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ATENÇÃO: Esta fic pode conter linguagem e conteúdo inapropriados para menores de idade então o leitor está concordando com os termos descritos.

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3. Capítulo 3


Fic: Retratos de um Verão


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Gina estava acordada e vestida às sete da manhã, mas não se achava preparada para conversar com ninguém. Segurava a maleta e o tripé com uma das mãos, duas bolsas com câmeras e sua bolsa pessoal estavam atravessadas nos ombros. No instante em que Harry freou ela estava descendo a escada em direção à calçada. Achava importante ser pontual, mas não ficava necessariamente alegre com isso.


Deu um grunhido para Harry; era o mais próximo de uma saudação que podia conseguir naquela hora. Em silêncio, guardou seu equipamento na van, jogou-se no assento do carona, esticou as pernas e fechou os olhos.


Harry olhava para o que conseguia enxergar do rosto dela, escondido atrás de óculos escuros redondos com lentes cor de âmbar e embaixo de um chapéu de palha puído.


— Noite ruim? — perguntou ele, mas ela já estava dormindo. Balançando a cabeça, ele soltou o freio de mão e deu partida no carro. Estavam a caminho.


Harry não se importava de fazer longas viagens de carro. Isso lhe dava uma chance de pensar ou não pensar, dependia dele.


Em menos de uma hora, já estava fora do tráfego de Los Angeles e indo para o nordeste pela rodovia interestadual. Gostava de dirigir ao nascer do sol, com a estrada livre à frente. A luz ricocheteava no aço cromado da van, tremeluzia no capô e cortava os sinais da estrada.


Ele planejou percorrer entre 800 e 950 quilômetros naquele dia, até Utah, a menos que alguma coisa interessante chamasse sua atenção e tivessem de parar para uma foto. Depois desse primeiro dia, não via razão para ficarem se preocupando com a quilometragem percorrida. Perturbaria o ponto central do projeto, Dirigiriam de acordo com a necessidade, trabalhando nas localidades que haviam previamente definido.


Estabelecera um roteiro que podia ser facilmente alterado, mas não traçara nenhum itinerário. A única obrigatoriedade era estarem na Costa Leste no Dia do Trabalho, na primeira segunda-feira de setembro. Ligou o rádio baixinho numa estação que tocava música country enquanto dirigia num ritmo estável. Ao seu lado, Gina dormia.


Se esta era a rotina dela, refletiu ele, não teriam problema algum. Enquanto ela estivesse dormindo, não ficariam se atazanando. Ou excitando um ao outro. Mesmo agora ele imaginava por que pensar nela o tinha mantido inquieto durante a noite. O que havia nela que o preocupava? Não sabia, o que já era uma preocupação em si.


Harry gostava de poder resolver problemas desmontando-os em pequenos pedaços para mais tarde remontá-los de acordo com sua preferência. Embora ela estivesse quieta, quase reservada, naquele instante, ele não acreditava que pudesse se utilizar deste método com Gina Weasley.


Após sua decisão de aceitar o trabalho, ele estabelecera como prioridade profissional descobrir mais coisas sobre ela. Harry talvez preservasse sua vida pessoal e rosnasse para garantir sua privacidade, mas de maneira alguma era desprovido de contatos. Conhecia o trabalho dela para Celebrity, e também os outros trabalhos mais personalizados e inventivos para revistas como Vanityeln Touch. Ela se transformara, ao longo dos anos, numa artista cult ou qualquer coisa do tipo, com suas fotografias excêntricas e quase sempre radicais dos famosos.


O que não sabia era que ela era filha de uma pintora e de um poeta, ambos excêntricos e quase famosos moradores de Carmel. Ela fora casada com um contador antes dos vinte anos de idade, divorciando-se três anos depois. Namorava com uma naturalidade quase estudada e tinha alguns planos vagos de comprar uma casa de praia em Malibu. Era bastante admirada, respeitada e, sem sombra de dúvida, confiável. Ela fazia tudo quase sempre devagar — uma combinação de busca pela perfeição e sua crença de que a pressa é um desperdício de energia.


Não encontrara nada surpreendente em sua pesquisa, assim como também não achou nenhuma pista de por que se sentia tão atraído por ela. Mas um fotógrafo, um fotógrafo de sucesso, é paciente. Ocasionalmente precisa voltar ao objeto diversas vezes até compreender seu verdadeiro envolvimento emocional com ele.


Quando atravessaram a divisa com Nevada, Harry acendeu um cigarro e baixou o vidro da janela. Gina agitou-se, resmungou e tateou em busca da bolsa.


— Bom dia. Harry olhou-a de relance com o canto dos olhos.


— Hum, hum.


Gina mexeu na bolsa, pegou a barra de chocolate e ficou aliviada. Com dois golpes rápidos, desenrolou a embalagem e jogou o papel na bolsa. Ela normalmente retirava o excesso de lixo da bolsa antes de transbordar.


— Você sempre come doce no café?


— Cafeína. — Deu uma enorme mordida e suspirou. — Prefiro a minha dose diária dessa forma. — Esticou-se lentamente, torso, ombros, braços, num longo e sinuoso movimento completamente ao acaso. Era, pensou Harry, com ironia, uma prova definitiva de como ela o atraía. — E então, onde é que estamos?


— Nevada. — Ele deu uma baforada para fora da janela. Ainda.


Gina cruzou as pernas enquanto mastigava o chocolate.


—Deve estar na hora de eu dirigir.


— Eu aviso.


— Tudo bem. — Ela estava contente por estar na carona enquanto ele estivesse contente de estar dirigindo. Contudo, olhou para o rádio de modo significativo. Música country não era o seu estilo. — O motorista escolhe a música.


Ele deu de ombros, aceitando.


— Se quiser beber alguma coisa com o chocolate, tem suco lá atrás.


— Tem?


Sempre interessada em colocar alguma coisa no estômago, Gina soltou-se e dirigiu-se para a parte de trás da van.


Ela não prestara a atenção na van de manhã, no máximo fizera um exame rápido o suficiente para saber que era preta e bem-cuidada. Possuía assentos acolchoados de cada lado que poderiam servir muito bem de cama, se a pessoa não fosse muito exigente,. Gina imaginou que o carpete seria a melhor opção.


O equipamento de Harry estava bem acomodado, e o dela jogado de qualquer maneira num canto. Em cima, um guarda-volumes preto e brilhante continha alguns itens básicos. Café, uma chapa para esquentar e uma pequena chaleira. Seriam úteis, pensou ela, caso parassem em algum acampamento com tomadas disponíveis. No momento, ficou com a jarra de suco.


— Quer um pouco?


Ele olhou pelo retrovisor e a enxergou em pé, as pernas ligeiramente separadas para se manter equilibrada, uma das mãos no guarda-volume.


— Quero.


Gina levou dois imensos copos de plástico e a jarra com suco para seu assento.


— Todo o conforto de casa — comentou ela, com um movimento de cabeça. — Você viaja muito nisso?


— Quando é necessário. — Ele ouviu o gelo bater no copo e estendeu a mão. — Não gosto de viajar de avião. Você perde qualquer oportunidade de registrar alguma foto no caminho. — Depois de jogar o cigarro pela janela, bebeu seu suco. — Se é um trabalho distante até oitocentos quilômetros, prefiro dirigir.


— Odeio viajar de avião. — Gina acomodou-se no vão entre o assento e a porta. —Tenho a impressão de estar sempre tendo de voar para Nova York para fotografar alguém que não pode ou não quer vir até mim. Levo um vidrinho de antiácido, um pacote de chocolate, um pé-de-coelho e algum livro socialmente significativo e educativo. Dá conta de todas as minhas necessidades.


— O antiácido e o pé-de-coelho, talvez.


— O chocolate é para os meus nervos. Gosto de comer quando estou tensa. O livro é para minha consciência culpada. — Ela mexeu o copo, fazendo as pedras de gelo chacoalharem. — É como se eu dissesse, olha só, estou fazendo algo edificante. Não vamos estragar tudo deixando o avião cair. E, ainda por cima, o livro me faz dormir em vinte minutos.


Harry conseguiu dar um risinho, algo que Gina identificou como um sinal esperançoso para os próximos milhares de quilômetros que percorreriam.


— Isso explica tudo.


— Tenho fobia de viajar a trinta mil pés de altitude dentro de um pesado tubo de metal com pessoas estranhas, muitas das quais gostam de contar detalhes íntimos de suas vidas para a pessoa ao lado. — Ela colocou os pés no painel e deu um risinho. — Prefiro muito mais atravessar o país de carro com um fotógrafo mal-humorado que faz questão de falar comigo o mínimo possível


Harry lançou-lhe um olhar de soslaio e decidiu que não havia mal algum em participar do jogo, contanto que ambos soubessem as regras.


— Você não me perguntou nada.


— Tudo bem, vamos começar com algo bem básico. De onde vem Harry? Estou me referindo ao nome.


Ele diminuiu a velocidade para fazer uma parada.


— Harold.


Os olhos dela ficaram esbugalhados de apreciação.


— Tipo Meschach e Abednego, do Livro de Daniel?


— Exato. Minha mãe decidiu dar a cada um dos rebentos um nome um pouco enrolado. Eu tenho uma irmã que se chama Cassiopeia. Por que Gina?


— Meus pais quiseram provar que não eram sexistas. Assim que a van parou num estacionamento, Gina desceu e inclinou-se para baixo, colocando as palmas da mão sobre o asfalto, chamando a atenção do homem que entrava no Pontiac a seu lado. Desnorteado pela visão, ele levou meio minuto para acertar a chave na ignição.


— Meu Deus, estou tão dura! — Ela se esticou, ficando nas pontas dos pés, e depois voltando à posição normal. — Olhe, tem uma lanchonete ali. Vou comprar umas batatas fritas. Quer também?


— São dez horas da manhã.


— Quase dez e meia — corrigiu ela.—Além do mais, tem gente que come batata assada no café-da-manhã. Qual é a diferença?


Ele estava certo de que havia uma, mas não estava a fim de debater.


—Vá em frente. Eu quero comprar um jornal.


— Legal. — Em seguida, Gina lembrou-se de pegar a câmera e entrou novamente no carro. — Encontro você aqui em dez minutos.


As intenções eram boas, mas ela levou quase vinte minutos. Mesmo quando já estava quase no balcão, a fila de pessoas à espera de fast-food chamou sua atenção. Seriam, talvez, dez pessoas uma atrás da outra em frente a um painel luminoso onde estava escrito Eat Qwik.


Estavam vestidos com bermudas largas, vestidos de verão vincados e calças de algodão. Um adolescente encurvado usava um short de couro que parecia ter sido pintado. Uma mulher bem atrás na fila usava um chapéu com abas largas adornado com uma fita flutuante.


Estavam todos indo para algum lugar, onde todos esperavam chegar, e nenhum deles prestava nenhuma atenção em mais ninguém. Gina não conseguiu resistir. Saiu de uma fila e foi para outra até achar o ângulo mais favorável.


Bateu as fotos de trás, de modo que fizesse com que a fila parecesse alongada e desarticulada e o painel se agigantasse. O homem atrás do balcão, servindo os clientes, não era nada mais do que uma vaga sombra que poderia ou não estar ali. Levou bem mais do que os dez minutos previstos até se colocar novamente atrás da fila.


Harry estava encostado na van, lendo o jornal, quando ela voltou. Já batera três fotos bastante estudadas do estacionamento, focalizando uma fileira de carros com placas de cinco estados diferentes. Quando levantou os olhos, Gina tinha sua câmera pendurada no ombro, um imenso milk-shake de chocolate numa das mãos e uma gigantesca porção de batatas fritas coberta de ketchup na outra.


— Desculpe. — Enfiou a mão na caixa de fritas enquanto caminhava. — Tirei algumas boas fotos da fila na lanchonete. Toda aquela pressa e espera do meio do verão, não é?


—Você vai conseguir dirigir com tudo isso?


— Claro. — Foi na direção do assento do motorista. — Estou bem acostumada.


Ela equilibrou o milk-shake entre as coxas, colocou as batatas fritas bem à frente e estendeu a mão para pegar as chaves.


Harry baixou os olhos na direção do café-da-manhã aconchegado entre pernas bem lisas e morenas.


— Ainda está me oferecendo?


Gina virou a cabeça para checar o retrovisor enquanto dava uma ré.


— Não. — Deu uma rápida virada no volante e foi em direção à saída. — Você teve sua chance. — Com uma das mãos firmes no volante, enfiou a outra novamente na caixa de batatas fritas.


— Comendo dessa maneira, você vai acabar tendo espire até o umbigo.


— Isso é mito — disse ela e ultrapassou um automóvel que ia lentamente. Com alguns rápidos ajustes, conseguiu sintonizar uma rádio que estava tocando uma antiga canção de Simon e Garfunkel. — Isso sim, é música — disse ela. — Gosto de músicas que me dão um visual. Música country quase sempre fala de mágoa, traição e bebedeiras.


— É vida.


Gina pegou o milk-shake e mexeu no canudo.


— Talvez. Acho que me canso com excesso de realidade. Já o seu trabalho depende disso.


— E o seu normalmente se desvia disso.


Ela franziu as sobrancelhas, mas em seguida relaxou deliberadamente. A seu modo, ele estava certo.


— O meu me dá opções. Por que aceitou esse trabalho, Harry? — perguntou de súbito. — O verão nos Estados Unidos significa diversão. Esse não é o seu estilo.


— Também significa suor, colheitas morrendo por causa do excesso de sol e nervos em frangalhos. — Ele acendeu um cigarro. — Isso faz mais o meu estilo?


— Você está dizendo, não eu. — Ela sentia o milk-shake no céu da boca. — Fumando desse jeito, você vai acabar morrendo.


— Cedo ou tarde.


Harry abriu novamente o jornal e deu por encerrada a conversa.


Quem era esse cara?, perguntou Gina a si mesma, mantendo a velocidade constante. Que fatos em sua vida produziram o cinismo e também a genialidade? Havia humor nele — percebera isso uma ou duas vezes. Mas ele parecia se permitir apenas uma pequena porção, e nada mais.


Paixão? Ela podia atestar em primeira mão que havia um barril de pólvora dentro dele. O que o faria explodir? Se tinha uma certeza sobre Harry Potter, era que ele se auto-impunha um rígido controle. A paixão, a força, a fúria — não importa o rótulo que se dê — eram visíveis em seu trabalho, mas não, e ela estava certa disso, em sua vida pessoal. Pelo menos não freqüentemente.


Ela sabia que devia ser cuidadosa e distante; seria a forma mais inteligente de sair deste longo trabalho sem nenhuma cicatriz. Contudo, queria penetrar na personalidade dele, e sabia que teria de resistir à tentação. Teria de apertar os botões e observar o resultado, provavelmente porque não gostava dele ao mesmo tempo em que se sentia atraída.


Ela lhe contara a verdade quando dissera que não conseguia imaginar outra pessoa de quem não gostasse. Isso caminhava lado a lado com a visão que tinha de sua própria arte — ela olhava para uma pessoa e encontrava qualidades, nem todas admiráveis, nem todas simpáticas, mas alguma coisa, sempre alguma coisa, ela podia compreender. Precisava fazer a mesma coisa com Harry, para si mesma. E porque, embora esperasse o momento propício para lhe dizer isso, queria muito fotografá-lo.


— Harry, tem uma outra coisa que quero lhe perguntar. Ele não tirou os olhos do jornal.


— Hein?


— Qual é o seu filme favorito?


Meio irritado pela interrupção, meio confuso com a pergunta, ele levantou os olhos e se perguntou mais uma vez como ficaria o cabelo dela sem aquela trança espessa e desarrumada.


— O quê?


— Seu filme favorito — repetiu ela. — Preciso de uma pista, um ponto de partida.


— Para quê?


— Para descobrir por que acho você interessante, atraente e impossível de se gostar.


— Você é uma mulher estranha, Gina.


— Não, não mesmo, embora tenha todo o direito de ser.—Ela parou de falar no instante em que trocava de faixa na estrada. — Qual é, Harry? Vai ser uma longa viagem. Vamos ver se a gente diverte um ao outro nessas questões menores. Me diga um filme.


— Uma aventura na Martinica.


— O primeiro filme de Bogart e Bacall juntos. — Isso a fez sorrir para ele daquele jeito que ele já decidira que era perigoso.


— Bom. Se você tivesse falado algum filme francês obscuro, eu ia precisar arranjar outra coisa. Por que esse filme?


Ele colocou o jornal de lado. Quer dizer que ela estava a fim de brincar. Não faria mal algum, decidiu. E ainda tinham um longo dia pela frente.


— Química cinematográfica, roteiro bem amarrado e um trabalho de câmera que fez Bogart parecer o herói consumado e Bacall a única mulher que lhe poderia fazer frente.


Ela assentiu com a cabeça, satisfeita. Ele não se colocava acima das pessoas que gostavam de heróis, fantasias e relacionamentos esfuziantes. Talvez fosse uma questão menor, mas ela poderia gostar dele por isso.


— Filmes me fascinam, e também as pessoas que os fazem. Creio que essa foi uma das razões que me levaram a dar pulos de alegria com a oportunidade de trabalhar em Celebrity. Já perdi a conta de quantos atores fotografei, mas quando os vejo na telona, fico fascinada.


Ele sabia que seria perigoso fazer perguntas, não por causa das respostas, mas por causa das perguntas que seriam feitas depois. Mesmo assim, queria saber.


—É por isso que você fotografa as pessoas bonitas? Porque deseja ficar perto do glamour.


Como considerou aquela uma pergunta justa, Gina resolveu não ficar irritada. Além disso, aquilo a fez pensar em algo que parecia estar surgindo ao acaso, sem qualquer planejamento.


— Talvez eu tenha começado mesmo com alguma coisa desse tipo na cabeça. Mas logo, logo, a gente passa a vê-los como pessoas comuns que têm um trabalho fora do comum. Gosto de encontrar aquela centelha que os transformou nos eleitos.


— Contudo, nos próximos três meses você vai estar fotografando o cotidiano. Por quê?


— Porque existe uma centelha em todos nós. Também quero descobri-la numa fazenda do Iowa.


Então ele conseguiu sua resposta.


— Você é uma idealista, Gina.


— Sou. — Ela lhe lançou um olhar franco e atento. — Eu deveria ficar envergonhada com isso?


Ele não gostou da maneira com a qual aquela calma e ponderada pergunta o afetou. Ele próprio já tivera seus ideais, no passado, e sabia o quanto doía eles terem sido tão bruscamente arrancados de si.


— Envergonhada não — disse ele, depois de um instante —, deveria ser cuidadosa.


Viajaram por horas. No meio da tarde, trocaram de posição e Gina deu uma olhada no jornal de Harry. Com consentimento mútuo, saíram da estrada principal e começaram a seguir pelas secundárias. O padrão passou a ser conversas esporádicas e longos silêncios. Já era início da noite quando atravessaram a divisão do Idaho.


— Esqui e batatas — comentou Gina. — É isso que me vem à cabeça quando penso no Idaho.


Arrepiou-se de frio e fechou a janela. O verão chegava sem nenhuma pressa no norte, especialmente quando o sol baixava. Espiou o crepúsculo através da janela.


Ovelhas, centenas delas, no que parecia quilômetros e quilômetros de brancura, pastavam preguiçosamente na grama dura que margeava a estrada. Ela era uma mulher da cidade, das autoestradas e dos prédios comerciais. Harry talvez se surpreendesse se soubesse que ela jamais estivera tão ao norte do país, e nem tão a leste, exceto de avião.


Aquela vastidão de plácidas ovelhas a fascinou. Já estava atrás da câmera quando Harry praguejou e pisou no freio. Gina caiu no chão.


— Para que isso?


Ele viu, de relance, que ela não estava machucada, nem mesmo irritada, mas apenas curiosa. Nem se preocupou em pedir desculpas.


— Maldita ovelha na estrada.


Gina conseguiu pôr-se de pé e olhou pelo pára-brisa. Três ovelhas estavam alinhadas, quase atravessadas na estrada, indiferentes a tudo. Uma delas virou a cabeça, olhou para a van e em seguida virou novamente a cabeça.


— Parece até que estão esperando o ônibus — disse ela e agarrou o braço de Harry antes que ele buzinasse. — Não, espere um minuto. Eu nunca toquei numa ovelha.


Antes que Harry pudesse fazer qualquer comentário, ela já estava fora da van, correndo em direção às ovelhas. Uma se afastou um pouco quando ela se aproximou, mas a grande maioria das ovelhas não poderia estar mais despreocupada. A irritação de Harry começou a desaparecer quando a viu inclinar-se e tocar um dos animais. Ele pensou que todas as mulheres provavelmente teriam a mesma sensação ao tocar a pele de qualquer animal exposta para venda. Satisfação, hesitação e um estranho prazer sexual. E a luz estava boa. Ele pegou a câmera e selecionou um filtro.


— Qual é a sensação?


— Macia... não tão macia quanto eu imaginava. Viva. Nem um pouco parecido com um casaco de lã de carneiro. — Ainda inclinada, uma das mãos na ovelha, Gina levantou o olhar. Ficou surpresa de ver-se cara a cara com uma câmera. — Para que isso?


— Descoberta. — Ele já tirara duas fotos, porém queria mais. — Descoberta tem muita coisa a ver com verão. Qual é o cheiro delas?


Intrigada, Gina aproximou-se ainda mais da ovelha. Ele a enquadrou quando seu rosto estava enterrado no corpo do animal.


— Cheiro de ovelha — disse ela, rindo, e empertigou-se. — Quer brincar com ela? Eu tiro umas fotos suas.


— Uma outra ocasião, talvez.


Ela parecia pertencer àquele lugar, àquela longa e deserta estrada cercada por faixas de terra vazia, e isso o deixava confuso. Ele imaginara que ela se encaixaria bem em Los Angeles, no meio do superficial e do ilusório.


— Algo errado?


Ela sabia que Harry estava pensando nela quando a olhava daquela maneira. Ela desejava poder dar um passo além daquele, contudo teve uma estranha sensação de alívio por não ter dado.


— Você se adapta bem.


Ela deu um sorriso hesitante.


— Assim é mais simples. Eu lhe disse que não gostava de complicações.


Ele voltou para a van, percebendo que estava pensando muito nela.


— Vamos ver se a gente consegue fazer essa ovelha sair daí.


— Mas, Harry, você não pode simplesmente deixá-las ao lado da estrada. — Ela correu de volta para a van. — Elas vão acabar voltando. E podem ser atropeladas.


Ele olhou para ela demonstrando claramente que não estava ligando.


— O que espera que eu faça? Você quer que eu junte todas elas!


— O mínimo que a gente pode fazer é colocá-las de volta no outro lado da cerca.


Como se ele houvesse concordado do fundo do coração, Gina virou-se e começou a seguir na direção das ovelhas. Enquanto ele observava, ela se abaixou, agarrou um dos bichos e quase perdeu o equilíbrio. As outras duas baliram e se dispersaram.


— Mais pesadas do que parecem — conseguiu dizer ela e começou a cambalear até a cerca que margeava a estrada enquanto a ovelha que ela carregava balia, se debatia e lutava. Não foi fácil, mas após um teste de vontade e força bruta, ela jogou a ovelha por cima da cerca. Com uma das mãos, enxugou o suor da testa enquanto reclamava com Harry: — E aí, vai ajudar ou não?


Ele estava adorando o espetáculo, mas não sorriu ao recostar-se na van.


— Elas provavelmente vão encontrar o buraco na cerca e estar de volta em dez minutos.


— Talvez sim — disse Gina, quase rosnando, enquanto se preparava para pegar a segunda. — Mas pelo menos vou ter feito o que deveria ser feito.


— Idealista — repetiu ele.


Com as mãos na cintura, girou sobre si mesma.


— Cínico.


— Contanto que a gente se entenda. — Harry empertigou-se. — Vou ajudá-la.


As outras não foram tão facilmente ludibriadas quanto a primeira. Harry levou vários extenuantes minutos para pegar a número dois, com Gina pastoreando. Por duas vezes perdeu a concentração e a presa porque a súbita gargalhada de Gina o distraiu.


— Duas já foram e só falta mais uma — anunciou ele, soltando a ovelha no pasto.


— Mas essa aí parece bem teimosa. — Em lados opostos da estrada, os salvadores e a vítima estudavam-se mutuamente. — Olhar astuto — murmurou Gina —, acho que aquele é o líder.


— A líder.


— Pouco importa. — Olha só, finge estar indiferente. Você vai por ali e eu sigo por aqui. Assim que ela estiver no meio, bum!


Harry lançou-lhe um olhar cauteloso.


— Bum?


— Siga o meu comando, só isso.


Ela colocou os polegares nos bolsos traseiros da calça e começou a caminhar despretensiosamente até a estrada, assobiando.


— Gina, você está tentando pensar mais do que uma ovelha. Ela lançou-lhe um olhar brando por cima dos ombros.


— De repente, a gente se entende.


Ele não estava certo de que aquilo era uma piada. Seu impulso inicial foi simplesmente voltar para a van e esperar até que ela tivesse terminado de se fazer de boba. Mas, pensou ele, já tinham perdido tempo demais. Harry avançou pela esquerda e Gina foi pela direita. A ovelha encarou a ambos, balançando a cabeça para um lado e para o outro.


— Agora! — gritou Gina e mergulhou.


Sem ter tempo de raciocinar sobre o absurdo da situação, Harry avançou pelo lado oposto. A ovelha escapou graciosamente. Movidos pelo impulso, Harry e Gina colidiram e rolaram pelo chão. Harry sentiu uma corrente de ar assim que se chocaram, bem como a suave flexibilidade de seu corpo ao caírem juntos.


Sem ar, Gina ficou estirada no chão, quase inteiramente de baixo de Harry. O corpo dele era bem duro e masculino. Talvez ela tivesse perdido a respiração, mas não perdera a perspicácia! Sabia que se eles ficassem daquela maneira, as coisas se complicariam. Ela respirou fundo e mirou o rosto dele.


Harry tinha uma aparência contemplativa, reflexiva e não totalmente amigável. Ele não seria um amante amigável, isso ela soube instintivamente. Era visível em seus olhos — aqueles olhos verdes escuros e profundos. Definitivamente, era um homem com quem se deveria evitar qualquer relacionamento pessoal. Ele domina tudo rápida e completamente, e não haveria volta. Precisou lembrar a si mesma que preferia relacionamentos fáceis no momento em que o coração começava a bater num ritmo mais forte.


— Perdemos — conseguiu dizer, mas não tentou se desvencilhar.


— É.


Gina tinha um rosto impressionante, ângulos agudos e pele macia. Harry estava quase conseguindo convencer a si próprio de que seu interesse era puramente profissional. Ela geraria ótima em qualquer foto, de qualquer ângulo e com qualquer iluminação. Ele poderia fazê-la parecer uma rainha ou uma camponesa, mas sempre teria a aparência de uma mulher que todos os homens desejariam. A sexualidade sem pressa que podia sentir nela ficariam visíveis na fotografia.


Apenas olhando para ela, já conseguia imaginar meia dúzia de cenários em que poderia fotografá-la. E em uma dúzia de maneiras de fazer amor com ela. Aqui seria a primeira, sobre a grama fresca ao longo da estrada, com o sol se pondo por trás deles e um silêncio absoluto.


Ela viu a decisão nos olhos dele, viu a tempo de evitar a conseqüência. Mas não evitou. Precisava somente se afastar, somente protestar com uma palavra ou com um movimento negativo. Mas não fez nada disso. Sua mente lhe dizia para se afastar, questionando uma urgência que era fisicamente inquestionável. Mais tarde, Gina ficaria imaginando por que não atendera. Agora, com o ar ficando mais frio e o céu escurecendo, desejava a experiência. Não conseguia admitir que o desejava.


Quando ele baixou a boca na direção da dela, não se repetiu aquela leve experimentação da primeira vez. Agora ela já a conhecia e queria o impacto total de sua paixão. As bocas se encontraram, sedentas, como se cada um dos dois estivesse levando o outro ao delírio.


O corpo de Gina aqueceu tão rapidamente que a grama parecia brilhar como gelo abaixo dela. Ela imaginou se não estava derretendo. Foi um choque que a deixou atordoada. Com um pequeno som na garganta, Gina quis mais. Seus dedos mexiam no cabelo dela, embaralhados na restrição da trança, como se ele não quisesse, ou não ousasse tocá-la ainda. Ela se mexia debaixo dele, não se retirando, mas avançando. Quero mais. Mas ele continuava a fazer amor apenas com a boca.


Ela conseguia escutar a brisa; fazia um ruído na grama ao lado de seu ouvido, provocando-a. Ele se entregava com moderação. Ela podia sentir isso na rigidez do corpo dele. Harry iria se conter. Apesar de sua boca estar arrancando as defesas dela, uma a uma, ele se mantinha alheio. Frustrada, Gina passou as mãos pelas costas dele. Ela o seduziria.


Harry não estava acostumado com a necessidade de se entregar, com o desejo de se entregar. Ela recuperava nele uma necessidade de união que pensava já ter destruído anos antes. Não parecia haver nenhum fingimento nela — sua boca era quente e ávida, saborosa e generosa. O corpo era macio e ágil, tentador. Seu aroma se impregnava nele, sexual, descomplicado. Quando pronunciou o nome dele, não pareceu haver nenhum significado oculto. Pela primeira vez em tanto tempo que nem conseguia se lembrar, ele queria se entregar, sem cautela, sem freio.


Ele se conteve. Fingimentos, ele sabia, podiam ser bem escondidos. Mas estava perdendo para ela. Mesmo estando inteiramente ciente de tudo, Harry não conseguiu parar. Ela o conquistava com uma simplicidade que não admitia bloqueios. Ele poderia xingar, praguejar, amaldiçoar a si próprio, mas sua mente começava a flutuar. Seu corpo estava pulsando.


Ambos sentiram o chão tremer, mas não ocorreu a nenhum dos dois que aquilo não era nada além da paixão que vivenciavam. Ouviram o ruído, o estrondo, cada vez mais alto, e cada um deles pensou que aquilo se passava dentro de suas cabeças. Então sentiram um vento forte, e o motorista do caminhão dando uma buzinada longa e grosseira. Foi o suficiente para arrancá-los de volta a sanidade. Sentindo-se realmente em pânico pela primeira vez, Gina deu um salto e ficou de pé.


— É melhor a gente dar logo um jeito nessas ovelhas e ir embora. — Praguejou ao ouvir o som da própria voz e abraçou a si própria num gesto de proteção. Havia uma friagem no ar, pensou ela, desesperada. Não havia nada além disso. — Já está quase escuro.


Harry não havia percebido o quanto o crepúsculo havia se aprofundado. Perdera a noção de onde estava — algo que jamais deixou que acontecesse. Esquecera que estavam na beira da estrada, rolando na grama como um casal de adolescentes desmiolados. Sentiu uma pontada de raiva, mas conteve-se. Quase perdera o controle uma vez. Não perderia agora.


Ela achou a ovelha no outro lado da estrada, pastando, certa de que os dois humanos já haviam perdido o interesse. Baliu em protesto, surpresa, enquanto era erguida. Praguejando baixinho, Harry aproximou-se silenciosamente e tomou a ovelha dela antes que Gina pudesse levar outro tombo. Jogou o bicho no pasto sem a menor cerimônia.


— Satisfeita agora? — perguntou.


Ela podia ver a raiva dele, não importava o quanto a bloqueasse. Ela própria borbulhava de raiva. Também tivera sua parcela de frustração. Seu corpo pulsava, as pernas estavam bambas. O mau humor a ajudava a esquecê-los.


— Não — retrucou ela —, nem você. Me parece que o que ocorreu deveria provar a nós dois que seria melhor mantermos uma boa e saudável distância.


Ele pegou-lhe o braço enquanto ela tentava passar por ele.


— Não a forcei a fazer nada, Gina.


— Nem eu forcei você — lembrou-lhe ela. — Sou responsável por minhas próprias ações, Harry. — Ela baixou o olhar na direção da mão que a segurava —, e por meus próprios erros. Se gosta de colocar a culpa nos outros, isso é um direito seu.


Os dedos apertaram mais ainda seu braço, por pouco tempo, mas o suficiente para os olhos dela se abrirem, espantados com a força e a profundidade da raiva de Harry. Não, ela não estava acostumada com bruscas mudanças de humor em si mesma e tampouco em causá-las nos outros. Lentamente, e com óbvio esforço, Harry aliviou a pegada. Ela acertara bem no alvo. Ele não conseguia discutir com a honestidade.


— Não — disse ele, bem mais calmo. — Vou assumir minha parcela de culpa, Gina. Vai ser mais fácil para nós dois se concordarmos com essa boa e saudável distância.


Ela assentiu com a cabeça, agora mais firme do que antes. Seus lábios se franziram num leve sorriso.


— Tudo bem. — Dê uma aliviada no ambiente, propôs ela a si mesma, para o bem de todo o mundo. — Tudo teria sido bem mais fácil se você fosse gordo e feio.


Ele já dera um risinho antes que pudesse perceber.


— Você também.


— Bem, já que acho que nenhum de nós está disposto a fazer alguma coisa com relação a esse problema específico, vamos ter de lidar com ele. De acordo? — Ela estendeu a mão.


— De acordo.


As mãos se juntaram. Um erro. Nenhum dos dois havia se recuperado da pane em seus respectivos circuitos. O contato, embora casual, apenas serviu para acentuá-la. Gina juntou as mãos atrás das costas. Harry as enfiou nos bolsos.


— Bem... — começou Gina, sem saber para onde ir.


— Vamos tentar encontrar um restaurante antes de chegar no acampamento. Amanhã o dia vai começar cedo.


Ela fez uma careta para a frase, mas encaminhou-se para seu lado na van.


— Estou morrendo de fome — anunciou ela e fingiu que estava tudo sob controle ao colocar os pés sobre o painel.—Acha que vamos encontrar logo alguma coisa decente para comer ou devo me fortificar com uma barra de chocolate?


— Tem uma cidade a mais ou menos uns quinze quilômetros daqui. — Harry ligou o motor. Sua mão estava firme, disse para si mesmo. Ou quase. — De repente, tem algum restaurante. Talvez até sirvam uma excelente costeleta de carneiro.


Gina olhou para a ovelha pastando ao seu lado, e então olhou de soslaio para Harry.


— Isso é repugnante.


— É. E vai ajudar a manter a sua cabeça longe do estômago até a gente comer.


Voltaram para a estrada e seguiram em silêncio. Já haviam passado por uma pequena elevação, mas ambos sabiam que ainda apareceriam montanhas a superar. Montanhas íngremes.

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