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5. A Voz do Destino


Fic: O Filho das Trevas - reescrita


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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- A Voz do Destino –


 


“You show no regrets


About all the thing you did or said


I have failed you


But, believe me, you failed me too


 


It’s so easy to destroy and condemn


The ones you do not understand


Do you ever wonder if it is justified”


 


Destroyed, Within Temptation


 


 


I


 


Ele acordou com uma luz forte nos olhos. Não soube onde estava, exatamente. Tinha uma vaga idéia de que tinha desmaiado, mas não se lembrava o porquê.


Havia uma voz, distante. Ele ouvia, mas não entendia…


- Você está bem? Você está me ouvindo? – disse a voz. Uma silhueta entrou em seu campo de visão.


Ele piscou. Uma avalanche de lembranças invadiu sua cabeça, atordoante e subitamente.


Estava em Basilisk Hall. Os Aurores invadiram o castelo enquanto ele estava com Ginny. Eles se separaram logo, Ginny fugiu e ele duelou com dois Aurores. Matou um, torturou o outro, mas não conseguiu descobrir quem tinha os traído. Tentou encontrar mais Comensais do grupo Cinco, mas só viu Jack Dean de longe. No térreo havia tanta gente e tanta confusão que não sabia se estava atacando amigo ou inimigo. O Salão de Refeições estava destruído, e viu muitos mortos e feridos. Conseguiu pegar mais três Aurores, mas não era certeza que o último estivesse morto, já que não usara um Avada Kedavra. Voltou para o andar de cima, onde conseguia uma visão mais periférica, mas precisou lutar muito para chegar lá; levara um corte no rosto e um rasgão na roupa, mas não se ferira gravemente. Então ouviu a voz de Lucius ampliada, comandando um ataque bem pensado, e ajudou atirando os Aurores que encontrava pelas sacadas.


Um grupo deles resistiu bastante, e Ronald Weasley estava entre eles, o que dificultava, já que não devia machucá-lo. As coisas melhoraram quando Lucius e Bellatrix apareceram, mas o Auror ficara furioso porque ele o humilhara e ignorara na frente dos colegas. E então Ginny caíra do teto, de repente, usando apenas metade do vestido que usava duas horas atrás, bem em cima dele, a tempo de tirá-lo da frente de uma maldição fatal.


Foi gratificante e duro vê-la ali, novamente ao seu lado, quando mandara-a fugir, mas não podia se queixar muito, já que ela o salvara. Ginny ainda tivera o sangue muito mais frio do que ele naquele momento, encarando o próprio irmão, e conseguiu ter diplomacia para acabar com o embate.


Mas não sem antes encontrar Harry Potter. Dessa vez seu encontro fora breve, mas tenso; Ginny os arriscara demais apelando para a dignidade de seu ex-namorado. Felizmente, ela sabia o que estava fazendo, e ele concordou em ir embora junto com os outros Aurores.


E não tinha reparado bem, mas Ginny sofrera ferimentos graves durante a batalha e perdera os sentidos, ali, logo depois de ter feito bem sua parte.


Na hora sentiu uma coisa que não sentia há muito tempo: não era raiva, nem intolerância, mas desespero. Ginny desmaiara ali, aos seus pés, bem ao chão destruído, cheio de cacos e sangue. Tudo ainda estava confuso o suficiente para quem não tinha treinamento nenhum para magia branca, e ele vira que ela não tinha muito tempo de vida – sua pele estava muito branca, e sua roupa estava encharcada de sangue.


Ele não sabia o que fazer, mas sabia que não podia perdê-la agora!


Erguera-a no colo. Sem falar com ninguém, desceu correndo as escadas – conseguia aparatar e desaparatar em qualquer lugar de Basilisk Hall com um pouco mais de concentração, mas nervoso e acompanhado, só seria possível quando pisasse no hall, onde a proteção contra aparatação sempre fora mais amena. Mesmo assim sabia que usaria quase todas as suas forças, pois, para dificultar ela ainda estava inconsciente.


E era por isso que ele estava deitado naquele chão, com pessoas o chamando e olhando-o.


Ele sentou-se e sentiu a cabeça girar. Mas não podia ficar ali parado, Ginny estava morrendo…


- Por favor, não se mexa – disse uma voz feminina e irritada.


- Não se preocupe comigo, se preocupe com ela – disse, apertando os olhos para as luzes fortes.


- Já estamos cuidando dela – disse a mesma voz. Ele abriu os olhos devagar e viu uma dupla de medibruxos inclinados sobre Ginny. Depois de trocarem algumas palavras e dizerem alguns encantamentos, levantaram-se, e apontaram-lhe a varinha.


- Ditamno, então – disse uma das pessoas, que era uma medibruxa loura. O outro era um homem mais jovem de cabelos castanhos, com aparência cansada. Ambos usaram o feitiço de levitação e levaram-na embora, por uma porta.


Ele continuou olhando por onde ela desaparecera, preocupado.


- Senhor? – disse a primeira voz. Ele olhou e viu uma mulher mais velha, com o mesmo jaleco claro dos outros dois medibruxos. – O senhor está bem?


- Estou – respondeu ele, atordoado. Na verdade, não tinha muita certeza se estava machucado, mas a aparatação havia embaralhado sua cabeça. – Eu acho, pelo menos.


- Consegue ficar em pé? – perguntou ela, mais simpática. Ele confirmou com a cabeça, levantando-se. Foi conduzido até uma cadeira. – Você está ferido – disse a mulher, experiente, apontando-lhe a varinha.


Ele estava escaldado de gente apontando-lhe a varinha, e sobressaltou-se, mas logo viu que não havia sido reconhecido. A mulher tocou-lhe uma ferida na perna, que se fechou instantaneamente, e então segurou-lhe o rosto, e fez fechar o corte que ganhara em frente a orelha. Ele nem reagiu, porque a visão ainda pipocava diante de seus olhos, dando-lhe náuseas.


- Não vai cobrar por isso, vai? – perguntou ele, cansado.


- Estamos cobrando apenas as internações, ultimamente. O que vocês andaram fazendo? – perguntou a mulher, parecendo novamente irritada. Provavelmente estava reparando no estado de suas vestes e seus pequenos ferimentos e queimaduras. – Vocês, jovens, se metem em cada encrenca… - resmungou ela, claramente desaprovadora do comportamento dos jovens.


Ele colocou a mão sobre os olhos, cansado. Desejava mais do que tudo um banho quente e uma cama macia, mas sabia que isso estava bem longe de estar esperando por ele quando voltasse à Basilisk Hall.


- O senhor está passando bem? – perguntou a medibruxa. – Quer um copo d’água?


- Não – respondeu, mau-humorado. – Estou bem. Quero saber como ela está, se não for pedir muito.


Se a mulher ficou ofendida, ela não demonstrou. Provavelmente já ouvira muito daquilo vindo de pessoas atordoadas.


- Terá que aguardar. O ferimento estava bem feio, vamos tentar os procedimentos padrões, por enquanto. Mas não corre mais risco de vida, se é o que quer saber.


Ele assentiu com a cabeça, sentindo-se melhor.


- O senhor terá de preencher uma ficha – disse ela, parecendo mais longe. Tinha ido pegar o papel.


Ele abriu os olhos e encarou o chão por um momento. Quando se acostumou à luz, levantou os olhos e observou o lugar. Fazia muito tempo que não entrava no St. Mungus, mas não parecia muito diferente do que se lembrava. Aparatara bem no átrio, e havia um balcão do outro lado, à sua frente, onde a mulher mexia em gavetas. Estava deserto, a não ser pelos dois. Devia ser muito tarde, ou muito cedo.


A mulher se virou e abaixou para pegar algo. Havia um mural atrás do balcão, cheio de anúncios e noticias, e entre elas, uma página do Profeta Diário bem conhecida dele: a de procurados. Ele viu o rosto de seus Comensais encararem-no, altivos. Sorte a deles que pouquíssimas pessoas sabiam que GW e Ginny Weasley eram a mesma pessoa, ou a foto dela também já estaria ali, e a mulher veria e os denunciaria.


Mulher, aliás, que estava demorando bastante.


Ele levantou-se, devagar. Não era possível que estivesse tão lerdo a ponto de deixar passar aquilo – Ginny não estava na páginas de foragidos, mas ele estava!


Aproximou-se do balcão, silenciosamente. Tirou a varinha do bolso. Quando se aproximou o suficiente, viu a mulher abaixada ao lado de um arquivo aberto, segurando um formulário e olhando fixamente para a última foto do jornal. Seus cabelos estavam bem mais curtos lá, e a foto em branco e preto, com expressão displicente, era de baixa qualidade, mas era apenas uma questão de assimilação, como sabia que a mulher tinha feito.


Ao se aproximar um pouco mais, sua sombra entrou no campo de visão da mulher. Ela sobressaltou-se e se virou, fitando-o com espanto.


- Silencio! – disse ele, apontando-lhe a varinha bem na hora em que a mulher pareceu propensa a gritar. Ela abriu a boca, mas nenhum som saiu. Pareceu mais assustada do que nunca, encarando-o com olhos arregalados.


Ele suspirou, aliviado. Fora por pouco, mas ele havia conseguido agir antes que fosse tarde.


- Não se preocupe, não sou tão ingrato á ponto de matar quem cuidou de mim – disse, em voz baixa. – Mas não posso te deixar que saia daqui e me entregue para os Aurores, como sei que compreende. Professio memor – disse, tranquilamente, modificando-lhe a memória. Os olhos dela desfocaram brevemente. – Imperio – acrescentou, em seguida.


A mulher levantou-se, colocou o formulário sobre o balcão e começou a preenchê-lo ela mesma com as informações que lhe dera durante a modificação de memória. Por fim, ela falsificou uma assinatura e, pegando o formulário, saiu da sala por uma porta atrás do balcão.


Ele tornou a se sentar, cansado. Não precisava esperar mais nenhum imprevisto, apenas por notícias. E esperava que fosse rápido, pois não sentia-se à vontade para deixar Basilisk Hall numa situação daquelas.


Alguns minutos depois, um homem entrou no saguão pela porta por onde levaram Ginny, e veio em direção sua direção. Era mais velho do que os outros e parecia mais experiente.


- O senhor é quem acompanhava a jovem com um ferimento no ombro? – perguntou o homem, e ele confirmou com a cabeça, levantando-se.


- Ela está bem?


- Acalme-se e me acompanhe, por favor. Eu sou o curandeiro Shaw. A moça perdeu muito sangue e está um pouco fraca, mas teria sido muito pior se não tivesse recebido tratamento imediatamente – disse o homem, sério, enquanto entravam na ala de operações. – Quisemos dar-lhe uma poção para dormir, mas ela insiste em vê-lo. Ela e a criança não correm perigo, mas não é bom que ela faça muito esforço. É possível que receba alta hoje mesmo, mas precisa ficar algumas horas em observação.


Ele parou, de repente. Havia algo errado.


- Que criança? – perguntou ele, achando que estava havendo algum tipo de engano.


O homem virou-se e encarou-o por dois segundos, depois olhou a ficha que segurava.


- Lisa Wendel, 20 anos, que deu entrada hoje às seis e cinco? – leu o homem, citando o nome falso que ele instruíra a medibruxa a colocar no formulário. Confirmou, lentamente, desejando que o bruxo dissesse que tinha se enganado. – Pois então. Não sabia que ela está grávida?


Ele abstraiu-se. Ginny, grávida? Grávida dele? Não era possível…


Ela não podia estar grávida. Simplesmente não podia, porque…


Droga! Ela podia, sim.


Mas não devia! Não podia ser verdade… Aquilo provavelmente era um sonho, daqueles que só se tem quando se está bêbado. Ele provavelmente estava em seu quarto, depois de todas aquelas taças de vinho, acordaria ao lado dela e não haveria nenhum Auror no castelo. Era isso.


Tinha que ser isso!


- Senhor? – chamou o homem, despertando-o do devaneio. Infelizmente aquele lugar e aquele curandeiro na sua frente pareciam bem reais para ser sonho. – Está tudo bem?


Ele suspirou. O que é que fazia agora? Não podia ignorar aquilo. Tem uma amante era uma coisa, mas ter um filho era algo muito além de seus planos. Se Ginny sozinha conseguia confundir seus sentimentos, uma criança…


- Desculpe. Foi uma surpresa para mim – disse ele, afastando o pensamento. – O senhor tem certeza do que está me dizendo?


- Certeza absoluta – respondeu o outro, parecendo mais animado agora que ele estava reagindo. – E compreendo sua situação. Ter filhos em tempos como estes não está nada fácil.


Ele suspirou novamente. O homem não sabia o quanto!


- Podemos continuar? – disse, tentando não soar muito depressivo.


- Claro. Por aqui, por favor.


Ele segurou a varinha dentro do bolso. Entraram por um corredor cheio de portas e janelas e, lá no fundo, o homem apontou para um das janelas cujo interior estava iluminado. Ele viu uma maca e os cabelos acobreados de sua ocupante. Sentiu um ligeiro desconforto.


- Vou deixá-los a sós, mas não se demore muito, ela precisa dormir – disse o curandeiro, em voz baixa, e saiu.


Ele não entrou de imediato. Não tinha certeza de como faria aquilo, mas achava que ela merecia um pouco de consideração pelos bons momentos. E afinal, ela não tinha mais culpa do que ele naquilo.


Não, não devia deixá-la perceber suas intenções. Seria cruel demais. Para ambos.


Ele respirou fundo antes de entrar. Não se lembrava de jamais ter se sentido tão mal com o que estava para fazer.


Ginny estava deitada debaixo de um lençol branco e não vestia mais as roupas de festa, e sim uma camisola de mesma cor que o lençol. O quarto estava mal iluminado, mas dava para perceber que ela estava muito pálida. O sangue fora limpo, mas a maquiagem ao redor dos olhos ainda não saíra completamente. Ela virou a cabeça para a porta assim que ele entrou, e sorriu.


Ele forçou as pernas para que avançassem, mas sabia que quanto mais tempo se demorasse, mais tempo ela estaria a salvo. Algo em sua expressão devia tê-lo denunciado, porque ela parou de sorrir e olhou-o com olhos preocupados.


- Está acontecendo alguma coisa? – perguntou ela, a voz fraca.


- Não – respondeu, dirigindo-lhe um sorriso acolhedor. Chegou ao seu lado e pegou-lhe a mão. – Como se sente?


- Fraca – respondeu ela, cuja voz não a deixava mentir. E tornou a sorrir, mesmo parecendo sofrer um esforço tremendo para isso. – Você salvou minha vida.


- Você também salvou a minha essa noite – respondeu ele, justificando-se. – E se não estivesse lá para isso você não estaria aqui agora – acrescentou ele, em tom de sermão.


Ela riu baixinho.


- Nem você.


Apertou a mão dela mais forte. Não devia demorar-se muito, ou desistiria.


- Ginny, preciso te contar um segredo – disse ele, tentando manter a voz firme e afetuosa. Ela olhava-o, ansiosa, com seus olhos ingênuos olhos castanhos. – Nunca gostei tanto de alguém como gosto de você. Eu nunca… quis tanto alguém como quero você. Você é, agora, mais parte de mim do que qualquer outra coisa já foi. – Ele tornou a suspirar e desviou os olhos dela. – E eu odeio isso – desabafou.


Ela tirou a mão debaixo da dele e acariciou seu rosto. A pele dela estava gelada. Mirava-o com admiração, os olhos úmidos. Curvou os lábios em um sorriso compreensivo.


- Eu sei. Não vou contar para ninguém – brincou, num sussurro.


Ele riu baixo e tristemente. Passou a mão pelo rosto dela. Ginny fechou os olhos, em apreciação pelo seu toque. Ele tirou a varinha do bolso.


- Não sei se consigo mais viver sem você – disse, confidencialmente.


Ginny alargou o sorriso. Ele admirava seu belo rosto já sentindo remorso antecipado. Previa as próximas noites sem o calor de seu corpo para confortá-lo, sem seus toques para saciá-lo e sem sua voz para provocá-lo. Era tão injusto que tivesse a encontrado há tão pouco tempo… Sabia que ninguém mais o entenderia como ela o fazia.


Mas não tinha outra escolha.


- Você é a pessoa mais importante para mim. Eu mal posso suportar o que tenho sentido por você.


Ela abriu os olhos e encarou-o. Eles estavam submersos em lágrimas, mas ele conseguiu captar o pensamento.


E é por isso que eu devo morrer?”, pensou ela, entre tantos sentimentos confusos que ele não conseguiu se deter em nenhum. Ele sentiu-se imensamente infeliz que ela tivesse percebido o que ele estava fazendo. Não era para ser assim.


Não se detenha por muito tempo, ou será mais dolorido para nós dois”, pensou ela, compreensiva e agoniada de modo que ele mal podia suportar.


Ele negou com a cabeça, involuntariamente. Ginny, apesar de débil e sôfrega, pegou-lhe a mão que ele segurava a varinha e colocou-a sobre o próprio peito, demonstrando bem mais firmeza do que ele.


- Bem aqui – disse ela, a voz firme e embargada, ao mesmo tempo. – Eu te perdôo, mas faça o que tem que fazer e não prolongue mais essa angústia.


Ele ofegou. Fazia muitos anos desde a última vez, mas sentia os cantos dos olhos arderem. Ele não queria fazer aquilo, não queria… Estava se tornando tão perigoso, mas ele não queria que acabasse assim.


- Ginny… - começou ele, mas não existiam palavras para explicar seu tormento. Inclinou-se e beijou-a ternamente, do modo que ela merecia ser beijada. Sentiu a mão dela segurando seus cabelos. Sua garganta e seus olhos doíam com o esforço de segurar seu lamento silencioso, mas não era nada comparada a dor que sentia no peito.


Quando se separaram, ela não tornou a abrir os olhos. Ficou parada, esperando, mas sua mão sobre a dele apertava o mais forte que seu delicado estado permitia.


Ele sentia-se muito mal, mas se terminasse logo seria melhor.


Esforçou-se para não pronunciar a maldição em voz alta. Não conseguiu completar o pensamento da primeira vez. Aquilo atordoava como uma pancada. Tentou uma segunda vez, mas também não conseguiu. Respirou fundo, vacilante, e tentou pela terceira vez. Completou o pensamento, mas nada aconteceu.


Sentiu-se tão aliviado por isso que nem se preocupou por ter falhado.


Não conseguiria matá-la se não o desejava. Talvez conseguisse fazer isso sem a varinha, mas não via método mais traumatizante do que este.


E ele estava sendo burro. Não precisava matar a garota para resolver aquele impasse. Havia uma dúzia de poções que abortavam, bastava que ela tomasse uma delas!


Sentiu como se tivesse saído debaixo de duas toneladas de culpa.


Ginny ainda esperava, torturada, pelo seu abate. Ele envolveu-a e deu-lhe um beijo reconfortante na testa.


- Não se preocupe, você ainda viverá por muitos anos – disse ele, ainda recuperando-se do susto do que quase fizera. – E para garantir eu vou embora agora.


Ginny soluçou e agarrou-o, deixando escapar todo o choro que estivera segurando.


- Tom, não me deixe aqui sozinha! – disse ela, a voz irregular.


- Eu volto amanhã para te buscar – confortou-a ele, afagando-a. – Mas agora é melhor eu ir embora. Não posso… me arriscar a cometer outro erro como este.


- T-tudo bem. Estarei te esperando – respondeu ela, acalmando-se ligeiramente.


- Prometo que virei – disse ele, inclinando-se para tocar-lhe os lábios. – Tente esquecer o que aconteceu agora há pouco. Bobagem, nunca mais vai acontecer.


Ela riu pelo nariz, ainda chorosa.


- Eu ainda te amo.


Ele apertou suas mãos nas dele por um momento, então endireitou-se e disse:


- Tente descansar um pouco.


Ela assentiu com a cabeça, os olhos ainda muito vermelhos.


Ele virou-se. Precisava sair dali o mais rápido possível.


Uma vez no corredor, levantou o capuz. Não queria que o reconhecessem, pois ele não estava em boa hora para encarar aquilo novamente na esportiva. Queria muito explodir alguma coisa, mas não achava sensato fazer aquilo ali dentro. Saiu apressado da ala de operações e para desaparatar no hall, e fez muito bem colocando o capuz antes, porque se deparou com um bando de Aurores chegando ao hospital, que não o olharam duas vezes.


Aparatou no meio das árvores nos arredores de Basilisk Hall. Uma vez longe de Ginny, sentia muita raiva de si mesmo. Tinha sido fraco e cada minuto ao lado dela o deixava mais compassivo. Como foi que deixara uma menina fazer isso com ele? Quando foi que algo acontecera sem que ele percebesse? Seria algum tipo de magia? O que estava faltando entender?


Talvez Ginny fosse sua a maior ameaça no momento.


Contendo um grito de raiva, brandiu a varinha contra um pinheiro, abrindo vários talhos em seu tronco. Agarrou os próprios cabelos, nervoso.


Mas eliminá-la agora estava fora de questão. Precisava dela, por mais que isso o destruísse…


Não. No que estava pensando? Poderia eliminá-la quando quisesse, mas isso não traria vantagem alguma. Ela era excelente Comandante de Estratégia, tudo sofreria um baque enorme até que conseguisse alguém à altura. Quanto aos seus problemas fisiológicos que voltaram com aquele corpo jovem, poderia resolvê-los com qualquer outra. Apreciava encontrar-se com Ginny só porque ela o fazia rir. Era só.


Haveria um dia em que ele não precisaria mais dela, e neste dia ele provaria a todos que ela não significava nada mais para ele do que qualquer outro Comensal da Morte.


Mantendo isso em mente, ergueu a cabeça e foi em direção ao castelo.


 


II


 


No Ministério as coisas não iam nada bem. Ninguém ainda fora para suas casas. Grande parte agora estava no St. Mungus cuidando dos ferimentos, enquanto o restante estava fazendo um levantamento das perdas. Harry se enfureceu com a invasão da imprensa e agora estava entocado em sua sala, furioso e amargurado.


Estava acostumado com as tiradas do arqui-inimigo, mas agora Ginny? Era pior do que podia suportar.


Ouviu a maçaneta girar, mas não olhou para a porta. Sabia quem era e não sabia se tinha forças para encarar-lo.


- Muito bem. Acho que você sabe o que está acontecendo melhor do que eu e quero uma explicação agora – disse a voz furiosa de Ron, depois de fechar a porta.


Ele suspirou e levantou os olhos para o amigo. Este parecia estar se controlando ao extremo para não gritar.


- Sente-se.


Ron ignorou-o. Tinha as mãos fechadas e mirava-o com raiva.


- Você sabia, não é? – disse o amigo, por fim, com a voz trêmula. – Você sabia todo esse tempo e não me disse nada!


- Sente-se – repetiu, impassível.


- Não quero, obrigado! Quero saber o que diabos está acontecendo! – disse o outro, exaltado, um tom de voz acima. E então, como Harry não reagiu, ele levantou e soltou as mãos, num sinal de que o ódio era apenas a máscara forte para disfarçar o desapontamento. – Me diga que isso não é verdade, pelo amor de Deus! Me diga que não sabia de nada!


Harry negou com a cabeça, cansado. Fez sinal para que Ron se sentasse, novamente. O amigo encarou-o incrédulo por um momento e então, sem mais força para reagir, sentou-se.


Ele suspirou de novo e levantou-se. Não ia conseguir falar ali, sentado, frente à frente com o amigo. Aquele assunto já era difícil o suficiente para ele. Colocou as mãos nos bolsos e olhou para o mapa atrás de sua escrivaninha, sem vê-lo.


- Eu sempre soube – disse, simplesmente.


Ouviu um suspiro trêmulo as suas costas. Continuou.


- Sempre soube desde o dia em que ela saiu de casa. Eu estava lá – disse, sentindo desgosto. – Não consegui impedi-la.


- Eu… eu não posso entender, Harry – disse Ron, agora parecendo muito mais desesperado do que furioso. – Ela foi por vontade própria? Ela… Por quê?!


Harry não respondeu. A culpa corroia-o por dentro, tomando-o de angústia.


Mas Ron não parecia achar que Harry sabia a resposta, porque ele mudou de pergunta logo em seguida.


- Quem mais sabe disso? – perguntou o amigo, acabado.


- Eu, Hermione… Neville, Draco, Dumbledore… Algumas outras pessoas – respondeu, em voz baixa. O amigo devia estar se sentindo muito traído no momento.


Harry fechou os olhos por três segundos, satisfeito que Ron não pudesse ver seu rosto. Não sabia se sentia mais ódio ou culpa. Era tão difícil para ele conviver com aquele segredo que não sabia como conseguira mantê-lo por tanto tempo.


Virou-se.


- Ela não é mais a Ginny que conhecemos, você viu. Agora ela chama a si mesma de GW e arrisca a própria vida por ele. É duro, mas é a verdade – disse, a voz mais firme.


Ron não disse nada. Apoiou um cotovelo no braço da cadeira e deixou a cabeça pender sobre a mão, massageando a testa com preocupação.


Harry respirou fundo e continuou.


- Hermione encontrou-a outro dia. Ginny ajudou-a a escapar ilesa de Basilisk Hall. Elas têm conversado por carta. É por isso que Hermione não estava com a gente hoje. Não queria ter que enfrentá-la, porque ela salvou sua vida. Estaria morta se… se Voldemort tivesse chego antes.


- Mas – Ron olhou para ele, esperançoso – então Ginny está do nosso lado?


Harry tornou a negar com a cabeça.


- Ela joga de outro jeito, mas não está do nosso lado. É uma criminosa, Ron… Como acha que ela chegou à importância que tem hoje? E é por culpa dela, lembre-se, que perdemos vários dos nossos colegas.


O amigo tornou a baixar a cabeça, sombrio.


- Tem mais uma coisa que você precisa saber – disse Harry, tomando coragem. – Ela está grávida.


- Grávida? – exasperou-se Ron, incrédulo. – Ela tem dezenove anos!


- Eu sei – disse ele, com mal-estar. – Ela… está tendo um caso com ele.


Ron encarou-o, terrificado.


- Quando você diz ele, você quer dizer ele?


Os cantos da boca tremeram levemente antes de responder.


- Voldemort, sim.


Ron fez uma cara onde era visível que seu desgosto até então não era nada perto do que sentia agora. Escondeu o rosto nas mãos e ficou calado por um longo tempo.


Harry não disse mais nada.


Ele tentava esquecer e tentava não se ressentir, mas não era possível. Todas as noites eles voltavam para atormentar seu sono. Beijos, caricias e suspiros, tão doces e tão amargos. Não era nada para ele. E tinha certeza que o outro deixava-o ver tudo aquilo de propósito, de maldade. Sabia que Harry ainda amava Ginny. Sabia que ele nunca tinha esquecido, se perdoado… Era como se lhe jogasse na cara o que havia perdido.


Maldito! Filho da puta. Ele não precisava de lembretes diários de seu arrependimento. Já teria se matado de desgosto se não achasse tanto que o outro merecia muito mais a morte do que ele.


- Por que ninguém me contou? – perguntou Ron, de repente, em voz baixa.


Harry hesitou.


- Porque… preferimos mil vezes ter Ginny morta, Ron, do que ter que caçá-la.


Mais silêncio.


- Harry – voltou a chamar o amigo, depois de um tempo. Parecia bem mais controlado.


- O que? – perguntou Harry, sem olhar.


- Não conta pra ninguém, está bem?


Harry levantou os olhos. Ron encarava-o com os olhos vermelhos.


- Não contarei – prometeu.


- Nem pro papai ou pra mamãe.


- Claro que não.


Nesta hora a porta se abriu, enchendo a sala de vozes, e alguém entrou de fasta, falando rápido com as pessoas lá fora.


- Não, não! Ninguém vai dar entrevista! Estamos muito ocupados, ninguém vai falar agora!


Ron continuava encarando-o, com firmeza. Nenhum dos dois desviou o olhar.


O bruxo virou-se para ele enquanto fechava a porta.


- Então – começou este, mas foi interrompido. Ron não olhou para ele quando falou, mas sua voz era decidida.


- Foi bom encontrar você, Fudge – disse em voz alta e clara, ainda olhando para Harry. – Estamos abandonando o caso GW.


Dizendo isso, levantou-se e passou pelo outro, rígido, sem nem lançar-lhe um olhar. Saiu da sala.


O Ministro olhou para Harry, sem entender.


 


 


Deram-lhe uma poção para dormir, mas Ginny não estava muito bem, portanto demorou para fazer efeito. Agora uma enfermeira estava no quarto com uma bandeja, agindo o mais silenciosamente possível, enquanto Ginny olhava-a, semi-consciente. A moça fora até uma mesa de metal ao seu lado, onde os curandeiros que a atenderam mais cedo haviam deixado alguns instrumentos e restos de poções, e limpava-a.


- Só vou pegar essas coisas, pode continuar a dormir se quiser - dissera a enfermeira, gentilmente, enquanto fazia seu trabalho. Ginny deu um fraco sorriso em resposta.


O encontro com Tom fora terrivelmente exaustivo. Não duvidava que ele tivesse aberto seu coração para ela, mas todos aqueles sentimentos não lhe impediriam de matá-la. Ela entendia perfeitamente como as coisas deviam estar soando para ele: estava se sentindo confuso porque gostava dela, mas não conseguia admitir, depois de tanto tempo fugindo de envolvimentos de qualquer tipo. Infelizmente ele parecia envolvido mais do que previra e não conseguia aceitar aquela situação.


Um assomo súbito de compaixão fê-la sorrir tristemente para o teto mal iluminado. Ele era complicado, mas estava gostando dela. Achava que o que sentia por ele era parcial, mas agora via que não era bem assim.


Por outro lado, havia conseqüências duras para o que ela sentia. Por que fora se apaixonar justamente por ele, o bruxo mais odiado e mais procurado? Agora que ela pensava nisso, cada minuto era uma tortura. Era viver com a constante ameaça de esperar que ele não voltasse todas as vezes que saía. Era viver com a sombra do medo de perdê-lo à cada instante…


Tudo começara como uma brincadeira. A atração que sentia por ele não era nada mais do que isso. Ele era bonito, era poderoso e podia providenciar o que Ginny queria. Ela ainda gostava de Harry quando entrou naquilo, ou pelo menos assim achava. Não podia imaginar que desejaria mais do que uma troca de favores de uma pessoa como ele. Não podia imaginar que se envolveria emocionalmente e nem achava que isso fosse possível.


Era uma fatalidade.


E ela estava firmemente entrelaçada a isso.


O sono chegou tarde e conturbado, misturado a pensamentos confusos, dolorosos e dopados. Ela não tinha certeza se estava dormindo, porque continuava deitada olhando para o teto do quarto, por onde feixes de luz dançavam ao ritmo do movimento no corredor fracamente iluminado enquanto a enfermeira deslizava pelo quarto. As sombras eram engraçadas, hora pareciam apenas sombras difusas, hora pareciam ter contornos humanos.


Uma das sombras lembrava ela.


Estava de pé, de perfil, e olhava além. Enquanto observava a ela mesma, sua sombra afastou-se. Outra sombra surgiu da parede, maior e disforme. Aos poucos Ginny reconheceu a outra sombra. Se não se enganava era Tom com sua capa.


Engraçado. Sua sombra parecia ter medo da sombra dele. Correu pelo teto, em fuga, mas parecia se mover em câmara lenta.


- Você não pode fugir – disse a sombra dele, ecoando estranhamente distante. – Você é minha.


Uma risada baixa e despreocupada ecoou no quarto quanto a sombra dele ia ficando clara até sumir, e então tornou a se formar, exatamente para onde a sombra de Ginny corria. Incapaz de parar ou desviar, ela foi parar direto nos braços dele. Era de se esperar que sua sombra lutasse contra aquilo, mas ela não reagiu.


- Por que está fugindo? – perguntou a sombra dele, em voz baixa, no estranho eco.


Sua sombra não respondeu. Continuou onde estava, nos braços dele, sem se mover.


Eles estavam no terraço da torre. Era noite e a lua estava cheia e visível.


- Afaste-se de mim - disse ela, por fim, a voz longínqua.


- Não vou a lugar algum – respondeu ele.


- Você precisa me deixar ir. Continuar comigo é loucura.


- Você não pode me matar – respondeu ele, despreocupado.


- Posso sim – disse ela, simplesmente. E dizendo isso afastou-se dele. Em suas mãos, um coração ensangüentado.


Ele olhou para ela, surpreso. Seus olhos não eram os olhos frios e racionais de sempre. Eram olhos aturdidos e decepcionados. E então ele caiu aos seus pés, morto.


Ginny não soube o que fazer. Matara-o apenas para provar que podia, mas não era o que queria ter feito. O que é que tinha feito? Ela olhou para o coração em sua mão, para o corpo aos seus pés e então para o próprio peito.


Só havia um buraco vazio ali.


Tornou a olhar para o coração em sua mão. Seu coração.


Caiu de joelhos. Estava morrendo. Estava morrendo como ele. Partilhavam do mesmo coração, suas vidas eram a mesma… Ela não tinha percebido…


Atirar nele era como atirar em um espelho. Tudo o que o acertava a atingia em centenas de estilhaços. Viu seu reflexo nos olhos dele quando caiu. Sua alma a abandonava aos poucos, mas a dor despedaçava o que restava dela. E não era uma dor que pudesse sentir em sua carne, era uma dor mil vezes pior do que uma sensação física.


Não era a dor de morrer - era a dor de perdê-lo.


Seus olhos se abriram, assustados. As sombras no teto estavam paradas.


Ginny despertou de seus aterrorizantes devaneios com um sobressalto: a enfermeira, que estivera colocando fracos de poções no armário ao lado da cama derrubou a bandeja que segurava com estrépito. A garota procurou ver o que tinha acontecido e encontrou a moça parada, encarando-a com os olhos arregalados.


A ruiva estacou, imaginando que tinha sido, por algum incrível acaso, reconhecida. Segundos mais tarde, porém, percebeu que era algo muito mais sinistro, porque a enfermeira abriu a boca e uma voz rouca e sobrenatural falou:


- O destino já se decidiu. A balança está nas mãos da garota, e sobre os pratos estão seus valores e seu coração. Mas eles não poderão se equilibrar por muito tempo… O amor poderá destruir duas pessoas, mas abençoará todas as outras. Onde ela colocar sua fé será onde o futuro se aterá, impiedoso, porque o império do herdeiro termina quando seu coração começar a pulsar…


A voz da mulher foi sumindo, áspera em sua garganta, enquanto Ginny fitava-a, chocada. Enquanto ela olhava, a enfermeira baixou a cabeça, como se tivesse adormecido, então, sem mais avisos, endireitou-se, repentinamente.


- Ah, minha nossa, olha que sujeira eu fiz aqui… - lamentou-se a mulher, olhando para o chão onde derrubara a bandeja. Ela tirou a varinha de dentro das vestes e começou a acenar para o assoalho: - Scourgify! Reparo! Accio!


Ginny continuou encarando-a, agora boquiaberta.


Seria possível que a mulher não se lembrasse do que havia dito? Aliás, ela havia mesmo dito, ou Ginny estava delirando? Não, não, ela ouvira perfeitamente, estava acordada agora! E havia as coisas no chão para comprovar que a enfermeira entrara em transe! Mas o que significava aquilo?


A moça terminou de arrumar as coisas, fechou o armário, e pedindo-lhe desculpas pela bagunça e desejando-lhe boa noite, saiu do quarto e apagou as luzes, deixando-a com suas dúvidas e seus pensamentos confusos.


 


III


 


Ele não se surpreendeu, ao voltar ao castelo, que ainda havia confusão a resolver. Algum Auror, ou vários, andara amaldiçoando Comensais com Imperius, que começaram a atacar os próprios colegas mesmo depois do cessar-fogo. Também havia a questão do castelo em si, que estava parcialmente destruído. Tinham também que fazer levantamento das perdas e cuidar dos feridos.


Lucius e Bellatrix haviam dado algumas ordens mais óbvias em sua ausência, mas de resto ele próprio tivera de resolver. Depois de avaliar o que precisava ser feito, dividiu tarefas em grupos e se encarregou pessoalmente, com alguma ajuda, de recolocar as coisas – chão, paredes e móveis – no lugar.


Felizmente os andares superiores estavam pouco danificados, mas até o terceiro andar levara bastante tempo para colocar as coisas de pé novamente. Sem contar que vários escombros revelavam surpresas, por vezes não tão agradáveis.


Quando terminou os reparos era quase meio-dia. Estava exausto, mas não podia dormir. Ao invés disso, foi até a Sala de Poções, onde os Comensais responsáveis já trabalhavam, e pediu uma droga que aliviasse o cansaço. Então foi para seu quarto.


Sentiu-se satisfeito em tirar as roupas. Elas estavam empoeiradas, suadas e ensangüentadas, assim como ele. Tomou uma chuveirada para tirar a sensação pegajosa do corpo, e viu uma estranha mistura de sangue e barro seguindo para o ralo.


Ao sair do banheiro, viu Nagini rondando suas roupas.


- Sentiu cheiro de sangue? – perguntou ele, enquanto ia até o closet pegar roupas limpas.


- Sim… Delicioso cheiro de sangue – respondeu a cobra, confirmando.


Ele sorriu, enviesado.


- Não fique muito feliz. Parte do sangue é meu, o resto é da Ginny. Você terá mais sorte se for lá em baixo e tentar surrupiar um cadáver – disse, vasculhando as gavetas. – De preferência um Auror.


- Mas estão frescos? – quis saber a cobra, interessada.


- Mais ou menos. Já esfriaram, se é o que quer saber.


Ela não pareceu muito feliz com a resposta.


- E sua amiga, Ginny, está sangrando aonde?


Ele saiu do closet, vestindo apenas as calças, e encarou a cobra.


- Não fale dela assim – alertou.


- Assim como? – quis saber o animal, enroscando-se no dossel da cama. – Como comida?


- Exatamente – disse ele, seco.


Nagini fez um ruído engraçado, poderia estar rindo. Ele ignorou-a a voltou a se vestir.


- Você se importa muito com ela – disse a voz sibilante no quarto. – Acho que está você está apaixonado.


Ele saiu ajeitando a capa e pegou a varinha sobre o criado-mudo.


- Poupe-me de seus comentários infelizes – disse para a cobra, sem ânimo para discutir. A máscara de Ginny estava no chão; pegou-a. – Vou sair; não coma minha roupas!


Ele saiu. Deu alguns passos para o norte e entrou no quarto de Ginny. Separou algumas mudas de vestes limpas. Desceu. O hall estava movimentado, e de vários andares os Comensais desciam corpos por magia. A maioria deles ainda usava roupas de festa, já que só uma parcela deles habitavam ali. Avistou Lucius, que se responsabilizara por coordenar a contagem, e aproximou-se.


- Como estamos indo? – perguntou-lhe, vendo a pilha de corpos não contados que eram depositados no hall para serem levados para fora.


- Digamos que foi proporcional – respondeu Lucius, parecendo não muito feliz, mas também não muito desanimado. – Para cada Auror, uns dois Comensais. Mas acho que podia ser pior.


- Um desfalque razoável – comentou ele, em voz baixa, pensativo. – Alguém do Cinco?


Lucius não respondeu de imediato. Mexeu-se inquieto antes de responder.


- Dean. Aparentemente derrubou um pedaço da ante-câmara da Ala Norte para impedir dois Aurores de subirem para a Sala de Planejamentos, mas não foi rápido o suficiente. Bellatrix o desenterrou.


Ele crispou os lábios. Não sentia nada de especial pelo rapaz, mas não podia negar que ele era promissor e fazia um competente trabalho para eles. Sem contar que Ginny reagiria muito mal àquela notícia, era a mais próxima ao colega.


- Mais alguém?


- Bom… Mulciber e Dolohov, dos antigos.


- Não farão diferença – comentou, ainda em voz baixa. Estavam com ele há bastante tempo, mas ultimamente estavam deixando a desejar.


- Milord – chamou Lucius, parecendo bem mais apreensivo. – Também não achamos GW em lugar algum.


- Ah, está tudo bem com ela – respondeu, distante. – Bella está lá fora?


Lucius assentiu. Ele saiu.


Nos jardins estavam enfileirados vários cadáveres, divididos em Aurores e Comensais, e havia gente trabalhavam na identificação. O sol estava forte, apesar do vento, mas Bellatrix supervisionava-os. Levantou os olhos quando ele apareceu e reverenciou-se brevemente.


- Milord, como foi com o castelo?


- Continuará em pé por muitos anos – respondeu, despreocupado. Observou uma pequena fileira à parte onde os corpos pareciam carne moída.


- Não conseguimos identificar aqueles – explicou ela, vendo onde seus olhos fixavam.


- O da ponta fui eu – disse ele, em mesmo tom. – Não sei o nome, mas é um Auror, com certeza. Os dois do meio também. Joguei-os pelo parapeito – disse, curvando os cantos dos lábios em um sorriso sádico.


- Bem feito para eles – disse Bellatrix, compreendendo perfeitamente.


- Vou sair – anunciou ele, em seguida. – Volto logo, mas talvez os Aurores voltem para levar os corpos dos colegas – Bellatrix olhou-o, aguardando ordens. – Deixem que levem, mas fiquem atentos a eles.


A seguidora concordou com a cabeça. Ele desaparatou.


Apareceu no saguão do hospital, movimentado.


Reparou assim que chegou que dois bruxos que se lembrava de ter visto durante a noite o encararam e levaram a mão às varinhas dentro dos bolsos, rapidamente. Ele não fez movimentos por um momento, então aproximou-se ligeiramente, para inquietação dos homens, e disse-lhes, em voz baixa e calma:


- Tem certeza que querem alarmar todas essas pessoas? Eu não faria isso se fosse vocês.


Eles pareceram compreender o risco de um duelo ali dentro. Entreolharam-se brevemente e recuaram um passo. Ele não esperou por reações, e dirigiu-se ao balcão.


A mesma bruxa que ele modificara a memória atendia os presentes. Controlada pelo seu Imperius como ainda estava, bastou olhar-lhe uma vez para dar a informação que queria.


- Quinto andar, quarto quinhentos e seis. Já está à sua espera – informou a recepcionista loura.


Ele fez um sinal com a cabeça e pegou o caminho para as escadas. Os Aurores pareciam inquietos quando os olhou brevemente, antes de desaparecer de vista, mas ele não se preocupou. O hospital era uma área neutra e muito ruim para se causar tumulto, e eles não eram burros o suficiente para alertar aos pacientes que ele estava no prédio, causando pânico entre os doentes e feridos. Não, definitivamente um confronto não seria proveitoso para ninguém.


O quinto andar se parecia com o térreo, tirando que não havia recepção, mas muitas portas ao longo dos corredores. Ele nunca subira ali antes.


O quarto quinhentos e seis ficava perto da escada. Alguns curandeiros passavam pelo corredor, carregando coisas no ar, e desapareciam por portas. Bateu na porta ao chegar.


Depois de alguns segundos uma bruxa atendeu e ele reconheceu como sendo um dos medibruxos que socorreram Ginny quando eles chegaram ao hospital. A moça sorriu em reconhecimento.


- Entre, ela já está acordada.


A medibruxa abriu mais a porta e ele entrou, olhando ao redor. Ginny fora movida para um quarto maior e mais movimentado. Havia quatro camas ali, todas protegidas por biombos, embora todos estivessem abertos no momento. Um leito estava vazio, mas os outros estavam ocupados e tinham visitas. Conversavam. Pelo menos nenhum dos feridos eram Aurores.


Ginny estava na última cama. Estava sentada olhando pela janela, de onde era possível ver vários prédios da região urbana de Londres. Parecia distante e ligeiramente mais miúda do que era com a camisola larga do hospital. Ele se aproximou.


Tocou-lhe o ombro quando chegou perto o suficiente. Ela pareceu ter um pequeno sobressalto, então olhou para a mão em seu ombro e respirou fundo.


- Você está bem? – perguntou, sentindo que ela estava um pouco triste.


Ela assentiu com a cabeça.


- Estou bem… acho – disse, em voz baixa.


Era óbvio que ela não estava bem, mas eles não tinham tempo para ficar perdendo ali.


- Trouxe umas roupas para você – disse, depositando as ao seu lado. Ela mordeu a bochecha, hesitante. – Eu não me importo de sair para você se trocar – disse, entendendo que ela estava tendo uma crise de pudor.


- Não precisa – disse ela, enfim, parecendo conformada. – Só fecha o biombo, por favor.


Ele obedeceu e aproximou-se da janela enquanto ela se trocava. Era estranho observar aqueles prédios trouxas todos. Fazia muito tempo desde que descobrira que era um bruxo e desde então fizera questão de ficar o mais longe possível de tudo o que lembrasse sua infância tediosa. Os trouxas eram incrivelmente burros. Mesmo com todos os sinais de que algo acontecia, por mais que o Ministério se empenhasse em desaparecer com os vestígios de magia dos desastres que os acometiam, insistiam em continuar a viver suas vidas tolas e chatas normalmente, como observava ao ver os carros e pedestres lá em baixo, inquietos e incessantes. Talvez não achassem que todas aquelas tragédias pudessem chegar à Londres, uma cidade tão evoluída. Talvez achassem que coisas assim nunca aconteceriam com eles…


Mas era sempre assim, invariável o fato de serem trouxas ou não.


Quando se virou, Ginny estava calçando as meias. Esperou pacientemente que ela as colocasse e calçasse os sapatos, por mais que quisesse ir embora. Mas só estava sendo paciente em consideração à notícia que tinha que lhe dar antes que chegassem à Basilisk Hall. E achava melhor contar-lhe ali para que ela tivesse tempo de digerir a informação.


Ele terminou de calçar os sapatos, parecendo terrivelmente infeliz, mas não se levantou nem deu sinais de que pretendia ir embora. Ficou sentada na cama de metal, segurando sua máscara, os pés que não tocavam o chão balançando lentamente.


Ela falou antes que ele.


- Tom, eu não vou voltar com você – disse, simplesmente.


Mas ele não estava no espírito para brincadeiras.


- Olha, eu sei que fui meio imbecil essa madrugada, mas já pedi desculpas. Agora, veja, eu tenho uma coisa para te contar antes que cheguemos lá, então…


- Você não está entendendo – cortou ela, sem olhar-lhe. – Cansei disso. Não vou voltar para o castelo.


Ele encarou-a, desnorteado.


- O que quer dizer com isso? – perguntou, achando que talvez fosse algum tipo de brincadeira. Mas no íntimo já sabia que ela não brincaria numa hora daquelas.


Ela levou as mãos à testa, perturbada.


- Eu não posso continuar. Não sei porque me aliei à você. Não temos nada em comum. Eu fui precipitada, agi pensando na atração que sentia por você, mas agora vejo que cometi um grande erro – dizia ela, em voz baixa, para os próprios pés. Suspirou. – Não digo que não houve bons momentos, mas agora já chega. Olhe… olhe pra gente! Eu… eu não sei nada sobre você! Nem sei quantos anos a gente tem de diferença! A gente não tem nada a ver, eu não tenho nada a ver, sou contra tudo o que você pensa ou faz. E-eu não sei como demorei tanto tempo para perceber que não pode ser assim. Simplesmente não pode!


Ele continuava encarando-a, abismado. Péssima hora para uma crise de consciência.


- Ginny, podemos discutir isso em casa? – perguntou, numa tentativa final de evitar escândalos.


- Já disse que não vou com você – reclamou ela, ríspida.


- Claro que vai – disse, mansamente, mas já se segurando para não explodir. Segurava a varinha com força dentro do bolso. – Olhe pra mim. – Ela não se moveu. – Olhe pra mim – repetiu com mais urgência, mas ela continuou com as mãos na frente do rosto baixo.


Ele respirou fundo, tentando controlar-se. Não estava acostumado com aquele tipo de rebeldia, mas concordou consigo mesmo que devia ser mais delicado com ela pelo menos naquele dia.


Aproximou-se dela e agachou-se, ficando vários centímetros abaixo de seu rosto. Colocou as mãos sobre as dela, tentando abaixá-las.


- Por favor – pediu ele, em tom gentil.


Ela cedeu, mostrando um rosto cheio de lágrimas. Olhou para ele, embora evitasse seus olhos.


- Isso que você disse não faz sentido nenhum – disse-lhe, suavemente, tentando não parecer muito grosseiro. – Você está se confundindo. Pouco importa a nossas idades ou nossas opiniões, porque você está fazendo isso por um motivo muito maior, lembra-se? Você não pode ir embora, Ginny. Você é minha, está no contrato, lembra?


As feições dela retorceram-se numa careta de desgosto.


- Que se dane o maldito contrato! – vociferou ela, bem mais alto do que antes. Ele percebeu que a conversa além do biombo se interrompeu abruptamente. – Eu não sou um bicho ou uma merda de mercadoria para que você possa me possuir! Eu sou alguém, ouviu? EU SOU ALGUÉM…!


- Fale baixo! – sibilou ele, ríspido, preocupado com o que as pessoas estavam ouvindo.


- POR QUE EU DEVO FALAR BAIXO? SÓ PORQUE VOCÊ QUER? EU NÃO VOU TE OBEDECER MAIS, PORQUE EU NÃO AGÜENTO MAIS! – berrou ela, histérica.


Ele pensou em lançar-lhe um Feitiço Silenciador, mas antes que conseguisse sacar a varinha do bolso, o biombo se abriu com violência. A medibruxa que o atendera na porta há pouco encarava-o, meio assustada, meio furiosa.


- O que é que está acontecendo aqui? – ralhou ela, em tom de censura, embora mantivesse a voz baixa.


- Não se intrometa – mandou, lançando-lhe um olhar ameaçador.


- Oh ho! Agora, é claro, vai ameaçar as pessoas – disse Ginny, numa voz estranha e extremamente sarcástica. – É só isso o que sabe fazer.


- Cale a boca – rilhou, mais urgente.


- E se eu não calar? – desafiou ela, amargamente.


Ele chegou ao limite. Estava tentando ser razoável, mas aparentemente não surtia efeito algum. Já era hora de apelar pelo que fazia de melhor.


Puxou a varinha e apontou-a bem no meio dos olhos da garota. Ela pareceu um pouco assustada com a ameaça súbita, mas não se acovardou diante da intimidação. Encarou-o com desprezo.


- Não é um pedido – disse-lhe, suavemente.


A medibruxa apontava-lhe a varinha agora, parecendo furiosa.


- O que acha que está fazendo? Isso é um hospital! Se não abaixar essa varinha agora, eu vou…


- Vai o que? – rosnou ele, desafiando-a, sem olhá-la completamente. Era só o que faltava.


- Serei obrigada a te machucar! – respondeu a mulher, com firmeza, embora parecesse um pouco assustada.


Ele riu. Riu como sempre ria quando pessoas ridiculamente ignorantes como aquela mulher se achavam mais competentes do que ele. Tirou os cabelos dos olhos e, sem aviso, mudou de alvo. A medibruxa recuou um pouco, surpresa, mas não desviou a mira dele.


- Não seja ridícula, sua sonsa. Posso te partir ao meio com um estalar de dedos – alertou, tentando manter a voz calma.


- Por que fica alardeando tanto de seu poder? – retrucou Ginny, irritada, à sua direita. - É, quando na verdade não faz mais nada além de ficar sentado esperando que façamos por você. E por que é que ameaça quem você sabe que não pode nem torcer seu mindinho?


- E quem é você para falar neste tom comigo, menina? – disse, olhando-a com o canto dos olhos, em um misto de fúria e cruel satisfação. - Você nem sai de seu quarto quando tem escolha! Projeta um monte de coisas, mas executar que é bom nem passa perto de seus pensamentos, e você ainda vem falar de mim? Toda essa sua decência que usa como pretexto para absolver a si mesma de sua culpa e que ninguém nunca vai enxergar… Se esconde por trás de uma máscara e de um apelido para poupar sua família e amigos do desgosto que você é para eles e se acha muito poderosa porque dribla todo o Ministério com suas cartinhas ao jornal, não é mesmo? Quem é que está sendo hipócrita aqui, GW?


A garota fez uma cara ofendida e mais lágrimas escorreram pelo seu rosto. Quando conseguiu recuperar o fôlego, porém, disparou contra ele, a voz cheia de desprezo:


- Não estou vendo diferença alguma em nossa hipocrisia. Você sai por aí matando Sangue Ruins, mas também se esconde atrás de um apelido e de uma máscara de mentiras para disfarçar seu nome trouxa e seu sangue mais impuro do que o meu!


O quarto ficou realmente silencioso quando as palavras terminaram de sair da boca dela, como se ninguém ousasse respirar. A mulher que apontava-lhe a varinha ficou muito branca com a revelação de sua identidade e talvez finalmente assimilando seus traços com a foto da página de procurados atrás do balcão no térreo. As pessoas além, todas encaravam-no estáticas e aterrorizadas.


Mas todo esse espanto não foi o suficiente para parar e eco da fala de Ginny em sua cabeça. Como ela ousava dizer aquilo na frente daquela gente? Como ela tinha a coragem de desafiá-lo daquela maneira? Se ela estava querendo testar até onde ia seu auto-controle, ela havia conseguido, pois a única coisa que conseguiu pensar e fazer em seguida foi puxar o braço da varinha e voltar-lhe um soco certeiro no meio do rosto.


Ginny caiu para trás, na cama, gemendo e retorcendo-se de dor. Tinha certeza absoluta que quebrara-lhe o nariz, e, não ia negar, estava bem satisfeito. Na verdade, a vontade que tinha era a de espancá-la até que estivesse inconsciente e incapaz de respirar, mas algo dentro dele disse que um nariz quebrado já era um castigo razoável pelo afronte.


Além do mais, sentiu algo que se aproximava a uma pontada de culpa quando ela se mexeu e ele viu o travesseiro se manchando de sangue.


- Vamos embora! – disse ele, retomando a abordagem inicial. Agora sentia que não devia ter se descontrolado, mas nada mudaria o fato de que todas aquelas pessoas agora sabiam quem eles eram. Ginny não se mexeu, continuou chorando baixinho e tossindo, com a mão no rosto.


Ele olhou ao redor. Ginny não mudaria sua atitude por mais que ele a machucasse. Conhecia-a. Uma Maldição Imperius também não faria efeito. Tinha que arranjar outro jeito de atingi-la, e se não fosse por amor-próprio, seria por clemência.


Atacou a medibruxa primeiro. Não a machucou, mas a imobilizou com um Petrificus Totalus. Estava certo ao imaginar que as pessoas se sentiriam mais ameaçadas depois que a pessoa mais capaz de lutar por eles fora rendida. Todos se encolheram , os pacientes em suas camas e os visitantes contra as paredes. Ele lançou um feitiço contra a porta, que se lacrou. Agora ninguém poderia sair e tornava-se mais fácil para ele escolher um alvo.


Um senhor de idade e sua esposa também idosa encaravam-no com terrível pavor. Não… Talvez o homem de cama ao lado que apertou os olhos com força quando ele apontou-lhe a varinha. Também não. Seus visitantes pareciam mais interessantes; três adolescentes, que encolheram-se terrificados quando ele olhou em sua direção, uma mulher paralisada de medo e uma garotinha que escondia-se atrás dela.


Ele sorriu e abaixou-se.


- Mas que garotinha adorável – disse, na voz mais doce que encontrou. A mãe da menina ficou branca como giz e tentou esconder a menina melhor. O sorriso dele se alargou. – Por que não vem até aqui? Tenho um presente para você.


O internado, que era claramente o pai da menina, arriscou escorregar a mão bem lentamente em direção à varinha sobre o criado mudo, mas ele percebeu.


- Accio varinha – disse, quase descansadamente, e o homem congelou a três centímetros de tocá-la. Esta voou até sua mão, ele olhou-a uma única vez e atirou-a pela janela aberta.


O homem se retraiu, derrotado, frente àquela humilhação. Ele tornou a voltar-se para a menininha, que espiava-o, assustada, por entre as pernas da mãe.


- Vem aqui – disse ele, simulando um sorriso bondoso. A garotinha negou com a cabeça e ainda mostrou-lhe a língua. A mãe suava frio e prendia-a às suas costas. – Que feio – repreendeu ele, com um muxoxo. – Sua mãe não te deu boas-maneiras… Acho que ela merece ser castigada.


Cordas saíram de sua varinha antes que alguém pudesse protestar. Elas enrolaram-se nas pernas, braços e boca da mulher, imobilizando e calando-a, que caiu no chão em seguida, choramingando abafada e sem poder se mover muito. Ele tornou a erguer a varinha, dessa vez apontando para a menina, que começava a chorar.


- Por favor, não! – implorou o homem, as lágrimas molhando-lhe o rosto.


- Imperio – disse, calmamente, ignorando-o.


A menininha calou-se e lançou-lhe um olhar vazio e fixo, completamente amaldiçoada. Devia ter uns quatro anos, ou menos.


Ele levantou-se, um sorriso satisfeito no rosto.


- Seu pai quer que você vá buscar a varinha dele – disse, por fim, explicitando a ordem que lhe dera, de modo a apavorar ainda mais os familiares. Lentamente, a menininha foi indo em direção á janela.


- Pelo amor de Deus! – chorou o pai da criança, incapaz de sair da cama, moribundo como estava. O casal idoso às suas costas soluçavam, mas também tinham muito medo para deter a menina. Um dos adolescentes adiantou-se tencionando parar a criança, mas um segundo depois ele estava no chão do mesmo jeito que a mãe.


A menina escalava agora o parapeito. O homem e os adolescentes choravam. Os olhos da medibruxa se moviam, aterrorizados, sem poderem fazer nada. Ele sorria calmamente com a perspectiva de ver a menina se jogar de lá de cima, como um saco de papel…


- Já chega – disse uma voz bem firme, embora rouca, à sua esquerda. – Pare com isso agora!


Ele levantou a varinha e cessou a Maldição Imperius. A garotinha parou, as mãos na batente da janela e prestes a passar a perna por cima da vidraça, sem saber o que estava fazendo ali. Olhou para fora e desequilibrou-se, surpresa e aterrorizada. Ginny pegou-a no colo antes que acontecesse qualquer coisa, e levou-a até a família novamente, acalmando-a em seus braços. Depois de depositá-la nos braços do pai, tirou a própria varinha do bolso e desfez os feitiços que ele lançara nas pessoas.


A mãe agarrou-se a criança, chorando, enquanto ela se virava para ele, o sangue começando a coagular sobre sua boca.


- Seu showzinho foi doentio, mas me convenceu – disse ela, impassível, embora o encarasse com olhos em brasa. – Vamos embora agora.


Ele alargou o sorriso. Vencera, afinal de contas.


Por outro lado, aquela Ginny fria e furiosa o incomodava um pouco. Ela virou-se para pegar o resto de suas coisas e ele aproximou-se. Ela fez menção de colocar a máscara, mas ele segurou-lhe a mão antes que o fizesse.


- Aqui – disse, em voz baixa, apontando-lhe a varinha para o rosto. Ela apertou os olhos, receosa, mas ele apenas fez com que seu nariz re recuperasse e limpou o sangue. Ela abriu os olhos e encarou-o, ainda parecendo magoada. – Não precisa ser assim.


- Como deve ser, então? – perguntou ela, seca, porém conformada, um dos cantos dos lábios tremendo ligeiramente.


Ele acariciou seu rosto delicadamente e sentiu suas barreiras ruírem. Uma lágrima escorreu pelo rosto dela e pingou de seu queixo. Ele a queria verdadeiramente, e não podia suportar a infelicidade em seu rosto.


- Podemos ser felizes juntos se você quiser. Mas isso trará conseqüências – disse ele, em voz baixa. Ela colocou a mão sobre a dele e apertou-a levemente sobre o próprio rosto, mais lágrimas surgindo-lhe nos olhos fechados. Parecia dolorosamente dividida.


- Eu quero – disse, por fim, sem conseguir mais controlar as lágrimas.


Ele sentiu-se feliz com a resposta. Envolveu-a com o outro braço e deslizou a mão do rosto para baixo dos cabelos. Beijou-a, e Ginny não recusou. Foi breve, mas ela pareceu melhor quando se separaram.


- Eu te amo, seu idiota – disse ela, num sussurro choroso.


- Eu sei. Me desculpe pelo soco.


- Bobagem. Me perdoe pelas coisas que falei – pediu ela.


- Não se preocupe. Também te devo desculpas por isso.


- A verdade é sempre dura – disse ela, querendo rir, embora ainda não tivesse parado de chorar. – Mas vou encarar melhor daqui pra frente.


- Vamos – disse ele, por fim.


Ela concordou com a cabeça. Colocou sua máscara e virou-se para o restante das pessoas.


- Nossas desculpas pela cena. Essa noite foi simplesmente exaustiva – esclareceu ela, cansada. – A Ordem das Trevas não têm nada contra vocês. A partir de hoje, inclusive, seremos muito menos rigorosos com quanto à pureza do sangue. – Ele olhou para ela, que retribuiu o olhar, decidida. - Somos todos bruxos e não faz sentido nenhum que continuemos a agir dessa forma. Mas não pensem que somos a favor da miscigenação com trouxas, isso deverá acabar.


Ele não disse nada. Discordava terrivelmente daquilo, mas entendia que, aceitando-a, era uma conseqüência justa. E além do mais, não mudaria muita coisa anistiar os mestiços e nascidos trouxas. Apesar de tudo, faziam magia como todos ali naquele quarto.


- Em todo o caso, gostaria de informá-los que qualquer bruxo de sangue puro que tiver interesse em endossar nossas tropas são bem vindos – continuou ela, e demoradamente olhou para os adolescentes ao canto. – Lutaremos incessantemente pela supremacia bruxa, e é dispensável lembrá-los que os que estiverem do nosso lado terão muito mais vantagens do que os que não estão, quando a guerra acabar e formos os vencedores.


Então ela olhou para ele e fez um gesto positivo com a cabeça.


- Não aparate no hall – disse-lhe, entes que ela se fosse. Ela assentiu e desaparatou.


Ele olhou mais uma vez para as caras assustadas das pessoas. Não achava uma boa idéia deixá-los ilesos por terem presenciado aquilo; com certeza alguém alertaria ao Ministério sobre Ginny. Alterou a memória deles, um por um, e estuporou-os em seguida. Acordariam minutos depois sem saberem o que tinha acontecido. Então olhou no rosto desacordado de cada um pela última vez e desaparatou.


Ventava um pouco mais nos jardins do que quando ele saíra, e o sol escondera-se atrás de uma grande e solitária nuvem. Percebeu a diferença entre o cheiro de assepsia de um hospital e o cheiro engraçado de sangue, suor e queimado que pairava ao redor de Basilisk Hall. As fileiras de mortos eram ainda maiores do que antes, mas suspeitava que era a visão final do saldo da batalha.


Ginny estava parada um pouco mais à sua esquerda, olhando fixamente para algo. Ele lembrou-se, subitamente, que se esquecera de avisá-la sobre Jack Dean.


Ele cogitou consolá-la, mas antes que tomasse qualquer decisão, ela caminhou até o corpo do amigo e caiu de joelhos, a cabeça baixa. Bellatrix e o restante dos Comensais desviaram o olhar, constrangidos, e ele preferiu não se intrometer na despedida.


 


 


Estimada Sra. Dean,


 


Gostaria muito de ter escrito-lhe antes e em momentos melhores. Sinto grande respeito pela senhora, mas o acaso quis que nos conhecêssemos somente agora. É uma pena.


A senhora não me conhece, pessoalmente, mas acredito que Jack tenha lhe falado de mim. Trabalhamos juntos por um longo tempo e isso fez crescer entre a gente enorme carinho e admiração. Jack sempre representou uma grande importância em minha vida. Ele foi a única pessoa que me aceitou e me acolheu durante um dos períodos mais sombrios para mim. Ele me apoiou e me suportou por pouco mais de um ano, quando nos conhecemos, em um ambiente hostil e depressivo. Ele sabia dos meus maiores segredos e sempre me foi leal. Eu nunca teria suportado se não tivesse sua companhia, e acredito que ele também não teria ido tão longe sem a minha.


Muito infelizmente, ontem, e talvez a senhora seja a primeira civil a saber, não correu tudo bem durante a nossa confraternização. Durante certa hora da madrugada, os Aurores invadiram nosso quartel e iniciaram um tumulto. Não vou dizer que foi desumano da parte deles terem atacado uma multidão de pessoas desarmadas em pleno divertimento porque todos nós somos suspeitos para dizer o que é ou não desumano. Entretanto, Jack foi leal à nós até o último segundo, quando impediu alguns Aurores de acessar as áreas mais restritas derrubando uma parte do corredor para soterrá-los. Infelizmente sua coragem também custou sua vida.


Eu realmente sinto muito. Daria tudo para que tivesse sido comigo ao invés dele e queria ter estado lá para ajudar, mas lamentavelmente só tomei conhecimento da fatalidade há alguns minutos, e infelizmente nunca poderei retribuir tudo o que ele me devia.


O pai dele estaria extremamente orgulhoso de sua bravura, eu tenho absoluta certeza, e a senhora também deve se orgulhar, apesar de tudo. Conheço sua opinião a respeito das escolhas de Jack, e talvez a senhora sempre tivesse tido a razão. O mundo não merecia perder uma pessoa tão boa e tão competente como ele, por motivo algum existente. Mas ele fez suas opções, e as honrou da maneira mais bonita e memorável possível.


 


Meus mais sinceros sentimentos,


GW.


 


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Nota – Música: Destroyed, composta por Sharon den Adel e possivelmente por Robert Westernholt, da banda de metal sinfônico holandesa Within Temptation, apresentada no álbum Destroyed. Vale a pena conhecer a banda se ainda não conhece!

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