-Onde está Potter?
A jovem o olhou com os olhos arregalados pelo pânico. A mão do homem se fechava em torno da coronha do revolver e Gina viu nos olhos dele, algo que nunca tinha visto nos olhos de Harry, nem dos apaches que a seqüestraram: o desejo irresistível de matar.
Snape entrou na casa.
-Eu perguntei onde está Potter.
-Não está aqui. – se surpreendeu por sua voz soar tranqüila, quando seu coração batia com tanta força –Não o convidei a entrar.
O homem sorriu.
-Não vai me dizer que ele se incomodou em trazer-lhe ontem a noite até aqui e em seguida deixou sozinha uma mulher tão linda?
Ela estava aterrorizada com a idéia de que Harry logo voltaria. Não tinha outro remédio se não agüentar firme.
-Não estou pensando em lhe dizer nada, mas como pode ver, estou sozinha.
-Já vi. É curioso, porque seu cavalo está na cidade, mas ele não. –Pegou uma torrada da mesa – Ouvi dizer que ele veio para cá.
-O sr. Potter vem às vezes de visita. Quando vier, direi que você está procurando por ele.
-Faça isso.
-Então bom dia.
Mas ele não partiu, pelo contrário se aproximou mais dela.
-É ainda mais bonita do que me lembrava.
A jovem umedeceu os lábios trêmulos.
-Não creio que nos conhecemos.
-Não, mas eu já vi você – Estendeu a mão para tocar-lhe o cabelo, mas ela se afastou. –Não se parece nada com seu pai.
-Por favor me desculpe, mas...
Tentou sair, mas ele a deteve.
-Sempre falava muito de você. E agora compreendo por que – colocou o resto da torrada na boca e se aproximou ainda mais dela.-É uma lastima que tenha morrido na mina, deixando-a órfã. Um homem mais esperto, teria sobrevivido.
Gina tentou sair novamente e ele voltou a impedir.
-Um acidente pode ocorrer a qualquer um – disse a jovem.
-Talvez falemos disso mais tarde – levou a mão até o pescoço dela e desatou o laço da blusa. – Você parece mais esperta que seu pai.
Latiffe entrou correndo e latindo. Snape levou a mão ao revolver, mas Gina segurou o braço dele.
-Não, por favor. É apenas um cachorro – Segurou rapidamente o cachorro nos braços –Não precisa fazer nada, ele é inofensivo.
-Snape gosta de matar seres inofensivos – disse a voz de Harry do umbral. Os homens estavam a dez pés de distância. – Havia um rapaz em Laramie, Simas Finnigan, que também era inofensivo, não, Snape?
-Era um mestiço – respondeu o outro – Para mim matar um mestiço é como matar um cavalo doente.
-E ainda é mais fácil se matar pelas costas.
-Eu não estou atirando pelas suas costas, Potter.
-Afaste-se, Gina.
-Harry, por favor.
-Afaste-se.
Já tinha esquecido o medo que sentira ao ver o cavalo de Snape fora da casa. Estava tranqüilo e impassível. Sua pistola pendia em seu quadril e suas mãos estavam seguras.
Snape se moveu um pouco.
-Esperei muito tempo por esse momento – disse.
-Alguns tem sorte e esperam muito tempo pela morte – respondeu Harry.
-Quanto o matar ficarei com sua mulher e o ouro.
Sua mão se aproximou do revólver e apontou diretamente para o coração. Não havia dúvidas de que ele era rápido.
Ouviu-se um disparo e Gina olhou horrorizada, Snape cair ao solo. Uma mancha vermelha se espalhava por sua camisa.
Harry continuava de pé à porta, com o rosto inexpressivo e a mente em calma. Nunca sentia a excitação que alguns homens diziam sentir quando matavam. Para ele, aquilo não era uma maldição, nem poder, era só uma questão de sobrevivência.
-Oh Meu Deus!
Gina olhava para a cena apoiada contra a parede. Lattife saltou dos seus braços e se aproximou de Snape. A jovem sentiu que ia desmaiar, sem seguida notou que Harry a segurava nos braços.
-Ele fez algo com você?
-Não, eu...
-Saia da casa.
Sabia que estava próxima da histeria. Um homem tinha sido morto no chão da sua casa e o homem que a segurava nos braços, parecia um estranho.
-Harry...
-Saia da casa – repetiu ele, fazendo o possível para esconder o cadáver dela. Vá para o estábulo, ou para o riacho – puxou-a até a porta e a empurrou para fora. – Faça o que eu pedi.
-Que vai fazer?
-Vou levá-lo à cidade.
A jovem respirou fundo.
-Que vão fazer a você? Você o matou.
-Slughorn terá que acreditar em mim ou me prender.
-Não, mas – sentiu enjoada – Ele queria matá-lo.Veio buscá-lo.
-Assim são as coisas – segurou-a pelos braços e a obrigou a mirá-lo. – E amanhã, e na semana que vem, e no mês que vem, haverá outra pessoa que virá me buscar. Tenho mãos rápidas, Gina, e sempre haverá alguém que irá querer provar que é mais rápido. Um dia, um deles será.
-Pode mudar isso. Tem que mudar. – Se soltou das suas mãos e o abraçou – Não pode ser que queira viver assim.
-O que eu quero, e o que tenho são coisas diferentes – afastou-a – Você é muito importante para mim, por isso que eu digo para você se afastar de mim.
Acabava de matar um homem diante dos olhos dela. E o havia matado com frieza. Gina, apesar do seu horror, havia visto tudo. Mas viu também a frustração e a raiva de um homem preso a uma armadilha. Precisava de alguém que lhe desse uma saída, ou ao menos a esperança de uma. Se não podia fazer outra coisa, pelo menos podia dar-lhe esperança.
-Não – segurou o rosto dele entre as mãos – Não posso. Não farei isso.
As mãos de Harry tremeram.
-Você é uma boba.
-Sim. Você tem razão. Mas eu o amo.
Harry jamais poderia dizer o que sentiu ao ouvi-la dizer aquilo. Apertou-a contra ele e a beijou furiosamente.
-Saia da casa. Não quero que esteja aqui, quando eu o tirar de lá.
Gina assentiu, respirou fundo e se afastou. A náusea tinha passado, mas continuava se sentindo mal.
-Antes estava certa que só existia o bem e o mal. E que matar outra pessoa era o mal maior.Mas não é assim, Harry. O que você fez, o que foi obrigado a fazer, foi para salvar sua vida. Para mim não há nada mais importante que isso. – fez uma pausa e tocou sua mão. – Volte.
O homem a viu afastar-se e andar na direção do túmulo do seu pai. Quando a perdeu de vista, voltou a entrar na casa.
Passaram dois dias e Gina tentou seguir sua rotina habitual, e não se perguntar porque Harry hão havia ido procurá-la. Tinha a impressão que o mundo todo foi vê-la, menos Harry.
Slughorn foi interrogá-la sobre o que havia acontecido com Snape, e pareceu satisfeito com o que ouviu.
A historia se alastrou com rapidez. Depois de Slughorn, chegaram Hermione e Johnny para inteirar-se dos detalhes e comer biscoitos de aveia. Hermione afastou o irmão da casa para poder falar com sua amiga sobre Rony e o casamento. Pensava em fazer um vestido e já havia encomendado uma peça de seda rosa de Santa Fé.
Na manhã seguinte, o som de um cavaleiro fez Gina sair correndo do galinheiro. Ao ver Draco Malfoy, teve que se esforçar para ocultar sua decepção.
-Gina – desmontou rapidamente e se aproximou dela – Estava preocupado com você.
-Não é necessário – sorriu ela.
-Me assuntei ao saber que Snape e Potter haviam brigado na sua casa. É um milagre que não esteja ferida.
-Estava certa que aconteceria algo muito ruim se Harry não tivesse chegado a tempo. Snape se mostrou muito ameaçador.
-Estou me sentindo responsável.
-Você - a jovem parou diante da casa. – Por que?
-Snape trabalhava para mim. E sabia o tipo de homem que ele era. Mesmo que nunca tivesse tido problemas com ele, até que Potter voltou à cidade.
-Foi Snape que veio atrás de Harry, Draco – respondeu ela com voz firme – Foi ele que provocou a briga. Eu estava presente.
-Claro que sim.
Colocou a mão no braço dela. A educação o impedia de entrar em casa sem ser convidado. Era bastante esperto para notar que algo havia mudado, e ela não ia convidá-lo.
-Não gosto de pensar que foi obrigada a presenciar uma morte dentro da sua própria casa. É terrível que tenha que continuar aqui.
-Não, não sou tão frágil - respondeu ela.
-É uma mulher forte, Gina, mas é sensível. Estou preocupado com você.
-É muito amável da sua parte. Sua amizade é reconfortante.
-Gina – lhe tocou a face com gentileza – Tem que compreender que desejo ser muito mais que um amigo.
-Eu sei – murmurou ela com pena – Mas não é possível, Draco. Sinto muito.
Surpreendeu-se ao notar que os olhos dele expressavam raiva, ele se esforçou para dominá-la.
-É por causa de Potter, não é?
Gina sentiu que não seria honesto da sua parte mentir.
-Sim.- admitiu.
-Eu pensava que você era mais sensata. É uma mulher inteligente e bem educada. Tem que compreender que Potter é um homem perigoso, um homem sem escrúpulos. Vive rodeado de violência: faz parte dele.
A jovem sorriu.
-Ele também se descreve assim. Creio que os dois estão errados.
-Só fará você sofrer.
-É possível, mas não posso mudar meus sentimentos, nem desejo fazê-lo. Tocou o braço dele com pena. – Sinto muito, Draco.
-Confio no tempo para que supere esse capricho.
-Não faça isso.
-Não mude. - Deu lhe um tapinha na mão – Confio em você. Foi feita para mim.
Aproximou-se para soltar o cavalo. Internamente, fervia de raiva. Desejava aquela mulher e o que ela tinha, e estava disposto a conseguir o que queria fosse como fosse.
Quando se voltou, já montado, com as rédeas nas mãos, seu rosto só expressava afeto e preocupação.
-Isso não muda o fato de que eu me preocupo por você viver sozinha.
-Não estou sozinha. Tenho a Hagrid.
Malfoy olhou em torno expressivamente.
-Está na mina - ela explicou – Se houver algum problema, descerá rapidamente.
-A mina – repetiu Malfoy, olhando para as rochas. – Ao menos me prometa que não entrará lá. É um lugar muito perigoso.
-O ouro não me atrai – voltou a sorrir, aliviada por poderem continuar amigos.
-O ouro atrai todo mundo – respondeu ele.
A jovem ficou olhando enquanto ele se afastava. Talvez tivesse razão. O ouro tinha algo de especial. Mesmo sabendo no fundo do seu coração que a mina nunca seria lucrativa, era excitante saber que sempre havia uma possibilidade. Hagrid passava horas ali e seu pai havia morrido por ela.
Nem mesmo Harry era imune. Foi ele que pediu a Hagrid para continuar trabalhando onde seu pai estava. Mas tinha que descobrir por que. Recordou as ultimas palavras de Snape e uma suspeita cruzou sua mente.
Porque ia falar de ouro um homem como Snape antes de sacar o revolver? Por que iria recordar-se num momento daquele de uma mina sem valor? Por acaso ela tinha valor?
Esqueceu a promessa que fizera a Draco, e começou a caminhar para as rochas.
Um movimento atraiu sua atenção, deu a volta e olhou para a estrada. Alguém se aproximava a pé. Ficou olhando e viu que a pessoa cambaleava e caia. Segurou as saias e começou a correr.
-Katie???
-Gina apertou o passo. A garota estava ferida, mas até que chegou perto dela não podia ver o quanto.
-Oh, meu Deus!!!! – segurou a garota pela cintura e ajudou-a a ir até a casa. – Que aconteceu??? Quem fez isso?
-Srta Weasley....
Katie apenas sussurrava porque os lábios estavam inchados. Seu olho esquerdo estava ferido e inflamado. Dois arranhões cruzavam as bochechas e ao respirar emitia um gemido de dor.
-Está bem, não se preocupe. Apóie-se em mim. Estamos quase chegando.
-Eu não sabia aonde ir. – murmurou a garota – Não deveria estar aqui.
-Não tente falar. Vamos para dentro. Hagrid – suspirou aliviada ao vê-lo descer das rochas – Ajudem-me a colocá-la na cama. Está muito ferida.
-Que diabos...? – segurou Katie pelos braços – Você sabe quem é essa garota, srta. Weasley?
-Sim, coloque-a na cama Hagrid. Vou pegar água.
Katie desmaiou enquanto Hagrid a subia pela escada.
-Ela desmaiou.
-Pode ser que seja melhor momento. Gina se apressou para pegar a água fresca e alguns panos limpos – Deve estar sentindo muitas dores. Não consigo entender como chegou aqui a pé.
-Deram-lhe uma boa surra.
Se afastou para dar lugar para Gina perto da cama. A jovem começou a lavar com cuidado o rosto da garota. Quando viu que ela começava a desabotoar o vestido de Katie se voltou de costas.
-Oh. Meu Deus – Gina terminou de desabotoar o resto dos botões – Ajude-me a tirar-lhe o vestido, Hagrid. Parece que a açoitaram.
O homem observou as marcas de Katie.
-A açoitaram como um cachorro. Gostaria de por as mãos no bastardo que fez isso.
Gina cerrou os punhos com fúria.
-Por favor, Hagrid, em cima da prateleira na cozinha, tem um ungüento. Traga-o para mim.
Lavou as mãos o melhor que pode. Katie abriu os olhos e gemeu. Gina falou com ela, procurando tranqüilizá-la.
-Procure não se mover. Nós vamos curá-la. Agora esta salva. Prometo que está segura.
-Dói muito.
-Eu sei, eu sei.
Pegou o ungüento que Hagrid lhe estendia, e começou a aplicá-lo nas marcas. Foi um processo lento e doloroso. Apesar dos dedos dela serem ligeiros e gentis, Katie gemia cada vez que a tocava. Suas costas estavam cobertas de linhas vermelhas, algumas das quais estavam abertas e sangravam. O suor escorria pelo rosto de Gina, mesmo assim ela não parou até que estivesse tratado e cobertos os ferimentos com ataduras, sem deixar de falar com Katie, tentando acalmá-la.
-Quer outro gole de água?
-Por favor – Gina segurou-lhe a cabeça enquanto ela bebia - Sinto muito, srta. Weasley. Sei que não deveria ter vindo aqui, mas não estava pensando claramente.
-Fez bem em vir até aqui.
-Você foi muito amável comigo aquela vez. Eu achei que não iria escapar.
-Não se preocupe. Dentro de um ou dois dias se sentirá muito melhor. Ai então poderemos pensar no que vai fazer. Por enquanto, fique aqui.
-Não posso.
-Pode ficar e ficará.- Passou ungüento nos arranhões do rosto – Se sente bem o bastante para contar-nos o que aconteceu? Foi um dos seus clientes que bateu em você?
-Não, senhora – Katie umedeceu os lábios – Foi Cho.
-Cho? Está me dizendo que Cho lhe bateu desse jeito?
-Nunca a tinha visto tão furiosa. Às vezes fica chateada com algo que não sai do jeito que quer, ou se bebe demais. Mas dessa vez, estava como uma louca. Creio que me mataria se as outras garotas não forçassem a porta e começassem a forçar a porta.
-Por que? Por que bateu em você desse jeito?
-Não estou certa. Acho que fiz algo errado- fechou os olhos – Quando Harry partiu, estava maluca. Eles discutiram. Lilá estava escutando do lado de fora do escritório de Cho e disse que ele deve ter dito algo que a chateou e Cho começou a gritar e disse algo sobre você. Não sei muito bem o que. Quando ele foi embora, começou a quebrar coisas, e eu subi para o meu quarto. Ela me seguiu e me bateu muito mais que meu pai. Dino me tirou de lá.
-Dino é um homem que trabalha para Cho – explicou Hagrid.
-Ele me tirou tão rápido como pode. Se ela sabe disso, castigará Dino. Ela me bateu com um cinturão de couro. Me batia sem parar, dizendo que a culpa era minha por Harry ter ido embora.
-Vagabunda – murmurou Hagrid.- Desculpe Srta. Gina.
-Não é necessário. Concordo com você.
Sentia uma raiva imensa. Olhou para a garota que agora estava dormindo em sua cama e viu o rosto ferido e inchado.
-Prepare a carroça, Hagrid.
-Sim, sra. Quer que eu vá a algum lugar?
-Não, eu vou. Quero que fique aqui com Katie.
-Vou preparar o carro, srta Gina, mas se está pensando em falar como xerife, não vai adiantar muito, Katie não falará com ele o que falou para você. Vai ter medo.
-Não vou falar com o xerife, Hagrid. Prepare a carroça.
Apressou os cavalos, contente que a fúria não tinha diminuído ao chegar perto da cidade. Queria estar furiosa. Desde que chegara ao Oeste, havia aprendido a aceitar muitas coisas: a dor, a violência, o trabalho. Talvez fosse um lugar sem lei, mas mesmo ali tinha que haver alguma justiça.
Johnny saiu do armazém no momento em que Gina passava e logo se voltou para queixar-se a Hermione que a jovem não o tinha cumprimentado. Ela nem sequer o tinha visto. Na mente de Gina só havia um rosto. Parou diante do Estrela de Prata.
Três mulheres coberta de anágua e xales de plumas, cochilavam no que se podia consideram um salão. O quarto estava escuro e quase sem ar. Cortinas de veludo vermelho, pendiam das janelas. As molduras dos espelhos eram decoradas com folhas douradas, sem brilho.
Quando Gina entrou, uma loira de olhos grandes, virou para olhá-la e começou a rir.
-Vejam, garotas! Temos companhia. Tire o jogo de chá.
As outras a olharam também. Uma delas ajeitou o xale nos ombros. Gina ficou parada no umbral, com as mãos cruzadsa, observando tudo.
Então aquilo era um bordel. A verdade é que não via nada remotamente excitante: mais parecia um salão mal arrumado que precisava de uma boa limpeza. O perfume se misturava com o cheiro de suor. A jovem tirou as luvas devagar, dedo a dedo.
-Quero falar com Cho, por favor. Alguém pode fazer o favor de dizer a ela que eu estou aqui.
Ninguém se moveu. As garotas se limitaram a entreolhar-se. A loira em seguida começou a examinar as unhas.
Depois de um momento, Gina resolveu seguir outra estratégia.
-Vim para falar sobre Katie.
Aquilo atraiu a atenção delas. Todas olharam para ela.
-Ela vai ficar comigo até que melhore - prosseguiu.
A loira se levantou.
-Você socorreu Katie?
-Sim, ela precisava de cuidados, srta...
-Sou Lilá - deu uma olhada furtiva – Por que alguém como você vai cuidar de Katie?
-Por que ela precisa. Eu agradeceria se dissesse a Cho que quero falar com ela.
-Certo, vou dizer. Dê lembranças nossas para Katie.
-Será um prazer.
Lilá desapareceu escada a cima e Gina tentou ignorar os olhares das outras mulheres. Havia colocado seu melhor traje de dia, era cinza claro, muito bonito. O chapéu, que combinava, tinha comprado um pouco antes de sua viagem ao oeste e era a última moda em Paris. Ao ver Cho descendo as escadas, não pode evitar pensar que apesar de tudo, não estava vestida de acordo com o lugar.
A dona do Estrela de Prata estava enfeitada com um traje vermelho resplandecente, que deixava parte dos seios à descoberto. A seda aderia ao seu corpo escultural e na mão trazia um leque que combinava. Quando parou diante dela, um forte perfume de rosas impregnou o ar.
Apesar dos seus sentimentos, Gina não podia negar que a mulher era espetacular. Em outro lugar, em outra época, podia ter sido uma rainha.
-Mas vejam só, que honra, srta Weasley.
Devia estar bebendo. Gina sentiu o cheiro do whisky, junto com seu perfume.
-Esta não é uma visita de cortesia.
-Você me decepcionou - torceu a boca – Mas sempre posso empregar mais garotas aqui, não é verdade, senhoritas?
As outras mulheres se mexeram nervosas em suas cadeiras, mas ficaram em silêncio.
-Pensei que tinha vindo aqui procurar emprego - Deu uma volta ao redor de Gina, examinando-a - Um pouco magra, mas os homens gostam disso. Não lhe cairia mal um pouco de maquiagem, não meninas? Mas acho que poderia ganhar a vida.
-Não acho que gostaria de trabalhar para você, Cho.
-Verdade? – olhou-a com frieza. – Muito dama para cobrar, mas não tão dama para ganhá-lo.
Gina apertou os punhos, e em seguida se esforçou para se tranqüilizar.
-Não, não gostaria de trabalhar para alguém que surra seus empregados. Katie está na minha casa, Cho e ficará comigo. Se voltar a colocara as mãos nela, me encarregarei de fazer com que seja presa.
-Sério?- a outra a olhou entediada – Colocarei as mãos em cima de quem eu quiser – cutucou o peito de Gina com o leque e completou – Nenhuma cadela puritana do leste vai me dizer como administrar meu negócio.
Gina arrancou o leque das mãos dela, e o partiu em dois.
-Pois eu acabo de dizer.
Cho deu-lhe uma bofetada, e Gina cambaleou. Num esforço para se equilibrar, segurou numa mesa e derrubou uma estátua que se fez em pedaços.
-As garotas do seu tipo me deixam doente - disse Cho com voz chorosa, inclinando-se para ela. – Aparentam que não deixariam que um homem as tocasse, mas abrem as pernas tão facilmente quanto qualquer uma. Acha que é especial só porque foi a uma escola e viveu numa mansão? Aqui você não é nada, nada.
-Que eu tenha ido a uma escola e vivido numa mansão não são as únicas coisas que nos separam – replicou Gina muito tranqüila – Você me deixa doente, você me dá pena.
-Eu não preciso que tenha pena de mim. Eu construí esse lugar. Tenho algo que não me foi dado por ninguém. Ninguém me dá dinheiro para comprar vestidos bonitos e chapéus elegantes. Eu ganho meu dinheiro – se aproximou mais dela. - Se acha que pode fazer com Harry o que quiser, se enganou, princesa. Quando ele se cansar de você, voltará. E fará comigo o que faz com você agora.
-Não – surpreendentemente, a voz continuava tranqüila – Mesmo que ele volte e pague o que você pedir, nunca terá o que tenho com ele. Você sabe disso e por isso me odeia.
Começou a colocar a luva, sem deixar de observar Cho. Sabia que suas mãos começariam a tremer a qualquer instante e queria se retirar antes.
-Mas eu vim aqui para falar de Katie e não de Harry. Ela não trabalha mais para você.
-Eu decido quando aquela puta deixará de trabalhar para mim.
Tudo ocorreu tão rápido que Gina nem teve consciência. Enquanto Cho a insultava, tinha conseguido conter o mau humor, mas ouvir como insultava Katie, sabendo que estava toda machucada, foi demais. Estendeu a mão que estava enluvada e bateu com força no rosto da outra.
As mulheres deram um gritinho de surpresa, Gina não teve tempo de se alegrar com seu feito, pois em seguida Cho agarrou seus cabelos. As duas caíram ao solo entre um reboliço de saias.
A jovem gritou quando sentiu que Cho queria arrancar seus cabelos, e deu outro golpe. Ouviu o gemido da outra e rolaram mais uma vez sobre as almofadas, bateram contra uma mesa sem parar de lutar. Gina recebeu um soco no estomago, mas logo se aprumou para impedir o ataque das unhas da outra.
Cho a olhava com ódio, Gina a segurou pelos punhos e os retorceu, pois sabia que se a outra pusesse as mãos no seu pescoço, apertaria até que ficasse sem respiração.
Não tinha intenção de deixar que a estrangulassem, ou que lhe batesse. Sua própria raiva a fez sentar-se em cima da sua oponente e puxar seu cabelo. Quando sentiu os dentes da outra cravarem-se no seu braço, gritou a bateu nela com todas as forças, arrancando outro grito de dor. Ouviu outros gritos, mas estava concentrada na luta. Lutou com unhas e dentes, batendo com tanto afinco quanto Cho. Nesse momento eram iguais, sem barreiras de classe ou educação. Chocaram com outra mesa e um abajur se fez em cacos no chão.
-Que diabos está acontecendo aqui? Gritou Slughorn, entrando no salão. Viu a cena no solo e fechou os olhos. Preferia enfrentar cinco vaqueiros bêbados, do que duas mulheres que se arranhavam como gatas – Alguém vai sair ferido – suspirou – provavelmente eu.
Começou a intervir no momento em que Harry entrava.
-Vamos separá-las – disse o xerife- Escolha você.
Mas Harry já levantava Gina do chão. A jovem serpenteou tentava se soltar.
-Guarde as unhas, Duquesa – Segurou-a pela cintura, enquanto Slughorn continha Cho.
-Tire-a daqui – Cho se afastou de Slughorn e ficou de pé com o vestido rasgado e o cabelo despenteado – Quero essa cadela presa. Entrou aqui e começou a destruir meu estabelecimento.
-Isso não me parece muito lógico – resmungou Slughorn – Srta Gina, poderia me dizer o que você faz num lugar como esse.
-Assunto pessoal – resmungou ela de volta, afastando o cabelo dos olhos.
-Bem, acho que já terminou com seus assuntos. Por que não volta para casa?
Gina se aprumou, adotando a postura mais digna possível, diante da situação.
-Obrigada, xerife - deu uma ultima olhada em Cho – Já terminei por aqui.
Foi para a porta.
Harry a segurou pelo braço no momento em que pisou fora.
-Espere um momento.
-Se me desculpar - disse ela secamente- tenho que ir para casa – alisou o cabelo – Meu chapéu.
-Acho que vi o que restava dele lá dentro.
Harry passou a língua pelos lábios sem deixar de observá-la. Tinha um machucado no olho, que não demoraria a inchar. Seu elegante vestido cinza, estava rasgado em vários lugares e o estado do seu cabelo era o mesmo de quem tivesse passado por um furacão. Colocou as mãos nos bolsos pensativo. Cho tinha se saído bem pior.
-Duquesa, não é fácil saber só de olhar para você, mas é bem forte.
A jovem alisou a saia.
-Já vi que isso o divertiu.
-Lógico que sim – sorriu – Estou me sentindo orgulhoso, mas não era necessário que brigasse por mim.
A jovem abriu a boca. Harry estava encantado. Ela estava ferida, humilhada e ele não parava de rir. Se esforçou para devolver-lhe o sorriso.
-Então acha que eu estava lutando com Cho por você? Porque estava com ciúmes?
-Não me ocorre nenhuma outra razão.
-Oh, eu lhe darei uma razão.
Levantou o punho e socou-lhe a mandíbula. Quando Slughorn saiu, Harry apalpava o queixo sem deixar de olhar para a jovem.
-Tem um bom gancho de direita - comentou o xerife. Na rua, as pessoas riam. Gina tinha subido na carroça e se afastava – Filho, você é bem rápido no gatilho, joga bem poker e agüenta whisky como ninguém. Mas tem muito o que aprender sobre as mulheres.
-Acho que sim. - resmungou Harry, começando a desamarrar seu cavalo.
Gina seguia furiosa para casa. Havia dado um espetáculo. Tinha se metido numa briga com uma mulher sem moral e conseguiu que metade da cidade saísse para olhá-la e rir dela. E ainda por cima tinha tido que suportar a cara sorridente e satisfeita de Harry.
Tinha lhe dado uma lição. Apertou os dentes e incitou os cavalos. Tinha machucado a mão, mas havia lhe dado uma lição. Aquele homem muito vaidoso para pensar que podia rebaixar-se até aquele ponto só por ciúmes.
Ouviu a aproximação de um cavaleiro, e olhou sobre o ombro. Deu um gritinho e incitou mais os cavalos. Não queria falar com Harry Potter naquele momento. Por ela Harry podia ir para o diabo.
Mas seus cavalos de trabalho não podiam competir com o mustangue de Harry. O homem não demorou a colocar-se lado a lado, seu aspecto era ameaçador.
-Para essa maldita carroça. – gritou.
A jovem voltou a incitar os cavalos. Harry calculou a distância e a velocidade e saltou dentro da carroça. Quando ficou firme em pé, foi para o assento e apesar da resistência dela, deteve os cavalos.
-Que diabo está acontecendo, mulher? - disse segurando-a pelo braço para evitar que ela saltasse da carroça.
-Tire as mãos de cima de mim.
-Já não teve bastante briga por um dia? Sente-se antes que eu a machuque.
-Se quer o maldito carro, fique com ele. Eu não vou com você.
-Virá comigo, sim.
Impaciente, colocou-a sobre os joelhos e segurando-a com força. A jovem se debateu um pouco, rígida como o ferro. Depois relaxou.Harry sentiu que ela cedia e cedeu também, beijando-a nos lábios.
-Tem um bom gancho, duquesa - afastou-a para tocar o queixo. - Quer contar porque me bateu?
A jovem se afastou furiosa consigo mesma.
-Por presumir que eu estava com ciúmes e lutaria por um homem inútil.
-Então agora eu sou um inútil. Bem pode ser, mas eu achava que gostava de me ter por perto.
Gina se esforçou para arrumar o que restava do seu vestido.
-É possível que sim.
Harry precisava saber mais do que havia imaginado. Segurou-lhe o queixo e virou o rosto dela para ele.
-Mudou de idéia? - perguntou.
A jovem voltou a suavizar-se naquela hora, pois viu a dúvida nos olhos dele.
-Não, não mudei de idéia – suspirou fundo – Mesmo que não tenha voltado a minha casa e sim ido ver Cho no Estrela de Prata.
-Pelo que parece, sabe uma porção de coisas. Não sei o que aconteceria se morasse mais perto da cidade. Fique na carroça até que eu amarre meu cavalo. Se fugir, voltarei a prendê-la.
-Não vou fugir.
Ficou em silêncio até que ele voltou.
-Eu gostaria de saber por que ficou brava comigo. Por que não me conta como ficou sabendo que eu fui ver Cho.
-Katie me disse.
-Katie Bell?
-Sim, sua amiga Cho por pouco não a mata de pancadas.
O homem freou os cavalos de repente.
-Como?
A jovem voltou a ficar furiosa.
-Já me ouviu. Bateu nela cruelmente. Dino a ajudou a sair da cidade e em seguida andou até minha casa.
-Ficará bem?
-Com o tempo e cuidados, sim.
-E você vai cuidar dela?
-Sim – desafiou-o com o olhar - Tem alguma objeção?
-Não.
Tocou-lhe o rosto com gentileza, de um jeito diferente. Em seguida afastou a mão bruscamente e voltou a segurar as rédeas.
-E então foi ao Estrela de Prata pra vingar-se de Katie em Cho.
-Nunca fiquei tão furiosa – Levou a mão aonde ele havia tocado – Katie é um pouco maior que uma criança. Não merece ser tratada daquele modo.
-Ela disse por que Cho bateu nela?
-Ela não sabe. Só sabe que fez algo errado. Katie disse que Cho ficou como louca depois que você partiu.
Harry ficou pensativo um momento.
-E então bateu nela- disse.
-Por que foi lá? Por que foi vê-la. Se precisava....- deteve-se buscando as palavras certas. -Bem, eu não compreendo bem suas necessidades... já sabe que não tenho experiência nesses assuntos, mas...
Harry a beijou para fazê-la calar-se.
-Não existe ninguém que saiba tão bem o que eu preciso – a viu sorrir – Fui ver Cho para dizer-lhe que não quero que use meu nome como referência.
-E bateu em Katie, porque ela tinha vindo me ver. – Gina moveu a cabeça – Ela só me disse o que Cho queria que dissesse. Não saiu como planejou então bateu nela.
-Acho que foi isso mesmo o que aconteceu.
Gina cruzou os braços.
-Essa é a única razão pela qual foi vê-la?
-Não. Foi por isso e para dizer que não se aproxime de você. Com certeza, ainda não sabia que você ia arrebentar seus dentes.
-Eu fiz isso? – tentou esconder a alegria, mas não conseguiu. -Consegui arrebentar seus dentes?
-E sangrava pelo nariz também. Acho que estava muito ocupada para notar.
-Nunca em minha vida tinha batido em ninguém – Tentou ser modesta, mas mudou de idéia - Eu gostei – admitiu.
Harry começou a rir e a estreitou contra ele.
-Você é uma gata selvagem, duquesa.
n/a: adoro esse capítulo!!! Espero que vocês também!!!
Comecei a postar uma nova fic hoje (Meu querido guerreiro), outra H/G!! Acompanhem!!!
Bjus!!!