Gina mordeu os lábios e apertou o gatilho do rifle. A garrafa vazia de whisky explodiu no ar.
Enquanto enxugava a testa e voltava a carregar o rifle, pensou que sua pontaria estava melhorando. E estava decidida a melhorar ainda mais.
Hagrid se aproximou com Latiffe nos calcanhares.
-Tem bons olhos, srta. Gina.
-Obrigada, também acho.
Não queria voltar a precisar da ajuda de ninguém para defender-se das serpentes, dos apaches ou de quem fosse.
Nas semanas que passaram desde que Harry a deixou em sua casa e partiu sem dizer uma palavra, havia praticado diariamente com a arma. Sua pontaria havia melhorado muito desde que começou a imaginar o rosto dele nas garrafas vazias e nas latas com que praticava.
-Já lhe disse Hagrid, que não é necessário vigiar todos os meus movimentos. O que aconteceu não foi culpa sua.
-Não posso deixar de pensar que foi. Você me contratou para vigiar e eu falhei.
-Isso já passou, estou aqui e não me fizeram nada.
-Eu me alegro bastante. Se Harry não chegasse, eu teria tentado resgatá-la eu mesmo, senhorita, mas ele era o homem indicado para fazê-lo.
A jovem esteve a ponto de dizer algo cortante, mas se conteve. Ele a tinha salvo arriscando sua vida. O que havia acontecido depois, não era motivo para esquecer aquele fato.
-E estou muito grata a ele, Hagrid.
-Harry só fez o que tinha que fazer.
Gina se recordou da faca e estremeceu.
-Espero que não seja obrigado a voltar a fazer algo assim.
-Por isso preciso vigiá-la. E lhe asseguro que se preocupar com uma mulher não é tão ruim. Eu não tinha que fazer isso desde que minha mulher morreu.
-Ah, Hagrid, não sabia que tinha sido casado.
-Faz alguns anos. Ela se chamava Água Silenciosa e eu a amava muito.
-Sua esposa era índia?
Gina se sentou numa pedra, desejando ouvir mais.
O homem não falava com freqüência ou, pelo menos, não fazia isso quando estava sóbrio. Mas se sentia à vontade com ela, então continuou falando.
-Sim, srta. Era apache, da tribo de Pequeno Urso. Na verdade era sua tia. Eu a conheci quando era soldado por aqui. Lutamos bastante contra os cheyenes. Não me importava de lutar, mas me cansei de ter sempre que marchar. Me dirigi ao sul para buscar ouro, e me encontrei com James Potter. Era o pai de Harry.
-Conheceu o pai de Harry?
-Eu o conheci muito bem. Fomos sócios durante um tempo. Sua esposa e ele passaram momentos muito difíceis. Muita gente não gostava dele por que ele era meio apache. – encolheu os ombros – Uma vez me disse que sua tribo tampouco gostava dele, porque ele era meio branco.
-E que tipo de homem ele era?
-Teimoso, mas muito silencioso. Não dizia muita coisa, mas podia ser divertido. Às vezes eu não entendia suas brincadeiras, só depois de um tempo. Acho que foi o meu melhor amigo – Tirou a garrafa e sentiu-se aliviado porque ela não falou nada – James colocou na cabeça a idéia de criar gado. Assim eu o ajudava de vez em quando. Foi assim que conheci Água Silenciosa.
Gina esticou a saia com ar casual.
Hagrid sorriu
– Era muito duro e continuei sendo. Estava passando uma temporada com a tribo de sua avó. Podia se confundir com um deles, senão fosse pelos olhos. Obviamente não era, eles sabiam e ele também. Como dizia James, é duro não ser uma coisa nem outra. Eu só me perguntava como seria se Água Silenciosa e eu tivéssemos tido filhos.
-Que aconteceu a ela, Hagrid?
-Eu tinha ido buscar ouro – fechou os olhos – Ao que parece, uma semana depois apareceu um regimento. Algum colono havia dito que os apaches tinham roubado seu gado, assim os soldados apareceram para castigar os índios. Mataram quase todos, exceto aqueles que tinham se escondido nas rochas.
-Ah Hagrid, sinto muito - exclamou a jovem, horrorizada.
-Quando voltei, tudo tinha terminado. Creio que fiquei louco. Fiquei por ai uns dias, sem ir a lugar nenhum. Acredito que esperava que alguém chegasse e me desse um tiro. Ai fui para a casa de Potter, Haviam incendiado a casa.
-Oh meu Deus!
-Não sobrou nada mais que cinzas.
-Foram os soldados?
-Não, pelo menos não usavam uniforme. Pelo que parece, alguns homens do povoado se embriagaram e decidiram que não queriam ninguém mestiço pelos arredores. James e sua esposa já tinham tido problemas outras vezes. Colocaram fogo no estábulo e logo um deles começou a atirar. Talvez tivessem planejado ou talvez não. Quando partiram, haviam queimado a casa e deixado a família como morta.
Gina olhou para ele horrorizada.
-Harry devia ser apenas uma criança.
-Treze ou quatorze anos, acho. Mas não era uma criança. O encontrei onde havia enterrado a sua família. Estava ali sentado, entre as covas. Tinha na mão uma faca de caça que pertencia ao seu pai. Ainda a leva.
A jovem conhecia a faca. Havia visto cheia de sangue, mas naquele momento só pensava no menino.
-Pobrezinho, devia estar assustado.
-Não senhorita, Não creio que assustado seja a palavra certa. Cantarolava como em transe, como fazem os índios as vezes. Era um canto de guerra. Pensava em ir a cidade e buscar os homens que haviam matado os seus.
-Mas você disse que ele só tinha treze anos.
-Eu disse que ele não era uma criança. Consegui convencê-lo a esquecer a vingança por um tempo, até que soubesse manejar melhor uma arma. Aprendeu muito depressa. Não vi ninguém que faça com um revolver o que Harry pode fazer.
A jovem estremeceu.
-E foi buscá-los? – perguntou.
-Não sei, nunca perguntei. Pensei que o melhor seria que ir embora por uma temporada, até crescer um pouco mais, assim fomos para o sul. Não sabia o que fazer com ele. Comprei-lhe um cavalo e viajamos uma temporada juntos. Sempre pensei que acabaria unindo-se a alguns bandidos, mas nunca foi um homem que gostasse muito de companhia. Devia ter uns dezesseis anos, quando nos separamos. Desde então ouvia falar dele de vez em quando e o encontrei de novo quando apareceu em Hogsmeade, faz uns meses.
-Perder a todos desse modo – uma lágrima escorreu pela face – É surpreendente que não esteja cheio de ódio.
-Ele está dentro dele, mas é frio. Eu por exemplo, uso a garrafa para esquecer. Harry utiliza algo daqui – sinalizou a testa com a mão – Aquele garoto agüentou mais coisas que um homem devia suportar. Se explodir um dia, é melhor estar longe dele.
-Você gosta dele.
-É o mais próximo de uma família que tenho. Sim. Gosto dele – olhou para os olhos dela – Acho que você também.
-Não sei o que sinto por ele.
Era mentira. Sabia muito bem o que sentia, inclusive começava a entender porque se sentia assim. Ele não era o homem que ela havia sonhado amar, mas era o único que ela queria.
-Não importa o que eu sinta, se ele não sente o mesmo. - Acrescentou.
-Talvez ele sinta. Pode ser que seja muito difícil para ele dizer com franqueza, mas eu sempre acreditei que uma mulher sabe adivinhar certas coisas.
-Nem sempre – se levantou com um suspiro - Temos trabalho, Hagrid.
-Sim, senhorita.
-Uma pergunta mais. Que tem estado fazendo na mina?
-Na mina, senhorita Gina?
-Você mesmo me disse que tenho bons olhos. Sei que tem estado lá, eu gostaria de saber por que?
-Bem, eu... -a mentira não era o ponto forte de Hagrid. Tossiu, moveu os pés e olhou para o vazio – Só dando uma olhada.
-Para achar ouro?
-Pode ser.
-Acha que vai encontrar?
-Arthur sempre acreditou que havia um veio rico nessa rocha e quando Harry... – se interrompeu.
-Quando Harry o que? Pediu para você olhar.
-É possível que ele tenha sugerido, sim.
-Compreendo.
Olhou para a rocha. Sempre se perguntava o que Harry queria. Talvez tenha descoberto. O ouro parecia atrair sempre os homens que amava.
-Não há inconveniente em que trabalhe na mina, Hagrid. Para dizer a verdade, acho uma ótima idéia. Se precisar de alguma ferramenta, me diga - olhou-o friamente – E da próxima vez que for a cidade, pode dizer a Harry que a mina é minha.
-Sim, senhorita. Você manda.
-Insisto - olhou para a estrada. – Vem chegando uma carruagem.
Hagrid cuspiu e desejou que não fosse Malfoy. Na sua opinião aquele homem estava vindo muitas vezes à mina nas ultimas semanas.
Não era Malfoy. Quando a carruagem chegou mais perto, Gina viu uma mulher segurando as rédeas. Uma mulher morena e delicada que ela não conhecia.
-Bom dia – disse apoiando o rifle na parede da casa.
-Bom dia, senhora – a jovem sorriu nervosamente – Você mora muito longe.
-Sim – como sua visitante não parecia disposta a baixar, se aproximou da carruagem. –Sou Gina Weasley.
-Sim senhora. Eu sei. Eu sou Katie. Katie Bell – sorriu para o cão e logo voltou a olhar para Gina – Encantada em conhecê-la.
-É um prazer conhecê-la também, srta Bell. Quer entrar para tomar uma xícara de chá?
-Não senhora, não poderia.
Gina a olhou, surpresa pela reação horrorizada da moça.
-Se perdeu?
-Não. Vim mesmo falar com a senhora, mas não posso entrar. Não seria apropriado.
-Por que não?
-Bem, compreenda, srta. Weasley. Sou uma das meninas de Cho.
Gina a olhou com os olhos muito abertos. Katie era pouco mais que uma menina, um ano ou dois mais jovem que Gina. Seu rosto estava muito limpo e se vestia de forma modesta. Ela corou ante o olhar de Gina.
-Quer dizer que trabalha no Estrela de Prata?
-Sim, senhora. Há quase três meses.
-Mas...- viu que Katie mordia os lábios e engoliu as palavras. Srta. Bell, se veio me ver, sugiro que falemos dentro de casa. Está muito calor para ficar no sol.
-Não posso. De verdade, não seria apropriado, srta. Weasley.
-Apropriado ou não, não quero pegar uma insolação. Entre por favor.
Entrou em casa, Katie hesitou por um momento. Aquilo não lhe parecia adequado, mas se voltasse e dissesse a Cho que não havia cumprido seu dever, ela ficaria furiosa.
Gina olhou os passos tímidos da outra pelo umbral da porta, no momento que punha a água para ferver.
- É muito bonita. Era a primeira vez que tinha uma visita que pensava daquele modo.
–Sente-se, por favor, srta. Bell. Estou fazendo chá.
-Você é muito amável, mas não é apropriado me servir chá.
-É a minha casa e você é minha convidada. Lógico que é apropriado. Espero que goste dos biscoitos. Eu os assei ontem.
Katie se sentou com ar nervoso.
-Obrigada, senhora. E não se preocupe. Não direi a ninguém que me sentei a sua mesa.
Gina serviu o chá, intrigada.
-Por que não me diz a razão de ter vindo me ver?
-Cho viu os vestidos que você costurou para as mulheres da cidade. São muito bonitos, srta. Weasley.
-Obrigada.
-Precisamente outro dia, quando partiu com Harry.
-Harry?
-Sim senhora - Katie tomou um gole do chá – Ele vai sempre ao Estrela de Prata. Cho gosta dele de verdade. Ela não trabalha muito mais, sabe? A menos que se trate de alguém como Harry.
-Sim, compreendo. Acredito que ela o ache um homem interessante.
-Com certeza, sim. Todas as garotas gostam de Harry.
-Estou certa disso.- murmurou Gina.
-Bem, como lhe dizia, um dia quando ele partiu, Cho colocou na cabeça que devia fazer uma roupa nova. Algo elegante, como as damas usam. Me disse que Harry lhe havia indicado para costurar algo para ela assim.
-Verdade?
-Sim. Senhora. Falou que achava que Harry tinha tido uma boa idéia e me mandou para que eu pergunte a você, se poderia costurar um vestido para todas as meninas. Tenho as medidas de todas.
-Sinto muito, srta Bell. Não posso. Mas diga à Cho que eu agradeço a oferta.
-Somos oito, senhora e Cho disse que pagaria adiantado. Tenho aqui o dinheiro.
-É muito generoso, mas não posso costurar. Quer outra xícara de chá?
-Eu não ...-confusa, Katie olhou sua xícara. Não conhecia ninguém que havia negado alguma coisa à Cho – Se não incomodar.
-Srta. Bell.
-Pode me chamar de Katie. Todo mundo me chama assim.
-Katie, então. Importa-se em me dizer como chegou para trabalhar com Cho? Você é muito jovem para ser... você sabe.
-Meu pai me vendeu.
-Vendeu você?
-Em casa éramos dez, e tinha outro a caminho. Sempre que se embebedava, batia em nós ou fabricava outro. E bebia quase sempre. Há uns dois meses passou um homem por ali e meu pai me vendeu por vinte dólares. Escapei enquanto pude. Quando cheguei a Hogsmeade, fui trabalhar com Cho. Sei que não é o melhor, mas foi o único trabalho que tinha. Como bem e tenho uma cama para mim quando termino de trabalhar. – encolheu os ombros – A maioria dos homens não são ruins.
-Seu pai não tinha o direito de vendê-la, Katie.
-Às vezes as pessoas fazem coisas que não tem direito.
-Se quiser deixar Cho, estou certa que posso encontrar outro trabalho na cidade. Um trabalho decente.
-Desculpe, srta. Weasley. Mas isto não está certo. Nenhuma das damas da cidade me contrataria para nada. E é justo, como vão saber que eu não estive com seu marido?
Era uma boa pergunta, mas Gina meneou a cabeça.
-Se quiser partir, eu lhe encontrarei trabalho.
Katie a olhou admirada.
-Você é muito amável. Sabia que era uma verdadeira dama, srta. Weasley, e eu lhe agradeço muito. É melhor eu ir agora.
-Se quiser voltar a me visitar, ficarei feliz em vê-la, - disse Gina acompanhando-a até fora da casa.
-Não senhora, Não seria apropriado. Obrigada pela chá, srta Weasley.
Gina pensou muito na visita de Katie. Naquela noite, enquanto lia o diário do seu pai, à luz da vela, pensou como seria se o próprio pai lhe vendesse como se fosse um cavalo, e estremeceu. Era certo que ela também tinha passado muitos anos com uma família de verdade, mas sempre havia sabido que seu pai a amava. O que tinha feito, fez pensando nela.
Em outro tempo, teria condenado de imediato a escolha de Katie, mas naquele momento, compreendia. A garota não conhecia coisa melhor.
Harry havia passado pela mesma situação? A crueldade na vida de um menino, o fez escolher uma vida de violência? Suas cicatrizes deviam ser muito profundas. As cicatrizes e o ódio.
Apesar de tudo sabia que em seu coração havia um lugar para ela. Debaixo daquele exterior de homem duro, havia um homem que acreditava na justiça, que era capaz de ser amável e ajudar as pessoas.
Então, por que no momento em que começou a entregar-se a ele, a aceitá-lo como ele era, ele tinha se voltado para outra mulher? Uma mulher cujo amor podia ser comprado por um punhado de moedas?
Fechou o diário de seu pai com um suspiro e se preparou para dormir. Havia sido uma estúpida por pensar que ele podia gostar dela. Ele era demasiado impulsivo para assentar-se e ela queria um homem a seu lado e filhos a seus pés. E enquanto amasse Harry, não teria nada daquilo.
Assim então, tinha que deixar de amá-lo, custasse o que custasse.
Harry odiava a si mesmo por isso, mas cavalgava em direção a casa de Gina, inventando uma serie de desculpas. Se dizia que queria falar é com Hagrid e ver se havia feito algum progresso com a mina, que queria se assegurar que ela não tinha sido atacada por nenhuma outra serpente, que queria dar um passeio e aquela lugar estava bom.
Mas era tudo mentira.
A verdade é que desejava voltar a vê-la. Queria olhar para ela, ouvi-la falar, cheirar seu cabelo. Ficara duas semanas afastado dela, então tinha direito, certo? Enquanto entrava na propriedade lembrou a si mesmo que não tinha direito a pensar nela, a desejá-la do modo que a desejava.
Gina merecia um homem que pudesse fazer promessas e cumpri-las, que pudesse lhe dar o tipo de vida que ela havia nascido para levar.
Não voltaria a tocá-la. Aquilo era algo que havia prometido na última vez que a vira. Se ele a tocasse, não seria capaz de conter-se e isso só serviria para acabar com a felicidade dos dois.
Tudo estava em silêncio. Desceu do cavalo e deu uma olhada em volta. Não havia ninguém a vista. Abriu a porta da casa e escutou. Lá dentro também nenhum ruído. Relaxou. Aquele lugar havia mudado. E esse era mais um motivo para admirá-la. Tinha feito um lar com quase nada.
Havia quadros nas paredes. Um deles era uma aquarela de flores silvestres. Se aproximou do outro. Era um desenho a lápis, um croqui. Reconheceu o lugar, a rocha banhada pelo sol, e o riacho ao oeste. Não era um lugar vazio. Os apaches conheciam os espíritos que viviam ali. Ao olhar para o desenho, pensou que Gina também devia conhecê-los. Nunca havia imaginado que ela passaria algum tempo desenhando algo tão forte e árido, nem muito menos que iria pendurá-lo na parede, onde o veria todos os dias.
Se voltou com idéia de que ela entendia um pouco de magia. Por acaso a cabana não cheirava a magia?
Estava a ponto de sair quando viu o livro. Abriu-o sem pensar no que fazia. Pelo que parecia, Gina havia começado um diário. Incapaz de resistir a tentação, começou a ler.
Havia descrito sua chegada a Hogsmeade. Sorriu ao ler a descrição do ataque dos apaches e sua chegada oportuna.
Havia uma longa passagem sobre seu pai e o que sentia por ele. Foi adiante, a dor era algo que sabia respeitar. Riu ao ler sua descrição da primeira noite que tinha passado ali, a lata de feijões frios e os ruídos que tinham mantido alerta e tremendo até de manhã. Em seguida viu seu nome.
“Harry Potter é um enigma. Não sei se trata de um diamante bruto, se bem que afinal, é um bruto. A sinceridade me obriga a admitir que me ajudou muito e se mostrou amável comigo. Não consigo compreender meus verdadeiros sentimentos por ele, e me pergunto se seria necessário tentar entender. É um homem que necessita muito de modos e cortesia. Sua reputação é terrível. É o que se chama de pistoleiro. E usa suas armas com tanta naturalidade, quanto um cavalheiro usa um relógio de bolso. Sem heistar, creio que se aprofundasse o bastante nele, seria possível encontrar algo de bom. Ainda bem que eu não tenho vontade e nem tempo de me aprofundar nele.
Apesar dos seus modos e do seu estilo de vida, é certo que há algo atraente nele. Tem olhos lindos, cor verde claro e uma boca que algumas mulheres chamariam de poética, principalmente quando sorri. E mãos lindas.”
Harry olhou para suas mãos. Haviam qualificado suas mãos de muitas coisas, mas nunca de”lindas”. Não estava muito certo que se importasse com isso, mas tinha que admitir que ela sabia usar as palavras.
Virou a página e ia continuar a ler, mas ouviu um ruído às suas costas e se voltou com o revolver na mão.
Hagrid lançou um impropério e baixou sua arma.
-Não viveu tanto tempo para que possas me balear.
Harry guardou o seu revolver.
-Devia ter mais cuidado quando se aproxima de um homem- disse – Não viu o meu cavalo?
-Sim eu o vi. Só queria ter certeza. Não esperava encontrá-lo espiando por aqui – olhou para o livro que Harry fechou sem dizer uma palavra.
-E eu não esperava encontrar a casa deserta.
Hagrid tirou uma garrafa pequena de whisky do bolso.
-Estava na mina – anunciou.
-E?
-É interessante – deu um grande trago, limpou a boca com o dorso da mão – Não sei como Arthur se deixou pegar pelo desabamento. Era muito esperto e lembro que as vigas eram bastante seguras. Parece que alguém teve que se esforçar bastante para tirá-las.
Harry assentiu e olhou para a aquarela na parede.
-Disse algo para ela?
-Não. Há mais alguma coisa que eu não disse – sorriu – Ali tem ouro, garoto. Arthur encontrou o veio – bebeu outro trago da garrafa – Você supunha que havia, não?
-Tinha um pressentimento.
-Quer que eu guarde segredo?
-Por enquanto, sim.
-Não me agrada enganar a Srta. Weasley, mas acho que tem suas razões.
-Eu tenho.
-Não vou perguntar quais são. E nem quais são os motivos de não vir aqui ultimamente. A senhorita Gina está um pouco estranha desde que a trouxe das montanhas.
-Está doente?
Hagrid colocou a mão na frente na boca para ocultar um sorriso.
-Creio que tem febre, sim. Febre de coração.
-Ela vai superar – murmurou Harry, saindo da casa.
-Também você está meio diferente. Ela é uma mulher especial. Parece fraca, mas é teimosa e não se rende nunca. Vê isso – indicou a horta – Conseguiu cultivar alguma coisa; Nunca acreditei que veria um talo verde, mas ali o tem. Rega todos os dias. É teimosa e uma mulher teimosa pode conseguir muitas coisas.
-Onde ela está?
Hagrid esperava a pergunta.
-Saiu para um passeio a cavalo com Malfoy. Vem aqui quase todos os dias, bebe chá – cuspiu – Beija os dedos dela e a mima. Mencionou que gostaria de levá-la para conhecer seu rancho. Faz mais de uma hora que se foram.
-Fazia tempo que não passava uma tarde tão agradável. –Gina se ergueu da mesa de jantar de Malfoy. A comida estava deliciosa.
-O prazer foi todo meu – Draco lhe segurou a mão. –Todo meu.
A jovem sorriu e afastou a mão dele com gentileza.
-Sua casa é muito bonita. Não esperava ver algo assim por aqui.
-Meu avo gostava de coisas bonitas –segurou seu cotovelo – Eu herdei esse amor dele. A maior parte dos móveis foram trazidos da Europa. Tivemos que fazer algumas concessões ao clima – disse, batendo na parede de adobe - mas não há razão para sacrificar as comodidades.
Conduziu-a até o retrato de uma mulher pálida e elegante, vestida de seda azul.
-Minha mãe. Ela era a alegria e o orgulho do meu avô. Sua esposa morreu antes que pudesse terminar a casa, A partir daquele dia, fez tudo pensando na filha.
-Era muito bonita.
-Era sim. Nem o amor e a devoção de meu avo conseguiram mantê-la viva. As mulheres da minha família sempre foram muito delicadas. Esta terra é dura, dura demais para os frágeis. Acabou com ela. Acho que é por isso que me preocupo tanto com você.
-Eu não sou tão delicada quanto você pensa.
-Você tem muita força de vontade. Acho isso muito atraente.
Voltou a segurar-lhe a mão. Antes que ela decidisse o que fazer, um homem entrou na casa. Era mais baixo e magro que Malfoy, mas havia uma certa semelhança entre eles. Seu chapéu foi jogado para traz, seguro por um corda de couro amarrado ao pescoço. Trazia os polegares dentro dos bolsos das calças e a olhou de um modo que lhe gelou o sangue.
-Olha só quem vemos por aqui?
-Srta Weasley,- replicou Malfoy, em tom de advertência – gostaria de lhe apresentar meu irmão, Blás. Terá que desculpá-lo, ele estava trabalhando com o gado.
-Draco se ocupa do dinheiro e eu com o resto. Não tinha me avisado que tínhamos companhia. – se aproximou mais. Cheirava a couro e tabaco, mas Gina não encontrou nada de atraente nele - E uma companhia tão bonita.
-Convidei a Srta. Weasley para almoçar.
-E foi encantador, mas agora tenho que ir – interveio ela.
-Não pode sair correndo quando eu chego. Aqui não temos freqüentemente uma companhia como a sua. É tão bonita quanto um rosa. – olhou para o irmão de uma forma que ela não entendeu.
-Será melhor que a leve – disse Malfoy – Temos que discutir umas coisas quando eu voltar.
-Draco só pensa em negócios – sorriu Blás – Eu prefiro outras coisas.
Gina deu um suspiro de alívio quando Draco a segurou pelo braço.
-Bom dia, sr. Malfoy.
Blás olhou enquanto ela se afastava.
-Bom dia para você também.
-Terá que desculpá-lo – Draco a ajudou a subir na carroça – Blás é um pouco mal educado. Espero que não tenha ficado chateada.
-Não em absoluto – disse ela, esforçando-se para sorrir com cortesia.
-Parece que se adaptou bem a sua nova vida – comentou Malfoy.
-Para dizer a verdade, eu gosto.
-Me alegro, por ouvir isso, mas por razões egoístas. Tinha medo que ficasse desencorajada e partisse. – pôs os cavalos para andar e voltou-se sorrindo para ela. – Fico muito contente por ter ficado.
Ao chegar acima de uma colina, freou a carruagem para dar uma ultima olhada para o rancho. A casa brilhava, sob o sol. O estábulo e o celeiro se erguiam, numa extensão de terra atravessada por um riacho azul.
-É muito lindo, Draco. Deve estar muito orgulhoso do rancho.
-O orgulho nem sempre é suficiente. Um lugar como esse precisa ser compartilhado. Lamento não ter uma família minha para herdá-lo. Até agora tinha quase que renunciado à esperança de encontrar uma mulher para compartilhá-lo comigo – segurou a mão dela e a levou aos lábios – Gina, me faria o homem mais feliz se quisesse ser esta mulher.
A jovem ficou sem fala, ainda que dificilmente pudesse dizer que estava surpresa. Ele não tinha escondido o desejo de cortejá-la. Examinou o rosto dele em silêncio. Era tudo o que poderia sonhar: atraente, elegante, um homem de sucesso. E estava oferecendo tudo aquilo com que havia sonhado: um lar, uma família, uma vida plena e feliz.
Desejava poder dizer que sim, acariciar sua face e sorrir. Mas não era possível. Desviou os olhos, procurando as palavras adequadas.
Então o viu. Apenas um pouco mais que uma silhueta no horizonte. Um homem anônimo a cavalo. Mas sem duvida se tratava de Harry.
Se virou deliberadamente.
-Draco, não imagina o quanto sua oferta me tenta.
O homem percebeu que ela ia recusar e, mesmo louco de raiva, sorriu.
-Por favor, não responda agora. Quero que pense nisso. Creia, Gina, compreendo que faz pouco tempo que nos conhecemos e que é possível que os seus sentimentos não sejam tão fortes como os meus. Dê-me a oportunidade de mudar isso.
-Obrigada - não protestou quando ele voltou a beijar-lhe a mão. Pensarei nisso. - E lhe agradeço por ser tão paciente. Nestes momentos tenho muitas coisas para pensar. Minha vida está quase sob controle e agora vou abrir a mina.
-A mina? – a mão ficou tensa sobre a dela. – Vai reabrir a mina?
-Sim – ela o olhou surpresa.- Algo errado?
-Não, não. Só que me parece perigoso – Fez um esforço para controlar-se – Eu temo que abri-la pode afetá-la mais do que imagina. Afinal ela matou seu pai.
-Eu sei. Mas também lhe deu vida. Sinto que ele gostaria que eu seguisse adiante.
-Escute, faça algo por mim?
-Tentarei.
-Pense bem nisso. Você é muito importante para mim e não quero de se deixe levar por um sonho vazio – sorriu e segurou as rédeas do cavalo – E se casar comigo, contratarei alguém para trabalhar na mina para que você não sofra.
-Pensarei nisso.
Mas sua cabeça estava cheia de outros pensamentos: se virou e olhou para o cavaleiro solitário por cima do ombro.
n/a: muito bom saber que vocês estão gostando!!!!!