Capitulo 70 – LEMBRANÇAS
Hermione bebeu e comeu com presa, quando chegaram em casa após o longo passeio a cidade. Estava faminta, pois mal tocara no almoço e o lanche da finíssima casa de chás não fizera sequer cócegas na sua fome magistral.
Terminou o lanche de Juanita, sozinha, pois Harry levara Gina para casa, e Rony tivera assuntos da fazenda a discutir ao chegar.
Saciada, ela colocou uma das mãos sobre o ventre, achando que estava estufada.
Desse jeito, logo pareceria um dos leitões que Juanita engordava para o final do ano!
Suspirando de contentamento, completamente esquecida daqueles tempos de penúria e fome, sozinha naquela casa sem saber como seria o dia de amanhã, Hermione resolveu sair ao ouvir o som de riso.
Pela porta da frente, ela andou pouco até encontrar a razão de tanta animação masculina.
Um pequeno grupo de homens, todos com armas nas mãos, um deles arrumando uma fileira de garrafas velhas sobre um tronco da cerca. No centro do grupo, Suares ensinava o mais novo a segurar a arma e como puxar o gatilho.
De canto, Rony incentivada o menino. Um menino. Nada além de um menino. Hermione podia ver outra imagem, mais antiga, de seu pai de pé, ali mesmo ensinando seu irmão a atirar. Ele ria orgulhoso lhe entregando sua primeira arma, ao qual Jucem empunhara de peito erguido, embevecido pela honra de ser homem.
Hermione se viu, menor, espiando o irmão e o pai com uma velha boneca de pano suja e remendada, brincando não muito longe dali, curiosa.
Sua mãe, no mesmo lugar que ela estava, de pé na varanda, fazendo o sinal da cruz e rezando pela alma do filho, que já sabia não demoraria a perder.
Um menino com uma arma.
Com passos duros ela saiu da inércia e se aproximou da roda de homens, que abriram caminho. Com fúria ela arrancou a arma das mãos de Duran e virou-se para Suares, cuspindo marimbondos.
-Duran é apenas um menino! Não vai se matar usando uma arma!
Suarez olhou de seu rosto afogueado para o do patrão dividido entre reclamar e obedecer.
-Hermione, devolva a arma – Rony mandou, mas ela sequer olhou em sua direção.
-É o filho mais velho de Juanita! O homem que vai protegê-la! Não vou permitir que carregue uma arma e se mate! Está ouvindo? – berrou na cara de Suares – Duran, volte para casa!
O menino sempre a obedecia, mas hoje, estava na dúvida.
-Já tenho idade para atirar –ele tentou barganhar.
-Não, não tem! Vai aprender a mirar, e achar que é homem! Na primeira briga, irá empunhar essa arma contra alguém que realmente saiba usá-la e acabara dentro de um caixão, sendo entregue a sua mãe! – intimidou o menino que a despeito de sua linda cor morena, estava pálido.
-Hermione, chega – Rony segurou-a e tirou a arma de suas mãos – Voltem ao trabalho – mandou os empregados embora, pois não deveriam continuar presenciado o fato. – Vamos conversar sobre...
-Não! -ela se soltou, empurrando-o a despeito dos olhos de seus empregados, mirando e esperando quando o patrão daria uma lição em sua mulher rebelde. – Juanita sabe que tende matar seu filho? -ela acusou Suares.
A face do homem endureceu, e seu orgulho obrigou-o a responder:
-Este filho também é meu, pois o alimento e crio, dona.
-É mesmo? - ela ironizou – Pois então, ensine-o a ser homem de verdade antes de ensiná-lo a usar uma arma!
-É o que estou fazendo – ele respondeu seco e direto, as mãos na cintura. Tinha quase a mesma altura de Hermione e era franzino, mas tinha uma aura forte e dura, do mesmo modo que Hermione – Um dia poderei faltar, e Duran cuidará da mãe e dos irmãos. E não sei se esse dia será hoje, amanhã e ou daqui a muitos anos!
-Ele acabará morto! -ela esbravejou, a lembrança dos irmãos que não conhecerá vividas em sua mente e em seu coração, o som dos soluços de dor de sua mãe, chorando a morte de cada um deles, vivos em sua lembrança.
-Chega! – Rony gritou, calando-os – Suares, volte ao trabalho. Duran, entre na casa, falo com você mais tarde. Hermione, venha – ele agarrou seu braço, de uma forma que não pode soltar-se.
Arrastada, foi levada para o quarto. Rony trancou a porta e jogou-a sobre a cama.
-O que está fazendo, Hermione?
-Ele vai se matar! Essa arma vai ser a desgraça de Duran! O pobrezinho estará morto antes do fim do verão! -ela respondeu, sentindo a emoção transbordar – é sempre igual! Sempre!
-Não, não é! Todos os meus irmãos aprenderam a atirar desde cedo e...
-Eles não andavam armados! – ela gritou – Eu nunca vi um irmão seu armado! Sabe o que um menino faz com uma arma? ELE SE MATA!
-Hermione... – Rony esperou. Ela tinha muito o que por para fora.
-Não importa para Suares! Nunca importa para os homens! Seu orgulho lhe basta! Ter um filho viril! Mas quando voltam dentro de um caixão, nenhum de vocês fica perto para ouvir o choro das mães e das irmãs! O que importa, é que haja outro filho homem para ensinar a atirar! É sempre igual!
-Hermione, se acalme – ele sentou-se na sua frente na cama, tentando acalma-a – Não fique nervosa, falarei com Suares. Eu prometo que o Duran não vai carregar uma arma. Está me ouvindo?
Afastou os cabelos macios de sua face, e suas lágrimas o comoverão.
-Havia tanta vida nele... – ela se referia ao irmão, que perdera a três anos – Como em Duran...
-Nada vai acontecer ao menino de Juanita – ele prometeu – Hermione, não chore, meu amor...
-Estariam vivos, Rony, se meus irmãos estivessem aqui, minha família estaria vida. – havia dor, e desespero em seus olhos – Minha mãe...meu pai...Ann estaria comigo! Viva! – ela segurou seu braço, o desespero das lembranças tão recentes, dando-lhe grande força.
Seus soluços cortaram seu coração e Rony a deixou chorar, pois não havia palavras que pudesse dizer para consolar e aquietar seu coração.
-Chore, Hermione, desabafe tudo que a machuca... – ele tentou abraçá-la, mas Hermione se afastou.
-Não quero chorar! O que me resta? – empurrou-o, mas Rony não a deixou levantar, segurando seus braços, e mantendo segura perto dele. – Perdi tudo! Tudo que confiava! Eu era...feliz. Segura! E agora...o que me resta? - seus olhos ficaram perdidos.
Ver aquele menino segurando uma arma despertou nela todos seus medos mais secretos, alimentados por seu completo caos emocional em hormonal. Rony não queria falar, queria que ela falasse.
-Uma nova vida, Hermione, tem uma nova vida...
-Sem minha família? Que vida é essa? – seus olhos baixaram, as lagrimas correndo, o choro calando suas palavras – Jurei que nunca abandonaria Ann, e agora, ela está enterrada na terra, solitária e fria, sem mim!
-Pelo amor de Deus, Hermione, não diga uma coisa dessas! – ele sentiu pavor só de imaginar Hermione morta, ao lado da irmã.
Abraçou-a, pois agora, o desespero era dele também.
-Eu quero minha mãe, meu pai e minha irmã...eu preciso deles comigo – era um pedido inacessível, e desesperado de quem não teve oportunidade de se desfazer da dor como deveria.
Enrodilhada em seu colo, ela chorou. Como nunca havia chorado antes. Era o mesmo choro desamparado, de quando estivera sozinha naquela casa escura, no dia em que voltara do enterro, abatida e chocada demais para falar ou lamentar.
O mesmo choro da manhã seguinte, quando descobrira que estava sozinha no mundo.
Havia apenas uma diferença.
Os braços a sua volta, que a amparavam, a voz rouca e emocionada, que sussurra bobagens para acalmá-la. O calor daquele corpo onde estava agarrada, que lhe dava forças.
Chorou por muito tempo, sem saber mais porque chorava.
Pela família perdida, pelo futuro que teriam ao seu lado, e que jamais aconteceria, pela nova família que criava a seu redor, com Rony e que um dia também iria embora.
Por Rony que a deixava fraca e manipulável e que iria embora com Susan, Lilá ou qualquer outra que aparecesse.
Chorou por si mesma, que sempre ficaria para trás.
-Hermione está mais calma? – Juanita perguntou quando ele apareceu na cozinha.
Estava abatido, era noite, mas eles ficaram no quarto muitas horas. Primeiro, ela havia chorado muito, e depois adormecido de estafa emocional, então, fora a vez dele, precisar de um tempo ao seu lado.
Deitou-a na cama, e a deixou mais confortável, trocando suas roupas, e deixando-a nua, sob as cobertas. Ficara um bom tempo olhando-a dormir enquanto pensava em tanto sofrimento para uma mulher tão pequena. Tão frágil. Tão boa.
-Adormeceu – ele disse apenas, sentando pesadamente numa das cadeiras em frente a mesa.
-Disse a Suares que não gosto dessa idéia de armas -ela disse enraivecida- mas você acha que ele me ouviu? Acha que algum homem nos ouve?
Seu discurso era muito parecido com o de Hermione e Rony estava começado a achar que eles, homens, fazia suas mulheres sofrerem desnecessariamente, apenas por machismo e idealismos errôneos.
Com raiva e tristeza, aquela mulher enxugou as mãos no avental e olhou para ele com os olhos úmidos.
-Não quero perder meu filho, como a mãe de Hermione perdeu os seus. Fale com Suares, ele o ouve. Peça que não ínsita nessa idéia, ou...vou pegar meus filhos e ir embora. Não posso viver ao lado de um homem que não me ouve!
-Suares estava ensinando o menino a atirar. Isso não quer dizer que lhe dará uma arma – defendeu o empregado, cansando –Foi um longo dia, vou me recolher.
-Cuide de Hermione – Juanita disse ainda nervosa – não a deixe tão irritada e nervosa. Não é bom para a criança, nem para ela. – pediu, também encerrando seu dia – fiz uma canja, é só esquentar se tiver fome.
-Tenha uma boa noite, Juanita, e não se preocupe.
Ela tentou concordar, nervosa demais para isso.
Ver o filho, tão novo, com uma arma nas mãos a deixou abalada demais para interferir, e ver sua patroa fazê-lo foi um bálsamo para seus medos. Não podia brigar com seu marido, Suares fazia muito por ela. Tinha que pensar nos outros filhos, que tinham um teto, um lar, comida e afeição de um bom homem.
Rony apanhou uma jarra de água e voltou ao quarto. Fechou a porta, se despiu e entrou na cama, com Hermione.
Ela tinha o sono irrequieto, mas se acalmou quando a abraçou.
-Rony...? – ela acordou, presa no pesado sono e olhando-o com olhos confusos.
-Estou aqui – beijou sua testa – durma querida, durma que estou aqui.
Naquela noite, Hermione teve sonhos com sua família.
Sonhos diferentes, com eles vivos, felizes e recomeçando suas vidas, suas almas embaladas por luzes coloridas e piscantes.
Sonhos confusos, onde todos estavam em paz.
AUTORA: capitulo curtinho, um gancho que eu dou aqui...um gancho que eu largo ali...e vamos que vamos!!!! Hehe...
Sério, o Rony é muito fofo quando quer!!!!!!
Recadinhos especiais 1: bem vindas as meninas que estão no MSN.
Recadinhos especiais 2: Mi, já ‘desestressei’. Vou betando até você se organizar. Parece uma cruz. Quando não é a minha internet é a sua! Parece que estou provando do meu próprio veneno!!!!
Beijos