Capítulo 08
Janeiro 1996
As aulas recomeçaram e Snape se viu atolado até o pescoço de tarefas para corrigir, poções para fazer e aulas para preparar.
Poderia pedir ajuda a Sara, mas sabia que ela não aceitaria ajudá-lo. Não depois do que ele lhe dissera.
***
Março chegou e faziam quase 2 meses que ele e Sara não trocavam sequer uma palavra além de educados e cordiais “bom dias”, “boa noites” e outros cumprimentos formais.
***
23hs de uma quinta-feira.
Snape não compareceu ao grande salão para o jantar daquela noite. Comeu algo, rapidamente, em seus aposentos e voltou para a pilha de pergaminhos que se amontoava sobre sua mesa.
Batidas na porta.
- Entre. – rosnou Snape.
- Boa noite, meu filho. – era Dumbledore. – Eu sabia. – murmurou, correndo os olhos pelo ambiente até o Mestre de Poções acabado e cansado que estava sentado em frente à uma pilha de pergaminhos a serem corrigidos. – Eu sabia que você não estava dando conta... aceite a ajuda de Sara, Severus.
- Eu até gostaria de poder ter uma ajuda, Albus. Mas Sara jamais aceitaria um pedido meu.
- Sim, eu sei disso. Por isso eu tomei a liberdade de conversar com ela e convencê-la a vir lhe ajudar. – Dumbledore olhou para a porta. – Entre, Sara.
E ela entrou no laboratório, olhando ao redor, fitando, confusa, o laboratório que estava totalmente de pernas pro ar. Era nítido que algo estava errado por ali. Snape era sempre tão organizado. Até que seus olhos caíram sobre ele. E ela sentiu uma pontada no coração por vê-lo tão... desolado, no meio de toda aquela bagunça.
- Boa noite, Prof. Snape. Eu vim, à pedido do diretor, para ajudá-lo.
Snape a fitou por longos segundos até que respondeu.
- E eu lhe agradeço, diretor, por ter intercedido por mim. – e ele acrescentou em pensamento: “Façamos com que ela acredite que fui eu quem lhe pedi para conversar com ela...”
Dumbledore entendera o recado.
- Claro, meu filho, de nada. Não há o que eu não faça para ver aqueles por quem tenho apreço, felizes. Tenham uma boa noite. – e ele saiu, batendo a porta, deixando os dois sozinhos.
Ficaram se encarando por um tempo, até que Sara quebrou o gelo:
- Eu vou começar a arrumar a bancada de poções. – e ela se dirigiu à bancada, com alguns maneios de varinha estava tudo limpo e os potes de ingredientes voavam para seu lugar correto dentro do armário. Sara caminhou até Snape. – Apenas, me explique uma coisa: por que você não pediu aos elfos domésticos para lhe darem uma mão aqui? Pelo menos com a bagunça! – ela se escorou na mesa em que ele escrevia.
- Porque eu não gosto de ninguém mexendo nas minhas coisas, muito menos nos meus ingredientes. A senhorita sabe disso. – ele parou de escrever insultos a um aluno e olhou para ela.
- Ah, sim, eu sei muito bem do que você está falando. – tinha uma ponta de raiva na voz dela.
Snape voltou a insultar o aluno.
Sara respirou fundo, antes de voltar a falar.
- Há alguma poção que queira que eu comece pra você?
- Sim. Duas. Pomfrey me pediu uma repositora de sangue e outra para juntar ossos quebrados.
- Certo. - e Sara foi ao armário de ingredientes, fazendo flutuar até a bancada os vidros dos quais ela precisaria.
Snape sentia as mãos gelarem cada vez que via um de seus preciosos ingredientes flutuarem até a bancada.
- Dá pra parar de fazer isso? – rosnou ele.
- “Isso” o quê?
- Pegue os potes com as mãos e leve-os até a bancada, em segurança. Nada de fazê-los flutuar. Isso me dá nos nervos.
Sara riu.
- Não se preocupe, Sr. Snape. Que eu me lembre, eu nunca quebrei nada que fosse seu, nem nos seus laboratórios, nem na sua cozinha. E eu fazia tudo flutuar até mim. Até mesmo seus preciosos fios de rabo de unicórnio.
Ele a olhou, furioso.
- Poções não são brincadeiras, Srta. Lestrange.
- Eu sei que não, Prof. Snape. – e ela foi à bancada, começou a picar os ingredientes, colocando-os em dois caldeirões distintos, um de cobre, outro de estanho, cada um ao seu tempo, sendo a colher mexedora movimentada, ora com a mão, ora com magia.
Snape observava, pelo canto do olho, como ela não perdia a concentração nem o tempo de cozimento de cada ingrediente acrescentado às duas poções. Muitas pessoas tinham dificuldade em fazer uma poção, mas Sara conduzia as duas com tamanha calma e facilidade que parecia estar fazendo dois caldeirões de sopa, um de galinha e outro de carne.
Ela suspirou no tempo em que, ele calculara, deveria se deixar as duas poções descansando, antes de acrescentar os últimos ingredientes e declará-las prontas.
- No que mais posso ajudá-lo, professor? – perguntou Sara, se aproximando da mesa em que ele corrigia os pergaminhos.
- Pegue esta pilha do sexto ano e corrija. Deixe que os comentários eu acrescentarei depois, aos alunos que merecem.
- Certo.
E ficaram trabalhando, lado a lado, em silêncio, nada além das penas arranhando os pergaminhos podia ser ouvido ali.
***
Quando foi 2hs da manha, Sara levantou da mesa, caminhou até os caldeirões, terminou as poções e as distribuiu em diversos vidrinhos, arrolhando-os em seguida. Ela limpou a bancada, guardou os ingredientes e se dirigiu à Snape:
- Eu já acabei as poções. Vou ir descansar, tenho que ajudar Prof. McGonagall amanhã de manhã cedo com uma turma de setimanistas grifinórios e sonserinos.
- Certo. Boa noite, Srta. Lestrange. – ele a olhou, intensamente, bebendo de sua imagem o máximo de tempo possível, antes que ela saísse.
- Boa noite, Prof. Snape.
E Sara saiu para os corredores gelados das masmorras. Talvez uma ida à Torre de Astronomia lhe fizesse bem. Ela subiu as escadas que se moviam até a biblioteca e subiu a escada em espiral até a torre. Chegou lá e se escorou numa das pilastras, ficou olhando o céu limpo e cheio de estrelas daquela noite.
Seus pensamentos iam de encontro a ele, como sempre... Snape habitava seus sonhos, mesmo quando acordada.
E não demorou para que lágrimas silenciosas rolassem por seu rosto.
***
No dia seguinte, apenas cumprimentos cordiais. Mas, à noite, Sara voltou às masmorras para ajudar Snape.
***
Naquela noite ela parecia triste, Snape percebera. Algo a estava incomodando. Estavam sentados tão próximos, um de frente para o outro, uma pilha de pergaminhos os separava.
- Há algo errado, Srta. Lestrange? – ele parou de escrever e a fitou, intrigado.
- Não, senhor. Por que a pergunta? – ela não levantou os olhos dos pergaminhos que corrigia.
- Está... abatida.
Ela sorriu, um sorriso triste.
- E por que o senhor se importaria?
Snape sentiu como se tivesse tomado um tapa, mas logo se recompôs.
- Apenas não quero McGonagall me culpando por você estar com olheiras de abatimento...
- E por que Minerva o culparia? – ela parou de escrever e o encarou, séria.
- Porque a senhorita tem trabalhado até tarde da noite aqui comigo por 2 noites seguidas... ela com certeza me culparia pelo seu aparente cansaço.
- Não se preocupe, Prof. Snape. – ela voltou a escrever. – Minerva sabe o real motivo das minhas “olheiras de abatimento”.
- E qual seria? – perguntou ele, sabendo que ela não responderia, mas não custava tentar.
- Não compete ao senhor saber. – ela foi curta e grossa.
E continuaram a trabalhar sem maiores conversas.
***
Duas semanas se passaram e Sara continuava a ajudar Snape. Nos últimos dias não havia mais muitas coisas a serem feitas, mas nem que tivesse que arruinar um caldeirão de poções apenas para ter uma desculpa para vê-la por algumas horas nas masmorras, Snape assim fazia. Saber que ela estaria ali, perto dele, com um perfume delicioso, e que ele poderia admirá-la e cobiçá-la a noite toda em silêncio, era o suficiente.
“Eu já arruinei qualquer chance que eu poderia ter com ela... pelo menos posso vê-la de perto e apreciar sua beleza.”
***
Mas Snape se enganava...
Apenas conviver com ela não era o suficiente.
***
Tarde da noite de uma sexta-feira.
Recém chegara de uma reunião com os comensais.
O corpo mais do que cansado.
Pegou a garrafa de firewhisky e um copo e sentou em frente a lareira.
Não conseguia deixar de pensar nela. Sara. O objeto de seus desejos, a dona dos seus pensamentos. E ela estava ali, sob o mesmo teto que ele.
Na reunião, Rodolfo viera lhe questionar sobre ela, sem dizer nomes, e Snape apenas lhe confirmara que ela estava bem e segura.
Ele respirou fundo.
A observou nesta manhã, caminhando pelos terrenos do castelo com Hagrid. Aparentemente, haviam se tornado grandes amigos.
Bufou de raiva de si mesmo.
Estava com ciúmes do meio-gigante.
“Maldição, estou enlouquecendo.”
E enquanto o álcool lentamente lhe entorpecia os sentidos, ele permitia que seus pensamentos vagassem pelo corpo dela, pelos lábios que ele queria beijar novamente, pelas mãos delicadas que ele ansiava sentir sobre seu corpo mais uma vez...
Snape não conseguia pensar em mais nada que não fosse Sara.
E agora as lembranças dela sentada em seu colo, dos beijos que trocaram, do toque macio das mãos dela sobre sua pele, as súplicas que ela proferira... tornavam impossível adormecer, mesmo com o firewhisky em seu sangue.
Levantou do sofá e vestiu uma capa sobre a calça negra do pijama. Saiu pelos corredores. Não sabia nem em que andar do castelo ela estava hospedada. Mas caminhar lhe faria bem, de qualquer forma.
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Sorry pelo capítulo “deixado no ar”... mas farei de tudo para que o capítulo 09 seja o último!
Bjus para Emily Daieny!
Madi ainda num leu essa, eu acho...