Era mesmo incrível como a água do Lago assumia tantas cores diferentes. De manhã cedo, quando o sol estava nascendo, sua superfície era uma mistura de azul claro com laranja. Depois, quando as horas iam passando, assumia um tom de azul bebê mais escuro que o céu. Quando a tarde caía, assumia um tom de verde no tom das copas das árvores. Quando o sol ia se pondo, sua superfície era de um laranja intenso, e finalmente, quando a noite caía, era azul marinho ou negro.
Mas, nada se comparava à beleza da vida marinha. Nada se comparava a variação de cores de dentro do Lago. Havia uma coleção infinita de cardumes coloridos. Corais azuis, laranjas, verdes e de todas as cores cobriam pedras, areia, e onde a vista alcançasse. Algas, moluscos e estrelas do mar embelezavam o Lago.
Hermione adorava acompanhar os cardumes. Ela tinha levantado mais cedo aquele dia, e, como não encontrou nenhuma das meninas, foi nadar sozinha. Admitia que estava negligenciando um pouco seus deveres, mas ela também merecia uma trégua.
Sentiu algo cutucar seu ombro direito e virou-se assustada. Um grande tentáculo estava se escondendo rápido atrás de um coral laranja. Hermione nadou depressa até lá, e se deparou com a Lula Gigante.
Qualquer outra pessoa que estivesse cara a cara com uma Lula tão grande provavelmente teria pirado e saído o mais depressinha dali. Mas Hermione, como os outros estudantes de Hogwarts, sabia muito bem que a Lula Gigante era uma criatura extremamente dócil e amigável.
Ela se divertiu mais um pouco com a Lula, até se dar conta de que já devia estar a tempo demais embaixo d’água, e sua aula de Herbologia provavelmente ia começar em alguns instantes. Despediu-se da Lula e bateu rapidamente a cauda roxa para a superfície.
Pegou o relógio e constatou que até que estivesse completamente seca, a aula de Herbologia ia estar começando, e ela não poderia tomar café da manhã. Anotou mentalmente a necessidade de aprender um feitiço que protegesse seu relógio embaixo d’água para a próxima vez.
Tal como previra, quando Hermione ficou finalmente seca, seus colegas já se encaminhavam para as estufas. A garota saiu correndo e derrapou ao lado de Rony e Harry.
-Mas onde é que você estava? – perguntou Rony assustado.
-Procuramos você em todo o Salão Principal, Mione. – disse Harry.
-Pensamos que estivesse na biblioteca... – acrescentou Rony.
-Não importa agora. – disse ela rispidamente, e entrou, sentindo o estômago roncar, na estufa.
***
Aquela manhã, Gina tinha se atrasado completamente para a aula de Feitiços. Corria desembalada pelo corredor, esperando sinceramente que o prof.º Flitwick não se importasse. Ia virando a esquina do corredor de Feitiços quando uma voz a fez recuar e se esconder instintivamente.
-Já sabem da piada da vez? – perguntou uma voz arrastada.
Draco Malfoy estava com seus dois comparsas vinte e quatro horas, os três encostados na parede despreocupadamente, segurando copos de suco de abóbora, cada um.
-Parece que o Weasley pai vai concorrer à ministro da Magia. – disse Malfoy com uma risada debochada. – É informação confidencial, só vai ser divulgada no começo do mês que vem, quando a candidatura for oficial, mas meu pai tem bons contatos no ministério. É, ele soube da boca de MacNair, sabem, o cara que trabalha para o Ministério com criaturas perigosas.
Gina estacara no corredor. Malfoy continuou:
-Mas meu pai vai dar um jeito nisso. Ele também se candidatou. Vai esmagar o Weasley traidor do sangue da mesma forma que se esmaga um inseto. – e os três deram algumas risadas ao gesto que Malfoy fez como se matasse um inseto imaginativo com as mãos. – Papai já fez algumas doações para o Ministério e para o St. Mungus... sabem como é, um político tem que bancar o bom samaritano.
E os três riram gostosamente. Gina sentia as orelhas arderem de fúria. Aliás, sentia o corpo todo queimando.
-Meu pai vai garantir que o Weasley caia fora de vez do Ministério. Ele e aquelas suas leis estúpidas de proteção aos trouxas. – Aí Malfoy deu um grande sorriso debochado. – E com meu pai no comando, finalmente os trouxas e sangues-ruins vão para o lugar deles. – e cuspiu no chão. – Quem sabe até não tomamos também o chiqueiro que eles chamam de casa?
Os três gargalharam alto. Mas Gina estava furiosa. Queria se vingar. Olhou de seu esconderijo para os três, e para os copos que eles seguravam. Estendeu a mão em sua direção e fechou o punho. O líquido dos copos instantaneamente ferveu, borbulhou, e entrou em ebulição. Os três gritaram e deixaram os copos caírem e se racharem. Olharam chorosos para as mãos queimadas e correram para a Ala Hospitalar.
Gina olhava com um misto de orgulho, espanto e satisfação para a própria mão. Olhou para o relógio. “Droga” – pensou – “o sinal já vai tocar. Bom, melhor eu ir almoçar já que perdi a aula mesmo...”
***
Hermione largou Harry e Rony na sala de Transfiguração e saiu o mais rápido que pôde rumo ao Salão Principal. A garota quase não se aguentava em pé de tanta fome. Andava tão rápido que mal sentiu quando atravessou sem querer Nick Quase Sem Cabeça.
-Que pressa é essa, Mione? – perguntou Harry quando finalmente chegou ao Salão Principal. A garota já tinha se servido de peixe cozido.
-É que eu não tomei café. – disse ela dando de ombros.
-E desde quando você gosta de peixe? – perguntou Rony espantado com a velocidade que a garota comia.
-Não sei... desde sempre, eu acho... – disse ela sem pensar de verdade na pergunta.
Depois de ter terminado seu primeiro prato, a garota se serviu mais tranquilamente e comeu como os amigos estavam acostumados a vê-la comer. Naquele momento, Gina se sentou afogueada ao lado da morena. Hermione a mirou curiosa.
-O que houve? – perguntou.
Harry e Rony também olharam para Gina. A ruiva não respondeu. Apenas sacudiu a cabeça em um claro sinal de que mais tarde contaria tudo. Hermione se conformou.
-Oi gente. – disse uma voz sonhadora. – Posso sentar aqui com vocês? Não sei porque, mas o pessoal da minha mesa fica me encarando.
Luna havia chegado. Rony, Harry, Hermione e Gina olharam para a mesa da Corvinal, e, na opinião deles “o pessoal da minha mesa” era bondade dela. A garota estava usando seus típicos brincos de rabanete, e atraía olhares a torto e a direito. Os meninos não ligavam muito, mas as meninas cochichavam entre si, apontavam e davam risadinhas, e, agora que ela estava perto de Gina e Hermione, as duas também eram alvo. Rony e Harry não gostaram nada daquilo e mandaram Luna sentar logo.
-Hey, Harry. – disse uma voz atrás do garoto. Ele se virou e se deparou com Romilda Vane, uma morena do quarto ano, segurando uma taça de ouro cheia d’água. Gina e Hermione não iam com a cara dela. – Então, o próximo passeio para Hogsmead é em duas semanas...
-Sério? – perguntou Harry fingindo falso interesse.
-É! – disse a garota empolgada. – Então... estive pensando, sabe... será que você não quer ir comigo? Não precisa andar com eles. – e indicou com um gesto vago Hermione, Gina, Luna e Rony.
Os quatro se entreolharam espantados. Ela falava como se eles nem estivessem presentes. Hermione e Gina franziram as sobrancelhas. Harry olhou para ela zangado.
-Bom, eles são meus amigos.
-Ah... bem... claro. – disse a garota ligeiramente frustrada. Mas então recuperou o tom animado. – E então, topa ir comigo?
Harry a mirou por um instante e depois passou os braços pela cintura de Hermione e a puxou para mais perto. Hermione o olhou, assustada.
-Na verdade eu vou com a Mione. – disse Harry dando um beliscão escondido na cintura de Hermione em um claro sinal de “não me desminta”. Hermione segurou a careta e ficou ligeiramente corada.
Romilda olhou para Harry com um olhar incrédulo, e depois mirou Hermione com raiva.
-Tudo bem então. – disse colocando rapidamente um sorriso simpático para Harry.
A garota virou-se para ir embora, fingiu tropeçar e derramou toda a água que carregava em sua taça em cima da saia de Hermione.
-Oh, me desculpe! Juro que não vi. – deu uma risadinha malvada e saiu.
Hermione olhou para Gina e Luna. As três tinham a mesma expressão de horror nos rostos. Harry e Rony olhavam para Romilda com os olhos cerrados.
-O que eu faço? – sussurrou Hermione desesperada.
-Deixa comigo. – disse Gina.
A ruiva discretamente estendeu a mão direita por cima da saia de Hermione. Fechou os punhos devagarzinho e em cinco segundos a água tinha evaporado. Luna e Hermione olharam nervosas, mas os dez segundos passaram e a morena não ganhou nenhuma cauda. As três suspiraram aliviadas. Tudo isso aconteceu tão rápido que ninguém nem notou, e, quando Harry se virou para verificar se Hermione estava okay, levou um susto ao ver que ela não estava molhada em canto algum.
-Ué, cadê a água? – perguntou ele mirando a saia da garota.
Hermione cruzou as pernas e colocou as mãos sobre o colo. Hary reparou, com o movimento dela, que ela tinha belas pernas. “Cala a boca, Harry Potter, ela pode ser linda, mas continua sendo a Mione”.
-Sequei. – disse ela mostrando a varinha.
Gina, Luna e Rony já tinham voltado ao almoço, como se nada anormal tivesse acontecido.
-Mas, falando de algo mais estranho... – disse Hermione olhando para Harry com os olhos semicerrados. – Eu vou com você à Hogsmead, é?
Harry corou violentamente, pigarreou e disse:
-Bom... eu só disse aquilo para a Romilda sair do meu pé.
-Ah, claro. Era de supor que você prefira a companhia de um homem. – disse Hermione voltanto a atenção para o prato e se esforçando para evitar um sorrisinho de canto de boca que teimava em querer aparecer.
Harry arregalou os olhos para Hermione.
-Um homem? Como assim?
-Que você talvez prefira andar por Hogsmead com o Rony ué... não é sempre assim? – perguntou ela cinicamente, ainda encarando o prato.
Harry a olhou zangado, puxou seus ombros, de modo que a garota ficasse frente a frente com ele e disse:
-Está insinuando que eu sou gay?
Depois dessa, a garota não pôde mais segurar. Riu gostosamente, atraindo a atenção de Rony, Luna e Gina.
-Só estou brincando, Harry.
-Bom, mocinha, acho bom que você vá comigo a Hogsmead. – disse Harry dividido entre a seriedade e o riso.
-Para evitar outra abordagem da Romilda? – perguntou ela erguendo uma sobrancelha.
-Também. – disse ele simplesmente. – E porque eu quero a sua companhia. Rony vai com a Lilá, e eu não quero ficar sozinho.
-E por que não convida uma garota de quem você esteja afim? – perguntou Hermione sentindo uma pontada de ciúmes.
Harry pareceu aturdido por um tempo. Hermione não queria ir com ele? Era isso?
-Não quer ir comigo?
-Claro que quero! – disse ela indignada. – Só pensei que...
-Ótimo! – interrompeu-a Harry. – Então eu te espero na Sala Comunal.
E Harry voltou-se para o seu almoço. Hermione estava completamente confusa, mas muito feliz. Gina, Luna e Rony trocavam olhares significativos.