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84. O SOL BRILHA


Fic: O Acordo Perfeito RxHrm- Fic completa by marja


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CAPITULO 84 – O SOL BRILHA


 


 


 


 


-Estou decidida – ela disse com voz firme – nunca mais ficarei doente.


Juanita tentou não sorrir, e ela continuou.


-Não vou mais ser surrada, ou ficar tão magra que meus ossos apareçam. Não vou mais deixar meu marido levar um tiro, ou que minha cunhada ou quem quer que seja grite dentro da minha casa, e me recuso a ter enjôos ou desmaios. Está decidido!


Ela deixou a colher dentro do prato de mingau e olhou sorrindo para Juanita.


-Que bom. Fico feliz que tenha decidido isso! – ela respondeu no mesmo tom de brincadeira.


Hermione sorriu novamente, comendo mais um pouco.


-Porque Aporah foi embora sem falar comigo? – ela perguntou, sentida.


-Aporah disse que levou sua doença, e se ficasse e tivesse contato com você, poderia devolvê-la. É coisa de índio, não tente entender.


-Gostaria de lhe agradecer – disse pesarosa.


-Não se preocupe, seu marido agradeceu. Deu a Aporah e a seu marido um bezerro. – sorriu – Não poderão levar quando seguirem viagem, mas para eles, o que importa é o sentido do gesto.


-E onde está Rony? – perguntou magoada.


-Seu marido esteve na cabeceira de sua cama por três dias. Não acha que tem direto há sair um pouco?


-Não foi isso que quis dizer! – defendeu-se – Não sou mesquinha a ponto de esperar que ele ficasse ao meu lado!


-Mesmo assim, Rony ficou. – ela garantiu, notando que gostava do que ouvia – Ele saiu cedo, para levar Harry à cidade. Gina ficou, está arrasada.


-Não me diga que mais alguma coisa ruim aconteceu! – Hermione desistiu de comer, perdendo o apetite.


-Não é isso. Continue comendo, ou não vai sair dessa cama hoje, como lhe prometi – Juanita reclamou - Harry embarca hoje para Londres, é só isso.


-Hoje? Mas ele não se despediu de mim! – ficou surpresa.


-Seu marido acha que ele pagou a hipoteca por amor a você. Tudo que Harry deseja é manter distancia e não complicar as coisas ainda mais. E se quer saber, concordo com ele.


-Não me engano Juanita, ele pagou a hipoteca a pedido de Rony. De que outro modo poderia ficar com a fazenda sem permanecer casado?


-Do que está falando? – Juanita não entendeu.


-Para mim está tudo muito claro! Rony achou que nunca seria descoberto; que seu casamento com Lilá nunca viria à tona! Agora, na eminência de ser preso, ele resolveu o problema do modo mais simples. Com a hipoteca paga, quem terá interesse nessa história? É por isso que não posso mais adoecer. Preciso estar de pé e forte, para me reerguer quando...


Suas palavras foram paradas por Juanita que fez um gesto de silêncio.


-Não fale em coisas negativas Hermione. Se quiser mesmo se recuperar, coma e se fortaleça. O futuro há Deus pertence. Lembre-se sempre disso!


Hermione terminou o mingau e suspirou. Juanita tinha razão.


-Será que posso levantar e andar um pouco? – perguntou ansiosa por um sim.


-Aporah disse que saberia a hora de levantar.


Sorrindo, ela deixou o prato de lado e saiu da cama. Não foi tão ruim, não sentia mais dor, ou enjôo, ou tontura. Saudável era uma boa palavra para descrevê-la!


-Gina está na cozinha? – perguntou.


-Está na sala, da última vez que a vi, aos prantos – havia uma pontinha de prazer em sua voz.


Hermione sentia pela ex-amiga, e aproveitou para andar um pouco. Ficar de cama era novidade na sua visa, e estava se repetindo muito.


-Harry já partiu - Gina disse assim que a viu.


-E essa é a única razão para que eu saia da cama depois de três dias convalescendo? – ironizou.


-Quis dizer que meu irmão também saiu. – mudou o sentido da própria frase em beneficio próprio.


-Porque está emburrada? - perguntou, sentando-se ao seu lado no sofá.


-Harry partiu sem mim – respondeu como se fosse óbvio – Três dias de casados e ele partiu sem mim!


-E o que você esperava? Pelo que entendi Harry não partiu em visita a Londres!


-O que quer dizer? – Gina olhou para ela como quem olha para algo muito especial por onde virá a resposta que livrará sua alma da agonia e da dor do abandono.


-Será uma longa e penosa viagem de trem até Londres, e quando chegar, Harry não vai participar de festas e reuniões como imagina, então, não teria nada para você fazer além de sentar e esperá-lo. É mais prático que vá sozinho e traga os documentos que seu irmão precisa. Em outro momento, quando estiver acostumada a vida de casada, irão para Londres. Acaso não foi isso que Harry lhe prometeu?


-Tenho certeza que se estivesse casado com você teria levado-a! – disse indignada.


-É claro que sim! Não sou do tipo de mulher que ficaria choramingando e reclamando pelos cantos por um pouco de solidão. Ginerva, você precisa amadurecer!


-Como posso amadurecer se todos me tratam como uma criança? – questionou.


-A tratamos do exato modo que se comporta - revelou.


-Tenho quase certeza que estou grávida... E se Harry demorar muito a voltar?


-Em um mês ele estará de volta – garantiu.


-E se ele não voltar? – insistiu.


-Harry quis se casar antes de partir. Quis protegê-la em sua ausência. Acha que ele fugiria de suas responsabilidades?


-Não – concordou.


-Então, pare com essas tolices e me ajude a dar um passeio! – sorriu animada.


-Um passeio? – Gina torceu o nariz, nada disposta a dar passeios.


-Quero pegar um pouco de ar puro agora que não me sinto doente. Vamos até o lago!


-Não estou disposta para nadar! – Gina disse implicante.


-Então, levemos o material para bordar, ou não gostaria de fazer o enxoval para seu bebezinho?


Gina mordeu a língua para não dizer que antes de ter seu bebê, teria um sobrinho para vestir. Concordando, ela chamou Duran para acompanhá-las.


 


 


.........................................................


 


 


 


Enquanto Gina bordava, Hermione entrou no lago. Duran se mantinha sentado a distância, cuidando da patroa.


Rony olhou para o menino e piscou. Ele se levantou e tratou de esperar perto das arvores. Sorrateiro, ele se aproximou do lago, olhando para a irmã, que ao vê-lo levantou-se e juntou os apetrechos que usava, colocou na cesta e correu até Duran, ambos indo embora rapidamente para não atrapalharem.


Na beira do lago, o vestido de Hermione descansava, assim como seus sapatos e seu xale.


Observando-a nadar nas águas calmas, ele tirou a roupa rapidamente e entrou o mais cuidadoso possível para não se fazer notar. Iria dar um susto em Hermione, um que a deixaria trêmula e talvez a fizesse gritar.


Sorrindo antecipadamente, ele agarrou-a por trás, esperando que se debatesse.


-Quanta demora pra nada – ela disse com voz suave, quase risonha.


-Não está assustada? – surpreendeu-se.


-Por quê? Faz mais barulho que um touro furioso no campo! - ela se afastou, nadando para longe com o olhar cheio de humor. – Eu o vi no instante que pôs os pés na grama!


-Impossível! Não fiz barulho algum!


-Fez sim! Qualquer um poderia ouvi-lo a quilômetros daqui!


Seu riso, mesmo que tirando sarro dele, era delicioso de ouvir.


-Se me ouviu, e viu, e não me mandou embora, devo deduzir que desejava minha presença? – nadou em sua direção, estreitando-a contra o peito, enlaçando-a pela cintura.


-Não desejo mais brigas – confessou.


Seu sorriso morreu.


-Não agüento mais brigas...


-Vai me deixar te beijar, porque não quer mais brigar? – perguntou, sentindo a euforia ir embora.


Hermione pensou em dizer que não, que havia decidido a muito tempo, antes mesmo de ser baleado, que o convidaria a fazer parte de sua vida, mas lembrou que ele poderia ser mesmo casado e tê-la enganado todo esse tempo!


Lembrou-se também de seu plano, muito bem executado, de ter a fazenda em seu nome, usando Harry para isso. Por isso se calou.


-Não posso deixá-lo me beijar, porque não sei com quem é casado, se comigo ou com aquela outra. – afastou-se gentilmente.


Apesar de ter escapado de seus braços, manteve as mãos nas dele, e Rony entrelaçou os dedos nos dela, deixando que fosse.


-Lilá continua na casa dos meus pais – ele contou pesaroso – Não quis falar com ela, não temos nada para discutir. A essa altura, mesmo que tirasse a queixa, ainda assim, serei investigado.


-Porque ela não foi embora? – Hermione tentou soltar as mãos, para fugir dele, indignada, mas ele não deixou.


-É melhor deixá-la debaixo dos nossos olhos. Meu pai colocou dois empregados para vigiá-la vinte e quatro horas por dia.


-E isso basta? - ela questionou – Pelo que sei, ela seduz qualquer homem a sua volta! – havia algo de recalque em sua voz.


-No que me diz respeito, não causa efeito algum. Hermione, eu reaprendi a fazer amor quando a conheci, e não sinto saudades das antigas experiências – confessou.


-Não é muito justo comigo, pois não tive experiências para comparar – não era uma provocação propriamente.


-Gostaria de ter tidos outros homens? – a frase soou estranha em seus lábios. O ciúme quase tirou sua voz.


-Talvez. Poderia ter uma opinião mais verdadeira sobre esse assunto se houvesse um comparativo. – foi sincera.


Ele não teceu comentários, e Hermione notou que lutava para não dizer exatamente o que pensava.


-Não deveria estar nadando – ele disse trocando rapidamente o assunto.


Tudo que Hermione não precisava agora era de uma explosão de ciúmes!


-Nem você – ela tocou sobre a ferida em sua barriga. Ele não usava mais o curativo tinha dois dias. A ferida, não era nada mais que um pequeno buraco cicatrizando. A pele ainda um pouco roxa em volta, e a marca dos pontos, três pontos que o Dr.Nut dera para que curasse mais rápido.


-Somos dois inconseqüentes? – ele brincou, esperando seu sorriso.


-Talvez – ela disse pensativa – O que acontece agora?


Havia em seus olhos castanhos uma indagação muito profunda que ele não entendeu.


-Exatamente sobre o que está perguntado?


Hermione se afastou, nadando para longe, e então, saindo do lago. Sua camisa íntima estava encharcada, grudando em seu corpo. Rapidamente, ela vestiu o vestido e deixou os sapatos de lado, para esperar o corpo secar um pouco antes de calçá-los. Sentou-se na margem, sobre a grama quente e suspirou ruidosamente. Os cabelos estavam molhados e ela jogou-os para trás, para não cair na face.


Rony fez o mesmo, e sentou-se ao seu lado sob o sol forte, depois de vestir a calça.


-Quando Harry voltar – disse séria – Ele vai voltar não é?


-Sim, ele vai voltar – respondeu num tom baixo, embora quisesse gritar e sacudi-la até arrancar dela a razão para tanto interesse na viagem de Harry!


-Preciso saber... Com sinceridade, o que vai acontecer quando ele voltar.


-E você não sabe? – agora, não compreendia mais nada!


-Não! – sua voz era resoluta, olhando para as águas claras do lago – Tive tempo para pensar enquanto estava de cama. Acho muita loucura achar que Lilá tenha atravessado o país com um documento falso. Que tenha se motivado a isso. O mais plausível, é acreditar que fui enganada.


-Enganada? Nunca fui tão sincero com uma mulher quanto sou com você! – exasperou-se – inicialmente meu interesse foi pela fazenda, deixei claro! Não menti! Mas precisou apenas vê-la poucas vezes para meu interesse mudar! Será que um homem não tem direito a mudar de idéia? A se apaixonar?


-Tem, tem todo direito! – ela respondeu no mesmo tom – Mas sabemos que não é do tipo que muda de idéia! Estava tudo planejado, e agora, eu vejo com clareza! Não podia continuar em Londres, pois não queria levar adiante um casamento com uma cortesã! Vir para sua cidade natal não foi um desejo de infância, foi providencial! Por isso tanta pressa em investir e fincar raízes! Minha desgraça lhe caiu do céu! Pode disfarçar seus erros casando-se com uma órfã, que ninguém poderia proteger ou pedir informações! Uma mulher que estaria em suas mãos! Tanta insistência na presença de Harry, não era nada além de necessidade! Se casando com Gina, ficaria mais fácil explicar o porquê dele pagar a hipoteca em seu nome! Tudo planejado!


-Não sabe o que está dizendo!


-Está enganado! Desde que o conheci soube que havia algo muito errado! – levantou-se, calçou os sapatos, mas não pode evitar olhar para ele.


Contra o sol da manhã, os olhos azuis brilhavam tão azuis quanto o céu sobre sua cabeça. Olhos que a distraiam e a faziam fraca.


-Soube quando mudou seu jeito de agir, que estava me enganando! Quando veio a minha casa com seu pai, estava incrédulo da possibilidade ultrajante de me desposar! E então, de repente, está loucamente apaixonado? Por favor, não sou tão boba assim!


-Hermione...  – ele não acreditava no que estava ouvindo.


-Sabia que havia algo errado! Só não conseguia juntar as peças desse seu quebra cabeças! Mas agora, tudo está claro como o dia! Pode estar feliz com a vida que tem hoje, mas nada pode apagar o que fez no passado!


Cessou as palavras, sem ar pelo desabafo. Não gritara ou brigara. Apenas colocara para fora exatamente o que estava pensando.


-Vai se arrepender dessas palavras quando Harry voltar e provar que digo a verdade. – ele também levantou, uma mão sobre a ferida do tiro, pois ainda havia uma pequena dor quando se mexia bruscamente – A única resposta que vejo para atitude de Harry é o fato de ser apaixonado por você.


-Pense o que quiser – ela respondeu, afastando o olhar e cruzando os braços sobre o peito.


Rony olhou para ela e para baixo, notando que o vestido estava cada vez mais apertado na cintura. Se não estivesse procurando, talvez não notasse, mas havia um pequeno inchaço em sua barriga. Coisa mínima que poderia até ser sua imaginação.


Hermione carregava seu filho. Graças à natureza que era sabia a fazia mais calma, provavelmente seu instinto de fêmea a protegendo e protegendo a cria, mesmo que não soubesse ainda. Ela se resguardava de uma briga, para não se ferir.


-Me acusa de tê-la enganado, e eu te acuso de ter despertado amor no meu melhor amigo. Nenhum de nós vai saber se esta certa até Harry voltar – disse calçando as botas e encarando sua mulher.


Ela afastou os olhos e se retraiu. Pensava, mas não dizia. Como no inicio, quando se conheceram, e fugia o tempo todo, escondendo dele seus pensamentos.


-Sou com você, exatamente do jeito que vê. Dizem que palavras mentem, mas gestos não. Olhe nos meus olhos e diga o que vê. – ele tocou sobre um de seus braços que estavam cruzados, e Hermione maneou a cabeça.


-Enquanto Harry não voltar, não quero que se aproxime. – afastou-se – Não confio em você.


Com essas palavras, ela foi embora. Simplesmente virou as costas para ele e para tudo que dividiram juntos, e foi embora.


Ele contou até dez para não segui-la e arrastá-la de volta para o lago, fazer-lhe amor e provar que era seu marido, e nada, muito menos um documento falso, poderia apagar isso. Mas se conteve.


Não queria Hermione à força. Não depois de ter provado seu carinho espontâneo e sua doçura.


Hermione entrou em casa e trocou de roupa. Ouviu a conversa e as lamúrias de Gina sobre estar sozinha, e contou o tempo mentalmente. Fazia mais de duas horas que o deixara na beira do lago, tanto tempo que seu vestido havia secado no varal, e seus cabelos também.


Agora, apesar dos pesares, e de tudo que disse, estava conversando com um dos meninos de Juanita sobre ir até lá e ver se o patrão precisava de alguma coisa.


Rony ainda convalescia de um tiro, e muito tempo no sol poderia ter causado um desmaio ou algo assim.


Desistiu de fazer isso quando o avistou, vindo de outra direção, com o semblante preocupado.


-Entre em casa Hermione.


-Por quê? – estranhou.


-Meu pai está trazendo uma pessoa que quer nos ver – ele disse nervoso.


-Quem?


-Nem ele sabe. Mandou um empregado dar o aviso. Entre em casa e prepare algo para nós. Seja lá o que for dessa vez, quero me livrar logo! Essas visitas estão começando a me irritar. Sinto saudade do tempo que éramos apenas nós dois nessa fazenda! - ele reclamou, não propriamente com ela, mas reclamou.


Hermione entrou e ajudou Juanita a preparar um lanche e algo para beber, então trocou novamente de roupa, por algo mais apresentável, notando que Rony fizera o mesmo. Cerca de uma hora depois, ele entrou na casa acompanhado.


Arthur não viera, mas mandara seus homens de confiança escoltando o desconhecido.


Havia vários deles na rua esperando. Alguns eram empregados Wesleys, outros do homem que os visitava.


Uma carruagem ainda maior e mais luxuosa que a de Harry estava sob o sol, perto da porteira. Um empetecado cocheiro olhava para tudo a sua volta com indiscutível nojo e estranheza.


Vestia luvas brancas, fraque cheio de babados na gola e uma peruca. E olhe que era apenas um empregado!


Rony o recebeu, e seu semblante fechou ao reconhecer o nome.


Hermione manteve-se a distância, na sala, observando-o silenciosamente. Era um homem muito alto, quase da mesma altura que Rony, tinha cabelos escuros, encaracolados e olhos muito castanhos. Os traços eram fortes, mas havia uma sutileza na face que o tornava simpático. Deveria ter por volta de cinqüenta anos, mas seu porte físico não ficava para trás em nenhum garoto jovem.


Tinha um porte elegante e austero, as roupas impecáveis. Vestia um fraque de corte perfeito, as lapelas endurecidas por goma, uma camisa de seda, os sapatos de couro brilhante e a bengala em uma das mãos, se ousasse dizer, era feita em ouro puro e madeira nobre. Sua cartola ficara na carruagem, assim como outros luxos desnecessários.


Para olhos atentos como os de Hermione, poderia ver pequenos gestos de rebeldia, como os dois primeiros botões abertos da camisa impecável, e um singelo relógio de bolso, aparecendo em seu colete. Bem mais simples do que era de esperar em um homem de tanto poder e fortuna.


-Ronald Wesley - ele disse com voz cortante e por um segundo, Rony jurou que conhecia esse homem, esse modo de olhar.


Já ouvira seu nome em Londres, dezenas de vezes, mas nunca o vira pessoalmente.


-Sim – ele se pôs em alerta – Sou Ronald Wesley, mas não sei por que me procura.


-Me chamo Conde de Valença. – ele disse com a arrogância que era esperada ao falar em tal titulo – Edgar Françoar de Valença.


-Conheço seu título, morei em Londres até pouco tempo atrás. Não imagino, no entanto, o que o traz a minha casa.


Rony confessava, andava ressabiado com pessoas estranhas!


Edgar olhou para ele por um longo momento e então, seus olhos alcançaram a silenciosa imagem de Hermione.


Ela sentiu aqueles olhos fixos nela. Medindo, analisando, como se estivesse surpreso e curioso. Algo da rudeza de sua expressão suavizou ao dizer enfim:


-Vim por causa da tragédia que se abateu sobre essas terras. Pelas mortes.


Rony olhou para Hermione, sabendo que ela preferiria saber do que se tratava antes de se envolver.


-Porque teria interesse nessas mortes? – perguntou, indicando o sofá para que se sentasse.


-Confesso, fiquei sabendo das mortes há dois dias quando cheguei à cidade. Vim por causa dessa carta – ele entregou a Rony – Madeleine me escreveu para que viesse.


-Madeleine? – ele olhou para Hermione que se aproximou ficando de pé ao seu lado. Como era de praxe, as mulheres não deveriam intervir em uma conversa formal. – A antiga proprietária dessa fazenda se chamava Madeleine.


-Sim, ela e seu marido Antenor. Eu os conheci; isso foi há muitos anos. Vim por causa da menina. Infelizmente, sei que cheguei tarde demais. – ele baixou os olhos envergonhado, e com algo de dor em seus olhos que era inconfundível – Nos últimos dois dias tenho me perguntado se devera ir embora ou ficar. Sei que o desejo de Madeleine seria que ficasse e salvasse o que ela mais amava: a alma de sua filha. Vou reconhecê-la, mesmo que morta, a levarei para ser enterrada junto aos meus familiares, onde é seu direito e vontade de Madeleine.


-Sua filha? – ele estranhou.


-Leia – ele indicou a carta – Madeleine me escreveu há três anos, por uma desgraça essa carta se perdeu, pois estava viajando. Encontrei faz poucas semanas e me dirigi para cá. Soube na cidade que cheguei tarde demais.


Rony leu a carta atentamente, e quando terminou, olhou para ele.


-Explique o que isso quer dizer – pediu incerto. Sem devolver a carta, ele segurou-a, achando melhor guardar isso consigo.


Se estava entendendo do jeito certo, isso não ia ser nada bom!


-Conheci Madeleine há dezoito anos, quando vim para essa cidade a trabalho. – notando a expressão de Rony, ele sorriu – Por muitos anos, na juventude, desafiei meu pai e meu titulo, e segui um circo. Sim, fui palhaço! O melhor que a Europa já viu! – havia orgulho em sua voz, e suavidade em seu olhar, lembrando de um tempo feliz – Madeleine levou os meninos, seus filhos, para verem o circo, e foi assim que nos conhecemos. Fiquei mais de seis meses nessa cidade por causa dela. Havia tanta tristeza em sua face, tanta dor que... Houve apenas uma noite, e quando ela engravidou, decidi que fugiríamos. No dia combinado, ela desistiu. Contou ao marido, que aceitou a traição e o filho dessa traição. Apesar das dificuldades, ela amava aquele bastardo. Dei a ela o endereço de meu pai, onde me encontrar se mudasse de idéia, ou precisasse de algo. Larguei o circo e voltei para casa. Confesso, esperei todos esses anos por essa carta. – ele suspirou diante dessa lembrança triste – Nessa carta, ela conta de seu medo e sua aflição, pois Antenor mostrou a ela que nunca a perdoou. Com a morte do filho, ele se vingou da menina, colocando-a no trabalho pesado, ignorando ajuda de amigos e conselhos. Madeleine tinha medo pela menina, pois ao mesmo tempo em que Antenor a amava como filha, um amor quase maior que sentia pelos outros filhos que teve também a odiava, por lembrar a mim e a traição.


-Teve uma filha com Madeleine? – Rony ainda não acreditava no que ouvia. – Quem garante que era mesmo sua?


-Não leu a carta? Madeleine não mentiria para mim. Você não a conheceu. Madeleine tinha algo no olhar, que não deixava dúvidas sobre sua honestidade.


Embora não a houvesse conhecido, Rony reconhecia esses traços em Hermione.


Ela estava de pé, pálida, e olhava para longe.


-Sente-se ao meu lado - ele disse a ela, que não desobedeceu – Essa é minha esposa – ele contou, achando que o homem levaria um bom susto quando falasse o inevitável – Madeleine teve duas filhas mulheres, uma delas, morreu na tragédia. Seu nome era Ann e tinha quatorze anos.


-Não. O nome da menina era... - ele parou olhando para Rony com algo desesperado no olhar – Meu Deus, eu cheguei tarde! – desespero o fez levantar – Se estivesse aqui, poderia tê-la ajudado!


-Acalme-se conde – ele disse, mas o homem parecia descompensado.


-O que deve ter acontecido com ela? Sozinha, sem família...


-Na carta não diz o nome dessa moça – ele lembrou e o conde sorriu, achando que o desespero poderia enlouquecer um homem são. Impotente sobre o que fazer. Como encontrar a própria filha!


-Só haveria um nome possível. Eu pedi a Madeleine, que se fosse uma menina, tivesse o nome da minha mãe. Ela morreu no parto e nunca a conheci.


-E que nome seria esse?


Rony deduzira o obvio, e pela palidez de Hermione ela também.


-Hermione.


O nome pesou na sala, e em meio aquele silêncio todo, ela se levantou e saiu daquela sala.


Da sala, eles ouviram o som da porta dos fundos abrindo, e a voz de Juanita gritando:


-Hermione, o almoço não vai demorar, não vá longe!


Aquele homem olhou para ele com surpresa e incredulidade, e Rony disse simplesmente:


-Sente-se – quando ele o fez, continuou – Minha esposa chama-se Hermione, e é filha de Madeleine e Antenor. Os antigos proprietários dessa fazenda. Estamos casados a pouco mais quatro meses.


-Hermione... – ele sorriu, levantando-se de um salto – Minha filha... Aquela jovem é minha filha?


-Sim, se isso tudo for verdade ela é sua filha.


Rony assistiu a felicidade em sua essência nascer na face daquele homem. Um brilho único de alegria e saudade.


-Ela é linda. É... Linda – havia algo de incrível em suas palavras.


-Sim, mas é uma jovem intensa. – contou – Não tem passado por bons momentos desde a morte da família. Vou lhe contar tudo que aconteceu, para que saiba onde está se metendo.


-Hermione... Ela é uma jovem boa? – havia dúvidas em sua voz.


-Integra; honesta e sincera. Não vai achar outra mulher igual. Mas a vida a tem machucado muito. Foi ela quem matou o assassino dos pais. Permaneceu mais de um mês vivendo nessa casa sozinha, cuidando de tudo. Passou os três anos anteriores, sendo um peã dessa casa. – inclinou-se para frente – quero saber exatamente o que você quer com Hermione.


-Eu quero reconhecê-la como minha filha – ele disse sério, convicto e deixando clara sua posição – E levá-la comigo para Londres, onde é seu lugar.


 


 Beta: E aí, chupa essa manga!!!

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