CAPITULO 93 – MEDO DE VOCÊ
Rony entrou na cabine com receio de acordá-la. Hermione ergueu os olhos para ele e voltou à atenção para o livro. Era o segundo dia de viagem, e graças à boa influencia de Harry conseguiram boas cabines. Acomodações pequenas, claro, mas confortáveis.
Hermione estava sentada na cama, o móvel que ocupava quase todo o espaço. Apenas duas malas foram abertas para que pudessem apanhar roupas limpas. O resto continuava fechado, esperando a chegada.
Ignorando-o totalmente, tentou concentrar-se na leitura.
-O almoço será servido em poucos minutos. Harry reservou uma mesa perto da janela, onde pode ver a paisagem. Não quer almoçar fora da cabine?
Era uma tentativa quase ingênua de conciliação.
Apenas maneou a cabeça numa negativa. Recusava-se a falar com ele. Tinha três dias que não se dirigia a ele nem direta, nem indiretamente.
Não lhe importava se estava magoado ou irritado com seu comportamento. Queria feri-lo, do mesmo modo como se sentia ferida.
-O almoço não será servido nessa cabine. Se quiser comer, terá que dar o ar de sua graça – ele avisou, abrindo a porta e saindo depois de um olhar de raiva por não ter se dignado sequer a erguer os olhos em sua direção.
Quando ficou sozinha, Hermione jogou o livro com toda sua força contra a parede, desejado arduamente que fosse seu rosto.
Uma hora depois, foi obrigada a sair e se dirigir ao vagão onde os passageiros faziam sua alimentação. Para irritá-lo, preparou-se com esmero, e ensaiou sua melhor expressão de descaso.
Não lhe daria o gosto de vê-la sofrer! Não mesmo!
-O bife está uma delícia – Gina alertou – mas as batatas cozidas estão sem gosto!
-Gina – Harry disse em voz baixa – Não deve tecer comentários indiscretos na frente dos garçons. É deselegante.
-É deselegante dizer que a comida está ruim, se de fato, ela está mal feita? – seu temperamento a obrigou a desafiá-lo.
-Sim, é deselegante – ele tornou a dizer com voz calma, os olhos brilhando de luxúria diante de sua expressão afogueada pela raiva de ser corrigida.
-Terá que aprender a se portar Gina – Hermione disse mansamente – Harry é conhecido e afamado, terá que comparecer em eventos requintados, e não será com seus modos de peão xucro que poderá acompanhá-lo!
-E acaso seus modos são melhores que os meus? – ela ironizou.
-Posso não usar meus bons modos, mas isso não quer dizer que não os tenha – ela disse ainda suave, sabendo que seu súbito bom humor tiraria Rony do eixo. – mamãe me ensinou como me portar em uma mesa, mesmo que me falte o traquejo social das moças mais acostumadas.
-Isso não será problema. Minha governanta será por certo, uma tutora para ensinar Gina a se portar – Harry contou.
-Serei ensinada? Como uma criança? – ela parou de comer.
-Sim, é uma ótima idéia Harry – falar com ele diretamente era uma afronta direta a Rony, que sentado a sua frente, encarava-a com indiscutível contrariedade – Não é apenas uma viagem de passeio Gina. Londres será seu lar, e deverá ser uma dama para cuidar da vida social de Harry.
-Pensei que pretendesse passar um tempo perto dos meus pais antes de ficarmos definitivamente em Londres – ela empalideceu.
-Sim, pretendia. Primeiro cuidaremos do caso do seu irmão. Depois, veremos.
Calada, Gina baixou a cabeça, comendo calada. Pensativa e insegura.
Hermione comeu com grande satisfação, enquanto sentia os olhos de Rony sobre ela. Harry tentou de todos os modos achar um assunto que pudesse distrair os quatro, e talvez, arrancar de Rony um sorriso, ou de Hermione uma palavra amável para com o marido.
Mas foi tudo em vão. Silêncio constrangedor instalou-se entre eles.
Tão constrangedor que nem mesmo os garçons se atreveram a se aproximar até que terminassem.
-É uma linda vista – Gina tentou puxar assunto enquanto provavam a sobremesa – Harry, é verdade que em Londres a temperatura é mais amena?
-A essa época do ano, no verão, o calor é mais modesto.
-Fico feliz. Um pouco de frio seria adorável! – ela disse empolgada - quem sabe ver a neve!
-Não creio que fiquemos até o inverno – Harry continuou falando, pois nem Rony e nem Hermione se manifestavam – Talvez em dois meses possamos voltar.
Hermione poderia ter incendiado Rony com a intensidade do olhar que lhe lançou. Dois meses? Passariam dois longos meses longe de casa?
-Dois meses é muito tempo, amor – Gina disse carinhosa, olhando para Hermione – é mesmo necessário?
-Sim, não creio ser possível voltar antes.
-Mas, querido...
-Não insista, Ginerva – Harry pediu, com algo repressor na voz.
-Para seu governo Sr.Potter, nem mesmo meu pai ousa falar nesse tom comigo. Se for meu desejo, insisto quantas vezes quiser! – ela jogou o guardanapo com raiva sobre a mesa e se ergueu.
O garçom que se aproximava com uma bandeja foi seu alvo, num desafio direto a Harry:
-A comida está um lixo! Diga isso ao cozinheiro!
Harry demorou um segundo para sair do torpor que se abateu sobre ele e levantar-se, com um pedido de desculpas e apressar-se atrás de Gina.
Sozinha com o inimigo, Hermione agradeceu polidamente ao garçom, que constrangido, acalmou-se da indelicadeza de Gina ao achar estar sendo paquerado.
Era uma linda jovem com olhos cor de chocolate. Ele sorriu e se afastou, não sem um profundo olhar para seu decote.
-Até quando pretende me ignorar? – Rony perguntou direto, sem meias palavras.
Com um suspiro de resignação ela olhou para ele, mas não respondeu.
-Será que é incapaz de entender por que fiz isso? Hermione, ao menos olhe para mim.
Quase se arrependeu, diante do olhar irônico e magoado que recebeu. Cansado ele baixou a cabeça:
-Não poderia deixá-la para trás.
-Porque não? – foi incapaz de se controlar - A fazenda está em seu nome. Não havia sentido em me arrastar com você! – ela abandonou os talheres com tal grosseria que chamou atenção dos outros viajantes em suas mesas.
-Minhas razões em trazê-la são maiores que a fazenda! – disse indignado – Não queria deixá-la sozinha, a mercê de qualquer perigo! Como poderia protegê-la estando longe de mim?! Carrega meu filho, quero protegê-los. Preciso tê-la perto de mim. Isso é claro como água! Hermione, não posso e não quero viver longe de você!
A esse ponto várias pessoas prestavam atenção na discussão.
-Se isso fosse verdade, teria respeitado minha vontade!
-E ficar para ser preso? – ele jogou em sua cara.
-Se é mesmo inocente, não deveria temer a prisão!
-Não é o caso de ser inocente ou não. Fui apanhando em uma armadilha, e sabe melhor do que eu! Se parasse de agir como se eu fosse o culpado pela morte da sua família seria capaz de ver isso com clareza!
A essa altura ele gritava.
Ela estava pálida como gesso. Não respondeu nada em troca, mas permaneceu lívida e um pouco trêmula pela raiva dele ter ousado falar nas mortes de seus familiares como algo comum e sem importância.
-Não quero que permaneça ao lado de Harry, mesmo que Gina esteja presente – ele alertou, aproveitando toda a adrenalina para deixar claro seu ponto de vista – Londres é o lar de Harry, não se mostre muito a vontade ou ele achara que tem interesse. Será um inferno recomeçar com as desconfianças infundadas!
-Infundadas por quê? – ela revidou furiosa – Harry é um homem atraente. E muito bom comigo. Jamais me arrastaria a força e me humilharia desse modo!
-Mas não são pelos beijos de Harry que você implora! – ele jogou em sua cara.
Ofendida, ela levantou-se pronta para deixá-lo falando sozinho. Mas Rony ousou segura-la na frente de todos os passageiros.
-Me solte! – ela pediu, cuspindo marimbondos – Está me humilhando na frente de todo mundo!
-Estou sendo humilhado por você desde o dia em que nos casamos! – ele elevou a voz – Afaste-se de Harry! Está entendendo? Vi a forma como olha para ele, como fala com ele, como sorri para ele! Não aceito mais isso!
-Seu hipócrita! - ela soltou-se com um puxão e correu, deixando o garçom parado a meio caminho com sua bandeja de sobremesa.
Exaltado, a seguiu.
Hermione pretendia trancar-se em sua cabine e deixá-lo na rua, quem sabe, dormindo no corredor, mas ao avistar Harry, outra idéia desenhou-se em sua mente.
A vingança tinha um gosto saborozíssimo!
Avançando, completamente descontrolada, ouvindo os passos de Rony logo atrás ela avançou até Harry.
-Hermione, o que esta acontecendo...?
Não terminou sua frase, ela parou diante dele e o beijou.
Sem saber de onde saíra à coragem para tanto, beijou Harry bem na frente de Rony, Gina e outras pessoas que passavam pelo corredor.
Levou dois segundos para Harry afastá-la. Dois exatos segundos, onde quase se entregou ao sabor daquele beijo. Um beijo de raiva, rancor e vingança, mas que quase despertou nele sentimentos inconfessáveis.
Lábios doces, mas com algo perigoso, que ameaçava despertar loucas paixões.
Segurando seus braços, afastou-a notando que estava à beira de um ataque de nervos. Estava assim há três dias, mas Rony não fazia nada para ajudá-la a superar a dor de deixar seu lar e a tristeza de não ser ouvida. Olhando além dela, sentiu medo de ser alvo de Rony. Soltou Hermione imediatamente, evitando olhar diretamente para os dois.
Não tinha culpa, mas estava morrendo de medo de ser acusado.
Consciente do que fizera, ela se afastou de Harry, tentando achar um modo de se desculpar. Foi quando passou o torpor e lembrou-se dos passos atrás de si. Não teve coragem de olhar para trás. E nem precisou.
O puxão em seu braço foi o alerta para que parasse. Mas era impossível, mesmo sabendo estar errada, não podia parar e se render.
Tentou se soltar, mas foi arrastada pelo corredor, tentando a todo custo se soltar. Ouviu o grito de Harry pedindo que Rony tivesse calma e olhou para trás, pedindo ajuda, mas ele não se moveu.
Era tudo culpa dela, que despertara o pior de Rony, e nem mesmo Harry a ajudaria!
Segurando o braço de Rony, ela tentou se soltar, quase escorregando, mas ele não parou até chegar à cabine, abrir a porta e trancá-la.
-EU QUERO SAIR! – tentou desesperadamente abrir a porta, batendo e chutando, mas parou quando ele avançou em sua direção – NÃO SE APROXIME DE MIM!
Assustada, apanhou uma pequena estatua que servia de adorno e ergueu como se fosse um pedaço de pau ou algo assim, para se defender e ameaçá-lo.
-Beijou Harry. – ele disse baixo, furioso demais para gritar.
Uma veia saltava em seu pescoço, e ela teve vontade de gritar.
-Beijou outro homem – ele aproximou-se mais e ela sentiu a parede em suas costas, deixando cair o bibelô sem saber por que se sentia tão assustada. – Sua boca não é mais minha. Beijou outro.
-Está parecendo um louco! – ela acusou, acuada – Me deixe sair daqui!
-Está com medo? Não pareceu sentir medo enquanto devorava a boca de Harry na minha frente!
Ele ergueu uma das mãos e agarrou seu pescoço, fazendo Hermione gemer de medo.
-Não vai me bater! Jurou que nunca faria isso!
-Isso foi antes de ser pisado e traído! Mas não vou te bater! Vou fazer o que tanto quer, Hermione – havia algo de selvagem em seu olhar – A única coisa capaz de acalmá-la e trazê-la de volta a razão!
-NÃO OUSE! – ela gritou, antecipando o pior.
-NÃO GRITE NA MINHA CARA!
Seu berro fez o corpo todo de Hermione tremer, seus joelhos fraquejaram e sentiu uma palpitação tão forte entre as pernas que achou que fosse desmaiar.
Sem fala, entreabriu os lábios como quem pede beijos.
Lábios que tocaram os de Harry, ele pensou furioso. Lábios que dividiram seu gosto com Harry, seu melhor amigo. Harry, um homem que não era ele!
Com desmedida emoção esfregou uma das mãos em seu rosto, sobre seus lábios, e ela tentou se debater, mas ele só parou quando a pele avermelhou.
-AINDA SENTE O GOSTO DELE? – gritou arrastando-a para o outro lado do quarto – AINDA SENTE O GOSTO DE OUTRO HOMEM EM SUA BOCA?
-NÃO! - ela gritou, controlando o choro, quando ele jogou-a na cama – ME DEIXA SAIR DAQUI! RONY, ESTOU COM MEDO, ME DEIXA SAIR!
Normalmente essas palavras o comoveriam e pararia, mas não hoje.
-Está com medo? NÃO TEVE MEDO QUANDO ME TRAIU!
-Você beijou Lavander na minha frente! – ela avisou de volta – Porque não poderia beijar outro homem? – tentou empurrá-lo e seguiu tentando enquanto ele lutava para mantê-la deitada, arrancando a faixa que decorava seu vestido na cintura.
-Ela me beijou, é bem diferente do que você fez! QUERIA ESTAR COM HARRY NÃO É?
-NÃO! EU JURO QUE NÃO! – debateu-se, o medo tão grande que achou que explodiria. – RONY, NÃO ME MACHUQUE! O bebê... – não pode terminar o choque a calou.
Rony segurou seus pulsos e prendeu com a faixa de tecido verde que adornava seu vestido até segundos atrás.
-RONALD! – pânico a fez começar a gritar. Pedia ajuda, implorava que alguém o fizesse parar. Isso até sentir algo em seu rosto. Ele abafou seu grito com um pedaço da própria camisa que rasgou e amarrou em seu rosto.
De olhos arregalados ela tentou de todo modo se soltar, mas ele ergueu os braços em direção ao dossel da cama e amarrou-os com o que sobrou da fita verde.
-É isso que você quer? – ele gritou, o corpo curvado sobre ela – é isso que você sempre quer não é? ME ENLOUQUECER, TIRAR MEU JUIZO, ME LEVAR AO LIMITE! VOU TE DAR O QUE QUER, HERMIONE! VOU TE FAZER ESQUECER-SE DE HARRY E DE QUALQUER OUTRO HOMEM! QUANDO TERMINAR COM VOCÊ, A ÚNICA COISA EM QUE PODERÁ PENSAR É NO MEU TOQUE E NA MINHA PORRA BEM FUNDO DENTRO DE VOCÊ. ENTENDEU? – segurou seu rosto com força, para que olhasse dentro de seus olhos – ENTENDEU?
É claro que não respondeu, nem tinha como. Um sentimento tão violento tomou conta dela, que Hermione parou de pensar. As pernas tremiam, o ventre se contraria. Era desejo. Santo Deus, o sangue corria em suas veias sem controle, e sentia a roupa íntima colada em seu sexo, tamanha era a inundação de querer que havia ali. Estava molhada, e vergonhosamente excitada, e se não fosse possuída em um minuto morreria.
Ergueu as pernas para cima, como quem quer chutar, mas ele não entendeu que não queria chutar, queria segurá-lo pela cintura, e fazê-lo descer o corpo sobre o dela, penetrando-a.
Quando se debateu, tentando soltar as mãos, não era para se defender, era para agarrá-lo e trazê-lo bem fundo dentro de si.
Tentou gritar, a voz abafada, mas não era um pedido de ajuda, era um pedido para que não parasse!
Para que não tivesse pena ou dó!
Autora:heheheheheheh....continua no capitulo 94...heheheheheheh...
Recadinho: Disomers, a capa ficou engraçada mesmo! É que tem fotos, que se não tem o formato certo e foi tirada com a cor apropriada, não dá para mudar a cor do cabelo sem ficar estranho.
Essa capa é intermediaria, para a nova, que será da fase Londres. Por enquanto estou testando capas, mas não gostei de nada em especifico. Se tiver idéias, me avise! Hehe...
Recadinho: Mi, eu mandei um email hoje com os capítulos novos.
Beijos a todas!!!1