Capítulo 2
Surpresa no porão
Não consegui mais respirar e meus olhos deviam estar tão arregalados quanto minha boca. O vulto havia falado comigo e com certeza não era um simples animal. Numa primeira reação, levantei a varinha, pronta para qualquer ataque. Não podia morrer justamente naquele momento. Só perguntava-me quem poderia estar ali. Com uma postura corajosa, mas com o coração na garganta, aproximei-me mais, relutante. Permaneci estática ao confirmar que aquele vulto era um homem.
- Quem é você?! – indaguei com a voz elevada e trêmula que não disfarçava o meu temor. Ele pareceu virar-se mais para me encarar, mas não pude ver seu rosto, coberto por uma capa. A surpresa pela presença dele ali foi dando lugar a uma imensa preocupação. Conclui que de imediato eu deveria tirar aquele homem dali.
- Eu acho que conheço você... – A voz obscura se fez novamente, ecoando pelo pequeno corredor, e repentinamente se levantou, correndo em minha direção com uma varinha em mão. Por instinto, dei um passo para trás e apontei mais firme minha varinha para ele.
- Estupore!
O feixe de luz que saiu da minha varinha foi diretamente para o corpo daquele desconhecido, fazendo-o cair no chão com um forte estrondo. Corri até ele e antes de me aproximar, certifiquei-me de que ele estava desacordado. Abaixei-me até ele mais aliviada, mas ainda muito surpresa. Vi o homem desmaiado, aparentemente novo, com uma capa suja e rasgada em alguns pontos sobre uma camisa branca e uma calça jeans também muito sujas. O capuz da capa cobria metade do rosto, não deixando que eu o identificasse. Ia tirar o capuz do rosto dele, mas recuei ao ver uma pedra próximo a sua cabeça. O alívio transformou-se me preocupação. Com certeza ele havia batido a cabeça naquela pedra. Levantei sua cabeça com cuidado procurando por algum sangramento, que felizmente não encontrei. Aproximei os ouvidos de seu tórax e vi que ele respirava. Pelo menos não estava morto. O que parecia me ameaçar antes agora necessitava de minha ajuda. Sem saber muito o que eu deveria fazer levei-o para a sala com minha varinha e pousei seu corpo sobre o sofá. Fiquei parada, de braços cruzados fitando seu corpo. Ele estava ali, desmaiado, e eu não tinha idéia do que deveria fazer. Dei uma risada seca pensando na situação, impressionada com as coisas que aconteciam comigo. Pensei em acordá-lo, mas lembrei do que ele dissera antes de ser estuporado. Ele parecia me conhecer.. Precisava saber quem ele era e talvez adivinhar o que aquele homem fazia no meu porão. Sentei no sofá, próximo as pernas dele e tirei o capuz que cobria seu rosto, com cuidado para que ele não despertasse. Seu rosto estava muito sujo e havia algumas cicatrizes. Tive a impressão de que já o havia visto, mas onde? Será que realmente nos conhecíamos? E que raios ele estaria fazendo ali no porão da minha casa? Não havia outro caminho a não ser acordá-lo e pergunta-lhe. Não podia simplesmente jogá-lo na rua. Eu tinha de saber quem ele era.
- Hei, por favor acorde. – Eu dizia bem baixinho enquanto sacudia seu ombro delicadamente para não o assustar.
Comecei a ficar preocupada ao ver que ele não dava sinal de vida mesmo com eu chamando-o por um razoável tempo. Continuei a balançá-lo, mas com mais força e falava mais alto, pedindo para que acordasse. Sem sucesso e sentindo um certo pavor me invadir, cheguei mais perto de seu rosto.
- ACORDA, POR FAVOR! – gritei desesperada sacudindo sua cabeça.
Seus olhos arregalaram assustados e num sobressalto ergueu ligeiramente o corpo. Eu, aliviada por ele ter acordado, me afastei e esperei que ele ficasse realmente consciente. Ele encarou a sala, rodando os olhos rápidos de um lado para o outro, parecendo não compreender onde estava e o que havia acontecido. Seu peito arfava e eu podia ouvir sua respiração pesada. Ao dar-se conta de minha presença, me encarou com um olhar estranho. Um olhar de medo que eu nunca havia visto. Percebi que eu tinha que ajudá-lo.
- Você está bem? – perguntei apreensiva, sem entender por que ele parecia tão perturbado. Abri um pequeno sorriso, tentando amenizar a situação, esquecendo que eu havia o atacado.
- Quem é você? – Ele me perguntou, tentando se afastar de mim, mas sem se levantar do sofá. Aquela voz grave quase rouca, mesmo que embalada de temor, não me era estranha. Olhei-o profundamente. Aqueles olhos também não me eram estranhos. Ele definitivamente não me era estranho. – Onde eu estou?...
- Você está na minha casa, mas, peraí... – fechei o sorriso compreensivo imediatamente, lançando-lhe um olhar duro. – quem faz as perguntas aqui sou eu. O que você estava fazendo no meu porão?
- E-eu? Porão? Não sei... – Ele me lançou um olhar ainda mais confuso, quase desesperado. Realmente parecia estar perdido, sem entender o que estava acontecendo. Sentou-se. – Onde eu estou?
Fitando seu olhar de confusão, percebi o que estava ocorrendo com pavor.
- Você sabe quem é você? – indaguei com um olhar desconfiado e após ele demorar tanto para responder, eu já sabia.
- Não... – Ele gemeu e fechou os olhos, cerrando o punho com força, parecendo lutar com si mesmo para se lembrar de algo.
“Merda!”, foi a única coisa que pensei naquele momento. Ele não era só um desconhecido escondido no meu porão. Era um desconhecido desmemoriado escondido no meu porão. O que faltava para piorar a situação? Não saberia dizer.
Tentei, inutilmente, fazê-lo tentar se lembrar de qualquer coisa. Ele apenas acenava a cabeça negativamente, com os olhos cerrados, parecendo muito agoniado e assustado com aquela situação. Percebendo que estava perturbando-o mais, parei com minha insistente indagação. E se ele estava confuso, eu, de minha forma, também estava. Não tinha idéia do que fazer para ajudá-lo.
- Você sabe quem eu sou? – Ele me perguntou sem conseguir me olhar. Parecia uma criança com medo e meu coração apertou. Como eu poderia saber?
- Não. Eu esperava que você me dissesse, mas parece que nem você sabe.
- Quem é você? – Seu olhar correu até o meu, tentando buscar algum esclarecimento.
- Meu nome é Ginevra. Você não lembra de nada?
- Eu não sei... eu não sei explicar. Eu lembro de uma luz forte vindo em minha direção... – Parecia fazer um grande esforço para se lembrar de algo que eu já sabia. – Não lembro de mais nada. Isso é ruim... – disse a si mesmo num tom vencido, mergulhando a cabeça entre as mãos.
- Isso é muito ruim. – Levantei-me e fiquei a encará-lo, tentando me lembrar de onde eu o conhecia.
- O que eu estou fazendo aqui? Eu não moro aqui? – Ele perguntava. Seu olhar abatido corria apressado por toda a sala.
- Não sei. Eu comprei essa casa e é a minha primeira noite aqui. Achei aquele porão e fui até lá. Vi você e pensei que você fosse me atacar ou coisa parecida. Então eu... bem... eu estuporei você. Provavelmente você perdeu a memória quando caiu e bateu a cabeça. – terminei num lamento e me sentei ao lado dele, desanimada. A culpa era minha. Dei um sorriso amarelo esperando que ele fosse pelo menos rir da situação, mas ganhei um olhar fuzilante, obviamente. – Você me disse antes de desmaiar que me conhecia, mas eu não me lembro de você. – Ele balançou a cabeça negativamente, com o olhar perdido, provavelmente pensando na situação e eu com o olhar fixo sobre ele. Começava a ficar agoniada com aquela situação. Tudo nele me lembrava alguém que eu conhecia, mas não sabia quem e ele mesmo não sabia quem era. Estávamos numa situação muito complicada. Era a pior sensação do mundo.
- O que eu faço agora? – Ele disse ao lançar o olha para o chão, mexendo as mãos, muito inquieto.
- Pelo que me pareceu, você morava aqui no meu porão. Como a casa era abandonada, não sei, talvez você fosse um mendigo, não sei. De qualquer forma, não vou mandar você embora. Até recuperar a memória é melhor você ficar aqui, mas vai ter que ser escondido, ok? Não quero que minha família saiba sobre você. Darei um jeito de ajudá-lo.
- Tudo bem. – Ele me olhou e concordou com a cabeça, mas sem parecer muito mais aliviado em saber que eu não o deixaria desamparado. Sua expressão desapontada e preocupada me deixava igual.
- É minha obrigação já que você deve estar assim por minha culpa. – Permaneci de cabeça baixa, muito sem jeito. Estava me sentindo extremamente culpada e a idéia de ter estragado a vida de alguém me enchia de remorso e terror. Só me restava ajudá-lo. – Vamos comer alguma coisa e depois acho melhor você tomar um banho, não acha? – disse tentando não parecer indelicada, com um pequeno sorriso. Ele estava muito sujo como se estivesse há anos dormindo no chão, o que poderia ser verdade. A barba e os cabelos longos, a roupa velha e rasgada.. Ele deveria ser mesmo um desabrigado que vivia na casa abandonada.
- É, você tem razão. Parece que eu não andava em lugares muito limpos. – Ele disse com um riso seco, parecendo menos chateado. Levantamo-nos do sofá. – Eu não quero comer nada, só quero mesmo tomar um banho.
- Está bem. – concordei e o levei até o banheiro do primeiro andar. Peguei uma camisa de Rony que eu usava para dormir e uma bermuda de Harry que estava perdida entre minhas coisas. Entreguei as peças de roupa para o homem sem nome. – Tem uma caixa no armário com um barbeador que Harry deixou aqui e uma tesoura. Se quiser cortar o cabelo e fazer a barba... – Eu poderia fazer aquilo com minha varinha, mas achei melhor não me aproximar tanto assim dele. Mas torci para que ele o fizesse. Talvez sem a barba eu o reconhecesse. Ele só concordou com a cabeça e entrou no banheiro.
Fui para o segundo andar arrumar o quarto de visitas para que ele pudesse ficar lá. Peguei um travesseiro e algumas cobertas e as coloquei sobre a cama. Parei para pensar no que eu estava fazendo. Colocar um estranho na minha casa. Eu poderia estar correndo sério perigo. Pensei na hipótese dele estar mentindo e ser apenas um louco psicopata armando pra cima de mim para me atacar quando eu estivesse despreparada. Mas o olhar dele... Aquele olhar perdido não parecia de um louco psicopata mentiroso. Parecia realmente de uma pessoa apenas confusa e perdida. O meu remorso obrigava-me a arriscar. Terminei de arrumar a cama e fui para a minha suíte, que era ao lado. Arrumei minha cama e sem tirar a roupa do corpo me joguei nela, mergulhando entre minhas cobertas quentinhas. As mesmas que eu usava na Toca desde o início de minha adolescência e que eu tinha feito questão de trazer, assim como alguns móveis do meu antigo quarto. Finalmente estava descansando meu corpo depois de um longo e cansativo dia. A única coisa que desejava era poder, na minha primeira noite, dormir naquela enorme cama tranqüilamente, mas meus planos tinham mudado. E ainda faltava algo: um banho reconfortante. Peguei uma camisola e fui para o banheiro. A idéia de um banheiro só meu, no meu quarto, era fantástica. Queria ficar na banheira relaxando, mas se eu ficasse parada em um lugar por mais de 3 minutos seguidos com certeza eu dormiria. Era melhor só uma ducha. Uma ducha de água quente. Foi o que eu fiz. A única coisa que relaxava meus músculos tensos era água quente. Depois de vinte minutos embaixo do chuveiro, me vesti. Penteava meus cabelos na frente do espelho quando fechei meus olhos e lembrei da Toca novamente. Se estivesse lá naquele momento já estaria escutando Rony gritar que eu deveria me pentear em meu quarto e não no banheiro pois havia outras pessoas na casa. Ali não. Aquele banheiro era só meu, a casa era só minha. Teoricamente, já que eu tinha um pequeno visitante inesperado. Lembrei dele. Prendi meus cabelos rapidamente, vesti um robe e estava indo para a porta quando escutei uma voz exaltada no corredor.
- Gina! Onde você está?
Corri para fora e o homem veio em minha direção.
- Eu não conheço essa casa! Não sabia para onde ir.
- Desculpe... – disse com a voz baixa enquanto eu o encarava, distraída. Ele percebeu que eu o olhava estranhamente, mas não pude me conter.
- O que houve? – Ele perguntou, desconfiado com minha atitude.
Não pude responder. Escutei a voz dele bem distante, mas não consegui responder. Meu pensamento estava muito distante enquanto eu o fitava cada vez mais intensamente. Agora eu podia vê-lo bem, limpo e sem aquela enorme barba que cobria seu rosto. Aquele fino rosto branco, quase pálido, aqueles olhos acinzentados, aquele cabelo loiro platinado... Não pude acreditar. Não podia ser quem eu estava pensando. Seria muito... estranho. Logo ele, não... Recusei-me a acreditar. Era impossível. Era muita coincidência. Mais, era horrível!
- O que houve, Ginevra? Por que você está me olhando assim? – Começou a ficar impaciente.
Ele indagava e eu apenas o olhava boquiaberta. Aquela voz... era ela mesma. A voz que me perturbou tanto em Hogwarts. Não só a mim, mas a todos os meus amigos e minha família. Era ele, sem dúvida. Draco Malfoy.
N.A.: É isso aí, mais um capítulo =) Acompanhem e mandem reviews, plz! Beijos! :)