FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout  
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout FeB Bordas para criar o Layout
FeB Bordas para criar o Layout
 

(Pesquisar fics e autores/leitores)

 


 

ATENÇÃO: Esta fic pode conter linguagem e conteúdo inapropriados para menores de idade então o leitor está concordando com os termos descritos.

::Menu da Fic::

Primeiro Capítulo :: Próximo Capítulo :: Capítulo Anterior :: Último Capítulo


Capítulo muito poluído com formatação? Tente a versão clean aqui.


______________________________
Visualizando o capítulo:

2. Do Outro Lado


Fic: O Filho das Trevas - reescrita


Fonte: 10 12 14 16 18 20
______________________________

- Do Outro Lado -


 


“I still remember the world


From the eyes of a child


Slowly those feelings were


Clouded by what I know now


 


Where has my heart gone?


An uneven trade for the real world”


 


Field of Innocence, Evanescence


 


I


 


Ginny abriu os olhos. O dossel da cama, vermelho vinho, formava leves dobras onde seu olhar recaía, e contrastava com o lençol branco. O tempo estava fresco e já era de manhã. Não queria se levantar, pois sabia que estava frio além do edredom, apesar de estarem no verão. O castelo todo era frio o ano inteiro.


Tomando coragem, virou-se de barriga para cima. Ele se mexeu e passou um braço ao redor dela. Ginny parou, sentindo a coragem minguar. Virou-se um pouco e passou a mão pelos cabelos dele.


- Já está na hora – sussurrou ela, ao seu ouvido, depois de dar-lhe um beijo ocioso no rosto. Ele se fingiu de desentendido e enfiou a cara no travesseiro, mas soltou-a. Com um sorriso leve, ela se levantou.


Tinha razão, estava frio fora das cobertas. Apanhou seu robe ao lado da cama e vestiu-o enquanto se dirigia ao banheiro. Abriu as torneiras da banheira, sonolenta, e então foi pegar uma toalha limpa e mudas de roupas novas. Aproveitou para checar se a porta estava trancada, o que confirmou. Sabia que ele não era descuidado, mas mesmo assim não custava nada se precaver.


Escovou os dentes. A face que encarou no espelho sobre a pia era mais madura e mais sombria do que a que a encrava dois anos atrás. Seus cabelos agora chegavam aos cotovelos, lisos e sem franjas, e as raras oportunidades que tinha de tomar sol a deixaram mais branca. As sardas que cobriam seu rosto no auge da adolescência agora eram pouco visíveis e mais concentradas sobre as maçãs do rosto e do nariz. Também perdera um pouco de peso, mas a diferença era discreta no rosto. A maquiagem que se acostumara a usar para ficar mais apresentável quando estava de máscara estava borrada e deixava quase sempre suas pálpebras com uma tonalidade escura. Nada que não saísse com um punhado de água morna e sabonete, que era o que ela iria fazer dentro de instantes.


Devia ser quase sete horas da manhã, de acordo com a luz que entrava pela janelinha do banheiro. Ela prendeu os cabelos espetando-lhes a varinha, foi até a banheira e fechou as torneiras. A água estava numa temperatura ótima e foi relaxante mergulhar no líquido quente e espumante.


As últimas duas semanas tinham sido um sufoco! Era bom poder respirar em paz novamente. O melhor de tudo é que gozava de ótima reputação depois do último trabalho, pois fora perfeito. Conseguira colocar três Comensais da Morte dentro do Gringotts sem que os duendes percebessem, o que significava que os fundos da Ordem das Trevas estavam bem mais polpudos. Não que geralmente pagassem pelo que compravam, mas um dinheiro considerável era gasto por ano entre subornos e agrados à pessoas de interesse, por motivos políticos. Alianças internacionais também pretendiam um pouco de verba. Sem contar que gente como ela, anônima e sem levantar suspeitas, tinha direito à uns trocados por mês para gastar com o que quisesse. Além disso, o grupo que ela estava agora precisava estar bem informado, e tinha gastos em assinaturas de jornais e revistas. O resto era feito no castelo mesmo, por mágica e pelos elfos-domésticos.


Era estranho pensar em dinheiro naquela situação. Ela vivia bem com poucos galeões no bolso, mas não tinha muita certeza se os Malfoy ou os Lestrange se sentiam do mesmo modo. Não que Basilisk Hall fosse desconfortável, mas eles tinham sido obrigados a abandonar tudo – casa, móveis, dinheiro – quando precisaram fugir do Ministério. Talvez os Lestrange nem tanto, depois de terem passado uma temporada em Azkaban, mas os Malfoy talvez ainda sentissem o desgosto de não estarem morando em sua mansão. Bom, parte do embate ela resolvera fazia dois dias: todo o dinheiro das duas famílias agora não estava mais trancafiado no Gringotts, e sim ali, bem nas mãos deles.


Quanto à Voldemort, ele nunca precisara de dinheiro para conseguir o que queria, o que significava que nunca juntara uma pilha de nuques na vida. O castelo era dele, mas era meio que uma herança no estilo da Câmara Secreta. E era só. Ginny fizera dezenas de roupas para ele enquanto trabalhava na rouparia, quando estava no grupo Dois. Nem roupas ele comprava – pelo menos não quando podia mandar um subordinado fazer.


Era engraçado se lembrar do grupo Dois. Fora o segundo por onde passara e parecia que fazia muitos anos. O primeiro fora o grupo Nove, no dia seguinte em que assinara seu contrato. Recebera a tal carta de instruções, onde explicava que havia nove grupos por onde os Comensais eram divididos, sendo o mais importante o grupo Cinco. Além dele, a importância de cada grupo ia decaindo, ou seja, logo após o Cinco, os mais importantes eram o Quatro e Seis, depois o Três e Sete, seguidos pelo Dois e Oito e, por fim, pelo Um e Nove. Quanto mais perto das extremidades, maiores e menos especializados eram os grupos. Aos quatro menos importantes cabiam funções de manutenção, como arrecadar fundos, saquear alimentos, tecidos e materiais em geral, aliciar pessoas e fazer guardas e escoltas.


Quando Ginny passara pelo grupo Nove, sua função era saquear cargas de mercadores em vassouras. Com um mês de serviço ela conseguira resgatar dois caixotes de macarrão de se espatifar no chão enquanto seus colegas duelavam com o dono da carga, e sua perícia em vôo lhe rendera uma promoção. E então fora para o grupo Dois e ficara com um cargo na rouparia, de acordo com o formulário que ela preenchera quando recebera a carta de instruções. Um de seus hobbies era costurar, então conseguira o cargo relativamente tranqüilo. Sua função ali era fazer os mantos encapuzados dos uniformes dos Comensais e realizar consertos em geral. Como os elfos não podiam tocar nas roupas, também cabia à rouparia lavar e passar todas as roupas do castelo. Ela gostava de seu cargo ali, onde ficou dois meses e fez amizade com Marcy Lowitt, uma garota quase de sua idade que estava ali por desejo dos pais, que achavam que ter uma filha Comensal da Morte era o maior orgulho que podiam ter na vida. O único inconveniente de estar entre os quatro grupos inferiores era que o único tipo de quarto que tinha direito era o tipo da Ala Leste, o lugar mais frio e desconfortável, onde os quartos tinham dois por quatro metros, apenas com uma cama de solteiro dura, uma mesa de cabeceira, uma cadeira e um armário pequeno. Seu quarto na Toca era maior do que aquele.


Mas dois meses na rouparia com eficiência e três serviços especiais depois, Ginny conseguira uma promoção para o grupo Sete. No grupo Sete já havia cargos de responsabilidade, ou seja, ou você era um subordinado, ou um dos dois supervisores, ou o chefe. Os grupos intermediários menores, onde o grupo Sete estava classificado junto com o três, tinha como função trabalhos que necessitavam de mais delicadeza, como negociar, subornar pessoas e interceptar informações. Alguns membros também podiam ser recrutados pelo Comandante de Execução para a seleta e sombria facção dos Algozes. Os Algozes eram responsáveis por torturar os prisioneiros à fim de obter informações ou de executar indivíduos que bloqueavam o caminho da Ordem. Ginny não torturava pessoas e estava incapacitada de entrar para Os Algozes, mas era boa em extrair informações. Ela tinha uma tática infalível para conseguir as informações que queria, mostrando seu rosto e fazendo os prisioneiros acreditarem que ela era espiã do Ministério – a maioria se lembrava dela como namorada de Harry Potter, e acreditava. Em duas semanas o chefe de seu grupo foi promovido e os serviços especiais lhe renderam mais uma promoção, para fúria dos supervisores do grupo Sete, que não conseguiram o cargo de chefe.


Depois disso as coisas melhoraram. Ela conseguiu direito à um quarto na Ala Norte, que eram maiores e mais luxuosos, embora não chegassem perto dos quartos da Ala Oeste (que fora onde ela ficara quando fora seqüestrada). Ainda não tinha um banheiro só para ela, mas já era alguma coisa. A Ala Norte, diferente da Ala Leste, que era toda decorada com archotes de ferro e flâmulas preto e branco e portas de cedro, era repleta de tapeçarias prata e roxo penduradas em archotes de bronze, e suas portas e balaústres eram de ébano, enquanto os detalhes de pedra eram de mármore. Já a Ala Oeste era a área residencial mais almejada, com seus archotes de prata, tapeçarias verde e prata e suas portas de mogno – altamente sonserino.


Ginny descobriu que gostava de ter subordinados quando foi chefe do grupo Sete. Não precisava fazer quase nada, à não ser adaptar as necessidades superioras para que pudessem ser executadas pelo seu grupo. Claro que se acontecesse algo de errado a culpa seria toda dela, mas felizmente isso não aconteceu. Além disso, por sua posição, teve algumas reuniões com Bellatrix Lestrange, que se encarregava de ensinar alguns feitiços e maldições mais avançadas, considerando que, por terem mais informação sobre a Ordem, fossem alvos mais disputados pelos Aurores, o que requisitava mais preparo para combate. Também foi a primeira vez que esteve no quarto 13.


Ficara dois meses e uma semana como chefe do grupo Sete, e então abrira uma vaga no grupo Seis. Estava então há um passo da elite. Soubera que poucas pessoas subiam de posição com a freqüência que ela estava fazendo, o que fez com que arrecadasse tanto poucos admiradores quanto muitos desconfiados. Ginny tinha que admitir que a vida no grupo Seis era muito competitiva e nada fácil. Os grupos intermediários maiores, como eram chamados, eram uma espécie de reserva e campo de treinamento para aspirantes à grupo Cinco. Cada tarefa que desempenhavam era supervisionada por alguém do grupo superior, e seus chefes eram Comensais da época da Primeira Guerra que não foram competentes o suficiente para conseguir uma vaga na elite da nova organização, como Nott, Dolohov e Macnair, para frustração destes. Ginny não precisou ver para saber como deviam descontar o próprio fracasso nos subordinados, e não errou na previsão. Entrava em atrito especialmente com Dolohov, uma vez que este detonara os dois irmãos de sua mãe há alguns anos e parecia querer fazer o mesmo com ela.


Também não foi novidade para ela que ninguém ali gostara dela. Os membros do grupo Seis eram mais hostis e arrogantes do que até então. Ginny não fez nenhum amigo quando chegou ali. Seus supervisores, Dolohov e Macnair, achavam uma ousadia que uma Weasley estivesse ali e um absurdo que tivesse sido aceita pelo próprio Lord das Trevas. Isso não os impedia de maltratá-la na frente dos outros e mal sabiam eles que ela tinha encontros quase semanais com seu chefe.


Sentia, porém, que depois de ter deixado escapar para seu amante que Dolohov havia ameaçado cortar-lhe o almoço se ela não limpasse seu banheiro, as coisas haviam sofrido ligeira melhora. Ginny se lembrava bem da cara dos chefes quando estavam reunidos em uma das salas da Ala Norte para divisão das tarefas e o Lord apareceu com Lucius Malfoy, de surpresa. Disse que viera buscar dois novos aprendizes e, depois de olhar bem no rosto de cada um deles, pegou um colega chamado Jack Dean e ela. Dolohov riu como se fosse uma piada, e Macnair, com um sorriso satisfeito, tentou argumentar que ela não havia demonstrado muita perícia no mês que estivera ali. Ele apenas sorriu tranqüilamente e disse que vinha acompanhando o desempenho dela desde que era do grupo Nove, e que nenhum supervisor tinha lhe dito que ela era má funcionária. Além do mais, disse que tinha a obrigação de tê-la em posição de destaque depois do modo exemplar como ela se comportara depois de ter sido torturada pessoalmente por ele no ano anterior, quando ainda não pertencia à Ordem das Trevas. Acrescentou também que Ginny tinha mais chances de ascender ao grupo Cinco do que eles, que eram veteranos e o máximo que conseguiam era autoridade sobre um bando de novatos. Para complementar, disse que ninguém nunca lhe fizera capas tão boas quanto as que ela fizera quando administrava a rouparia. Ginny nunca fora de se deliciar com a desgraça alheia, mas adorou aquela chicotada.


A equipe para a qual entrara então era uma equipe especial, na qual todos os Comensais que aspirassem o tal poder que tanto seduzia seguidores se matariam para ter a chance de estar. Era uma equipe formada por sete pessoas escolhidas à dedo para aprender alta magia diretamente com o mestre. Felizmente para Ginny era uma ótima desculpa para que seus superiores maneirassem com ela, agora que oficialmente se encontrava com Voldemort toda semana. Felizmente também descobrira que Jack Dean era um cara legal e arranjara uma companhia para os almoços.


Sua estadia no grupo Seis melhorara, mas ainda foram penosos cinco meses. A eles cabiam as missões mais cabeludas, como seqüestrar reféns importantes, controlar pessoas com Imperius ou apenas levar “avisos” à comunidade mágica para que ninguém se esquecesse do poder da Ordem. Também acompanhavam o grupo Cinco com freqüência quando este precisava entrar em campo, como escolta. Ela não gostava de nada daquilo e sempre arranjava confusão quando se recusava a empunhar a varinha para machucar, com o grande pretexto de que sua filosofia, assim como seu contrato, não permitia coisas do gênero. Macnair e Dolohov pareciam cheios de vontade de esfolá-la sem a varinha mesmo sempre que ela os desobedecia e eles não podiam fazer nada contra ela: primeiro porque ela era chegada no chefe deles, e, segundo, porque ela estava mais poderosa do que os dois juntos.


Quase um ano se passara desde que entrara na Ordem das Trevas quando foi aliciada para o famigerado grupo Cinco. Jack Dean e Athena Eveyard, ambos colegas da equipe de jovens discípulos de Voldemort, também foram escolhidos. E se achava que tinha sido mal recebida no grupo Seis, não se comparava ao clima do Cinco. O ar era carregado de desprezo silencioso – tanto dos membros antigos para com ela, uma traidora do sangue de Gryffindor, quanto dela para com eles, um bando de loucos da pior espécie. E se ela pensou que as coisas se tornariam mais fáceis agora que passava dez horas sob o olhar de seu amante, estava terrivelmente enganada – ele não só não a defendia de nada, como era o maior responsável por tornar-lhe a vida um inferno.


Bellatrix Lestrange, que quando lhe deu lições de defesa pessoal parecia indiferente, agora lhe tratava com descaso. Seu marido, Rodolphus, não era pior, mas tampouco a ajudava em algo, e com seu irmão, Rabastan, era a mesma coisa. Lucius Malfoy certamente não gostava dela, em parte por ele e seu pai se odiarem, e parecia desconfiar de alguma coisa, enquanto sua esposa, que não era bem uma Comensal da Morte mas participava de todas as reuniões, parecia partilhar o mesmo sentimento da irmã Bellatrix. Rookwood parecia achar que sua pouca idade era o mesmo do que incompetência e Mulciber nunca a olhara duas vezes. Adam Goldenfire, ex-Auror, experimentava um pouco do mesmo que ela, mas como já estava lá há um ano e começava a conquistar a confiança dos mais experientes, preferiu não se misturar com os novatos. Michael Marlaux e Dante Dawson supervisavam o castelo durante a noite, mas Ginny duvidava que estaria em melhores mãos se tivesse que trabalhar com eles; Marlaux estava ali por ambição, nem era conterrâneo, enquanto Dawson possuía muito da tradicional arrogância dos alunos de Slytherin. Jack Dean era legal e sentia-se tão deslocado quanto ela, mas fora de Ravenclaw e não era tão desprezado, além de ser alguns anos mais velho. Athena Eveyard, que entrara com eles, era bem mais velha, bem mais ambiciosa e fora designada para o grupo noturno, o que significava que somente ela e Jack Dean continuaram bem unidos mesmo depois da promoção.


Mas quem pegava no seu pé era mesmo seu chefe. Ele não perdia uma chance de desmoralizá-la na frente dos outros, de modo que ela virara a grande atração do grupo Cinco. Para os outros Comensais não havia nada mais engraçado no mundo do que vê-lo debochando de Ginny.


Fazia parte do disfarce, mas não deixava de ser irritante e não menos constrangedor.


Mas eram ossos do ofício. Estava no topo da hierarquia possível para alguém como ela, não podia reclamar. Agora tinha um cargo importante e um pseudônimo para que seu nome não fosse citado em algum tribunal quando os Aurores capturassem um peixe pequeno. Agora tinha poucas pessoas de quem ela acatava ordens e dezenas delas para acatar as suas. Agora, neste exato momento, jornalistas, Aurores e o próprio Ministro da Magia estavam se estalando de vontade de pôr as mãos nela. Agora tinha até um quarto enorme com banheiro - e banheira – na Ala Oeste, uma cama gigante e até uma janela. E seu novo guarda-roupa tinha capacidade para mais do que um conjunto de roupas de cama e cinco peças de roupa. Tinha uma mesa grande e estante para livros. Tinha até uma lareira! Para ser breve, ela pegara o mesmo quarto que ficara quando fora seqüestrada, o número 15 - e operara-lhe uma pequena reforma na decoração.


Coincidência ou não, seu amante se entocava a um quarto de distância, no suspeito número 13. O melhor quarto do castelo, tinha quase o dobro do tamanho do seu…


- Vai ficar enrugada – disse uma voz à sua direita, debochada.


Ginny abriu os olhos e observou-o, a cabeça deitada confortavelmente na borda de sua banheira. Sorriu.


- Não sei se você não tem muita moral para afirmar isso. Me lembro bem de como você era antes da poção, viu? – disse, inalterada.


Ele balançou a cabeça e dispensou-a com um gesto de mão, como se não valesse a pena discutir com ela. Virou-se para a pia e foi lavar o rosto.


Ginny voltou a posição original, deitando a cabeça para trás.


- Não está na hora de voltar para seu quarto? – perguntou ela, de olhos fechados.


Ele não respondeu de imediato, mas sua voz era sarcástica quando o fez.


- É impressão minha ou estou sendo expulso? Esses Comensais da Morte, cada dia mais atrevidos…


Ginny riu.


- Oh, me desculpe! Não foi minha intenção. O que acontece é que, se alguém vir você saindo do meu quarto a essa hora da manhã, como é que fica?


Ouviu-o aproximar-se dela e sentar-se na beirada da banheira.


- Sou prioridade máxima aqui, eu não tenho que dar satisfações para ninguém – respondeu ele, passando a mão pelo seu cabelo.


- Tudo bem, gostosão – respondeu ela, sarcástica. – Mas vão dizer pelas nossas costas que estamos tendo um caso. Como é que eu fico se desconfiarem que estou me encontrando com um mestiço na calada da noite?


Ele riu pelo nariz. Beijou-a longamente.


- Você me fala cada coisa e eu nem revido… – comentou ele, fingindo mágoa, depois que se afastaram. – Acho que estou ficando frouxo.


Ginny sorriu, insolente, e abriu os olhos. Ele estava encostado na parede, sonolento, de olhos fechados, enquanto afagava seus cabelos. Os dele haviam crescido consideravelmente desde o primeiro serviço especial e agora o comprimento estava pouco acima dos ombros, lisos e acetinados. Ela nunca fora de sentir atração especial por homens com cabelo comprido, mas ele ficava bem de qualquer jeito. Seu rosto era muito harmonioso, com ausência de traços feios ou pouco relevantes. Seu nariz era bem masculino, mas de certo modo delicado, e não era muito pequeno ou muito grande; seus olhos eram longos e com belo formato, bem proporcionados com as sobrancelhas negras, bem definidas e levemente arqueadas; seus lábios eram finos e davam-lhe um ar sóbrio e inteligente. A pele pálida lhe caía muito bem, e os cabelos negros acentuavam o contraste; até mesmo o levíssimo tom marrom-arroxeado que havia em seus lábios e circundava-lhe os olhos caíam-lhe bem, dando-lhe certo aspecto misterioso. Ginny suspeitava que ele continuaria bonito mesmo se deixasse crescer uma barba, coisa que abominava profundamente, pois até o formato em que crescia por um milímetro, como naquela manhã, era de beleza aristocrática e elegante. Seu queixo era másculo e bem levemente furado, e a parte inferior de seu rosto era largo e ligeiramente encovado, o que não destoava de seu tipo físico.


Não era de admirar que ela sonhasse tanto com ele nos anos que anteciparam aqueles, só não entendia muito bem o que sentia.


O rosto era grande parte do atrativo, mas não era tudo. Ele era bem uns trinta centímetros mais alto que ela, ou seja, deveria medir por volta de um metro e noventa, e era magro. Mas não magro do tipo que dava para ver as costelas de longe, e sim do tipo longilíneo. Não era musculoso, mas o corpo era bem definido - o que também não significava que não fosse forte, embora ela não apostasse todo seu dinheiro nele se este tivesse que vencer uma luta sem a varinha.


Mas o que Ginny mais gostava nele eram as mãos: grandes, finas, dedos longos, unhas perfeitas, veias salientes e masculinas. Ela nunca conhecera ninguém com as mãos parecidas. Eram bonitas e admiráveis. Ela gostava do toque das mãos dele…


O sorriso dela se alargou e, enquanto o observava, ele tornou a abrir os olhos. Ela se deu conta de que devia estar parecendo uma retardada sorrindo para ele, mas esse pensamento só fez com que ela risse mais. Ele ergueu uma sobrancelha.


- Eu sei que sou muito bonito e inteligente, mas estou ficando constrangido – comentou ele, depois de alguns segundos se olhando, sem que Ginny desse uma explicação para a expressão risonha e imbecil.


- Não é sua culpa, estou rindo porque sou idiota – explicou ela, tentando se controlar.


- Me diga uma novidade.


- Ah, que desagradável – disse ela, embaçando o sorriso. – Eu aqui pensando bem de você e você me esculacha… Deixa você. Nunca mais vou sorrir na sua frente…


- Duvido – disse ele, provocando-lhe cócegas na nuca com as pontas dos dedos. Ginny quebrou a promessa imediatamente.


- Seu chato – reclamou ela, depois de rir o suficiente. Tornou a deitar a cabeça na borda da banheira e olhou-o, afetuosamente. Acariciou lentamente a mão que ele colocara em seu ombro. – Sinto que está querendo entrar na minha banheira – disse, em voz baixa e provocante.


- Adoraria, mas não posso. Vou tomar uma chuveirada rápida no meu quarto e descer – respondeu ele, em tom de quem se lamenta. – Mas à noite nos vemos de novo, o que acha?


- Acho ótimo – respondeu ela, com um sorriso afetuoso e sincero. – Nos vemos no café, então.


Ele inclinou-se, acariciou seu rosto e beijou-a mais uma vez. Ginny apreciou o humor dele está manhã: estava tranqüilo e carinhoso. Talvez até tivesse sorte durante o dia e ele a poupasse da perseguição rotineira…


- Nos vemos no café – disse ele, em voz baixa, quando se separaram. Levantou-se e saiu do banheiro, afastando os cabelos para trás, preguiçosamente.


Ginny tornou a relaxar na banheira, ociosa e bem mais serena. Viver com Lord Voldemort era como apostar na loteria: havia dias ruins, havia dias péssimos, mas também havia os bons e os muito bons.


Admitia que quando chegara a hora do primeiro serviço especial estava pregada de medo. Mas ele estava em um dia bom. Ginny não sabia se suportaria os dias ruins se ele não a tivesse estreado num dia bom.


Mas se ela estava ali até hoje era porque fora aprovada na função de entretê-lo. No começo fora meio difícil compreender as alterações de humor e seus respectivos fetiches, mas depois de dois anos tudo aquilo se tornara mecânico. Tinha dias, como nos bons, que ele queria que ela fosse somente ela; em outros, ele preferia que ela fingisse ser outra pessoa. Felizmente para ambos, seu humor mais sádico encontrou em Ginny um certo e estranho prazer masoquista, então ela podia dizer que se davam muito bem debaixo dos lençóis, indiferente do humor ou estado de espírito.


O grande problema era fora do quarto.


Mas um mês no grupo Seis e uma semana no grupo Cinco foram o suficiente para fazer de Ginny uma pessoa capaz de enfrentar qualquer situação sem perder a compostura.


 


 


- Weasley, você está no jornal de novo.


Ela mal chegara ao Salão de Refeições para seu café-da-manhã e ele já estava mexendo com ela. Ginny encarou-o brevemente, na outra ponta da mesa.


- É mesmo? – disse ela, dividida entre a curiosidade e o orgulho próprio, enquanto ia até seu lugar. A mesa do café-da-manhã já estava completa, mas não pareciam ter chegado há muito tempo. Como o grupo Cinco era pequeno, só ocupavam um canto da mesa. Ela costumava se sentar ao lado de Jack, o mais afastado possível da cadeira da ponta, invariavelmente ocupada pelo amante.


O Salão de Refeições era o lugar mais amplo do castelo depois do hall; ficava atrás da escada principal, na Ala Norte, e era retangular. Uma mesa grande o suficiente para cerca de vinte pessoas, dez de cada lado, ficava no centro e havia quatro portas de acesso: a que ligava ao hall, por baixo da escada; as laterais, que saiam perto das escadas das alas Leste e Oeste; e a porta para a cozinha, onde a maioria dos elfos e assistentes de cozinha dos grupos inferiores se encontravam.


- Não escrevi para o Profeta Diário ainda – disse ela, depois de se sentar, dando-se conta de que não haveria porque estar no jornal.


- Não é sobre o assalto – respondeu o amante, calmamente. – É uma homenagem.


Ela levantou uma sobrancelha, intrigada.


- Homenagem? – perguntou, descrente, enquanto pegava uma metade de pão e observava os frios que escolheria para recheá-lo. Havia uma diferença considerável entre a comida servida entre os grupos inferiores e a que comia no grupo Cinco.


- Sim, ouça – disse ele, apoiando o jornal em uma jarra de suco e escorando o rosto com o braço apoiado na mesa. - “Hoje completam dois anos desde que Ginevra Weasley, mais conhecida como ‘Ginny’ ente os familiares e amigos, desapareceu da própria casa sem deixar vestígios. Na época recém-formada, Ginny, que ficou conhecida pela comunidade mágica pelo romance com Harry Potter, O-Menino-Que-Sobreviveu, também irmã do Auror Ronald Weasley e filha do funcionário do Ministério da Magia, Arthur Weasley, sumiu na manhã de onze de agosto deixando como pista apenas o quarto revirado. Acredita-se que ela, que já havia sido seqüestrada por Aquele-Que-não-Deve-Ser-Nomeado fazia sete meses, tenha sofrido outro ataque e tenha sido levada à força, sem, entretanto, nunca ser libertada. Os Weasley são uma tradicional família bruxa que é abertamente declarada contra as Artes Das Trevas e a pureza do sangue, motivo pelo qual provavelmente resultou no confronto com a jovem. A família prefere não pensar no pior, mas tem poucas esperanças de ainda encontrá-la viva. Harry Potter preferiu não falar sobre a data. Os familiares e amigos lembram-se dela como uma garota alegre e engraçada e fazem votos de que ela, que estaria completando dezenove anos hoje, esteja em um lugar melhor”. Que bonitinho – comentou ele, ao final da leitura, com um sorriso irônico. – Talvez devêssemos mandar um pedacinho seu para que guardem de recordação.


A mesa riu com satisfação. Ginny forçou um sorriso mal-feito. Jack, ao seu lado, ignorou as pessoas que riam e deu um tapinha no seu ombro.


- Parabéns! – disse ele, feliz, aparentando sinceridade.


- Nem lembrava que era meu aniversário – disse ela, encolhendo os ombros. Não fazia muita diferença, afinal.


- Pensei que já tivesse vinte anos – disse ele, admirado.


- Não… mal saí das fraldas ainda – disse ela com ironia, em voz baixa, olhando para o ocupante da cadeira da ponta, de modo que ele ouvisse.


Ele deu um sorriso de cruel satisfação, mas com um misto de cumplicidade que só ela percebeu. Em público, faziam uma espécie de disputa confidencial para ver quem conseguia ser mais sarcástico, mas Ginny, claro, tinha que ser muito mais discreta. Não queriam que ninguém percebesse que ela tinha intimidade o suficiente para responder-lhe mal educadamente.


- Quer dizer que já faz dois anos que está aqui, Ginny. Como o tempo voa… Você não se arrependeu, espero? – disse ele, todo educado, num tom que sempre antecipava alguma saia justa. O uso de seu apelido era um bom indicativo disso.


- Não me arrependo, não – respondeu ela, calmamente. - Por que me arrependeria?


- Bom, talvez tivesse uma idéia diferente de onde estava se metendo antes de se meter.


- Não… Achei que fosse exatamente o que é – respondeu ela, sem se alterar. – Quanto a certas coisas, é melhor levar na esportiva, não é mesmo? – disse, tentando disfarçar ao máximo a provocação na voz. – Não seria proveitoso para ninguém uma quebra de contrato.


Ela percebeu alguns pares de olhos voltarem-se para ela à menção desse assunto. Ele não pareceu se intimidar com a ameaça de ter seu segredo revelado, mesmo sendo uma questão que todos os outros Comensais tinham desejo reprimido de saber. Explicaria o que ela fazia ali, pelo menos.


- Certamente que não – concordou ele, a voz mais provocativa do que a dela, os olhos ligeiramente mais estreitos do que o normal. – Principalmente porque isso implicaria em expor suas cláusulas, o que causaria curiosidade sobre o motivo de eu tê-las aceito. Vão dizer por aí que foi só pelo seu rostinho bonito.


Ginny conteve o sorriso que quis dar ao pensar na resposta seguinte. Ela sabia que até quem estava fingindo não ouvir estava prestando a atenção na conversa.


- Não se preocupe, milord. Todos sabemos que o senhor não se interessa por essas coisas – disse ela, numa voz de onde só se conseguia extrair inocência e educação.


Jack captou a mensagem na hora e tratou de transformar o riso num acesso de tosse. Algumas pessoas, como Narcissa Malfoy, abriram a boca momentaneamente, sem reação, e o restante fingiu não ter ouvido e controlou-se para não deixar escapar nem um sorriso leve, embora seus rostos tivessem ficado muito vermelhos com o esforço.


O amante lhe lançou um olhar nocivo por aquela tirada em público, mas reconheceu sua derrota. Sorriu levemente e respondeu:


- Só porque é seu aniversário, te darei um ponto pela coragem ao invés do que merece por ser insolente – respondeu ele, seu sorriso mais assassino fazendo-se presente.


- Muito gentil de sua parte – respondeu ela, graciosa, contendo o riso, enquanto despejava açúcar em seu café com leite.


- Disponha – disse ele, tornando a pegar o jornal.


Ginny aproveitou a deixa para abandonar a conversa antes que ele ficasse nervoso de verdade.


- Conseguiu falar com sua mãe ontem? – perguntou ela, virando-se para Jack.


- Hum? Ah, consegui – respondeu ele, mordendo um pedaço de torrada, a olhando com uma mistura de repreensão e admiração. – Não era nada grave – continuou, com a boca cheia. Engoliu. – Mas ainda acha que estou no caminho errado, sabe como é, aquela conversa de sempre.


- Sei – respondeu ela, que tinha certeza que a sua mãe teria espasmos de histeria se soubesse onde ela estava agora.


- Ainda disse que estou muito magro e que minhas roupas estão muito pretas – contou ele, achando graça. – Me deu um monte de comida para trazer.


- Mãe é tudo igual, só muda de endereço – disse, antes de tomar um gole de seu café com leite. – Mas pelo menos ainda tem contato com a sua.


- É… Coitada, só dou desgosto para ela – disse ele, pensativo e depressivo. – Mas meu pai estaria mais feliz se estivesse vivo. Sempre me dizia que o mundo estaria melhor no dia em que todo sangue fosse puro, provavelmente gostaria de saber que estou ajudando isso acontecer.


Ela olhou para ele, um sorriso torto.


- E você? Acha que o mundo estará melhor neste dia?


Jack sorriu.


- Você sabe que só estou aqui pelo dinheiro – brincou ele.


Ela riu.


- Então você deve estar decepcionado.


- Me prendo no pensamento de que meus objetivos se cumprirão à longo prazo – respondeu ele, tentando impor alguma dignidade.


- Boa sorte, então – desejou ela, irônica, mordendo sua fatia de pão.


Jack Dean era um cara engraçado. Quando Ginny entrara em Hogwarts, ele estava nos últimos anos e era um monitor da Ravenclaw. Era o filho mais velho de uma família tradicional; ficara na mesma casa que sua mãe, mas era bem claro que admirava muito o falecido pai que fora sonserino. Ginny não tinha certeza se ele gostava ou não de ser um Comensal da Morte, mas sabia que ele era competente e tinha muita afinidade com os disfarces. Não chegava a ser como Tonks que nascera com o dom, mas os feitiços de transformação que ele fazia eram incríveis. Aparentemente ele conseguira nota máxima nos NIEMS de Tranfiguração e havia sido um dos alunos preferidos de McGonagall durante a escola. Depois disso ele tirara dois anos em Durmstrang estudando magia avançada, e foi onde interessou-se pelas artes das trevas. Quando soube que Voldemort havia retornado, voltara ao país para tentar se alistar. Entrara na Ordem das Trevas quase um ano antes dela e sua maior ambição desde então era conseguir ser aprendiz do Lord das Trevas, e o conseguira. Ele e Ginny entraram juntos e tiveram aulas regulares por mais cinco meses mesmo depois de terem chego ao grupo Cinco. O nível dele era bem maior do que o dela e fora muito melhor aluno, por mais que ela se esforçasse. Mas Jack sempre a ajudara em tudo. Ginny desconfiava que ele gostava um pouco dela.


Jack não era feio – era claro, cabelos castanhos curtos e incríveis olhos cor de mel – mas não chegava a causar nela uma atração. Além disso, ninguém em sã consciência trocaria um homem de beleza e inteligência excepcionais como o que tinha em sua cama por outro de beleza e inteligência em níveis normais como Jack, sem contar que teria que ser muito tola para se interessar por mais alguém que não seu amante, que já era uma responsabilidade e tanto. Não, Ginny gostava muito dele, mas apenas como amigo. Também nunca perguntara, mas esperava que ele não tivesse nenhuma esperança em ter um relacionamento maior com ela – odiaria ter que partir-lhe o coração ou perder sua amizade.


Não… No momento não tinha pensamentos para nenhum outro homem, divagou, enquanto olhava disfarçadamente em direção ao amante.


- Oi. Você ainda está aí? – disse Jack, gozador.


- Estava pensando no que vou escrever para o jornal – respondeu ela, disfarçando. Virara uma espécie de tradição e diversão para ela mandar uma carta para o Profeta Diário comentando cada projeto seu que colocava em prática. Essa mania fizera parte de sua fama fora dos muros de Basilisk Hall, tornando o apelido GW conhecido. Claro que ela escrevia de modo a preservar seu gênero e identidade. Ainda não escrevera sobre o assalto em Gringotts, mas nem tivera tempo ainda para ler o que estavam escrevendo sobre o assunto.


Parecia tão óbvio para ela que GW eram as iniciais de Ginny Weasley que ela admirava-se de ninguém ter descoberto que era ela o tempo todo. Mas sentia-se ousada quando assinava suas iniciais, como se desafiasse os leitores a descobrirem. E até onde ela sabia, ninguém o tinha feito.


Bom, como nunca achara o pedaço de pergaminho onde escrevera para Voldemort procurando guarida e sua respectiva resposta, supunha que tivesse deixado cair, mas como ninguém de sua família jamais suspeitara que ela fugira e sim achavam que ela tinha sido seqüestrada novamente, só podia acreditar que o papel tivesse caído nas mãos de Harry, que resolvera poupar-lhes do desgosto. Então considerava que Harry sabia, mas nunca tinha contado para ninguém, traindo todo o Departamento dos Aurores – Ginny sabia que estavam oferecendo uma grande quantia em dinheiro por informações a seu respeito, o que significava que ela era considerada uma fora da lei de alta periculosidade.


Mas era por isso que era Comandante de Estratégias. Essa era sua função: planejar, comandar, despistar. E fazia isso tudo muito bem. Conseguira reduzir consideravelmente a taxa de baixas, em ambos os lados, desde que assumira o cargo, sem falar do quase pleno sucesso de todas as missões.


O café-da-manhã correu sem mais transtornos. Antes de subirem para a Sala de Planejamentos, onde normalmente se reuniam, ela ganhou o jornal e pôde ler a opinião da mídia e do Ministério sobre seu assalto. Reparou que dessa vez chegaram sozinhos à conclusão de que fora uma obra de GW, antes mesmo que ela se pronunciasse. Estavam caminhando, mas se em um ano e dois meses o máximo que conseguiam era aquilo, então Ginny não estava preocupada.


- Quem ganhou o jogo ontem? – perguntou-lhe Jack, enquanto subiam as escadas.


Ela folheou o jornal até a última página.


- Pride of Portree ganhou dos Wimbourne Wasps por duzentos e sessenta à cento e setenta – disse ela, lendo a manchete da seção de esportes. Jack fez uma cara esquisita e decepcionada.


- Como assim? Eles estavam indo tão bem na última temporada…


- Acontece – consolou ela, dando tapinhas em seu ombro. – Os Pride estão com artilheiras muito boa, você devia saber.


- É, mas… Não pode! E os torcedores, como ficam? – reclamou ele. Ginny riu.


 


II


 


Queridos leitores,


Interessante ver a que conclusões chegaram desta vez. Nem precisei reivindicar a autoria do ataque, significa que já tenho um estilo próprio e identificável? Ou seja, já tenho personalidade o bastante? Assim vocês me enchem de orgulho.


Perdoem minha ausência, tirei alguns dias para saborear o sucesso da última empreitada. Foram ótimos dias de satisfação, mas já está na hora de voltar ao trabalho.


Mas quanto ao assunto Gringotts, permitam-me corrigi-los um ponto que achei relevante: não precisamos coagir nenhum duende. Eles pareceram perfeitamente compreensivos em relação ao fato de o ouro roubado pertencer às famílias Malfoy e Lestrange, que estavam presentes no momento, então não encararam como um roubo, propriamente dito. Quem é que roubaria o próprio dinheiro? Além disso, pareceram muito felizes em aceitar uma parcela da bolada como pagamento pela cooperação.


Agora, se não estão felizes, amigos do Ministério, reclamem com os duendes. Assim talvez eles aceitem nos apoiar em troca do seu precioso ouro, que claro, eles cunharam. Nada mais justo do que devolver o que já é deles, não é mesmo?


Vou me despedindo porque tenho mais o que fazer. Mas não se preocupem, continuarei mantendo contato.


 


Com os melhores cumprimentos,


GW


 


Ginny terminou de escrever a carta e colocou-a de lado para secar. Olhou ao redor. Não era verdade que estivessem se empenhando para outro ataque. A Sala de Planejamentos estava totalmente dividida e despreocupada.


À mesa grande, geralmente usada para as reuniões do Conselho de Planejamentos, estava sendo usada pela maioria dos rapazes, embora não fosse para nada mais do que um jogo de cartas. As irmãs Bellatrix e Narcissa ocupavam a outra ponta da mesa e riam de algum assunto que discutiam. Jack estava ao fundo da sala, em algum lugar bem às suas costas, praticando suas camuflagens, como costumava fazer sempre que tinha um tempo livre.


Seu amante era o único que parecia estar fazendo alguma coisa útil, há duas mesas de distância. Cada membro do Conselho tinha direito à uma mesa pessoal naquela sala, e Ginny tinha a dela, junto com Malfoy, os casal Lestrange e o próprio Lord das Trevas. A divisão de autoridade no grupo Cinco se dava da seguinte forma: integrantes normais, que saiam à missão junto com todos os outros e eram competentes em magia avançada, tendo como título Tenentes, que ficavam abaixo da autoridade do Conselho de Planejamentos, cujos quatro integrantes eram por sua vez Comandantes de algum departamento (Lucius Malfoy era Comandante Militar, Bellatrix Lestrange era Comandante Executor – portanto escolhia, treinava e liderava o grupo dos Algozes -, seu marido, Rodolphus, era Comandante de Assuntos Internos, ou seja, coordenava tudo o que se tratava da ordem dentro da entidade, enquanto Ginny era Comandante Estrategista), que por sua vez só tinham o direito de obedecer apenas ao seu mestre, Lord Voldemort – o que significava, sim, que para que o assunto chegasse nas mãos dele, tinha que ser muito importante.


Ela observou-o por um momento. Escrevia alguma coisa em um pergaminho e, por vezes, levantava os olhos, pensativo, em direção aos homens na jogatina, sem vê-los realmente, para então voltar a escrever. Provavelmente era uma carta para o quinto e excepcional Comandante, Robert Wildriam, que coordenava a missão de expandir os assuntos da Ordem das Trevas ao exterior.


Ginny desviou os olhos e virou o corpo, procurando por Jack. Não o viu em parte alguma, embora tivesse ouvido-o murmurando feitiços ainda há pouco.


- Procurando alguém? – disse a voz do amigo muito próxima, bem à sua esquerda. Ela virou-se, mas não viu nada. – Feitiço Desilusório, acho que estou ficando bom nisso – explicou o outro, frente a expressão curiosa dela. Ginny então percebeu contornos muito fracos enquanto ele falava, então um estalinho, e Jack começou a aparecer, como se uma tinta invisível escorresse dele.


- Muito bom – elogiou ela, impressionada. – Costuma espionar as pessoas com isso?


- Só as garotas no banheiro – respondeu ele, rindo. Ela sorriu, desaprovadora.


- Fala a verdade, você não precisa disso.


- É mais excitante quando é errado – disse ele, gozador. Sentou-se na beirada da mesa dela. – Desconfio que você tenha trabalho pra mim.


- Só se não tiver nada mais interessante para fazer – disse ela, com educação.


- Que prazer pode ser maior para um subordinado do que agradar ao seu superior? – disse ele, fazendo graça.


Ela meneou com a cabeça de leve enquanto ria.


- Já disse para parar com essas bobeiras. Serei seu superior no dia em que conseguir entrar nos banheiros masculinos sem ser vista – disse, com um sorriso de deboche.


- Ah, mas você não precisa disso, minha cara! – respondeu Jack, divertido. – Pode ver um homem pelado quando quiser, é só ir ao meu quarto hoje a noite, por exemplo.


Ela riu mais ainda. Talvez tivesse sido apenas impressão sua, mas sentiu um olhar queimar sua nuca logo depois da frase de Jack.


- Fala sério – disse ela, ainda rindo. – Isso não é nada ético!


- O que? Você quer discutir ética com um Comensal da Morte? – brincou ele, fingindo espanto.


Ela riu mais um pouco e pegou a carta que tinha escrito. Dobrou-a e colocou em um envelope em branco.


- Falando sério agora. Se não tiver nada melhor para fazer, podia entregar mais essa no Profeta Diário, fazendo o favor? – disse ela, oferecendo-lhe o envelope.


- Naturalmente. Aproveito para treinar mais meus truques – disse ele, cordialmente e, piscando-lhe, pegou a carta. – Mesmo esquema de sempre?


Ela confirmou com a cabeça. Jack dirigiu-lhe um último sorriso, e guardado a carta no bolso, saiu da sala.


- Weasley – chamou uma voz mais autoritária que o normal às suas costas. Ela esforçou-se para acabar com a expressão de riso antes de se virar. Voldemort fez um sinal para que ela se aproximasse de sua mesa.


- Milord? – disse ela, ao se aproximar, em voz educada, caso alguém estivesse ouvindo. Ficou parada, esperando que ele falasse.


Ele lançava-lhe um olhar esquisito e demorou um pouco para dizer o que queria.


- Onde estão os relatórios da semana dos grupos intermediários? – disse ele, por fim, como se fosse óbvio.


Ginny ergue as sobrancelhas. Ele imitou-a.


- Os relatórios? – repetiu. Não era aquilo que estava esperando.


- Sim, Weasley, relatórios. Uns papeis onde as pessoas descrevem os eventos da semana para outra pessoa ler – respondeu ele, sarcasticamente.


Ela fez-lhe uma careta mal-educada uma vez que estava de costas para os outros. Ele pareceu prestes a sorrir, mas manteve e olhar esquisito.


Ginny saiu, procurando os benditos relatórios. Encontrou-os na mesa de Rodolphus, uma vez que ele era o responsável pela supervisão dos grupos. Voltou para entregá-los e esperou pacientemente a ordem para se retirar. Mas ele não disse nada. Leu uma parte de cada, tranqüilamente, causando-lhe certa inquietação.


Ele percebeu e levantou os olhos.


- Não fique parecendo tão impaciente, Weasley. Isso me incomoda – reclamou ele. Eles se encararam, cúmplices. Então ele disse – Vem aqui.


Ginny deu a volta na mesa. Lucius estava olhando em sua direção quando passou os olhos pela mesa grande, mas desviou rápido e baixou uma carta, atento ao jogo. Rodolphus e Rabastan reclamaram, e Rookwood pareceu feliz, dando-lhe tapinhas nos ombros. Mulciber e Goldenfire, que estavam de costas, trocaram cochichos.


Ela voltou a atenção para seu amante.


Ele pegara uma pena e um pedaço em branco de pergaminho, onde começou a escrever.


Terei que dar um jeito nesse rapaz?


Ginny evitou qualquer sinal de que tinha achado graça. Respondeu, logo em baixo:


Não sei o que acha que está acontecendo entre nós, mas garanto que é só amizade.”


Ele escreveu a resposta.


Você não devia fazer muita  amizade com homens.”


Ginny não conseguiu controlar o riso frente àquela situação. Era incrível o tipo de coisa que era obrigada a suportar. Percebeu uma movimentação além e viu que Lucius e Rabastan olhavam-na, curiosos, mas voltaram ao seu jogo sem fazer comentários.


Ela pegou a pena e escreveu-lhe.


Desculpe a risada, mas estamos no século XXI! Foi engraçado.


Ele fez uma cara estranha enquanto lia, portanto ela acrescentou:


Confie em mim. O que eu poderia ganhar te traindo?


- Nada bom, garanto – respondeu ele, em voz baixa, impossível de perceber seu humor.


Uma explosão de fúria na outra mesa interrompeu a conversa. Os rapazes pareciam furiosos por algum motivo. Ambos olharam, curiosos.


Os irmãos Lestrange acusavam Rookwood de estar roubando. Rookwood se defendia. Lucius Malfoy tentou ajudar o parceiro, mas acabou sendo acusado também. Mulciber e Goldenfire não pareciam saber direito a quem defender.


Enquanto discutiam, Rookwood perdeu a paciência e sacou a varinha. Os Lestrange reagiram. Eles discutiam em voz alta agora. Como eram dois por um, Rookwood intimou os outros dois a tomar um partido. Mulciber apoiou-o imediatamente, mas Goldenfire tentou sair neutro. Depois de um tempo, Malfoy, que também não era um exemplo de paciência, estava apontando a varinha para os Lestrange, e todos discutiam ao mesmo tempo. As duas esposas apareceram ao lado da confusão depois de alguns segundos.


Ginny e ele se entreolharam. Ela não achava prudente agir daquela forma na frente do chefe, mas parecia que o jogo, para os homens, era um motivo pelo qual os fazia perder a noção.


Houve um estampido, e em seguida Rodolphus xingava, apertando a maçã do rosto com a mão. Todos estavam em pé agora, e alguns se afastaram alguns passos. O atacante, porém, caiu no chão com uma Cruciatus. Ninguém entendeu de imediato, mas então Bellatrix fez-se visível empunhando sua varinha. Não deu tempo para machucar para valer, mas serviu para implantar o caos.


Ginny captou uma série de situações erradas enquanto observou por alguns segundos e pôde entender como começava um tumulto. Lucius tentou conter Bellatrix, que por sua vez entendeu que este estava defendendo Rookwood e voltou-se contra ele; Rodolphus deve ter achado que o cunhado estava tentando atacar sua mulher, porque lançou-lhe um feitiço atordoante. Narcissa tentou pará-lo com um Impedimenta, mas acabou errando e acertando em Mulciber, que caiu sobre Goldenfire, fazendo-o soltar a varinha, que acertou Rabastan no olho esquerdo, fazendo-o dobrar de tamanho. Rodolphus achou que Lucius é quem tinha atacado seu irmão e, enquanto trocavam insultos e feitiços, Rookwood derrubou Bellatrix e eles começaram a se socar no chão.


Tom observava a cena com uma sobrancelha erguida e ar de superioridade. Apoiou os cotovelos na própria mesa e juntou os dedos, distraído, enquanto assistia.


- Pipocas iam bem agora, não acha? – comentou ela, irônica, testemunhando o massacre.


Ele fez um barulho que podia ser um riso. Desaprovava lentamente com a cabeça, os olhos fixos na confusão.


Por fim, depois de alguns instantes, ele recostou-se, esticou as pernas embaixo da mesa e, calmamente, começou a bater palmas, lentas e sarcásticas.


À principio, apenas Ginny as ouviu. Com o se estender dos segundos, outros começaram a reparar e parar de fazer o que quer que fosse. Goldenfire percebeu primeiro, estando mais receoso de participar da briga, enquanto os outros demoraram mais. Rabastan ouviu-as depois de ter rendido Mulciber sobre a mesa, espalhando as cartas pelo chão, e olhou, a varinha ainda em posição ameaçadora. Lucius se esquivou de um golpe de Rodolphus e também olhou, preocupado, quando ouviu os aplausos solitários, segurando o outro pela gola. Somente Rookwood e Bellatrix continuavam a peleja, parecendo terrivelmente brutais depois de terem esquecido as varinhas de lado.


Por fim os aplausos ecoavam sozinhos na sala de pedra e até os dois remanescentes deram uma trégua para saber de onde vinha o som. Ele continuou por mais alguns segundos, enquanto os Comensais se entreolhavam, constrangidos.


- Muito bom – disse ele, claramente, depois de aplaudir, e cruzou os braços. – Muito bom mesmo. Comportamento exemplar! São cenas como esta que demonstram perfeitamente que vocês são exatamente o que os homens do Ministério dizem que são: gorilas com varinhas!


Malfoy largou soltou Lestrange, envergonhado, e ambos baixaram a guarda. Os outros também desistiram da briga, embora Bellatrix ainda apertasse a chave de perna em seu oponente.


- Eu esperava mais de vocês, sinceramente – continuou ele, fingindo decepção. – Ao menos dando-lhes uma posição de importância achei que se comportariam melhor e talvez fossem uma companhia mais digna do que o resto dos Comensais quaisquer, mas acho que me enganei.


Ele falava em voz baixa e não olhava para nenhum deles em especial.


- Talvez eu devesse acabar com essa bobagem de grupo Cinco. Talvez eu devesse nomear Weasley minha única comandante e distribuir vocês pelos outros grupos. – Alguns deles levantaram os olhos, sombrios, frente aquele devaneio. – Em todo o caso, acho que devia deixar vocês tentarem se explicar antes de tomar qualquer decisão. Lucius, por que não começa?


Lucius concordou com a cabeça e começou a contar sua versão da história, que envolvia os Lestrange acusando ele e Rookwood de estarem roubando. Rodolphus, com um corte no rosto, interrompeu a explicação para afirmar que estavam roubando, e então Mulciber se pronunciou dizendo que os Lestange estavam para perder o jogo, e achava que tinham inventado a história do roubo para terem direito a mais uma rodada, o que causou nova gritaria, embora eles não ousassem mais se agredir fisicamente. Rookwook desvencilhou-se de Bellatrix e ambos colocaram-se de pé, entrando na discussão.


- Silêncio! – disse Tom, com uma expressão obscura. Todos se calaram novamente, mas ele não disse nada por um momento, pensativo. – É desprezível que meus “melhores” Comensais tenham tal comportamento por causa de um jogo de baralho estúpido. Mas vou poupá-los do castigo coletivo se o responsável pelo conflito se pronunciar.


Ele esperou por uns dez segundos, mas ninguém disse nada. Ele fez um barulho de desaprovação e disse:


- Ninguém? Meus pequenos tolinhos… Você sabem que agora, quando eu pegar o responsável, vão sofrer em dobro, não sabem? – comentou ele, parecendo meio feliz em dizer aquilo. Ginny não queria estar na pele deles. – Weasley.


Ela olhou, surpresa. Só faltava ele dizer que ela era a culpada.


- Te ensinei um pouco de Legilimancia… Me dê o nome do culpado – disse, simplesmente.


Ginny fez uma breve careta. Gostaria de dizer que sinceramente não queria estar nesse papel, pois todos os Comensais já olhavam-na torto. Dedos-duros nunca eram bem vindos, e ela já não era nenhum exemplo de popularidade. Mas sabia que era um assunto delicado e não ousaria desafiá-lo mais uma vez no mesmo dia. Assentiu com a cabeça e foi até os Comensais enfileirados.


Dava adeus em silêncio aos seus poucos dias de convivência amigável com o restante dos colegas.


Narcissa era a primeira da fila. Como ela não estava no meio do jogo quando a briga começou, Ginny dispensou-a com aceno de cabeça. O segundo era Rabastan, que parecia abissalmente ameaçador com um olho maior do que o outro.


- Você estava blefando quando acusou Rookwood? – perguntou-lhe, em voz baixa, olhando-o bem nos olhos. Ele manteve o olhar firme nela.


- Não – respondeu. Ginny não percebeu nada de errado.


Goldenfire, próximo da fila, disse antes que ela perguntasse, olhando-a nos olhos.


- Não vi nada. – Parecia ok.


- Quem estava errado? – perguntou ela, voltando-se para Mulciber.


Ele deu ombros. Um vislumbre de seus pensamentos lhe mostrou que ele estava olhando para as próprias cartas quando a briga começou.


O próximo era Rodolphus, para quem ela repetiu a mesma pergunta que fizera para seu irmão.


Este também negou, olhando-a com ar arrogante, como se mal acreditasse que estava sendo julgado por alguém como ela. Foi o que seu olhar confirmou, mas havia um algo mais ali. Um pensamento que surgiu e foi sobreposto, rapidamente, com a desaprovação que ele tinha por ela.


Ela encarou-o mais uns instantes antes de ir para o outro. Virou-se para Malfoy. Ela não precisou ler seus pensamentos para perceber que ele a detestava com todas as forças.


- Você estava roubando junto com seu parceiro? – perguntou, ignorando a cara feia. Tinha um corte no lábio e parecia bem despenteado.


Ginny não viu um relance de seu pensamento, como costumava acontecer, mas sim captou um pedaço audível de seu raciocínio.


Você deve estar adorando isso, Weasley, sua vaca ruiva. Foi o que ele pensou, enquanto encarava-a displicente. Ginny ergueu uma sobrancelha.


- Não sei o que está querendo dizer, Lucius – respondeu, friamente. – Mas entendo que isso possa ser uma artimanha para me distrair e ocultar a verdade.


O outro corou o máximo que seu rosto pálido permitia. Crispou os lábios com raiva.


- Eu não estava roubando porcaria nenhuma – respondeu, olhando-a com desprezo. Nenhum pensamento que percebeu atestou o contrário, portanto ela acreditou.


Chegou, por fim, em frente a Rookwood, que tinha o nariz sangrando, e encarou-a, nervoso.


- Você estava roubando? - perguntou, severamente.


Ele não desviou o olhar, mas pensava fixamente no jantar de ontem. Ginny manteve o olhar, com expressão acusadora. O outro piscou, tenso, e Ginny viu por uma fração se segundos uma carta que saía da manga. E o jantar novamente.


- Boa sorte – desejou ela, em voz baixa, dando-se por convencida. O homem fez uma cara de tristeza antes que ela se virasse.


Ginny não queria ser injusta com ninguém. Já tinha uma opinião formada, mas não tinha certeza sobre ela. Aproximou-se do amante e disse o que achava, em voz baixa.


- Eu acho que Rookwood estava roubando, mas também acho que Rodolphus estava blefando – disse, interessada em sua opinião.


Ele continuou olhando-a por dois segundos antes de mandar Rookwood e Rodolphus Lestrange se aproximarem. O Lestrange pareceu absolutamente furioso com ela por ter sido chamado a prestar contas, e Ginny temeu levar uma surra em um corredor qualquer dia desses.


Voldemort levantou-se atrás de sua mesa, fazendo os dois homens ficarem ligeiramente pequenos. Rookwood tinha uma cara estranhíssima quando admitiu o erro, antes mesmo que fosse interrogado. Rodolphus sorriu vitorioso com a rendição do colega, parecendo satisfeito consigo mesmo.


- Mas você estava blefando – disse o mestre, encarando-o, sério. O sorriso apagou-se na hora. – Não estava?


Não precisou responder para confirmar.


O amante tinha uma expressão meio feia no rosto quando virou-se para ela.


- Bom trabalho. Está dispensada. Vá fazer alguma coisa inútil enquanto eu cuido deles – disse.


Ginny não perdeu tempo. Pegou suas coisas, levantou seu capuz, colocou sua máscara e saiu, sem ânimo algum para ver o que iria acontecer.


Quando estava no corredor, decidindo para onde iria, um Comensal inquieto apareceu na esquina e veio correndo em direção à ela. Ele se reverenciou brevemente e virou-se para a porta.


- O Lord das Trevas está aí? – perguntou o outro, numa voz muito jovem e nervosa. Assim que ele perguntou, um grito de raiva veio lá de dentro, fazendo o rapaz recuar alguns passos, assustado.


- Receio que sim, mas eu não entraria agora se fosse você – respondeu Ginny, desnecessariamente. – Aconteceu alguma coisa?


O rapaz ainda olhava para porta, por onde agora escapavam uns lamentos de dor muito característicos. Então virou-se para ela, incerto se podia falar-lhe.


- Está tudo bem, sou GW – disse-lhe, encorajando-o. Ele parecia ser novo ali, mas em todo o caso, pouca gente sabia que ela era mulher.


- Bom, OK. É que capturamos alguém. Alguém que definitivamente anda com Potter. Estava com ele durante a batalha do Ministério, há uns cinco anos atrás. Achamos que é da Ordem da Fênix também – disse o jovem Comensal, muito empolgado.


Ginny sentiu um aperto na barriga. Também fora parte da Ordem da Fênix e também estivera na batalha do Ministério. Provavelmente conhecia, suspeitava de quem era.


- Você sabe o nome? – perguntou ela, para confirmar suas suspeitas.


- Longbottom – disse o Comensal, animado em poder ser útil. – Neville Longbottom.


 


 


Ginny aproveitou que o grupo Cinco estava preso na Sala de Planejamentos resolvendo a questão da infeliz briga e desceu com o jovem Comensal até as masmorras. O grupo Um parecia felicíssimo com a captura e esperavam ansiosos na entrada da prisão por notícias do mensageiro que enviaram. Pareceram meio decepcionados quando viram-no descer com alguém tão aleatória quando ela. Depois que o rapaz contou-lhes quem ela era eles pareceram mais felizes.


Ela pediu para ver o prisioneiro. Levaram-na até lá. Ginny parabenizou-os pela captura, e pediu para ser deixada a sós com ele. Eles pareceram meio incertos em desobedecer a ordem de que todo prisioneiro deveria ser antes apresentado à Bellatrix Lestrange, mas confiaram que GW em pessoa também tinha a mesma autoridade.


Ginny esperou todos saírem até sobrarem apenas os guardas. Olhou pela pequena abertura gradeada da porta de ferro. Era realmente Neville. Era uma situação desagradável, mas pelo menos tinha chegado antes.


Ela bateu com a varinha na porta, destrancando-a. O prisioneiro olhou assustado quando ela entrou, encapuzada e mascarada. O interessante do uniforme dos Comensais era que, uma vez com o manto e o capuz levantado, além da máscara, era impossível saber o sexo do indivíduo (apesar de sua altura a denunciar).


Neville levantou-se do precário leito de madeira dura que havia em todas as celas, um dos pulsos acorrentados. Ele permaneceu defensivo, mas assim que ela fechou a porta e a portinhola do gradeado, indicando que ninguém deveria interromper, ele posicionou-se como se pretendesse lutar.


Ginny ficou olhando-o por um momento, depois puxou um banquinho que estava encostado do outro lado da cela e sentou-se, encarando-o.


- O que é que você quer comigo? – disse o antigo colega, desafiador. Ainda tinha o mesmo rosto redondo, embora parecesse mais adulto. – Se chegar perto de mim, quebro sua cara!


Ela sorriu por baixo da máscara.


- Acalme-se, Neville. Não vou te machucar – disse, e acrescentou - Você tem sorte: quando me pegaram fique presa pelos dois braços.


Dizendo isso, fez um gesto com a varinha e corrente soltou-o. Ele fez uma cara estranha, como se estivesse achando tudo aquilo muito suspeito e tivesse reconhecido sua voz, embora não se lembrasse de onde. Ginny tirou a máscara e baixou o capuz, refrescando-lhe a memória.


O queijo dele caiu.


- Ginny? Ginny Weasley? – admirou-se ele. – Eu não acredito! Você está viva!


- A vida é cheia de surpresas – disse, com um sorriso cansado. – Harry podia ter confiado em você, esse segredo sempre me causa embaraços.


- Segredo? – repetiu o outro, sem entender.


- Sim. Não adianta esconder de você agora, e você tem sorte de eu ter te encontrado antes! Eu não morri, é verdade. Fingimos que morri, mas não morri. Eu tenho estado aqui desde então. Passo informações para o Ministério. Pouquíssima gente sabe, acho que nem minha família sabe… E eu tento ajudar os amigos quando posso, como agora – disse, convincentemente, em sua desculpa habitual.


Neville parecia impressionado.


- Meu Deus! Que trabalho horrível! – disse ele, comovido. – Harry deixou você fazer isso?


- Ele não gostou no começo, mas eu era a única que conseguiria fazer isso sem levantar suspeitas! – disse, com firmeza. E então sorriu melancolicamente. – Não se preocupe. Eu estou bem.


Ela sempre citava Harry pelo acaso de a pessoa sair dali querendo comentar com alguém. Como ela acreditava que Harry soubesse de seu paradeiro e estava muito amargurado para dividir essa informação com alguém, ele confirmaria a versão dela caso alguém perguntasse, para que não saíssem dando a língua nos dentes.


- Faz uns quatro meses que não tenho notícias de ninguém. Como estão as coisas? – perguntou, entoando curiosidade. O talento de ser dissimulada se criou nela naturalmente desde que começara a ter que extrair informações das pessoas, no grupo Quatro.


- Estão bem, até, eu acho – respondeu o amigo, mais calmo, parecendo acreditar completamente nela. – Acho que ninguém que conhecemos morreu nos últimos quatro meses. Eu entrei para a Ordem da Fênix! – disse Neville, orgulhoso. – Meus pais fizeram parte, não sei se sabe…


- Fico muito feliz por você, Neville! – disse ela, com sinceridade, embora aquilo o colocasse diretamente na mira principal da Ordem das Trevas. – Fiz parte por um tempo, também. Agora tento ajudar de outro jeito. Mas o que você está fazendo, além disso?


- Consegui um emprego na Botica – disse ele, ainda com o quê de orgulho na voz. – Estou na parte que mexe com as plantas. Estou gostando muito.


Ginny sorriu.


- Pensei que fosse querer dar aulas em Hogwarts – disse ela, demonstrando interesse.


- Ainda quero, mas achei melhor ter um pouco mais de experiência.


- É muito bom, mesmo – concordou ela. Então tornou-se mais sóbria. – Tem tido notícias da minha família?


- Ron está no Departamento de Aurores, você sabe, não é? Ele e Hermione Granger noivaram mês passado, me contaram esse dias – disse o amigo, enquanto Ginny se encantava com a notícia. – Seus pais estão bem, acho. Os gêmeos estão indo muito bem com a loja deles, vendem coisas realmente engraçadas. O resto dos seus irmãos, vejo-os sempre na Ordem, mas não sei o que estão fazendo. Parecem todos bem. Não temos muito tempo para conversar – comentou o amigo, pensativo. – O último serviço está tomando todo nosso tempo livre.


- Serviço? – perguntou, casualmente, tentando não parecer muito curiosa.


- Ah, estamos guardando uma coisa para o Professor Dumbledore. Ele disse que Você-Sabe-Quem pode estar interessando.


- Hum, que eu saiba o Lord das Trevas não anda interessado em nada no momento. Podem ficar tranqüilos. Mas você sabe do que se trata ou não te contaram?


- É um objeto mágico, um tipo de pingente, não tenho certeza – disse ele, parecendo ansioso para mostrar que confiavam nele o suficiente para lhe dizer o que era. - Dá alguns poderes extras para quem usa, a gente acha. Está conosco no esconderijo da Ordem, mas vamos movê-lo para Hogwarts essa semana – contou Neville, tolamente. – Dumbledore vai cuidar mais de perto para ninguém pôr as mãos.


- Claro – disse Ginny, fingindo concordar veementemente. Ele parecia estar falando a verdade. – Com certeza. Mas me fale mais sobre as pessoas. Tem visto Luna?


Neville passou mais alguns minutos informando-a de todos. Ginny ficou satisfeita em saber que todos estavam bem, inclusive Harry. Não lhe desejava nada de mal, realmente. Achava que sua troca de time já estava sendo um castigo e tanto.


- Obrigada, Neville. Você realmente deixou meu dia mais feliz – disse, com sinceridade, depois de ter ouvido tudo o que desejava. Levantou-se. – Vou tentar te tirar daqui, mas não garanto que será tão rápido. Não se preocupe – completou, quando ele pareceu amedrontado. – Não vou deixar ninguém tocar em você. Muito menos os Lestrange, que, se quer saber, estão bem ocupados no momento.


Ela olhou ao redor.


- Eu sei que é nojento comer aqui, mas está com fome? Posso te arranjar comida boa – ofereceu ela, sendo caridosa. Sabia muito bem como era ficar presa ali.


Ele agradeceu e negou, dizendo que não estava com fome. Ginny despediu-se e colocou sua máscara, e o cabelo para dentro do capuz. Saiu.


Sua autoridade não era o suficiente para libertar prisioneiros e achava melhor não forçar a barra. A maioria, lamentavelmente, morria ali. Mas nem todos. E ela precisaria apelar para seu lado mais sensual esta noite para deixar seu amante feliz o suficiente para mandar soltar Neville.


Aquilo era importante. Amigos não estavam no contrato, mas ela conseguiria.


 


III


 


Ginny ficou no seu quarto arranjando preparativos para aquela noite. Depois da cena de hoje na Sala de Planejamentos, precisaria de muita astúcia para deixá-lo de bom humor. Corria o risco de dispensá-la, mesmo tendo combinado o encontro com antecedência. Não podia deixar isso acontecer.


Já tinha parte do plano formado. Encontraria com ele à tarde, daria as notícias que Neville lhe informara. Isso o deixaria mais contente. Pegaria uma garrafa de vinho na cozinha, ele gostava de vinho. Colocaria uma roupa atraente, uma lingerie mais sexy, se maquiaria com mais atenção do que o usual. Ficaria cheirosa, lavaria os cabelos, faria as unhas. Sim, podia ter uma noite impecável.


Experimentou algumas roupas, separou as escolhidas sobre a cama. Era bom que tivesse o resto do dia livre, isso dava-lhe tempo para se arrumar melhor. Deu também uma arrumada em seu quarto. Esperava que fosse no quarto dele, mas precisava dar margem para qualquer imprevisto.


Quando desceu para o almoço, encontrou apenas um Jack muito surpreso à mesa.


- Ginny, eu estou no horário errado ou é impressão minha? – perguntou ele, confuso, quando viu-a se aproximar da mesa.


- Desconfio que você está no horário certo – respondeu ela, puxando a habitual cadeira ao seu lado e contando o ocorrido do dia, enquanto se serviam de seu almoço solitário.


Jack estava surpreso.


- Não acredito que perdi isso – disse, decepcionado. – E sinto muito por você. Como foi sua semana de aceitação?


- Memorável. Legal terem falado comigo normalmente nos últimos cinco dias, acho que vou sentir falta – respondeu, conformada. – Mas tudo bem, já estava estranhando. Malfoy hoje me chamou de vaca, então sinto como se o mundo estivesse voltando ao normal.


Eles riram.


Jack foi agradável como sempre naquele almoço, sem contar que a ausência do restante das pessoas os permitiu falar mal dos colegas sem empecilhos, causando muitas risadas. Mas o almoço não lhe fez muito bem e ela subiu mais cedo para o quarto.


Horrorizou-se depois de ter colocado tudo para fora, já no seu banheiro. Odiava vomitar, mas a náusea fora mais forte do que sua determinação. Suspeitava de nervosismo inconsciente, considerando os acontecimentos de hoje. Depois de sua demonstração de Legilimancia na Sala de Planejamentos, a vida voltaria a ser dura, ela tinha certeza. E não podia ficar doente, simplesmente não podia. Ainda mais num dia como este, onde precisaria estar muito bem disposta. Definitivamente não podia adoecer; preferiu concentrar-se no pensamento de que aquilo não passava de nervosismo.


Ela chamou Grabby, o elfo-doméstico que geralmente servia aos membros do grupo Cinco. Pediu-lhe uma garrafa de vinho, uma poção para aliviar mal-estar e para que servisse um prato de comida do almoço do grupo Cinco ao seu prisioneiro, nas masmorras, junto com um bilhete seu. No bilhete dizia que tentaria tirá-lo de lá até amanhã de manhã. O elfo se foi e voltou minutos depois, trazendo-lhe, além do que pedira, um buquê de rosas enormes.


Ginny sentiu-se muito lisonjeada. Apesar de estar passando mal, ela pegou as flores com felicidade e procurou o cartão. Nele dizia apenas “Era para ser entregue na Sala de Planejamentos, mas devido às circunstâncias isso não foi possível. Nos vemos às seis. Feliz aniversário”.


Considerando que nenhum dos dois lembrara da data no ano anterior, esse fora muito compensador. Ginny achara-as muito bonitas. Conjurou um vaso e colocou-as sobre sua escrivaninha. Combinaram bastante bem com a decoração vermelho-vinho de seu quarto. E ao menos uma coisa boa aquelas flores indicavam: ele não pretendia desmarcar o encontro.


Pediu a Grabby para checar se o quarto 13 estava vazio e, caso estivesse, desse uma limpada também.


A poção para mal-estar aliviou-a de suas náuseas aquele dia. Ele fez tudo o que pretendia: tomou um bom banho, lavou os cabelos e fez as unhas. Durante o processo ocorreu-lhe que estava agindo como uma prostituta almejando um pagamento maior, mas o pensamento apenas fê-la rir. Se fazer o que estava fazendo tornava-a uma prostituta, então aceitava com o título. Além de ser por um bom motivo, Ginny não via problema algum em satisfazer alguém que causava nela sensações tão intensas.


Podia dizer que gostava de ser sua amante. Não tinha com ele uma relação como as que tinha com seus ex-namorados ou Harry; teria que ser muito obtusa para afirmar que sentia por ele o mesmo carinho inocente que teve pelos outros, ou o amor virginal que tinha por Harry. Não. O que ele causava nela era mais como um frenesi luxurioso do que qualquer outra coisa. Ela sentia atração por ele, e ele por ela. Seu sarcasmo e temperamento sádico exerciam uma obscura sedução sobre ela. E ela parara de negar esses sentimentos quando se alistara ali.


O trabalho sujo não era tão sujo, afinal.


Claro que não era sempre um mar de rosas. Especialmente as oscilações de humor e sua impossibilidade de dizer-lhe “não” por vezes acometiam em ocasiões um pouco desnecessariamente brutas, mas ela podia suportar. Mesmo quando não podia, segurava firme, porque ele sempre acabava desculpando-se. Além disso, sempre havia excelentes noites para consolar as ruins. E havia suas regalias.


Eram quase quatro horas da tarde quando Ginny olhou no relógio. Talvez ela devesse procurá-lo para contar as novidades e assegurar que já estava cuidando de Neville, ou Bellatrix podia querer usá-lo para treinar os Algozes.


Vestiu a capa e a máscara e saiu do quarto imaginando onde o encontraria. Bateu em seu quarto no caminho, mas ninguém atendeu. Talvez ainda estivesse na Sala de Planejamentos? Em todo o caso, para ir até a sala dele, no quinto andar da Ala Norte, precisaria passar por lá.


Ela cumprimentava todos os guardas pelo caminho. Não tinha bom relacionamento com o próprio grupo, mas procurava ser sempre bem educada com os inferiores, e assim eles respeitavam-na. Além de sempre saberem de tudo o que se passava ali dentro por terem de ficar ali o dia todo, assim como ela, eles pareciam se orgulhar de si mesmos por serem reconhecidos por alguém tão importante como ela. Eram úteis quando precisava de alguma coisa.


A Sala de Planejamentos estava vazia quando ela passou por lá. Deu meia volta e subiu mais um lance de escadas, e preparava-se para subir outro quando foi abordada.


- Está com pressa? Espero que não seja para ir ao banheiro, porque queremos ter uma palavrinha em particular com você – disse uma voz irônica e ameaçadora no pequeno saguão às suas costas.


Ginny virou-se, ao mesmo tempo incerta se era com ela e com a certeza de que ia finalmente apanhar. O quarto andar da Ala Norte seguia o modelo dos outros andares, e era cheio de escritórios. O casal Lestrange dividia um ali, com acesso pelo pátio, enquanto Mulciber e Rookwood tinham os seus mais aos fundos, com acesso em um pequeno corredor contíguo. Mas o saguão estava vazio, exceto pelo que era aparentemente parte do grupo Cinco reunido na sala dos Lestrange, e Lucius e Rodolphus a observavam próximos à porta, encostados na parede, enquanto Bellatrix estava apoiada na batente. Pareciam todos ter feito as pazes.


- Perdão? – disse ela, fazendo-se de louca. Sabia muito bem o que eles queriam.


- Não se faça de idiota, Weasley – disse Rodolphus, lentamente. – E conte-nos, como foi seu dia de folga? Deu muitas voltas pelo castelo, escreveu muitas cartinhas para os fãs?


Os outros dois riram. Rabastan e Mulciber saíram da sala para ver melhor o que estava acontecendo.


- Eu adoraria me sentar e conversar, mas tenho assuntos urgentes a tratar com o Lord, então se me dão licença… - disse ela, displicentemente, virando-se, numa tentativa digna de sair daquilo. Já estava cheia deles fazendo piada de sua cara.


- Não terminamos de conversar ainda, Weasley – disse a voz arrastada e sarcástica de Lucius Malfoy. – Será que além de dedo-duro é mal-educada?


Os outros riram mais. Ela parou. Certo, podia encará-los. Não devia ter receio de se impor. Talvez se fosse mais firme, eles a respeitariam mais.


Virou-se.


- Como você é ignorante, Lucius – disse, fazendo todos pararem de rir e encararem-na como se não acreditassem no tom de voz que ela estava dirigindo a eles. – Todos vocês viram que eu não tive escolha. E não venha me dizer que a culpa foi toda minha, porque quem fez a merda foram vocês, e não eu. E eu não tenho nada que ficar discutindo isso com vocês, então, com licença!


Mas antes que ela girasse noventa graus, houve uma réplica.


- Pois não, Weasley. Você está se sentindo muito corajosa agora que acha que está bem cotada com o Lord das Trevas, não é? – disse Malfoy, em tom de desprezo. – Nós sabemos o que está tentando fazer, sua vadiazinha. Fica fazendo graça, se insinuando, de segredinho, risadinha… Você se acha muito sedutora, não é mesmo? Mas eu vou te dizer uma coisa, e presta bastante atenção: ele não vai cair nesse seu golpe infantil, porque você é só uma menininha idiota que se acha acima de tudo. Você tem tanta importância para ele quanto uma raspa de sujeira no fundo do caldeirão. Então não pense que ele irá te proteger quando as coisas irem mal para o seu lado.


Ginny continuou encarando-o por um tempo. Ele parecia estar falando sério. Bom, eles haviam chego perto, mas aparentemente não passava de um palpite quente. Não sabiam de nada comprometedor. Menos mal para ela.


Então ela riu, despreocupadamente. Eles olhavam-na como se quisessem matá-la. Não duvidava.


- Desculpe – disse, depois que terminou de rir, tomando fôlego. – Você está querendo insinuar que eu estou tentando seduzir o Lord das Trevas? Dar o golpe do baú ou coisa do tipo? Bem, eu sinto muito em te decepcionar, mas sinceramente, eu acredito que ele tenha maturidade o suficiente para não cair em uma coisa dessas. Não, desculpe, seu ciúmes não tem fundamento. Talvez seu problema se resolvesse se você simplesmente passasse a ser mais competente, então o Lord daria mais atenção a você e você não precisaria ficar inventando teorias ridículas á meu respeito. Mas é só um conselho, não leve muito a sério. Preciso ir mesmo, ou eu argumentaria mais. Nos vemos por aí.


Ela não esperou resposta, por que Malfoy ficou muito vermelho e aparentemente não demoraria muito a atacá-la se ela continuasse na sua mira. Subiu, apressada. Talvez paranóico, gay e incompetente fossem acusações graves para se fazer na frente de todos, mas ela não pode resistir. Seu sarcasmo estava a cada dia mais afiado e incontrolável.


Uma vez no andar de cima, ela nem olhou para trás até chegar a última sala do corredor à direita, onde bateu duas vezes, ansiosa. Então ouviu um “entre” e obedeceu imediatamente.


Ele levantou os olhos do que estava fazendo à mesa quando ela entrou.


- Você tão cedo? Aconteceu alguma coisa?


Ginny sentou-se na cadeira da frente e tirou a máscara. Ficou girando-a nas mãos.


- Bom, sim, serei envenenada ainda essa semana. É que eu disse umas coisas que não devia pro Malfoy – disse ela, esclarecendo, porque ele fizera cara de interrogação quando ela começou a frase. – Ele me acusou de estar te seduzindo! – justificou-se, indignada.


Ele apoiou o cotovelo na mesa e passou a ponta macia da pena distraidamente nos lábios, fitando-a.


- E não está?


Ginny sorriu torto, mas recostou-se e cruzou os braços.


- Não na frente dos outros – respondeu, então fez cara feia. – Isso é tudo sua culpa.


- Isso é alguma brincadeira nova? O Jogo da Acusação? Alguém te acusa e você tem que acusar outra pessoa? Parece interessante – debochou ele, ainda olhando-a enquanto brincava com a pena.


- Engraçadinho, você, hoje – disse ela, não achando muita graça, realmente. – Quando eu finalmente achava que ia ter uma convivência pacífica com meus queridos colegas você vai e me obriga a me passar por dedo-duro. Eles estão muito felizes comigo agora.


Ele deu um sorriso leve.


- Desde quando você se importa?


- Eu não me importaria se eles me deixassem em paz – reclamou.


- Bom, considerando que sou eu quem faço os piores comentários, devo entender que essa reclamação se estende a mim? – perguntou ele, fingindo indignação.


- Não é a mesma coisa. Com você eu tenho intimidade, mas com eles?


- Ginny, você está sendo muito insensível. Eles só querem um pouco da sua atenção – disse ele, divertindo-se às suas custas.


Ela deu outro sorriso torto.


- Ah, desculpe. Esqueci que estava falando com o Sr. Compreensão em pessoa. Como foi sua manhã? Cruciatus até cansar o pulso? – desdenhou Ginny, em voz inocente.


- Não cheguei a cansar o pulso – respondeu ele, despreocupado. – E sua manhã, como foi? Recebeu meu presente?


Ginny alargou o sorriso, e dessa vez não foi de deboche.


- São lindas, muito obrigada. Terei que me esforçar para retribuir. Aliás, isso me lembra o que me trouxe até aqui. – Ginny tornou a inclinar-se sobre a mesa. – Novidades: Dumbledore está aprontando alguma coisa e envolve algum tipo de objeto mágico poderoso.


Ele imitou-a e também inclinou-se sobre a mesa.


- É mesmo? Fale mais sobre isso.


- O grupo Um capturou um prisioneiro hoje de manhã: Neville Longbottom. Éramos conhecidos em Hogwarts. Usei minha tática infalível para conhecidos e ele me contou que está na Ordem da Fênix e que estariam movendo esse tal objeto mágico para Hogwarts essa semana. Achei que te interessaria.


Ele apoiou o queixo na mão, pensativo.


- Ele disse o que era?


- Um tipo de pingente, se não me engano. Mas ele não parecia saber cem por cento de que se tratava. Mas acho que só há um motivo para Dumbledore querer vigiar pessoalmente, não é? Porque provavelmente é algo que te interessa.


- Um pingente? – repetiu ele em voz baixa, pensativo, mais para ele mesmo do que para ela. Então, depois de alguns segundos, os olhos dele faiscaram em entusiasmo. – Ah, não pode ser…!


Levantou-se, de repente, sobressaltando-a. Virou-se para a estante às suas costas, procurando alguma coisa, e instantes depois, retirou um livro grande e fino, que abriu sobre a mesa e começou a folhear, sem se sentar.


Ginny percebeu pelas figuras que era um livro sobre objetos mágicos famosos e lendários. Ela viu passar páginas com imagens sobre coisas como varinhas poderosas, pedras filosofais, espadas, peças do vestuário, mascaras, o Graal, jóias e várias outras coisas. Ela não era muito familiarizada com aquele tipo de assunto, mas ele parecia ter curiosidade a respeito o suficiente, porque, algumas páginas depois, ele abriu em um capítulo onde havia uma interessante ilustração de uma estrela de cinco pontas.


Ele passou o dedo rapidamente ela página enquanto lia. Por fim bateu com as pontas dos dedos na mesa e sorriu. Empurrou o livro para ela.


- Se for isso, Dumbledore tem razão em querer que eu não ponha as mãos.


Ginny virou o livro para o lado dela e leu.


 


O Pentagrama de Ouro – Objeto lendário, acredita-se ter sido criado por volta do séc.V, na Grã-Bretanha, pelo povo celta. O pentagrama é um símbolo muito antigo, relacionado à muitos temas, como a Matemática na Grécia, o planeta Vênus na Astronomia, a deusa Vênus na Mitologia romana, assim como é considerado símbolo do povo pagão há muitos e muitos anos, que credita a ele fortes poderes de proteção. Na Magia representa os quatro elementos da Alquimia: Água, Terra, Fogo e Ar, mais o elemento espiritual, que varia de posição dependendo do usuário – pessoas de boa índole que almejam o bem do próximo vê a quinta ponta apontando para o alto, enquanto o indivíduo que pretende apenas bens materiais e realizações terrenas a verão apontando para baixo. Também é considerado símbolo do infinito, da fertilidade e do sagrado-feminino.


Feito de ouro branco trabalhado com incrustações de ametista e peridoto, já é um objeto formidável em termos artísticos, mas o que realmente leva as pessoas a procurá-lo são seus incríveis poderes mágicos. Acredita-se que o próprio Merlin tenha participado de sua forja, mas as informações são incertas. Certo, entretanto, é o grande poder que o pingente dá a quem o usa. Usuários anteriores registraram que o objeto faz multiplicar o poder do bruxo em várias vezes, além de dar-lhes inúmeras novas habilidades, que variam de acordo com quem o usa. Herbert, o Valente (data desconhecida), um dos primeiros donos do Pentagrama de Ouro de quem se tem noticias, era conhecido pela habilidade de ficar invisível quando bem desejasse, enquanto Jayme de Herquart (meados do séc. VII), outro conhecido dono do pingente, construiu seu quarto na mais alta torre de seu castelo, mas não construiu as escadas, porque desenvolvera a habilidade de voar. Alais Dinwiddle (878 – 973), entretanto, deixou em seus diários um dos relatos mais surpreendentes de quando tivera posse do pentagrama; neles a bruxa contava que, além de sua aparência ter mudado a ponto de torná-la uma das mais belas mulheres da época, desde que conseguira o amuleto, nunca mais precisara de uma varinha para fazer mágica, e que conseguia ler a mente de todos com mais perícia do que um exímio Legilimante sem nunca ter estudado tal habilidade. Conta também que sentia-se jovem como uma adolescente, e que poderia viver dias e dias sem precisar dormir ou comer, se não tivesse resolvido passar o pingente à sua única filha, que ingratamente fugiu com seu sexto marido após ter ganho o presente.


Mas Dinwiddle foi apenas a primeira a descobrir mais à fundo os segredos do amuleto mágico. Os relatos seguintes que se tem registro contam sempre de habilidades extraordinária, e mais, sobre bruxos e bruxas que viveram por longos períodos de tempo sem sofrer de nenhuma doença ou ferimento. Alguns viveram por mais de duzentos anos. Curiosamente, todos eles acabaram doando o Pentagrama de Ouro para alguém, geralmente passando para filhos ou familiares, ou tendo o artefato roubado, e acabaram morrendo pouco tempo depois.


A História Mágica acompanha o Pentagrama de Ouro até por volta do fim do século XVII, onde não se teve mais noticias do objeto, nem de ninguém que o tenha visto ou usado, tendo como último dono Lorde Brooke, Conde de Warwick, trouxa da nobreza, apreciador de antiguidades, que o ganhou de herança do tio bruxo, tendo sido roubado pouco tempo depois”.


 


Ginny chegou ao fim da página, e entendia porque ele estava tão animado. Agora que conhecia a história, até sentia-se almejar um pouco o pingente, cuja ilustração ela encarou com mais interesse.


Era uma estrela de cinco pontas, circundada por um aro de meio centímetro de largura, cujas linhas se entrelaçavam e saiam ligeiramente de sua moldura. Era finamente trabalhada e havia escrituras em letras desconhecidas nela e ao redor. Pequenas pedras verde-oliva e roxas pontuavam o objeto em intervalos regulares, intercalando-se de acordo com a cor. Tinha uma aparência velha, mas ainda assim tinha um aspecto impressionante.


- Olha… Até eu fiquei afim – disse ela, levantando os olhos do livro. – Mas será que é isso mesmo que Dumbledore está escondendo?


- Há grandes chances. O Pentagrama nunca saiu do país, até onde eu sei; é um pingente e eu, definitivamente, quero. Dumbledore poderia saber onde ele está. Algumas teorias dizem que ele foi roubado para ser protegido, já que muita gente usava os poderes do Pentagrama para cometer crimes…


- Que é o que você pretende – comentou Ginny, provocando-o.


- …e se realmente há um grupo de proteção ao pingente, Dumbledore provavelmente teria sido convidado para esse grupo – continuou ele, ignorando-a. Andava de um lado para o outro, empolgado. – Ginny! Eu preciso descobrir mais sobre isso!


Ele virou-se e encarou-a por alguns instantes. Em seguida deu meia volta e saiu da sala, tirando a varinha do bolso.


Ela não entendeu de imediato. Ficou sentada, sem reação, por ter sido abandonada de repente. Então ela se tocou, e levantou-se de um salto, saindo ao seu encalço.


- E-ei! O que você pensa que vai fazer? – perguntou, nervosa, alcançando-o no meio do corredor.


- Não estou pensando, estou indo fazer – respondeu ele, displicente, sem parar de andar em passos largos. – Seu amigo deve saber mais a respeito.


Ginny arregalou os olhos. Era pior do que ela podia esperar.


- Espera! Como assim, já disse que ele contou tudo o que sabe!


- Você sabe o que eu acho seus métodos duvidosos – respondeu ele, sem se alterar.


- Você não pode fazer isso! – exasperou-se Ginny, agora chegando perto das escadas. – Por favor, não faça isso!


- O sobrenome desse rapaz é Weasley? Não? Então eu posso – disse ele, inflexível, fazendo-a mergulhar em aflição.


Ginny não podia deixar aquilo acontecer. Ela prometera a Neville que ninguém tocaria nele, como ficaria se, por sua culpa, Voldemort em pessoa se interessasse em torturá-lo? Ele saberia que ela lhe contara que ele sabia de algo, e aquilo lhe seria insuportável.


- Por favor! – implorou ela, numa rara demonstração de submissão. Ele ignorou-a e já chegava no andar de baixo. Ginny mandou a cautela ao espaço. Segurou a capa dele, como se aquilo fosse impedi-lo.


Para sua infelicidade, ela fizera isso bem na frente dos mesmos Comensais que a atormentaram ainda há pouco, que ainda estavam conversando à porta. O capuz dele caiu com o puxão. Isso fê-lo parar. Tragicamente, Ginny já percebera o tamanho do erro. Ele virou-se para ela, lentamente, enquanto o silêncio atento reinava no pátio.


Ele olhou para ela, depois para sua mão que ainda segurava-lhe a capa. Voltou a olhá-la.


- Tire as mãos imundas de cima de mim – disse ele, na voz mais fria e ríspida que já o ouvira usar, encarando-a nos olhos. Ginny soltou-o na hora. Era bem visível que ele não estava fingindo. – Se fizer isso de novo vai desejar nunca ter nascido.


Ela abaixou a cabeça, nervosa, e esperou os passos dele desaparecerem no andar de baixo. E agora? Não podia deixar Neville naquela situação, mas também não podia interceder sem acabar se queimando. Estava em uma situação muito, muito ruim.


Os colegas começaram a rir, a alguns metros à sua direita, satisfeitíssimos com sua humilhação. Ginny levantou os olhos para eles, mas sem enxergá-los realmente.


Encontrara uma bifurcação em seu caminho. Mas o que era mais importante? Por que estava ali mesmo? Ela não sabia mais. Devia proteger sua família e amigos, mas estava prestes a falhar, enquanto a cada dia se via mais desejosa de ser aceita ali, cada vez mais íntima com a pessoa que ela mais odiara na vida.


Iria baixar a cabeça e deixar-se vencer? Onde tinha ido parar seu caráter?


Ignorando os Comensais do grupo Cinco, Ginny continuou a descer as escadas. Tinha que haver um jeito mais imparcial de resolver aquele impasse. O jogo não poderia acabar agora, justo quando tinha mais do que jamais tivera em suas mãos.


Ela não encontrou-o nos andares inferiores nem no hall. Correu para o subsolo. Parou na frente do guarda, ao final da estreita escada de pedra, ofegante.


- Ele passou por aqui? – perguntou, urgente.


- O Lord das Trevas? Sim, senhora, acabou de entrar – respondeu o guarda, entendendo a afobação dela como empolgação, olhando para seu rosto desprotegido com interesse. – O prisioneiro deve ser mesmo muito importante.


Ela correu até o final do escuro e úmido corredor, iluminado apenas por alguns archotes de chama esverdeada e cercado de calabouços. Virou a esquina e viu uma porta de ferro se fechando. Apertou o passo, e conseguiu se esgueirar por ela antes que se fechasse completamente.


O amante apontava a varinha para Neville, que estava imobilizado de choque do outro lado da cela. Ginny sacou a própria varinha e apontou-lhe.


- Por favor, não! – disse ela, tentando ser firme. Ele olhou-a, e sua expressão era pior do que quando mandara-a tirar as mãos dele no terceiro andar, ainda a pouco. Voltou-se contra ela.


- Você ousa apontar essa varinha para mim? – disse ele, incrédulo. Com um gesto displicente da própria varinha, a dela voou com violência de sua mão e acertou a parede antes de cair, de acordo com o barulho que fez. Ginny recuou até encostar na parede. Ele parecia simplesmente mais furioso do que estaria se quisesse matá-la. – Crucio!


Ginny não chegou a cair no chão. A maldição fez com que ela pregasse na parede, em agonia. Seus braços foram puxados para trás e nas direções contrárias ao normal, como se quisessem se separar do corpo. Ela gritou de dor, pega de surpresa, sentindo a garganta queimar.


Depois de alguns segundos tudo parou e ela sentiu escorregar para o chão sujo, tentando respirar. Neville estava gritando, mas ela não entendia o que ele estava dizendo.


Alguns segundos depois, alguém bateu na porta. Em seguida ela ouviu a voz preocupada do guarda.


- Está tudo bem aqui? Ouvi GW gritando!


- Não é de sua conta – ouviu ele dizendo. – Vá para a porta e não deixe ninguém entrar.


Passos distanciando-se. E então houve um silêncio profundo.


- Levante-se – disse ele, parecendo mais controlado. Ginny obedeceu, apoiando-se na parede. – Você me envergonha.


Ela admitia que não esperava que ele fosse atacá-la, e isso só mostrava o quando ele falava sério. Entretanto, não ia deixar que nada de mal acontecesse à Neville. Ela prometera-lhe…


Levantou os olhos para encará-lo. Ele não suportava que o enfrentasse na frente dos outros, mas podia ler sua mente.


Pelo amor de Deus, não o machuque! Faça isso comigo, mas não torture Neville!, pensou, desejando com todas as forças que ele tivesse entendido.


Ele tornou a apontar-lhe a varinha, e Neville recomeçou a gritar. Pedia que a deixasse em paz, que ela não fizera nada, defendia-a. Ginny viu-o prestar atenção ao que o outro dizia, então ela ouviu um de seus pensamentos.


Escolha agora: você ou ele?


Ginny engoliu em seco. Então tinham chego a este ponto. Admirava sua frieza.


Pois bem, estava decidida. Estava pronta para atuar. Confirmou com a cabeça.


- Eu – disse, baixinho, simplesmente.


Ele fez uma cara de quem discordava, mas seguiu em frente.


- O que a Ordem da Fênix e Dumbledore estão guardando? – interrogou ele, virando-se para Neville.


- O-o que? Eu não sei! – disse o outro, surpreso que ele soubesse daquilo.


- Mentiroso – disse Tom, rispidamente.


- Não diga, Neville! – pediu ela, convincentemente. Saber o que a aguardava facilitava o papel que deveria representar ali.


- Crucio.


Pela segunda vez ela sentiu-se como se fosse rasgar ao meio. Neville implorava para parar. Pelo menos podia gritar à vontade, e isso fazia aliviar ligeiramente a dor, embora dilacerasse a garganta.


Parou. Ela encolheu-se no chão enquanto ofegava. Neville parecia aflitíssimo.


- O que vocês estão guardando? – tornou a perguntar seu torturador. Parecia quase calmo.


- Eu não sei! Eu não sei do que está falando – disse Neville, em voz alta e urgente, demonstrando bem mais coragem do que ela jamais se lembrava de ter visto nele.


- Talvez você não esteja entendendo o drama – disse o amante, suavemente, em algum lugar acima dela. – Quanto mais você resiste, mais dor essa estúpida sente, porque ela preferiu ser machucada em seu lugar. Não que ela não mereça, mas você vai deixar sua amiga sofrer? Vocês se dizem pessoas tão boas e caridosas, mas no fundo só pensam em vocês mesmos…


- Não diga, Neville! – repetiu ela, em voz fraca.


- O que vocês estão guardando? – tornou a perguntar, menos paciente.


- Eu não sei! – exasperou-se o amigo, fazendo retinir as correntes em seu pulso.


- Crucio – Ginny ouviu pela terceira vez. Dessa vez sentiu agulhadas de dor, enquanto sentia o corpo se retorcer, quando seu ombro direito deslocou. A dor estava sendo ainda mais excruciante do que as outras vezes, e ela mal ouvia seus próprios gritos ecoarem pelas paredes de pedra.


Ela continuou agonizante quando a maldição parou e ela caiu sobre o braço contundido, fazendo-a chorar de dor.


- Ginny! – gritou Neville, em sofrimento por ela. Ouviu as correntes tintinarem novamente. – Seu porco nojento! Deixa ela em paz!


 - Só depende de você. Vai me dizer o que é que estão escondendo? Não? Bom, isso não me dá escolhas…


A maldição seguinte veio antes que ela previra e fora menos dolorosa do que ela esperava. Como um balde de água gelada em quem já estava no gelo. Devia estar apagando…


- ESTÁ BEM, ESTÁ BEM! – ela ouviu vagamente Neville gritar. A pressão cessou, mais breve que as outras, deixando-a estirada no chão, o rosto colado no piso úmido. Estava ligeiramente insensível, mas muito mais lúcida do que gostaria. Tentou forçar um último pedido de força para Neville, mas não conseguiu se mexer.


- E então? – ouviu a voz do homem, ansiosa.


- É um objeto mágico, mas eu não sei o que é! – disse o amigo, nervoso. – Agora deixe-a em paz, por favor!


- Você sabe o que é – disse o amante, em voz baixa.


- Não, eu não sei! PARE DE APONTAR ISSO PARA ELA!


- É o Pentagrama de Ouro, não é?


- O que?! – fez Neville, agora parecendo mais chocado do que nunca. Seu choque denunciou-o, mas ele não parecia se importar mais. – C-como…?


- Onde está?


- Como você sabe sobre o Pentagrama? – perguntou Neville, lívido.


- Sou eu quem faço as perguntas. Onde ele está? – perguntou o amante, numa voz mais perigosa. Havia chego onde queria, mas Neville não estava reagindo como ele esperava.


- EU NÃO SEI! – berrou o outro, histérico. – POR QUE ACHA QUE SEI ESSAS COISAS?


- Porque você sabe – disse o outro, suavemente. – O que você acha, Ginny?


- Não diga, Neville – murmurou ela, fracamente, sem ver nenhum deles. As únicas coisas em seu campo de visão eram seus cabelos, as pedras do chão e um dos sapatos do amante. Viu ele se aproximar.


- Ginny… Ginny, minha querida, você está resistindo demais… Você não é tão forte assim. Nós dois sabemos, não é? – dizia ele, provocante. Ela fechou os olhos. – Crucio.


Ela foi virada subitamente e mordeu a língua, sentindo um gosto metálico e característico na boca. A dor no corpo não foi pior do que a primeira, mas ainda a lesava. Suas pernas pulavam involuntariamente e, mesmo sentindo algo rascante percorrer o corpo todo, ela percebeu que estavam indo longe demais.


Ele deve ter percebido também, porque parou o ataque. A dor parou, mas suas pernas não pararam de se tencionar. Em seguida Ginny sentiu a visão escurecer e seu corpo todo entrar no mesmo ritmo das pernas. Entrara em uma convulsão.


A garota não tinha noção de quanto tempo permanecera naquele estado nem se fora socorrida, porque seus pensamentos viraram uma linha desordenada e contínua de nada. Quando voltou em si, estava deitada de costas e não conseguia respirar. Virou-se, tossindo, e cuspiu um punhado de sangue.


- …e irá para Hogwarts quinta-feira à noite, mas é tudo o que sei! Não nos disse a hora nem como! Agora, pelo amor de Deus, não a machuque mais! – dizia Neville, numa voz desesperada.


Houve um silêncio seguido a essas palavras. Ginny estava terrivelmente cansada, e sua memória vacilava desordenadamente, fazendo-a se perguntar o que estava acontecendo, enquanto em breves lapsos respondia à sua própria indagação.


- Obrigado por dividir essas informações. Ginny, venha.


Sua voz parecia longínqua, mas ela achou que deveria obedecer. Enquanto tentava se levantar, tudo tornou-se mais nítido e mais claro. Descobriu que as pernas e os braços não obedeciam-na completamente, e fraquejavam sob seu peso. Mesmo assim, esforçou-se para se levantar, agarrando-se às correntes penduradas na parede para se manter em pé, com uma mão só, uma vez que o outro braço palpitava terrivelmente e ela mantinha-o encolhido sobre o tórax. Pegou sua varinha ao chão, sentindo o movimento das costas como nunca sentira antes.


A porta estava aberta e não havia nem sinal dele. Ela olhou para Neville, que encarava-a com o rosto branco de choque. Não devia ter sido uma atração agradável. Mesmo assim, ela tentou sorrir-lhe.


- Eu contei – disse ele, parecendo aliviado e desolado ao mesmo tempo.


- Não foi sua culpa – disse ela, a voz fraca.


- Você precisa ir embora daqui!


- Não se preocupe comigo… Você é quem precisa ir embora – disse ela, sentindo os joelhos tremerem ao tentar dar o primeiro passo. Apoiou-se na porta de ferro. Neville ofegou. – Tudo bem. Você não fez nada de errado. Não se preocupe… Vou ficar bem. Ele precisa de mim.


Ela forçou um sorriso, mas uma lágrima de dor escorreu pelo rosto. Sua língua estava machucada e ardia persistentemente. Seu corpo todo doía como se tivesse sido pisoteada por uma manada de hipogrifos. Mesmo assim, ela firmou os pés o máximo que pode e saiu da cela, fechando a porta atrás de si, que trancou-se automaticamente.


Ela levantou os olhos para o fim do corredor. Ele estava lá, encostado na parede, esperando-a. Ela apoiou-se na parede e, com dificuldade, chegou até ele, que abraçou-a calorosamente.


- Você é a pessoa mais burra e mais forte que eu conheço – disse-lhe, ao ouvido, enquanto aparava sua cabeça delicadamente. – Teria sido mais fácil se tivesse me deixado a sós com ele.


- Ele nunca diria – disse ela, rouca. Sua garganta doía de ter gritado. – Enlouqueceria, mas não diria…


Ele apertou-a mais forte.


- Acho que isso te da o direito de pedir um presente de aniversário melhor – declarou, fazendo-a sorrir, por mais que isso também doesse.


- Sim – disse, cansada, mas satisfeita. Seu sacrifício não fora em vão. - Gostaria que soltasse Neville.


 


 


Hermione falava sobre os planos do ministro para o Departamento de Aurores e o novo sistema de segurança que queria implantar, mas Harry ouvia apenas com meia atenção. Os planos de Fudge o interessavam tanto quanto os últimos jogos do Chuddley Cannons.


A situação não era ruim, mas preocupava-o profundamente. A diminuição das mortes que vinha ocorrendo proporcionavam-lhe uma crítica positiva ao seu governo como chefe do Departamento de Aurores, mas Harry sabia que isso nem sequer tinha relação direta com algo que estivesse fazendo de diferente do chefe anterior. Não, reconhecia o dedo de Ginny na nova administração da Ordem das Trevas, que estava à cada dia mais burocrática e mais diplomática. E ao contrário do que se esperaria, aquilo tornava seu trabalho muito mais difícil. Antes podiam combater ignorância com ignorância, mas e agora?


Como fazer uma campanha negativa contra uma entidade que praticava terrorismo, mas que a cada dia ganhava mais admiradores? Como conter a opinião do povo de que talvez a ideologia dos Comensais da Morte fizesse algum sentido? Harry vira bons bruxos mudando de lado pelas regalias e por acreditarem realmente que o governo de tolerância com os trouxas estava decadente. Não compreendiam realmente o que essa decisão influenciava no destino dos nascidos-trouxas, dos mestiços e dos “traidores do sangue”. As tropas de Voldemort estavam repletas de jovens que se sentiam atraídos pela aventura, por fazer parte de algo, enquanto estes mesmos jovens eram negados pelo Ministério justamente por serem pouco experientes. Harry achava sinceramente que estavam usando a abordagem errada, mas ninguém queria ouvir o que ele tinha a dizer, afinal, ele também era jovem, e um jovem no Ministério não tinha maturidade o suficiente para opinar no governo.


Além de tudo, havia Ginny sempre no seu caminho. Até os colegas admitiam que GW era de uma personalidade admiravelmente displicente. Se ela causava essa sensação nos Aurores com suas cartas gozadoras ao Profeta Diário, o que diria nos adolescentes que procuravam a quem admirar.


- …e ele quer que treinemos mais vinte Aurores para reforçar o departamento, e perguntou se não há nenhum civil da Ordem que esteja interessado – dizia a amiga, que também se tornara uma Aurora mediante a situação vigente, embora quase sempre cuidasse dos setores teóricos e burocráticos por preferência (e ninguém reclamava, pois ela fazia isso muito bem).


- Hermione – interrompeu Harry, que não prestara atenção alguma às últimas frases que ela dissera. – Alguém já teve notícias de Neville?


- Neville? – repetiu ela, parecendo não entender onde ele entrava no assunto. Então piscou e respondeu: - Falamos com a avó dele hoje mais cedo, mas parece que ele ainda não esteve em casa. Olha, não temos certeza de que ele foi pego, não é? – acrescentou ela, mais compassiva do que antes, frente à expressão dele.


Ele suspirou.


- Você tem alguma dúvida? – disse, depressivo. Aquilo já acontecera antes com outros colegas.


Hermione mexeu-se na cama onde estava sentada, de repente mais incomodada.


- Eu entendo sua preocupação. Nunca devíamos ter deixado ele entrar para a Ordem. As coisas que ele sabe…!


Harry encarou-a, mal acreditando no que estava ouvindo.


- Não me preocupo com o que ele pode falar ou não, me preocupo com o que possa acontecer com ele! – respondeu, irritado.


A amiga pareceu chocada.


- Harry, você me entendeu mal, claro que me preocupo com ele também! Mas tem que admitir que saber sobre você-sabe-o-que é uma responsabilidade que talvez ele não estivesse pronto para carregar! – justificou-se ela, nervosa.


Harry não respondeu. Andou até a janela e observou Grimmauld Place pela janela do número 12. Acreditava que Neville era mil vezes capaz de guardar aquele segredo mediante qualquer tipo de provação física, mas não disse nada a Hermione. Ela estava preocupada com o Pentagrama, e tinha sua razão.


Estava morando em um dos quartos da antiga casa de Sirius desde que terminara Hogwarts, uma vez que agora era sua. Quando não estava á trabalho pelo Ministério, estava na sede da Ordem da Fênix. Não dormia com a mesma freqüência, pois sempre havia o que resolver. Dumbledore sempre estava nas reuniões mais importantes, mas a maioria ele mesmo presidia. E uma vez morando ali, era ele a quem recorriam sempre que surgia algum problema.


Mas ele não estava reclamando. Essa era a vida que escolhera.


Enquanto observava a rua deserta e mal-iluminada, alguém aparatou na frente da casa. Estava escuro demais para ver com clareza quem era, mas reconheceu a estatura e o andar de Neville Longbottom. Respirou mais aliviado; era uma preocupação a menos.


- Neville está aí – avisou Harry a Hermione, perdoando-a de seu julgamento a respeito do amigo.


- Graças à Deus – respondeu ela, levantando-se. Havia vozes no andar de baixo, e logo os insultos da Sra. Black fizeram-se audíveis. – Será que aconteceu mesmo alguma coisa?


- Não sei. - Ele foi até a porta e abriu-a.


Ouviu passos na escada e vozes cada vez mais altas. Os gritos do quadro no andar de baixo acompanhava as pessoas.


- Eu estou bem, preciso falar com Harry urgente! – disse uma voz impaciente que ele reconheceu como a do amigo. – Não, tudo bem, eu falo com vocês depois!


Então o outro terminou de subir as escadas, e viu-o. Andou até ele com pressa.


- Preciso falar com você, Harry, agora mesmo – disse Neville, à sua frente. Entrou antes que fosse convidado. Parecia um pouco pálido, mas estava firme.


Ele não deu atenção à Hermione. Harry reparava que seu pulso estava arroxeado.


- Você está bem? – perguntou Harry, com preocupação sincera.


- Eu estou ótimo – respondeu o amigo. E olhou para onde Harry observava, levantando a mão machucada. – Isto? Não é nada, de verdade…


- Onde você esteve?


- Fui pego – explicou o amigo, e parecia meio perturbado. Hermione olhou na direção de Harry, mas ele não olhou para ela. Neville acrescentou, mais corajoso e quase desafiador, em seguida: - Eu contei sobre o Pentagrama.


Hermione ofegou, decepcionada. Harry não soube o que dizer, mas desconfiava que Neville não viera até ali para desculpar-se por isso. E estava certo.


- Harry, ela não pode ficar lá por nem mais um minuto! – disse o outro, em seguida, agora sim parecendo estar abordando o assunto que desejava.


Ele sentiu o próprio rosto ficar mais pálido. Hermione encarou-o, sem entender.


- Ela? – perguntou a amiga, curiosa.


Harry virou-se, fechou a porta rapidamente e imperturbou-a com um feitiço. Era aquela mesma conversa que sempre tinha que ouvir, afinal. Não queria que Hermione soubesse, mas agora era tarde. E Neville parecia ansioso para explodir.


- Como é que você pode permitir uma coisa dessas? Ela está correndo risco de vida! – exasperou-se o amigo, na mesma hora. Começou a andar de um lado para o outro. – Se não fosse ela, eu não sei se estaria aqui! Mas isso não pode continuar, Harry, não pode!


Harry passou a mão na testa para espantar a vontade de gritar que queria mais que ela terminasse tão mal quanto desejava que terminasse, mas controlou-se. Se revelasse o que sabia daquele jeito, causaria questões embaraçosas para ele.


- Ela sabia perfeitamente quais os riscos que corria quando aceitou ir para lá – disse, por fim, encostando-se no guarda-roupas, entrando na brincadeira em que Ginny o metera.


Neville encarou-o furioso. Hermione olhava de um para outro, assustada.


- Então é assim? Você lava suas mãos? Devia ao menos saber pelo que ela passou essa tarde antes de dizer que “ela sabia dos riscos que corria”! – reagiu Neville, em voz alta.


Ele suspirou, mas não respondeu. Já ouvira essas coisas antes, embora nem todos tratassem do assunto com essa fúria toda.


Como ele não disse nada, Neville continuou.


- Fui pego enquanto fazia a guarda no Beco Diagonal. Eu não sei direito o que aconteceu, mas eu acordei num calabouço! E ela foi a primeira a aparecer. Levei um susto que poderia ter me matado! – disse ele, cada vez mais nervoso. – Mas ela me explicou tudo, me tranqüilizou, disse que tentaria me tirar de lá. Ela fez sua parte, mas ele descobriu, Harry! Ele tentou me fazer falar, mas ela não deixou! Enfrentou-o! O desgraçado usou ela para me fazer falar; atacou-a várias vezes, eu não pude suportar! Ela estava entrando em convulsões! Eu tive que falar!


Harry sentiu a última cor que restava no rosto desaparecer. Ele havia torturado-a no lugar de Neville? Isso não fazia sentido, mas preocupou-se, por mais que ele não o desejasse. Será que ele havia realmente se voltado contra ela e Neville tinha razão, Ginny corria risco de vida?


- Harry, do que ele está falando?! – indagou Hermione com urgência, parecendo desconfiada de algo que não quisesse acreditar. – Ele está falando de Ginny?!


Ele sentia-se realmente mal agora. Não podia esconder aquilo de Hermione, mas não deixaria que Neville soubesse da verdade.


Pelo menos Ron não estava ali. Hoje era um dia que a família Weasley tirava para ficar unida, em memória da mais jovem irmã…


- Harry, você precisa tirá-la de lá! – cobrou o amigo, furioso com sua falta de ação frente ao que ele relatara.


- Neville, que quer que eu faça, entre lá, enfrente todos os Comensais da Morte, pegue-a nos braços e traga-a para casa? – respondeu, mais seco do que gostaria. – Ginny tem seus contatos, ela sabe o que está fazendo! Além do mais, não se preocupe com o que acha que Voldemort fará com ela, porque ele precisa dela.


Hermione sentou-se na cama, chocada, mas Neville pareceu reagir positivamente àquelas palavras.


- Ela disse a mesma coisa quando nos despedimos.


Harry fechou os olhos por um instante. Gostaria de acreditar nas próprias palavras, mas o relato de Neville realmente preocupava-o. Talvez devesse checar o que se passava na cabeça do outro.


Concentrou-se. Desfez lentamente a Oclumencia que vinha praticando. Pelo horário conseguiria checar se havia mesmo algo fora do lugar. Evitava o máximo que podia usar este método de espionagem, mas ele já se fizera útil outras vezes.


A primeira coisa que viu o fez ter certeza de que Neville caíra em um golpe, mas não diria isso a ele. Sentiu uma pontada de decepção por ter minado sua última pontinha de esperanças, mas não deixou-se abalar. Voltou a fechar a mente, com a habilidade que vinha tendo há algum tempo, quando resolvera aprender de verdade a Oclumencia para conseguir aproveitar suas raras horas de sono.


- Ela está bem – disse, calmamente. E virou-se para Neville. – Acha que eu a deixei à própria sorte? Eu a observo sempre. Eu sentiria se ele estivesse prestes a matá-la. – Dizendo isso, ele apontou para a própria cicatriz, que a essa altura sua conexão não era segredo nenhum para os membros da Ordem da Fênix. – E ela realmente sabe se cuidar. Não se preocupe.


Neville encarou-o por algum tempo, depois suspirou e soltou os braços ao lado do corpo.


- Tudo bem. Ainda não concordo que ela tenha que fazer isso sozinha, mas eu confio em você, Harry. Espero que tudo isso acabe logo – disse o amigo, condolente.


- Você guarda esse segredo? – perguntou Harry, sabendo que era aquilo que Ginny esperava que ele fizesse.


- Claro. Não vou atrapalhar. Mas é difícil pensar no que ela está passando. – Neville tornou a suspirar, cansado. – Bom, boa noite, Harry. Tenho que ir para a casa ou vovó vai ter um infarto. Hermione – cumprimentou ele, com um aceno de cabeça, e saiu do quarto.


Hermione olhava para Harry de lado. Esperou alguns segundos depois de Neville ter saído para dirigir-se a ele.


- Me diga agora o que está acontecendo – disse ela, num tom ameaçador que Harry nunca a vira usar com tanta agressividade.


Ele respirou fundo e esfregou os olhos, mas contou-lhe toda a história. A amiga ficava cada vez mais boquiaberta a cada frase.


- Mas, por favor, não diga nada a Ron ou a ninguém. Eles não merecem ter esse desgosto – disse ele, por fim.


- Harry… - disse ela, pasma, olhando em direção ao tapete. – Isso é horrível. É… é abominável!


- Eu sei – suspirou ele. Doía-lhe tocar naquele assunto, mas finalmente pode desabafar com alguém, e sentia-se mais leve agora.


- Você disse que ela está… está tendo um caso com Voldemort? Isso é perturbador! É nojento! Como ela pode? – indignava-se Hermione, ainda em estado de choque.


- Eu também não a reconheço mais. Ela é GW, você deve ter relacionado enquanto eu contava a história…


- GW! Meu Deus do céu… Ela não pode estar agindo por si própria!


- Sinto muito, mas ela está. Neville caiu em um golpe, mas não o culpo. Ele é uma boa pessoa, agiu de boa-fé confiando numa velha amiga que pensava estar morta prometendo ajudá-lo… Ginny é dissimulada, acaba sempre conseguindo o que quer.


Ele sabia que dessa vez ela conseguira convencer Neville de que ela era a vitima e que ele, Harry, era o vilão. Quem é que se submeteria à ser torturada por Lord Voldemort pessoalmente em troca da integridade de um velho amigo, a não ser que estivesse totalmente de seu lado? E se, pouco a pouco, ela convencesse cada pessoa de que estava lá, se sacrificando todos os dias, por causa de um plano entre ela, ele e poucas pessoas, conseguiria Ginny que confiassem mais nela, pobre coitada mas corajosa, do que nele, o namorado frio que a deixara correr perigo, quando na verdade tudo se acabara ali, quando ele tentara fazer exatamente o contrário?


- Hermione, você entende porque eu guardo segredo sobre isso? – perguntou ele, voltando ao ponto de maior importância.


A amiga estava branca de choque pela revelação, mas olhou-o com bondade.


- Claro, Harry. E acho que é o melhor a se fazer, apesar de tudo… Seria um choque para a família… Céus! Aquela Ginny e GW são a mesma pessoa…! – A amiga suspirou, abalada. – Soa tão absurdo!


Ele concordava. Mas já fazia muito tempo, ele fora obrigado a se acostumar com a idéia. Havia agora assuntos mais urgentes a tratar.


- Hermione, preciso ir falar com Dumbledore. Voldemort está sabendo do Pentagrama – disse, conformado. A amiga concordou com a cabeça.


- Claro. Você está certo - disse a amiga, ainda abatida, mas levantando-se da cama. – Posso dormir aqui essa noite? Daí vamos juntos para o Ministério amanhã cedo.


- Claro. O quarto da frente está limpo.


Hermione foi até a porta, abriu-a, mas não saiu antes de se virar para ele.


Olhou-o por alguns segundos, atentamente. Ele sabia que ela percebia completamente o que se passava dentro dele em relação à Ginny, algo que ele próprio esforçava-se em esconder de si mesmo. Mas Hermione conhecia-o e entendia-o, e parecia sentir muito por ele.


- Vai dar tudo certo – disse ela, com firmeza. E virou-se na porta. – Boa noite, Harry.


-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Nota – Música: Field of Innocence, composta por Amy Lee, Ben Moody e David Hodges, da banda de metal alternativo Evanescence, apresentada no álbum Origin, datada de quando a banda ainda era boa…

Primeiro Capítulo :: Próximo Capítulo :: Capítulo Anterior :: Último Capítulo

Menu da Fic

Adicionar Fic aos Favoritos :: Adicionar Autor aos Favoritos

 

_____________________________________________


Comentários: 0

Nenhum comentário para este capítulo!

_____________________________________________

______________________________


Potterish.com / FeB V.4.1 (Ano 17) - Copyright 2002-2022
Contato: clique aqui

Moderadores:



Created by: Júlio e Marcelo

Layout: Carmem Cardoso

Creative Commons Licence
Potterish Content by Marcelo Neves / Potterish.com is licensed under a Creative Commons
Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported License.
Based on a work at potterish.com.