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3. Os Sentimentos de Riddle


Fic: O Filho das Trevas - reescrita


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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- Os Sentimentos de Riddle –


 


“Innocent child, how you thought you knew me?


Understood my ways, my dark needs?


The hunt is not the thrill I’m after


The kill, the conquest to be your master


Wrap your arms around my pale skin


It’s too late to go back, you’re in!


On your knees you pray your new lord


Deeper now, and here’s your reward!”


 


The Bondage Song, London After Midnight


 


I


 


Acordou antes que amanhecesse. Devia ser quase quatro horas da manhã, ele não tinha certeza.


Sentou-se na cama, sentindo-se completamente acordado. O fogo da lareira já se apagara, deixando somente as brasas incandescentes e o quarto mais frio. Mas não se sentia desconfortável com isso, pelo contrário.


Depois de tanto tempo dormindo sozinho, receava que não se acostumara ainda a encontrar outro corpo quente e vivo tão próximo. Não que fosse desagradável, mas ela lhe dava calor.


Olhou para os contornos da garota ao seu lado, adormecida. Machucara-a bastante durante a tarde, mas ela não guardara ressentimentos. Fizera questão de proporcionar-lhe uma noite excelente. Agora estava mergulhada no edredom para proteger o corpo nu do frio de tal modo que ele só conseguia ver o topo de sua cabeça ruiva.


Coitada - tão jovem e já tão perdida…


Ele não tinha opiniões muito concretas sobre ela. Fora parar ali para garantir a segurança da família e para se vingar de algo que Harry Potter lhe havia feito, mas não podia afirmar que ela fingisse alguma coisa quando estava com ele. Não sabia qual tinha sido a relação dela com o Tom Riddle de seu diário há alguns anos atrás, mas certamente aquilo afetara-a de alguma maneira. Estava constantemente confundindo-os.


Mas não era algo que julgasse ruim. Às vezes ela chamava-o de “Tom”, mas ele não corrigia-a. Davam-se bem, apesar da relação leviana. Achava-a inteligente, sim, mas isso era apenas um terço da atração que ela exercia sobre ele. Não… Ela era muito bonita. Achava que fosse se cansar dela bem mais cedo, mas a menina atraia-o sempre que viam-se no mesmo cômodo.


Ele não sabia ao certo o que é que tanto o interessava nela. Seu rosto era bonito, de traços sedutores, embora ainda ostentasse um ar de inocência referente à idade. Nariz arrebitado, lábios cheios, olhos expressivos e castanhos. A pele clara e os cabelos acobreados eram exóticos, combinavam e davam-lhe personalidade. Seu corpo não era menos atraente: era jovem, perfeito, proporcional, bastante feminino. Pequena e leve, mas não era extremamente magra e tinha curvas que, na condição de homem, era obrigado a apreciar.


Só de pensar nisso, ele sentiu um início de excitação, mas controlou-se. Esse corpo jovem que conseguira por meio de uma forte poção da juventude viera com o porém dos embaraçosos hormônios. Desconfiava fortemente que isso tinha relação com a atração que sentia pela garota.


Não estava reclamando.


Por outro lado, além da questão física, admitia que Ginny Weasley era diferente dos outros. Viva cercado de bajuladores e de incompetentes, e ela não era nenhum dos dois. Aliás, ela fazia e dizia o que bem entendia, contrariando as regras do bom senso, mas ele achava-a divertida. Aceitava suas displicências na medida em que isso não influenciasse no comportamento dos outros Comensais, para os quais não dera tal liberdade. Mas ela sabia regrar sua personalidade forte para entretê-lo quando estavam à sós e ser razoável quando convinha ser. Não era burra.


Ainda tinha o fato de que podia ter conversas frutíferas com ela sobre qualquer assunto. Ela era jovem e inexperiente, mas tinha muito interesse pelo que acontecia ao seu redor. Quando ela não sabia sobre algo, interessava-se em aprender. Ele sabia que ela se esforçava para não perder seu lugar, e ele admirava essa característica.


Mas havia um algo mais ali. Aqueles já eram bons motivos para um homem se interessar por uma mulher, mas não para ele. Não. O que mais fazia-o sentir-se intensamente atraído por ela era o modo como tudo aquilo soava terrivelmente errado.


Ele sorriu com maldosa satisfação quando o pensamento se formou em sua cabeça.


Quando conhecera-a, ela era menor de idade, traidora do sangue e namorada de Harry Potter. Não sabia ao certo o que queria quando olhou-a pela primeira vez, mas sentira um desejo incrível de corrompê-la. Talvez quisesse provar para os outros que nem mesmo uma menina pura e boa como ela era capaz de resistir por muito tempo quando ele decidia investir. E, principalmente, era uma provocação explícita para Potter.


O que não esperava é que ela reagisse tão positivamente. Muito mais cedo do que esperava, ele viu-a voltar-se para o lado dele. Mais breve ainda, tivera o que seus instintos masculinos desejavam dela. Aquilo havia sido o início do que considerava um envolvimento arriscado. Já havia muitas vezes se flagrado protegendo-a dos outros e, embora se sentisse satisfeito de poder defender aquela frágil garota de maldades alheias, começava a achar que estava prestes a se deixar envolver pelo que mais desprezava na vida.


Sentia que Ginny aproveitava-se de sua posição para fazer com que ele apoiasse suas vontades, mas acalmava a si mesmo pensando que ele fazia o que ela lhe pedia porque queria. A idéia de que talvez estivesse sendo manipulado por uma garota que tinha bem menos que metade de sua idade era perturbadora, e ele preferia não pensar nela.


Naquela tarde não hesitara muito em atender seu pedido choroso para que libertasse seu amigo de escola, uma vez que ela passara por tudo aquilo e ele descobrira uma valiosa informação, mas agora pensava que talvez não devesse tê-lo feito. Ginny devia aprender quem é que dava as ordens. Duas vezes naquele dia ela enfrentara-o em público, e nas duas vezes fora tolerante demais.


Mas acabava sempre terminando em um pensamento: o esforço da menina para manter a família a salvo, família que talvez nunca soubesse o que ela estava fazendo por eles, indo direto para os braços dele, sem garantia alguma, colocando em risco a própria vida e dignidade… Sabia dar valor à certas coisas. Era algo que ele mesmo nunca faria por ninguém.


E estava sendo bem pago para suportar aquilo.


E talvez fosse por isso também que optara por não traumatizá-la quando ela se entregou a ele pela primeira vez. Conseguira ser o homem dos sonhos para ela, e assim ela lhe dava tudo o que queria. E também lhe deu a certeza de que ainda podia ser persuasivo se quisesse.


E eis o grande trunfo da sua poção da juventude. Poucas pessoas sabiam que ele fora assim quando jovem, então por mais que saísse às ruas sozinho, ninguém o olhava duas vezes. Algumas garotas o olhavam mais de duas vezes, mas ele as decepcionava não dando-lhes atenção. Devia dizer que o mundo era mais fácil para as pessoas bonitas, e todos os tratavam bem, o que facilitava muito as coisas. Durante o primeiro ano nem precisara de Comensais da Morte junto dele quando ia capturar pessoas de seu interesse. Simplesmente batia à porta, e pedia educadamente para falar com a vítima, que ia para a armadilha de boa vontade. Igualmente interessantes foram as notas nos jornais de como um homem misterioso e bem-apessoado fazia as pessoas desaparecem.


E então tiraram uma foto dele, e a moleza acabou. Mas não se livrou de sua nova aparência, porque ela deixava os prisioneiros bem mais nervosos, principalmente os do sexo feminino. E ele só precisava falar manso para que elas abrissem a boca, na maioria das vezes. Também era um atrativo para as garotas que se alistavam.


Sem contar que Ginny provavelmente perdesse o interesse nele caso ele voltasse a se parecer com o que era a cerca de três anos atrás. Então as únicas preocupações que tinha com a aparência, realmente, era em não deixar o efeito da poção degradar e fazer a barba, porque não queria se parecer com um duende. Mas realmente não iria se importar em não usar as roupas porque estivessem amarrotadas ou em pentear ou aparar os cabelos. Perda de tempo.


Mas ora essa, estava pensando em como Ginny reagiria se ele, por um acaso, deixasse de ser bonito. Aquilo o fez sorrir em auto-repreensão. À que ponto havia chegado…


Achou melhor ir embora. Tinha que dar alguma coisa para Nagini comer, ela ficara trancada em seu quarto o dia todo. Também não queria dormir junto da garota todos os dias, ou ela pensaria que ele gostava mais dela do que realmente gostava.


E se isso acontecesse ele não tinha muita certeza de que continuaria apreciando sua companhia por muito mais tempo.


Levantou-se, o mais silenciosamente possível, e ela não acordou. Vestiu-se e tornou a acender a lareira, antes de sair.


 


 


Ginny acordou no dia seguinte com uma dor de cabeça horrorosa. Talvez fosse a experiência traumática de ontem, ou talvez fosse aquela taça de vinho suspeita que ela tomara. Quando se levantou, tudo girou, e ela precisou correr para o banheiro.


Aquilo soava mal. Ela passou quase quinze minutos sentindo náuseas, mas depois desse tempo começou a melhorar. Nunca passara mal desde que entrara ali, e isso não era um bom sinal. Podia pegar quantas poções quisesse para aliviar seu mal-estar, mas se aquilo se revelasse realmente uma doença, teria que tomar alguma outra atitude, e talvez precisasse até ir ao hospital. Os Comensais mais preparados ali eram os do grupo Cinco, e mesmo estes não curavam nem unha encravada, o que diria ainda se fosse para ela.


O amante então, provavelmente a olharia com nojo se dissesse que tinha vomitado, e repreendê-la-ia por ter contraído uma doença.


Resolvendo pensar mais positivamente a respeito daquilo, talvez fosse apenas uma intoxicação alimentar. Se lembraria de perguntar a Jack se ele também passara mal depois do almoço de ontem.


Acabara acordando um pouco tarde, e seu mal-estar a atrasara demais. Estava terminando de se aprontar quando bateram em sua porta.


- Você está bem? – perguntou Jack, quando ela atendeu a porta. – Não apareceu para o café.


- Não estava me sentindo muito bem – respondeu, sincera.


- O que aconteceu? – perguntou ele, preocupado. Ele olhou para os lados e então inclinou-se para ela. – Estão dizendo que você teve um… imprevisto com o Lord ontem à tarde.


- Ah… - fez ela, empalidecendo ligeiramente. – Não sei o que estão dizendo, mas não foi nada, de verdade.


Ele olhou-a, desconfiado.


- Qual é, Ginny? – disse ele, em voz baixa e séria. – Viram você saindo escorada pelo guarda das masmorras.


Ela fungou.


- A gente teve um problema de comunicação – disse ela, com uma careta. – Mas não foi nada. Você sabe como ele é – completou, apressada, uma vez que ele ainda não parecia satisfeito. – OK, você venceu. Ele queria torturar meu prisioneiro, eu não quis deixar, ele pegou mal. Mas o prisioneiro acabou dizendo, em todo o caso…


Jack ergueu as sobrancelhas.


- Deixa eu ver se eu entendi: ao invés de torturar o prisioneiro, ele torturou você, o que me faz presumir que o tal prisioneiro te conhecia, por ter falado mesmo não tendo sido torturado – disse ele, com uma naturalidade irônica.


- Resumidamente, sim – respondeu ela, cansada. Sabia que o amigo ficaria bravo.


Ela viu as narinas dele se expandirem de raiva.


- Você também só tem bosta de dragão na cabeça, né? – reclamou ele, em tom de bem-feito. – No que estava pensando quando achou que ia impedir um cara do nível dele de fazer alguma coisa?


Ginny deu ombros e fechou a porta atrás de si. Foram caminhando em direção à escada.


- Não me arrependo. Consegui o que queria – respondeu ela.


- É? Uma Cruciatus no meio da bunda? – perguntou ele, ainda sarcástico e raivoso.


Ela riu, deixando-o ainda mais carrancudo.


- Não fique tão nervoso, Jack. Eu estou bem.


- Não foi o que você disse quando eu perguntei.


- Eu já estava passando mal antes – respondeu. – O que eu perdi nas masmorras já recuperei ontem à tarde mesmo. E não se preocupe com o Lord, ele até veio ver como eu estava – disse Ginny, não sendo de todo falsa: apenas omitira a parte que ele fora embora só de madrugada.


Jack olhou-a com uma sobrancelha erguida.


- Por quê? – perguntou, intrigado.


- Por que o que?


- Por que ele veio te ver?


- Ah, ele disse que não tinha nada contra mim, mas que foi conveniente – respondeu Ginny, tentando parecer natural. – Não chegou a pedir desculpas com as palavras certas, mas eu captei o recado.


Mas o amigo parecia incerto, com uma cara estranha.


- E você abriu a porta para ele? – brincou o amigo, fingindo terror. – Depois de tudo? Nossa, você é corajosa.


- O que mais eu podia fazer? – riu-se ela, sentindo o humor melhorar. Não sentia mais mal estar, embora a cabeça ainda doesse um pouco.


A conversa seguiu mais animada ao que mudaram de assunto. Ao chegarem na Sala de Planejamentos, encontraram todos à mesa grande. Os Comensais que haviam desafiado-a no dia anterior encararam-nos com um misto de desprezo e satisfação por vê-la chegar atrasada. Parecia que as notícias correram rápido, e o simples boato de que ela havia sido punida pelo Lord das Trevas por qualquer motivo parecia agradá-los.


- Me perdoe pelo atraso, milord – disse ela, servilmente.


Ele indicou sua cadeira com um aceno de cabeça e continuou fitando-a por alguns segundos enquanto ela e Jack tomavam seus lugares. Mas não fez comentários, e os outros, ao redor, pareceram tomar aquilo como um sinal de que, se ele não ia xingá-la por ter chegado atrasada, estava tomando a responsabilidade por aquilo, ou seja, ele realmente havia machucado-a o suficiente para que ela não conseguisse se levantar na hora certa, e aquilo deixava-os satisfeitos. Pelo menos era o raciocínio que Ginny imaginava-os fazendo.


Menos mal, pelo menos agora, talvez, eles achassem que ela tinha tido sua punição e voltassem a tratá-la com o habitual descaso.


- Agora que estão todos aqui, tenho um assunto para discutir – começou o amante, indiferente. – Ontem chegou aqui um prisioneiro com informações valiosíssimas. De acordo com ele, a Ordem da Fênix está com posse de um objeto mágico de grande poder. Um objeto que eu quero – disse ele, frisando a importância do assunto. O grupo Cinco prestava a maior atenção, agora.


Ele falou sobre o Pentagrama brevemente, sem entrar em detalhes (Ginny desconfiava que ele não quisesse que soubessem do verdadeiro poder do objeto, pois alguém poderia se interessar em roubá-lo para si durante a missão de interceptação). Disse que não valia a pena interceptar o objeto agora, uma vez que os inimigos haviam métodos simples e seguros para que deslocassem-no, sem que nem mesmo precisassem sair ao ar livre para isso. Mesmo assim, ele queria uma comitiva no dia em que fora informado pelo prisioneiro escondida nos arredores de Grimmauld Place, nº 12.


Disse também que como acreditava que não fossem conseguir nada no dia em questão, que deviam ir se preparando para uma invasão à Hogwarts para daqui a alguns meses. Deviam elaborar propostas dentro dos quinze dias seguintes, e não importava quanto tempo levasse a preparação, mas deveriam ter uma estratégia perfeita para o dia em que decidissem entrar na escola.


Isso lhes tomaria o dia todo. Depois da reunião, eles se separaram de acordo com suas habilidades específicas. Ginny ficou na Sala de Planejamentos mesmo, discutindo com Tom as possíveis opções para o assunto mais urgente, que era a operação de quinta-feira. Ela convidou Jack a participar da conversa, uma vez que ele era perito em disfarces, e precisariam estar muito bem disfarçados. Convocou Adam Goldenfire também, já que ele podia ajudar a identificar o modo como a Ordem da Fênix, onde os membros que não eram Aurores eram seus aliados próximos, agiria se tratando de tal situação.


Os Lestrange e os Malfoy se reuniram nas mesas menores ao fundo da sala, e Ginny reparou nos olhares furtivos em sua direção, como se desaprovassem o fato de seu mestre estar mais interessado em contribuir com o grupo formado por novatos do que com eles. Mas ela não achou que isso causaria novos atritos.


Ao fim da reunião, haviam definido uma estratégia para a abordagem de quinta-feira, e sua cabeça estourava de dor. Pediu permissão para ir até o laboratório de poções antes de passar por escrito a conclusão, e ele pediu para pegar uns papeis em seu quarto quando voltasse. Enquanto isso, os outros dois trabalhariam na camuflagem e no modo de execução da missão.


Ela encontrou um mensageiro quando saía da sala. Era incrível como, apesar de poderem simplesmente enviar uma mensagem por meios mágicos, os chefes dos grupos inferiores preferiam sempre enviar um subordinado, como se para gozar de sua autoridade medíocre. Mas não havia nada que ela pudesse ou se animasse a fazer. Sua única vontade no momento era tomar uma poção que aliviasse sua dor de cabeça.


Desceu até o térreo, até uma das salas nos arredores da área de serviço. O laboratório de poções ficava perto dos estoques na Ala Norte e, assim como a rouparia, era administrado por Comensais dos grupos inferiores, os quais conhecia de quando passara por tais grupos. Ginny era uma das poucas que continuava respeitando seus inferiores apesar de seu alto cargo, e os funcionários do laboratório receberam-na com eficiência. A poção era terrivelmente amarga, mas ela pôde sentir seus efeitos em poucos minutos.


Efeito concluído, ela despediu-se dos fazedores de poções subiu as escadas da Ala Oeste. Antes que subisse os últimos degraus para o segundo andar, ouviu algumas vozes no corredor.


- É, estou dizendo que não foi minha culpa. Eu mandei fazer uma coisa, fizeram outra, e daí esconderam de mim o que tinha acontecido. Estou cansado de dizer que essas coisas queimam meu filme, mas eles não querem nem saber - dizia uma voz irritada e ligeiramente arrastada. Ginny já ouvira antes em algum lugar.


- E você acha que essa desculpa vai salvar sua pele? - disse outra voz, tão arrastada quanto, essa bem conhecida sua. - Eu fiz sua campanha por meses, e é assim que você retribui? Não é só sua reputação que vai afundar hoje…


Ela avançou o último degrau e viu os dois Malfoy parados no meio do corredor, apoiados no parapeito, um pouco aquém do quarto 12, que Lucius dividia com Narcissa.


Ambos olharam quando ela apareceu. Ginny não diminuiu o passo, indo em sua direção não intencionalmente. O colega fez cara de quem havia sido ofensivamente interrompido, mas Draco apenas encarou-a com curiosidade.


O mais moço parecia mais pálido do que quando ela costumava vê-lo em Hogwarts. Não vestia o uniforme dos Comensais da Morte residentes em Basilisk Hall, e sim vestes azul-índigo, que contribuíam para deixá-lo ainda mais desbotado. Parecia inclusive mais magro e um pouco mal-cuidado, com a barba mal-feita, aparência cansada. Sabia que ele conseguira o cargo de chefe do grupo Três, mas pelo que entreouvira ainda há pouco, as coisas não estavam indo muito bem.


Ginny estava mascarada, mas não fizera questão de levantar o capuz quando saíra do laboratório, o que poderia explicar o fato de Draco Malfoy ter seguido-a com os olhos até que ela estivesse entre eles e o quarto 13.


- Weasley? - ouviu-o perguntando, genuinamente surpreso, quando parou em frente à porta.


Ela virou só a cabeça, brevemente. Olhou-o de cima a baixo, mais para irritar Lucius do que qualquer outra coisa.


- Pois é. Quem diria, heim? - disse, por fim, em voz inexpressiva. Voltou-se para a porta. Sussurrou a senha e ouviu-a destrancar.


- Você vê como fala com meu filho, sua traidora infeliz - sibilou Lucius, às suas costas. Parecia seco de vontade de socar a cabeça dela na madeira da porta.


- Engraçado, tenho a impressão de que eu tenho a senha do quarto do Lord das Trevas e você não - provocou ela, virando-se para ele com um sorriso singelo, empurrando a porta aberta às suas costas para confirmar suas palavras. - Bom, traidora ou não, parece que ele confia mais em mim.


Ela se virou e entrou antes que ele pudesse fazer qualquer coisa e encostou a porta. Lucius não ousaria entrar ali para continuar a discussão.


Ginny deu uma olhada breve no quarto amplo e semi-iluminado pela janela do banheiro. Era sem dúvidas o maior e melhor quarto do castelo. Era quase o dobro do dela. À direita, próximo à porta, tinham sofás de couro preto, confortáveis, mais sofisticados do que o do escritório, e uma mesinha, onde ele recebia pessoas mais importantes do que aspirantes a Comensais, para assuntos respectivamente mais sigilosos.


Adiante, além dos sofás, uma escrivaninha de bom tamanho com uma cadeira confortável, onde estavam os papeis que viera pegar. Além da escrivaninha havia uma lareira bonita de pedra e grande o suficiente para que uma pessoa pequena entrasse sem se abaixar, e à sua frente o agradável tapete de pêlo de ovelha.


Já na parede perpendicular, havia a porta de mogno do closet, e cerca de dois metros depois, a porta do banheiro de mesmo material, que estava aberta, por onde conseguia se ver o armário da pia. Ginny sabia que aquele banheiro era um dos lugares mais impressionantes de Basilisk Hall: todo em mármore verde-escuro e detalhes em mogno e uma arquitetura realmente invejável. Era um pouco escuro, mas ela não achava que isso fosse um problema. A disposição da banheira dava muito mais espaço, e nunca esfriava quando se estava no banho. O chão era um mosaico lindo de peças grandes, numa combinação de mármore e granito. A louça preta não destoava do ambiente, e ajudava-o a parecer ainda mais imponente.


Cerca de dois metros à frente da porta do banheiro, a cama de dossel que ela já experimentara tantas vezes, pensou Ginny, com um sorriso travesso. Era apenas discretamente maior que a dela, também de madeira maciça, mas sua roupa de cama era definitivamente mais rica. Os dosséis de veludo verde eram espessos e bordados, e possibilitavam total privacidade. Ao pé da cama, um baú muito antigo e pesado de madeira e ferro onde ficava guardada a roupa de cama limpa.


Do outro lado da cama havia uma mesa redonda, discreta, para almoços ou jantas solitárias, com duas cadeiras. Ao lado da mesa, uma tapeçaria longa e larga, verde e prata, com o símbolo de Slytherin. A tapeçaria, na verdade, escondia uma porta que levava a uma das torres. Vivia trancada, mas ela já subira lá umas duas vezes.


O quarto todo era amplo, todos os objetos de madeira eram de mogno, os detalhes eram de prata, como os candelabros, e as paredes eram de pedra simples fria simples, como no resto do castelo. Era, porém, o maior exemplo de luxo que alguém poderia encontrar ali, e Ginny, sinceramente, não esperava nada menos que isso do quarto que já pertencera ao próprio Salazar Slytherin.


Ela foi até a escrivaninha, onde havia dois livros abertos - um deles escrito em runas, ela reparou - e um conjunto de alguns pedaços escritos de pergaminho já cortados. Enquanto pegava-os, algo roçou o seu tornozelo, fazendo-a pular.


- Nagini - disse, soltando o ar, quando viu que era a cobra. Ela desaprovava fortemente alguém ter um bicho de estimação como aquele, mas era mais prudente fingir que não tinha nada contra. A píton enroscou-se na cadeira e ficou observando-a, impassível. O animal tinha ordens para não atacá-la, mas Ginny sempre tivera a impressão de que a cobra não hesitaria em fazê-lo se pudesse; achava-a muito suspeita, sempre seguindo-a sorrateiramente quando entrava ali sozinha. - Com licença.


Desviando-se de Nagini, pegou o restante dos pergaminhos e saiu o mais rápido possível.


Não encontrou ninguém quando saiu no corredor. Provavelmente Draco havia ido dar satisfações do que quer que tenha feito de errado, e Lucius o acompanhara. Voltou para a Sala de Planejamentos.


No começo do átrio do segundo andar, porém, ela já ouviu uma voz alterada vindo da sala que pretendia entrar. Ela realmente precisava entregar aqueles papeis e escrever a planilha da missão de quinta-feira, ou não teria batido. Odiava ter que dividir sala com Voldemort irritado, pois sempre acabava sobrando para ela.


Ele se calou depois que ela bateu. Como ninguém disse nada, ela entrou.


Na mesa principal ainda estava Jack e Adam, onde os deixara, na ponta mais próxima à porta, usando máscaras, embora suas bocas estivessem estranhas, como se segurassem vontade de sorrir. Na outra ponta, Draco e Lucius, ambos encarando o chão, e o mestre, em pé, as mãos apoiadas na mesa, em frente à sua cadeira, com expressão mau-humorada. Narcissa, Bellatrix e Rodolphus assistiam meio de longe, sem se intrometer.


Ela foi prudente o suficiente para não interromper. Seguiu, o mais silenciosamente possível, até a mesa dele e colocou os papeis, então voltou até a ponta da mesa e sentou-se na cadeira que deixara alguns minutos mais cedo.


Puxou um dos pedaços de pergaminho que estavam usando para rascunhar as estratégias, pegou uma pena e fingiu que estava começando a fazer o que devia fazer e escreveu “O que está acontecendo?”. Empurrou para Jack, discretamente.


Ele leu e respondeu logo em baixo: “Malfoy Jr. está levando uma bronca”.


Revirando os olhos, ela escreveu em baixo: “Isso eu percebi quando pisei no segundo andar. Por que é que ele está levando uma bronca?


O grupo dele caiu em uma armadilha do Ministério. Tentaram subornar um cara, deram toneladas de ouro para o Auror disfarçado e acabaram perdendo cinco homens. Isso foi há duas semanas, mas ele só ficou sabendo há duas horas.”, escreveu o amigo.


Ginny levantou os olhos discretamente. Não se admirava que o clima estivesse tão tenso, mas se admirava que Draco ainda estivesse vivo. Suspeitava que fosse somente pelo fato de ele ser um Malfoy.


Ela não soube ao certo o que causou a conseqüente compaixão por Draco. Nunca fora sua amiga na escola, pelo contrário, costumava desgostar dele, que vivia implicando com seus amigos. Mas de certa forma ele lembrou ela, quando fora chefe do grupo Sete. Sabia como os Comensais menos importantes se portavam, e talvez a culpa realmente não fosse dele. Lógico, que se uma missão era dada ao grupo, no lugar dele ela teria cobrado resultados tão logo tivesse ocorrido, e certamente teria notado a falta de cinco subordinados, mas mesmo assim, sabia o quão ingrato podia ser chefiar um grupo, principalmente se não gostassem do chefe. Provavelmente não teriam lhe contado da falha na missão.


Então ela teve uma idéia.


Puxou um rolo limpo de pergaminho e escreveu rapidamente as instruções da missão de quinta-feira, tomando notas também das conclusões dos outros dois colegas para a execução do plano. Nesse meio tempo, a discussão recomeçou na outra ponta da mesa, embora apenas Tom usasse voz alta.


Ela levantou-se, o pergaminho na mão. Tom estava falando em alimentar Nagini com incompetentes como Draco e outras coisas do tipo. Narcissa estava branca como cera do outro lado da sala, enquanto ouvia tais ameaças. Lucius também parecia preocupado, mas covarde demais para defender o próprio filho. Ginny aproximou-se lentamente (não achava bom fazer movimentos bruscos em horas como aquelas) e parou ao lado. Pigarreou.


O amante parou de se exaltar e, crispando os lábios, virou-se para ela.


- Estive pensando em usar o grupo Três para a missão de quinta-feira - disse ela, antes que ele a repreendesse por interrompê-lo. Ele ergueu uma sobrancelha, em sinal de que ela estava dizendo bobagens absurdas.


- Que idiotice é essa? - perguntou ele, voltando sua raiva para ela.


- Podemos usar o grupo Três, não fará diferença. E se acontecer de alguém ser pego, é melhor que não seja um dos nossos, não é? - disse, olhando-o nos olhos. Não vai dar em nada mesmo, lembra? Assim a gente se poupa para a invasão de Hogwarts e você tem uma segunda opinião sobre a administração de Draco, pensou, de modo que ele captasse o sentido da coisa.


A sobrancelha dele abaixou, lentamente.


- Ele pode ir junto dessa vez - continuou, apontando para Draco Malfoy. - Supervisionar pessoalmente. Os supervisores querem o lugar dele, com certeza se aproveitam do fato de ele não morar no castelo para atrasar e alterar as informações. Eu sei bem como é isso.


Ele continuou encarando-a por alguns segundos, olho no olho, até que disse, por fim:


- Está certo. - E virou-se para o outro. - Você tem outra chance de provar que deve continuar vivo. Agradeça a GW.


Draco levantou os olhos para ela, surpreso e admirado, ao mesmo tempo.


- Bobagem - disse-lhe ela, antes que ele agradecesse. - Só faça melhor dessa vez.


O pai do rapaz olhou-a sombriamente, como se estivesse em dúvida entre ódio por Ginny ter demonstrado mais influência do que ele e gratidão.


- Lucius, me mostre o que você fizeram até agora - disse Tom, às suas costas, e Ginny foi poupada de ter que suportar aquele olhar por mais tempo. O colega fez uma cara estranha e acompanhou o chefe para o fundo da sala, onde a esposa e os Lestrange estavam trabalhando.


Então ela viu-se à sós - em termos - com Draco.


- Então você é GW? - perguntou ele, num misto de surpresa e admiração.


- É claro que sou - respondeu Ginny, brevemente. - Venha, precisamos lhe falar sobre sua missão.


Ginny foi até a ponta da mesa, se reunindo com Jack e Adam. Draco alcançou-a depois de alguns segundos.


- Mas… Você é uma Weasley - argumentou ele.


- E…? - disse ela, displicente, duplicando a planilha com um toque da varinha.


- Os Weasleys são traidores - continuou ele, ainda descrente.


- Talvez eu não seja. Aqui - disse ela, entregando-lhe uma copia.


- Mas ele nunca te aceitaria - argumentou Draco, inconformado, pegando o pergaminho sem olhá-lo.


- Talvez você devesse lhe perguntar sobre isso - sugeriu Ginny, paciente, com um sorriso leve. Draco olhou brevemente para o fundo da sala, então tornou a encará-la. - Cumprimente seus superiores, Draco. Tenente JD e Tenente AG. Rapazes, não preciso introduzir o pequeno Malfoy.


- Sou mais velho do que você - retrucou o outro, rapidamente, obviamente mordido de ter sido chamado de “pequeno Malfoy”.


- E você se orgulha disso? - riu-se Jack, em voz baixa. - Se eu fosse um Malfoy, teria chegado ao grupo Cinco bem antes.


Ginny tentou não rir muito, e Adam sorriu, achando graça. Ela sabia que o colega também não era grande fã dos Malfoy. Draco pareceu não ter gostado da brincadeira, em todo o caso.


- Ok, venha aqui. Sente-se e preste atenção - disse Ginny, adotando uma postura mais profissional, mesmo porque achava que aquela conversa já dera tudo o que tinha que dar. - Esta não é uma missão objetiva. Seu grupo tem que permanecer alerta à Ordem da Fênix na noite de quinta-feira. Apenas faça isso. Terá sucesso se voltar com toda sua comitiva. Falhará se tiver homens descobertos e capturados. Bonus: se virem o objeto procurado, detalhado no documento que te dei, podem tentar interceptá-lo. Se fizer isso, te renderá uma promoção, eu mesma me encarregarei de fazer isso. Não devem machucar ninguém, a não ser que precisem se defender. Se não virem nada de suspeito, somente volte para Basilisk Hall. Fácil, não é?


Draco encarava-a, atônito.


- Não objetiva? Isso soa estranho - disse ele, por fim.


- Realmente soa, mas é isso. Sem segredos. Só faça e volte. Então escreva um relatório. Precisarei da assinatura dos dois supervisores nesse relatório também - disse ela, com clareza. Então abriu um sorriso torto. - Não hesite em me chamar se tiver problemas de indisciplina com seus subordinados.


Ele corou levemente.


- Eles não me respeitam muito, mas não terei problemas em conseguir duas assinaturas - disse ele, soando um pouco desafiador, depois de um tempo.


- Estranho, porque você tem um pai e uma tia no grupo Cinco. Eles deveriam te admirar. Eu fui chefe de grupo, uma vez, e eles nunca me prejudicaram. Talvez você devesse infligir mais força em sua administração - disse Ginny, pensativa.


- Ah, não me diga que você era malvada, Weasley! - disse Draco, parecendo desdenhoso pela primeira vez.


- Você está me gozado? - respondeu ela, imitando o tom de voz suave que geralmente Voldemort usava quando estava muito bravo. - Eu sou malvada.


- Muito malvada - disse Jack, em voz convincente, entrando na brincadeira. - O chefe treme nas bases na frente dela.


- Ah, sim. Muito malvada, desse jeito mesmo - disse ela, não conseguindo conter o riso.


- Essa cara doce e inocente é uma armadilha, vê? Só para enganar as pessoas. Quando você vê, já está ferrado, daí é tarde demais - disse o amigo, rindo também.


Adam ria para si mesmo, mas Draco não parecia estar entendendo a piada.


- Seria muito irregular convidá-lo para almoçar conosco, não seria? - perguntou Ginny para Jack, casualmente. Apesar de Draco vir de uma família de Comensais da Morte, estava achando-o bem deslocado.


- Suponho que sim - respondeu o outro, pensativo. - Você devia perguntar.


- Já levei minha esculachada diária - disse, também pensativa, olhando discretamente para o fundo da sala. - Mas acho que não há problemas em perguntar, ou há…?


- Estou te achando bem masoquista ultimamente, sabe? - disse Jack, numa voz forçadamente casual.


Ela riu.


- Bem, ele é obviamente sádico. Quem sabe não combinamos? - brincou ela. Não havia modo mais eficiente de desmoralizar uma suspeita do que fazendo piada com ela.


- Se você gosta de sádicos, era só falar - disse o amigo, fingindo-se ofendido. - Eu sei acorrentar pessoas na parede. Eu também posso usar uma pena com eficiência.


Ginny riu descontroladamente. Draco ainda olhava de um para outro, no vácuo.


- OK, devíamos estar trabalhando na outra missão - disse ela, assim que conseguiu parar de rir, porque o pessoal no fundo da sala a olhava com cara feia. - Acho que não tem problemas o Draco aqui almoçar com a gente, acho inclusive que devíamos espalhar a notícia, assim o grupo Três vai ter que rever seus conceitos sobre ele ser um perdedor. Sem ofensas - acrescentou ela, rapidamente, porque Draco pareceu perplexo.


Como ainda faltavam duas horas para o almoço, eles foram para a sala de Ginny. Era no mesmo andar, do outro lado do saguão. Adam Goldenfire acompanhou-os, e parecia bem mais feliz do que quando andava com o restante dos colegas. Apesar de suas tentativas para realizar algo de útil na função de estrategista, havia muitos rapazes jovens na sala para que em pouco tempo não estivessem todos falando bobeira. Draco e Adam se entregaram ao bom-humor dela e de Jack, e também participaram ativamente da palhaçada. De fato, parecia até que todos estavam de volta aos tempos de Hogwarts, e Ginny não se lembrava de ter tido um momento agradável como aquele desde que chegara ali.


Ela estava feliz em participar de um grupo novamente.


 


II


 


Era quase seis horas da tarde quando Draco Malfoy foi embora. O grupo se dispersou, mas pelo menos Adam parecia mais interessado em andar com eles de agora em diante. Ginny imaginou se ele sabia que o restante do grupo iria desgostar mais dele depois que ele deixasse claro que estava fazendo amizade com ela e Jack, mas não disse nada. Apesar de se preocupar um pouco com a reputação do outro, se preocupava mais em fazer novos amigos.


Draco também não era de todo ruim. Algumas horas de conversa revelaram-no alguém surpreendentemente divertido para alguém que desprezara a vida toda. Não era o tipo de humor que aprovaria há alguns anos, mas hoje em dia não fazia diferença. Ele parecia simplesmente maravilhado de poder passar um dia com pessoas tão importante quando eles, e mais admirado ainda que fossem tão jovens e despreocupados. Ficou satisfeita, também, de perceber que o tom arrogante dele que se lembrava de ouvir durante a escola desaparecera enquanto falava com eles, o que era de se esperar, uma vez que ele estava entre superiores. Ela admirou-se sobre o quão mais agradável ele podia ser quando abaixava a crista, e imaginou que talvez este fosse o problema do grupo Três com ele.


Quando chegou ao quarto, recebeu que tinha fome, mas não tinha certeza de que queria jantar, pois isso implicaria em descer novamente todas aquelas escadas, e Ginny estava simplesmente exausta. Se ao menos soubesse quebrar barreiras anti-desaparatação, então sua vida seria mais fácil. Porém essa habilidade exigia muita perícia e muitos anos de treino, e ela não sentia ânimo algum para isso.


Mas era como se o destino conspirasse ao seu favor: enquanto tirava os sapatos e colocava os chinelos, rumo ao banheiro, viu um bilhete sobre seu travesseiro. Era breve, dizia apenas “Janta comigo?”, mas certamente animou sua tarde. Assim não precisava ir até o Salão de Refeições.


Enquanto se lavava, ocorreu-lhe que ele vinha chamando-a muito ultimamente. Simplesmente passara a semana toda com ele, de domingo a domingo. Aquilo certamente era incomum; já ocorrera de encontrá-lo por três noites seguidas, mas nunca por uma semana toda. Não estava reclamando, mas aquilo diminuía suas horas de sono. Talvez fosse isso que estivesse causando toda aquela indisposição e mal-estar. Provavelmente era isso.


Mas ela não queria nem devia recusar o convite. Sim, quando havia ponto de interrogação ela tinha o direito de escolher se atendia ou não, sem quebrar seu contrato. Mas não era interessante recusar algum. À olhos empreendedores, aquilo demonstrava interesse e deixava-a bem no conceito dele, o que era imprescindível em um lugar tão competitivo.


Sem contar que adorava passar a noite no quarto 13.


Ginny devia ter adiantado suas idéias para a invasão à Hogwarts, mas estava muitíssimo cansada e não pôde resistir a dormir por umas duas horas. Quando o despertador tocou, ela não estava cem por cento renovada, mas sentia-se bem melhor do que antes.


Escovou os dentes, trocou-se e deu uma ajeitada em frente ao espelho. Em dois minutos estava batendo na porta do quarto 13.


Ninguém atendeu nas três vezes que bateu, então ela olhou ao redor para ver se alguém observava e, depois de se certificar de que não havia ninguém no corredor nem nos outros andares observando, murmurou a senha e entrou.


O quarto estava vazio. Havia apenas um prato e uma taça na mesa, mas estavam limpos. Não havia ninguém no banheiro, tampouco. Nagini estava enrolada na frente da lareira acesa, mas, apesar de não estar interessada em segui-la pelo quarto, não era de grande ajuda, uma vez que Ginny não falava a língua das cobras.


Tirou a capa, imaginando que ele saíra brevemente para tratar de algum assunto, e estava pronta para esperá-lo em um dos sofás quando reparou que a tapeçaria próxima à mesa ondulava lentamente. Afastou-a, e encontrou a porta aberta.


Tornou-se claro para ela que ele devia estar ali. Subiu as escadas, conformada, embora tivesse fugido das escadarias até o Salão de Refeições. A escada da torre era ainda maior, pois ia além dos cinco andares normais. Mas estivera sempre tão pouco lá em cima que a curiosidade movia-a.


Depois de um tempo, Ginny chegou ao topo da torre. A lua estava cheia, iluminando tudo. Não precisou procurar muito para encontrá-lo: ele estava apoiado no parapeito de pedra, um pouco à direita do fim da escada. Ventava um pouco, fazendo a capa dele esvoaçar ligeiramente.


Ginny aproximou-se lentamente. Dois anos de convivência ensinara-a a não fazer movimentos bruscos, embora o mais sensato teria sido se anunciar assim que pisara ali. Quando estava a dois metros e meio dele, ele se virou, apontando-lhe a varinha certeiramente entre os olhos.


- Ah… É você - disse ele, baixando a varinha, assim que reconheceu-a. Observou-a por um momento, inexpressivamente, e então voltou a apoiar os cotovelos no parapeito, observando além.


Ginny seguiu até seu lado e observou também. Ali próximo ao castelo estava tudo visível à luz tênue e fria da lua, de modo que conseguia ver os vultos dos guardas vigiando o terreno do terraço abaixo, mas além, alguns quilômetros à frente, sobre as montanhas cobertas de árvores, uma sombra grande e ameaçadora se mexia, lentamente.


- O que está fazendo? - perguntou ela, curiosa. Era interessante observar o céu, com suas nuvens e estrelas, mas ele não parecia o tipo de pessoa que fazia isso.


- Eu? Estava tentando praticar adivinhação - respondeu ele, tranquilamente, surpreendendo-a.


- Sério? E adivinhou alguma coisa? - perguntou ela, curiosa. Nunca gostara muito das aulas de Adivinhação, em Hogwarts, mas talvez ele tivesse tido professores mais competentes naquela matéria.


- Bom, geralmente se analisa as posições das estrelas, mas se considerar a nuvem ali na frente, eu diria que teremos uma tempestade grossa essa madrugada - disse ele, fazendo-a rir. Ainda assim, o gracejo não atendia ao tom de sua voz, que parecia distante e levemente melancólica.


Ginny aproximou-se um pouco e tocou-lhe a mão.


- Está tudo bem? - perguntou, atenciosa.


Ele pareceu suspirar (embora ela não tenha tido certeza), olhou brevemente para as mãos encostadas e tornou a admirar a nuvem tempestuosa que se aproximava lentamente. O vento voltou, bagunçando seus cabelos.


- Ah, eu não sei… Tenho um mau pressentimento - respondeu ele, depois de algum tempo. Usava uma voz estranha, que não parecia a dele. Era meio preocupada, mas meio que tranqüila. Em geral, sua preocupação vinha acompanhada de acessos de raiva. Aquilo era totalmente novo para ela.


Apesar de o dia todo ter sido um tanto abafado, a rajada de vento seguinte veio mais forte e úmida, arrepiando seus pêlos do braço e bagunçando seus cabelos compridos. De repente ela desejou não ter largado sua capa no andar de baixo.


- Você parece meio depressivo… Esse mau pressentimento não tem a ver com o nosso trabalho, tem? - disse ela, em voz baixa.


Ele virou os olhos para ela e observou-a por alguns segundos. Então desencostou-se do parapeito de pedra e passou um braço pelo ombro dela, acolhendo-a em sua própria capa. Ginny, que estivera se encolhendo gradualmente, recebeu aquele gesto com gratidão.


- O que é que está tentando fazer? Pegar uma pneumonia para tentar se livrar de suas responsabilidades? - brincou ele, acima de sua cabeça.


Ginny percebeu que ele não respondera sua pergunta, mas não disse nada. Apenas sorriu com a brincadeira e acomodou-se melhor em seus braços intrigantemente protetores. Ela então passou a admirar a paisagem mais atentamente. Uma estrela brilhante piscava avermelhada acima das nuvens carregadas ao longe. Algumas corujas voaram de árvores adiante, quando um relâmpago cortou o céu, lá longe. Vários segundos se passaram até que ouvissem o trovão.


O barulho longínquo do trovão lembrou o barulho que sua barriga esfomeada fez em seguida.


- Será que podemos descer e comer? - perguntou ela, repentinamente incomodada com a sensação de vazio no estômago. Ele riu um breve riso anasalado e concordou.


Os dois desceram em silêncio. Ele estava muito estranho, para os padrões dele mesmo. Ginny não sabia se gostava ou não daquilo, mas, principalmente, não sabia como agir. Ele parecia outra pessoa, uma pessoa que ela não conhecia. Não era nem o Tom Riddle do diário, nem Lord Voldemort de atualmente. Aquela apatia e cordialidade não combinavam nada com ele.


Felizmente, para seu alívio, ao pisarem no quarto, a personalidade dele pareceu voltar ao normal. Conjurou um prato e taça para ela, bateu com a varinha na mesa para que o elfos mandassem a comida e passou a implicar com o fato de ela ter ficado o dia todo com os três rapazes.


- Você está com ciúmes? - provocou ela, depois que ele falou mal de todos eles.


- Ciúmes? Claro que não, só estou reivindicando o que é meu - respondeu ele, displicente.


- O que nunca deixou de ser seu, aliás - disse ela, bebericando o suco de abóbora. - Por que não relaxa? Acha que eu sou tonta de tentar te trair bem debaixo do deu nariz?


- Eu poderia… Mas gosto de te irritar - respondeu ele, com um sorrisinho maligno.


- Pois está conseguindo - fungou ela, espetando um pedaço de frango com o garfo.


Ele riu e continuou sua refeição.


- Eu sei que não me trairia - disse ele, por fim, depois de algumas garfadas. - Por algum motivo eu acredito em você.


- Bom, talvez porque eu durmo com você? - sugeriu ela, ainda fria.


- Eu já dormi com pessoas com as quais eu não confiaria esse garfo - respondeu ele, girando o próprio nos dedos.


Ginny levantou as sobrancelhas.


- Não nos últimos dois anos, espero - disse, ainda mais fria.


Ele riu da cara dela.


- E se fosse? - indagou, provocante.


- Se fosse você veria o que eu faço com o garfo - disse Ginny, seca, espetando um pedaço de tomate com ferocidade.


Ele riu mais ainda e, depois de alguns segundos, ela começou a rir também. Que tipo de conversa era aquela?


- Com o Dean é só brincadeira - disse ele, depois que parou de rir. - Mas não fique muito próxima daquele Malfoy, sim? Não vai querer me ver bravo…


- Eu nunca iria querer alguma coisa com ele - respondeu Ginny, dignamente.


- Mas ele com certeza quer alguma coisa com você. Se continuar andando com ele, vai achar que você está interessada - disse o amante, parecendo mais sério.


- OK, OK. Se te incomoda, não falo mais com ele.


- Ótimo.


Quando terminaram, apareceu a sobremesa, e Ginny ficou muito feliz ao ver que eram morangos com creme de leite, uma de suas preferidas e também das mais raras de aparecer na cozinha de Basilisk Hall. De fato, ela ficou tão feliz que ele lhe deu as dele.


- Para onde vai tudo isso? - brincou ele, observando-a devorar a sobremesa. - Não vá ficar gorda, viu? Ou acha que eu te suporto por causa de sua personalidade?


Ela sorriu, mas não parou até que tivesse terminado. Sentia que devia aproveitar a comida nos dias em que estava boa.


Ao terminar, eles largaram os pratos ali e deitaram na cama, mas estavam tão cheios que só conseguiram conversar.


- Já temos alguma idéia de como faremos com o Pentagrama? - perguntou ele, olhando para o interior do dossel.


- Ah, não me chamou aqui para falar de trabalho, não é? - desconversou ela, tentando desviar a atenção do fato de que ela não havia produzido nada o dia todo.


Ele pareceu considerar a resposta dela, mas um meio sorriso apareceu nos lábios dele quando encarou-a.


- Você diz isso porque te ofende eu te chamar ao meu quarto para falar de trabalho ou porque você não fez coisa alguma? - perguntou ele, como quem não quer nada.


Ginny riu e aproximou-se, aconchegando nos braços dele.


- Você me pegou - respondeu, divertida. - Vai me demitir?


- Talvez. O que você tem a dizer em sua defesa?


- Bom… Não fiz nada porque não consegui me concentrar. Fiquei pensando o dia todo se você me convidaria para jantar - respondeu ela, em tom de riso.


- Nossa, fiquei até emocionado - respondeu ele, numa voz parecida com a dela. - Agora que suas expectativas foram alcançadas, acha que trabalhará melhor amanhã?


- Provavelmente. A não ser que eu fique esperando outro convite.


- Neste caso é melhor eu já convidá-la agora - disse ele, alisando suas costas lentamente com as pontas dos dedos. - A não ser que esteja esperando um convite de outra pessoa…


Ela sorriu para si mesma. Aquilo estava ficando mais sério do que pensava.


- É, talvez seja bom variar um pouco. Me lembrarei disso se Draco Malfoy me convidar para fazer alguma coisa - respondeu, com sarcasmo displicente.


Ele não respondeu de imediato, o que fez ela erguer a cabeça para olhá-lo.


- Estou pensando se devo mandar Nagini te seguir esta semana. De repente me pareceu uma idéia muito boa… - disse ele, pensativo, frete ao olhar indagador dela.


Ela riu, suspendeu o corpo alguns centímetros e beijou-o. Ele não recusou, mas a insistência naquele assunto estava inquietando-a. Talvez ele estivesse realmente com ciúmes e fosse hora de parar de provocá-lo.


Ginny não havia se dado conta até então de que se tornara muito mais fácil beijá-lo. Não que ele não tivesse despertado sensações intensas nela desde a primeira vez, mas o começo havia sido também bem tenso. Primeiro porque ainda tinha certo receio dele, segundo porque não tinham intimidade e terceiro porque ela não sabia até onde podia se impor. Mas depois de dois anos, principalmente nos últimos seis meses, Ginny não via dificuldade alguma em estar com ele.


Talvez por ter superado tudo aquilo é que se sentia mais à vontade para tomar iniciativas. Sentia-se também mais a vontade para não se culpar e, conseqüentemente, aproveitar as sensações que estar com ele lhe proporcionava.


Antes sentia-se incerta todas as vezes que se beijavam. Era um conflito entre o prazer que aquilo lhe ocasionava e uma culpa gigante. Isso fazia com que ela não se permitisse usufruir nem parar. Se importava menos com as outras coisas, mas o beijo sempre fora problemático. Na sua cabeça sempre estivera bem claro que aquele era o gesto que melhor representava o amor entre um homem e uma mulher, e não havia dúvidas ali de que tal amor não existia.


Mas ela se corrompera, imperceptível e gradualmente. Agora pouco importava se o amava ou não; o que importava era que ela sentisse prazer, para que fosse justo, já que eles nunca se amariam. Podiam ter boa relação, mas aquilo era apenas um fato que tornava mais fácil para ambos executar a única e verdadeira realidade: a de que tudo aquilo não passava de uma troca de favores.


Alguns beijos depois e peças de roupas a menos, Ginny resolveu interromper a diversão.


- O que? - perguntou ele, ofegante, quando ela colocou as mãos entre os dois para desacelerá-los.


Ela lançou-lhe um olhar bem pidão.


- Pode colocar Nagini para fora? Por favor? Não me sinto à vontade com ela rastejando por aqui durante a noite - pediu, no seu tom de voz mais infalível.


- O que você tem contra ela? - perguntou ele, erguendo uma sobrancelha indagadoramente.


- Eu, nada. Mas ela sempre me persegue e me encara quando entro aqui - disse ela, ligeiramente aborrecida.


Ele olhou para a cobra no tapete e depois voltou a encará-la, com a mesma expressão de antes.


- Ela não faz isso na sua frente - explicou Ginny, fazendo cara de vítima. Ele continuou olhando-a por alguns segundos, então abriu um meio sorriso cúmplice. Sentou-se na cama e ordenou alguma coisa em língua de cobra.


Nagini não pareceu feliz de ter que sair de perto de seu fogo. A cobra sibilou de um jeito esquisito, mas saiu do quarto, a porta se abrindo e fechando magicamente depois que ela se foi.


Ele parecia divertido.


- Ela te acha uma chata da pior espécie - disse ele, confidentemente, embora achasse graça.


- Pois eu a acho um bicho carnívoro e peçonhento da pior espécie, também - respondeu ela, passando os braços ao redor do pescoço dele. - E você não deixa de ser um psicopata da pior espécie. Estamos em família, afinal.


Ele alargou o sorriso e tornou a beijá-la.


 


 


A semana que se seguiu foi um sufoco. Cada um em sua sala, trabalhando incessantemente na invasão à Hogwarts que ocorreria assim que tivessem um plano, saindo apenas para banheiro ou refeições. Para compensar os sete dias seguidos que Ginny passou com Tom, ele não a chamou nenhuma vez nos sete seguintes. O mal-estar que ela tinha não passou e, para piorar, sentiu uma falta absurda de dividir a cama com ele. Com certeza estava de TPM, porque rompeu em lágrimas no mínimo três vezes durante a semana quando chegava do dia exaustivo de trabalho e encontrava-se sozinha no quarto, passando mal e, ainda por cima, dois quilos mais gorda.


Até mesmo Jack estava mais sério, uma vez que voltaram a rotina do trabalho cansativo. Ela nunca o vira mau-humorado antes, mas nessa semana ela viu. E se ele que era ele estava nesse estado, não precisava pensar muito para descobrir como estavam os outros. Ela fez questão de não cruzar o caminho de nenhum deles durante aquela semana.


A única coisa boa, se é que havia, fora a mínima capacidade de Draco de executar o plano conforme o combinado. Não dera em nada, mesmo, mas não deixaram de tentar. Ele enviou-lhe o relatório no dia seguinte, com as assinaturas dos supervisores, como ela pedira. Talvez fosse frutos de seu almoço com o grupo Cinco.


O último dia da semana culminou na entrega dos relatórios anuais de todos os grupos, o que os permitia fazer um levantamento do que acontecia e deixava de acontecer na Ordem das Trevas. Sendo assim, puderam todos sair de suas salas e se reunir na Sala de Planejamentos para deixar de lado momentaneamente o serviço principal em troca do que, se era possível, um trabalho pior ainda, que era reunir todos aqueles dados espalhados em papeis e transformar em um único e resumido rolo de pergaminho.


Felizmente, o levantamento durou apenas um dia. E igualmente feliz foi seu resultado, pois mostrava que as coisas iam melhor do que nunca. As baixas diminuíram pela metade desde o ano passado, as taxas de procura para alistamento cresceram e as alianças dobraram. O número de missões bem-sucedidas foi absurdamente gigante em relação ao das mas-sucedidas. O número de comerciantes que concordava em colaborar com eles cresceram. Houve até mesmo um comentário em um dos relatórios dizendo que os Comensais do grupo Oito acharam as cartas de GW ao jornal mais engraçadas durante o último ano (o que fez com que Jack a gozasse até o fim do dia).


No dia seguinte tiveram folga. Tom recebera o rolo de pergaminho e tomaria as providências que achasse necessário para o ano seguinte. Ginny sentia-se tão exausta que só saiu do quarto para o almoço e a janta. O amante não aparecera para nenhum dos dois. Ginny intercalou o descanso com crises de mal-estar e náuseas.


Na manhã do outro dia, acordou bem melhor e desceu para o café-da-manhã. Chegando ao Salão de Refeições, notou um ar descontraído e bastante esquisito, se tratando do grupo Cinco. Todos conversavam com animação e alguns até sorriam.


Receosa, Ginny sentou-se ao lado de Jack, como o habitual.


- Ahm… Eu perdi alguma coisa? - perguntou ela, chocada, observando Narcissa rindo de algo que o marido lhe falara ao ouvido.


- Oh - fez o amigo, com um sorriso estranho. - Adam, passa o jornal pra cá, fazendo o favor? Obrigado. - Ele colocou o jornal na sua frente, que já estava dobrando em uma parte específica, onde havia um anúncio. Ela olhou-o, com as sobrancelhas erguidas, mas ele fez sinal para que ela lesse.


FESTA DE CONFRATERNIZAÇÃO EM B. HALL


Saudações, Comensais da Morte. Comunico a todos vocês: festa de comemoração pelo excelente trabalho esse ano, em B.Hall, dia 8 de Setembro, sábado, com início às 20 horas, traje de gala (uso de máscaras obrigatório).


Venham preparados para virar a noite comendo, bebendo, dançando e essas coisas todas que vocês adoram fazer. É um convite, não uma ordem, mas quem não vier vai perder a única oportunidade de ver algo parecido, já aviso.


Comensais mais bem afortunados podem fazer uma média emprestando seus elfos-domésticos para os preparativos.


Atenciosamente,


Lord Voldemort.


 


Ela teve que ler duas vezes para entender. Por fim levantou os olhos para o amante, na habitual ponta da mesa.


- Isso é sério? - perguntou, pasma.


- Claro que é - respondeu ele, calmamente, que estivera observando-a.


Ela encarou-o por um momento. Ele não estava mentindo.


- Estou chocada - declarou ela, por fim. - De verdade.


Ele abriu um meio-sorriso bem estranho.


- Admito que não sou do tipo que dá festas - disse ele, ainda com o sorriso estranho. - Mas senti que está na hora de fazer um agrado, ou os mais novos vão começar a se desinteressar.


- Mas… Isso significa que todos terão folga? - perguntou ela, ainda desconfiada.


- Basicamente.


- Não acha que é uma ocasião perfeita para os Aurores nos emboscarem? - disse ela, sendo racional.


As pessoas ao redor pareceram desgostar de seu comentário. Olharam-na de cara feia e estalaram as línguas.


- O que foi? - perguntou ela, fechando a cara para eles também.


- Você só quer estragar a festa porque não vai arranjar ninguém para te acompanhar - disse Lucius, maldosamente, com sua voz irritante.


Ela sentiu o rosto esquentar ligeiramente.


Era verdade que não teria par; Tom nunca aceitaria ir com ela, nem deixaria ela ir com outro homem, mas não estava pensando nisso. Estava pensando realmente pelo lado lógico do negócio.


- Mais uma vez você demonstra sua grande ignorância, Lucius. Estou sendo realista, esse é meu trabalho. Agora, que você não se preocupe com a possibilidade de sermos atacados quando estivermos vulneráveis, o problema é seu, mas não venha colocar a culpa de suas frustrações em mim - disse ela, indiferente ao fato de estarem à mesa na frente de todos.


Lucius fez uma cara muito feia. Ginny pensou que ele fosse atirar a cesta de pães nela, pelo modo como ele olhou furtivamente pela mesa procurando algo para usar.


- Não comecem, os dois - disse Tom, calmamente, mas numa voz que alertava por si só. Nenhum dos dois disse mais nada, apesar de continuar se encarando mortalmente. - Weasley, o fato de darmos uma festa não significa que o castelo não estará protegido, muito pelo contrário. E que Auror seria suicida o suficiente para entrar aqui quando todos os Comensais estiverem reunidos? E Lucius, não seja tão precipitado. É claro que ela vai à festa acompanhada.


Todos olharam-na, surpresos. Ela olhou rapidamente para ele, sem entender.


- Perdão, eu vou? - perguntou ela, confusa. Ele encarava-a novamente com aquele sorriso esquisito.


- Vai. Comigo, se não tiver nada contra.


Fez-se silêncio absoluto na mesa em resposta à frase dele.


Ginny piscou e olhou ao redor. Todos miravam-na, totalmente surpresos, mas ninguém disse nada. Olhou para Jack, esperando que ele risse e desse um tapinha na suas costas, dizendo que aquilo fora apenas uma grande pegadinha, mas ele também apenas encarava-a com as sobrancelhas erguidas.


Tornou a encarar o amante, incerta.


- Geralmente se diz sim ou não - disse-lhe ele, e era o único que parecia estar achando graça.


Mas Ginny não sabia o que dizer. Aquilo era muito irregular. Por um lado, queria absolutamente ir com ele e poder, ao menos uma noite, precisar atuar menos na frente de todas aquelas pessoas. Por outro, uma parte escaldada dela gritava com todas as forças de que aquilo não passava de outra sacanagem da parte dele.


- Desculpe, mas por que iria querer que eu o acompanhasse? - perguntou, tentando não parecer muito desconfiada ou mal-educada.


Ele pareceu não levar para o lado pessoal. Sorriu de modo menos estranho e respondeu:


- Porque você faria um papel ridículo, sendo um dos quatro Comandantes, sozinha na festa. E sim, seria embaraçoso se você não estivesse lá. Alguns Comensais já começam a duvidar da existência de GW, e sou obrigado a admitir que suas cartas representam grande parte do interesse que os novos recrutas têm em entrar aqui. Eu brinco com você, Weasley, mas em momento algum deixou de ser uma peça importante do meu jogo.


As pessoas agora olhavam estupefatas para o mestre, uma vez que aquelas palavras representavam muito mais do que qualquer um ali esperaria, inclusive ela própria. Ele disse tudo aquilo com uma naturalidade surpreendente, e Ginny soube que isso calaria a boca de muita gente.


- Sem contar que você ficaria linda, Weasley, em vestido de baile - acrescentou ele, em voz mais baixa, ainda encarando-a de modo insistente e constrangedor. Ela sentiu corar violentamente. Ele estava flertando-a em plena mesa do café-da-manhã? Só podia ter perdido o juízo.


Mas algo no fundo de sua cabeça gritou para que ela deixasse de ser estúpida e aceitasse de uma vez por todas. Não era isso que ela vinha querendo há algum tempo?


- Ainda estou chocada - respondeu, por fim e com sinceridade. - Mas aceito.


Ele sorriu e se levantou.


- Ótimo. Nos vemos na Sala de Planejamentos, então, para começar os preparativos da nossa festa. Não demorem muito, sim? Só temos alguns dias…


E nessa enigmática demonstração de bom-humor, saiu do salão.


Todos os olhares se voltaram para ela, lentamente.


- O que? Como se eu fosse dizer não com ele agindo desse jeito - disse ela, devolvendo o olhar. Como ninguém disse nada, ela começou finalmente a se servir.


O café-da-manhã terminou sem mais surpresas. Como todos estavam acordando tarde, ficaram até o grupo seguinte chegar para o café, obrigando-os a sair. Até então, eles todos voltaram a conversar no mesmo tom animado de quando ela chegara. Estranhamente, Jack pareceu meio distante, por mais que respondesse suas perguntas tranquilamente.


A manhã de trabalho foi o mais descontraído que ela já presenciara no grupo Cinco, sem dúvida alguma. Nunca pensara que um dia planejaria festas ao invés de missões secretas, nem que discutiria assaltar bares ao invés de bancos. Houve uma grande discussão para definirem que tipo de banda tocaria na festa, e depois de considerarem várias famosas, sem sucesso, acabaram optando por colocar anúncios no castelo pedindo sugestões.


Até a hora do almoço, várias corujas haviam chegado, várias dizendo que disponibilizavam seus elfos-domésticos, outras dizendo que ajudariam no que fosse preciso, e muitas outras perguntando se aquilo era realmente verdade. Sendo assim, passaram o final do primeiro período escrevendo cartas aos chefes dos grupos para que explicassem aos seus subordinados que aquela festa era realmente um fato e dando instruções sobre como seriam as missões das semanas até lá.


O almoço foi agradável, apesar de mais vazio do que o usual. Ela julgava que as ausências dos rapazes solteiros se justificavam no fato de que eles estivessem procurando pares antes que aquilo se tornasse mais difícil. Ela lembrou-se ironicamente do Baile de Inverno de Hogwarts, onde acabara sendo convidada por Neville, já que Harry só se lembrara dela de última hora.


Ao terminar de comer, ainda tinha meia hora de horário de almoço livre. Lançando olhares significativos para o chefe, saiu do salão, tendo sido alcançada por ele quando estava no pátio do primeiro andar da Ala Norte. Sem trocar palavras, rumaram para a última sala ao lado dos banheiros, onde sabiam que não havia ninguém no momento.


Eles entraram na sala vazia. Ele trancou-a.


A sala estava escura, iluminada apenas pelas pequenas janelas no alto da parede. Mesmo assim, conseguiram olhar longamente nos olhos um do outro. Ginny ainda mal acreditava que ia ao baile acompanhada por ele. Não sabia o que ele andava bebendo, mas estava estranhamente romântico ultimamente.


- Está feliz? – perguntou ele, abrindo um sorriso satisfeito.


- Muito feliz – respondeu ela, exultante. – O que anda acontecendo com você? Primeiro as flores, agora essa festa… No que está pensando?


- Ora, estou pensando que está na hora de nos divertirmos mais. Não quero Comensais estressados, podem causar rebeliões… - respondeu ele, evasivo.


- Você sabe muito bem do que estou falando – disse ela, divertida, passando os braços ao redor do pescoço dele.


- O que? Não posso fazer um agrado? – reclamou ele, brincando.


- Pode, mas vou começar a achar que está apaixonado por mim – disse ela, sorridente, sabendo que aquilo o irritaria.


Ele deu um muxoxo de desprezo, mas sorriu também.


- Você é tão engraçada – disse ele, baixinho e irônico. Foi empurrando-a de leve para trás até que Ginny sentiu encostar em um móvel. Ele ergueu-a e sentou-a sobre o que descobriu ser uma mesinha, então inclinou-se para ela e a beijou.


Foi um beijo longo e voraz. Ginny segurou-se em seus cabelos para freá-los um pouco, pois não se sentia nem um pouco animada em avançar o sinal em uma sala pública no meio do dia, embora o desejo que sentisse por ele crescesse a cada segundo que tinha a boca na dele. Ele também não ajudava em nada subindo a mão em sua perna por baixo de sua saia.


Ela encerrou o beijo, meio contra a vontade, quando ouviu barulho de passos e vozes no corredor lá fora.


- Aqui não – disse, ofegante.


- Eu sei – respondeu ele, com um sorriso malicioso. – À noite a gente continua.


Ela confirmou com a cabeça e, abrindo um sorriso, deu-lhe um selinho.


- Vou sair antes, enrola mais uns dois minutos antes de sair, porque um dos grupos inferiores tem reunião agora neste andar – disse ele, afastando-se dela e indo em direção à porta.


- Não se preocupe – respondeu-lhe, inspirando confiança.


Ele saiu.


Ginny encostou-se na parede, fechando os olhos. Ele a tirava do sério às vezes… Mas tinha que admitir que a ganhava mais e mais à cada dia.


- Ginny – disse uma voz severa de alguns metros à sua direita. Não era a voz de Tom.


Abriu os olhos e saltou da mesa, assustada. Jack a encarava, sério, fazendo-se nítido ao mesmo tempo que um Feitiço Desilusório se dissipava.


Ela prendeu a respiração.


- Você estava aí o tempo todo, não estava? – perguntou ela, aterrorizada.


Jack confirmou com a cabeça, lentamente.


- Estava praticando. Eu ia avisar que estava aqui, mas fiquei, ah… sem-graça – explicou, com uma careta esquisita.


Ela colocou uma mão na testa, aborrecida. Aquilo não podia estar acontecendo.


- Jack – começou ela, sem ter certeza de como contornar a situação – não é o que você está…


- Pensando? – completou ele, com uma sobrancelha erguida. – Relaxa. Eu não vou contar pra ninguém. Mas não ofenda minha inteligência, por gentileza.


Ela suspirou.


- Não sei o que dizer – desabafou, nervosa, torcendo as mãos. – Estou tão sem-graça.


- Já disse pra relaxar – disse ele, displicente. – É um segredo, eu já percebi. E que tipo de idiota seria eu para sair por aí dizendo o que vi sendo que os envolvidos são meus superiores? O que eu ganharia com isso? Uma morte rápida, suponho.


Ginny esboçou um sorriso nervoso.


- Obrigada. Mas eu não deixaria te matar.


- Uau, que autoridade, heim? – debochou ele, abrindo um sorriso irrequieto. – Não sei se você sabe, mas não é só porque está dando uns amassos com o chefe que pode decidir esse tipo de coisa por ele.


Ela alargou ligeiramente o sorriso nervoso.


- Há quanto tempo acha que estamos nos encontrando? – perguntou, resignada.


- Hum, uns três meses? – chutou ele, incerto e pouco interessado. – Não faço idéia. Isso é relevante?


- Dois anos – respondeu ela, entortando o sorriso. – Acredite, ele ouve o que eu digo.


- Dois anos? – admirou-se ele, chocado. – Desde quando você entrou? – Ginny confirmou com a cabeça. – Caramba, Ginny, você era uma menina!


- É – respondeu ela, simplesmente.


Ele fez cara de quem desaprovava, mas que soubesse que não era de sua conta.


- Você sabe que ele tem idade para ser seu bisavô, não sabe? – alertou ele, com uma expressão insatisfeita.


- Sei - disse, com um sorriso cansado.


- Isso não a incomoda?


- Não. Inclusive acredito que não levaria na esportiva várias coisas que digo se tivesse a mesma idade que eu – respondeu. Ela olhou para a porta. – Vamos indo? Eu te explico o que quiser no caminho.


Ele concordou, ambos colocaram as máscaras, levantaram os capuzes e saíram. Havia alguns Comensais aleatórios passando pelo corredor.


- Me desculpe se estiver sendo indiscreto, mas o que uma menina como você pode querer com alguém como ele? – perguntou Jack, em tom casual como se comentasse a temporada de Quiddich.


- Ah, não sei se consigo explicar. Ele é diferente – começou Ginny, tentando ser evasiva.


- Verdade? - disse ele com ironia.


- Temos muita atração um pelo outro.


- Eu vi.


- E pode parecer estranho, mas ele é uma das únicas coisas pelas quais ainda estou aqui.


- Você tem certeza que está falando coisa com coisa? – perguntou Jack, incerto e desconfiado.


Ginny deu um sorriso fraco.


- Tenho. Sei que não parece, mas nos damos muito bem. Digo, quando estamos à sós.


- Ginny, querida, você diz isso com a confiança de que se conhecessem há muito tempo – disse Jack, ainda sem muita convicção.


- Bom, e é verdade, não é? – respondeu ela, em voz baixa. – Talvez você se lembre, mas eu costumava abrir a Câmara Secreta para ele quando estava em Hogwarts.


Jack hesitou ao dar o próximo passo.


- Puxa, é mesmo! Não me toquei que era você – disse, parecendo meio chocado. Olhou-a, preocupado. – Eu não sei direito o que aconteceu, mas você deve saber melhor do que eu; se os rumores que ouvi eram verdadeiros, então creio que você estaria morta se Potter não tivesse ido atrás de você. Um pouco suspeito você gostar do nosso chefe como diz que gosta, por que por causa dele você podia nem estar aqui agora – disse ele, explicitando a contradição com sarcasmo.


Ginny riu e negou com a cabeça.


- Não só uma vez quando eu estava no primeiro ano de Hogwarts, mas como também quando fui seqüestrada no sétimo ano – lembrou ela. Ele olhava-a torto enquanto andavam. Obviamente achava que ela era doida masoquista. – Ah, você sabe como os prisioneiros são tratados… Imagine você que eu ainda por cima era namorada de Harry Potter. Prato cheio para Bellatrix, não é mesmo?


- OK! Então você é do tipo masoquista, é isso? Eu nunca iria adivinhar – desdenhou ele, parecendo genuinamente contrário àquela idéia. Ela riu.


- Pode até ser, mas não – respondeu ela, calmamente. – Quando o encontrei pela primeira vez na época, relembrei todo o trauma da Câmara Secreta, mas sabe o que mais? Percebi que sem essa passagem na minha vida eu seria outra pessoa. A dificuldade me fez mais forte, Jack, e quando percebi isso, senti uma grande gratidão por ele. E eu não disse nada. Nem uma informação. Não sei se já sentiu uma Cruciatus – ele confirmou com a cabeça -, é complicado resistir. Mas eu consegui. E sabe? Ele achou isso muito interessante.


Jack parecia compreender, mas ainda resistia a aceitar.


- Você está me dizendo que se interessaram um pelo outro enquanto ele te torturava? – quis entender ele, incrédulo.


- Mais ou menos – respondeu, vendo que ele encrencara com aquela parte da história. – Eu não sei explicar muito bem, mas foi mais ou menos isso.


- Credo. Isso é doentio! Já consultou um especialista? – disse Jack, parecendo sério.


Ginny riu.


- Na época é claro que não entendi nada. Eu percebi que era atraída por ele, mas não quis admitir. Era uma coisa meio louca, sabe? Eu tinha medo e ódio dele, mas ele me atraía. Dá pra entender?


Ele ergueu uma sobrancelha.


- É – continuou ela. – Ele deve ter ficado confuso também. Me libertou. Achei estranho, mas não podia reclamar. Eu voltei para Harry e minha família, mas depois de um tempo as coisas não tinham mais a mesma graça, para resumir. Então eu voltei, e me sinto muito mais realizada – disse, simplesmente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.


Mas o amigo não se deu por satisfeito. Ao chegarem perto da sala dela, ele parou e encarou-a.


- Isso me soa extremamente absurdo – disse.


Ela riu.


- É a verdade – disse. Olhou para ele e sorriu gentilmente. – Às vezes ela pode parecer meio absurda.


- Meio?!  Bom, espero que ele não tenha sido o único motivo para ter voltado – disse ele, ainda achando tudo muito suspeito.


- Claro que não – respondeu, rapidamente. – Mas isso não entra em questão.


- OK! Entendi. Bom, não vou mais te alugar com perguntas invasivas – disse ele, mexendo os pés. – Mas me responde uma última coisa, sim? Com sinceridade – Ginny concordou com a cabeça, aguardando. - Ele te trata bem?


Ela sorriu. Então era isso? Um tipo de ciúmes de irmão?


- Ele é muito cuidadoso comigo, não se preocupe – respondeu, grata.


Ele pareceu mais tranqüilo depois disso. Mas mesmo assim disse:


- Ginny, se algum dia ele vier com cretinice para cima de você, te machucar ou fizer qualquer coisa, pode contar comigo – disse, sério, olhando-a nos olhos.


- Certo… Mas como é que você me ajudaria? – perguntou ela, imaginando que tipo de ajuda poderia um simples Comensal lhe oferecer.


- Posso te ajudar a desaparecer – respondeu ele, falando muito sério. – Lembre-se disso, ouviu? Qualquer coisa, me avisa!


Ginny confirmou com a cabeça. Jack virou-se para ir embora, mas voltou-se mais uma vez para ela.


- Eu ia te convidar para ir comigo na festa, mas vi que não ia ter chances assim que ele te convidou. Confesso que me senti meio traído por você ter aceitado ir com ele, mas agora tudo faz sentido. Então, eu espero que você seja muito feliz com suas escolhas, Ginny - disse ele, sem sorrir, mas de um modo que não a perturbava. Sabia que era sincero.


Ela assentiu com a cabeça mais uma vez, sorrindo com gratidão. Ele virou-se mais uma vez para ir embora.


- Jack – chamou ela, assim que ele se distanciou alguns passos. Ele virou-se e olhou-a, esperando. – Obrigada. É bom poder contar isso para alguém.


Ele abriu-lhe um sorriso carinhoso. Bateu uma continência e virou-se, indo desaparecer na esquina do corredor.


 


III


 


O fato de Jack ter descoberto seu segredo não atrapalhou sua vida. Ele se manteve fiel e guardou aquilo para si, apesar de desaprovar veementemente.


Ela se encontrou com Tom aquela noite, e alegrou-se por finalmente poder afastar sua solidão momentânea. Aquilo vinha se tornando cada vez mais arriscado, uma vez que o resto do grupo todo estava intrigado com o que ele lhe disse no café-da-manhã. Ninguém mais a atormentara desde então, mas não deixaram de observá-la com desconfiança.


Nos três dias seguintes, as missões continuaram naquele clima pouco usual. Alguns Comensais mandaram cartas lembrando que havia dois músicos relativamente famosos alistados, e que poderiam ver com eles se havia possibilidade de tocarem na festa, o que foram checar; passaram algum tempo na Sala de Planejamentos discutindo se disponibilizariam tecidos mais luxuosos para que os residentes encomendassem seus trajes de baile, e se seriam pagos ou não - e que meio utilizariam para conseguir estes tecidos; tentaram se decidir também em relação à comida e bebida, e surpreendentemente receberam bastantes propostas de comerciantes, com catálogos e tudo o mais.


Ginny acabou recebendo uma missão exterior, da qual não criou caso. Como trabalhara na rouparia com eficiência e entendia mais de tecidos do que qualquer um ali, além de ter autoridade para gastar o dinheiro da Ordem por meios “corporativos”, ficou encarregada de ir até o Beco Diagonal no dia seguinte e barganhar algum bom material para usarem. Acabaram se decidindo que dariam o material, mas os residentes teriam que pagar pelo serviço, se optassem por contratar alguém da rouparia para construção do traje. Também podiam mandar fazer por fora, mas como o Ministério provavelmente estaria de olho em qualquer pedido de roupa de festa nas semanas seqüentes, alertariam que seria mais arriscado.


Seria a primeira vez que sairia do castelo em dois anos, mas ela não estava preocupada. Estaria disfarçada, e mesmo que a descobrissem, ninguém nem sabia que ela estava viva e muito menos a relacionariam com GW.


Naquela tarde, porém, um problema urgente aparecera: o grupo Quatro fora emboscado quando foram realizar a execução de um desertor que vinha lhe causando problemas e, por fazerem parte dos grupos intermediários maiores e tratarem muito diretamente com eles, o grupo Cinco tinha o dever de resgatá-los, caso contrário muita informação importante poderia escapar, incluindo a identidade de vários agentes duplos e nomes desconhecidos do Ministério, como Ginny.


Como o habitual, na ausência do Lord das Trevas, a chefia de Basilisk Hall ficava nas mãos dos Comandantes presentes. Como Ginny era a única que nunca saía em missão, estava acostumada a ficar no comando por algumas horas. Não achava que teria problemas dessa vez, mas mesmo assim estava recebendo algumas instruções de última hora.


- Os representantes virão aqui hoje - dizia ele, enquanto descia as escadas da Ala Norte, com pressa, o restante do grupo alguns passos à frente. - Confio na sua escolha, mas seja econômica.


- Claro, não se preocupe - respondeu, acompanhando-o. - O que devo fazer com aquele supervisor do grupo Sete?


- Bom, você pode mandar colocá-lo nas masmorras e tentar fazer ele falar alguma coisa, mas não se prenda à isso. Bellatrix ficará feliz em fazer isso mais tarde - respondeu ele, enquanto cruzavam o pátio do primeiro andar e chegavam à escadaria central.


- Está certo, então vou tentar adiantar os preparativos.


- Sim, mas fique de olhos abertos. Não é a mesma coisa ser um Comandante e ser um General, você sabe.


- Sim, eu sei - disse ela, olhando para o fim da escada. - Não se preocupe.


Basilisk Hall estava deserta nesse horário. Quase todos os grupos saíram, apenas os trabalhadores internos estavam ali. Um funcionário da rouparia subia com uma grande trouxa de vestes, provavelmente para a área residencial da Ala Norte. A pessoa observava o restante do grupo Cinco que passaram por ela e se reuniam no Hall, com curiosidade, e quando virou-se e deparou com o Lord das Trevas em pessoa, assustou-se o suficiente para deixar cair o que segurava, que espalhou-se pelos degraus de mármore, bloqueando o caminho. O Comensal olhou-os com pavor, e reverenciou-se em seguida, mantendo o rosto abaixado. Estava sem máscara, e Ginny reconheceu a pessoa no instante em que fitou seu rosto durante o segundo em que se encararam.


Tom parou, e Ginny viu suas narinas empalidecerem, num sinal de alerta.


- Tire isso do meu caminho - disse ele, ríspido, para o inferior que, no desespero, não sabia o que fazer.


- Acalme-se - disse Ginny para ele, pacificadora, movimentando a própria varinha e fazendo todas as vestes se empilharem dobradas na lateral da escada. - Pronto.


Ele não disse nada e, lançando um último olhar ao Comensal, continuou seu caminho. Ginny seguiu-o, mais devagar.


- Desculpe por ele - disse, em voz baixa, quando passou pela ex-colega da rouparia, Marcy Lowitt. A garota olhou-a, brevemente, ao ouvir aquilo, mas tornou a baixar o rosto, corando.


Virou-se para continuar, mas viu-o parado encarando-a. Parecia ter ouvido.


- GW, nunca mais ouse se desculpar em meu nome - disse-lhe, em voz baixa e perigosa. Ela desviou os olhos. - Carregando coisas na mão, como uma trouxa qualquer, ainda por cima sem máscara… Ela é quem devia estar se desculpando, e não você!


- Sim, senhor. Sinto muito - respondeu ela, sem se preocupar muito em parecer realmente arrependida. Mas ele apenas lançou-lhe um breve olhar como quem dizia que ela estava ficando muito abusada, e continuou o trajeto.


Ela seguiu-o até o último degrau. Ela acenou um tchau para Jack e Adam às costas dele.


Tom reuniu-se aos outros, e virou-se para lançar-lhe um último olhar severo antes de desaparatarem, deixando-a sozinha com Marcy às suas costas.


Ela colocou as mãos nos bolsos. Sabia o que significava aquele olhar. Significava que não era para aproveitar a ausência dele para ser amigável com os Comensais dos grupos inferiores, por mais que os conhecesse e por mais que achasse que ele havia sido injusto com qualquer um deles. E apesar de discordar, mesmo porque sabia o quanto a velha amiga da rouparia devia estar traumatizada e envergonhada pelo encontro imprevisto, iria obedecê-lo. Ninguém desejava que fosse reconhecida.


Ginny suspirou e cruzou o hall, indo até o guarda ao lado da porta principal.


- Se chegar alguém querendo falar comigo, pode encaminhar para a minha sala, fazendo o favor - disse, e o guarda assentiu com a cabeça. Ela deu meia volta e tornou a subir as escadas da Ala Norte, sem dar atenção à Marcy, que ainda encontrava-se na escada, recolhendo as mudas de vestes que estivera carregando, até o segundo andar.


Passou antes na Sala de Planejamentos para pegar os catálogos dos buffets e da decoração e encontrou duas corujas aguardando, ansiosas, suas cartas presas nas pernas. Uma era a resposta do baixista que chamaram para tocar na banda, a outra era uma carta de Robert Wildriam, Comandante Exterior. Ela levou a primeira, junto com os catálogos, deixou a segunda na mesa de Tom, depois de desfazer os feitiços de proteção e colocá-los novamente.


Uma vez em sua sala, começou a estudar os catálogos e descobriu que não seria difícil reproduzir a maioria das propostas, tendo dezenas e dezenas de pessoas sob seu comando, além de mais elfos-domésticos do que o usual, quando se tratava da comida e bebida. Não era o plano original dispensarem o serviço terceirizado, mas Ginny teve tantas idéias que não pode deixar de anotar. Ao fim de uma hora e alguns minutos, sua mesa estava abarrotada de esboços da decoração, disposição das mesas no dia da festa, localização do palco, notas sobre segurança, tarefas necessárias para tornar o que planejava viável e um rascunho de vestido de baile.


Definitivamente agradecia por ser mulher, o que lhe concedia capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, e por poder trabalhar tão bem quando não havia ninguém falando em sua cabeça. Anotou mentalmente se lembrar de ficar sozinha mais vezes com todo o material disponível, mesmo que os outros desgostassem.


Depois de um tempo sentia as pernas formigarem e o estômago parecer estar se corroendo. Percebeu que era hora de dar um passeio até a cozinha. Ah, como gostava de ser autoridade máxima por algumas horas e não precisar dar satisfações para escapar do trabalho para a cozinha…


Ela desceu as escadas até o térreo e passou pelo arco sob a escadaria da Ala Norte. Havia alguns membros do grupo Três tomando chá da tarde, reparou ela, ao observar seus uniformes, que olharam para ela com interesse quando entrou no salão. Draco estava com eles e levantou-se rapidamente, ao notar sua faixa verde na cintura, sinal do alto cargo que ocupava.


- Relaxa, Draco - disse ela, calmamente, enquanto dava a volta no salão sem pressa. - Sou eu.


Ele reconheceu sua voz por trás da máscara e pareceu mais aliviado, mas não se sentou. Abriu um sorriso feliz que parecia muito estranho no rosto dele.


- GW! Ao que devemos a honra? - disse ele, animado, aparentemente achando que ele se juntaria a eles. Os outros continuavam olhando-a com curiosidade, ainda mais interessados depois de saberem que se tratava de GW.


- Não vou me juntar a vocês, Draco. Estou só de passagem - disse, rindo. - Estou quebrando o protocolo, para falar a verdade. Tenho que voltar rapidinho antes que apareça algum problema. Foi bom ver você - disse, piscando-lhe.


Ela entrou na cozinha. Os elfos ficaram exultantes para lhe oferecer quanta comida quisesse, e ela acabou saindo com uma cestinha de pãezinhos recheados e uma bombas de creme que ela não pôde resistir. Iriam mandar o chá diretamente para sua sala.


Ela acenou para Draco ao passar novamente pelo salão, sem pretender dar mais conversa. Achava engraçado o modo como ele ficava tão feliz em vê-la, mas não daria motivos para que Tom ficasse bravo com ela; afinal, prometera que não ia mais ficar de conversa com ele, e cumpriria. Seria muito suspeito, porém, se de um dia para o outro simplesmente passasse a ignorar o rapaz, então achava que ele merecia ao menos ser cumprimentado.


Mas ele puxou assunto antes que ela fosse rápida o suficiente para sair.


- GW, posso falar com você um minuto? - perguntou ele, ignorando a tentativa dela de ser rápida.


- Hum, estou com um pouco de pressa, Draco… - respondeu ela, evasiva, continuando seu caminho.


- Não vou demorar. Só queria perguntar se você já tem companhia para a festa. Se não, gostaria de convidá-la. Digo… seria uma honra se pudesse ir com você - disse ele, mal contendo a ansiedade.


Ginny entortou os cantos dos lábios. Suspeitava que ele não esperasse que ela recusasse, ou não teria feito o convite na frente de todas aquelas pessoas. Desacelerou e respondeu.


- Ah, sinto muito, Draco. Já vou com outra pessoa - disse, em tom de desculpas.


- Ah… Que pena. Mas tudo bem - disse ele, encolhendo os ombros e tentando disfarçar o desapontamento. Então forçou um sorriso cordial. - E com quem é que você vai?


Ela deu uma risada breve.


- Com alguém do meu grupo… Não devia fazer tantas perguntas ao chefe vigente; soa presunçoso.


Ele corou e pediu desculpas. Ela riu novamente e fez sinal para ele não se preocupar antes de sair pelo arco da escadaria.


Deve ter sido o destino que a tirou de seu caminho. De repente, já no segundo andar Norte, ao invés de entrar em sua sala, cruzou o pequeno saguão até o parapeito que dava visão para o hall, e ficou observando o escasso movimento enquanto comia.


O guarda a viu e acenou brevemente, Ginny retribuindo o reconhecimento com a cabeça. Viu dois encapuzados saírem do arco da Ala Oeste e entrarem no arco da Ala Leste, conversando em voz baixa. Depois de dois ou três minutos, viu os membros do grupo Três saindo do Salão de Refeições e dissipando-se pelas passagens, uns unidos, outros solitários. Reconheceu os cabelos louros de Draco no meio de dois outros Comensais subindo a escadaria da Ala Norte, bem abaixo dela. Sorriu levemente. Ele parecia estar fazendo amizades.


Saiu da reta das escadas da Ala Norte, indo alguns passos para o lado e escondendo-se depois da esquina da modesta área residencial, ainda com visão para o hall - não queria que ele a visse sozinha quando passasse por aquele andar e viesse falar com ela. Mas depois de um tempo atenta aos ruídos, percebeu que ele e os outros haviam subido para o terceiro andar, provavelmente para a sala de reunião dos grupos intermediários.


Ginny comeu mais dois pães e estava prestes a ir embora quando a porta principal se abriu no hall abaixo. Achando que poderia ser um dos representantes que ela esperava, parou e observou. O átrio estava deserto exceto pelo guarda, que olhava atento para a porta. Geralmente se aparatava ali dentro mesmo, e o fato de a pessoa estar usando a porta mostrava que realmente era alguém de fora. Mas os segundos se arrastaram e ninguém entrou. Desconfiado, o guarda deslocou-se para ver o que estava acontecendo. Ele saiu.


Ginny esperou alguns segundos. Ele não voltou. Aquilo era alarmante e Ginny desencostou-se do parapeito, pensando se devia buscar ajuda. Olhou ao redor, mas os outros andares estavam desertos. Onde estava a escolta quando mais se precisava dela? Mas antes que pensasse em qualquer coisa, viu o guarda aparecer novamente, entrando de fasta no hall. Como Ginny suspeitava, havia uma varinha apontada para ele.


Ela não pôde deixar de notar que o guarda estava fazendo o possível para que ela visse. Afastava-se lentamente e rígido, as mãos para cima. Ele contornou a parede ao lado da porta, guiando o atacante para dentro, e quando tocou a parede com as costas, levantou os olhos para ela, breve e significativamente. Ginny sacou a varinha.


O invasor não era muito alto e vestia um manto preto parecido com os que usavam ali, e percebeu o movimento de olhos do guarda. Seguiu o olhar rapidamente, e antes que Ginny pudesse se esconder, os olhos se cruzaram e ela sentiu um atordoamento que ultrapassava qualquer surpresa que já tivesse tido ali dentro.


Ao mesmo tempo em que encarava o invasor e o invasor a encarava, em sinal de reconhecimento mútuo, um milhão de perguntas e pensamentos fervilhavam em sua cabeça. Sentiu o sangue fugir do rosto, mas um movimento discreto do guarda a fez agir instintivamente.


Ele estava a meio caminho de conseguir o que pretendia, uma vez que seu atacante estava distraído, e Ginny sentiu o coração parar. Antes que ele tocasse a própria Marca Negra com a varinha, ela levantou a dela e lançou uma maldição sem verbalizar. O recém-chegado saltou para o lado, mas sua Imperius atingiu o alvo com precisão. O guarda enrijeceu e abaixou os braços, deixando escorregar a manga levemente erguida e apontando a varinha para o chão. Levantou os olhos levemente vidrados para ela.


- Está tudo bem - disse ela, em voz alta, sentindo o coração voltar a bater anestesiado. Fora por pouco. - Mande-a esperar.


Ginny virou-se e correu para sua sala, largando sua comida sobre a mesa e trancando a porta ao sair novamente. Desceu apressada as escadas e encontrou-se no hall em poucos segundos. Lançou um olhar ameaçador para o forasteiro e fez um sinal para que a seguisse. Pegou a escada da Ala Oeste e começou a subir com pressa.


Quando chegaram ao primeiro andar, ela olhou com o canto dos olhos para a pessoa ao lado.


- Terei que modificar a memória dele depois, e não tenho certeza se sei fazer isso… Você ficou louca?! O que está fazendo aqui? - sibilou Ginny, entre os dentes, enquanto conduzia a outra pelo castelo, tentando não se exaltar. Queria ter uma longa conversa (ou discussão) com a velha amiga, mas não ali na área pública de Basilisk Hall. O fato de o castelo estar deserto piorava a situação, pois além de serem um foco solitário para qualquer um que passasse, as paredes duras ecoavam mesmo se sussurrassem.


- Então é verdade - disse a outra, num tom de voz chocado, porém controlado, ignorando usas perguntas. - Você está mesmo viva e está mesmo trabalhando para ele.


- E você estaria mesmo morta se não fosse eu a te encontrar primeiro - disse a ruiva, segurando a fúria. - O que você tinha na cabeça quando passou por aquela porta?


Hermione Granger fez um gesto de pouco caso com a mão.


- Eu soube desse lugar há eras - respondeu a outra, em voz baixa. - Eu estava no Departamento quando houve a ocorrência. Tínhamos mandado parte dos Aurores para lá e estávamos para nos juntar a eles quando veio a notícia de que tinham reforço especial. Harry e Ron foram na mesma hora, mas eu aproveitei que o caminho estaria livre para vir ver com meus próprios olhos - disse Hermione, com a calma de quem planejara seus passos com antecedência; Ginny sabia muito bem como era.


Ela sentiu que a calma desafiadora da outra estava irritando-a cada vez mais. Suas sobrancelhas estavam tensionadas sem que percebesse.


- Só há um problema nesse seu plano - disse, tentando manter a voz na mesma calma que Hermione tinha na dela. - Eles podem voltar a qualquer momento.


A amiga demorou alguns segundos para responder.


- Não, eu acho que não. A última vez que se encontraram, Harry e ele, durou mais ou menos três horas. E Dumbledore está lá - disse ela, com bastante certeza, coçando o queixo, enquanto olhava ao redor. - Aonde está me levando?


- Dumbledore está lá? - exasperou-se Ginny. Um espasmo de preocupação percorreu seu corpo. Sabia que o negócio com Dumbledore era brutal… O que aconteceria se ele tivesse que enfrentar Harry e Dumbledore ao mesmo tempo? Sabia que os outros conseguiam combater Harry igualmente, mas não eram páreo para Dumbledore, nem se tentassem juntos.


Hermione parou de observar o corredor e virou-se para ela, uma expressão que ela nunca vira antes no rosto da amiga: parecia o olhar severo da Profª. Minerva, mas com um semi-sorriso cruel que ela costumava ver com mais freqüência nos lábios de Tom.


- Preocupada? - perguntou-lhe, maldosa, os olhos ainda repreensivos. Então suspirou. - Tinha esperanças de que essa parte fosse exagero do Harry, mas acho que não…


Ela vacilou no próximo passo, o que fez Hermione parar e levantar uma sobrancelha.


Então Harry sabia de seu romance com seu arqui-inimigo? Ela não fazia idéia. Sabia, sim, que ele sabia que ela era GW, mas nunca lhe passara pela cabeça que ele pudesse saber que eram amantes. Mas talvez ela estivesse se referindo apenas ao fato de Ginny ter passado a admirá-lo como mestre.


- Preocupada? Só se for com seus colegas - disse, friamente, disfarçando.


Hermione deu um muxoxo de desdém.


- Onde estamos indo? - tornou a perguntar, já no segundo andar.


Ginny continuou andando apressada e não lhe deu atenção. Parou em frente ao quarto 15 e abriu a porta.


- Entre - disse, com urgência. A outra obedeceu sem contestar, curiosa.


- Hum, então é com isso que estão ganhando tropas? - perguntou ela, olhando ao redor, escondendo a admiração com uma voz sarcástica.


- Não, estes quartos são apenas para o alto-escalão - respondeu Ginny, pronta e secamente, fechando a porta. Uma vez na privacidade, ela iniciou o interrogatório. - O que está fazendo aqui?


A amiga desviou os olhos da lareira e encarou-a nos olhos.


- Precisava ver se o que Neville disse era verdade - respondeu, meio séria, meio decepcionada, como se já tivesse tido sua resposta. - Precisava também saber sua versão da história. Harry me contou a dele.


Ginny não respondeu de imediato. Era o que ouvira que era? Hermione não estava ali para repreendê-la? Não contava com isso, sinceramente. Imaginava, uma vez que a outra soubesse da versão de Harry, ficaria ao lado dele, sem contestar, mas ela estava ali, e queria saber seus motivos.


Ela então sentiu-se muito grata. Hermione fora a única que se importara o suficiente para se arriscar. Sentiu os olhos encherem-se de água, involuntariamente. No momento seguinte, estava despejando sobre a outra tudo o que nunca contara a mais ninguém.


Hermione ouviu com atenção sobre o seqüestro, sobre o dia que saíra de casa e seus primeiros meses em Basilisk Hall. Apesar dos olhos severos e desaprovadores, a outra interrompeu apenas quando não conseguiu mais conter sua repugnância, quando Ginny começou a falar dos serviços especiais.


- Ginny…! Eu não sei o que dizer, eu… - Hermione estava perplexa o suficiente para não conseguir verbalizar o que estava sentindo. - Como você consegue ter estômago para… Digo, o que você ganha com isso?


Ginny piscou.


- O que eu ganho com isso? - repetiu, inconformada que a outra ainda não tivesse percebido. Mas devia ter contado de modo confuso, não havia outro modo de Hermione não ter entendido. - Desculpe, devo ter pulado essa parte. Mas certamente não acha que me disponho a esse tipo de serviço sem retorno, não é? Desde quando você se lembra de a loja dos gêmeos no Beco Diagonal ter sido saqueada? No máximo uns vidros quebrados para não ficar muito suspeito… E desde quando você se lembra de algum Weasley perseguido ou atacado? Talvez ligeiros confrontos, mas o rival nunca se demora muito, não é mesmo? E quando é que você se viu em situação pior do que a dos outros Aurores por causa do seu sangue? E você me pergunta o que eu ganho em troca por disponibilizar meu corpo pra pior pessoa possível? Pois eu digo que não ganho nada… Mas vocês ganham tempo e benefícios, que se usados bem garantirão sua vida e vitória - disse ela, talvez um pouco severa demais. Então suspirou e olhou para a amiga, um pouco incerta. - Você diria que esta é uma boa recompensa?


Mas Hermione não respondeu de imediato. Seus olhos estavam muito mais brilhantes do que ainda há pouco e parecia prender a respiração. Então ela soltou o ar e pegou suas mãos.


- Ah, Ginny…! Sinto muito, sinto muito mesmo… Não pensei… Isso nem passou pela minha cabeça… Tão nobre de sua parte…! Sinto muito!


- Está tudo bem, Hermione - disse Ginny, conseguindo sorrir com a exasperação da outra. - Não é o meu maior problema no momento. Eu diria que prefiro passar o resto da vida fazendo serviços especiais do que continuar doente.


Hermione continuou olhando-a com as sobrancelhas cerradas e um ar compreensivo ao redor dos lábios, mas ao mencionar a doença seus olhos se tornaram mais despertos. Como Ginny não disse mais nada, a amiga enfim abriu a boca.


- O que tem sentido?


Ginny sentiu a gratidão crescer. Até mesmo sobre sua doença misteriosa poderia falar.


- Coisas estranhas. Principalmente náuseas e dor de cabeça - respondeu, mais calma, agora que mexiam com o presente. Hermione ergueu as sobrancelhas.


- E dores nas costas? Fome? - perguntou ela, inquisitiva.


- Sim, um pouco - respondeu a ruiva, simplesmente feliz de estar dividindo aquela preocupação com alguém.


- Com que freqüência isso acontece?


- Depende. A cabeça dói o dia todo. A dor nas costas e as náuseas acontecem mais de manhã e às vezes depois do almoço. - Ginny piscou. - Você tem idéia do que possa ser?


Hermione não respondeu de imediato. Desviou os olhos para o quarto por alguns instantes. Quando voltou a olhá-la, parecia mais séria.


- Ginny… Há quanto tempo não menstrua? - perguntou a amiga, com um indicativo de urgência na voz.


Ela tornou a piscar. A principio não entendeu a objetividade daquela pergunta, mas então sentiu um baque nauseante de compreensão, como um chute na barriga.


Nem sempre sintomas indicavam doenças.


Ela levantou-se, sentindo-se zonza, e cambaleou até o banheiro. Hermione seguiu-a para que impedir caso ela resolvesse cair no chão. Ela apoiou-se na pia e fitou a imagem no espelho logo atrás desta. Seu rosto anormalmente pálido e abalado encarou-a de volta.


Então era isso. Explicava tudo: o enjôo, as dores, a fome, o ganho de peso, a instabilidade emocional… Deus do céu, o que faria agora? Levou a mão até a barriga, sem ter muita certeza do que estava fazendo.


Não podia acreditar que estivesse grávida.


- Hermione! - ofegou ela, a voz fraca. - Você acha que… Meu Deus! Isso não pode ser verdade!


Sentiu a mão da amiga em seu ombro e viu seu rosto preocupado pelo espelho.


- Pelo visto não era esperado. Como acha que ele vai reagir? - perguntou a outra, e embora fosse atenciosa, Ginny não deixou de reparar um quê de frieza em sua voz.


- Eu não sei… - respondeu ela, sentindo-se mais nauseada do que nunca. O fato de estar carregando um filho dele no ventre assustava-a, mas o pensamento do modo como ele reagiria era pior. Tinha certeza de que ele não ia vibrar de felicidade. - Isso não é nada bom.


- Desculpe, mas o que você esperava? - disse Hermione, agora parecendo impaciente. - Isso acontece quando um homem e uma mulher se relacionam e não se previnem, você devia saber.


Ginny sabia. A verdade, porém, é que não estaca contando que ele ainda fosse humano o suficiente para engravidar alguém. Mas não disse isso para a outra.


- Mesmo que eu não conte, minha barriga vai crescer… As pessoas vão saber, vão comentar… - sussurrou ela, para ninguém em especial, febrilmente. - Ah, ele não vai gostar disso…


- Ginny, você acha que ele pode querer fazer algum mal para você por causa disso? - perguntou Hermione, incerta.


Um sorriso triste e conformado formou-se nos lábios da garota assim que ouviu aquilo.


- Por que não? - disse, ouvindo a própria infelicidade na voz. - Não passo de diversão para ele nas horas vagas.


- Mas agora você está esperando um filho - disse a outra, ainda incerta, mas tentando animá-la.


- Pior ainda. Muito inconveniente. Vai me culpar por não ter me precavido, tenho certeza. Assumir esse bebê seria assumir que gosta de mim o suficiente para dormir comigo, além do mais, eu não consigo imaginá-lo trocando uma frauda - disse Ginny, ainda ostentando um sorriso meio histérico e desequilibrado. - Não. Acho que ele vai tentar fazer com que eu aborte, se descobrir…


Hermione lançava-lhe um olhar chocado.


- Mas é filho dele - argumentou, pasma.


Ginny deu uma risada rouca e baixa que combinava bastante com seu sorriso infeliz.


- Você se lembra que fim teve o pai dele, espero - disse a ruiva, voltando a encarar o espelho. Sua expressão era levemente surtada de choque. - Ele não vai me perdoar por isso, Hermione.


Por algum motivo, não sentia vontade alguma de chorar.


Sentiu a mão da amiga apertar seu ombro e virou-se para olhá-la. Hermione encarava-a com um ânimo inexplicável.


- Então volte para a Ordem da Fênix, Ginny. Eu garanto que todos te perdoarão lá. E os Weasley, eles vão entender… Dumbledore pode te livrar de sua condenação! Volte comigo se acha que esse maldito nojento não vai ter nenhuma gratidão por você - disse Hermione, ansiosa, com firmeza. - Volte comigo, Ginny!


A garota ficou encarando a amiga, sem palavras. Apesar de tudo o que fizera nestes dois anos, ela ainda estava querendo ajudá-la. Aquilo a comoveu, e Ginny sentiu um aperto na garganta.


Imaginou-se voltando para a casa, de volta para sua família. Bill, Charlie, Percy, Fred, George, Ron e seu pai e sua mãe… Ah, como sentia falta de seus pais! Sentia falta de carinho, de compreensão, de união. Sentia falta até mesmo de seu quarto pequeno de onde se ouvia tudo o que falavam na sala. Sentia falta da comida de sua mãe, de suas roupas, de suas coisas, do Quiddich nos fins de semana, das brigas para usar o banheiro… Sentia falta até mesmo de Errol, aquela coruja velha. Sentia falta de fazer parte de uma família!


Mas era impossível. Não podia abandonar o barco agora; estava atada a ele.


- Não - disse ela, em voz baixa, e sentindo uma pontada de pânico cutucar seu peito. - Eu não posso ir embora. Você não está entendendo! Se eu fugir, ele vai atrás de cada um de vocês, Hermione! Eu sou o único motivo pelo qual vocês ainda estão vivos! E se ele descobre que fugi porque estou esperando um filho dele… eu não quero nem pensar! Ele vai encontrar um jeito de me pegar, nem que tenha que matar mil inocentes, para que eu me entregue… E quando isso acontecer, a morte será o castigo mais leve que ele poderá me dar. E eu duvido. Não tenho visto muitas pessoas capazes de provocá-lo e morrerem inteiras nas masmorras…


Hermione fez uma expressão esquisita e levemente receosa, mas persistiu.


- Sabemos nos cuidar. Volte para a casa, todos sentem sua falta. Você pode viver segura com seu filho, se o quiser.


Ela sacudiu a cabeça devagar, sentido-se mal.


- Não vou ser responsável por causar uma catástrofe, Hermione. Não cheguei tão longe para morrer na praia; se alguém tiver que sofrer as conseqüências, que seja apenas eu e no máximo meu filho - ao dizer isso, sentiu faltar o ar ligeiramente. Mas se recompôs rapidamente. - Não, vou defender meus ideais até o fim. Vem dado certo até agora, posso encontrar um jeito de amenizar meu castigo, mas não poderei fazer nada se não estiver aqui.


Sentiu-se mais sóbria depois disso. Sim, devia continuar com seu plano. Aquela gravidez não era desejada, mas já que acontecera, arcaria com as conseqüências e intercederia por ela na medida do possível. Ainda tinha chances de fazê-lo compreender, afinal, ele andava muito mais afetivo ultimamente.


E viu que recuperara a razão quando sentiu o mal-estar abandoná-la aos poucos. Endireitou-se, na frente do espelho, e viu que seu rosto estava mais corado. Não sentia mais vontade de desmaiar. E voltou a raciocinar com mais precisão.


- Hermione, perdemos um longo tempo falando sobre mim - disse ela, a voz bem mais controlada do que até então. Virou-se para a outra. - Quero fazer algumas perguntas, se não se importa, e então você vai sair daqui antes que eles voltem.


A amiga apenas concordou com a cabeça, esperando.


- Neville me disse que você e Ron estão noivos - disse Ginny, saindo para o quarto.


Hermione deu um riso anasalado. O clima mudou drasticamente.


- É verdade - respondeu a outra, contente, seguindo-a. - Olhe minha aliança.


Ginny olhou e viu uma linha de ouro no dedo da amiga. Sorriu com entusiasmo.


- Torne-se uma Weasley logo e se tornará uma a mais a qual poderei imunizar contra meus colegas - disse Ginny, sorridente, pegando a mão de Hermione com carinho. - E seja bem vinda à família, antecipadamente.


- Obrigada - respondeu a outra, também com um sorriso, grata.


- Agora… - disse Ginny, soltando-a e afastando-se para a frente do armário. Abriu-o e pegou um dos mantos no cabide e uma das faixas verde-esmeralda penduradas. Atirou-os para Hermione. - Como vão meus pais?


- Passam bem, no momento - respondeu a Aurora, pegando as vestes e observando-as com curiosidade. Então levantou os olhos para ela, uma expressão de quem se desculpa aparecendo em seus olhos. - Mas, você deve saber, sua mãe nunca se recuperou totalmente de sua morte. Às vezes ainda tem algumas recaídas. Mas passa bem de saúde e tudo o mais, os dois, aliás. Se admiram de ainda não ter perdido mais nenhum filho, já que todos fazem parte da oposição.


Ginny suspirou. Não sabia de nada daquilo e sentiu-se culpada por ter feito eles se entristecerem. Esperava que pudessem entender algum dia, saber o que ela havia feito por eles…


Ela tornou a se virar para o guarda-roupas, enquanto Hermione se vestia, e abriu a segunda gaveta. Não havia nada além de um par de meias e uma camisola velha.


- Ué… Onde foi que eu deixei a branca? - perguntou-se, abrindo as outras gavetas, sem sucesso. Vasculhou o fundo do guarda-roupas, entre as vestes penduradas. Não encontrou, endireitou-se e pensou. Só havia um outro lugar onde podia estar. - Ah… Vem comigo.


- O que aconteceu? - perguntou Hermione, já usando o manto negro e amarrando a faixa verde na cintura. Ginny pegou sua própria máscara sobre a cama e colocou no rosto.


- Nada de muito interessante. Só deixei minha outra máscara que vou te emprestar no outro quarto - explicou, calmamente.


- Você tem outro quarto? - admirou-se a amiga, em voz acusadora, enquanto saiam pela porta. - Esse não é grande o suficiente?


Ginny deu um sorriso torto.


- Eu disse que tinha deixado em outro quarto, não que o outro quarto era meu. - Elas passaram em frente a uma porta e pararam em frente à outra, dupla e maior. - Espere aqui um pouco, preciso ver se Nagini está aqui dentro…


Ela sussurrou a senha e ouviu a tranca se soltar. Abriu uma das portas e entrou, silenciosamente. Depois de olhar perifericamente pelo quarto e se certificar que a cobra não estava debaixo da mesa, da cama ou no banheiro, ela voltou para a porta e fez sinal para Hermione.


A amiga entrou e ela fechou a porta às suas costas. Ginny viu o assombro nos olhos dela quando esta olhou ao seu redor, boquiaberta.


- Você deve ter deduzido lá fora mesmo a questão da posse desse quarto - disse Ginny, sem se alterar. Foi em direção à cama e começou a vasculhar a roupa de cama. - Não repare na bagunça, sim? Ele não gosta dos elfos-domésticos entrando aqui.


Hermione não respondeu. Começou a caminhar pelo quarto amplo com curiosidade.


- Não vai achar nada relevante aqui - disse a ruiva, com uma risadinha. O lado Auror de Hermione devia estar pulsando de excitação. - Os papeis importantes ficam em outro lugar.


Ela não encontrou nada da cama, passou a remexer as vestes jogadas no chão. Talvez a máscara tivesse caído na noite anterior e estivesse embaixo de alguma delas, mas também não teve sorte. Entrou no banheiro e encontrou o que procurava sobre o armarinho da pia. Deixara ali enquanto se despia? Não se lembrava.


- Achei - anunciou, ao voltar para o quarto, segurando a máscara pelos buracos dos olhos. Hermione estava bisbilhotando a escrivaninha e assustou-se quando ela entrou, o que a fez sorrir. - Não tire nada de ordem ou ele vai achar que fui eu.


Hermione olhou-a com um brilho estranho nos olhos.


- O pessoal do departamento não vai acreditar que eu estive aqui quando eu contar - disse, ansiosa.


Ginny deu um sorriso de desculpas.


- Você não pode contar que esteve aqui. Exporia minha identidade assim, depois de tudo o que te contei? - disse ela, fazendo pose de vítima.


A Aurora riu.


- Desculpe, me esqueci. Mas é mesmo muito desperdício eu entrar aqui e sair de mãos vazias… Ainda mais com ajuda de alguém que tem acesso às áreas mais restritas, não é mesmo? - atiçou a outra.


O sorriso de Ginny entortou.


- Não me faça me sentir uma traidora. Não é legal o que estou fazendo, só que me preocupo demais com sua vida para deixar que se mate por aqui - respondeu ela, aproximando-se e colocando a máscara em sua mão. - A propósito, esse uniforme é só um empréstimo; não pense que vai ficar entrando aqui quando bem quiser.


Hermione colocou a máscara e olhou-se no espelho próximo à cama. Era verdade que o uniforme de Comensal da Morte disfarçava bem, pois quem não soubesse que a única mulher do grupo Cinco que usava máscara era ela própria não desconfiaria de Hermione, e não eram muitos que o sabiam. Dava para enganar por um dia.


A amiga se mirou de todos os ângulos.


- Essa faixa verde significa que posso entrar em todos os lugares, não é? - perguntou ela, em tom de quem não quer nada.


- Teoricamente - disse a ruiva, fazendo uma careta para a amiga. - Na prática são outros quinhentos. O grupo Cinco é tão pequeno que os residentes conhecem cada um só pelo jeito de andar, estejam de máscara ou não. É meio que um sistema de defesa, entende? Se sabem que é a Bellatrix eles já saem do caminho, se vêem que sou eu já ficam mais tranqüilos. Mas não se preocupe, por hoje é o bastante para você sair daqui sem levantar suspeitas. Principalmente porque o guarda do hall não vai te parar.


Isso deve ter trazido lembranças à amiga.


- A propósito, desde quando você usa as Maldições Imperdoáveis com essa destreza? - perguntou, referindo-se ao seu Imperius no guarda.


- Desde nunca - respondeu Ginny, fechando a cara. - Não preciso ficar fazendo essas coisas, meu trabalho é bem mais burocrático do que isso. Mas é bom saber, não? Considerando minha posição e os conhecimentos necessários para arquitetar planos… Muito útil. Mas nunca fui boa com a Avada Kedavra. Prefiro maldições mais… reversíveis.


- E posso deduzir que aprendeu essas coisas direto com seu chefe, certo? - disse Hermione, olhando-a severamente. - Se sua mãe descobre o que você andou fazendo nestes dois anos…


Ginny riu.


Mas seu riso travou na garganta muito rapidamente.


Havia passos e vozes no corredor. Passos e vozes altas… como quem comentava um acontecimento recente!


A garota não teve muito tempo para pensar. Segurou o braço da amiga com firmeza e atirou-a dentro do closet. Lançando-lhe um olhar breve, aterrorizado e significativo, fechou a porta ao mesmo tempo em que a que dava para o corredor se abria.


Ela virou-se. Ele fechou a porta devagar e olhou-a com um olhar interrogativo. Ginny evitou seus olhos, como sabia que deveria fazer - pouco tempo para Oclumencia agora.


Ele parecia cansado: seu rosto estava mais pálido que o natural, os cabelos grudados na testa suada e um filete de sangue escorrendo de um corte na sobrancelha. Respirava meio ofegante.


- Meu Deus, o que houve? - perguntou Ginny, sem precisar fingir muito para que a voz saísse espantada, antes que ele perguntasse o que ela fazia ali.


- Era uma emboscada - respondeu ele, quieto. Crispou os lábios e andou em sua direção. Ginny tentou não demonstrar sua inquietação frente aquilo, podia ter certeza que ele percebera alguma coisa de estranho.


Mas ele apenas atirou a capa sobre o baú, sentou-se na cama e apontou a varinha para os sapatos, que se descalçaram sozinhos. Então ele passou as mãos nos cabelos para afastá-los dos olhos.


- Foi fácil resgatar a maior parte do grupo, mas eles pegaram Craig e Anderson, e eles sabiam demais - disse ele, em voz baixa, tentando desabotoar a camisa.


- Você diz Fergus Anderson? - disse ela, sentindo um desconforto inexplicável. - Sabe que não gosto desse cara.


- Sei. Bom, depois que eu matei Craig, o soltaram, então tudo ficou mais simples - continuou ele, casualmente, embora a falta momentânea de coordenação motora começasse a irritá-lo.


Ginny aproximou-se e ajudou-o a despir a parte de cima da roupa, suspirando desaprovadoramente com a normalidade que ele comentava o fim que dera a um de seus Comensais mais preparados. Ela sabia que era preferível que morressem a serem capturados para interrogatório. Na opinião dela, porém, o outro merecia bem mais a morte, mas não ia discutir, mesmo porque chocou-se com o que viu abaixo da camisa: havia um hematoma irregular de uns trinta centímetros ao lado do peito, de aparência grave, como se tivesse focos de sangue coagulado por dentro da pele. Ela sentiu o terror de ter sido quase pega com Hermione Granger dentre de seu quarto se dissipar pela metade, o que foi substituído por preocupação por ele.


- Quem foi que fez isso? - perguntou ela, espantada.


Ele soltou o ar pelo nariz com impaciência antes de responder.


- Dumbledore.


Ela tocou a ferida com as pontas dos dedos.


- Então ele estava lá. - Ela tentou falar como se fosse novidade, mas não usou um tom interrogativo. Detectara o mau-humor no comportamento atual dele, que certamente responderia algo grosseiro se ela o fizesse. - O que mais?


- Harry Potter, para variar. Ele me fez esse - disse ele, apontando para a sobrancelha cortada.


- Hum... Ele errou o alvo se queria retribuir a cicatriz - brincou ela, em voz amena. Então inclinou-se para olhar melhor e tocou a região, fazendo-o apertar os olhos em uma careta de dor. - Você vai sobreviver, não é um corte muito fundo.


Ele fez um som de impaciência com a língua.


- Não me importaria se tivesse desfigurado meu rosto! Me importo porque ele me acertou!… - disse ele, ofendido.


Hermione devia estar rindo em silêncio dentro do closet enquanto ouvia. Ginny achou melhor não deixar que ele expusesse muito suas humilhações enquanto a outra estivesse ali.


Resolveu mudar de abordagem.


- Você devia tomar um banho. Vai ajudar a aliviar a dor. Eu acho que posso cuidar do corte, mas vou ter que ver com o pessoal do laboratório de poções a respeito desse hematoma - disse ela, gentilmente. - E se sentir-se melhor depois disso, pode me contar direito o que aconteceu.


Ele abriu os olhos e pegou a mão dela que estava em seu rosto. A ruiva esforçou-se para não olhar nos olhos dele enquanto ele a olhava e sentiu formigar a parede do estômago quando ele puxou-a para mais perto de si e beijou-a.


Definitivamente aquilo não era uma coisa que desejava que Hermione assistisse pelas frestas da porta de veneziana, mas sua experiência dizia muito claramente que não devia contrariá-lo quando ele agia assim.


Felizmente, ele pareceu se contentar só com o beijo.


- Hum, você acha melhor eu cancelar minha ida ao Beco Diagonal amanhã? - perguntou afastando-se lentamente, alto o suficiente para Hermione ouvir.


- Para que? - retrucou ele, mau-humorado, embora um meio sorriso divertido tivesse surgido em seus lábios. - Para ficar cuidado de mim como uma babá? Desculpe decepcioná-la, mas acho que já tive experiências o suficiente para conseguir lidar com isso sozinho.


Ela deu uma risada baixa.


- Desculpe se te ofendi, só estava tentando ser caridosa… À propósito, tive muitas idéias hoje para nossa festa. Eu te mostro depois. Mas acho que devia descansar se não tiver nada urgente para fazer.


Ele suspirou, cansado.


- Ótimo. Eu acho o banho uma ótima idéia - disse ele, soltando a mão dela. - Pode preparar minha banheira enquanto eu pego roupas limpas?


Ela quase ouviu as batidas do próprio coração depois que ele disse isso, mas controlou-se.


- Não seja bobo. É melhor você ir preparando o banho enquanto eu pego as roupas. Elas ficam mais em cima do que as torneiras e não é bom que faça esforços - falou ela, com firmeza, porém cuidadosa, raciocinando rapidamente. Ele hesitou por dois segundos, mas não encontrou motivos para desmerecer seu argumento e concordou com a cabeça.


Ginny acompanhou-o até o banheiro e certificou-se de que ele ficaria bem sentado na beira da banheira. Ele chamou-a antes que ela saísse do banheiro.


- Pode deixar as roupas limpas em cima da cama. Não acho que vou retomar o comando hoje. Vou deixar você se divertir com o poder até o final do dia. Se aparecer alguém querendo me ver, mande morrer - disse ele, calmamente.


- Que carinhoso - debochou ela, com um sorriso. - Bom descanso. Volto hoje à noite, está bem?


Ele assentiu com a cabeça e ela saiu do banheiro, encostando a porta.


Ginny entrou no closet e levou um dedo à frente dos lábios antes que Hermione pudesse ter qualquer reação. Então virou-se para as gavetas e começou a abri-las para fazer barulho. Pegou uma peça de roupa e ficou nas pontas dos pés para pegar uma toalha limpa. Fez sinal para a outra e ambas saíram do armário, Ginny deixou o que carregava sobre a cama e as duas apressaram-se para sair, Ginny encaixando a própria máscara no rosto.


- Essa foi por pouco - sussurrou Ginny, rapidamente, quando encontraram-se no corredor. Felizmente não havia mais ninguém ali. - Grande plano, boazona.


- Quem me levou direto para a toca do lobo foi você e não eu - reclamou Hermione, na defensiva.


- Não faria muita diferença se ele te encontrasse no quarto dele ou no meu - retrucou, impaciente. - Você ouviu o que eu disse sobre o Beco Diagonal, não? Estarei lá amanhã por volta das onze horas, no Gringotts. Você pode devolver meu uniforme lá se não quiser minha antipatia.


Hermione olhou para ela com o rosto branco de madeira sem expressão. Então deu um muxoxo.


- Vocês vão mesmo dar uma festa - disse-lhe, parecendo divertidamente incrédula. - Você não faz idéia das teorias do Ministério sobre aquele anúncio…!


Ginny riu brevemente. Ainda não pensara no quanto aquelas palavras no jornal poderiam ser interpretadas por quem via de fora.


- Às vezes ele tem idéias estranhas… Mas essa surpreendeu todo mundo - explicou a ruiva, com um meio sorriso.


- Imagino. Você vai escrever para o Profeta comentando isso também? - provocou a outra, com um humor contrariado.


Ela riu baixinho.


- Não sei, mas talvez eu conte a você! Não que eu vá me divertir agora que sei da novidade… - acrescentou Ginny, sentindo o ânimo minguar e o estômago girar. Estavam quase no hall e foi bom mudar o rumo dos pensamentos. - Vou apertar o passo. Desça até o hall e aparate. Não perca tempo e, principalmente, não seja pega. Não ia conseguir te salvar… Se não nos vermos amanhã, foi bom te ver.


- Foi bom te ver também - respondeu a Aurora, abrindo um sorriso por baixo da máscara.


Ginny piscou com um olho só e ultrapassou-a. Ela chegou ao topo da escadaria norte quando ouviu os passos de Hermione ecoarem no hall, e virou-se à tempo de ver a amiga desaparecendo.


Embora aliviada por nada de grave ter acontecido, Ginny sentiu um estranho vazio depois que despediu-se da outra. Era como se uma parte distante dela que aparecera para uma visita agradável, embora inesperada, mas que deixaria um amargo pesar depois de sua partida.


 


 


Sua ida ao Beco Diagonal foi bem mais tranqüila do que esperava. Naquela manhã, Jack se divertiu bastante transfigurando o rosto dela, o que significava que conseguira ficar irreconhecível, o que era bem mais útil do que usar uma Poção Polissuco. Teve que recusar a proposta de Jack de que ele fosse com ela, também disfarçado, só por precaução, mas chegou ao Leaky Cauldron bem morena, os cabelos curtos e crespos, alguns centímetros mais alta e uns dez anos mais velha. Encontrou Hermione na frente do Gringotts, como combinaram, e esta segurava uma sacola estufada, para seu alívio.


O dia foi agradável. Fazia algum tempo que não sentia o sol na pele nem o clima vivo das pessoas nas ruas, que arriscavam suas vidas em tempos como aqueles mas não deixavam de abrir seu comércio. Hermione lhe contava de coisas que haviam acontecido ali nos últimos dois anos, explicando a ausência de uma ou outra loja. Felizmente, Gemialidades Weasley continuava bem e próspera, como ela reparou quando passou na frente. Fred e George também pareciam intactos e bem, pelo que vira deles por trás da vitrine abarrotada de objetos esquisitos e coloridos.


A amiga também lhe contou sobre a conversa que tivera com Harry na noite anterior. Aparentemente nada que ela tivesse dito mudara a opinião dele sobre Ginny, mas ela não estava interessada - o simples fato de Hermione acreditar nela já era algo com o que se alegrar.


Ginny precisou de algumas horas para executar sua missão de escolher tecidos finos para a rouparia. Como não era boba nem nada, viu primeiro o que ia usar no próprio vestido. Certamente não haveria problemas se não economizasse neste… Escolheu um tafetá preto que tinha um brilho bonito, porque foi o mais próximo do que encontrou para o que planejara. Achou de bom grado comprar certa quantidade de cetim, tafetá e veludo de várias cores. Não exagerou nos brocados. Encomendou também caixas e caixas de linhas de bordado, botões e fechos variados. Hermione apenas observou com as sobrancelhas erguidas ela retirar o saco de moedas da bolsa e passar sobre o balcão depois de barganhar um pouco.


Foi divertido recusar a entrega que a loja de tecidos oferecia em casos de grande volume de mercadoria comprada. Como não podia dizer a mais ninguém para onde devia mandar as compras, ela mesma precisou ficar dando toques com a varinha nos rolos de tecido, que deviam estar aparecendo empilhados no hall naquele instante. Mas estava tão contente com aquela mudança de ares que não se importou com isso.


Dera mais algumas voltas na ruazinha torta e animada antes de se despedir de Hermione; não devia se demorar muito depois de ter feito a missão ou mandariam alguém atrás dela. Então deu um abraço na amiga, desejaram uma a outra se verem novamente, de preferência longe do campo de batalha e desaparatara.


O resto dos dias até a festa, porém, não foram tão prazerosos. O trabalho a fazer crescia a cada dia, e ela ainda precisava intercalar seu cargo de Comandante com a execução de seu vestido. Decidira que o tecido não era o suficiente para o que desejava, e começou a bordá-lo. O trabalho era muito mais rápido com a varinha, mas ainda era delicado e demorado.


Até lá trocou algumas cartas breves com Hermione, na surdina. O pessoal estava tão atarefado que ela não precisou fazer muitos malabarismos para não ser pega, mas mesmo assim se ocupou um evitar imprevistos, com feitiços codificadores e de lacre nos pergaminhos que mandou. Os que recebia também vinham disfarçados dentro de jornais.


Ginny precisou tomar alguns calmantes até que tudo estivesse pronto, o que não aconteceu até o dia da festa. Apesar de Tom ter se recuperado totalmente em dois dias e todo o grupo Cinco ter estado compenetrado em realizar aquilo, era enlouquecedora a proporção de coisas a fazer em relação às já feitas. A questão da banda foi decidida na penúltima semana e a limpeza do castelo custou três dias inteiros, entre paredes encardidas e tapeçarias empoeiradas.


Na véspera, porém, não pode deixar de notar que tudo pelo que vieram se esforçando tinha valido a pena. Basilisk Hall brilhava e a cozinha já estava em formação de guerra para começar a assar a comida; ela vira um ensaio da banda improvisada e achou bem aceitável, considerando que tocariam de graça; a decoração estava sendo terminada e a rouparia já havia entregado a última encomenda. Mas principalmente o fato de entrar no seu quarto e ver seu vestido pronto e glorioso sobre a cama fazia seu coração bater mais leve.


Felizmente não teve muito mais crises de náuseas; já devia ter passado daquela fase. Então pode, naquela noite, dormir uma noite inteira e tranqüila, sabendo que tudo tinha dado certo e que estava acabando o aperto. Pela primeira vez em semanas não acordou achando que estava na festa quando se dera conta de que havia algo faltando, como a mesa do buffet, a banda ou, o pior de todos, a parte de baixo de seu vestido. Quando acordou, às onze da manhã, encontrou pão com manteiga derretida e suco de maçã sobre sua escrivaninha, mas lhe pareceu o café-da-manhã mais rico de todos. Como todas as outras pessoas estariam fazendo, ela não almoçou. Teria bastantes oportunidades de comer durante a noite.


À medida que o dia corria, ela foi se sentindo cada vez mais ansiosa. Começou a seção de beleza algumas horas antes das oito. Precisava estar impecável. Gastou tempo no cabelo e nas unhas. Faltando quarenta minutos para as oito da noite, Ginny vestiu-se e preparou-se para a maquiagem.


Ginny já estava pronta quando ouviu a batida na porta. Deu uma olhada no espelho para ajeitar o cabelo e as vestes e, antes de sair, pegou sua máscara nova e colocou-a sobre o rosto. Teve que sorrir por trás dela – o resultado de seu trabalho era ótimo, certamente atrairia muitos olhares.


Usava um vestido longo de tafetá preto, bem justo e drapeado no torso, em contraste com a gola volumosa que deixava seus ombros à mostra, mas cobria o busto, e a saia cheia de camadas, também volumosa, sobre vários metros de véus e rendas brancos. O vestido era todo bordado com fios de prata – precisara de certa ajuda de elfos-domésticos nessa parte. Também usava uma luva preta longa que ia até depois dos cotovelos. A máscara branca e preta, trabalhada com arabescos, lhe proporcionava uma aparência estática, mas deva-lhe muito mais imponência do que as pretas comuns.


Para completar a atração total que imporia sobre todos, faltava apenas seu par.


Abriu a porta fazendo pose. Tom parecia bonito como sempre, embora um pouco mais arrumado em suas melhores roupas e cabelo preso, e olhou-a de cima a baixo, embora disfarçasse a admiração. Estendeu-lhe o braço com um sorriso estranho, que Ginny aceitou depois de fechar a porta. Basillisk Hall zunia de vozes vindas do Hall dois andares abaixo.


- Você está muito digna da posição que ocupa, GW – disse ele, quando começaram a tomar o caminho do Salão de Refeições.


- A de sua acompanhante na festa? – riu-se ela. – Claro que sim. Dediquei todo meu tempo livre para conseguir este efeito. Afinal, é muita responsabilidade, não é mesmo?


- Muita – concordou ele, divertido. – Sorte que sou o topo da hierarquia.


- O que tem a ver o topo da hierarquia? – perguntou ela, sorrindo, sem entender, enquanto desciam as escadas. Era uma conversa um tom de voz acima do sussurro, pois havia considerável número de pessoas ali pelos corredores.


- Assim você não me troca por ninguém. Depois de hoje, duvido que qualquer homem presente não a queira – respondeu ele, em voz ainda mais baixa.


Ela riu, e não podia dizer para si mesma que não gostara do galanteio.


- É impressão minha ou fui flertada? O que aconteceu com sua falta de educação habitual, meu senhor? – brincou Ginny, provocando.


- Não sei… Achei bom entrar no espírito da festa – respondeu ele calmamente, sem se incomodar com o comentário dela. – Acho que posso ser um cavalheiro por uma noite.


- Sei que pode – respondeu ela, alisando o braço dele devagar.


A trajetória até o salão foi satisfatória para Ginny; vários dos homens que já haviam chego a seguiram com o olhar (e disfarçavam rapidamente quando Tom olhava em suas direções) e inúmeras mulheres encararam-na com indisfarçada inveja.


Chegando ao hall, pararam ao pé da escada, observando as pessoas que chegavam aos montes, em trajes variados e exuberantes. Naquela noite, em especial, não era possível aparatar ali, apenas nos jardins, caso contrário haveria confusão. As pessoas que passavam por eles se reverenciavam - para seu desconforto -, e, apesar de seu par ser bem mais ilustre, demonstravam algum interesse por ela, pelo jeito como os olhos deles detinham-se nela por breves instantes antes de continuarem seu caminho.


Definitivamente, estava fazendo sucesso.


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Nota – Música: The Bondage Song, composta por Sean Brennan, da banda de metal alternativo/dark wave americana London After Midnight, versão preferida sem remix apresentada no álbum Psycho Magnet com o nome “99” (faixa secreta, segunda música). Essa curta canção é, na minha opinião, a canção mais Tom & Ginny de todas as canções já escritas!

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