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4. A Aurora Vermelha


Fic: O Filho das Trevas - reescrita


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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- A Aurora Vermelha –


 


“She is everything and more


The solemn hypnotic


My dahlia bathed in possession


She is home to me


I get nervous, perversed


When I see her, it’s worse


But the stress is astounding


It’s now or never


She is coming home


- Oh, she is the only who makes me sad


 


Hard to say what caught my attention


Fixed and crazy


Aphid attraction (…)


I exist to my need to self-oblige


She is something in me that I despise


- I won’t let this build up inside of me!”


 


Vermilion, Slipknot


 


I


 


A decoração estava perfeita e os elfos cuidavam da comida e bebida com eficiência. Ao chegar ao salão, viu a mesa principal afastada para o fundo e várias mesinhas redondas dispostas ao redor do cômodo, dando espaço para uma pista de dança. A porta da esquerda havia sido fechada e um pequeno palco montado à sua frente.


- Ficou bastante bom – disse Ginny, observando o movimento. Havia mais pessoas do que ela jamais se lembrava de ter visto em B. Hall, que se exibiam em trajes extravagantes. Viu dezenas de cabelos coloridos e metros de tecidos dos mais diversos. A grande maioria usava máscaras, mas alguns Comensais mais ilustres e alguns simpatizantes da causa estavam de cara limpa (pouco importavam se fossem reconhecidos, pois já eram procurados pela justiça). As pessoas não paravam de se curvar quando os viam.


- Wildriam – disse Tom, baixinho.


- Oi? – fez ela, sem entender muito bem.


Tom apontou para um homem pouco mais alto do que ela, conversando com uma bruxa de roupas negras e cabelos armados, próximos à parede. Não usava máscara, e trajava um longo casaco azul-marinho.


- Ah. Aquele é Robert Wildriam, da Romênia? – entendeu ela.


- É. – Ele fez um aceno discreto quando o homem olhou além e em dois segundos ele estava na frente deles.


- Milord, é um prazer revê-lo! – saudou o Comensal, com uma profunda reverência.


- Faz muito tempo desde a última vez que nos vimos, Robert, meu fiel Comandante de assuntos internacionais – disse Tom, numa voz que não dava para saber o que ele estava pensando. – Alguma novidade?


- Nada além do que já lhe informei pelas cartas, mestre. – O homem fez um meneio com a cabeça.


- Em relação àquele assunto…


- Continua bem guardado – respondeu Wildriam, aparentemente sabendo do que se tratava. Ele olhou-a com admirada curiosidade.


- Que acha de minha acompanhante? – perguntou Tom, um pouco de má fé, pensou Ginny, pois assim o pobre homem ficava em complicada situação com qualquer resposta.


Wildriam hesitou, então sorriu.


- Como bom legilimante que sei como o senhor é não adianta esconder o que pensei: estonteante e de tirar o fôlego, senhorita – disse-lhe, com uma reverência. Tom pareceu satisfeito, contrariando a reação que Ginny esperava.


Ela corou por baixo da máscara, mas se recompôs rapidamente. Estendeu a mão.


- Fico lisonjeada, Sr. Wildriam. Prazer em conhecê-lo pessoalmente.


- Pessoalmente? Receio não me lembrar…


- Perdão – disse ela, achando graça. – Sou GW. Mas é claro, o senhor devia pensar que eu era um homem…


- Admito que pensei! E como podia imaginar? – admirou-se Wildriam.


- Talvez eu devesse deixar minha letra mais feminina – riu-se Ginny.


- Mas não estrague seu disfarce – disse Tom, numa voz mais gozadora do que antes. – Junte-se a nós, Robert. Estamos na mesa grande.


- Sim, senhor. Estarei lá.


Eles continuaram a peregrinação pelo salão. Ginny reparou que estavam fazendo um grande caminho, e não pode deixar de pensar que ele estava exibindo-a – o que não era um pensamento ruim. Eles falaram com mais duas pessoas (uma bruxa alta de vestes roxas, que portava uma varinha que mais parecia um galho, comprida que era, e um homem grisalho e meio gordo, demasiado bajulador); fora isso, apenas deram a volta no salão até a mesa, retribuindo os cumprimentos de modo discreto.


Ginny viu Marcy Lowitt entre os presentes, parecendo solitária mesmo em meio a quem parecia ser seus pais, em uma mesa ao canto, mas a amiga nem olhou em sua direção. Seus trajes eram opacos e pouco entusiásticos para a opinião.


A mesa grande, que geralmente ficava no centro do Salão de Refeições, estava caprichada. Havia comida à vontade, disposta em arranjos (não chegava à pompa do Baile de Inverno de Hogwarts, mas já era alguma coisa). Havia até uma toalha de mesa verde e prata.


- Caprichado – comentou ela, ao se aproximarem de seus assentos. – Mas vocês, sonserinos, e sua mania de ostentar suas cores – provocou.


Tom olhou para ela com um sorriso torto que dispensava comentários, mas que mostrava que ele não havia levado para o lado pessoal. Ela riu.


Os Malfoy e Rodolphus já estavam em seus lugares, e nenhum deles usava máscara. Os três os saudaram quando se sentaram, e Ginny não pôde deixar de reparar nos olhares que lhe lançaram.


- Belo vestido, GW – elogiou Narcissa, ao lado do marido, puxando assunto. Aparentemente acompanhar Lord Voldemort em um baile era equivalente à uma promoção, um certificado de que ela realmente participava da elite da Ordem.


- Obrigada. O seu também está ótimo – retribuiu Ginny, cordialmente, observando o belo traje azul cintilante da outra, dando um ar gracioso ao conjunto. Narcissa ainda era bastante bela, mesmo tendo quase a idade de sua mãe. – Sinceridade.


- Muito obrigada – disse a outra. – Precisa ver Bella. Eu disse a ela que devia arranjar roupas bonitas, mas ela disse que não se importa com formalidades deste tipo – contou, um tanto indignada. – Eu sei o quanto ela ainda é bonita por debaixo de todo aquele desleixo, se pelo menos ela me deixasse dar uma ajuda com o cabelo…


Lucius, parecendo bastante elegante em suas melhores roupas, estava com cara de quem já havia ouvido aquela mesma conversa na noite anterior e não se importava nem um pouco; Rodolphus parecia concordar em parte com a situação, embora parecesse querer não se meter naquele conversa claramente feminina.


- Qual o problema, Narcissa? Se você se importasse menos com a aparência e mais com seu trabalho, certamente seria tão eficiente quanto Bellatrix – disse Tom, no tom de voz mais casual que Ginny conhecia.


Narcissa corou violentamente; provavelmente não esperava que seu mestre se meteria naquela conversa, além do mais com opinião tão ácida à respeito dela.


- M-me desculpe, milord. Eu não quis… Não era minha intenção… - balbuciou Narcissa, ao mesmo tempo nervosa e envergonhada.


Mas pelo modo como Tom apenas riu e se serviu de uma taça de vinho, Ginny soube que aquilo era apenas uma peculiar demonstração de bom humor. Pena de Narcissa, que não sabia disso, e ficou relativamente mais silenciosa pelo resto da noite (pelo menos Lucius pareceu mais feliz).


O salão foi se enchendo gradualmente - certamente era maior do que parecia, pois já estava bastante cheio quando ela chegara. Ela viu pessoas que nunca tinha visto se acomodarem nas mesinhas ao redor do salão, impressionadas com a decoração ou comentando sobre assuntos diversos; havia gente que claramente nunca estivera ali antes e havia um número razoável de simples simpatizantes que foram convidados.


A banda já afinava seus instrumentos quando o restante do grupo Cinco mais os chefes dos outros grupos e convidados de honra se reuniram todos na mesa grande. Bellatrix foi a primeira a aparecer (vestia roupas normais e seus cabelos estavam desgrenhados como sempre), pegando o assento entre a irmã e o marido; Jack ficou com o assento ao lado de Ginny (“Uau, como você está gata hoje! Não que não esteja gata sempre, com todo o respeito…”); Rockwood e Dolohov preferiram lugares mais afastados, próximos a Dawson e Eveyard, do grupo noturno; Michael Marlaux estava entre Wildriam e um convidado de barba que ela não conhecia e sua esposa, com os quais conversava em outra língua, e os chefes dos grupos espalhados pela mesa. Snape aparentemente não aparecera, de novo (este estava evitando deliberadamente aparecer por lá desde que se encontraram um dias desses na Sala de Planejamentos; provavelmente achava que ela sabia de algo que não devia saber, mas Ginny não tinha certeza o suficiente da lealdade de Snape para palpitar com seu mestre). Todos se serviam de vinho e colocavam a conversa em dia, uma vez que o Lord parecia não fazer objeção.


- Acho que todos que tinham de vir já estão aqui, não? – perguntou Tom, em voz baixa, para ela.


- Acredito que sim – respondeu ela, concordando, sem ter muita certeza de quem deveria ou não estar ali.


- Então acho que chegou minha vez – disse ele, levantando-se em seguida. Os Comensais mais próximos se calaram, percebendo a deixa, mas o salão inteiro pareceu não ter percebido. Ginny pensou que poderia bater na própria taça para chamar a atenção, como a profª. McGonagall fazia para Dumbledore, mas antes que tomasse qualquer decisão, Tom já havia sacado a própria varinha, e um feitiço silenciador afetava todos os presentes, confundindo alguns, que continuavam abrindo a boca sem entender por que a voz sumira. O efeito durou pouco, e logo todos os convidados estavam em pé e de total atenção em seu mestre.


- Saudações, meus Comensais e meus aliados. Vocês devem ter pensado, ao receber meu convite essa semana, que não é de meu feitio dar festas. Admito que não. – E sorriu seu sorriso mais cativante (induzindo vários a fazerem o mesmo, em especial as moças mais assanhadas, pensou Ginny). – Mas admito também que o trabalho e devoção que tenho recebido de vocês foi o mais especial e o mais gratificante que me lembro de ter visto. Graças à vocês, temos mais poder do que o Ministério jamais teve. Graças à vocês, somos mais e melhor preparados do que os pobres Aurores. Graças à vocês, hoje, não podemos ser derrotados nem capturados com a facilidade de vinte anos atrás – ele discursava tão bem que Ginny quase se sentiu lisonjeada de ser uma Comensal. – Esta festa é para agradecer, e para desejar-lhes os melhores votos. Que nossas vidas sejam repletas de vitórias, e que nossa aliança possa continuar cada vez mais forte e sólida. – E então encheu de vinho a própria taça, e ergueu-a (muito bom, pensou Ginny: assim ele inflava o ego de todos). – Um brinde a vocês, Comensais da Morte.


Foi uma cena interessante, de acordo com Ginny, que viu todas as taças da festa se erguerem em sua direção. Ela ergueu a própria, mas sem brindar, realmente. Sabia que todo aquele discurso não passara de pão e circo, e que Tom não colocaria a mão no fogo por nenhum deles. Mas deixe que acreditem, pensou ela; melhor que acreditassem cegamente em sua própria reputação com o Lord do que uma rebelião - chegaram a um número em que não seria possível controlá-los caso desejassem fazer o que quer que fosse. Ginny quase podia sentir o cheiro do orgulho deles enchendo o salão.


Depois de beber de própria taça, Tom a reergueu um pouco e declarou:


- Aproveitem a noite!


Houve uma profusão de aplausos e vivas. Até assovios. Realmente, aquela era outra geração de Comensais, pensou ela, enquanto batia almas com pouco entusiasmo. Mas aparentemente ele não se importava com essas displicências, como pareceu quando voltou a se sentar.


- Muito bom – disse-lhe ela, baixinho. – Eu quase acreditei.


- Ora, vamos – retrucou ele. – Deixemo-los felizes por mais algum tempo. A maioria ainda é jovem e inexperiente, ainda nem esteve no fogo cruzado. Podem acreditar por algum tempo que ser um Comensal da Morte significa festas e diversão. Não queremos que eles vão embora, não é?


- É.Mas acho que se arrisca demais deixando esse pessoal entrar em Basillisk Hall.


- Não se preocupe. A segurança foi reforçada, lembra?


- Perfeitamente – respondeu ela, nem um pouco convencida.


- Não seja estraga prazeres, sim? – Tom tornou a encher seu taça de vinho. – Por que não vai se divertir?


Ela ergueu as sobrancelhas. A banda começava a tocar e ela teve de falar mais alto.


- Está falando sério?


- Estou. Por que o espanto?


- Bom… pensei que não fosse querer que eu… - baixou a voz - …que eu e outra pessoa… você sabe.


Ele olhou para ela.


- Eu sei?


- Achei que talvez não gostasse de me ver dançando com outra pessoa – disse com o canto da boca, inclinando-se uma pouco para o lado dele.


- Ah, sim… Pois eu não me importo. Estou muito velho para essas coisas – e voltou a atenção para sua taça.


Ginny havia esquecido por um momento que Tom era mais velho do que quatro dela, mas não achou uma desculpa muito boa porque a poção que ele tomava o deixava com formas e disposição de um rapaz de vinte anos. Mas mesmo assim, resolveu dar uma volta pelo salão. Serviu-se de um pouco de champanhe e pediu licença.


Uma olhada rápida ao redor lhe indicou onde deveria ir.


Marcy estava aflitíssima à sua mesa, onde parecia estar brigando com os pais. Ou, o que era mais provável, os pais estavam brigando com ela.


Ginny foi pedindo licença até as proximidades da mesa, e entreouviu a discussão quando chegou perto.


- …não vamos admitir que se comporte assim! Agindo como uma traidora do sangue…


- Uma traidora do sangue! Como se atreve a nos envergonhar dessa maneira? Se seu avô estivesse aqui agora…


- …deve respeito absoluto ao Lord das Trevas! Você não merece a comida que come – dizia a mãe, em voz ríspida.


- Ao inferno com a comida que como! – explodiu Marcy, quase às lágrimas - JÁ DISSE MIL VEZES QUE PERFIRO…!


- Saudações! – disse Ginny em voz alta o suficiente para interromper a discussão. – O Lord envia seus cumprimentos ao Sr. E Sra. Lowitt!


A discussão parou como se Ginny tivesse ministrado um balde de água fria. Os pais de Marcy olharam bravos para ela, como se fossem xingá-la por estar sendo sarcástica, mas então devem ter se lembrado de tê-la visto ao lado de Tom na mesa principal e engoliram as palavras. Levantaram-se em sinal de respeito e reverenciaram-se.


- Prazer em revê-la, Marcy – disse, ignorando os pais da menina. A outra parecia ter engolido um bolo de palha de aço.


- Gin…?


- GW, Marcy. Não vamos estragar o disfarce! Como vão as coisas? – disse, rapidamente, distraindo-os.


Marcy não conseguiu responder nem agir com naturalidade, por isso ela sentou-se, sem pedir licença.


- Marcy me fala muito dos senhores. Como vão os negócios, Sr. Lowitt? Tem vendido muitos caldeirões? – Sua voz foi cordial e simpática, e aparentemente o interesse de GW, braço direito do Lord, nos negócios da família era um bom agrado no ego.


- Vão bem, os negócios – respondeu ele, atrapalhado. – Muitos caldeirões, é…


- Que bom! Espero que continue próspero! – disse ela, animada. – E a senhora, Sra. Howitt? Continua com os quadros maravilhosos que Marcy me contou que pinta?


A mãe de Marcy olhou para a filha rapidamente e já pode ouvir um quê de orgulho na voz da senhora quando esta falou.


- Continuo, sim. Semana passada pintei uns lírios, me disseram que ficaram bons, mas com certeza tenho muito a melhorar.


- Com suas mãos delicadas, acredito que tenham ficado perfeitos – adulou Ginny. – Adoraria vê-los qualquer dia.


- Gentileza sua. - A Sra. Lowitt sorriu, orgulhosa, e olhou para o marido satisfeita.


- Já provaram o champanhe? – perguntou Ginny, olhando ao redor e deparando-se com o alvo mais demorado, cuja fila estava razoavelmente longa. – Está maravilhoso! – acrescentou, balançando a própria taça. – Não nos façam a desfeita de não provar! Eu mesma escolhi.


Murmurando uns “imagine, claro que provaremos”, “agora mesmo” e “muito obrigado”, eles levantaram-se e saíram. Ginny esperou um momento com um sorriso cativante no rosto caso eles se virassem para ter certeza de que ela não fora uma alucinação, como ocorreu, e então voltou-se para Marcy.


- Então… Agora que eu os amaciei não vá perder a oportunidade de deixá-los felizes e te deixarem em paz.


A outra pareceu não ouvir nem uma palavra do que acabara de dizer.


- Ginny?! – exclamou a outra, ao mesmo tempo incerta e chocada. – Ginny?!


- Precisamente – respondeu ela, aceitando o fato de que teria de dar explicações. – Mas não fique tão chocada para não atrair muita atenção.


A outra começou a rir. Mas não era a mesma risada que Ginny se habituara a ouvir vinda de Marcy Lowitt. Essa risada era a mais fria e a mais sem-emoção que ela já ouvira.


- Ginny Weasley, a pequena traidora do sangue que abomina as artes das trevas, e GW, o misterioso Comensal que assina os ataques mais ousados, são a mesma pessoa! Meu Deus, estou cercada de hipócritas!…


Ginny não negou para si mesma que não era uma reação que estivesse esperando.


- Talvez eu seja hipócrita – respondeu, séria - mas acho que faço mais estando viva.


- Faz, sim. Acaba com a vida de pessoas inocentes, é isso o que você faz.


OK. O comentário doeu. Mas Marcy devia entender como as coisas funcionavam.


- Você pensa muito a curto prazo. Não vê que existem coisas que não se pode agir sem calcular?


- O que é que está querendo dizer? – perguntou Marcy, descrente no rumo da conversa.


- O que estou querendo dizer é que não há como deter o inimigo sem induzi-lo – disse Ginny, inclinando-se para Marcy e olhando diretamente para a mesa principal. Tom tinha os olhos fixos nela, mas nem toda a legilimancia do mundo conseguiria ver o que ela estava pensando ou dizendo com aquele tanto de gente no mesmo ambiente. Sorriu para ele, que não retribuiu, mas começou a conversar com Malfoy. Apesar disso, não parava de olhá-la de tempos em tempos.


- Eu não posso acreditar nisso – disse Marcy, enojada, em voz baixa. – Você está com ele? De todas as pessoas que conheci aqui, você é a última que eu esperaria… você é nojenta.


Ginny sentiu o próprio sorriso amarelar.


- O que?


- O jeito como olha para ele! Fale a verdade, Ginny! É por isso que você chegou ao grupo Cinco tão rápido, não é? Você estava dormindo com aquele nojento! – sibilou Marcy, com toda a certeza do mundo.


Ginny deixou escorregar o cotovelo, aparvalhada, acertando uma garrafa de cerveja amanteigada que bambeou um pouco. De todas as pessoas que podiam descobrir de cara o que estava acontecendo, Marcy não era uma que Ginny esperava que o fizesse. Devia ter sorrido realmente de modo bem idiota para que isso tivesse acontecido.


- Você não sabe do que está falando – respondeu Ginny, controlando-se, enquanto aparava a garrafa para impedir que caísse.


- Você nega, então?


- Não, não nego. E digo mais: minha opinião é muito valiosa em todas as decisões que ele toma. Tenho mais poder para acabar com a guerra do que teria se, dois anos atrás, eu tivesse abaixado minha cabeça e feito nada mais do que reclamar! – respondeu ela, severamente. – Às vezes é necessário fazer sacrifícios para chegar a um objetivo maior. Não me orgulho das vidas tiradas por minha causa, mas me orgulho, e muito, de ter diminuído pela metade as mortes em vão. Me orgulho de proteger minha família, e me orgulho de desviar a atenção de Harry Potter, que é o único que pode acabar com isso. Tudo isso foi planejado, e espero que você não estrague – terminou, na voz mais séria que conseguiu encontrar.


Marcy encarava-a, boquiaberta.


- E gostaria que fizesse o mesmo – complementou Ginny. A outra teve um acesso de tosse. – Não seja boba! Estou dizendo que se seus pais acharem que está do lado deles, te ouvirão mais, é isso que eu quero dizer! E aproveite que tem um contato no grupo Cinco para qualquer coisa que precisar. Nunca me esqueci de que fomos amigas, Marcy, e não mudei, não importa o que pense.


A amiga ainda parecia desconfiada, embora de expressão bem mais amena.


- Acredite em mim - pediu Ginny.


- Com licença – disse alguém, cutucando-lhe o ombro.


Ginny virou-se e deparou-se com um rapaz mascarado, que ela não se lembrava de conhecer.


- Gostaria de dançar comigo? – propôs o moço, com uma reverência.


- Ah… - Ginny olhou rapidamente para a mesa principal e viu que Tom continuava atento a ela. Ele não fez nada além de olhar, então Ginny respondeu: - Adoraria. Foi bom falar com você, Marcy, mas vou me divertir um pouco, com licença…


Ginny bebeu o que restava de sua bebida com um gole e deixou a taça sobre a mesa.


A banda estava boa, considerando que era formada por um grupo de jovens do grupo Nove. Ela dançou duas músicas com o rapaz, que se chamava Ralph e pertencia ao grupo Três. Ele ficou um pouco ofendido por ela ter se recusado a dizer seu nome, mas foi só ela sugerir que talvez o Lord das Trevas a permitisse dizer seu nome se ele pedisse, Ralph ficou quieto. Ao fim da segunda música ele agradeceu a dança e despediu-se. Sendo assim, ela voltou para a mesa.


Havia menos pessoas ali agora; os mais jovens haviam ido dançar. Os Malfoy também não estavam ali, embora ela não os tivesse visto na pista de dança. Tom olhou para ela quando ela sentou-se.


- Olha, comida quente! Que beleza – disse ela, servindo-se de algumas tortinhas. – Hum, minhas preferidas!


- Se divertindo? – perguntou ele, interessado.


- Até que sim – respondeu Ginny, olhando ao redor. A garrafa de champanhe estava vazia. Só havia vinho na mesa principal, e até aquele momento ela não tinha provado nenhum que a agradasse. Pegou uma garrafa e olhou-a, desconfiada. – Isso é bom?


- Costuma ser – respondeu ele, tranquilamente.


- Hum. Deixa eu ver – ela olhou para os lados, reparando se alguém estava olhando. Depois de ter certeza, pegou a taça de Tom e bebericou um golinho.


- Abusada – reclamou ele, com expressão estranha, enquanto ela fazia cara feia.


- Argh!


- Você podia, por favor, agir com naturalidade? – pediu ele, simulando uma conversa amigável.


- Desculpe, mas agora eu já sei que é ruim.


- Não é ruim, você é que é fraca.


Ela riu.


- Sou mesmo.


- Como foi a dança?


- Boa. Preferia que fosse com você – disse, fingindo tristeza.


- Que pena – respondeu ele, no mesmo tom. – Quem era aquela que você tanto conversava na mesa do canto?


- Marcy Lowitt, conhecida de quando passei pelo grupo Dois. Ela é boa, que eu saiba não tem suspeitas lá fora. Podia dar-lhe uma promoção, acho que ficaria bem de informante.


- Pensarei no assunto – respondeu ele, desinteressado.


Ela olhou-o por um tempo.


- Você não parece estar se divertindo muito – disse, demonstrando preocupação. – Como é que quer que os Comensais se sintam animados se você fica aí, entediado?


- Perdão. Que quer que eu faça? – perguntou ele, um pouco impaciente. – Te tire para dançar um tango?


- Eu me comportei bem esse ano – respondeu ela, brincando, como se fosse isso mesmo que ela esperava que ele fizesse.


Houve uma movimentação incomum na porta do salão. Alguns guardas (ela sabia que eram guardas porque os que haviam sido escalados para fazer a segurança continuavam com o uniforme convencional preto simples, dos grupos inferiores, e seus chefes com uma faixa cinza na cintura, dos intermediários menores, e suas máscaras pretas. Os Algozes também haviam sido convocados para assegurar a ordem naquela noite) entraram no ambiente e trocaram algumas palavras com seus superiores, que faziam a segurança do salão. Tom também reparou na atividade, mas os guardas simplesmente trocaram algumas informações e saíram. Os chefes voltaram a observar os convidados, atentos.


- Então você acha que merece uma noite romântica porque se comportou o ano todo? – perguntou ele, indicando que a conversa podia continuar.


- Eu acho – respondeu Ginny. – Pelo menos uma dancinha?


- Ah, eu não acho uma boa idéia. Se eu dançar com você, terei que dançar com todas as outras – disse ele, com ar modesto.


- Ah, mas tirando as que têm medo de você e as que você não iria querer dançar, resta pouca opção – riu-se ela.


- Você tem razão. Mas mesmo assim, eu teria que dançar com algumas.


- Eu diria que só comigo já é o suficiente, sem querer me gabar…


Um outro guarda entrou no salão, disse algo para um dos supervisores e aguardou. O supervisor procurou com os olhos até encontrá-los, e veio em sua direção. Ginny sentia um mal pressentimento: será que algo estava acontecendo?


O homem mascarado trajando vestes negras e uma faixa cinza aproximou-se, dando a volta na mesa até parar ao lado de Tom. Fez uma reverência e disse:


- Milord, já está tudo pronto.


Tom abriu um sorriso perverso ao ouvir aquilo.


- Ótimo. Dê prosseguimento - respondeu ele, enigmaticamente, deixando Ginny aturdida. O guarda assentiu com a cabeça e voltou para a porta.


Ela virou-se para o amante.


- Er… O que é que está pronto? - perguntou ela, desconfiada.


Ele alargou o sorriso assustador, mas não olhou para ela. Tornou a encher a taça de vinho.


- Você vai ver.


Algo na voz dele fez a garota sentir-se preocupada.


- O que é que você fez? - inquietou-se ela, em voz baixa, nervosa.


Mas ele não respondeu, apenas deu um longo gole de seu vinho, e quando baixou a taça, seus olhos estavam fixos na entrada, o sorriso mau ainda entortando os cantos de seus lábios. A banda terminou uma música e Tom fez sinal para que os integrantes parassem de tocar.


Ginny seguiu seu olhar e sentiu a barriga gelar.


Três pessoas, dois rapazes e uma moça, estavam sendo conduzidos para o meio do salão, amordaçados, de olhos vendados e mãos presas às costas. As pessoas abriam espaço e observavam com curiosidade os recém-chegados. Alguns instantes depois, os três estavam na sua frente, ladeados por dois guardas satisfeitos, e Ginny constatou, com pavor, ao olhar suas roupas, que eram realmente trouxas.


O salão todo parecia esperar por algo, ansioso, enquanto aguardavam em silêncio, os olhos fixos nos três novatos. Ginny não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que nada de bom poderia sair dali.


- Soltem-nos - ordenou Tom, para os guardas.


Eles obedeceram na mesma hora, e com acenos de varinha, as vendas deles e da mulher desapareceram, embora apenas os homens tenham sido libertados das algemas e das mordaças e a mulher continuasse amordaçada e mais afastada. Os três olharam assustadíssimos ao redor, aparentemente se imaginando por que estavam em uma festa cheia de gente vestida de modo estranho, grande parte delas usando máscaras. Os dois homens eram musculosos, mas pareciam débeis e acuados.


- Sejam bem vindos a Basilisk Hall, amigos - disse Tom, de repente, ao seu lado, fazendo-a sobressaltar. Os trouxas também olharam-no assustados. O sorriso dele ainda era arrepiante mesmo para ela. - É um imenso prazer tê-los em nossa confraternização. Quero pedir para que fiquem à vontade.


Mas eles não pareceram propensos a ficar à vontade, obviamente. Acuados, seria muito estranho se ficassem.


- Por que tão acanhados? - perguntou Tom, numa voz calorosa que não se aproximava do olhar sanguinário que lhes lançava. - Três dias sem comida deve ter sido difícil; tenho certeza de que estão com fome, então não percam a oportunidade. Garanto que a comida está ótima.


O clima no salão era ansioso. Alguns Comensais observavam a cena, absortos, com leves sorrisos nos rostos. Ginny estava arrepiada. Aquelas pessoas estavam ali, bem na sua frente, e ela tinha sérias dúvidas sobre eles terem sido convidados para a festa cordialmente.


Os dois trouxas se entreolharam, receosos. Sua expressão era angustiada, como se realmente tendessem a aceitar o convite, mas tivessem medo demais para isso. A mulher às suas costas observava os companheiros com uma expressão de pavor.


- Que desfeita - falou Tom, depois de alguns segundos, fingindo decepção. Ele não precisava falar em voz mais alta do que o normal, pois todos estavam prestando total atenção. - Aposto que gostariam de uma maçã. Você - disse ele, olhando para um deles, especificamente. O trouxa da esquerda arregalou os olhos. - Não passe vontade, aceite.


Com um movimento da varinha, ele fez com que uma maçã vermelha e lustrosa entre as frutas no centro da mesa pairasse na frente do homem. Este olhou a comida flutuante com uma expressão de choque e, com um gemido, afastou-se alguns passos.


Os observadores mais próximos riram baixinho. Um sorriso cruel e discreto surgiu no rosto de Tom.


- Desculpe! Te assustei. Não foi minha intenção. Aceite minhas desculpas e aceite, por favor. - Mas o homem não se mexeu, ainda encarando a fruta horrorizado. - Imperio.


Ginny prendeu a respiração. O homem relaxou, seu olhar ficou muito vazio, de repente, e ele refez o caminho que regredira, para espanto dos outros dois trouxas. Ele então ergueu a mão para a maçã, e Ginny percebeu com o canto dos olhos que Tom fizera um movimento mínimo com a varinha.


No instante em que ele pegou a maçã e levou em direção a boca, Ginny já percebera que havia algo errado. Então ele ficou um momento parado, como se estivesse beijando a fruta, e então seus olhos tornaram a ficar vívidos. Com um gemido de surpresa, este soltou a comida intacta e levou a mão à boca - ou onde ela deveria estar.


- Parece que você tem um sério problema, amigo - disse Tom, calmamente, como se estivesse comentando uma gripe. O trouxa estava desesperado; Ginny observou, horrorizada, ele virando-se para o outro com um olhar de súplica. O parceiro o fitou com olhos arregalados de medo.


Talvez tenha sido nessa hora que o outro percebeu que estavam tratando com algo além de sua compreensão. Ginny viu-o procurar com os olhos algo com que pudesse bater. Ela teve certeza de que Tom também percebera, apesar de não ter se virado para olhá-lo.


Apesar de ter hesitado, o trouxa intacto aproximou-se rapidamente da mesa e se afastou com a mesma rapidez, e ela viu que ele segurava uma garrafa de vinho. Por acaso era o preferido de Tom. Aquilo não ia dar certo.


Este fez menção de quebrar a garrafa na cadeira mais próxima, mas a garrafa ficou parada no ar assim que ele fez o movimento, escapando de sua mão fechada.


- Amigo, como ousa? - disse Tom, sarcasticamente, numa voz decepcionada, enquanto os presentes riam. - Eu o convido para comer de minha comida e você tenta desperdiçar meu vinho? Parece que você perdeu algumas aulas de boas maneiras…


O homem falou pela primeira vez. Disse um palavrão que ecoou pelo salão silencioso. Tom se calou. Alguns Comensais prenderam a respiração, Ginny um deles. Um dos guardas se mexeu incomodado, e fez menção de avançar para o trouxa; Tom, porém, fez-lhe um sinal com a cabeça, e este parou a meio caminho.


O trouxa agora olhava fixamente para a varinha de Tom. Ginny desejou que ele não tentasse, se fosse o que estava pensando.


Mas ela se enganou. O trouxa, que parecia maior, mais forte e mais velho do que o outro, de repente fez um movimento para trás, e depois de deferir alguns golpes, tomou a varinha do guarda. O bruxo rastejou para longe e fitou o trouxa, pasmo, enquanto acomodava o pulso sob a outra mão, que parecia machucado. Os outros guardas avançaram, mas o trouxa lhes apontou a varinha roubada, e eles pararam, indecisos. Trouxas com varinhas podiam fazer magia?


E então, Tom riu. Isso fez os pêlos de Ginny terminarem de arrepiar.


- Que vergonha, Hudson. Perdendo a varinha para um trouxa… - debochou Tom, dirigindo-se ao guarda atacado, mas não parecia uma acusação. A maioria dos Comensais do grupo Cinco riram. Ginny desviou os olhos, e viu Jack ao seu lado. Ele também não estava sorrindo. - Você, trouxa: devolva a varinha educadamente. Não vou avisar duas vezes.


O trouxa mais velho o ignorou. Colocou uma mão no ombro do outro, ainda em estado de choque, e parecia confiante de que podiam fugir. Ginny sentiu-se um pouco nauseada.


Ela percebeu que Tom se encostara no espaldar da cadeira. Isso não era um bom sinal.


- Você está se sentindo muito corajoso porque bateu em um bruxo e roubou sua varinha - constatou ele, em voz calma. - E acha que pode lutar contra todos nós… Você é o trouxa mais idiota que já conheci, e olhe que já conheci vários. - Risos. - E não se iluda, eu já costumava aterrorizar imbecis como você quando tinha dois anos. - Muitos risos.


Tom tornou a inclinar-se para a mesa, e Ginny olhou-o. Sua expressão ainda era calma, embora houvesse um ar ofensivo em seus olhos, que fitavam fixamente os trouxas. Poderia ser impressão dela, mas havia um reflexo avermelhado nos olhos dele.


- Espero que tenha sido engraçado para vocês terem insultado meus homens há três dias. Espero que tenham se divertido em hostilizar as pessoas por não serem como vocês até então. E eu não preciso acrescentar que deviam tomar mais cuidado com quem mexem na rua; os alvos podem ser menos indefesos do que pensam - advertiu ele, seriamente. O trouxa com a varinha parecia ouvir apenas com meia atenção. Ela receava que ele não estava sendo muito cauteloso. - Bellatrix, você gostaria de ajudá-lo a prestar mais atenção ao que eu digo? - adicionou Tom ao final da frase, tão casual que quem se distraísse não perceberia a sutil mudança de assunto.


- Com prazer, mestre - respondeu uma voz aguda e ansiosa, a noroeste de Ginny. A garota viu-a aparecer entre os guardas, a varinha em punho. Em seguida o trouxa estava no chão, gritando de dor.


Ginny desviou os olhos, mas não conseguiu impedir os gritos de atingirem seus tímpanos. Ela encontrou Jack olhando-a de modo sério. Ela devolveu o olhar, sentindo uma dificuldade imensa em manter o rosto impassível. Talvez se fosse apenas o grupo Cinco, poderia fazer algo, mas ali, na frente de todos, seria burrice tentar controlar o amante.


Então os gritos pararam. Ginny olhou e viu uma cena diferente da última que olhara. Ao que parecia, o trouxa sem boca, que provavelmente era irmão do primeiro, reagira ao ataque e tentara acertar Bellatrix. Este agora estava apertado por cordas, no chão, enquanto Tom apontava-lhe a varinha.


- Vocês não aprendem nada, mesmo. Sua burrice me espanta - disse Tom, em voz baixa. - Mas como eu estava dizendo… Devem tomar cuidado com o que fazem por aí, pode causar conseqüências desagradáveis. Por exemplo, alguma das pessoas que vocês ofenderam pode ter ido conhecer sua família… À propósito, sua irmã é adorável! Mal posso acreditar que sejam mesmo parentes.


Agora Ginny entendia tudo. A moça amarrada às costas dos dois rapazes tinha o rosto vermelho de força que fazia para tentar se soltar, e seu rosto estava molhado em assistir os dois irmãos sendo feitos de idiotas. A ruiva não podia acreditar no grau de perversidade em que Tom chegara.


E ela sabia o que ia acontecer com eles. Com todos eles.


Sentiu a pressão cair gradualmente. Os próprios dedos estavam gelados dentro das luvas. Sua vontade era de gritar para que Tom parasse agora com isso, mas estava travada de choque. Além do mais, não podia fazer nada com todas aquelas pessoas olhando, e isso lhe era angustiante. Teria que assistir àquele espetáculo mórbido até o fim, ou até que tivesse alguma boa idéia, e não estava tendo nenhuma no momento.


- Agora, trouxa, você vai devolver essa varinha agora, com desculpas, ou pode escolher quem vai morrer primeiro: seu irmão ou sua irmã.


Ginny estava rezando para que o homem levasse a sério, mas não era o que ele estava fazendo.


- Vocês vão para o inferno, suas aberrações! - exclamou o trouxa mais velho, os olhos correndo rapidamente por todos na mesa e para os guardas que o cercavam.


- Então nos encontramos lá - respondeu Tom, sem dúvidas numa voz divertida. Então ele desviou a direção de sua varinha e apontou para a mulher trouxa. Ginny apertou o tecido do vestido quando viu chamas verdes surgirem aos pés da inocente, que arregalou os olhos de pânico, presa sem poder se mover.


- MARIA! - gritou o sujeito, vendo sua irmã pegar fogo. O fogo foi devorando sua roupa, que foi grudando no corpo, e queimou a mordaça, de modo que todos nos salão ouviram o grito torturado da mulher incendiando-se. Ginny sentiu o estomago se apertando até ficar do tamanho de uma noz enquanto tornava a desviar os olhos.


Sentia falta de ar.


O trouxa livre tentou apagar a irmã, sem sucesso. Depois de um tempo os gritos pararam, mas ele continuou a tentar apagar o fogo, por mais que agora fosse sob uma pilha carbonizada no chão e um cheiro nauseante de carne queimada chegasse ao seu nariz. Ela olhou para Tom, perplexa, e viu-o observando a cena com um tipo de satisfação doentia. Então ele tornou a levantar a varinha.


A vontade de Ginny era de pegar sua própria varinha no bolso e desarmá-lo, mas seus músculos estavam travados de terror.


Então o outro, amarrado no chão, começou a se debater, e a princípio ela não entendeu o motivo. Num movimento de convulsão, porém, ela viu que além da boca, ele agora não tinha também o nariz. Estava sufocando. Demorou um tempo para o outro trouxa perceber e abandonar a pilha de ossos e carvão do que fora a irmã e tentar fazer algo pelo irmão mais novo. Mas o que se podia fazer com alguém repentinamente sem boca e nariz?


Ginny achou extremamente hediondo assistir o homem tentar salvar o irmão e vê-lo morrer em seus braços. Ela não sabia o que o aguardava, mas achava que já havia sido castigado o suficiente.


O amante não achava o mesmo, porque, dez segundos depois, num silêncio cortado apenas pelos soluçou do trouxa mais velho, sua voz soou alta e clara:


- Comensais, divirtam-se.


OK, para ela era o suficiente. Assim que a maioria dos interessados fez uma roda em volta da vítima, Ginny virou-se para Tom, segurando-se para não se descontrolar.


- Eu não estou passando bem. Vou sair - disse, ouvindo a própria voz sair cortante. - Isso não é um pedido.


O Lord apenas olhou-a. Ginny sabia o que ele estava fazendo. Se ele estava vendo o verdadeiro motivo por trás de sua indisposição, ele também veria o quão furiosa e enojada ela estava com relação a ele. Que visse. E que tentasse tocá-la de novo.


Ginny não esperou resposta. Assim que o primeiro grito de dor chegou aos seus ouvidos, ela levantou-se e saiu pela margem do salão.


Queria ir para o quarto. Sua vontade era a de encher a banheira e se afogar - talvez assim esquecesse o que acabara de presenciar.


Mas se fizesse isso, Tom ficaria impune. Como se ele fosse chorar por sua morte! Não, talvez devesse arrumar suas coisas e desaparecer. Isso sim o deixaria possesso. Podia inclusive mandar uma porção de documentos incriminadores para o Ministério antes de ir. Talvez fosse um bom castigo.


Céus, como se deixara envolver com um homem desses? Tudo por causa de um beijo e modos que lhe tirava o fôlego. Ela vinha fechando os olhos para o que ele fazia além das paredes de seu quarto desde então, e agora isso a incomodava. Quanta pessoas ele matava toda semana em brincadeiras como essa? E deixara-o fazer um filho nela?! Onde estava com a cabeça?


- Você está bem? - disse uma voz às suas costas, sobressaltando-a. Estava aparada na parede do corredor, sem ter se dado conta de que parara de andar. Jack estava ao seu lado.


Ela sentiu a respiração sair trêmula de seus dentes trancados.


- Mas que merda, Jack. Por que ele foi fazer isso? - desabafou, num sussurro. O amigo olhava-a com preocupação, e colocou uma mão no seu ombro.


- Ele sempre faz isso. Você não vê porque não sai em missão, mas achei que soubesse - colocou Jack, cauteloso. - Isso a incomoda?


- Saber é uma coisa, ver é outra… - respondeu ela, ouvindo a própria voz sair mais aguda do que o normal. - Ah, Jack! Eu sou uma idiota!


O amigo ainda a olhava com um ar preocupado e ligeiramente compassivo.


- Ginny… vem cá.


Ele pegou sua mão e levou-a até uma das salas de estoque da Ala Norte. Antes de fechar a porta, iluminou a sala e observou-a atentamente. Então trancou-os e fez sinal para que ela se sentasse num caixote de madeira.


- Você tem um sério problema de contradição. Você é boa, verdadeiramente boa, e dorme com o maior bruxo das trevas que já existiu. Isso é complicado até pra minha cabeça, e olha que sou liberal. Mas seja lá o que você pretende com isso, parece que está chegando ao seu limite - avaliou Jack Dean, em pé, olhando-a gentilmente. - Quero que pense na proposta que te fiz aquele dia. Talvez eu seja sua única chance de desaparecer do mapa.


Ginny sentia os olhos se enchendo d’água. Jack era um bom amigo e ela era realmente grata, mas… Por que era tão difícil?


- Você fala como se ele não fosse descobrir que você estaria por trás disso - argumentou Ginny, em tom definitivo.


O amigo balançou a cabeça.


- Eu não ficaria aqui esperando ele ter o estalo, sua menina ingênua. - Então ele sorriu. - Eu não ficaria triste em ir embora.


Ela apertou a ponte do nariz com os dedos. Jack tinha boa intenção, mas não entendia no que implicava seu plano de fuga. Havia mais com o que se preocupar do que apenas com eles.


- Jack… Eu estou grávida - anunciou, num impulso.


O amigo até agora estava demonstrando auto-controle, mas ele não foi capaz de manter a boca fechada com a notícia.


- Ah… Ginny! Você está esperando um monstrinho! - horrorizou-se o outro, boquiaberto. O tom de voz dele era um pouco enojado.


Ela confirmou com a cabeça, desnorteada demais para rir com a expressão empregada para referir-se ao seu filho.


- Meu Deus, isso é sério! Ele sabe disso? - quis saber o outro, aturdido.


- Não. Não sabe. Não sei como dar a notícia - suspirou ela, ainda torturada.


- Bom, isso é menos mal. Ele não precisa ficar sabendo, se eu te fizer desaparecer antes.


Ginny não respondeu. Desaparecer, fugir de Tom, era um pensamento tentador, mas mesmo assim…


- Minha família - disse ela, pensando alto.


- Ginny, ele não é sua família. Vocês nem mesmo contam para as pessoas que estão se…


- Não, Jack. Minha família. Os Weasley. Não posso fugir assim. Ele vai matá-los.


Jack entendeu o drama.


- Bem… Isso dificulta as coisas. Mas eu posso tentar incluí-los na nossa fuga. Talvez se…


- Nunca aceitariam. Muito orgulhosos - cortou ela. Então as lembranças desagradáveis invadiram sua mente e ela escondeu o rosto nas mãos. - Ah…! Por que ele fez isso hoje? Eu só queria saber por quê!


Jack suspirou.


- Ginny, não me leve a mal, você é inteligente… Mas às vezes parece uma criança de dois anos. Você, como eu, cresceu tendo medo de ouvir o nome do cara que está no salão; não pôde achar, realmente, que viver com ele seria sempre doce, pôde?


Ela sentiu as lágrimas queimarem a bochecha.


- Talvez eu tenha achado - respondeu, a voz embargada. - Pela segunda vez… E estou me decepcionando, de novo…


Ela não olhou para Jack. Sabia que ele devia estar achando-a uma tola, e seu orgulho não queria ouvir o “eu não disse?”. Tirou a máscara e olhou para o teto. Seus olhos doíam.


Os gritos haviam parado há poucos minutos. A música recomeçara no salão. Que tipo de festa era aquela: comida, morte e música? Realmente, calculara mal suas expectativas para aquela noite.


Havia passos no corredor, agora. Ouviu barulho de portas, e então vozes soaram alto, como se estivessem no mesmo cômodo. Ela procurou sua fonte, e viu que havia uma passagem de ar no canto superior da parede. Pelo tanto de vozes femininas que ouviu, só podiam estar ao lado do banheiro.


- Você viu, Henrietta? – disse uma voz que adentrava o cômodo vizinho. – Você viu o que acabou de acontecer no salão?


- Não, estava com John no quarto, acabei de sair. Ouvi uns gritos…


- Então! Houve um pequeno espetáculo com trouxas no salão.


- Ah, é mesmo? Não acredito que perdi!


- Ai, menina! Adorei. Trouxas sofrendo…! Ah, aquele Lord das Trevas… Me dá até calor pensar nele.


- Suze! - riu Henrietta, em falsa desaprovação. - Se alguém te ouve falando essas coisas…


- E o que é que tem? Ele é solteiro e desimpedido, e depois da poção nem você pode negar que ele ficou… uau.


- Não, não vou negar. Mas acho que é muito ingrediente pro seu caldeirão - debochou Henrietta, sua voz ecoando nas paredes de pedra. - E a propósito, ele veio acompanhado, como deve ter reparado. Parece ser uma moça muito bonita.


- Deve ser um sapo por trás da máscara! Se não fosse, vinha sem.


Ginny sentiu o próprio rosto esquentar. Não era consciência pesada nem vergonha, para sua surpresa. Era fúria. Sentiu trincar os dentes.


- Ah, que desagradável ouvir conversa de mulher - comentou Jack casualmente, em voz baixa, para quebrar o gelo.


- Não deve querer ser reconhecida - continuou a conversa no banheiro. - O que é muito inteligente, assim não é atentada por invejosas como você!


As mulheres riram. Uma terceira voz entrou na conversa, mais rouca e lenta.


- Suze, o que você acha? Que até o final da festa ele vai se interessar em alguma diversão com as garotas? Ouvi dizer que o quarto dele é imenso…


- Eu ia, fácil! Garanto que ele não se arrependeria! Ah, se eu coloco as mãos num homem desses…


Ginny levantou-se.


- Piranhas - sibilou, entre os dentes. Não estava mais chorando.


Jack olhava-a com uma cara curiosa.


- Você está com ciúmes? - perguntou ele, num sussurro.


Ginny sabia que as próprias narinas estavam infladas de ódio.


- Se quiser chamar assim… Talvez eu não seja tão boa quanto você pensa: sinto vontade de matar algumas vacas neste momento - esfuziou-se, azeda.


Jack deu um suspiro baixo enquanto encarava-a.


- Você gosta dele. É isso o que a impede de fugir.


Não era uma pergunta.


Ginny não respondeu. Não, não gostava dele. Ainda menos depois de hoje.


Mas se ele tinha o direito de tê-la exclusivamente, ela também tinha.


Ela recolocou a máscara e deu passou largos até a porta, puxou a varinha da lateral da saia do vestido e bateu na porta, fazendo-a escancarar-se. Ouviu Jack nos seus calcanhares.


Ela fez uma curva e chutou a porta do banheiro antes de entrar. Jack ficou para fora, dividido, e ela sabia que ele devia estar preocupado que ela fizesse alguma besteira.


A conversa parou abruptamente quando ela cruzou o banheiro de pedra, indo parar na frente do espelho. Duas Comensais – uma arrumava a meia fina, com o vestido levantado acima dos joelhos, e a outra estava encostada à porta de um dos boxes, apenas conversando - se entreolharam, viu ela pelo espelho. A outra estava ao lado do outro espelho, e não se mexeu. Ela conjurou seu batom com a varinha e passou a retocá-lo, indiferente. Terminou, mas não se virou. Fê-lo desaparecer e ficou se observando no espelho. Conjurou o rimel.


- Me perdoem, meninas, mas não pude deixar de ouvir a conversa do lado de fora - disse ela, cordialmente, embora uma frieza enregelante pudesse ser percebida nas palavras sarcásticas, enquanto desrosqueava a maquiagem calmamente.  - Eu sinto muito em saber que você pensa isso de mim, Suze, especialmente porque não nos conhecemos.


A bruxa com o vestido erguido ficou roxa de constrangimento.


- Henrietta, também acho que devo esclarecer que não me sinto intimidada por nenhuma tiete fracassada que se sinta ofendida porque o Lord das Trevas escolheu me convidar para vir com ele entre várias opções, inclusive algumas muito mais bem aparentadas do que eu. Mas posso assegurar, com certeza, que nenhuma nesse banheiro sequer passou pelos pensamentos dele enquanto ele decidia sobre essa questão.


A mulher encostada no box também corou violentamente, e Ginny viu uma veia em seu pescoço saltar.


- Desculpe, eu não sei seu nome - disse Ginny, suavemente, olhando para a última pelo espelho, que olhava-a um pouco boquiaberta. - Mas posso te garantir que o Lord não tem fantasias sexuais com subordinadas de tão baixo escalão. Ele acha que uma conversa satisfatória é um item importante da sedução, e receio que vocês não teriam nada de interessante para manter um assunto à altura de seus interesses, logo… Sinto muito, vocês não teriam chance alguma. Além do mais… - ela tornou a fixar os olhos em Suze, a Comensal assanhada, e fechou o frasco de rímel, observando o efeito no espelho - você sairia chorando em menos quinze minutos. E, ah, sim…! Concordo sobre o que colocou sobre a poção, realmente o deixou muito bonito. É lamentável, entretanto, que você só possa afirmar isso em relação ao pescoço pra cima. Ah, você não faz idéia do resto… Pensar nisso me dá até calor.


Ela fez o fresco desaparecer, e virou-se.


- Me perdoem a franqueza, mas, acreditem ou não, é para evitar seu maior constrangimento. E se precisarem de algo, é só me procurar. Os guardas saberão informar onde fica a Sala de Planejamentos ou a minha sala: é só perguntar por GW, Comandante Estrategista. Divirtam-se, garotas. Com licença.


Ela saiu do banheiro, imponente, em meio ao silêncio pesado. Jack estava na porta.


Eles andaram alguns metros. Então Jack fez cara de riso, de quem ouvira tudo, e ela devolveu um sorriso malandro. Mais alguns metros, e eles deixaram escapar um riso pelo nariz.


- Mulher é um bicho muito perigoso - comentou Jack, gozador. - Ainda bem que eu não tenho nenhuma.


- Porque não quer - devolveu Ginny, rindo.


É, tinha hora para tudo, e aquela não era hora de chorar escondida.


 


 


Ginny entrou com atitude no salão. Ainda era uma e meia da manhã, aquela noite era uma coisa única e especial, e nada nem ninguém iria estragá-la. Ela não olhou mais em direção à mesa principal, e nem tinha a intenção de fazê-lo.


Os presentes não se abalaram com o espetáculo de minutos atrás e a pista de dança já estava limpa e cheia novamente. Ela reuniu-se a eles e dançou, mesmo sozinha de início, parando apenas para descansar os pés e se abastecer de cerveja amanteigada, que passaram a servir junto com a comida. Depois da primeira música ela já tinha par, e depois deste já havia outro.


Jack a tirou para dançar, sem compromissos, uma hora dessas. Ginny sabia que a queda que ele tinha por ela não existia mais, e era admirável que sua amizade saísse intacta dos esclarecimentos. Ele não parecia triste, pelo contrário: ela já vira-o em uma mesa com uma moça da idade dele, e pareciam mutuamente interessados um no outro.


Ele perguntou-lhe confidencialmente se não morreria por tê-la tirado para dançar e Ginny apenas riu e deu de ombros. Perguntou sobre sua parceira e ele falou um pouco sobre a moça, inclusive que não tinha ciúmes de Ginny. Riram. Depois dessa dança ele voltou a cortejar sua pretendente e Ginny voltou a ser assediada por rapazes interessados a tirá-la para dançar.


Estava se divertindo. Sempre que uma pontada de ressentimento por Tom aparecia, ela forçava-se a pensar em outra coisa ou conversar com alguém. Os rapazes que a tiraram para dançar eram realmente divertidos e educados, então ela não teve problemas. Depois de dançar sua sétima música, seus pés a matavam e ela preferiu se sentar um pouco.


Era cinco para as quatro da manhã quando encontrou uma mesa vazia próxima ao palco e foi um alivio tirar o peso dos pés. Sentia um pouco de calor, então aceitou vinho quando foi oferecido, por mais que não gostasse. Bebericou, de má vontade, mas descobriu que o gosto melhorava depois dos primeiros goles. Mas a bebida não aliviou seu calor e até agiu um pouco ao contrário, além de deixá-la meio embriagada.


Alguém sentou-se ao seu lado.


- Então, nos encontramos novamente – disse uma voz que ela reconheceu, jovem e arrastada.


- Olá, Draco. Não me lembro de ter te visto ainda – disse ela, sem olhá-lo diretamente.


- Acabei de chegar, não consegui vir antes – respondeu ele. – Não costumo elogiar as pessoas, mas você está linda hoje.


- Gentileza sua – respondeu Ginny, automaticamente. Olhou-o. – Você também está bem arrumado hoje: até fez a barba…


Ele sorriu e fez um gesto de pouco-caso.


- Você tem ignorado minhas cartas - comentou ele, numa voz um pouco magoada.


- Me desculpe por isso, mas tivemos muita coisa para fazer esse mês - respondeu Ginny, ocultando o verdadeiro motivo de tê-lo ignorado por todos aqueles dias.


- Não sei se é uma boa desculpa. Talvez eu te perdoasse se dançasse comigo a próxima música, Weasley.


- Mesmo eu sendo uma traidora do sangue? – brincou ela, pousando a taça sobre a mesa. Sentia-se meio lenta; talvez o vinho tivesse feito efeito rápido demais…


- Mesmo assim – respondeu ele, em tom galanteador.


Ela suspirou.


- Só porque eu sou democrática – disse, como quem faz de conta que é um sacrifício.


Ele levantou-se e estendeu a mão, parecendo feliz que ela tivesse aceitado.


- Que sorte a minha – disse ele, sorrindo. – Vou dançar com a garota mais disputada da festa.


- Até parece – resmungou ela, baixinho.


- Você disse alguma coisa? – perguntou ele em voz alta, para abafar o som alto, à medida que se aproximavam da pista de dança. Ela negou com a cabeça.


Draco até dançava bem, pensou ela, quando começaram. Pelo menos a música era agitada e não precisavam se tocar com freqüência, o que era bom, porque ela não queria dar muita bola para ele. Depois de ser obrigada a ouvir Tom reclamando de Draco Malfoy por tantas vezes, achava que por fim não estava indo muito com a cara dele.


Ao fim da música, eles aplaudiram a banda, Ginny já exausta.


- Você vai fazer alguma coisa depois do baile? – perguntou ele, interessado, enquanto os músicos trocavam de instrumento.


- Não sei – respondeu ela, com sinceridade, mas já não gostando do rumo da conversa. Desviou os olhos intencionalmente.


- Tem um lugar que eu adoraria te mostrar, claro, se você quiser…


- Ah… Desculpa, Draco. Eu tenho que te dizer que já estou comprometida com alguém – disse ela, rapidamente. Então se deu conta de que desviara os olhos para a mesa principal.


- Ah – ele pareceu desapontado. – E esse alguém veio com você ao baile ou te deixou por aí? Porque se foi o caso, eu acho que ele não te merece, Weasley. Sinceramente.


Ela não soube direito o que dizer, enquanto seus olhos procuravam automaticamente pelo amante na mesa principal. Havia três garrafas vazias no lugar onde ele deveria estar, mas ninguém atrás delas. Sentiu-se triste e boba, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, a banda recomeçou a tocar, entrando com uma constrangedora valsa.


Draco olhou-a, esperançoso, e estendeu a mão, indicando que gostaria de continuar dançando com ela, enquanto os outros casais ao redor se animavam. Ela não se sentia no espírito e nem no direito de dançar aquela música com qualquer outra pessoa, mas não tinha nenhum motivo sólido para recusar. Aceitou.


- Com licença. Posso, por favor, ter meu par de volta? – disse uma voz seca, atrás de Draco.


Ginny demorou um pouco para acreditar. Mal havia tocado os dedos de Draco Malfoy e agora dava as mãos para outra pessoa: a pessoa com a qual ela mais desejava dançar aquela música.


Ela não viu se Malfoy tinha ficado desapontado, mas ele não fez objeção a um pedido superior. Ela olhava para Tom com os olhos mais admirados, enquanto ele pousava uma mão em sua cintura e entrelaçava a outra na sua.


- Não acha mesmo que eu ia ficar sentado enquanto você dançava juntinha com esse moleque, acha? – disse ele, em voz baixa e ligeiramente aborrecida.


Ginny riu e chorou ao mesmo tempo, não conseguindo se controlar. Ele tinha ciúmes dela, e estava dançando com ela. Era como um sonho prazerosamente absurdo!


- O que você está fazendo? – indagou ele, parecendo meio apreensivo, enquanto conduzia-a e ela não conseguia controlar as lágrimas, olhando para baixo e tentando conter os soluços.


- Eu faço tudo para te agradar e você só me magoa – respondeu ela, chorosa, borrando a maquiagem por trás da máscara. Não era aquilo que ela queria dizer, mas foi o que escapou.  - Por que você fez aquilo com aquelas pessoas?


Ele suspirou, conformado.


- Me desculpe por aquilo – disse, conciliador. - Não vamos discutir isso aqui, está bem?


Ginny soluçou. Não era grande pedido de desculpas, mas ela sabia que vindo dele já era bastante coisa. Sentiu-se envergonhada de estar agindo daquele jeito, mas o vinho não fizera muito bem a ela.


- M-me desculpe, também – disse, com voz embargada, enquanto acompanhava-o nos passos (pelo menos as pernas ainda estavam firmes). – Eu sempre faço as coisas erradas…


- Nem sempre – respondeu ele, ainda em voz baixa e pausada. – Se você não tivesse saído, eu não teria sentido sua falta. E eu não estaria dançando com você. E talvez você já tivesse me trocado pelo Malfoy…


Ela riu e fungou.


- Não se preocupe, é com você que eu quero estar – disse, encostando a cabeça no ombro dele, de olhos fechados.


Em estado mais sóbrio, ela teria percebido que aquilo ia além do comportamento que deveria apresentar, mas naquela circunstância, não se importou. Sentiu-se segura e confortável em sentir seu cheiro e seu toque, e nada no mundo poderia afastá-la dele naquele momento.


- Não sabia que tocariam uma valsa – comentou, depois de um tempo, quando o pensamento lhe ocorreu.


Sentiu-o hesitar no próximo passo depois que disse isso.


- Não tocariam – disse ele, parecendo meio culpado. E Ginny entendeu tudo.


Tirou a cabeça de seu ombro e encarou-o nos olhos. Aquela talvez fosse a coisa mais sensível e lisonjeira que já lhe haviam feito. Queria dizer-lhe alguma coisa, mas a o único pensamento que lhe ocorreu foi onde ele teria aprendido a dançar.


- Tenho muitos segredos – respondeu ele, misteriosamente, lendo seus pensamentos. Conduziu-a num rodopio breve e então encarou-a de modo estranho, silencioso e sério. Ginny não sabia o que estava acontecendo, mas seu coração batia mais forte.


Ele soltou a mão da dela e retirou sua máscara. Ela estava tão sem ação que não se lembrou de perguntar o que ele estava fazendo. Ela podia ver a cor do cinzento dos olhos dele, que pareciam tão escuros vistos de longe, e seus cabelos negros que já tinham comprimento o suficiente para roçar a boca, porque ele estava tão perto… Perto demais, para falar a verdade.


Se Ginny tivesse sido questionada sobre a possibilidade de ser beijada por Tom no meio daquelas pessoas há dois minutos, ela diria à pessoa que havia perdido completamente o juízo. Mas não naquele momento. Naquele instante ela não pensava em nada mais além de que era difícil ser uma bruxa e ter que saber diferenciar os momentos mágicos dos realmente mágicos.


E aquele era um deles.


Ela sentiu seus lábios tocarem os dela e era como se estivesse semi-consciente, em um sonho. Os braços dele a envolviam delicadamente e a confortava o toque de seu corpo no dela. Ela pousou uma mão em seu rosto, carinhosamente, enquanto as línguas se encontravam, lenta e quase inocentemente. Não havia mais dança, não havia mais música e não havia mais ninguém ali. Havia apenas ele, ela e uma sensação que ultrapassava o desejo, o medo e a felicidade.


Ginny não sabia o que era aquilo, mas achava que poderia durar para todo o sempre.


Ela deixou-se envolver pelo beijo, e foi entregando-se completamente. Não sentia receios nem pretensões. O que sentia era maior do que qualquer sensação que já tivesse provado, era além de qualquer explicação possível.


Não foi um beijo ardente, muito menos luxurioso. Pareceu demorar mais do que ela esperava e menos do que gostaria. Terminou suavemente e deixou-a sentindo-se violentamente inebriada.


Ela não tornou a abrir os olhos de imediato para não despertar do sonho. Queria guardar na memória aquela sensação, pois temia não senti-la mais. A impressão mais forte que tinha era a de um primeiro beijo, apesar de já estar farta de beijá-lo. Não seria justa se dissesse que seu primeiro beijo com ele não tinha sido excitante, mas certamente não havia sido como este.


Quando abriu os olhos, a primeira coisa que viu foram os lábios dele, e imediatamente desejou perder-se neles novamente. Entretanto, uma vez desperta daquele estupor momentâneo, percebeu que não era possível continuar na mesma sintonia. Então levantou o olhar e viu que ele olhava além. Parecia ligeiramente surpreso e preocupado.


- Eu não sei porque fiz isso – murmurou ele, tão baixo que ela só entendeu parte das palavras porque conseguia ver seus lábios se mexendo.


Ela também não sabia, mas havia gostado. Só o que sabia, agora que raciocinava bem mais rápido, uma vez percebido o nervosismo dele, era que deviam estar sendo muito observados naquele momento.


A conversa havia parado, e a música continuava, solitária. Ginny olhou involuntariamente para a mesa principal e viu o olhar surpreso e aturdido de seus colegas. Havia pessoas ao redor e elas também fixavam-nos, boquiabertos. Draco Malfoy encontrava-se há uns cinco metros deles, e pendia uma garrafa de cerveja amanteigada a meio caminho da boca, esquecido do que estava fazendo. Ela viu as bruxas do banheiro encarando-a com um misto de surpresa e inveja.


Ela e Tom se afastaram ao mesmo tempo, caindo em si. Ele devolveu-lhe sua máscara, que ela recolocou sem pensar suas vezes. Estranhou o modo como se sentiu protegida depois que fez isso. E então sentiu sua mão ser puxada e ela foi conduzida por alguns metros no salão. Algumas pessoas murmuravam umas com as outras, agora.


- Preciso me ausentar por um tempo. Quero que assuma a função de anfitrião até eu voltar – Ginny ouviu Tom dizer, em voz baixa e restritiva. Ela olhou e viu Lucius Malfoy, mais pálido do que o de costume, parecendo muito surpreso.


 - Claro – respondeu o outro, prontamente. Então Tom deu meia volta e fez o caminho para fora do salão, ainda segurando sua mão. As pessoas ainda murmuravam enquanto eles passavam, mas ela evitava olhá-los nos rostos. Quando acabava de sair no hall, ouviu Malfoy dizendo para as pessoas continuarem a fazer o que estavam fazendo.


Ginny mal teve tempo de ver as pessoas que se encontravam no hall e já estava subindo as escadas. Havia algumas pessoas no primeiro andar, mas o segundo estava praticamente vazio. Ela sentiu um arrepio quando viu que haviam desacelerado perto ao quarto 13, que ele mandou abrir em ofidioglossia faltando mais de cinco passos.


Ele mal parou para empurrar a porta, apenas para fechá-la, o que ainda fez com pressa. O quarto estava escuro, e só se conseguia ver contornos com ajuda da luz da lua, que entrava pela janela do banheiro. Só largou a mão de Ginny quando a empurrou na cama. Foi um pouco violento e sua máscara caiu, embora ela não tivesse se machucado.


Ela estava incerta quanto às intenções dele; vivera um grande momento lá em baixo, mas não podia jurar que ele reagira da mesma maneira. Ela tinha duas idéias do que podia acontecer: ou ele estava prestes a agarrá-la, ou a espancá-la.


Infelizmente a segunda opção parecia mais propensa a acontecer, uma vez que ele andou de um lado para o outro, irrequieto, e então, repentinamente sacou a varinha e apertou-a na garganta dela. Ginny apertou os olhos, sentindo a ponta queimá-la, mas foi incapaz de emitir som que fosse.


- Você me tira do sério! – disse ele, numa voz ao mesmo tempo furiosa e excitada, além de perturbada. Ela não soube decifrar. Esperou submissa pelo que quer que fosse, e no momento ela apostava em qualquer tipo de violência. – Eu devia te matar!


Considerando as últimas palavras, ela se surpreendeu quando sentiu a pressão em sua garganta cessar e ouviu a varinha cair e rolar no chão. No instante seguinte ele estava sobre ela, e Ginny estava sendo beijada – embora beijada mais como o habitual, ela reparou.


Ele estava sendo voraz e lascivo, mais do que o normal. Embora surpresa e assustada, ela estava excitada. Desejava-o muito, e a cada apertão que ele lhe dava, Ginny sentia-se mais e mais instigada.


- O que você está fazendo comigo? – perguntou ele, abafado, enquanto mordia-lhe o ombro direito. Ele levantou o rosto e soprou longe vários fios de cabelo dela que haviam lhe grudado. – Que droga é essa que você…?!


Mas ele não chegou a completar a frase. Ela desejava agora que ele a beijasse, não falasse, por isso passou os braços ao redor do pescoço dele e colou a boca na dele.


Ele entendeu, e ninguém falou mais nada nos trinta minutos seguintes.


 


II


 


Ginny estava exausta.


A julgar pela respiração ao seu lado, Tom também estava.


E era o único motivo pelo qual não continuavam.


Ela virou a cabeça para olhá-lo, e ele fez o mesmo. Ginny dirigiu-lhe um sorriso sincero e cansado. Ele não retribuiu, mas continuou olhando-a.


- Você ainda quer me matar? – perguntou ela, em tom de brincadeira.


- O que eu ganharia com isso? – respondeu ele, impassível.


Ela deu de ombros. Virou-se de lado e pousou uma mão no rosto dele. Seu toque a arrepiou. O que estava acontecendo?


Ele imitou-a, e pousou a mão ao em seu rosto, depois de prender uma mecha rebelde de cabelo atrás de sua orelha.


- Depois do que aconteceu neste quarto, eu não me arrependo – disse ele, olhando-a bem nos olhos. – Mas você sabe que o que aconteceu lá em baixo não devia ter acontecido.


Ginny concordou, em silêncio.


- O que vai acontecer agora? – perguntou, depois de pensar um pouco, mas sem conseguir encontrar respostas para a questão.


- Eu não sei… Sorte a nossa que dezenas de pessoas nos viram entornando litros hoje a noite – disse ele, começando a achar graça.


Ela abriu um sorriso travesso.


- Não sei se essa vai colar. Ainda mais depois da nossa escapada.


- Eu posso te amarrar na minha cama para sempre e dizer para todos que você está apodrecendo nas masmorras por ter me seduzido – continuou ele, pensativo. – Ninguém descobriria.


- Mal posso esperar – respondeu ela, maliciosa. Ele sorriu torto e beijou-a.


Depois do beijo, houve um silêncio. Ginny sentia-se em paz, ali, nos braços dele, e mesmo a ameaça de ser sua escrava para sempre a causava certo prazer. Sentia que era capaz de obedecer às ordens mais delirantes sem pensar duas vezes, se viessem dele.


Sabia que as últimas semanas haviam sido diferentes. Já não se relacionavam mais do modo como se relacionavam há um ano. Durante aquelas semanas, havia se permitido fechar os olhos e fingir que nada de estranho estivesse acontecendo, mas agora percebia que não podia mais negar. Há dez minutos atrás chegara à uma conclusão grave e tranqüilizante, ao mesmo tempo, e esse pensamento não conseguia sair de sua cabeça. Ele se repetia, se repetia, e ela sentia que enlouqueceria se continuasse guardando só para si.


- Eu te amo – disse ela, enfim.


Ginny arrependeu-se na mesma hora de ter dito aquilo. Embora aliviada de ter confessado, ficou apreensiva. Duvidava muito que ele assimilasse essa idéia.


Eles continuaram olhando-se, entrelaçados, mas algo na expressão dele mudou levemente.


- Não seja ridícula – disse ele, depois de alguns segundos. Sua voz não era mais divertida nem simpática e ele retirou a mão de seu rosto, como se temesse algum tipo de doença. Voltou a deitar-se de costas, como se nada tivesse acontecido.


Ginny sentiu uma pontada de decepção, mas esforçou-se no pensamento de que ele não seria ele se acatasse aquela idéia. Já sabia a resposta, afinal.


Ela sentou-se. Achava que não havia mais clima nenhum para continuar ali, deitada. Desceu da cama e começou a tentar se vestir – o que foi difícil, porque descobriu que seu vestido estava rasgado de cima ao umbigo. Precisou juntar as duas partes antes de usar um Reparo. Então foi até o banheiro se lavar.


Lavou as mãos e molhou uma toalha para tirar o suor do rosto. A água fria a despertou e a relaxou. Precisava mesmo de um enxerto de razão; aquela noite estava sendo muito louca.


Não era para pouco, também, pensou. Depois de meses na rotina, não havia meio mais chocante de quebrá-la do quem com uma festa daquele calibre. Além disso, tivera a honra (ou não), de ser uma das pessoas mais ilustres da noite - embora poucos soubessem quem ela realmente era - por causa de seu par. Depois disso, era a primeira vez que via pessoalmente seu amante matar alguém em dois anos, e não era uma coisa que ela quisesse assistir com freqüência. Então ficou bêbada pela primeira vez na vida, e depois disso, um momento incrível a surpreendeu, e Ginny enfim desconfiou que estava realmente apaixonada. E as pessoas viram, tiveram de fugir. Pensou que apanharia, mas o que ganhou foi simplesmente uma maravilhosa e exaustiva hora de muito prazer. E para fechar com chave de ouro, Ginny enfim abre seu coração e, ao contrário dos caras normais por aí, Tom não somente a ignora, como a aconselha a não ser idiota. Ela merecia.


Olhou em ângulo pelo espelho. Tom não se mexera. Ela suspirou, passando a toalha gelada no pescoço. Não achava que ele fosse se afastar dela por causa daquilo, mas achava que ele precisaria de um tempo para pensar e entender que o fato de Ginny gostar mais dele do que ele dela não mudava em nada a situação dos dois.


E enquanto isso, eles estavam ali, em silêncio pesado, enquanto lá em baixo a música devia estar tão boa que as pessoas até gritavam de entusiasmo…


Gritavam?


- Tom – chamou ela, de repente, atenta.


Ele levantou-se, alerta.


- Ouvi – respondeu, breve. Deu a volta na cama e desapareceu na escuridão do quarto. Ginny largou a toalha na pia e seguiu-o. Ouviu-o praguejar em algum lugar à sua frente – Droga…! Onde está minha varinha?


Ginny retirou a dela do bolso e, lembrando-se que ouvira a varinha dele caindo no chão quando foram para a cama, aproximou-se e ordenou:


- Lumus!


A claridade iluminou o cabo da varinha em baixo da cadeira da escrivaninha.


- Seria bom se vestisse alguma coisa – lembrou ela, assim que ele pegou a varinha e parecia pronto para qualquer confronto. Ele lançou-lhe um olhar de censura e começou a apanhar suas roupas no chão. – Vou dar uma olhada para ver o que está…


- Não saia do quarto! – ordenou ele, antes que terminasse a frase.


- Vou só até o parapeito, não se preocupe – disse, aproximando-se da porta, sem dar atenção.


- Eu disse para não sair – sibilou Tom, com urgência. Em seguida apareceu no seu campo de visão, já de calças, sapatos e um manto alheio que não era o que ele usava na festa, sem camisa. – Está acontecendo alguma coisa lá fora, e não devemos ser imprudentes… - explicou, apressado, enquanto abria uma fresta na porta e espreitava.


O som entrou mais alto no cômodo quando a porta foi ligeiramente aberta. Ruídos de explosões, gritos e coisas se quebrando invadiram os ouvidos dela. Ginny não sabia se desesperava-se, encorajava-se ou culpava-se.


- Não devia ter saído de lá – lamentou-se Tom, em voz baixa. – São os Aurores.


Era uma má notícia para qualquer Comensal, mas Ginny sentiu o sangue gelar. E se Ron estivesse entre eles, ou Hermione? Harry? Que faria? Como teria forças para lutar, ou fugir?


Tom não lhe dava atenção. Saiu pelo corredor, sorrateiro, e espiou pelo parapeito, sem se aproximar muito. Olhava, paralisado, para o hall abaixo.


Então Ginny ouviu. Apesar da barulheira, ela ouviu, ou simplesmente sentiu, que alguém se esgueirava atrás da porta semi-aberta por onde ela espiava, e então viu o que seria uma mão empunhando uma varinha, prestes a render Tom pelas costas.


Ela nem pensou em usar a varinha. Afastou-se da porta, o mais silenciosamente possível e, imprimindo força e velocidade, jogou-se contra ela. Sentiu-a bater em algo maciço, e um barulho nauseante de uma cabeça rachando chegou ao seus ouvidos.


Olhou para fora, trêmula, e viu um Auror caído ao chão. Ele não tinha cabelos ruivos.


Tom olhava para o homem, e parecia mais pálido do que era. Olhou-a, admirado, e correu em sua direção.


- Venha – disse, urgente. – Fique com a varinha em mãos. Lembre-se do que te ensinei: pés separados, mão na altura dos olhos, Protego quando sentir qualquer coisa vindo em sua direção; quando atacar, ataque para matar! Fique sempre atenta! – dizia, apressado, enquanto corriam pelo corredor. – Estamos em desvantagem; estamos acima das escadas, eles estão no térreo, então não deixe ser encurralada. Se puder lutar, ótimo, mas prefiro que saia pela porta dos fundos e desaparate para longe.


- Não sou criança – reclamou ela, ofegante. – E não vou te largar aqui…


- Cala essa boca e faça o que estou dizendo – esbravejou ele. – Você ajuda mais saindo do caminho!


Chegaram à curva da escada para o primeiro andar e encostaram-se à parede. Havia gente correndo ali.


- Vou distraí-los, você corre para a escada das masmorras e pega o corredor de criados até os fundos da Ala Norte. Tem uma porta, mas ninguém usa. O limite de aparatação é de quinze metros, então corra até as árvores. – dizia ele, num sussurro impaciente, mas didático.


- Já disse: morro, mas não te deixo aqui! – sibilou ela, com raiva.


- Você não entende, sua burra! Se me acuarem eu consigo escapar, mas se te pegarem, terei que te deixar morrer! – exasperou-se ele, fazendo faíscas saltarem de sua varinha. Ele olhou o corredor, brevemente, e então atirou um feitiço. Um barulho de explosão foi ouvido no fim do corredor, e algumas pessoas gritaram. Ele tornou a olhar rapidamente antes de voltar a falar.  – As pessoa têm medo de dizer meu nome por algum motivo, já você…! Quem é você? Alguém que se esconde atrás de uma máscara e uma sigla, e se recusa a matar até um rato. Você não tem poder para me desobedecer!


- Tom…!


- É uma ordem! – disse ele, severamente.


- Não vou conseguir sem você! – desabafou, em pânico.


Ele segurou-lhe pelos ombros com firmeza e olhou-a nos olhos.


- Você vai conseguir! Olhe para mim! – exasperou-se ele, sacudindo-a brevemente. – Você vai conseguir, porque eu te ensinei! Você é minha melhor Comensal! Você ouviu?


Ela concordou com a cabeça, sentindo-se nauseada e trêmula. Então ele beijou-a, breve e calorosamente.


- Vamos correr até o final do corredor. Lá eu os atraso, você corre! Está pronta?


- E-estou – respondeu, a voz fraca.


Ele tornou a olhar o corredor, e então puxou-a.


Ginny correu. Estava atordoada, mas devia aceitar que ele tinha razão.


O corredor estava envolto em poeira e chamas. Teve de pular alguns blocos de pedras de paredes que não existiam mais, e equilibrar-se todas as vezes que escorregava na areia e cacos resultantes da explosão. Desviou de dois feitiços estuporantes, sem ter certeza de onde haviam saído. Um homem tentou agarrá-la, mas Ginny abaixou-se e derrapou, conseguindo se livrar. Podia ouvir os passos de Tom logo atrás dela, e sentia-se mais confiante. Sabia, porém, que a confiança duraria pouco, pois estava perto das escadas, onde se separariam.


Foi mais forte do que achava, porém. Desceu as escadas rapidamente e correu em direção a descida ao subsolo.


O térreo estava em guerra. Comensais e Aurores duelavam sem piedade, e a poeira do chão e paredes entrava nos olhos e nas narinas, sufocando. Ginny teve de usar três Feitiços-Escudo na curta trajetória até a escada das masmorras, e precisou saltar um corpo antes de descer.


Aquela escada estreita e escura estava vazia – ninguém, a não ser os que já estavam presos, descia no subsolo durante um ataque, era atestado de burrice. Mas Ginny sabia da passagem secreta, e atravessou a parede falsa assim que chegou lá em baixo. Encontrou-se numa passagem escura e úmida.


- Lumus!


Seguiu pelo corredor estreito, com pressa, ouvindo, ocasionalmente, um ou outro estrondo abafado vindo de cima. Alguns ratos correram de sua luz, assustando-a. Depois de vários metros, encontrou uma bifurcação, e entrou por ela. A escada que encontrou ao fim a conduziu diretamente para trás de uma estante. Ginny precisou de vários segundos para perceber que estava na dispensa.


Olhando pelas brechas entre as caixas de mantimentos, viu que a porta estava escancarada, e pessoas corriam pelo corredor, apressadas. Podia se misturar facilmente com a multidão, pensou, levantando-se, prestes a sair. Mas então alguém entrou no aposento, acuando-a novamente atrás da estante.


- Você me garantiu, Dawlish! Preciso sair daqui, o Lord das Trevas, ele vai descobrir…! – disse uma voz nervosa, a qual Ginny conhecia, mas não se lembrava de onde. A pessoa estava atrás de uma caixa, fora de seu campo de visão.


- Não posso te ajudar agora – disse o Auror, cuja voz Ginny reconheceu prontamente. Estava próximo à porta, atento ao exterior – Ainda é um procurado da justiça, o trato que fez com o Ministério só é válido depois que sua pista estiver provada verdadeira.


- E não está provada? Não está? Você está aqui, não está? – exasperou-se a voz nervosa. – Fiz minha parte! Agora me tire daqui, por favor!


Um estrondo em algum lugar tremeu o teto. Uma gritaria fez se audível, entre berros de dor e ordens. Dawlish se mexeu, impaciente.


- Preciso ajudá-los. Vá embora, Sr. Anderson, fuja, se quiser salvar sua pele. O Ministério o recompensará e o protegerá, se aparecer amanhã. E se algum de nós voltar vivo para comprovar sua história – disse Dawlish, preocupado. E saiu.


O traidor praguejou. Ginny aproximou-se sorrateira, por trás das estantes, a varinha em punho. Quando viu-o pelas costas, ele decidiu sair.


- Já vai, Fergus Anderson? – perguntou ela, irônica, apontando-lhe a varinha. – Fique mais um pouco.


O homem do grupo Quatro parou, virou o pescoço para olhá-la. Encarou-a por cinco segundos, e então correu em direção à porta. Ginny deferiu um Feitiço das Pernas Presas certeiro, impedindo-o a meio caminho.


Ela aproximou-se, cautelosa, e encostou a porta.


- Você tem razão – disse ela, em voz baixa, depois de espreitar o corredor. – O Lord das Trevas vai descobrir o que você fez, e não vai ficar nem um pouco feliz.


Anderson choramingou.


- GW… Você é boa, você é compreensiva. Você não pode fazer isso comigo! – tentou ele, suplicante.


- Ah, sinto muito. Não posso? De onde você tirou essa idéia? – disse ela, suavemente. – Ponho em risco minha própria reputação para salvar a vida infeliz de dezenas de Comensais como você todos os dias, e por culpa sua agora eles estão agonizando nas mãos dos Aurores. Não vou te enganar, ficarei muito feliz depois que te entregar para o Lord.


- GW, por favor! – implorou o homem, em sua última tentativa.


- Imperius! – disse ela, em voz baixa, ordenando em silêncio que ele entrasse pela passagem de onde ela viera e se trancasse em um dos calabouços da masmorra. Fergus Anderson se levantou, impassível, e desapareceu atrás da estante do canto.


Era a segunda vez que lançava uma Maldição Imperdoável em um ser humano, dessa vez indicando que poderia acabar em morte, o que significava que tornara-se oficialmente uma criminosa. Entretanto, não sentia medo, nem arrependimento: era ele ou ela, naquele momento, e Ginny escolhia ela.


E era hora de continuar.


Obviamente saíra no lugar errado, pensou, assim que saiu no corredor. Estava no corredor térreo da Ala Norte, próxima aos fundos da cozinha, mas não havia nenhuma saída. Talvez devesse voltar para a dispensa e tentar outra bifurcação do corredor secreto, mas antes que chegasse à porta, um raio dourado cruzou sua frente e destruiu a parede, soterrando a porta por onde saíra.


Ela girou nos calcanhares para identificar a fonte do ataque, e deparou-se com um grupo de Aurores, que pareciam ocupados demais enfrentando os Comensais de dentro do Salão de Refeições. Aproveitando a deixa, ela correu, às suas costas. Quando chegava ao fim do curto corredor, depois de passá-los, uma voz às suas costas gritou:


- Parada! Não se mova!


Ela não olhou para trás, mas gelou. Conhecia aquela voz. Conhecia muito bem.


Suas vísceras reviravam de pânico. Enfim, chegara o momento. Havia duas possibilidades: ou ela se virava, mostrava seu rosto e causava destino incerto para ambos, ou não fazia nada, e corria o risco de ser morta pelo seu próprio irmão. Pelo menos o pouparia de decepções se estivesse morta e esquecida naquele chão empoeirado…


- Largue a varinha, e vire-se devagar! – disse Ron, à suas costas, em voz firme. Ela não via outra opção, além de obedecer. Mas temia tanto…


Felizmente para ela, antes que pudesse obedecer, houve uma explosão e parte da parede cedeu, enchendo o corredor de pó esbranquiçado, dificultando a visão e facilitando sua fuga.


Uma mão a puxou pelo punho. Ginny tossia e piscava, e ainda não sabia se seu condutor era amigo ou inimigo. Momentos depois, estava em uma sala que não se lembrava de ter entrado antes (o que não era de se espantar, pois não freqüentava muito as dependências da Ala Norte). Estava escura, mas a poeira era bem menos agressiva ali dentro.


- GW, você está bem? – perguntou-lhe uma voz astuta e preocupada.


- Estou – respondeu, ainda tossindo. – Já estive melhor, em todo o caso…


- Todos já estivemos. – Era Robert Wildriam quem estava ali. – O Lord das Trevas, você sabe onde está?


- Nos separamos na escada do primeiro andar, Ala Oeste – respondeu, automaticamente. Uma bola formou-se em seu estômago: o que teria acontecido depois? Ele poderia estar machucado… morto?


- Precisamos encontrá-lo – disse outra voz, à sua esquerda, e Ginny reconheceu o timbre de Lucius Malfoy. – Os Aurores estão em menor número, mas estão unidos. Nós não, estamos correndo feito baratas bêbadas. Precisamos nos organizar. Weasley…


- O que? – espantou-se ela, nervosa.


- É sua área. Estratégia. Pense em algo! – disse Lucius, apressado e irritado.


- Meu Deus – gemeu ela. Respirou fundo várias vezes. – Ok. Espere um momento!


Ela deu algumas voltas, nervosa. Os grupos das extremidades eram os maiores e menos qualificados, enquanto os mais próximos do centro, na escala de um a nove, eram os mais preparados. O hall era um lugar convergente e todos os andares do castelo tinham acesso a ele, mas os únicos acessos aos andares superiores ficavam no hall. Pelos corredores subterrâneos era possível entrar em vários pontos do castelo sem serem percebidos, o que podia ser útil para desentocar Aurores à espreita. Feitiços ofensivos apenas atrasavam momentaneamente um oponente, mas um bom feitiço de área afugentava quem quer que fosse. Barreiras que barravam apenas inimigos também eram úteis. O mais importante era a organização. Era arriscado, mas teriam alguma chance se o fizesse. Era isso, pensou, estalando os dedos.


- Use um Sonorus – disse ela, dirigindo-se à Malfoy. – Vou ditar o que precisa dizer.


- Por que eu? – perguntou ele, mecanicamente.


- Mais da metade dos Comensais não sabe que sou mulher, e meu irmão está no meu castelo, ele reconheceria minha voz. Você tem mais autoridade, além disso, sei que te escutarão – adulou, com urgência.


Ele concordou. Aumentou o volume da própria voz, enquanto Ginny ditava as ordens.


- Quem fala é Lucius Malfoy – ecoou a voz dele em todo o castelo. – Sigam as instruções. Grupos Quatro, Cinco e Seis, subam as escadas. Um e nove, defendam as subidas e vigiem as saídas; usem barreiras de reconhecimento. Três e Sete, gás de pimenta nos cômodos de extremidade, Salão de Refeições, corredores externos e área social da Ala Norte. Dois e Oito, desçam para as masmorras, há um corredor secreto na parede ao fim da escada. Tirem todos os Aurores das passagens e câmaras. Objetivo: prendam-nos no hall. Não percam tempo!


À medida que as ordens eram dadas, a gritaria vacilava, e várias explosões foram ouvidas. O chão tremia. O castelo todo estava se deslocando.


- Perfeito – disse ela, ansiosa. – Vamos! Precisamos subir.


Ela os seguiu em direção a saída do outro lado da sala. Ouviu a porta por onde ela entrara se escancarar.


- Estão aqui! – gritou uma voz, chamando outros.


Lucius e Wildriam atiraram contra a pessoa, e Ginny viu que Bellatrix também estava ali, em silêncio. Esta pegou seu braço quando ela fez menção de parar.


- Continue correndo, estão os atrasando – disse a Comensal, de modo profissional. Ginny então percebeu porque ela era tão bem cotada com Tom: estava calma, apesar da confusão, e pensava com clareza. – Muito boa a idéia da barreira, não tínhamos pensado nisso ainda. Vieram de surpresa. Todo mundo bêbado e desarmado… Nos pegaram num dia vulnerável, afinal. Provavelmente fomos traídos.


Ginny abriu a boca para dizer que sabia quem era, mas tinham acabado de sair no corredor da Ala Oeste, perto dos quartos menores. Havia muita correria de gente saindo, e ar estava cheio de uma fumaça amarelada, que ela não foi inteligente o suficiente para não respirar.


Na mesma hora sentiu os pulmões arderem e sufocar. Ela era boa em estratégia, mas sem dúvidas era um peso morto em combate. Como fora lerda o suficiente para cair na própria armadilha?


Ginny não conseguia respirar, apenas tossir. Sentia as entranhas queimarem como se estivesse sendo perfuradas por lâminas em brasa. E a terrível sensação de não ser capaz de fazer nada para amenizar a dor.


Ela foi arrastada, e sentiu algo cobrir sua boca e nariz. A luz pipocava sobre seus olhos, e o som vacilava. Ia perder a consciência, tinha certeza… Apagou.


Uma injeção de uma sensação boa e quente subiu pelo seu corpo. Estava sendo reanimada. Seus pulmões ainda ardiam, mas ela conseguia respirar. Alguém bateu em seu rosto.


- Devia deixá-la morrer por ser tonta, Weasley – disse uma voz cansada. Bellatrix entrou em foco, com um lenço sobre o nariz, e uma nuvem amarela e repolhuda pairava atrás dela. Lucius e Wildriam emergiram dela enquanto olhava, ambos usando um Feitiço Cabeça-de-Bolha.


- Onde estão Narcissa e Rodolphus? – perguntou ela, dando-se conta da ausência deles.


- Estão bem – respondeu a Comensal, puxando-a para ajudá-la a levantar.


- Vamos – disse Lucius, estourando a bolha com a ponta da varinha. – A barreira já está lá, é só atravessarmos.


Ginny olhou pela passagem que dava para o hall, e viu muita gente duelando. Uma multidão de Comensais se acotovelava em frente ás escadas, lançando feitiços. Uma espécie de bolha de sabão gigante fechava a escada, mas pessoas entravam e saiam por ela a todo momento.


O grupo Nove abriu espaço quando os avistaram, para que passassem. Os dois homens foram na frente, ágeis, seguidos pelas duas. Ginny tropeçou ao pé da escada e Bellatrix a passou. Um feitiço chiou ao seu ouvido, e ela sentiu o cheiro de seus cabelos queimando. Ela endireitou-se, rapidamente, e subiu, ansiosa por tirar o corpo do fogo cruzado.


Mas não conseguiu passar pela barreira.


Sentiu o coração tentar sair pela boca. Gritou por Lucius ou Bellatrix, mas eles já estavam longe e não a ouviram. Tateou a barreira, gelada, trêmula. Não era possível…


Então caiu em si. Como pudera ser tão estúpida?!


Ela não tinha uma Marca Negra!


 


III


 


Ginny estava perdida. Não havia nenhuma chance contra os Aurores às suas costas. Não sabia duelar, não sabia se defender. Iria morrer, ali, sozinha, no meio de estranhos.


A não ser que houvesse outro caminho.


Ela olhou para trás, procurando alguma passagem além dos Comensais que mantinham os Aurores longe das escadas. Não viu nenhuma além da porta principal, que estava fechada – todas as outras já estavam bloqueadas. Olhou para cima; via dezenas de mãos com varinhas atirando feitiços das sacadas. Pelo menos haviam entendido o plano… Mas não via modos de chegar até lá por ali, o primeiro andar ficava a metros acima de sua cabeça. Só se soubesse voar…


Exatamente! Sabia voar! Só precisava chegar ao depósito de vassouras. Conseguia chegar por lá de onde tinha vindo.


Tornou a descer o começo da escada. Desta vez estava mais esperta, e conjurou uma Cabeça de Bolha antes de entrar no corredor. Estuporou duas pessoas que atiraram nela próximo à entrada. Estava difícil enxergar o caminho, mas ela conseguiu se deslocar para onde queria.


Depois de um ponto, os corredores estavam desertos e em ruínas. Haviam paredes desmoronadas e buracos no chão. Mas o estoque de vassouras, próximo à saída dos fundos, estava inteiro. Ginny escolheu uma que estivesse inteira – tinha muitas experiências passadas com a qualidade daquelas vassouras velhas – e saiu. Ali nos fundos, o gás de pimenta começava a se dissipar. Por um momento preocupou-se com os elfos-domésticos – pois ali era dependência deles -, mas como não vira nenhum, nem vivo nem morto, Ginny julgou que tivessem fugido.


Foi cautelosa a abrir a porta dos fundos: alguém podia estar à espreita. Mas nada se moveu, além da folhagem dos pinheiros. Ali estava bem silencioso, comparado com a batalha que ocorria no centro do castelo, e extremamente frio. Saiu, em silêncio, e tentou montar sua vassoura. Não conseguiu sair do chão, pois seu vestido cobria a calda, impedindo-a de decolar.


Sentiu-se péssima, mas usou um Diffindo na saia do vestido. Suspirou ao ver seus lindos bordados caírem no chão, mas não havia tempo para lamentar. Montou, agora sem problemas e quase sem saia, e planou a um metro do chão.


Por onde deveria entrar? Pelo corujal não havia problemas, mas demoraria muito para descer todas as escadas; a Sala de Planejamentos não tinha janelas muito grandes; mas a Torre tinha acesso ao quarto de Tom, lembrou ela. Só precisava chegar lá, e podia descer a escada voando.


Deu impulso, e sentiu-se muito bem. Fazia muito tempo que não voava, e o vento batendo em seu rosto deu-lhe uma sensação de que tudo daria certo. Só precisava ser rápida.


Voou rente a parede, para evitar ser vista, caso alguém observasse. Em poucos segundos esvoaçava sobre a Torre. Podia ver todo o terreno dali, inclusive dois vultos que voavam em círculos, perto a porta principal.


O céu começava a clarear ao horizonte. Uma linha magenta margeava as montanhas ao longe, parecendo morna e acolhedora, mas incapaz de chegar até ela, que encolhia-se de frio.


Desceu da vassoura, e foi o mais sorrateira possível para a escada, quase invisível no escuro. Desceu alguns degraus, apressada, então tornou a montar sua vassoura e desceu. Por um segundo, pensou ter ouvido algo atrás de si, mas não tinha certeza, agora que o barulho da quebradeira estava bem mais perto. Não parou para verificar; se fosse um Auror que a vira entrar por ali, não ia ficar no seu caminho. Arranhou o joelho nos degraus na pressa de sair dali.


Ao final da escada, apontou a varinha para a porta, para que abrisse sem precisar descer. Passou com a vassoura pela tapeçaria que escondia a porta, e quase caiu. A porta principal estava entreaberta, e ela só precisou empurrá-la para sair em disparada pelo corredor.


Mas não ficou ali por muito tempo. Não havia nada para ver além de Comensais disparando feitiços contra os Aurores lá em baixo. Ela planou, mais devagar, olhando ao redor, procurando…


Não estava ali o que mais a interessava. Encontrou um ponto neutro ao canto da sacada e voou para baixo, para o primeiro andar, porque uma olhada rápida mostrou que não havia nada o que fazer nos andares superiores.


Teve mais sorte naquele andar. Estava na sacada da Ala Leste, mas do outro lado do hall, na sacada Oeste, ela viu Tom, Lucius e Bellatrix duelando com um grupo de Aurores remanescentes.


Ginny ia dar a volta por dentro do corredor, mas viu que não tinha tempo a perder. Acabara de reparar nos cabelos avermelhados do Auror que duelava com Lucius. E enquanto olhava, o Comensal foi estuporado, e Ron voltou-se para Tom, atirando-lhe um jato de luz vermelha, que duelando com o outro Auror, não conseguiu se defender à tempo. Tom cambaleou com o ferimento na perna ao mesmo tempo que revidava. Ginny dividiu-se entre o riso e o desgosto quando viu Ron saindo de uma explosão de fumaça vestido de palhaço. Tom apenas sorriu com o efeito de seu Riddikulus, ignorou-o e voltou a duelar com o outro. Foi um erro, pois Ron, ofendido com o descaso como Ginny tinha certeza que estava, apontou a varinha diretamente para suas costas, e certamente era para matar.


Ela não pensou duas vezes.


Sem nem se preocupar com os feitiços que choviam no hall, Ginny impulsionou a vassoura para o corredor oposto. Por dois segundos tensos, viu o amontoado de gente lá em baixo, gritando, e seus olhos registraram vários vultos imóveis, ao chão. As luzes brotavam em toda parte, queimando e machucando quem quer que ficasse na frente. Foi muito rápido, mas uma raio acertou seu ombro, que esquentou e ardeu. Ginny não viu de onde tinha vindo, mas não se desviou de seu objetivo.


Faltando frações de segundo para entrar no corredor, ela saltou, abandonando a vassoura. Ela não pensou direito quando fez isso, e só percebeu a loucura depois que já haavia feito.


Caiu sobre Tom, bem em tempo de sentir um vento gelado e agourento passar a centímetros de sua cabeça. Eles rolaram pelo chão, Ginny ouviu o estrondo de sua vassoura se espatifando na parede e ergueu os olhos a tempo de ver o clarão verde que a errara morrer no fim do corredor. Bellatrix estivera no caminho segundos antes, e agora olhava fixamente para onde estivera, os lábios pálidos, para em seguida despejar uma série do ofensas para Ron.


Ginny ofegou, trêmula. Estava de bruços sobre Tom, que parecia esfolado, mas vivo. Ele girou, jogando-a de lado, e apontou a varinha para o autor do atentado. Ela pressentiu o que vinha, não ouviu as palavras que ele disse, mas antes que terminasse, ela já tinha agarrado seu braço e puxado. O Avada Kedavra, que teria sido certeiro, colidiu com um feitiço redutor e acertou o rodapé do corredor, fazendo uma parede desmoronar, soterrando dois dos Aurores.


- O QUE DIABOS ESTÁ FAZENDO? – gritou ele, furioso, antes de vê-la.


- Não faça isso! Temos um acordo, lembra? – disse ela, ofegante e furiosa.


Seus olhos se encontraram por uma fração de segundos, e Ginny viu a expressão dele mudar.


- O que está fazendo aqui? – perguntou ele, parecendo surpreso e furioso.


- Eu salvei sua vida – retrucou ela, incrédula. – E não é hora… EXPELLIARMUS!


A varinha de Ron voou longe. Ela se levantou, conformada, apontando a varinha para ele.


- Desculpe, Ron. Se eu fosse você, ia embora logo – disse, em voz clara.


Mas ele já parecia imobilizado de choque para ter qualquer tipo de reação. Negou com a cabeça, horrorizado. Mesmo com o rosto branco e círculos vermelhos nas bochechas, ela não conseguia achar graça alguma.


Um feitiço acertou seu ombro esquerdo, já avariado, e Ginny cambaleou, perdendo o equilíbrio. Tom a aparou no último momento.


- PARE! PARE DE ATACAR! – gritou Ron, para os colegas. Aparentemente outro Auror a atacara. Os dois homens restantes atrás dele pararam, e olharam para Ron sem entender. – Ela é minha irmã!


O ombro dela fumegava e sangrava. Não se lembrava de jamais ter levado dois feitiços no mesmo lugar, e esperava francamente que seu ombro pudesse voltar a ser o mesmo algum dia, pois no momento sentia-se incapaz até mesmo de mover os dedos, tamanha era a dor. Ela levantou os olhos a tempo de ver seu atacante tombar com um clarão verde, e sabia que viera de seu lado.


- Você está bem? – perguntou Tom, em voz baixa, próximo ao seu ouvido.


- Não se preocupe – respondeu ela, com firmeza, disfarçando a dor.


Ela tornou a olhar para Ron. O irmão olhava-a como se tivesse levado vários socos na cabeça; nem mesmo a morte do colega próximo e a fuga exasperada do outro foram o suficiente para fazê-lo sair do estado de choque. Sua expressão não era de raiva, mas de confusão. Depois de alguns segundos, disse, em voz trêmula:


- Você não pode ser Ginny. G-ginny está morta, há dois anos.


Ela sorriu levemente, melancólica.


- Você está certo. Ginny Weasley morreu há dois anos – respondeu, calmamente. Ela não sabia como conseguia ser tão fria em um momento como aquele, mas a verdade é que era bem mais fácil agir assim, agora que devia encarar a realidade. – Agora só existe GW.


Ron fez uma cara horrível, como se sentisse dor e desapontamento, mas ainda muito fraco para sentir raiva.


- Não é verdade. Não é verdade… - disse ele, quase para si mesmo, perturbado.


Ginny tinha pena, mas também tinha certo prazer em dizer aquelas coisas. Era como se estivesse preparada e esperando por este momento há muito tempo. Negou com a cabeça, devagar, sorrindo.


- Ron, olhe pelo parapeito. Vocês vão perder, esta noite. Foi inteligente vir aqui, admito, enquanto estávamos despreparados, mas ainda estamos em maior número e conhecemos o lugar. A vantagem é nossa. Vocês já tiveram muitas baixas, e não há chances para vocês estando encurralados, debaixo de fogo cruzado. Tenho uma proposta, e acho que meu mestre concorda comigo. – Ela olhou brevemente para Tom, nos olhos, e ele concordou com um movimento mínimo da cabeça. Voltou a olhar para Ron. – Concorde em pegar seus homens e ir embora, e ordenamos o cessar fogo. Só queremos que vão embora. Há dezenas de famílias aqui, hoje, muitas as quais já devem ter sido dizimadas, e desejamos poder cuidar de nossos feridos o mais rápido possível. Com isso, você e os Aurores que ainda restam podem ir para suas casas e ter mais alguns dias com sua própria família. Mas não pense que haverá uma próxima oportunidade de entrar em Basilisk Hall como fizeram essa noite, porque não haverá. Mas entre uma chance pequena de acabar com a Ordem das Trevas e suas vidas, eu não pensaria duas vezes.


Ela terminou e esperou em silêncio. Ouviu Bellatrix reanimar Lucius às suas costas. Os dois Aurores que ainda restavam atrás do irmão se entreolharam, pareceram inclinados a acatar a proposta, mas Ron parecia não ter ouvido metade do que dissera.


- Por que você está fazendo isso? – perguntou-lhe ele, com uma voz estranha. – Por que…? VOCÊ SABE COMO A MAMÃE FICOU DEPOIS QUE VOCÊ DESAPARECEU? – vociferou ele, com lágrimas nos olhos, derrubando o chapéu roto que aparecera junto com a fantasia. – VOCÊ FAZ IDÉIA DE COMO A GENTE SE SENTE POR TERMOS DEIXADO VOCÊ SOZINHA EM CASA AQUELE DIA? Você nem imagina, PORQUE VOCÊ NÃO SE IMPORTA! DO QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ BRINCANDO?!


Ela sentiu uma bola se formar em sua garganta. Queria dizer-lhe que pensava nisso todas as noites, que se importava, que se esforçava para mantê-los todos vivos. Mas ele ficaria melhor enquanto não soubesse da verdade. Por enquanto.


- Ninguém está brincando de nada, Ron – respondeu, em voz baixa, a varinha ainda apontada para ele. – Perdi dezessete anos de minha vida acreditando que abitolados por trouxas como o nosso pai fossem as pessoas mais nobres do mundo, mas não é verdade. Não há honra nenhuma em ser pisada, excluída. Não há honra em negar meu sangue puro. Eu mudei, e é verdade, eu não me importo com traidores como vocês. Era só isso o que queria ouvir? Agora vá embora, por favor.


Ron estava pálido de choque, e suas mãos tremiam. Ginny temia ter chocado-o mais do que devia, mas de repente sua varinha voou de sua mão, surpreendendo-a.


- Ouviu o que ela disse: que não se importa – disse uma voz, atrás dela, de algum lugar acima. Ela virou-se, mas não viu ninguém, além de Lucius e Bellatrix olhando além, também desarmados. – Então não se importe com ela, Ron.


Suas suspeitas se confirmaram em seguida. De fato alguém havia seguido-a quando entrara na Torre, mas não fora nenhum dos Aurores que ela vira voando - fora um invisível.


Quando Harry retirou a Capa da Invisibilidade, montava sua Firebolt e apontava a varinha direto para Tom.


- Expelliarmus!


- Avada Kadavra!


A maldição de Tom foi evitada com um loop de Harry, mas o Feitiço de Desarmar errou Tom por pouco. Eles ficaram se olhando, e então ele começou a rir, debochado.


- Quanto tempo faz que não nos encontramos, Potter? Um ano? E você ainda insiste em duelar como uma criança…


- Pensei que não houvesse problemas no modo como eu duelo, já que até hoje você não conseguiu me pegar – respondeu Harry, calmamente, embora apertasse os olhos com dor na cicatriz, de cima de sua vassoura. – Embora tente, há vinte anos – completou, com um sorrisinho que lhe pareceu assustadoramente arrogante.


Ginny tocou o braço de Tom com a mão boa, quando ele pareceu se ofender com a insinuação de Harry.


- Desculpe, mas é você quem se parece com uma criança se deixa se enfurecer por uma provocação dessas – disse-lhe, em voz baixa. E então voltou-se para Harry. – Vocês já perderam. Pegue Ron e vá embora.


Harry encarou-a, friamente.


- Eu já ouvi seu breve discurso, muito obrigado.


- Poupe a vida de seus amigos, acabe logo com isso! – disse ela, dando um passo à frente.


- Ginny, minha querida, os Aurores estão preparados para lutar e morrer, se isso significar continuar resistindo. Estamos em desvantagem, mas a guerra pode acabar agora – disse Harry, voltando o olhar para seu inimigo.


Tom apontou a varinha para Harry, pretendendo atacá-lo, mas Ginny tomou-a de sua mão e largou-a no chão. Colocou-se na frente dele, e abriu os braços, mesmo seu ombro estando dilacerado.


- E agora? – disse-lhe ela, olhando firmemente para Harry. – Você está armado, nós não. Se quer matá-lo, terá de matar os dois.


- Ginny…! – começou Tom, exasperado, às suas costas.


- Não fale. Harry é quem vai decidir – disse ela, séria, sem desviar os olhos.


Harry olhava-a fixamente, inexpressivo. Então seu rosto se torceu em um ímpeto de raiva, e Ginny achou que fosse levar uma maldição no meio do peito. Mas ele parecia furioso
era consigo mesmo, hora disposto a matá-la, hora controlando seu temperamento. Por fim, baixou a varinha. Virou a vassoura para frente e acelerou, passando-os, para ir pairar perto de Ron.


- Pegue sua varinha e suba – disse, seco, ao amigo. Ron estava pálido e distante, mas fez o que Harry dizia. Quando Ron já estava montado, Harry voltou-se para Tom. – Poupei suas vidas, poupe a de meus amigos.


Tom ficou encarando Harry por algum tempo, e então pegou sua varinha no chão e apontou para a própria garganta.


- Comensais – disse ele, a voz magicamente ampliada por todo o castelo. – Cessar fogo.


Os feitiços pararam de ser lançados; era como se o lugar respirasse pela primeira vez. Os Comensais em todos os andares olhavam para baixo, ofegantes, curiosos e preocupados. Os Aurores atacados no hall também pararam de atacar, felizes por poderem respirar juntos.


- Aurores – continuou Tom, encarando Harry ainda mais fixamente. – Saiam do meu castelo. – E baixou a varinha. – Podem vir buscar os corpos, durante a tarde, agora que sabem o caminho – acrescentou para Harry, a voz na altura normal.


O Auror franziu o rosto de raiva, mas apenas disparou em direção ao hall.


- É uma trégua – Ginny ouviu a voz autoritária de Harry, para os Aurores lá em baixo. – Vamos embora!


O Comensais vaiaram. Alguns atiraram pedaços do chão ou das paredes, enquanto os Aurores que restaram se levantavam e saiam pela porta principal, agora aberta, humilhados. Os que estavam infiltrados nos andares superiores também desceram, apressados. Embora aliviada pelo fim do confronto, não achou nada divertido assistir àquilo.


Ela observava desgostosa o estrago, tanto do castelo, quanto das perdas, quando sentiu o ombro palpitar. Devia estar ardendo fazia tempo, mas, na overdose de adrenalina, não dera importância. Agora, porém, queimava como se cutucassem sua ferida com ferro em brasa. Seus pulmões avariados no gás de pimenta também doíam, agora. Aliás, tudo doía. Seu corpo suava frio.


Mas a dor em seu ombro era insuportável. Enquanto olhava, a ferida ardia agudamente e sangrava bastante. Sentiu a pressão caindo.


- Tom – disse, numa voz fraca, segurando-lhe a manga do casaco com força. Ele olhou, atencioso. – Eu não… estou me sentindo bem…


A sensação que teve em seguida foi a pior das sensações – sentiu-se quente, nauseada, zonza e fraca. Então sentiu a visão escurecer e seu corpo ceder.


E não sentiu mais nada.


 


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Nota – Música: Vermilion, composta por James Root e Paul Gray, da banda de new metal americana Slipknot, apresentada no álbum Vol. 3 - The Subliminal Verses. É, na minha opinião, umas das melhores músicas no estilo perturbador da banda e representa bem o estado mental do nosso protagonista no capítulo em si. A letra que aparece no começo do mesmo, que não tem essa ordem originalmente, foi editada para melhor servir os propósitos de quem lhes escreve ;)


Dica: o clipe é ótimo!

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