Em menos de uma semana já tinha costurado seis vestidos. Teve que fazer uso de toda sua criatividade e habilidade para costurá-los, utilizando seu vestuário e sua imaginação em lugar de moldes. Destinava três horas na manhã e três horas à tarde para costurar. Á noite, quando ia para a cama, os olhos e os dedos doíam. Uma ou duas vezes, o cansaço a fez chorar até adormecer. A falta de seu pai ainda era muito recente e o local que a rodeava era extremamente inóspito.
Mas havia outros momentos, esses eram cada vez mais freqüentes, em que ia dormir com uma sensação de satisfação. Além dos vestidos, tinha feito uma linda cortina amarela para a janela e um jogo de toalhas para a mesa. Sonhava em comprar madeira para o assoalho, quando tivesse dinheiro suficiente. Enquanto isso, se alegrava com o que tinha e estava muito satisfeita com Hagrid.
O homem havia construído o estábulo novo e estava ocupado reparando os outros cobertos. Mesmo reclamando, prometeu fazer-lhe o galinheiro que ela tinha pedido. E à noite dormia com os cavalos.
Algumas vezes a observava quando praticava com o rifle.
Não havia visto Harry Potter desde o dia em que quase lhe dera um tiro. Dizia a si mesma que era melhor assim. Depois de tudo, ela não deveria ter mais nada a ver com ele.
Era um pistoleiro. Um homem sem lealdade ou moral. Um vagabundo que ia de cidade em cidade, sempre disposto a sacar a arma e matar. E pensar que havia chegado a pensar que havia algo de bom e amável nele! Tinha lhe ajudado, não podia negar. Mas provavelmente não tinha nada melhor para fazer. Recordou o seu beijo e pensou que talvez tivesse feito aquilo porque queria algo dela. E ela tinha que admitir que tinha ficado disposta a dar tudo o que ele pedisse.
Segurou o espelho e examinou seu rosto, não por vaidade, mas como se buscasse ali algumas respostas. Como era possível que aquele homem a fizesse sentir daquele jeito apenas em poucos dias, apenas com um abraço? Às noites ela acordava sonhando com ele, recordando uma vez mais aquele momento em que a boca masculina cobria a sua e ela não tinha nenhuma dúvida que era assim que tinha que ser.
Deixou o espelho na mesa e disse a si mesma que havia sido um momento de loucura. Nunca mais se sentiria atraída por um homem que vivia como Harry Potter.
Era hora de esquecer. Talvez ele tivesse partido e ela não voltaria a vê-lo, mas não se importava. Ela tinha a sua própria vida, e com a ajuda de Hermione, também uma profissão. Recolheu os três pacotes embrulhados em papel marrom, e saiu de casa.
-Está certa que não quer que eu a leve à cidade, srta. Weasley?
Gina deixou os vestidos na parte de traz da carroça e olhou para Hagrid.
-Não, obrigada.
Estava ciente que sua habilidade como condutora de charretes deixava muito a desejar, mas havia feito um trato por aquela charrete. O dono do estábulo tinha duas filhas e ela tinha feito dois vestidos em troca do carro. A jovem desejava levá-los pessoalmente. Sorriu para Hagrid.
-Esperava que começasse hoje o galinheiro. Vou ver se a sra. Miller me vendo umas galinhas novas.
-Sim – Hagrid movimentou os pés e limpou a garganta – Vai ser um dia quente e seco.
-Sim como todos. Estou levando uma garrafa com água, não se preocupe.
O homem esperou até que estivesse sentada na boleia.
-Tem uma coisa, srta. Weasley.
Gina segurou as rédeas, ansiosa para seguir.
-Sim, Hagrid. Do que se trata?
-O meu whisky acabou.
A jovem ergueu as sobrancelhas.
-E?
-Bem, já que vai à cidade, pensei que pudesse me trazer uma garrafa.
-Eu? Não pode esperar que eu vá comprar whisky.
Ele tinha imaginado que ela diria algo assim.
-Talvez pudesse pedir a alguém para comprar uma garrafa. Eu lhe agradeceria muito.
Gina abriu a boca disposta a passar-lhe um sermão sobre os malefícios da bebida, mas voltou a fechá-la de novo. Aquele homem trabalhava dura em troca de muito pouco e ela não lhe faria um sermão, pois ele ficaria uma fera.
-Vou ver o que posso fazer – disse.
O rosto de Hagrid se iluminou de imediato.
-Você é muito amável, srta. Agora mesmo começarei a fazer o galinheiro. Esta muito bonita hoje, a senhorita parece um quadro.
Gina sorriu. Se alguém tivesse dito a uma semana que chegaria a gostar tanto de um homem bêbado e malcheiroso como Hagrid, ela o chamaria de louco.
-Obrigada. Tem frango e pão fresco na cozinha- disse pondo-se a caminho.
Havia se vestido cuidadosamente para ir à cidade. Se queria que as mulheres lhe encomendassem vestidos bonitos, o melhor era fazer propaganda. Usava um vestido verde de decote alto, enfeitado com seu camafeu. O laço de fita rosa e a fileira de enfeites na saia, davam um aspecto mais descontraído. Completou com uma sombrinha combinando e se sentiu encantada com a sua escolha quando suas jovens clientes saíram correndo do estábulo para admirá-la.
-Gina!. Hermione saiu de traz da vitrine e segurou as mãos dela nas suas. –Que vestido maravilhoso! Todas as mulheres da cidade vão querer um igual.
-Eu o coloquei para tentá-las – ela sorriu – É um dos meus favoritos.
-Não duvido. Está tudo bem? Faz dias que não consigo sair daqui.
-Está tudo bem. Não tive mais problemas – Se aproximou para observar alguns rolos de tecido – Estou certa que foi apenas um acidente isolado. Como disse o xerife, podem ter sido vagabundos.
Olhou por cima do ombro e sorriu.
-Olá, Sra. Granger – cumprimentou a mãe de Hermione, que saia do armazém.
-Gina, que bom ver você. Está muito bonita.
-Obrigada, trouxe o seu vestido.
-Nossa, você trabalhou depressa.
Anne Granger segurou o pacote e voltou imediatamente para casa.
-Não quero receber até que veja se gosta dele.
Anne sorriu.
-Um bom modo de fazer negócios. Meu Edi diria que tem boa cabeça sobre os ombros. Vamos vê-lo,então.
Abriu o pacote e duas de suas clientes se aproximaram para olhar.
-É lindo, Gina. – exclamou Anne.
Segurou o vestido na frente dela para vê-lo melhor. Era cinza, adequado para ser usado atrás do balcão, mas muito feminino, com enfeites no colo e nas mangas.
-Deus meu, querida! Tem uma ótima mão com as agulhas – Saiu detrás do balcão para que as suas clientes pudessem vê-lo – Olhe este trabalho Sra. Miller. Juro que não verá nada melhor.
Hermione se voltou sorridente para Gina.
-Antes de um minuto vai conseguir-lhe umas dez clientes – ela sussurrou em seu ouvido – Papai sempre diz que mamãe podia vender botas novas a um homem sem pernas.
-Aqui está, Gina – Anne lhe deu o dinheiro – Vale o preço, sem dúvida.
-Srta – A senhora Miller examinou melhor as costuras do vestido novo – No próximo mês vou visitar minha irmã em Kansas City. Acho que um vestido desse mesmo tecido ma cairia bem.
-Oh, sim senhora – Gina concordou, mas pensou que não havia muitas coisas que favoreceriam a volumosa sra. Milller – A senhora tem bom gosto para cores. Este tecido bordado em roxo lhe ficaria muito bem.
Quando tudo terminou, Gina tinha mais três pedidos e vários rolos de tecido. Hermione a acompanhou até a porta.
-Não sei como convenceu a sra. Miller a lhe fazer pedidos .
-Quer impressionar sua irmã. Terei que me assegurar que consiga.
-Não será fácil, tendo em conta o pouco tempo que tem para isso. E ainda lhe pediu muito por essas galinhas.
-Isso não importa - sorriu Gina – Eu lhe pedirei bastante pelos vestidos. Tem tempo para um passeio comigo? Vou ver se a Sra. McConagall gosta desse tecido de listas brancas e azuis.
Começaram a andar. Um passos adiante e Hermione segurou as saias para colocar-se de lado. Gina observou a mulher escultural que se aproximava. Nunca em sua vida havia visto um cabelo daquela cor. Brilhava como as esculturas de bronze do seu colégio. O vestido azul de seda que usava era bastante ousado no corte, e o decote muito baixo para o dia. Os seios brancos e suaves se insinuavam por ele, o esquerdo era adornado por um pinta que fazia par com outra localizada nas bordas dos seus lábios vermelhos. Segurava uma sombrinha e caminhava movendo desavergonhadamente os quadris.
Ao chegar perto de Gina, parou olhou-a de cima abaixo antes de prosseguir.
-Meu Deus!
-Era Cho. A dona de A Estrela de Prata.
-Parece ....extraordinária
-Bem, é uma .. você sabe.
-Uma o que?
-Uma mulher de má reputação – sussurrou Hermione.
-Oh! – Gina abriu muito os olhos. Lógico que havia ouvido falar de mulheres assim, mas nunca havia cruzado com nenhuma. – Oh, me pergunto porque me olhou daquele jeito.
-Provavelmente porque Harry Potter esteve em sua casa algumas vezes. É um dos seus homens favoritos.
Fechou a boca. Se sua mãe ouvisse ela falar daquele modo, lhe esfolaria viva.
-Deveria ter adivinhado – Gina começou a andar novamente, sem saber porque tinha tanta vontade de chorar.
A senhora McConagall a recebeu com prazer. Não só porque havia mais de um ano que não tinha um vestido novo, como também estava decidida a saber mais sobre a mulher que tinha alterado Harry daquele modo.
-Pensei que talvez gostasse deste tecido listrado, sra McGonagall
-Não é feio – Minerva tocou o algodão com sua mão enrijecida – Não duvido que possa cair bem. Meu primeiro marido, Michael Bailey, gostava de vestidos bonitos. Morreu muito jovem. Bebeu demais e errou de cavalo. Antes que se recuperasse da bebedeira, tinham-no pendurado pelo pescoço.
Gina, que não sabia o que respondeu, murmurou um som inaudível.
-Estou certa de que as cores lhe ficarão bem;
Minerva gargalhou.
-Mocinha, já não tenho mais idade para adulações. Já enterrei dois maridos. O senhor McConagall, que Deus o tenha em sua glória, foi alvejado por um raio em 63. O bom Deus nem sempre protege os tolos e os bêbados, sabe? Depois de tudo não penso em encarregar-me de outro. A única razão que uma mulher se veste bem é para atrair um homem ou para segurar o seu – olhou atentamente para Gina – Mas você está muito bonita hoje.
A jovem sorriu, disposta a aceitar o comentário como um cumprimento.
-Obrigada, se preferir outra estampa, posso...
-Gina pode fazer-lhe um vestido prático, sra McConagall – interveio Hermione – Minha mãe está encantada com o seu. A sra Miller já encomendou dois para sua viagem a Kansas City.
-Verdade? –Minerva sabia o quanto a Sra. Miller era chata – Suponho que não seria mal um vestido novo. Mas nada muito elegante, certo.? Não quero que meus hóspedes comecem a ter idéias erradas – sorriu.
-Se um homem tivesse algum interesse em você, Minerva, perderia todo ele quando provasse um prato do seu ensopado.
Gina estremeceu ao ouvir a voz de Harry. Se voltou vagarosamente. O homem estava na metade das escadas.
-Alguns homens buscam mais do que um prato de ensopado numa mulher - replicou Minerva, sorridente – Vocês, senhoritas, devem ter cuidado com um homem que sorri deste modo. – acrescentou indicando Harry – Eu sei o que é isso, me casei com dois.
Enquanto falava observava o modo que Harry e Gina se olhavam. Decidiu que ali havia rastro de fogo e não se importaria em atiçá-lo um pouco.
-Hermione, toda essa conversa sobre comida, me lembrou que eu preciso de mais dez quilos de farinha. Traga-me correndo. Diga a sua mãe que ponha em minha conta.
-Eu também estou indo, sra McConagall.
-Espere um momento, lá em cima eu tenho um vestido que poderá usar como molde. Também precisa de uns remendos. Eu não me dou bem com agulhas. Hermione, também preciso de alguns quilos de café. Vá agora.
-Só demoro um segundo- prometeu Hermione, saindo.
Minerva encantada com suas manobras, começou a subir as escadas.
-Você é tão sutil como um tiro no peito – murmurou Harry para ela.
Com o tecido nas mãos, Gina observou Harry se aproximar dela. Ele a olhava de um modo que fazia com que seus joelhos tremessem. Prometeu a si mesma, que se ele a tocasse, lhe daria uma bofetada que jogaria o chapéu dele no chão.
Harry havia sonhado em tocá-la, jogá-la ao chão e enterrar-se nela. Ao vê-la naquele momento tão bonita quanto uma flor, lembrou a si mesmo que aquilo só podia ser um sonho. Mas supôs que não tinha motivos para não enervá-la um pouco.
-Bom dia duquesa. Veio me ver?
-Lógico que não.
Ele gostou do brilho dos olhos dela. Roçou com a ponta do dedo o tecido que ela tinha nas mãos e notou que ela ficava tensa.
-É bonito, mas eu gosto muito mais do vestido que você usa.
-Não é para mim. A Sra. McConagall me disse que queria um vestido.
-Então você também costura – olhou nos olhos dela – È cheia de surpresas.
-É um modo honrado de ganhar a vida – A jovem olhou deliberadamente para as armas dele – É uma lástima que nem todos possam dizer o mesmo.
O homem a olhou com uma mistura de dor e frieza que fez com que ela sentisse vontade de consolá-lo
-Vejo que falaram de mim – disse – Sou um homem perigoso, Gina – Segurou seu queixo para obrigá-la a olhar nos olhos dele. Saco um revolver e deixo viúvas e órfãos. O cheiro da pólvora e da morte me segue em toda parte. Tenho sangue apache nas veias, assim não gosto de matar como fazem os homens brancos. Eu atiro num homem do mesmo modo que um lobo nos corta a garganta. Porque nasceu para isso. Uma mulher como você fará bem se manter distância de mim.
A jovem percebeu que havia raiva em sua voz, mas também frustração. Antes que pudesse chegar a porta, ela o deteve.
-Sr. Potter, Sr. Potter, por favor – segurou as saias e saiu atrás dele – Harry.
Ele confuso se deteve e voltou-se quando ela cruzava a porta.
-Será melhor esperar Minerva ai dentro.
-Espere, por favor – pôs a mão no braço dele – Não compreendo o que faz ou o que é, mas me ajudou muito. Não me diga para esquecê-lo, por que não esquecerei.
-Você tem um talento especial para confundir os homens.
-Eu não pretendo...
-Não suponho que não. Quer dizer mais alguma coisa?
-Para dizer a verdade, eu...
Se interrompeu ao ouvir um tiroteio no edifício ao lado. Olhou naquela direção e viu um homem sendo atirado pela porta e aterrissar num monte de terra. Gina começou a andar até ele e Harry se colocou no caminho.
-Que acha que está fazendo?
-O homem pode estar ferido.
-Está bêbado demais para estar ferido.
Gina olhou para o homem com os olhos muito abertos.
-Mas é meio dia.
-É tão fácil embebedar-se de dia como de noite.
A jovem apertou os lábios.
-É tão ruim quanto - comentou. Lembrou-se do whisky que prometeu a Hagrid – Será que posso lhe pedir outro favor?
-Pode pedir.
-Preciso de uma garrafa de whisky.
Harry tirou o chapéu, arrumou o cabelo, voltou a colocar o chapéu.
-Eu pensava que não gostasse.
-Não é para mim, é para Hagrid – enfiou a mão na bolsa – Não sei quanto custa.
-A Hagrid dão crédito, não se preocupe. Volte a entrar – disse-lhe, desaparecendo pelo salão.
-Isso é que é um homem, não?
Gina levou a mão ao peito.
-Sra. McConagall, me assustou.
Minerva saiu sorridente.
-Estava pensando em outra coisa – estendeu-lhe um pacote – Harry é atraente, tem as costas fortes, boas mãos. Uma mulher dificilmente pode pedir mais. Você não tem noivo no leste, certo?
-Que? – Gina distraída, se aproximou mais do bar. Odiava ter que admitir, mas estava com vontade de ver como era lá dentro. – Oh, não, pelo menos ninguém com quem eu queira me casar.
-Uma mulher pronta, sabe como fazer para que um homem se case e pense que a idéia foi dele. Olhe Harry por exemplo...
Interrompeu-se. Dois homens saíram do bar e rodearam a rua sem deixar de se bater.
-Deus meu! – Gina observava a luta.
-Pensei ter dito para entrar em casa – disse Harry, saindo por sua vez do bar com uma garrafa de whisky na mão.
-Eu só...Oh!- viu um dos homens sangrar pelo nariz. – Isto é terrível. Tem que detê-los.
-Nada disso. Onde está sua charrete?
-Mas tem que fazer alguma coisa – insistiu ela – Não pode ficar ai parado vendo dois homens brigando deste modo.
--Duquesa, se eu tentar intervir, eles vão começara a bater em mim - entregou-lhe a garrafa – Eu não gosto de matar ninguém.
Gina colocou a garrafa e o pacote nas mãos dele.
-Neste caso eu mesma vou intervir.
-Seria uma tragédia perder alguns dentes tão bonitos.
Gina olhou-o com desdém, abaixou-se e pegou a escarradeira que Minerva tinha perto da porta.
Segurando as saias numa mão e a arma na outra, avançou até o centro da luta.
-É uma mulher especial – sorriu Minerva – tem garra.
-Vá colocara água no seu ensopado.
A mulher começou a rir.
-E também tem você. Espero estar aqui quando você se der conta.
Gina se aproximou dos homens. Ambos grunhiam e se xingavam enquanto continuavam a dar socos. Os dois fediam a suor e whisky. A jovem se afastou um pouco para fazer pontaria e em seguida atingiu a cabeça de um e depois do outro com a escarradeira. Uma gargalhada se fez ouvir de dentro do bar. Gina ignorou as risadas e olhou para os dois homens que a olhavam, passando a mão pelas cabeças.
-Deveriam se envergonhar – disse para eles – Brigando pela rua como dois cachorros. A única coisa que irão conseguir é encher a cara de sangue e dar um espetáculo. Ponham-se em pé! – os dois homens pegaram seus chapéus e obedeceram – Estou certa que podem resolver suas diferenças de outro modo.
Satisfeita, inclinou a cabeça com educação e voltou para o lado de Harry e Minerva.
-Pronto – estendeu a escarradeira para sua dona e olhou para Harry com um sorriso de satisfação. – Era só uma questão de chamar a atenção deles e fazer-lhes voltar a razão.
Harry olhou por cima dela: os dois homens tinham voltado a brigar no chão.
-Sim, senhora – segurou o braço dela e começou a subir a rua antes que ela decidisse intervir de novo. – Aprendeu a bater assim naquela sua escola elegante?
-Tive chance de observar a técnica das freiras para terminar com as brigas.
-Alguma vez lhe bateram com uma escarradeira na cabeça?
A jovem moveu a cabeça, sorridente.
-Não, mas sei o que é uma reguada na cabeça.
Ao chegar à charrete, olhou para dentro da loja e viu Hermione flertando com um homem de cabelo e botas brilhantes.
-É Rony Prewett?
-Sim.
-Creio de Hermione gosta dele.
Reprimiu um suspiro. Naquele momento o amor estava tão longe da sua vida quanto a linda casa que seu pai havia construído na sua imaginação. Se voltou e tropeçou com o peito de Harry. O homem levantou as mãos para evitar que caísse, e depois a deixou sobre os braços dela.
-Tem que olhar para onde vai.
-Sempre faço – respondeu ela.
Pensou que ele a beijaria ali mesmo, no meio da cidade. Estava certa e sentia isso.
Harry queria beijá-la. Queria ficar cinco minutos sozinho com ela, mesmo sabendo que seria inútil, aquilo não tinha sentido.
-Gina...
-Bom dia, Harry.
Cho se aproximou da charrete, rodando a sua sombrinha, com uma mão. Ignorou o olhar de advertência que ele lhe dirigiu e voltou sua atenção para Gina. Olhou-a de cima a baixo, sorridente e decidiu que era bastante comum. Harry se cansaria dela em uma semana. Mas enquanto isso, poderia ser um prazer aborrecê-la.
-Não vai me apresentar sua amiga?
Harry ignorou sua pergunta e segurou o braço de Gina para ajudá-la a subir na charrete.
Gina decidiu que não ia deixar que aquela mulher risse às suas costas.
-Sou Gina Weasley. – disse.
Não lhe ofereceu a mão apenas se limitou a acenar com a cabeça com uma atitude que foi tão insultante como o olhar desdenhoso de Cho.
-Sei bem que é você – sorriu a outra – Conheci seu pai. Conheci-o muito bem.
Sorriu encantada quando o golpe surtiu o efeito desejado. Mas quando voltou os olhos para Harry, a maior parte do prazer que sentia se evaporou. Havia visto olhar daquele jeito para os homens que estava a ponto de matar. Moveu a cabeça e se afastou, decidindo que ele logo voltaria para ela. Os homens sempre voltavam.
Harry voltou a segurar o braço de Gina, para ajudá-la, mas ela se afastou dele, brusca.
-Não toque em mim.
Se voltou e segurou as bordas da charrete até recuperar as forças. Todas as suas ilusões tinham se despedaçado. A idéia que seu pai pudesse ter estado com uma mulher daquele tipo era mais do que podia suportar.
Harry havia preferido partir, dar a volta e se afastar. Aborrecido, colocou as mãos nos bolsos.
-Deixe-me ajudá-la a subir nesta maldita charrete, Gina.
-Não quero sua ajuda, - se voltou para ele – Não quero nada de você, entende?
-Não, mas suponho que não tenho que compreender.
-Você a beija do mesmo modo que me beijou? Pensa em mim do mesmo modo que pensa nela e nas mulheres da classe dela?
O homem estendeu a mão para impedi-la de subir na charrete.
-Quando a beijei, não pensei em nada. Este foi o meu grande erro.
-Srta Weasley - Draco Malfoy parou seu cavalo ao lado da charrete – Está com algum problema?
-Não.
Gina se colocou instintivamente entre os dois homens. O revolver de Malfoy tinha um cabo de marfim e parecia mortal debaixo do seu paletó de brocado prateado. Já não a escandalizava pensar que mesmo homem tão educado quanto ele não hesitaria em usar a arma.
-O Sr. Potter tem me ajudado muito desde que cheguei aqui.
-Ouvi que teve problemas.
Gina notou que os homens se encaravam com desafio.
-Sim, mas ainda bem que não tive grandes perdas.
-Fico contente em ouvir – Malfoy se voltou para ela – Veio sozinha à cidade, srta Weasley?
-Sim e para dizer a verdade já está na hora de voltar.
-Agradeceria muito se me deixasse acompanhá-la. É um caminho muito longo para uma mulher sozinha.
-O Sr. é muito amável, Sr. Malfoy, não quero atrapalhá-lo.
-Não me atrapalharia – segurou o braço dela e ajudou-a a subir – Pensava em ir até sua casa para cumprimentá-la. Seria um favor permitir me acompanhar.
A jovem estava a ponto de recusar quando olhou para Harry. Seus olhos espelhavam uma frieza absoluta. Não pode evitar pensar que olhava para Cho de forma diferente.
-Ficaria encantada - disse. Esperou que Malfoy prendesse seu cavalo à traseira da charrete – Bom dia Sr. Potter.
A maior parte do caminho não falaram nada importante, o clima, música, teatro. Gina pensou que era um prazer poder passar uma ou duas horas na companhia de um homem que entendia de arte e apreciava a beleza.
-Espero que não se ofenda se eu lhe der um conselho, srta. Weasley.
-Os conselhos são sempre bem vindos- sorriu ela – Mesmo que não se siga.
-Espero que siga o meu. Harry Potter é um homem perigoso, o tipo de homem que sempre cria problemas aos que o cercam. Afaste-se dele para seu próprio bem, senhorita.
A jovem não disse nada por um momento, surpresa pela força da raiva que havia naquelas palavras. Depois de tudo, Malfoy não havia dito mais que a verdade e nada que ela já não tivesse dito a si mesma.
-Eu agradeço a sua preocupação.
-Mas não seguirá meu conselho – murmurou ele.
-Não acho que seja necessário. É improvável que eu volte a ver o Sr. Potter, agora que estou instalada.
Malfoy balançou a cabeça e sorriu.
-Eu a ofendi.
-Em absoluto. Compreendo o que sente pelo Sr. Potter. Estou certa que a briga entre seu irmão e ele foi terrível para o senhor.
Malfoy apertou os lábios.
-Ainda me dói dizer que Blás procurou por aquilo. Era jovem e valente. Potter é outra questão, vive do seu revolver e de sua reputação.
-Isso me parece uma vida muito pobre.
-Agora acho que tem pena dele. Não era essa minha intenção – tocou a mão dela gentilmente - Você é uma mulher muito bonita e sensível. Não quero vê-la sofrer.
-Obrigada, mas eu lhe asseguro que aprendo depressa a me cuidar sozinha.
Quando entraram na propriedade de Gina, o cachorro se aproximou correndo e latindo.
-Ele cresceu, - comentou o homem, quando o cachorro se aproximou para lhe morder o tornozelo.
-Quieto, vamos.
Latiffe grunhiu ao ver Malfoy ajudar Gina a descer da charrete.
-Acho que será um cachorro de guarda excelente. E graças a Deus se deu bem com Hagrid. Gostaria de um café?
-Adoraria – uma vez dentro da casa, o homem olhou ao redor – É difícil imaginá-la num lugar assim. Combinaria muito mais com um quarto com papel de parede e cortinas de seda azul.
A jovem começou a rir e pôs a cafeteira no fogo.
-Acho que ainda vai demorar para eu colocar papel nas paredes e as cortinas, antes preciso de um chão de verdade. Sente-se, por favor.
Pegou os biscoitos na prateleira que havia preparado uns dias atrás. Ela gostou de poder oferecer-lhe
-Deve ser uma vida muito solitária para você.
-Não tenho tido tempo de me sentir sozinha, ainda que admita que não é a vida que eu esperava.
-É uma lástima que seu pai nunca tivesse encontrado ouro na mina.
-Dava esperança a ele – pensou no diário que estava lendo – Era um homem que necessitava mais de esperança do que de comida.
-Nisso tem razão – bebeu um gole de café que ela havia servido – Sabe me ofereci para comprar-lhe este lugar.
-Verdade? –Gina se sentou em frente a ele – Por que?
-Razões sentimentais – sorriu envergonhado – É uma coisa boba. Meu avô era dono da mina. A perdeu numa partida de pocker e sempre se recordava com desgosto - voltou a sorrir e provou um dos biscoitos. Lógico que tinha o rancho. Mil e duzentos acres, com a melhor água que se pode encontrar por aqui, mas lamentou a perda da mina até o dia da sua morte.
-Deve haver algo aqui que atrai as pessoas. Meu pai sentia o mesmo.
-Arthur comprou do jogador e começou a cavar. Sempre acreditou que encontraria um veio bom, mas não creio que exista. Quando morreu meu avô, eu me prometi que faria tudo para devolver a propriedade a família. Uma espécie de tributo. Mas Arthur não quis vender.
-Tinha um sonho – murmurou Gina – E no final o sonho o matou.
-Sinto que tenha feito você sofrer novamente. Não era minha intenção
-Não é nada. Mas acho que fiz muito pouco. Acho que sempre será assim.
-Talvez não seja bom ficar aqui tão perto de onde ele morreu.
-É o único lugar que tenho.
Malfoy lhe deu uma palmadinha na mão.
-Como lhe disse, você é uma mulher sensível. Eu estava disposto a comprar esse lugar do seu pai e estou disposto a comprar de você, se quiser vendê-la.
-Vendê-la – perguntou ela surpresa – É muito generoso da sua parte, senhor Malfoy.
-Gostaria que me chamasse de Draco.
-É muito generoso e muito amável, Draco – se aproximou da janela e olhou para fora – Mas acho que não estou pronta para deixar esse lugar.
-Não é necessário decidir agora. – se levantou e colocou a mão no ombro dela, com gentileza.
-Foi difícil me adaptar aqui. Contudo, sinto que não posso partir, que se eu fizer isso estarei abandonando meu pai.
-Eu sei bem o que é perder alguém da família. Precisa de tempo para recuperar-se – virou-a para ele. – Posso dizer que conhecia Arthur bastante para estar certo que ele queria o melhor para você. Se decidir que quer ir, só precisa me dizer. Deixarei a oferta em aberto.
-Obrigada.
Olhou para ele, Malfoy segurou-lhe as mãos e levou-a aos lábios.
-Quero ajudá-la Gina. Espero que me deixe ajudá-la.
-Srta. Weasley?
A jovem se sobressaltou e depois suspirou ao ver Hagrid no umbral da porta.
-Sim?
O homem olhou para Malfoy e em seguida voltou a cabeça para cuspir.
-Quer que eu guarde os cavalos?
-Por favor.
Hagrid ficou onde estava.
-Que faço com o outro cavalo?
-Estou indo. Obrigada pela companhia, Gina.
-Foi um prazer.
Quando saiu, Malfoy colocou o chapéu.
-Espero poder voltar.
-Lógico. Adeus, Draco.
Esperou que ele se afastasse para se dirigir a Hagrid.
-Foi muito grosseiro com ele.
-Se a senhorita diz...
-Eu digo sim. O sr. Malfoy teve a amabilidade de acompanhar-me desde a cidade, e você olhou para ele como se quisesse dar um tiro na cabeça dele.
-É possível.
-Por que, pelo amor de Deus?
-Algumas serpentes não usam guizos.
A jovem levantou os olhos para o céu e decidiu não perguntar mais nada. Em vez disso tirou a garrafa da charrete e viu os olhos de Hagrid se iluminarem.
-Se quiser isto, tire a camisa.
O homem olhou para ela com a boca aberta.
-Como disse, senhorita?
-E as calças também. Quero que tire agora mesmo.
Hagrid tocou o lenço que levava no pescoço.
-Posso perguntar porque quer que eu faça isso?
-Vou lavar a sua roupa. Tolerei seu cheiro por muito tempo. Enquanto eu lavo as roupas, você pode se lavar com o sabão que comprei na cidade.
-Vamos. Senhorita, eu...
-Quando estiver limpo, e só quando estiver limpo, eu lhe darei esta garrafa. Pegue um balde de água e o sabão, entre no estábulo. Deixe a roupa para fora.
Hagrid a olhou inseguro.
-E se não fizer?
-Atirarei o conteúdo da garrafa na terra.
O homem colocou a mão no peito e a viu afastar-se. Tinha um medo mortal que ela cumprisse a palavra.