A noite estava calma e silenciosa, o único barulho presente era o das finas gotas de chuva tocando o corpo de Harry, sua capa prateada esvoaçava com o vento e os rápidos movimentos do garoto, sua varinha estava firmemente segura em sua mão e seus olhos atentos a qualquer vulto que pudesse surgir da escuridão.
A fraca luz da sala de estar já era visível e o barulho de vozes se tornava cada vez mais nítido, juntamente com o clima tenso que preenchia o ambiente. Harry sentia novamente a sensação que teve ao lutar contra os comensais, seu corpo estava relaxado e sua mente calma, toda sua energia estava concentrada para o encontro com seu maior inimigo.
- Eles não me servem de nada. – Voldemort reclamava com seus servos. – Nós precisamos achar a garota!
- Meu senhor, nós fizemos todo o possível, mas ela sempre esteve um passo a nossa frente. – O medo preenchia a voz de Belatriz.
- Vocês são todos inúteis! – A voz ofídica carregada de ira penetrou asperamente na mente de todos presentes. – Não conseguem capturar uma mera garota.
- Perdão mestre. – Uma voz rouca e masculina soou pela primeira vez.
- Estou cansado de desculpas! A próxima vez será a ultima.
Todos permanecerão quietos e assentiram com um movimento da cabeça.
- O que devemos fazer com eles? Morte ou masmorra? – Ao que parecia, Belatriz estava muito mais interessada na primeira opção.
- Prenda o Longbottom, ele me será muito útil quando precisar entrar no castelo novamente, e termine com os outros dois.
- Com prazer. – A voz da comensal estava carregada de satisfação.
O coração de Harry batia rápido em seu peito, a adrenalina invadia suas veias e seus pensamentos fugiam de sua mente. O garoto sabia que deveria atacar imediatamente, mas o medo petrificou seu corpo, ele ouvia a triste lamúria de Gabrielle e sentia a terrível satisfação de Belatriz.
- Diga adeus aos seus amigos. – A bruxa sorria friamente para o corpo sem forças de Neville.
As lagrimas escorriam incessantemente pelo rosto de Gabrielle enquanto ela tentava fixar seus olhos nos de Neville. O garoto estava consciente, mas a dor o impedia de fazer qualquer movimento, até mesmo falar. Uma única lagrima saiu dos olhos do grinfinório enquanto ele assistia a mortal cena da execução de Krum e Gabrielle.
O comensal apontou calmamente sua varinha para Krum enquanto Belatriz e Voldemort observavam como se estivessem em um grande espetáculo.
- Avada Kedava!
Com uma explosão verde o vulto escondido de Harry emergiu das sombras e atacou o comensal que já se preparava para a execução. Contudo, com uma velocidade assombrosa, Voldemort sacou sua varinha e lançou feitiço igual.
Em um “show” de luzes espetacular os dois feitiços se encontraram e produziram um baque ensurdecedor, gerando uma onda de choque responsável por atirar Belatriz e seu companheiro de encontro a parede.
Em continuidade ao incrível “show” de luzes, um espesso liame de luz se formou em pleno ar, as varinhas de Voldemort e Harry estavam conectadas por este “cabo de energia” enquanto seus donos tentavam evitar que o feitiço se voltasse contra eles.
Harry segurava a varinha com as duas mãos e sentia toda a pressão exercida pela enorme quantidade de poder contida na união dos feitiços, em contraposição Voldemort parecia estar se divertindo com aquela situação, exibindo um terrível sorriso desdenhoso.
Belatriz observava a luta com uma feição de espanto, ela demorou alguns segundos para se recuperar da desorientação causada pelo choque com a parede, mas agora toda a sua atenção estava concentrada em seu mestre e na incrível habilidade demonstrada por ele.
O suor começou a brotar na testa de Harry e suas mãos começaram a fraquejar, o medo invadiu sua mente e ele passou a perceber o quão arriscado e mortalmente perigoso havia sido seu movimento. Voldemort não morreria com o choque do feitiço, mas ele sim.
Toda a pressão exercida pelo feitiço se concentrava sobre o garoto, ele sentia suas pernas bambas e a força se esvair a cada respiração. Com um movimento rápido e uma gargalhada fria, Voldemort reforçou seu ataque, fazendo com que ambas as pernas de Harry fraquejassem e o garoto fosse lançado de joelhos ao chão, ele sentia a morte rondar seu corpo, assim como a satisfação de Voldemort.
Do outro lado da sala, o corpo de Neville estava atordoado pela dor, mas sua mente ainda estava alerta, ele sabia que a derrota de Harry era eminente e quando ela acontecesse, ele e seus dois companheiros estariam mortos, assim como o futuro do mundo bruxo.
Harry lutava consigo mesmo para não desistir, seu corpo implorava por um descanso, mas sua mente rejeitava a possibilidade de se entregar à morte e abandonar todos que confiaram nele.
Lembranças percorriam sua mente enquanto a pressão do feitiço aumentava sobre o seu corpo, imagens de Gina surgiam com uma freqüência assustadora, todos os momentos que tiveram, assim como todos os momentos que poderiam ter tido.
Ele lembrava de todos que algum dia tiveram importância em sua vida, ele não sabia se aquilo era saudade ou simplesmente um sentimento de “adeus”. Sua energia estava quase esgotada e toda a força que ele tinha estava concentrada na disputa entre os feitiços.
Voldemort gargalhava com a situação, ele sabia que o fim de seu maior algoz estava próximo e junto dele viria sua vitória sobre todo um mundo bruxo que um dia ousou duvidar de seus poderes.
- Este é o seu fim Potter! – A voz ofídica de Voldemort invadiu o corpo fraco de Harry.
- Não desista. Lute Harry, lute. – A voz de Gabrielle soou fraca e distante.
- Eu... Nunca... Vou... Desistir! – Harry forçou ao limite suas pernas e novamente se colocou de pé, toda a dor que percorria seu corpo transparecia em sua face, mas ele não permitiria que aquele fosse seu fim.
A expressão de raiva aflorou no rosto de Voldemort à medida que Harry forçava o feitiço de volta. Nenhum dos espectadores ousava se movimentar, aquela estava sendo a batalha mais fenomenal que todos haviam presenciado até aquela data. Belatriz não conseguia acreditar que Harry estava fazendo frente a seu Mestre e as esperanças de Gabrielle se reascendiam.
- Você não pode me derrotar! – Voldemort vociferava as palavras para seu inimigo.
Harry não tinha forças para responder, toda a sua concentração estava dirigida para a disputa.
- Você sabe muito bem que o único que pode morrer de nós dois é você. – uma gargalhada sombria seguiu a fala de Voldemort, assim como uma expressão de espanto no rosto do garoto.
Os joelhos de Harry voltaram a se dobrar e ele novamente foi lançado ao chão, a pressão do feitiço voltou a rondar sua cabeça, a qual era preenchida pela duvida “Será que ele sabe da minha missão?” “Mas como ele saberia?” “Snape deve ter acordado!”.
A esperança desapareceu novamente, assim como sua força, outra vez ele estava sendo subjugado e prestes a ser derrotado. Como um ultimo esforço Harry tentou rebater o feitiço, mas não conseguiu, ele não tinha mais forças para suportar a pressão da luta, seu corpo estava tomado pela dor assim como sua mente.
Voldemort tinha a luta em suas mãos e após uma potente gargalhada ele forçou o feitiço contra Harry. A maldição atingiu ruidosamente o peito do garoto, lançando-o de encontro a parede oposta do aposento e caindo com um baque surdo ao chão.
- Não! – Os olhos de Gabrielle se encheram de lagrimas, ela não conseguia acreditar no que estava vendo.
A sala permaneceu em um severo silencio durante alguns segundos, Voldemort se aproximou calmamente do corpo de Harry e examinou seu inimigo. O corpo do garoto estava mole e imóvel, finalmente sua vingança estava consumada.
Ninguém, além de Voldemort, se movia, todos observavam o espantoso resultado do duelo e infelizmente o “garoto que sobreviveu” havia perdido. O Lorde das Trevas lançou um olhar penetrante para Gabrielle, a garoto chorava em silencio enquanto sentia os poderosos olhos de serpente sobre si.
A varinha de Belatriz já estava apontada para o peito da menina. A mais fiel seguidora do Lorde das Trevas estava cheia de felicidade com o triunfo obtido por seu mestre e a morte da bela garota seria o fechamento perfeito para a noite.
- Não Belatriz. – A voz de Voldemort estava calma e repleta de satisfação. – Eu quero que ela leve o corpo do jovem Potter de volta.
A decepção por não poder matar a garota percorreu o rosto da Comensal, mas ela entendeu prontamente o que seu mestre desejava. O corpo de Potter seria a arma perfeita para destruir toda a esperança que restava aos opositores do Mestre.
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Em pouco tempo a casa já estava novamente vazia, só restando Krum, que permanecia desacordado, Gabrielle, a qual reunia forças para se levantar, e o corpo inerte de Harry. Voldemort havia levado Neville, assim como havia planejado, e não só a AD havia perdido seu líder naquela noite, como também havia perdido seu mais fiel guerreiro.
Foi necessário um pouco de esforço de Gabrielle para conseguir acordar Krum, ele havia recebido um forte ataque no peito e desmaiou no mesmo momento. Aparentemente o búlgaro ainda estava um pouco desorientado, mas não demorou a perceber a presença de um corpo imóvel na sala.
- O que aconteceu? Quem é aquele? – Krum massageava seu peito, ele tinha dificuldades para respirar e sentia horríveis pontadas de dor no tórax.
- É... É o Harry. – Os olhos de Gabrielle mais uma vez se encheram de lagrimas e ela recostou a cabeça no ombro do companheiro, suas lagrimas molhavam o casaco vermelho de Krum enquanto ele tentava acalmar a garota.
- O que aconteceu? – Vitor não conseguia desviar os olhos do garoto, a imagem estava se focando e agora ele conseguia perceber o contorno dos óculos e as vestes da AD.
- Ele nos salvou. – Aquelas palavras custaram a sair da boca da menina.
Vítor tentava acalmá-la de todas as maneiras que podia, mas a amiga estava muito abatida, algo normal para alguém que viu um de seus companheiros ser assassinado em sua frente.
- Vamos, nós temos que retornar o mais rápido possível para o acampamento.
Krum se levantou e ajudou Gabrielle a ficar de pé. Ele procurou sua varinha pelo chão e a achou caída próximo ao corpo inerte, colocou-a dentro das vestes e se ajoelhou ao lado do corpo do garoto. Harry estava com os olhos fechados, sua expressão era serena e seu corpo estava completamente pálido, aquela era uma imagem que Krum nunca esquecerá.
Vítor ajeitou calmamente o corpo em seus braços, fez um sinal para Gabrielle e ambos saíram da casa. A chuva continuava a cair, o cheiro da grama molhada aguçou os sentidos da garota e seu corpo se arrepiou com a gélida brisa, ela estendeu sua mão e segurou no ombro do companheiro, fez um simples movimento com a varinha e um estalido soou, no segundo seguinte eles não estavam mais ali.