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19. O que não se apaga


Fic: A Floresta das Sombras, Aviso


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Capítulo 19


 


O que não se apaga


 


 


A tenda estava repleta de gente. No momento em que Arthur entrou, o grupo todo ria de uma piada contada por James. Arthur identificou rapidamente os homens que cercavam seu senhor. Lá estavam Dumbledore, os dois Diggori – pai e filho – e seus próprios filhos: Percy, Fred, George e Ron – já sem a carranca esverdeada que ostentara o dia inteiro. Remus, Hagrid, Little John e mais dois cavaleiros bruxos: o velho Sir Eliphas Doge e o excêntrico Sir Dédalo Diggle. A bebida estava correndo solta, deduziu Artur, tanto pela alegria exagerada, quanto pelo fato de Peter, sempre o mais fraco para bebida, estar emborcado em um monte de palha ao fundo. Remus percebeu sua presença e sua saudação confirmou o que Arthur havia pensado.


– Arthur, meu velho! Espero que tenha vindo nos dizer que o jantar já vai ser servido ou não conseguirei que nenhum desde homens chegue sóbrio ao banquete.


– Ora, meu bom Remus – reclamou Dumbledore. – O que seria das festas, sem a doce alegria das bebidas de espírito?


Remus ergueu os braços em rendição.


– Indicarei seu nome quando as mulheres reclamarem, Dumbledore.


O Alquimista ficou imediatamente sério, como um menino pego em falta, o que fez o grupo voltar a rir ruidosamente. Arthur, no entanto, continuava a hesitar junto a entrada da tenda e James percebeu.


– Algum problema, Arthur?


– Eu não tenho certeza, James. Na verdade, é uma pergunta que tenho a lhe fazer.


– Sim?


– Por acaso você lacrou magicamente a porta de sua sala de audiências? – James franziu imediatamente a testa. – Eu não quis desfazer o feitiço sem consultá-lo. Preciso entrar na sala e dar baixa do dinheiro dos prêmios no livro-caixa. Sei que poderia fazer isso outra hora, mas vo...


– Eu não lacrei a sala.


– Bem, ela está lacrada – assegurou Arthur com gravidade.


A postura relaxada de James se alterou imediatamente e ele olhou para Remus.


– Eu sequer passei perto daquela sala hoje – respondeu o amigo.


James olhou para Peter que roncava e bufava atirado sobre a palha a um canto da tenda.


– Onde está Sirius? – perguntou.


– Deve estar em outro monte de feno por aí – disse Sir Diggori. – Eu o vi bebendo com Peter e Sir Guy lá fora, antes de virmos para cá.


– Não, ele... – Ron ergueu a voz um pouco pastosa do vinho que lhe fora permitido beber – ele saiu com o Harry.


– Com o Harry? – questionou Dumbledore.


– Sim – confirmou Ron. – Ouvi Sir Sirius dizer que tinha um presente para dar a ele.


Pareceu a James que uma lufada de ar frio havia varrido a tenda, a sensação de algo estava errado o invadiu com uma força irrefreável. Confiava em Sirius mais do que em qualquer outra pessoa, mas era muito estranho ele planejar algo para Harry sem lhe dizer coisa alguma. Seus olhos foram de Remus para Dumbledore e dele de volta para o amigo.


– Sirius não me falou de nenhum presente – confirmou Remus.


Dumbledore já estava ao lado de James, com a mão em seu ombro.


– Não creio que haja com o que se preocupar quanto ao Harry por enquanto, porém, creio que seria bom darmos uma olhada na tal sala.


Ele não precisou sugerir novamente. Afinal, com o Malfoy e Snape entre os muros do castelo, todo o cuidado era pouco. James pediu que o grupo se dirigisse para o salão principal e se encaminhou, o mais rápido que pode, com Arthur, Remus e Dumbledore para sua sala de audiências.


 


 


********


 


 


Harry precisou de alguns instantes para saber o que o incomodava tanto. Foi a tentativa de mexer-se que deu o alarme. Sua cabeça doía como se um ferreiro a tivesse confundido com uma bigorna e a martelasse sem piedade. Harry fez uma careta de dor e no instante seguinte arrependeu-se. Um ponto particularmente sensível e inchado em sua nuca berrou, fazendo pressão em seus ouvidos de dentro para fora. Com esforço, respirou lentamente por alguns instantes e tentou abrir os olhos. Sua visão estava embaçada e o um pequeno ponto de luz à sua esquerda não parecia ser suficiente para indicar onde ele estava. Fez uma nova tentativa de se mexer, porém, não conseguiu sair do lugar. Algo que ele não pode identificar de imediato o segurava. A dor o impedia de pensar e Harry precisou de algum tempo para refazer suas últimas lembranças a fim de saber onde estava.


Sirius o havia chamado dizendo que tinha um presente para ele. Levou-o ao pequeno cais na murada exterior do castelo, mas lá chegando seu padrinho revelou que havia mentido diante dos outros para não levantar suspeitas.


A verdade é que ele e James haviam descoberto um plano de Malfoy para capturá-lo naquela noite e levá-lo para o Lord das Trevas. Por isso, James havia pedido a Sirius que levasse Harry para um lugar seguro. Harry nem pensou em discordar. Discretamente, os dois pegaram o bote ali ancorado e, com ajuda de magia, cruzaram rapidamente o lago que contornava o castelo Potter. Do outro lado, dois cavalos encilhados os esperavam. Harry montou sem fazer perguntas, julgando que seu pai e Sirius já haviam pensado em tudo para a fuga. Ficou um pouco chateado por não ter se despedido nem de sua mãe, nem de Ron, Hermione e Ginny, mas, ao mesmo tempo, acreditava que não demoraria a voltar para casa. Pensou em perguntar isso para Sirius, mas o padrinho seguia à frente tão compenetrado, que ele achou melhor deixar seus questionamentos para mais tarde.


Eles cavalgaram o mais rápido que agüentaram em direção ao norte. Então, a última memória de Harry era a de passar um pequeno estreito entre duas colinas. Sirius mandou que ele fosse à frente, pois estava com a impressão de que os seguiam. Depois, não havia mais nada na mente de Harry. Uma sensação de pânico invadiu seu estômago. Haviam sido capturados. Alguém atingira a Sirius e ele por trás. Será que Sirius estava ferido? O medo o arrebatou como uma onda gelada. Será que Malfoy havia conseguido pegá-los? Talvez, ele até já estivesse nas mãos de Voldemort. Todos falavam do quanto o bruxo que o perseguia era perigoso, mas Harry nunca acreditou que ele pudesse alcançá-lo enquanto estivesse sob a proteção do pai e dos amigos. Na verdade, até aquele momento, ele nem mesmo compreendera muito bem o fato de que havia alguém no mundo cuja intenção era matá-lo. Mas, se o bruxo queria a sua morte, por que ele ainda estava vivo?


Um barulho de algo borbulhando fez Harry retesar o corpo. O som vinha do mesmo lugar onde havia o único ponto de luz. Com algum esforço, ele pode, finalmente, identificar o que era. Tratava-se de uma fogueira e, sobre ela, um caldeirão grande ardia e fumegava. Um pouco menos tonto, Harry se concentrou no que o segurava e percebeu que estava preso por cordas grossas que passavam por todo o seu corpo. As amarras cruzavam por dentro da parede de rocha em que ele havia sido aprisionado, como se tivessem sido costuradas ali.


Sentindo a lucidez retornar aos poucos, ele tentou ver se havia mais alguém à vista: seus captores ou, então, Sirius. Vasculhou o lugar tentando acostumar seus olhos à semi-escuridão. Apesar da parede de pedra atrás dele, não estava em uma caverna ou algo assim. Era uma sala definitivamente quadrada, nem larga nem estreita, com o chão regular de pedras assentadas assim como o eram as paredes. O enorme pé direito da construção sugeria um pequeno fortim. Destes que os senhores costumam fazer nos limites de suas terras para tentar barrar o avanço dos inimigos. Harry imaginou que a parca luz não conseguia iluminar as janelas altas e minúsculas usadas como vigia que ali deviam existir. Algum tempo se passou até que, o fato de não ter nenhuma pessoa à vista deu a Harry coragem o suficiente para tentar descobrir o que acontecera com seu padrinho.


– Sirius – chamou no sussurro mais alto que conseguiu, porém, não houve resposta. Respirou fundo tentando aplacar a dor na cabeça que seu chamado provocara e tentou mais uma vez. – Sirius!


Apenas o borbulhar do caldeirão e o estalar do fogo sob ele. O suspense começou a incomodá-lo ainda mais que a dor. Queria que alguém aparecesse, que lhe dissesse o que estava acontecendo, onde estava Sirius, se ele estava morto ou não. Queria saber quanto demoraria até que viessem matá-lo. Ao mesmo tempo em que pensava essas coisas, seu corpo se contorcia em busca de uma saída. Pensou em sua varinha, mas era óbvio que ela não estava junto dele. Sem ela, ele não tinha a menor esperança em livrar-se dali.


Um barulho rápido no ferrolho da porta e um vulto com uma longa capa com capuz entrou no campo de visão de Harry. O garoto se encolheu como se fosse possível se esconder e, instintivamente, prendeu o fôlego. Era uma figura baixa, roliça, com um andar claramente masculino. Harry não pode imaginar quem seria e tentou novamente localizar Sirius olhando para os lados. O homem foi até o caldeirão, mexeu-o com uma grande pá e acrescentou algumas gotas de algo que havia em um pequeno vidro retirado das fimbrias de sua capa. Ele pareceu analisar a poção por alguns instantes, depois, tornou a guardar o frasco. Então, virou-se na direção de Harry e caminhou calmamente até ele. A penumbra já deixara de ser um véu nos olhos do garoto e ele reconheceu seu captor assim que este tirou o capuz.


– Peter!? – exclamou Harry incrédulo.


O homem deu uma risada satisfeita.


– Eu gostaria de ver o rosto do seu pai nesse momento, mas... o seu já me deu uma boa ideia de como seria.


Harry estava tonto. Peter?! O amigo de infância de seu pai? Um dos Marotos! Aquele a quem seu avô armara cavaleiro e ajudara a conquistar um lugar na corte do rei? Harry sempre imaginara que Peter deveria ter uma imensa gratidão por seu pai.


– Eu não estou entendendo. Você é amigo do meu pai. Por que me prendeu? Onde está Sirius?


– Por que o prendi? – Peter repetiu com um sorrisinho. – Achei que soubesse a resposta. Meu mestre pediu.


Então, Harry não estivera errado, fora capturado pelos asseclas de Voldemort. No entanto, seu choque era maior por ter Peter quase saltitante à sua frente. Jamais poderia supor que ele pudesse trair James daquela forma. E, se não visse sua alegria pouco menos que infantil, imaginaria, pelo que lhe contavam sobre Voldemort, que este deveria tê-lo ameaçado de coisas horríveis para obrigar-lo a fazer aquilo. Mas, Peter não parecia estar sendo ameaçado e isso lhe deu urgência em saber o que havia acontecido com o seu padrinho.


– O que você fez com Sirius? – perguntou novamente.


Peter deu outro risinho untuoso.


– Nada. Eu deixei isso nas mãos do seu pai. – Os olhinhos miúdos brilharam ao ver a confusão no rosto de Harry. – Ah não – mascou ele – você não seguiu seu padrinho até aqui. Seguiu a mim.


Harry arregalou os olhos. Lembrou-se imediatamente da poção (como Dumbledore a chamara mesmo?)... poção polissuco. Isso! Quem a usava poderia assumir as feições de outra pessoa, como o rei Uther fez para raptar sua futura esposa Igraine. A poção lhe foi dada pelo mago Mérlin. Lembrou-se também das palavras funestas de Ron: Se o pessoal do bruxo que quer pegar o Harry tem o segredo da tal poção, eu acho que não devemos confiar muito nas pessoas que se apresentam para a gente, não é? Mesmo amigos. Qualquer um pode ser um deles disfarçado.


Ele engoliu em seco. Como poderia ter desconfiado? Não de Sirius. Nem mesmo do próprio Peter. Eram os melhores amigos de seu pai. Uma raiva incandescente atingiu Harry.


– SEU TRAIDOR NOJENTO! – Harry berrou. – Você não vai se safar desta, está me ouvindo! Meu pai vai matá-lo!


Peter não pareceu acuado. Pelo contrário, ele esfregava as mãos e demorava-se nas expressões chocadas de Harry com satisfação.


– Na verdade, acho que, no momento, o seu pai deve estar querendo matar é o Sirius. Que, aliás, dorme placidamente em um canto do castelo usando o meu rosto inocente. Quando acordar, o efeito da poção terá passado e, você sabe que escutar os outros quando está bravo não é uma das qualidades do seu “papai”, não é?


Harry ficou estupefato com a raiva profunda com que Peter mencionara o seu pai. Aquele homem só podia ter enlouquecido.   


– Ele vai saber que Sirius não me levou - argumentou. – Vai saber que foi você!


– Saber? – Peter debochou. – James deve estar limpando o sangue do cadáver da sua mãe, neste instante. Acha que ele vai parar para ouvir as explicações de Sirius? Vai matá-lo antes que ele diga “A”. – O mundo deu duas voltas antes de aquelas palavras fazerem sentido para Harry. – Então, talvez, seja melhor você não acalentar muitas esperanças. Vai demorar algum tempo até que James perceba o que realmente aconteceu e, quem sabe, quanto tempo mais para que ele tenha forças para me caçar. Provavelmente, o mestre já o terá matado, então. Se me lembro bem de como seu pai ficou quando vocês sumiram, eu acredito que ele não será mais um inimigo tão poderoso para o meu senhor.


Lily morta? Morta! Harry tinha parado de ouvir Peter depois desta frase.


– NÃO!!


Peter inclinou a cabeça para o lado continuou a sorrir. Harry estava em choque. Ele nem ao menos realizara a ameaça de Peter a sua própria vida.


– Se serve de consolo, – disse Peter – matar sua mãe foi apenas um acaso. Não teria acontecido se ela não tivesse aparecido na hora errada.


Harry mal conseguia respirar. Os pensamentos corriam desconexos sem que ele conseguisse segurar nenhum. Só havia dor e uma vaga sensação de irrealidade, como se ele não pudesse estar plenamente consciente ao ouvir aquilo, como se alguém fosse sacudi-lo do pesadelo a qualquer instante.


– Ora, não fique assim – Peter tornou a falar daquele jeito untuoso e satisfeito. – É assim que as coisas são neste mundo. Eu sei, disseram muito pouco a você sobre quem é realmente o Lord das Trevas. Eles tem medo de lhe dizer o óbvio Harry. – Ele se aproximou garoto. – Pois bem, eu vou lhe contar. Se o Lord das Trevas o quer morto, não há como escapar. Não importa o quanto o protejam. Lord Voldemort é o mais poderoso, o mais forte entre todos os bruxos, ninguém pode rivalizar com ele. Nem mesmo seu idolatrado Dumbledore com suas magiazinhas, misturas e astrologia. Você não percebe isso porque vive entre os poucos que resistem a ele. Mas, acredite, essa resistência é inútil. As pessoas ainda não perceberam que não há limites para o poder do Lord das Trevas. Logo, ele vai dominar o mundo dos trouxas e gente como o seu pai vai ser esmagada. É ridículo pensar que uma mosca como você poderá ser, um dia, páreo para ele. Você já teria se dado conta disso se Dumbledore, James – ele cuspiu o nome – e toda a sua corja não o ficassem tratando como se fosse o novo messias.


As palavras de Peter demoravam a fazer sentido dentro da cabeça de Harry. Ele as ouvia, as reconhecia, mas mal conseguia reagir a elas. Só pensava em sua mãe. Como ela podia estar morta? Aquilo não podia ser verdade. Peter tinha de estar mentindo para torturá-lo.


O bruxo a sua frente apertou os olhos e o nariz fazendo suas feições lembrarem ainda mais a de um rato.


– Está chorando pela mamãe, não é? Bem, Harry, só entre nós – disse como quem confidencia – Lily sempre foi um incômodo. Eu nunca gostei dela, sabe? Mesmo no início. Então, quando você nasceu, eu fiz um plano genial para colocar você nas mãos do mestre, e o que ela faz? Foge e passa a viver como uma trouxa para que não pudéssemos segui-la. Que tipo de bruxa pensaria nisso? – Ele fez uma careta, enfiando a cabeça nos ombros. – Pensando bem, acho que ela estava até mesmo me devendo.


Harry ergueu os olhos para ele. Então, Peter também fora responsável pela separação dos seus pais? O bruxo pareceu ler isso em sua testa e seu sorriso aumentou. Ele parecia se sentir aplaudido por cada onda de choque no rosto do garoto.


– Ah sim, sua mãe saiu do castelo Potter levando você na bagagem por minha causa. É claro que o idiota do seu pai sempre preferiu culpar o Snape. Se bem que Severus não é, exatamente, inocente no caso – refletiu. – Sabe, foi ele quem redescobriu a poção de Mérlin que há tantos séculos havia sido perdida. E, claro, o Lord das Trevas o convenceu que se Lily saísse do castelo decepcionada com James, iria se unir a ele e, com o tempo, poderia até se juntar a nós. É engraçado, mas, sabe, o Lord das Trevas sempre admirou o talento de sua mãe para a magia, mesmo ela sendo uma sangue-ruim. Snape lhe entregou o segredo da poção e, claro, prometeu que não seria obstáculo para que milord lhe tomasse o filho.


– Foi você! Foi você quem se passou pelo meu pai para que minha mãe pensasse que ele queria me matar! – acusou Harry.


– Claro que fui eu – afirmou Peter sem qualquer sombra de culpa. – Snape jamais teria estômago para vestir a cara do James, nem para imitá-lo. Ele não o conhece como eu. De fato, ele nem ficou sabendo do plano inteiro. O Lord das Trevas nunca permitiu que ele soubesse que eu era o agente junto a James, achou mais seguro assim. E Snape sempre quis acreditar que o traidor era Sirius. – Ele riu como se imaginasse uma cena. – Acho que ele e James devem estar brigando, neste momento, para ver quem vai executar o cachorro primeiro.


Harry não parava de negar com a cabeça. Sua mãe estava morta! Seu pai acreditando que Sirius era o assassino. Isso não podia estar acontecendo. As lágrimas escorriam de seu rosto sem que ele as comandasse. Era uma dor tão devastadora que ele mal conseguia falar, apenas a raiva, o ódio por Peter Petegreew conseguiam mantê-lo lúcido.


– Meu pai – rosnou Harry entre os dentes – confiava em você. Ele o amava como a um irmão! Seu...!


– Não sonhe, menino burro! – irritou-se Peter. – Sempre fui pouco mais que um bichinho de estimação para o seu pai. O primo pobre. Ele nunca me tratou como ao Sirius e ao Remus. Peter, o tolo. – Ele fez um falsete na voz. – Peter que é tão pouco inteligente. Peter que é um bruxo fraco, sem habilidade. Peter que precisa dos amigos para fazer algo de relevante. Rá! Eu o enganei! EU! O bobo, o burro, o covarde. Enganei-o e ele nunca notou. Enganei os três e eles continuaram a ver em mim apenas o fracote do Peter. Claro, eu sou tão incapaz, não é mesmo? Ora, não faça esse ar chocado, Harry. Seu pai está recebendo o que merece.


– Merece? Você é louco! Meu pai é um homem bom...


– Seu pai é arrogante, metido, egoísta e tirano! Acha que o mundo tem de bater palmas para ele porque é um Potter! Sempre teve tudo o que quis. Nunca precisou conquistar nada! Até a sua mãe Sir Charles comprou para ele!


Harry cuspiu na cara dele. A energia destrutiva de Peter baixou um pouco enquanto ele limpava a cara de rato com a manga da camisa, mas o homem não se deteve.


– São verdades duras, Harry. Mas são verdades. Seu pai é um canalha egoísta e sua mãe uma prostituta. Contudo, não se deve falar dos mortos, não é mesmo?


A vontade de cuspir na cara dele mais uma vez foi enorme, mas só porque era a única coisa que Harry podia fazer amarrado daquele jeito. Seu desejo era poder... Pensou em sua varinha, mas não poderia fazer o que queria com a varinha, não saberia como. Mas se sua espada estivesse ali...


Peter o olhava com asco quando disse.


– Bem, nós já conversamos demais. E, embora tenha sido estimulante, eu tenho mais o que fazer. Aliás, só mais uma coisa...


Ele deu um soco na barriga de Harry e o ar que o garoto tinha no pulmão saiu todo de uma vez. Peter se aproveitou do fato de Harry ter aberto a boca em um espasmo e enfiou uma bucha de pano dentro dela.


– Sinto muito, mas não estou com vontade de ficar ouvindo os seus gritos. Ah não, não são seus xingamentos. É que vai doer, sabe? – Ele olhou a reação nos olhos de Harry e, satisfeito, virou-se, andando em direção ao caldeirão que ainda fumegava. – Sua mãe chegou a lhe ensinar sobre a poção para fortalecer? – perguntou casualmente. – É muito útil, sabe? Ela, por acaso, chegou a mencionar que há mais de um jeito de fazê-la? Hum, talvez não. – Peter pegou a pá e voltou a mexer o caldeirão.  Depois de uma volta com a pá na mistura, ele aspirou ao vapor que dela desprendia. – Lily deve ter lhe falado apenas daquela sopinha de ervas que McGonagall, ela e Dumbledore fazem – ele riu consigo mesmo. – Acredite Harry, aquilo nem chega perto disto – falou apontando orgulhoso para o caldeirão. – Esta é a real poção para fortalecer! Uma poção tão velha quanto a magia. Uma poção feita com o sangue do inimigo e uma boa dose de arte das trevas. Seu pai jamais imaginaria que eu tinha competência para fazê-la. Ele verá.


Um arrepio cruzou o pescoço de Harry. Não queria sequer imaginar o que vinha a seguir. Uma sensação de solidão e de abandono o invadiu. Seu pai deveria estar chorando sua mãe e perseguindo o assassino errado. Todos os outros deveriam estar seguindo-o. Ninguém devia ter a menor ideia de onde Harry estava e, ele achava, nem teriam condições de procurá-lo. Harry estava sozinho, nas mãos de um louco, e ia morrer.


– O Lord das Trevas estava certo em me recrutar – Peter continuava a falar, mais para si mesmo que para Harry. – Ele viu o meu valor. Viu que eu poderia ajudá-lo mais do que qualquer outro. James jamais percebeu isso. Eu não sou nobre como Sirius, nem estudioso como Remus. Mas o Lord das Trevas soube. Malfoy tem bons contatos no reino, mas é um pavão tolo; e Snape é até um bom agente duplo, sabe? Tem a confiança de Dumbledore. Já eu, além de ter a confiança do seu pai, sou esperto. Já fiz coisas fantásticas e ninguém me pegou. Matar o pai de Marian para me apoderar da sua fortuna foi uma delas. Nem o príncipe John, que é bem astuto para um trouxa, descobriu.


Ele esperou a reação de Harry, que grunhiu e tentou se mover como um peixe no anzol, e depois sorriu.


– É claro que isso não importa mais. Depois de hoje, eu serei o favorito do Lord das Trevas. Ele sabe que poderá contar comigo mais do que com qualquer outro. E ele vai me proteger e me conceder seus favores.


Peter girou mais uma vez a pá na poção antes de colocá-la cuidadosamente ao lado do caldeirão. Depois, retirou um punhal que estava preso em seu cinto e o mergulhou na mistura. A lâmina tingiu-se de verde.


– Eu já o chamei para vir aqui, sabe? Mas quando ele chegar, eu quero poder lhe fazer uma surpresa. – Ele começou a caminhar novamente em direção a Harry, carregando o punhal erguido ao lado do corpo. – Claro que deixarei que ele mate você. Não tiraria esse prazer do meu senhor. Porém, eu lhe darei algo ainda melhor que a sua vida. Dar-lhe-ei a Força do Inimigo, a mais poderosa poção para fortalecer que existe. Depois dela, Milord ficará praticamente invencível! Quero dizer, se acreditarmos na profecia de que você e o outro serão seus maiores obstáculos – Harry tremeu um pouco. – Ah, não se preocupe com seu amigo Robin. Ele é escorregadio, mas o Lord das Trevas já tem homens atrás dele. E, quem sabe, depois de me livrar de você, eu também não possa ajudá-lo nesta tarefa. Afinal, Moody, que é quem deve tê-lo orientado para não se comunicar com seu pai ou Dumbledore, ainda acha que eu sou um deles. E, sem comunicação, eles não podem ser avisados, não é?


Peter parecia deslumbrado pela própria voz. Era óbvio que ele não temia Harry. E, como num delírio, se aprazia em contar tudo ao garoto. O choque nos olhos de Harry, sua raiva, sua dor, sua semelhança física com James. Tudo isso parecia dar-lhe uma enorme sensação de poder. De vingança. Harry tinha certeza disso. Peter acreditava que James o humilhara a vida toda e era em Harry que ele o faria pagar.


Harry ergueu a cabeça num desafio. Ele já tinha dito que não iria matá-lo, não é? Queria fazê-lo sofrer, certo? Bem, Harry não lhe daria o prazer de um único grunhido. Peter veria que era mais difícil dobrar um Potter do que ele imaginava. Ele agüentaria qualquer dor, mas não faria o assassino de sua mãe feliz em vê-lo chorar ou pedir. Ao mesmo tempo, sua mente começou a trabalhar com rapidez. Não podia deixar que aquele homem saísse impune. Não podia confiar que seu pai não seria novamente enganado por ele. Além disso, mais que tudo, Harry não queria morrer. Pensou na felicidade dos últimos meses, tão diferente de toda a vida que tinha tido até ali. Pensou em seus amigos Ron e Hermione, pensou, inexplicavelmente, em Ginny e em como ela ficaria triste se ele morresse. Pensou em Hagrid, em Little John e no seu cavalo Segredo, no qual ele nunca mais montaria. Não! Ele não podia ficar ali esperando que Voldemort viesse para matá-lo.


Peter parou bem em frente a ele e pareceu finalmente não ter nada para dizer. Com brutalidade, segurou o queixo de Harry e o fixou contra a parede. Ele ergueu o punhal e encostou a ponta da lâmina em sua testa. Depois, lentamente, sem pressa, começou a rasgar a carne com a ponta. Harry desejou berrar, mas forçou-se a não permitir que Peter ouvisse nada dele. Mordeu com força a mordaça em sua boca e tentou não pensar na dor e no que estava acontecendo, nem no fluxo quente e abundante que agora descia por seu rosto, caindo sobre as pálpebras e o nariz.


Aquilo demorou uma eternidade e Harry sentia-se lavado no próprio sangue quando o punhal finalmente saiu de sua testa deixando apenas uma dor pavorosa e aberta. Peter encostou a borda de um frasco sob a curva de sua sobrancelha para recolher o sangue. Umas duas vezes, ele pressionou a ferida para aumentar o fluxo e fez com que Harry tivesse de segurar uivos de dor.


– Pronto – disse satisfeito. – Isso vai servir. Se eu precisar de mais, você não vai sair daí, não é? – desdenhou enquanto arrancava a bucha que colocara na boca de Harry. – Se quiser gritar, fique à vontade.


Harry não tentou abrir os olhos, a dor parecia menor se eles estivessem bem apertados. Ao mesmo tempo, tentava contar todos os números que sabia para distrair a mente e mantê-la lúcida. Precisava achar um jeito de sair dali, mas nenhuma saída viável aparecia em sua cabeça.


A poção começou a sibilar alto e Harry deduziu que Peter devia ter adicionado o seu sangue. Um cheiro de morte invadiu o lugar.


– Fico pensando – murmurou Peter – o que um garoto meio-sangue, ignorante e tão pouco talentoso como você tem de especial?


Harry não queria responder, estava desejando perder os sentidos já não apenas pela dor, mas também para deixar de ouvir Peter. Contudo, não conseguiu se conter, a raiva o impulsionava.


– Talvez, o vaticínio esteja errado – rosnou com dificuldade.


– Nãh – negou Peter com veemência – vaticínios nunca erram. Só há quem não os interprete direito. Sabe, uma noite antes de você nascer, estávamos quase convencidos de que o inimigo seria o garoto Longbotton. Mas, o mestre conhece astrologia como ninguém e foi no dia seguinte, o do seu nascimento, que a estrela de Júpiter brilhou mais forte. Exatamente como as Irmãs do Destino disseram. De qualquer forma, depois do seu sumiço mantivemos o Longbotton sob vigilância para o caso de termos nos enganado, por isso o tomei como escudeiro. É claro que foi uma precaução desnecessária. Neville Longbotton é um desastre! Nunca seria um obstáculo ao mestre.


– Eu não subestimaria o Neville – tornou Harry com a voz rouca de dor.


– Humpf! Você tem a mesma credulidade idiota do o seu pai.


Um barulho alto, vindo do lado de fora da sala, chamou a atenção de ambos.


– Ah – exclamou Peter, encantado. – Deve ser o mestre.


E, sem sequer olhar para Harry, ele saiu da sala. Tão logo sumiu de vista, Harry voltou a se contorcer tentando livrar-se das cordas. Não levou muito tempo para desistir. Estava completamente desarmado, sem espada, sem varinha, sem uma faca sequer. As cordas não cederiam a sua vontade. O desespero começava a minar suas forças quando Peter retornou rapidamente batendo a porta num estrondo. Parecia furioso e resmungava sem parar. Os ombros encolhidos, a cara gorda e amontoada o faziam ainda mais parecido com um roedor enquanto ele caminhava rápido pela sala.


Sempre negando, Peter pegou um frasco vazio que estava sobre a mesa e analisou a poção. Discutiu consigo mesmo em voz baixa por uns instantes e depois se pôs a encher o vidro de cristal. Harry observou a poção, agora cor de rubi brilhante, se acomodar grossamente dentro do frasco. O sangue em sua testa ainda vertia, mas já secava lentamente e tornava difícil levantar a pálpebra esquerda, onde ele se acumulara em maior quantidade. Peter terminou de encher o frasco, arrolhou-o, e depois lhe apontou a varinha e o selou magicamente. Por fim, mirou o restante da poção com a varinha e a fez sumir. No momento seguinte, como que se dando conta de algo muito importante, ele foi até uma das paredes e, mirando uma das pedras com a varinha, murmurou algo que Harry não compreendeu. A pedra sumiu deixando um oco. Peter colocou o frasco lá dentro, lançou-lhe mais um feitiço e, depois, disse outra palavra esquisita apontando a varinha e a parede se refez como se nada houvesse ali. Quase no mesmo instante, alguém bateu fortemente à porta.


– Abra Petegreew! – ordenou o Xerife de Nottinghan com urgência. Harry não sentiu qualquer alívio em ouvir sua voz. – Estou aqui em nome do Lord das Trevas!


Peter olhou para a porta com ressentimento, mas não se mexeu. Parecia estar decidindo o que fazer. Snape voltou a esmurrar a madeira grossa.


– Vai abrir ou terei de relatar este comportamento ao mestre, Petegreew?


– Espere! – berrou Peter.


Ele caminhou rapidamente em direção a Harry e com um movimento de varinha fez com que as cordas que amarravam o garoto soltassem. Harry, subitamente livre, caiu de cara no chão, mal tendo tempo de levar as mãos à frente. Um delas se torceu para o lado causando um dor aguda que subiu queimando até o cotovelo. Peter não lhe deu muito tempo para se refazer. Mesmo baixo, ele era bem forte, pegou Harry pelos cabelos e o arrastou até o meio da sala. O garoto não conseguiu opor resistência. Sentia-se fraco. Sua testa doía a ponto de lhe tirar a capacidade de pensar e suas pernas estavam moles, flácidas, como se não houvesse nenhum osso dentro delas. Com rapidez, Peter lançou um feitiço abrindo a porta e, no instante seguinte, ele apontava sua varinha para a têmpora de Harry.


– Entre, Snape.


Harry ergueu um pouco a cabeça para olhar o xerife. O homem entrou sem o alarido que suas batidas haviam sugerido. Estava, como sempre, vestido de preto dos pés a cabeça e parecia muito calmo. Ele retirou o capuz e depois se pôs a tirar as luvas de montaria, sem pressa. O rosto dele não transparecia qualquer tipo de emoção, mais parecia o de uma estátua que um rosto humano.


– Ora, ora – disse casualmente – quase não acreditei quando o mestre contou-me que era você. Eu jamais teria imaginado.


– Por quê? – rosnou Peter. – Me acha tão incapaz assim?


– Com certeza que acho – confirmou Snape. – E como não tenho a simpatia de seus amigos por você, o acreditava bem menos digno de atenção do que eles. Convenhamos que, raramente, homens da sua laia chegam a surpreender, Petegreew – Harry sentiu a mão de Peter tremer em sua cabeça. – Mas, tenho de admitir: foi um plano de gênio.


Não havia como saber, de onde estava, mas Harry teve certeza de que Peter adorou aquela última frase. No entanto, ele precisava se esforçar para entender o que os dois diziam. Algo pesado como uma cobra começara a se enroscar na boca do seu estômago e uma escuridão nauseante parecia, momento a momento, querer engoli-lo. Harry empenhou-se mais para permanecer presente.


– Pensei que estaria possesso, Snape. Afinal, eu matei sua adorada Lily – novamente Peter usou aquele tom onipotente. Ele devia estar muito seguro para afrontar o Xerife daquela maneira.


Harry teve a impressão de ver um músculo pulsar na testa de Snape, mas a expressão dele não mudou.


– O mestre garantiu que teremos uma oportunidade justa de acertar nossas contas – disse Snape com firmeza, sem fugir da provocação do outro. – Porém, agora, temos coisas mais importantes a tratar: entregar o garoto para o Lord das Trevas, por exemplo. Foi para isso que fui mandado aqui – completou com a mesma voz neutra.


Petegreew apertou com mais força os cabelos do alto da cabeça de Harry, puxando-os até saírem lágrimas dos olhos do menino.


– Por que ele próprio não veio buscá-lo? – questionou inseguro. – Eu o chamei. Contei o que havia feito. Por que ele enviou você?


– O mestre não tem de explicar suas atitudes para você, Petegreew – retorquiu Snape com a voz arrastada. – Mas... eu acho que ele considerou um risco desnecessário vir até aqui. Com Dumbledore nas cercanias todo o cuidado é pouco. O velho tem bons instintos mágicos e poderia perceber a presença do Lord das Trevas. Nosso senhor acha que é cedo para eliminar Dumbledore e mais cedo ainda para que ele corra o risco de ser reconhecido.


Peter ficou quieto. Era quase possível ouvi-lo pensar nos longos instantes que se seguiram. Parecia estar avaliando tudo o que Snape dissera e, claramente, não dava qualquer mostra de confiar nele. A tontura de Harry aumentava e a conversa ia parecendo cada vez mais distante.


– Eu concordo quanto aos instintos do alquimista. Por isso me pergunto: como conseguiu despistá-lo para vir atrás de mim?


– Não foi exatamente difícil. Não com a confusão que você deixou atrás de si. – Harry viu Snape colocar as luvas no cinto antes de falar. – Mas acho que estamos facilitando ficando aqui, este fortim ainda é nas terras do Potter... Na verdade foi uma escolha bem infeliz.


Um raio de esperança resgatou a parte da consciência de Harry que queria fugir dele. Então, ainda estavam nas terras do seu pai. Talvez ele conseguisse fugir pela porta que Snape deixara aberta se despistasse os dois. Meu Deus, o que estava pensando? Ele nunca conseguiria livrar-se de Snape e Petegreew ao mesmo tempo. Ou um ou outro o barraria. Estava morto. Era questão de tempo. Bastava apenas saber quem o faria. Talvez Voldemort, mas isso não parecia ampliar suas chances. Pelo contrário, à medida que o tempo passava, ele se sentia mais e mais doente. Provavelmente morreria antes que Voldemort pudesse acabar com ele. Contudo, se havia alguma esperança, esta estava em achar uma brecha para sair dali, qualquer que fosse. Voltou a tentar prestar atenção na conversa dos dois bruxos.


– Este lugar não é usado há anos! – protestou Peter.


– Não admira que seja tão óbvio, não é mesmo?


A mão de Peter voltou a tremer e Snape lhe devolveu uma expressão de superioridade.


– James pode ser um idiota arrogante, mas ele não é obtuso. Quanto tempo acha que ele vai demorar a ligar todas as peças?


– Ele não irá me procurar enquanto achar que Sirius é o culpado.


– Mas certamente vai procurar o filho – retornou Snape. – Acho que o melhor seria se você não estivesse com o garoto, digo, caso seja encontrado. – Harry sentiu a varinha ser pressionada ainda com mais força contra a sua cabeça. – Por que não o entrega a mim? Eu o levarei até o mestre.


– NÃO! Eu planejei tudo! Eu executei! Você não vai tirar uma glória que é minha!


Snape estudou Peter sem olhar para Harry por um instante sequer.


– Neste caso – falou de um jeito quase untuoso – posso oferecer meus préstimos e o de meus cavaleiros para levá-lo em segurança até o nosso amo?


Instintivamente, Harry sabia que Petegreew não confiaria em Snape. Um puxão mais forte em seu cabelo lhe informou que estava certo. Peter apertava a cabeça de Harry contra a sua cintura e parecia buscar desesperadamente uma saída para se livrar do outro.


– Eu não preciso de você, Snape.


– Oh não – debochou Snape. – Você é muito talentoso para precisar de mim, estou certo? Acontece que o mestre mandou mantê-lo sob vigilância e é exatamente o que vou fazer.


Peter tremia de raiva e foi essa incômoda sensação que alertou Harry para o fato de que sua varinha estava presa ao cinto do bruxo. Ele não quis pensar muito. Não se comportaria como uma ovelha enquanto decidiam como e quando entregá-lo ao homem que queria matá-lo. Ao menos ele resistiria. Não pensariam nele como o garoto tolo que fora preso por se deixar enganar, nem como um fraco. Teria de ser rápido, embora não tivesse certeza se seus braços e pernas o obedeceriam. Puxou o ar com força para os pulmões e, no movimento mais rápido que pode, levou o braço até a cintura de seu captor e pegou sua varinha. No momento em que a tocou, não precisou pronunciar nenhum feitiço. Sua vontade de livrar-se foi o suficiente e a varinha deu um choque, jogando Petegreew longe. Antes mesmo de levantar Harry apontou a varinha para Snape.


– Espere...


Estupefaça! – gritou um dos feitiços que aprendera naqueles meses, mesmo sem saber se funcionaria. O feitiço pegou o xerife de peito aberto, enquanto este tentava se aproximar dele, e o jogou contra a parede de pedra, fazendo o bater com a cabeça. O homem caiu no chão como se fosse um boneco de trapo.


Harry apenas constatou que ele não se mexeu mais e começou a tentar se erguer. Apoiou-se no braço esquerdo, enquanto o direito, machucado, segurava, com a firmeza que podia, sua varinha. De pé, ele cambaleou um pouco, a tontura e a náusea à ponto de derrubá-lo mais uma vez. Com toda a vontade que conseguiu reunir começou a caminhar para porta.


– Fique onde está! – ordenou Peter. Ainda estava no chão, mas sua varinha mirava Harry. – Não se mexa! – Ele ergueu o corpo pesado com dificuldade, os olhos chamejando. – Não devia se empolgar tanto, você não iria muito longe de qualquer maneira.


– E você não devia me subestimar – disse Harry. Sua voz saiu rouca e fraca, mas ele queria ganhar tempo e não acabar sendo desacordado por algum feitiço.


Peter riu.


– O quê? Acaso acha que pode duelar comigo? Você realmente se parece com seu pai. No mau sentido, claro. Experliarmus! – A varinha de Harry saltou longe e ele nem conseguiu esboçar uma reação. – Sectumsempra! – Um corte rasgou sua perna tão profundamente que ele caiu no chão uivando de dor.


Peter andou até ele e o olhou de cima.


– Sabe que o que está sentindo não é nada perto do que pode ocorrer num campo de batalha? Já conheci homens que tiveram membros decepados ou que passaram horas e horas em câmaras de tortura. Dizem que os infiéis sabem fazer coisas pavorosas... óleo fervente, afogamentos, pauladas até o carrasco cansar, empalação... É um mundo duro, Harry. Você deveria agradecer pelo Lord das Trevas impedi-lo de se tornar adulto e passar por tudo isso. Quer uma pequena amostra? Crucio!


Harry não conhecia aquele feitiço, nunca ouvira aquela palavra, mas tão logo ela terminou de ser pronunciada e todas as dores que Peter havia descrito o invadiram. Não adiantava manter os olhos fechados, eles se abriram como se quisessem sair do corpo para fugir. Não havia mais a sensação de estar doente, apenas o desejo completo de que aquilo acabasse. Ele soube, como nunca soubera antes, o que era querer, ansiar desarvorada e totalmente, por morrer. No momento seguinte, a dor passou, nada mais o incomodava, exceto seus músculos maltratados pela tensão. A náusea que sentia voltou mais forte que nunca.


– Viu? Você não é nada. Não pode nem comigo. Você é uma mosca para o meu amo. É incrível como os outros não conseguem ver a criatura inútil em quem depositam tantas esperanças. - Peter se inclinou um pouco como se o estudasse. - Sabe, acho que haverá a lenda de como seria se você tivesse sobrevivido, mas... bem, eu saberei que você vivo não valia mais que seu peso morto e darei um jeito para que seu "papai" saiba disso também. Ele vai saber que você era pouco mais que um trouxa incapaz e que morreu implorando por misericórdia. Bem, é claro, eu vou enfeitar um pouco. – Ele lhe deu sorriso meio desvairado. – Será que James continuará a amar a sua memória se achar que você era um covarde? Se achar que você era um bruxo pior que o "bobo do Rabicho"?


Ainda restava um pouco de vida no sangue de Harry e uma vontade sem tamanho de fazer aquele rato engolir cada palavra. De fazê-lo pagar por sua mãe. Com toda a força que conseguiu reunir, ele jogou a perna boa para o alto e chutou Peter bem no queixo. Não ficou esperando, jogou-se para trás em busca de sua varinha e a encontrou. Estava apontando-a para Peter, já em pé, antes que o homem parasse de cambalear.


Experliarmus! – a varinha de Peter voou longe, mas Harry não lhe deu tempo para se aprumar. – Estupefaça!


Peter arregalou os olhos um instante antes de o feitiço atingir-lhe o peito e, então, caiu duro para trás. Harry ficou parado, ofegando. Precisava encontrar forças agora para correr dali, ou, para ir até Petegreew e matá-lo como ele merecia. A náusea era cada vez mais sufocante, mas também o era o desejo de vingar sua mãe, seu pai e a si mesmo. Aquele poderia ser um bom recado para Voldemort. Harry não era uma ovelha. Não se comportaria como uma. Cambaleou, arrastando a perna machucada, até perto de onde Peter estava, apontou-lhe a varinha. Sua mente buscou um feitiço para usar, mas nada do que ele conhecia parecia o bastante. O braço da varinha caiu lentamente ao longo do corpo. Não precisava de um feitiço, apenas um punhal, ou uma pedra, ou qualquer coisa que... matasse.


Então, a náusea dentro dele se acalmou e a cobra que pesava em seu estômago pareceu lhe dar satisfação, o mal estar começou a passar. Quanto mais ele alimentava a vontade de esmagar a cabeça do traidor, melhor ele se sentia. Guardou a varinha no cinto e começou a procurar com os olhos a arma perfeita, se livraria de Peter Petegreew para sempre, antes de fugir dali. Então, no mesmo instante, o rosto de Peter, reluzente de satisfação ao anunciar que matara sua mãe, lhe apareceu na mente. A simples idéia de sentir prazer em matar o repugnou de tal maneira que Harry começou a dar passos para trás e para trás, se afastando do corpo inerte de Peter o mais rápido que conseguiu. Ele deu mais e mais passos em direção à porta, mas enjôo voltou violentamente e, antes que ele conseguisse reagir, suas pernas falharam. Teria se estatelado no chão se dois braços não o amparassem.


– Harry! Harry!


– Pai? – sua voz se esforçava para sair do fundo da caverna em que ele se sentia afundar. Seus olhos, mesmo aberto não viam mais.


– Fique comigo, filho! – a aflição de James o atingiu carinhosamente. –Você está salvo, meu menino. Eu estou aqui. Nada vai acontecer a você. Nada! Seu pai não vai deixar.


Outras mãos tocaram nele. Uma delas pegou seu rosto com gentileza e ele soube que a ferida em sua testa estava sendo examinada. Depois, as mãos tocaram seu peito e a perna cortada. Harry gemeu alto.


– Os cortes são feios, mas o pior é o veneno – Harry reconheceu a voz envelhecida e preocupada de Dumbledore.


Sentiu algo frio e deliciosamente confortável descer sobre sua perna e, em seguida, a dor aguda passou, ficando apenas uma sensibilidade que Harry nem notaria se não buscasse por ela. Algo que lembrava um pano úmido começou a remover o sangue de seu rosto e depois ele sentiu o mesmo bálsamo que aliviara sua perna ser derramado sobre a sua testa. A mão firme de Dumbledore segurou-o pela nuca e derramou um líquido de gosto enjoativo em sua boca. Harry precisou se esforçar para que a poção espessa passasse por sua garganta. Assim que terminou de engolir, sentiu o enjôo diminuir gradativamente.


- É o melhor que posso fazer aqui, James. Precisamos levá-lo logo para casa.


Harry ouviu James concordar e os dois começaram a falar em como o levariam dali, mas Harry não queria prestar atenção nisso. Na medida em que suas forças voltavam, apenas um assunto o interessava. Não que Harry quisesse ouvir realmente uma resposta, queria apenas poder dizer:


– Minha mãe...?


– Ela está bem, meu amor, está bem – garantiu James rapidamente. – Nós conseguimos salvá-la. Não se preocupe, chegamos a tempo. Está tudo bem, tudo bem.


Harry ouviu e não ouviu a resposta do pai. Quem sabe o que um pai não diria para acalmar um filho tão machucado. Ele rezou intimamente para que aquilo não fosse uma mentira. Não fosse um carinho dado a alguém enfraquecido. Mas, ele até gostaria de ouvir mais mentiras como aquela. Tinha medo de perguntar, mas usou o resto de vontade que tinha para saber.


– Sirius...?


– Estou aqui – disse o padrinho com a voz muito clara quase ao lado da sua cabeça. – Não se preocupe, Harry. Está tudo bem. Aquele rato não conseguiu nos intrigar mais do que por alguns instantes. Agora, está tudo acabado.


– Falando nisso... – Harry reconheceu a voz de Remus. – O que faremos com Peter?


– Mate-o – respondeu James implacável.


– Não!


– Harry! – havia surpresa e reprimenda na voz de James.


– Não quero que o mate – ofegou Harry.


– Mas por quê? Meu filho, isso... isso não tem qualquer lógica!


– Harry, você está ainda em choque, não sabe o que está dizendo – rebateu Sirius.


– Sei sim! – afirmou Harry num sobressalto. Apesar do remédio de Dumbledore, havia resquícios de náusea lhe diziam que aquela era a decisão correta. Se Peter fosse morto, ele gostaria, e Harry se recusava a gostar da morte de alguém, mesmo de um rato como Peter Petegreew.


– James – argumentou Dumbledore – não é hora de discutir com o menino, nem de fazer nada com a cabeça quente.


Houve um longo silêncio. Harry só percebeu que havia desmaiado quando, horas depois, acordou já em seu quarto, no castelo Potter. Mas, ele não acordou bem.


De fato, foram duas semanas de lenta recuperação em que, na maior parte do tempo, Harry mal tinha consciência de si. Em algum momento lhe contaram que fora Segredo, seu cavalo, quem havia descoberto onde ele estava (Harry não sabia, mas os cavalos de fogo jamais perdem seus donos de vista, faz parte de sua magia). Também ficou sabendo que o xerife Snape usara sua condição de agente duplo para confirmar a traição de Peter; e que sua entrada no fortim, antes dos outros, foi para impedir que, no desespero, Peter machucasse Harry ainda mais gravemente. Ao menos, foi isso o que o xerife contou. Mas, foi somente quando ele já se sentia melhor, que lhe disseram que a poção em que Peter mergulhara o punhal, antes de feri-lo, estava marcada com um veneno para debilitá-lo até à morte. Este veneno era tradicionalmente fornecido pelo inimigo que se beneficiaria da poção. Segundo Dumbledore, o veneno que infestara as veias de Harry provinha de uma cobra, mas que esta, provavelmente, não era um animal comum.


– Como assim? – quis saber Harry. Ele estava ainda em sua cama, recostado em inúmeros travesseiros, e o alquimista estava ao seu lado. A visita não era a primeira, mas, pela primeira vez, esta tinha o objetivo de dar explicações.


– Não sou um especialista em animais, Harry, nem nos que são mágicos, nem nos que não o são, apesar de conhecê-los bem mais que a maioria dos homens. Entretanto, creio que estamos diante de um ser completamente diferente. Eu diria que se trata de um animal de mago.


– Um o quê?


– Um animal de mago, meu rapaz, é um bicho que foi criado a partir da mistura de raças, algo feito através de magia e, não raro, incluíndo o próprio sangue do mago na sua criação. São criaturas únicas, excepcionais e jamais encontrei uma que não fosse, em igual medida, sumamente perigosa. Seus criadores, em geral, imaginam um animal que os possa proteger, mas que também possa ser, em muitos casos, um eficaz espião, vendo e ouvindo por ele. Alguns dizem que estes animais, quando possuem o sangue do mago, podem, até mesmo, se comportar como ele próprio o faria.


– Humm – Harry se recostou novamente nos travesseiros, pensativo.


– Você não me perguntou o mais importante – advertiu Dumbledore.


– E o que seria? – perguntou Harry, mas não parecia estar realmente curioso em saber.


– Como você sobreviveu ao veneno?


O garoto deu de ombros.


– Você ou Madame Ponfrey sabiam o antídoto, não?


– Não – respondeu Dumbledore, lentamente. – Não existe antídoto para este caso. Lembre-se, Harry, de que a poção que Peter pretendeu fazer com o seu sangue, não é uma poção feita por quem queira que o inimigo sobreviva.


– Então...?


– Só há duas maneiras de sobreviver à magia à qual você foi submetido. Uma delas é expulsando o veneno, retirando-o das veias como se faria com a mordida de uma cobra comum. Mas nós não chegamos a tempo para isso. – Harry ouvia com atenção, mas não soube porque teve medo de perguntar qual era a segunda maneira. Dumbledore lhe deu algum tempo antes de prosseguir. – A segunda maneira é mais rara, mas bem mais fascinante. O inimigo pode se adaptar ao veneno e... incorporá-lo.


– Eu não entendi – retornou Harry seriamente.


– Quis dizer, meu filho, que, de alguma forma, seu corpo absorveu o veneno e, agora, ele faz parte de você.


Aquela frase deu origem a um monte de perguntas na cabeça de Harry, mas, ao mesmo tempo, ele não queria nenhuma resposta. Desde que fora levado, tudo o que era luminoso naquele mundo ficara sombrio e as sombras engoliam todas as coisas. Essa sensação o tinha perseguido mais e mais naqueles dias. E, nas vezes em que dera uns poucos passos pelo seu quarto (apoiado ou em seu pai, ou em Sirius ou em Ron) o espelho de prata polida que havia ali parecera querer lhe mostrar que nada seria como antes. Seu próprio rosto estava tão diferente quanto ele próprio se sentia diferente. E isso nem era pela cicatriz em forma de raio em sua testa que, agora ele sabia, o acompanharia pela vida toda por causa da forma como fora feita. Talvez, toda essa sombra viesse do veneno, talvez da traição e da violência, talvez já estivesse ali, apenas esperando um lugar para crescer, um terreno árido que, finalmente, Harry tinha condições de fornecer.


Dumbledore permaneceu quieto à sua frente, parecia ler aqueles pensamentos em sua cabeça e a preocupação no rosto dele enervou Harry um pouco.


– Então, Voldemort e eu estamos ligados agora – constatou Harry. Achou sua voz estranha. Não havia medo nela, nem dor, apenas uma espécie de fatalismo superficial. Harry se sentia incapaz de sentir qualquer coisa em profundidade.


– Vocês sempre estiveram, Harry – lhe respondeu Dumbledore. A piedade em seus olhos enervou Harry ainda mais. – Não foi você, nem tão pouco ele quem escolheu isso.


– Quem foi, então?


– Como podemos saber? Frei Tuck lhe diria que foi Deus. Se você perguntasse ao próprio Mérlin ele lhe diria que foi a Deusa. Se você acredita que no fim de tudo há uma razão a nos guiar, então, esta razão será a nossa resposta.


– O destino.


– Você acredita nele? – questionou Dumbledore como se fosse apenas uma vaga questão filosófica entre mestre e discípulo. – Acredita que as coisas estão marcadas e que não se pode fugir delas?


– Se eu pudesse realmente fugir, não estaria aqui – respondeu Harry com dureza.


– É uma maneira de ver – tornou Dumbledore, sem alterar o tom. – Talvez, nesse momento, as palavras deste velho lhe digam muito pouco, mas... ainda assim vou dizer. Eu acredito que não temos poder sobre o que nos acontece e, muito possivelmente, ninguém tenha, nem Deus ou a Deusa ou o destino. Nosso poder é sobre o que fazemos com isso, com o que nos acontece. Sei que está ferido, Harry, e com raiva. Ainda assim, você foi fantasticamente correto quanto ao seu captor. - Harry bufou e virou o rosto. Nos dias que tivera mais dor, por várias vezes, a raiva o sufocou e ele quase pediu para que o pai fosse até as masmorras (onde ele sabia que Peter estava preso) e o matasse. Dumbledore fingiu não notar e prosseguiu. - Sei também que está preocupado com o veneno em você.


– Não estou...


– Sim, está – interrompeu o alquimista. – Mas, se conhecesse alquimia como eu, saberia que o ingrediente importa menos que a forma como ele é incorporado. E que você pode adicionar o mesmo ingrediente mil vezes e mil vezes obter resultados diferentes. Esse é o grande segredo.


Harry ficou quieto. As palavras pareciam vazias para ele. Qual era então o sentido de tudo aquilo? Perguntou a si mesmo, com a raiva novamente chegando aos seus ouvidos. Dumbledore, da forma esquisita que às vezes fazia, pareceu lê-lo e falou.


– Se há uma razão no final de tudo, Harry, estamos aqui para descobri-la. Frei Tuck, Mérlin e seus seguidores creem que a conhecem, eu tenho minhas dúvidas. Talvez precisemos uma vida inteira ou de muitas para que possamos saber. Quem poderá dizer?


Duas batidas suaves na porta ocultaram o bufo impertinente que Harry deu para aquelas palavras. No instante seguinte, o rosto delicado e emagrecido de Lily apareceu na porta.


– Posso interromper?


– Mãe! – a aparição dela fez Harry sorrir.


A porta se abriu completamente e Harry viu que ela vinha amparada por James. Lily ainda estava convalescendo, mas já ensaiava passos pelo castelo (o que Harry ainda não pudera fazer). Ela vinha vê-lo quatro ou cinco vezes por dia e James vinha sempre com ela; caso ela estivesse cansada, ele vinha sozinho e ficava conversando com o filho pelo tempo que Harry quisesse. Nunca parecia que ele tinha mais o que fazer do que simplesmente ficar ali. Nestas conversas, os dois jamais falavam sobre Peter e sobre o fato de o pedido de Harry ter amarrado a mão de James. Harry preferia não perguntar sobre como ele sentia por ter sido traído por um amigo tão íntimo que quase lhe matara a esposa e o único filho. Preferia não saber como ele se sentia culpado ou o quanto estava triste. Ele sabia que se o pai lhe falasse sobre essas coisas, ele seria obrigado à perdoá-lo por ter se enganado e, a incômoda verdade, é que ele não estava preparado para isso. Então, os dois fingiam que aquele assunto - do tamanho de um dragão rosa rajado de azul - não existia e nem ficava andando pelo quarto enquanto eles conversavam.


A chegada de Lily, porém, tinha sempre o dom de deixar tudo mais leve, mais suave. Ela achava coisas engraçadas para contar, mesmo dos piores momentos; imitava os elfos que cuidavam dela e as discussões destes com Madame Ponfrey por causa das escapadas de Lily para ver o filho; e, sempre que podia, lia para Harry. Seu texto favorito - e do garoto também - eram os Contos de Beedle, o Bardo. Lily amava A Fonte da Sorte, enquanto Harry pedia que ela repetisse, sempre que possível, o conto do Coração Peludo. Naquele dia, com James e Dumbledore ali, Harry achou que não haveria espaço para leituras, mas, depois de algum tempo de conversa, o próprio alquimista disse que ficaria encantado em ouvir as histórias que amava na voz de Lily. Harry ficou fascinado ao saber que, a primeira vez em que Dumbledore ouvira esses contos, ainda jovem, o fora da boca do próprio Beedle, quando este ainda vivia indo de castelo em castelo, de aldeia em aldeia, sobrevivendo de seu ofício de menestrel. Lily começou pelo conto favorito do velho alquimista: O Conto dos Três irmãos (James preferia Babbit, a coelha, achava que os outros eram sério demais). Após a leitura, Lily, James e Dumbledore se puseram a debater as escolhas dos personagens do conto, enquanto Harry apenas se recostou em seu corpo nos travesseiros e ficou ouvindo. O debate estava bastante empolgado quando a porta abriu de chofre.


– James – um Sirius branco como um fantasma apareceu à porta. Sonja estava logo atrás dele e também parecia em choque. Harry nunca vira a selkie com os olhos arregalados daquela maneira, nem com a mão aos lábios como se segurasse um grito. – Eu... preciso que venha comigo.


O pai de Harry estranhou tanto quanto os outros os rostos de Sirius e Sonja, nenhum dos dois eram do tipo que se assustavam facilmente. Antes que ele pudesse responder, Arthur e Molly também estavam à porta, igualmente transtornados.


– Sirius – interpelou Arthur – é verdade? Little John nos contou, mas... Meu Deus! É verdade! – ele concluiu ao olhar para Sirius.


Molly deu um gritinho e o marido a abraçou.


– Arthur, por favor – pediu Sirius – tente segurar a história, não queremos uma onda de pânico no castelo.


– Claro, claro – concordou o outro e saiu, com a esposa nos calcanhares.


– O que aconteceu? – perguntou James confuso, erguendo-se da cadeira em que estava. – Onde está Remus?


– No calabouço...eu – Sirius lançou um olhar a Harry e depois a Sonja, antes de responder a primeira questão. Parecia estar medindo as palavras ou avaliando se deveria contar ali ou não.


– Seja o que for – disse Dumbledore astutamente – pela gravidade que parece, Harry não demorará a ficar sabendo. Creio que não há necessidade de poupá-lo agora.


Sonja aprovou as palavras do alquimista e incitou Sirius a falar colocando a mão em seu ombro.


– Peter está morto.


Dumbledore ergueu-se da cadeira em que estava e Lily pegou a mão de Harry.


– O QUÊ?! – berrou Harry. Ele olhou imediatamente para o pai, indignado.


James, porém, parecia tão chocado quanto ele. Olhou para o filho negando com a cabeça e voltou a olhar para Sirius.


– Mas como isso aconteceu? Eu dei ordens para...


– Não creio que qualquer um neste castelo tenha ido contra as suas ordens, James - respondeu Sirius com gravidade.


– Fale o que houve, Sirius – Dumbledore falou tão objetivamente que parecia uma ordem.


Novamente, Sirius pareceu sem saber por onde começar.


– Bem, vocês sabem a tal marca deles?


– Dos seguidores de Voldemort? – perguntou James.


– A Marca Negra – confirmou Dumbledore. Hermione havia falado daquela marca para Harry. Era uma marca que os seguidores de Voldemort traziam no braço esquerdo. Uma caveira com uma serpente saindo pela boca. – O que tem ela?


- O carcereiro... Ah James, eu jurei que o homem estava bêbado quando me contou, mas depois eu vi e...


– Pare de enrolar, Sirius – enervou-se James.


– O carcereiro disse que a tal marca ficou viva.


– Viva? – estranhou Lily.


– É, viva. Disse que ela começou a se mexer no braço de Peter e que ele começou a gritar e que a marca ficou vermelha como se estivesse em brasa e, então, a caveira começou a vomitar...


– Vomitar? – repetiu Harry sem entender.


– É – confirmou Sirius – a cobra saiu dali, viva, e depois, o carcereiro falou em aranhas, escorpiões, besouros, lacraias e mais serpentes e... – ele parou com um arrepio.


Lily levou as mãos à boca e ficou como um espelho de Sonja, o horror estampado nos olhos verdes. Dumbledore pareceu também ter compreendido o que ocorrera e James negava com a cabeça, incrédulo e chocado.


– O que houve? – Harry quase gritou.


– Os bichos... eles devoraram Peter.


 


 


XXX----XXX


 


 


N/B (Pri): UAU. Se eu deixasse a minha notinha só assim, já estaria dizendo tudo sobre o capítulo. Resumidamente falando, é claro. Primeiro a gente prende a respiração até o Harry ser salvo e quando acha que já acabou, lá vem a Sally com a morte horrorosa do Peter. Vamos combinar, que nem ele merecia uma morte tão... terrível, nojenta, sei lá... De novo um capítulo perfeito. Parabéns comadre. Mil beijos.


NB/Sonia: Ah, minha Anam! Ler você me faz um bem imenso! Nem muito folego pra fazer meus comentários alucinados eu tive! O capítulo todo está... CARAMBA! - O sofrimento e a dor do Harry, antecipando a descoberta da veia Grifinória quilométrica que ele tem, passando pelo resgate, (por falar nisso: UFA!), pelo dragão rosa rajado de azul que pai e filho terão de caçar juntos e então, o final epicamente justo - a morte mais que merecida daquele roedor traíra de olho junto!YES!!!!!! - Você sabe que eu estou aplaudindo, mas está mais barulhento do que imagina! =D - Um beijo no seu coração, comadre Anam! Te amo! SUUUUUUUUCEEESSSSOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


 


 


N/A: Queridos leitores e amigos,


finalmente o capítulo 19 da Floresta. Este nem demorou tanto assim, não é? Brincadeira, sei como é esperar por um capítulo de fic que nunca vem (Sônia Sag não me deixa mentir). Quero, por isso, agradecer a enorme paciência de vocês em esperar e se manterem fiéis à leitura da fic. Dá uma satisfação enorme receber os comentários, os pedidos de atualização (alguns até com ameaças, rsrs), e perceber que, apesar da demora, a comunidade das fics continua firme e aumentando o número de membros. Isso mostra que há mais gente lendo que comentando, o que também me deixa muito feliz. Muito obrigada, mesmo.


Novamente, peço desculpas por não responder os comentários um a um como gosto tanto. Infelizmente, isso leva um tempo que não tenho mais. Por isso peço que compreendam e que, mesmo assim, não deixem de me dar o tão importante feedback sobre a fic. Se tiverem um tempinho, não deixem de me enviar nem que seja uma frase.


 


Falando da fic, como eu já havia comentado, este capítulo encerra o que chamei de primeira fase de A Floresta das Sombras. Chamei assim porque, depois dos acontecimentos narrados aqui, muita coisa mudará. Talvez, por isso, eu tenha preferido não fazer um capítulo pós-climax, para mostrar como as coisas se acomodaram (ao estilo da tia Jô). O motivo é que... desculpem, vocês terão de conferir nos próximos capítulos, hehe.


 


Até lá, um beijo estalado na bochecha de cada um e um abraço forte


Sally


 


P.S.: Espero que este final tenha causado em vocês os mesmo sentimentos ambivalentes que causaram no Harry e nas minhas duas betas. =]

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