em itálico. Na vez da nossa querida Sandy ela disse "nossa, Dana, vamos parar com a conversa paralela se não a professora Lívia vai tacar um giz na gente". Adoráveis, como eu disse. Obrigada.
Ah, tenho também que deixar aqui minha REVOLTA com a derrota do Santos nesse domingo, dia 14 de março. Meu time estava invicto há mais de dez partidas e perdeu para o Palmeiras. Como santista azul (ser "roxa" é coisa de corinthiano...) eu esperava essa vitória como presente de aniversário e a decepção é impossível de esconder. Apesar de tudo, minha beta Sandy é palmeirense e acredito que ela esteja feliz, já que o Palmeiras tem perdido até pro lanterninha do Paulistão. Afff, vou encerrar aqui antes que fique muito chato.
Agora, vamos às reviews que eu adoro!
Cuca Malfoy: Oii! Obrigada. Espero que tenha gostado deste também. Um beijo!
Rose Anne Samartinne: Hey! Tudo bem? Então... O seu comentário me fez refletir um pouco sobre o imaginário de uma época, ou mesmo de um povo. Me fez ter algumas idéias interessantes para coisas que aparecerão bem futuramente na fic. Não sei dizer se seria uma descrente caso tivesse nascido naquela época, mas tenho certeza de que pensaria diferente de como penso hoje. A confusão da Lily está só começando... Pelo menos é o que disse Dumbledore, não é? Leu o romance? Viu o filme? Gostou do cap? Um beijo!
Sandy Meirelles: Chuchu! Ri demais com seu comentário sobre a pedra no meio do caminho entre o rim e a bexiga! Ah, pelo menos você teve tempo de reler... Fics tem esse problema: às vezes duram tanto tempo que esquecemos algumas coisas. Apesar da "palpável" tensão sexual (meu radarzinho até fez pipipipipipi quando chegou naquela cena), ainda não tivemos beijo! Dá pra ter paciência com esse dois idiotas? Também te amo!
Grace Black: Siim, dessa vez tem review da Grace! Há, adorei a história de como todas descobriram minha att. Dessa vez acho que o pandemônio vai ser menor, porque tanto você quanto a Mony sabiam do meu plano de postar hoje. O que achou, o que achou? Fiquei tão tensa com esse cap. Obrigada por tudo, chuchu! Beeijos.
Mônica Black: Cá está seu nome de novo! O humor do Sirius às vezes me surpreende. Mas ele surge sozinho, nem fico planejando nada. Alguns personagens simplesmente tem vida própria, não é? Sabe, eu fiquei preocupada com o James que criei no início, mas acho que ele está indo como eu pretendia. Também quero ver como vai ser. Lily é uma donzela, não adianta. Ainda não temos parâmetro do comparação, mas teremos os dois extremos e veremos que ela é nada mais, nada menos que comum como uma mulher 'do mar'. Eu confesso que gostei da luta também. Foi uma daquelas cenas que surgem e tenho que escrever na hora. Obrigada por tudo, espero não ter demorado. Beijos!
Lelezuda: Hey! Que bom que você gostou! Dumbledore sempre arrasa, não podia ser diferente. Entãããão, Marlene e Emeline? Não sei, talvez futuramente. Quanto à sua pergunta, bem, ele tem uma neta, não é mesmo? Obrigada pelo elogio. Um beijo.
Maga do 4: Obaaa! Adorei seu comentário apressado. Obrigada pelos elogios. Eu também acho que vai ser interessante (ou melhor, está sendo) ver os dois se envolverem. Gostou desse? Um beijo.
Clara Isbela Black: Manaaa! Não seja egoísta, o capítulo é seu e do lobo mau. A Lily é uma garota comum, mesmo. Tenta ser civilizada, mas quando perde as estribeiras... O Sirius aqui vai ser um caso especial. Não o pegador de sempre, mas um fascinado pelas mulheres. Espero que você goste! Beeeijo, mana! Amo!
LadyBarbiePontasPotterCullenS: Obrigada! Espero não ter demorado. Um beijo!
Yuufu: Vou começar te dando um spoiller que devia ser proibido: muito do que você quer saber vem no início do próximo capítulo! Você acertou um monte de coisas de novo, mas acho que ficou confusa quanto ao que Snape disse... Enfim. Não seja tão cruel com a Roxanne, ela é poderosa apesar de muito jovem. Espero não ter decepcionado com a magia. Que achou desse? Beeeijos!
Vanessa S.: Aqui está! Que bom que você gostou. Bem vinda ao Esmeralda! Um beijo.
Zix Black: Piratas e mais alguns! Estou na correria agora, mas respondi à Rose Anne Samartinne na N/A do cap passado e pra Yuufu também, se não me engano. Fico muito lisonjeada que tenha gostado. E agora, que tal? Aguardo você. Um beijo!
Kaah~: Hey! Sabe, eu senti falta do seu comentário. Acho que a gente meio que se habitua a certas leitoras. Enfim, espero que você passe a ter mais tempo... Eu aqui nunca tenho, eu preciso FAZER tempo. Agora mesmo tenho que correr porque tenho que ir pra faculdade. Adorei tudo o que você disse, obrigada sempre! O que eu disse lá em cima é principalmente para leitoras como você, que estão sempre 'do meu lado'. Até a próxima! Beijos.
Paty Black: Chuchu! Eu sempre riu com a sua histeria pós leitura de cap novo! Então, tudo o que você quer está por vir – eu acho. Também achei bom a Lily conhecer a "verdadeira" face do Ranhoso. Apesar de que a pobrezinha ficou muito decepcionada, né? Imagina, nunca vai ser repetitivo falar do Sirius. Espero que tenha gostado desse! Um beeeijo.
Ces't finite! Ah, esqueci de dizer lá em cima... Vou pedir um mês pra att dessa vez, ok? Desculpe, mas é que realmente não acho que poderei cumprir outro prazo.
Mil beijos aos que me favoritaram e não comentaram (foram muitos dessa vez!). Não se sintam acanhados, eu só mordo em ocasiões extremas.
Carinho,
Dana