CAPITULO 69 - XADREZ
Harry se perguntava por que aquele comportamento parecia tão irritante. Era de hábito na corte ser paparicado e tratado com maior boa vontade, depois de descobrirem que era o maior herdeiro de Londres, ao ver de muito, um herdeiro sortudo, pois já nascera de posse da herança.
Vendo o modo como a esposa do juiz se desvelava em cuidados para com Gina, como se ela fosse de cristal, após saber do noivado, e o modo como tratava Hermione com descaso, era revoltante.
Eleonora era uma águia de rapina, e via longe. Garantir uma amizade afortunada era o passaporte para sua filha desfilar pelos salões da corte, atrás de um marido fornido de ouro!
Quantas vezes não tivera que fugir desse tipo de mulher? Desse tipo de mãe desnaturada que venderia a filha pela maior pilha de ouro disponível?
O almoço tornara-se bastante desagradável diante da comida mal feita e da sobremesa nauseante. Obviamente eles tiveram todo o cuidado de elaborar um vasto cardápio Francês, com os melhores pratos servidos na corte, mas não encontraram quem pudesse executá-los com o mínimo de sucesso.
Hermione aproveitou a saída de Rony, Harry e o juiz para a sala de estudos, numa conversa profissional, para se aproximar da varanda. Era uma casa de dois pisos, gigantesca, e a brisa na varanda era mais acolhedora do que o calor insuportável dentro da casa.
Hermione sentia-se excluída. Gina conversava animadamente com a irmã mais nova de Susan, e não lhe davam margens para participar da conversa, pois eram assuntos que não faziam parte de sua vida.
Últimas notícias da corte, quem casou com quem, qual o estilista da moda, e tantas outras coisas que se lia em revistas modernas.
-Não é justo mãe!
Ela ouviu o sussurro e se aproximou da grande cortina que protegia a sacada. Espiou e avistou Susan e sua mãe conversando segredos, pelas costas das visitas.
-Acalme-se. Seu pai terá oportunidade de falar nesse assunto.
-Pois que fale hoje! Mamãe, até mesmo Gina conseguiu um noivo bem apanhado e rico. E olhe para mim, sozinha e sem perspectivas! Não é justo que Hermione tenha um marido tão bonito e esperto! Ela não merece!
-Sim, todos nós sabemos disso! Deixe seu pai cuidar disso da sua maneira. Você sabe, sempre há um jeito de resolver esse tipo de situação.
-Como minha mãe? – ela faltava pouco espernear, chorosa.
-Seu pai tem ótimos planos para Ronald, em poucos meses serão como pai e filho. Não se preocupe o que é seu desejo, seu será - ela sorriu para a filha que pareceu se acalmar.
-Papai o fará me amar também? - ela perguntou petulante e mimada.
-Não será preciso, que homem não a amaria? Dê tempo Susan, tempo para que seu pai ache a melhor maneira de ganhar a confiança dele.
-Porque não desfazem esse casamento de mentira? Papai não contou que muitos casamentos são desfeitos na corte por causa da loucura da esposa? Então! Hermione é louca!
-Mas é a herdeira de sangue com direito naquelas terras Susan. Antes do casamento, foi fácil para seu pai tentar tomá-las, mas com o casamento tudo muda. Dê tempo, eles ficarão amigos, e Rony dependerá cada vez mais do dinheiro que podemos lhe dar, em questão de meses, ele aceitará um empréstimo, sanará a divida da hipoteca, e poderá se livrar de Hermione!
-Mas... Mas e se ele não quiser? - Susan falou muito baixo, e assustada com essa idéia.
-Faça com que queira – Eleonora incentivou sorrindo. – Terá muitas oportunidade de vê-lo a sós. Aproveite para tentá-lo. Seu corpo é sua arma. Seja doce e submissa. Seja tudo que Hermione não é.
-Obrigado mamãe – ela disse abraçando a mãe – Não sei o que seria de mim sem sua ajuda!
Enojada com a conversa que ouvia, Hermione regressou a sala, decidindo se vingar assumindo sua postura desagradável. Faria com que pagassem por tanta humilhação!
Comportara-se durante todo o almoço, embora calada. Mas agora... Estava livre de culpas!
-Oh, é mesmo? – ela intrometeu-se na conversa entre Gina e a irmã de Susan – Não me admira que sua irmã ainda tenha o tecido de seu vestido de noiva, afinal, ainda não conseguiu um marido!
Gina ficou olhando-a em total surpresa. Uma sombra de riso nasceu em sua face, mas a conteve.
-É mesmo inacreditável que as duas estejam ou casada ou noiva – a voz de Susan, que obviamente ouvira sua frase anterior, soou muito alta e aguda, voltando ao pequeno grupo para atacar e se defender – Muita sorte Ginerva, seu irmão ter arrumado-lhe um marido – sua voz era carregada de ironia e Gina corou ofendida – A gratidão do Sr.Potter deve ser-lhe de muita valia, ou não estaria se casando tão bem!
Notando a face de Gina mudar de cor e seus olhos se enxerem de lágrimas, Hermione tocou sua mão para acalmá-la, e falou baixo, apena para que ela ouvisse:
-Não se preocupe, agora vem à parte em que ela me acusa de ter comprado um marido.
Susan sentou-se próxima, sem ouvir seu comentário.
-Claro! Grande sorte de Hermione ter a fazenda para dar em troca de um bom casamento...
-Sim, grande sorte, ou estaria solteirona – ela disse com veneno.
As faces impecáveis de Hermione a fizeram corar e ela se ergueu. Estava prestes a brigar quando sua mãe apareceu na sala, com uma pequena empregada atrás dela, não parecendo ser mais que uma menina de quatorze anos, carregando uma bandeja grande demais e pesada.
Triste destino de uma órfã. Em seu ventre as marcas de uma gravidez já avançada. Escravizada e possuída pelos patrões como se não tivesse valor. Pobre infeliz, teria sido esse o mesmo destino de Hermione, ou até pior, se não houvesse se casado com Rony.
Esse pensamento provocou-lhe um arrepio no corpo.
-Um refresco para o calor – Eleonora cortou a discussão, com o olhar de um falcão, hábil na arte de vencer guerras – Soubemos que tem uma hóspede Hermione. Uma amiga de seu marido da corte...
-Oh não, é uma amiga de meu noivo – Gina se apressou a dizer. -Uma viúva de um grande amigo de meu noivo e meu irmão. Sofria terrivelmente de dores, e precisou refugiar-se em um local calmo e sereno para ter seu filho. – mentiu.
Hermione olhou para ela sem entender por que disso. Gina estava defendendo-a?
-Não é o que dizem os boatos – Eleonora abriu seu mais falso sorriso de desdém – Dizem se tratar de uma cortesã!
-É mesmo? E quem perderia tempo inventando tanta maldade? – Gina se fez de ofendida. – A Srta.Brown é uma mulher de muito respeito, mas não é surpresa que cause inveja. É uma mulher muito abastada e bela.
Discretamente sendo chamada de invejosa, Eleonora mudou drasticamente de assunto.
-Porque mentiu? – Hermione perguntou quando ficaram sozinhas por alguns minutos.
-Porque tenho sido má e mesquinha. Minha mãe mandou que fosse simpática com você e me penitenciasse pelo que disse... A seu respeito e de Harry...
-Molly é muito sensível. – ela disse sem querer mostrar tanta gratidão.
-Hermione... É possível uma mulher saber que espera um filho, mesmo tão pouco tempo passado? – Gina sussurrou.
-Toda mulher deve ser capaz de saber – afirmou, ironicamente, sem saber que ela própria não sabia – Mas se tiver alguma suspeita, não me conte, ou a culpa me matará!
-Vai me ajudar se eu...? – Gina olhou-a em seus olhos.
-Estará casada antes que precise ajuda – ela disse decidida.
-Não se minha mãe der por falta dos panos que uso todo mês – se referia a sua menstruação.
-Faz muito pouco tempo! Uma semana! – Hermione disse horrorizada.
-Mas tenho a sensação que logo terei a confirmação – ela disse convicta – Estou ansiosa por isso... Eu... Não devo ter juízo!
Hermione olhou longamente para ela e sorriu.
-Diga a sua mãe que a convidei a voltar para minha casa – sucumbiu. – Mas te aviso, se der atenção aquela mulher novamente, eu mesma a levo de volta!
-Parece minha mãe falando – Gina riu.
Hermione também sorriu.
De longe, Susan observava-as lamentando não ouvir a conversa.
-Veja como são felizes – ela disse amarga para sua mãe.
-Venha, é sua chance – Eleonora a puxou pelo braço.
.....................................................
Rony ocultou um sorriso quando viu a jovem entrar na sala de seu pai. Sentado em uma das confortáveis cadeiras, representava seu papel muito bem.
O jovem tolo que não percebia ser manipulado. Até mesmo Harry tinha o olhar divertido ao seguir o velho Simon a adega, onde supostamente guardava vinhos envelhecidos e de ótima qualidade.
A Rony restara aguardar a armadilha.
Perguntava-se qual seria o verdadeiro plano. Dar-lhe um flagrante em situação de desonra de sua filha e obrigá-lo a desfazer seu casamento para desposar Susan, ou apenas ludibriá-lo com dinheiro até torná-lo dependente?
Por certo a segunda opção seria a mais provável para um jogador experiente como o pai da jovem.
-Prove as bolachinhas Rony. Fui eu mesma quem fez.
Ele sorriu para a adorável face corada de Susan e provou um dos doces. Não era ruim, mas não agradava a um homem que tinha a oportunidade de comer os doces mais saborosos do país.
-Diga que está uma delícia – ela lhe sorriu, malicia e doçura unidas para enlouquecer e tentar um homem.
-Está uma delícia – deu-se por satisfeito quando ela se aproximou, sentando-se ao seu lado.
-Papai diz que é um homem muito inteligente e com um próspero futuro Rony...
Ele quase sorriu ao modo afetado como dizia seu nome. Soava como “Ronnnnnyyy”, parecendo um gatinho novo miando por fome. Enquanto Hermione esbravejava seu nome como quem canta uma praga de morte!
-... Não pensa em voltar a Londres?
-Um dia talvez... Apresentar Hermione a corte. – sabia que isso enfureceria a jovem.
-Não creio que ela soubesse se portar – sorriu com deboche.
-É necessário altivez e dignidade para se portar e ser respeitado na corte, e esses atributos transbordam em Hermione. Agora, se me der licença, não é de bom tom manter a porta fechada estando sozinha com um homem casado – ele mesmo levantou e abriu a porta, notando sua expressão de desapontamento.
-Hermione não parece ser o tipo de mulher que dá atenção suficiente a um marido – ela disse dócil.
-Não parece porque não é. Um encontro perfeito, se me permite dizer, pois também não sou o tipo de homem que gosta de certa atenção feminina.
-Todos os homens gostam de ter uma mulher delicada e feliz ao seu lado. – ela insistiu, começando a irritá-lo.
-Hermione é delicada e feliz, mas não é fútil. Nem afoita. É controlada e racional. Faz os melhores doces que um homem pode comer, fala francês e conhece muito sobre cultura, pois tem o vicio da leitura. É uma parceira para qualquer homem, pois cuida da casa e se necessário do plantio. Tem as qualidades que me interessam.
-Ah sim, mas não é uma mulher bonita! – ela disse com recalque.
-E como é uma mulher bonita? - ele perguntou-lhe.
-Ora – Susan levantou-se arrumando a saia do vestido e se aproximando – uma mulher com a pele clara como o leite, os cabelos bem penteados e as formas arredondadas dentro de um vestido que mostre o quanto ela gosta de cuidar-se para o marido – inclinou-se de modo que pudesse ver seus seios, e quase os mamilos, tamanho decote.
- A beleza é questão de gosto – ele disse pensativo – A mim, Hermione é perfeitamente bela do jeito que é. Aliás, mais bonita que as outras mulheres, exatamente por não ser igual a tantas.
-Está sendo gentil, pois ela está na sala! – Susan pôs as mãos na cintura, revoltada.
-Não estou sendo gentil. Estou dizendo que aprecio minha mulher. Como ela é.
Com essas palavras, ele a conduziu para o corredor, para fora da comprometedora privacidade daquela sala.
Andando atrás dela, sorriu pensando que agora, o juiz teria que aumentar o preço se quisesse tê-lo. Afinal, um marido apaixonado é ainda mais caro que um marido insatisfeito! Mudar a cabeça de um homem é ato fácil, no entanto, o coração nem sempre é previsível.
Na sala, Hermione sentiu o gosto amargo nos lábios ao vê-los juntos e sozinhos. Como sempre, se apressava em confiar naquele homem!
..........................................................
Rony fechou a porta da carruagem e encarou a mulher emburrada a sua frente. Haviam se despedido da família do juiz há uma meia hora, quando Susan e sua mãe lhe sugeririam uma senhora que tinha muitos tecidos, pois seu marido era vendedor ambulante.
Sem paciência para ver tecidos e rendas, ele preferira ficar na carruagem, notando que Hermione odiaria mais um minuto que fosse daquele show de horrores que era para ela fazer seu papel de boa esposa.
-Tem algo a irritando? Gostaria de saber para poder me defender - ele sorriu, estendendo o braço a apanhando sua mão. A carruagem era pequena para um homem grande, e Hermione estava bem diante dele, seus pés quase se tocando.
-Ouvi uma conversa entre Susan e sua mãe - ela disse séria, sem puxar a mão.
-Uma conversa sobre como estão me enganando e manipulando para que me case com Susan? – antecipou-se sorrindo diante de sua surpresa – é um bom plano, querem me fazer dependente do dinheiro do juiz. Os processos rendem uma boa quantia, e supostamente farei divida que me manterão interessado em ter um padrão de vida melhor. Então, um belo dia, eles pararão de me chamar, e a única alternativa para manter o estilo de vida a qual estarei acostumado, será me livrar de você e casar-me com Susan. – resumiu ainda sorrindo.
-Porque está rindo? Aprecia o plano? – tentou puxar a mão.
-Não, mas aprecio o fato de ser capaz de percebê-lo. Hermione, não perder uma boa oportunidade, não quer dizer que estou me deixando manipular. O dinheiro extra será investido da fazenda, e em breve terá um retorno. Sendo assim, quando me colocarem na parede, não sentirão falta de nada. Terei apenas me usado da ganância e arrogância do juiz e sua família.
-Porque estava em encontros fortuitos com Susan se não aprecia seu golpe? – ela acusou, sentindo os carinhos que ele fazia em suas mãos.
-Acredita que ela tentou me seduzir com biscoitinhos? - ele riu – a pobre não sabe que esse marido aqui, já foi pego pelo estômago – notou que ela tentava não sorrir da brincadeira – e fui pego também, pelo coração e por outras partes que não cabe comentar...
Ela sorriu agora, incapaz de controlar a vontade de rir.
-Tirar proveito de quem nos quer atacar é uma dádiva Hermione.
-Não aprecio esse tipo de jogo - ela tentou resistir a seu charme.
-Não é um jogo. Daqui a alguns meses, encerraremos nosso trabalho em comum, Susan arrumara algum infeliz que aceite suas condições, e seguiremos nossa vida.
-É um biltre. – ela resmungou.
-Um biltre que não abrirá mão desse casamento. Se conforme com isso Hermione, está presa a mim para o resto dos seus dias, que espero sejam muitos.
-Com a sorte que tenho, viverei até os cem anos aturando-o ao meu lado – tentou resmungar, mas soou mais como uma brincadeira entre amantes.
-Não seja ranzinza Hermione.
Notando que apesar dos pesares ela sorria, se aproveitou e a puxou para seu colo.
-O que está fazendo...? - ela tentou lutar, mas foi presa em seus braços, sentada em seu colo.
-Estou beijando minha mulher.
E como beijou. Sem lhe dar tempo para reagir, tomou seus lábios em um beijo meigo e profundo. Hermione segurou-se em seu braço e a outra mão enlaçou seu rosto, fazendo carinhos involuntários.
Aquela boca úmida era uma tentação, e quando Rony mordeu seu lábio inferior, Hermione penetrou sua boca com a língua, sem notar que estava ansiosa e tomando a dianteira.
Rony correspondeu, aquecido, o corpo dando sinal, pressionando as nádegas suaves, e com movimentos rápidos, sem quebrar o beijo, subiu parte do vestido, achando um jeito, desajeitado de baixar suas roupas de baixo.
-Não - ela se afastou assustada, empurrando-o.
-Gina... Harry... - ela estava sem ar, mas ele não parou com os movimentos, buscando seus lábios rosados para outro beijo longo e guloso.
Queria achar um jeito de subir seu vestido, mas o melhor era deitá-la sobre o estofado e...
Um som abafado de surpresa o fez desgrudar o rosto, e olhou para a porta da carruagem aberta. Harry tivera a discrição de fechá-la um segundo após Gina abri-la.
-Meu Deus, que vergonha...! – Hermione saiu de seu colo, sentando-se desajeitadamente em seu lugar, alisando os cabelos embaralhados, e arrumando precariamente o vestido,parando apenas para lançar-lhe um olhar de repreensão – Olhe só o que você fez!
-Estou olhando, e adorando – ele flertou roubando-lhe um último beijo rápido antes de abrir a porta.
Gina tentava parar de rir, e parecia corada, pois se abanava com um leque. Provavelmente algum comentário malicioso entre os noivos.
-Podemos ir para casa? – Rony perguntou a Harry, para certificar-se que tudo fora resolvido.
A data do casamento fora marcada ainda pela manhã, tanto no civil quanto na Igreja e estavam todos cansados e esfomeados, pois o almoço fora intragável.
Morrendo de vergonha, Hermione se encolheu em seu canto, sem coragem de olhar para aquele desavergonhado!
Beta: Ai, ai, ai, como eu amo esse Rony!!! Rsrsrs